40ª
edição – Título do original francês: LE CIEL ET L'ENFER ou La Justice Divine
silon le Spiritisme – Tradução de MANUEL JUSTINIANO QUINTÃO – 53-AA;
000.01-O; 10/1995 – Copyright 1944 by – FEDERAÇÃO ESPÍRITA
BRASILEIRA
Exame
comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual,
sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, sobre
as penas, etc., seguido de numerosos exemplos acerca da situação real da
alma durante e depois da morte
·
Origem da
doutrina das penas eternas.
·
Argumentos a
favor das penas eternas.
·
Impossibilidade material das penas eternas.
·
A doutrina das
penas eternas fez sua época.
·
Ezequiel
contra a eternidade das penas e o pecado
original.
"Por mim mesmo juro
– disse o Senhor Deus – que não quero a morte do ímpio, senão que ele se
converta, que deixe o mau caminho e que
viva".
(EZEQUIEL, 33:11.)
Emmanuel, no livro JUSTIÇA
DIVINA
Assunto
tratado em reunião pública realizada em 7 de julho de
1961
Impossibilidade
material das penas eternas
18. –
Até aqui, só temos combatido o dogma das penas eternas com o raciocínio.
Demonstremo-lo agora em contradição com os fatos positivos que observamos,
provando-lhe a impossibilidade.
Por
este dogma a sorte das almas, irrevogavelmente fixada depois da morte, é,
como tal, um travão definitivo aplicado ao
progresso.
Ora, a
alma progride ou não? Eis a questão: – Se progride, a eternidade das penas é
impossível.
E
poder-se-á duvidar desse progresso, vendo a variedade enorme de aptidões
morais e intelectuais existentes sobre a Terra, desde o selvagem ao homem
civilizado, aferindo a diferença apresentada por um povo de um a outro
século? Se se admite não ser das mesmas almas, é força admitir que Deus
criou almas em todos os graus de adiantamento, segundo os tempos e lugares,
favorecendo umas e destinando outras a perpétua inferioridade – o que seria
incompatível com a justiça, que, aliás, deve ser igual para todas as
criaturas.
ALLAN
KARDEC,
no
livro O
CÉU E O INFERNO
OU
A
JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO
1ª parte – CAPÍTULO VI – item
18
Diante do antigo dogma das penas eternas, cuja criação a teologia terrestre atribui ao Criador, examinaremos o comportamento do homem – criatura imperfeita – perante as criações estruturadas por ele mesmo.
Determinada companhia de armadores constrói um navio; contudo, não o arremessa ao mar sem a devida assistência. Comandantes, pilotos, maquinistas e marinheiros constituem-lhe a equipagem para que atenda dignamente aos seus fins. Quando alguma brecha surge na embarcação, ninguém se lembra de arroja-la ao fundo. Ao revés, o socorro habitual envida o máximo esforço, de modo a recupera-la. E se algum sinistro sobrevém doloroso e inevitável, o assunto é motivo para vigorosos estudos, a fim de que novos barcos se levantem amanhã, em mais alto nível de segurança.
Na mesma diretriz, o avião conta com mecânicos adestrados, em cada estação de pouso; o automóvel dispõe, na estrada, dos postos de abastecimento; a locomotiva transita sobre trilhos certos e chaves condicionadas; a fábrica produz com supervisores e técnicos; o hospital funciona com médicos e enfermeiros; e a habitação recolhe o amparo de engenheiros e higienistas.
Em todas as formações humanas respeitáveis, tudo está previsto, de maneira que o trabalho seja protegido e os erros retificados, com aproveitamento de experiência e sucata, sempre que esse ou aquele edifício e essa ou aquela máquina entrem naturalmente em desuso.
Isso acontece entre os homens, cujas obras estão
indicadas pelo tempo a incessante
renovação.
Em matéria, pois, de castigos, depois da morte,
reflitamos, sim, na justiça da Lei que determina realmente seja dado a cada
um conforme as próprias obras; entretanto, acima de tudo e em todas as
circunstâncias, aceitemos Deus, na definição de Jesus, que no-lo revelou
como sendo o «Pai nosso que está nos Céus.»
Texto
extraído do livro «O Livro dos
Espíritos”
Obra codificada por Allan
Kardec
Livro
Quatro
1.
O nada. Vida futura.
2.
Intuição das penas e gozos
futuros.
3.
Intervenção de Deus nas penas e
recompensas.
958. Por que tem
o homem, instintivamente, horror ao
nada?
“Porque o nada
não existe.”
959. Donde
nasce, para o homem, o sentimento instintivo da vida
futura?
“Já temos dito: antes de encarnar, o Espírito conhecia todas essas coisas e a alma conserva vaga lembrança do que sabe e do que viu no estado espiritual.” (393)
393.
Como pode o homem ser responsável por atos e resgatar faltas de que se não
lembra? Como pode aproveitar da experiência de vidas de que se esqueceu?
Concebe-se que as tribulações da existência lhe servissem de lição, se se
recordasse do que as tenha podido ocasionar. Desde que, porém, disso não se
recorda, cada existência é, para ele, como se fosse a primeira e eis que
então está sempre a recomeçar. Como conciliar isto com justiça de
Deus?
“Em cada nova existência, o homem dispõe de mais inteligência e melhor pode distinguir o bem do mal. Onde o seu mérito se se lembrasse de todo o passado? Quando o Espírito volta à vida anterior (a vida espírita), diante dos olhos se lhe estende toda a sua vida pretérita. Vê as faltas que cometeu e que deram causa ao seu sofrer, assim como de que modo as teria evitado. Reconhece justa a situação em que se acha e busca então uma existência capaz de reparar a que vem de transcorrer. Escolhe provas análogas às de que não soube aproveitar, ou as lutas que considere apropriadas ao seu adiantamento e pede a Espíritos que lhe são superiores que o ajudem na nova empresa que sobre si toma, ciente de que o Espírito, que lhe for dado por guia nessa outra existência, se esforçará pelo levar a reparar suas faltas, dando-lhe uma espécie de intuição das em que incorreu. Tendes essa intuição no pensamento, no desejo criminoso que freqüentemente vos assalta e a que instintivamente resistis, atribuindo, as mais das vezes, essa resistência aos princípios que recebestes de vossos pais, quando é a voz da consciência que vos fala. Essa voz, que é a lembrança do passado, vos adverte para não recairdes nas faltas de que já vos fizestes culpados. Em a nova existência, se sofre com coragem aquelas provas e resiste, o Espírito se eleva e ascende na hierarquia dos Espíritos, ao voltar para o meio deles.”
Não temos, é certo, durante a vida corpórea, lembrança exata do que fomos e do que fizemos em anteriores existências; mas temos de tudo isso a intuição, sendo as nossas tendências instintivas uma reminiscência do passado. E a nossa consciência, que é o desejo que experimentamos de não reincidir nas faltas já cometidas, nos concita à resistência àqueles pendores.
Em
todos os tempos, o homem se preocupou com o seu futuro para lá do túmulo e
isso é muito natural. Qualquer que seja a importância que ligue à vida
presente, não pode ele furtar-se a considerar quanto essa vida é curta e,
sobretudo, precária, pois que a cada instante está sujeita a interromper-se,
nenhuma certeza lhe sendo permitida acerca do dia seguinte. Que será dele,
após o instante fatal? Questão grave esta, porquanto não se trata de alguns
anos apenas, mas da eternidade. Aquele que tem de passar longo tempo, em
país estrangeiro, se preocupa com a situação em que lá se achará. Como,
então, não nos havia de preocupar a em que nos veremos, deixando este mundo,
uma vez que é para sempre? A idéia do nada tem qualquer coisa que repugna à
razão. O homem que mais despreocupado seja durante a vida, em chegando o
momento supremo, pergunta a si mesmo o que vai ser dele e, sem o querer,
espera.
Crer em
Deus, sem admitir a vida futura, fora um contra-senso. O sentimento de uma
existência melhor reside no foro íntimo de todos os homens e não é possível
que Deus aí o tenha colocado em vão.
A vida
futura implica a conservação da nossa individualidade, após a morte. Com
efeito, que nos importaria sobreviver ao corpo, se a nossa essência moral
houvesse de perder-se no oceano do infinito? As conseqüências, para nós,
seriam as mesmas que se tivéssemos de nos sumir no
nada.
960. Donde se
origina a crença, com que deparamos entre todos os povos, na existência de
penas e recompensas porvindouras?
“É sempre a
mesma coisa: pressentimento da realidade, trazido ao homem pelo Espírito
nele encarnado. Porque, sabei-o bem, não é debalde que uma voz interior vos
fala. O vosso erro consiste em não lhe prestardes bastante atenção. Melhores
vos tornaríeis, se nisso pensásseis muito, e muitas
vezes.”
961. Qual o
sentimento que domina a maioria dos homens no momento da morte: a dúvida, o
temor, ou a esperança?
“A dúvida, nos
cépticos empedernidos; o temor, nos culpados; a esperança, nos homens de
bem.”
962. Como pode
haver cépticos, uma vez que a alma traz ao homem o sentimento das coisas
espirituais?
“Eles são em
número muito menor do que se julga. Muitos se fazem de espíritos fortes,
durante a vida, somente por orgulho. No momento da morte, porém, deixam de
ser fanfarrões.”
A
responsabilidade dos nossos atos é a conseqüência da realidade da vida
futura.
Dizem-nos a razão e a justiça que, na partilha da felicidade a
que todos aspiram, não podem estar confundidos os bons e os maus. Não é
possível que Deus queira que uns gozem, sem trabalho, de bens que outros só
alcançam com esforço e perseverança.
A idéia
que, mediante a sabedoria de Suas leis, Deus nos dá de Sua justiça e de Sua
bondade não nos permite acreditar que o justo e o mau estejam na mesma
categoria a Seus olhos, nem duvidar de que recebam, algum dia, um a
recompensa, o castigo o outro, pelo bem ou pelo mal que tenham feito. Por
isso é que o sentimento inato que temos da justiça nos dá a intuição das
penas e recompensas futuras.
963. Com cada
homem, pessoalmente Deus se ocupa? Não é Ele muito grande e nós muito
pequeninos para que cada indivíduo em particular tenha, a Seus olhos, alguma
importância?
“Deus se ocupa
com todos os seres que criou, por mais pequeninos que sejam. Nada, para Sua
bondade, é destituído de valor.”
964. Mas, será
necessário que Deus atente em cada um dos nossos atos, para nos recompensar
ou punir? Esses atos não são, na sua maioria, insignificantes para
Ele?
“Deus
tem Suas leis a regerem todas as vossas ações. Se as violais,
vossa é a culpa. Indubitavelmente, quando um homem comete um
excesso qualquer, Deus não profere contra ele um julgamento,
dizendo-lhe, por exemplo: Foste guloso, vou punir-te. Ele traçou
um limite; as enfermidades e muitas vezes a morte são a conseqüência
dos excessos. Eis aí a punição; é o resultado
da infração da lei. Assim em tudo.”
Todas as nossas
ações estão submetidas às leis de Deus. Nenhuma há, por mais insignificante que
nos pareça, que não possa ser uma violação daquelas
leis. Se sofremos as conseqüências dessa violação, só nos devemos queixar de
nós mesmos, que desse modo nos fazemos os causadores da nossa felicidade, ou
da nossa infelicidade futuras.
Esta
verdade se torna evidente por meio do apólogo
seguinte:
“Um pai
deu a seu filho educação e instrução, isto é, os meios de se guiar. Cede-lhe
um campo para que o cultive e lhe diz: Aqui estão a regra que deves seguir e
todos os instrumentos necessários a tornares fértil este campo e assegurares
a tua existência. Dei-te a instrução, para compreenderes esta regra. Se a
seguires, teu campo produzirá muito e te proporcionará o repouso na velhice.
Se a desprezares, nada produzirá e morrerás de fome. Dito isso, deixa-o
proceder livremente.”
Não é verdade que esse campo produzirá na razão dos cuidados que forem dispensados à sua cultura e que toda negligência redundará em prejuízo da colheita? Na velhice, portanto, o filho será ditoso, ou desgraçado, conforme haja seguido ou não a regra que seu pai lhe traçou. Deus ainda é mais previdente, pois que nos adverte, a cada instante, de que estamos fazendo bem ou mal. Envia-nos os Espíritos para nos inspirarem, porém não os escutamos. Há mais esta diferença: Deus faculta sempre ao homem, concedendo-lhe novas existências, recursos para reparar seus erros passados, enquanto ao filho de quem falamos, se empregou mal o seu tempo, nenhum recurso resta.
MEU REINO NÃO É DESTE
MUNDO
Texto
extraído do livro «O Evangelho Segundo o
Espiritismo»
Obra codificada por Allan Kardec
CAPÍTULO II
1.
A vida futura.
2.
A realeza de Jesus.
3. O ponto de vista
Instruções dos
espíritos:
4.
Uma realeza
terrestre.
1.
Pilatos, tendo entrado de novo no palácio e feito vir Jesus à sua
presença, perguntou-lhe:
- És o
rei dos judeus?
-
Respondeu-lhe Jesus: Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste
mundo, a minha gente houvera combatido para impedir que eu caísse nas mãos
dos judeus; mas, o meu reino ainda não é
aqui.
Disse-lhe então Pilatos:
- És,
pois, rei?
- Jesus
lhe respondeu: Tu o dizes; sou rei; não nasci e não vim a este mundo senão
para dar testemunho da verdade. Aquele que pertence a verdade escuta a minha
voz.
(S. JOÃO, cap. XVIII,
vv. 33, 36 e 37.)
2. Por essas
palavras, Jesus claramente se refere à vida
futura, que ele apresenta, em todas as
circunstâncias, como a meta a que a Humanidade irá ter e como devendo
constituir objeto das maiores preocupações do homem na Terra. Todas as suas
máximas se reportam a esse grande principio. Com efeito, sem a vida futura,
nenhuma razão de ser teria a maior parte dos seus preceitos morais, donde
vem que os que não crêem na vida futura, imaginando que ele apenas falava na
vida presente, não os compreendem, ou os consideram
pueris.
Esse dogma pode,
portanto, ser tido como o eixo do ensino do Cristo, pelo que foi colocado
num dos primeiros lugares à frente desta obra. E que ele tem de ser o ponto
de mira de todos os homens; só ele justifica as anomalias da vida terrena e
se mostra de acordo com a justiça de
Deus.
3. Apenas idéias
muito imprecisas tinham os judeus acerca da vida futura. Acreditavam nos
anjos, considerando-os seres privilegiados da Criação; não sabiam, porém,
que os homens podem um dia tomar-se anjos e partilhar da felicidade destes.
Segundo eles, a observância das leis de Deus era recompensada com os bens
terrenos, com a supremacia da nação a que pertenciam, com vitórias sobre os
seus inimigos. As calamidades públicas e as derrotas eram o castigo da
desobediência àquelas leis. Moisés não pudera dizer mais do que isso a um
povo pastor e ignorante, que precisava ser tocado, antes de tudo, pelas
coisas deste mundo. Mais tarde, Jesus lhe revelou que há outro mundo, onde a
justiça de Deus segue o seu curso. E esse o mundo que ele promete aos que
cumprem os mandamentos de Deus e onde os bons acharão sua recompensa. Aí o
seu reino; lá é que ele se encontra na sua glória e para onde voltaria
quando deixasse a Terra.
Jesus, porém,
conformando seu ensino com o estado dos homens de sua época, não julgou
conveniente dar-lhes luz completa, percebendo que eles ficariam
deslumbrados, visto que não a compreenderiam. Limitou-se a, de certo modo,
apresentar a vida futura apenas como um principio, como uma lei da Natureza
a cuja ação ninguém pode fugir. Todo cristão, pois, necessariamente crê na
vida futura; mas, a idéia que muitos fazem dela é ainda vaga, incompleta e,
por isso mesmo, falsa em diversos pontos. Para grande número de pessoas, não
há, a tal respeito, mais do que uma crença, balda de certeza absoluta, donde
as dúvidas e mesmo a incredulidade.
O Espiritismo
veio completar, nesse ponto, como em vários outros, o ensino do Cristo,
fazendo-o quando os homens já se mostram maduros bastante para apreender a
verdade. Com o Espiritismo, a vida futura deixa de ser simples artigo de fé,
mera hipótese; torna-se uma realidade material, que os latos demonstram,
porquanto são testemunhas oculares os que a descrevem nas suas fases todas e
em todas as suas peripécias, e de tal sorte que, além de impossibilitarem
qualquer dúvida a esse propósito, facultam à mais vulgar inteligência a
possibilidade de imaginá-la sob seu verdadeiro aspecto, como toda gente
imagina um país cuja pormenorizada descrição leia. Ora, a descrição da vida
futura é tão circunstanciadamente feita, são tão racionais as condições,
ditosas ou infortunadas, da existência dos que lá se encontram, quais eles
próprios pintam, que cada um, aqui, a seu mau grado, reconhece e declara a
si mesmo que não pode ser de outra forma, porquanto, assim sendo, patente
fica a verdadeira justiça de Deus.
4. Que não é
deste mundo o reino de Jesus todos compreendem, mas, também na Terra não
terá ele uma realeza? Nem sempre o título de rei implica o exercício do
poder temporal. Dá-se esse título, por unânime consenso, a todo aquele que,
pelo seu gênio, ascende à primeira plana numa ordem de idéias quaisquer, a
todo aquele que domina o seu século e influi sobre o progresso da
Humanidade. E nesse sentido que se costuma dizer: o rei ou príncipe dos
filósofos, dos artistas, dos poetas, dos escritores, etc. Essa realeza,
oriunda do mérito pessoal, consagrada pela posteridade, não revela, muitas
vezes, preponderância bem maior do que a que cinge a coroa real? Imperecível
é a primeira, enquanto esta outra é joguete das vicissitudes; as gerações
que se sucedem à primeira sempre a bendizem, ao passo que, por vezes,
amaldiçoam a outra. Esta, a terrestre, acaba com a vida; a realeza moral se
prolonga e mantém o seu poder, governa, sobretudo, após a morte. Sob esse
aspecto não é Jesus mais poderoso rei do que os potentados da Terra? Razão,
pois, lhe assistia para dizer a Pilatos, conforme disse: "Sou rei, mas o meu reino não é deste
mundo."
5. A idéia clara
e precisa que se faça da vida futura proporciona inabalável fé no porvir, fé
que acarreta enormes conseqüências sobre a moralização dos homens, porque
muda completamente o ponto de vista sob o
qual encaram eles a vida terrena. Para
quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a
vida corpórea se torna simples passagem, breve estada num pai ingrato. As
vicissitudes e tribulações dessa vida não passam de incidentes que ele
suporta com paciência, por sabê-las de curta duração, devendo seguir-se-lhes
um estado mais ditoso. A morte nada mais restará de aterrador; deixa de ser
a porta que se abre para o nada e torna-se a que dá para a libertação, pela
qual entra o exilado numa mansão de bem-aventurança e de paz. Sabendo
temporária e não definitiva a sua estada no lugar onde se encontra, menos
atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe daí uma calma de
espírito que tira àquela muito do seu
amargor.
Pelo simples
fato de duvidar da vida futura, o homem dirige todos os seus pensamentos
para a vida terrestre. Sem nenhuma certeza quanto ao porvir, dá tudo ao
presente. Nenhum bem divisando mais precioso do que os da Terra, torna-se
qual a criança que nada mais vê além de seus brinquedos. E não há o que não
faça para conseguir os únicos bens que se lhe afiguram reais. A perda do
menor deles lhe ocasiona causticante pesar; um engano, uma decepção, uma
ambição insatisfeita, uma injustiça de que seja vítima, o orgulho ou a
vaidade feridos são outros tantos tormentos, que lhe transformam a
existência numa perene angústia, infligindo-se ele, desse modo, a si próprio, verdadeira
tortura de todos os instantes. Colocando o
ponto de vista, de onde considera a vida corpórea, no lugar mesmo em que ele
aí se encontra, vastas proporções assume tudo o que o rodeia. O mal que o
atinja, como o bem que toque aos outros, grande importância adquire aos seus
olhos. Aquele que se acha no interior de uma cidade, tudo lhe parece grande:
assim os homens que ocupem as altas posições, como os monumentos. Suba ele,
porém, a uma montanha, e logo bem pequenos lhe parecerão homens e
coisas.
É o que sucede
ao que encara a vida terrestre do ponto de vista da vida futura; a
Humanidade, tanto quanto as estrelas do firmamento, perde-se na imensidade.
Percebe então que grandes e pequenos estão confundidos, como formigas sobre
um montículo de terra; que proletários e potentados são da mesma estatura, e
lamenta que essas criaturas efêmeras a tantas canseiras se entreguem para
conquistar um lugar que tão pouco as elevará e que por tão pouco tempo
conservarão. Daí se segue que a importância dada aos bens terrenos está
sempre em razão inversa da fé na vida
futura.
6. Se toda a
gente pensasse dessa maneira, dir-se-ia, tudo na Terra periclitaria,
porquanto ninguém mais se iria ocupar com as coisas terrenas. Não; o homem,
instintivamente, procura o seu bem-estar e, embora certo de que só por pouco
tempo permanecerá no lugar em que se encontra, cuida de estar aí o melhor ou
o menos mal que lhe seja possível. Ninguém há que, dando com um espinho
debaixo de sua mão, não a retire, para se não picar. Ora, o desejo do
bem-estar força o homem a tudo melhorar, impelido que é pelo instinto do
progresso e da conservação, que está nas leis da Natureza. Ele, pois,
trabalha por necessidade, por gosto e por dever, obedecendo, desse modo, aos
desígnios da Providência que, para tal fim, o pôs na Terra. Simplesmente,
aquele que se preocupa com o futuro não liga ao presente mais do que
relativa importância e facilmente se consola dos seus insucessos, pensando
no destino que o aguarda.
Deus,
conseguintemente, não condena os gozos terrenos; condena, sim, o abuso
desses gozos em detrimento das coisas da alma. Contra tais abusos é que se
premunem os que a si próprios aplicam estas palavras de Jesus: Meu reino não é deste mundo.
Aquele que se
identifica com a vida futura assemelha-se ao rico que perde sem emoção uma
pequena soma. Aquele cujos pensamentos se concentram na vida terrestre
assemelha-se ao pobre que perde tudo o que possui e se
desespera.
7. O Espiritismo
dilata o pensamento e lhe rasga horizontes novos. Em vez dessa visão,
acanhada e mesquinha, que o concentra na vida atual, que faz do instante que
vivemos na Terra único e frágil eixo do porvir eterno, ele, o Espiritismo,
mostra que essa vida não passa de um elo no harmonioso e magnífico conjunto
da obra do Criador. Mostra a solidariedade que conjuga todas as existências
de um mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo e os seres de todos os
mundos. Faculta assim uma base e uma razão de ser à fraternidade universal,
enquanto a doutrina da criação da alma por ocasião do nascimento de cada
corpo torna estranhos uns aos outros todos os seres. Essa solidariedade
entre as partes de um mesmo todo explica o que inexplicável se apresenta,
desde que se considere apenas um ponto. Esse conjunto, ao tempo do Cristo,
os homens não o teriam podido compreender, motivo por que ele reservou para
outros tempos o fazê-lo conhecido.
8. Quem melhor
do que eu pode compreender a verdade destas palavras de Nosso Senhor:
"O meu reino não é deste mundo"? O orgulho me perdeu na Terra. Quem, pois, compreenderia o
nenhum valor dos reinos da Terra, se eu o não compreendia? Que trouxe eu
comigo da minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada. E, como que para
tornar mais terrível a lição, ela nem sequer me acompanhou até o túmulo!
Rainha entre os homens, como rainha julguei que penetrasse no reino dos
céus! Que desilusão! Que humilhação, quando, em vez de ser recebida aqui
qual soberana, vi acima de mim, mas muito acima, homens que eu julgava
insignificantes e aos quais desprezava, por não terem sangue nobre! Oh! como
então compreendi a esterilidade das honras e grandezas que com tanta avidez
se requestam na Terra!
Para se granjear
um lugar neste reino, são necessárias a abnegação, a humildade, a caridade
em toda a sua celeste prática, a benevolência para com todos. Não se vos
pergunta o que fostes, nem que posição ocupastes, mas que bem fizestes,
quantas lágrimas enxugastes.
Oh! Jesus, tu o
disseste, teu reino não é deste mundo, porque é preciso sofrer para chegar
ao céu, de onde os degraus de um trono a ninguém aproximam. A ele só
conduzem as veredas mais penosas da vida. Procurai-lhe, pois, o caminho,
através das urzes e dos espinhos, não por entre as
flores.
Correm os homens
por alcançar os bens terrestres, como se os houvessem de guardar para
sempre. Aqui, porém, todas as ilusões se somem. Cedo se apercebem eles de
que apenas apanharam uma sombra e desprezaram os únicos bens reais e
duradouros, os únicos que lhes aproveitam na morada celeste, os únicos que
lhes podem facultar acesso a esta.
Compadecei-vos
dos que não ganharam o reino dos céus; ajudai-os com as vossas preces,
porquanto a prece aproxima do Altíssimo o homem; é o traço de união entre o
céu e a Terra: não o esqueçais.
Uma Rainha de
França. (Havre, 1863.)
Texto
extraído do livro «O Céu e o Inferno»
Obra codificada por Allan
Kardec
1ª
Parte – CAPÍTULO VI
·
Origem da
doutrina das penas eternas.
·
Argumentos a
favor das penas eternas.
·
Impossibilidade material das penas eternas.
·
A doutrina das
penas eternas fez sua época.
·
Ezequiel
contra a eternidade das penas e o pecado
original.
1. – A crença na eternidade das penas perde terreno dia a dia, de modo que, sem ser profeta, pode prever-se-lhe o fim próximo.
Tais e de tal ordem poderosos e peremptórios têm sido os argumentos a ela opostos, que nos parece quase supérfluo ocuparmo-nos de tal doutrina de ora em diante, deixando que por si mesma se extinga.
Mas não se pode contestar que, apesar de caduca, ainda constitui a tecla dos adversários das idéias novas, o ponto que defendem com mais obstinação, convictos aliás da vulnerabilidade que ela apresenta, e não menos convictos das conseqüências dessa queda.
Por este lado, a
questão merece sério exame.
2. – A doutrina das penas eternas teve sua razão de ser, como a do inferno material, enquanto o temor podia constituir um freio para os homens pouco adiantados intelectual e moralmente.
Na impossibilidade de apreenderem as nuanças tantas vezes delicadas do bem e do mal, bem como o valor relativo das atenuantes e agravantes, os homens não se impressionariam, então, a não ser pouco ou mesmo nada com a idéia das penas morais.
Tampouco
compreenderiam a temporalidade dessas penas e a justiça decorrente das suas
gradações e proporções.
3. – Quanto mais próximo do estado primitivo, mais material é o homem.
O senso moral é o que de mais tardio nele se desenvolve, razão pela qual também não pode fazer de Deus, dos seus atributos e da vida futura, senão uma idéia muito imperfeita e vaga.
Assimilando-o à sua própria natureza, Deus não passa para ele de um soberano absoluto, tanto mais terrível quanto invisível, como um rei despótico que, fechado no seu palácio, jamais se mostrasse aos súditos. Sem compreenderem o seu poder moral, só o aceitam pela força material. Não o vêem senão armado com o raio, ou no meio de coriscos e tempestades, semeando de passagem a destruição, a ruína, semelhantemente aos guerreiros invencíveis.
Um Deus de mansuetude e cordura não seria um Deus, porém um ser fraco e sem meios de se fazer obedecer. A vingança implacável, os castigos terríveis, eternos, nada tinham de incompatível com a idéia que se fazia de Deus, não lhes repugnavam à razão. Implacável também ele, homem, nos seus ressentimentos, cruel para os inimigos e inexorável para os vencidos, Deus, que lhe era superior, deveria ser ainda mais terrível.
Para tais homens eram precisas crenças religiosas assimiladas à sua natureza rústica. Uma religião toda espiritual, toda amor e caridade não podia aliar-se à brutalidade dos costumes e das paixões.
Não censuremos,
pois, a Moisés sua legislação draconiana, apenas bastante para conter o povo
indócil, nem o haver feito de Deus um Deus vingativo. A época assim o
exigia, essa época em que a doutrina de Jesus não encontraria eco e até se
anularia.
4. – À medida que o Espírito se desenvolvia, o véu material ia-se-lhe dissipando pouco a pouco, e os homens habilitavam-se a compreender as coisas espirituais. Mas isso não aconteceu senão lenta e gradualmente. Por ocasião de sua vinda, já Jesus pôde proclamar um Deus clemente, falando do seu reino, não deste mundo, e acrescentando: – Amai-vos uns aos outros e fazei bem aos que vos odeiam, ao passo que os antigos diziam: olho por olho, dente por dente.
Ora, quais eram
os homens que viviam no tempo de Jesus? Seriam almas novamente criadas e
encarnadas? Mas se assim fosse, Deus teria criado para o tempo de Jesus
almas mais adiantadas que para o tempo de Moisés? E daí o que teria
decorrido para estas últimas? Consumir-se-iam por toda a eternidade no
embrutecimento? O mais comezinho bom-senso repele essa suposição. Não; essas
almas eram as mesmas que viviam sob o império das leis mosaicas e que
tinham adquirido, em várias existências, o desenvolvimento suficiente à
compreensão de uma doutrina mais elevada, assim como hoje mais adiantadas se
encontram para receber um ensino ainda mais
completo.
5. – O Cristo não pôde, no entanto, revelar aos seus contemporâneos todos os mistérios do futuro. Ele próprio o disse: Muitas outras coisas vos diria se estivésseis em estado de as compreender, e eis por que vos falo em parábolas. Sobretudo no que diz respeito à moral, isto é, aos deveres do homem, foi o Cristo muito explícito porque, tocando na corda sensível da vida material, sabia fazer-se compreender; quanto a outros pontos, limitou-se a semear sob a forma alegórica os germens que deveriam ser desenvolvidos mais tarde.
A doutrina das penas e recompensas futuras pertence a esta última ordem de idéias. Sobretudo, em relação às penas, ele não poderia romper bruscamente com as idéias preconcebidas. Vindo traçar aos homens novos deveres, substituir o ódio e a vingança pelo amor do próximo e pela caridade, o egoísmo pela abnegação, era já muito; além disso, não podia racionalmente enfraquecer o temor do castigo reservado aos prevaricadores, sem enfraquecer ao mesmo tempo a idéia do dever.
Se ele prometia o reino dos céus aos bons, esse reino estaria interdito aos maus, e para onde iriam eles? Demais, seria necessária a inversão da Natureza para que inteligências ainda muito rudimentares pudessem ser impressionadas de feição a identificarem-se com a vida espiritual, levando-se em conta a circunstância de Jesus se dirigir ao povo, à parte menos esclarecida da sociedade, que não podia prescindir de imagens de alguma sorte palpáveis, e não de idéias sutis.
Eis a razão por
que Jesus não entrou em minúcias supérfluas a este respeito; nessa época não
era preciso mais do que opor uma punição à
recompensa.
6. Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno, também os ameaçou de serem lançados na Geena. Ora, que vem a ser a Geena? Nada mais nada menos que um lugar nos arredores de Jerusalém, um monturo onde se despejavam as imundícies da cidade.
Dever-se-ia interpretar isso também ao pé da letra? Entretanto era uma dessas figuras enérgicas de que ele se servia para impressionar as massas. O mesmo se dá com o fogo eterno. E se tal não fora o seu pensar, ele estaria em contradição, exaltando a demência e misericórdia de Deus, pois demência e inexorabilidade são sentimentos antagônicos que se anulam. Desconhecer-se-ia, pois, o sentido das palavras de Jesus, atribuindo-lhes a sanção do dogma das penas eternas, quando todo o seu ensino proclamou a mansidão do Criador, a sua benignidade No Pai Nosso Jesus nos ensina a dizer: – Perdoai-nos, Senhor, as nossas faltas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Pois se o culpado não devesse esperar algum perdão, inútil seria pedi-lo.
Esse perdão é, porém, incondicional? É uma remissão pura e simples da pena em que se incorre? Não; a medida desse perdão subordina-se ao modo pelo qual se haja perdoado, o que equivale dizer que não seremos perdoados desde que não perdoemos. Deus, fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta, não podia exigir do homem fraco o que Ele, onipotente, não fizesse.
O Pai Nosso é um
protesto cotidiano contra a eterna vingança de
Deus.
7. – Para homens que só possuíam da espiritualidade da alma uma idéia confusa, o fogo material nada tinha de improcedente, mesmo porque já participava da crença pagã, quase universalmente propagada. Igualmente a eternidade das penas nada tinha que pudesse repugnar a homens desde muitos séculos submetidos à legislação do terrível Jeová. No pensamento de Jesus o fogo eterno não podia passar, portanto, de simples figura, pouco lhe importando fosse essa figura interpretada à letra, desde que ela servisse de freio às paixões humanas. Sabia ele ao demais que o tempo e o progresso se incumbiriam de explicar o sentido alegórico, mesmo porque, segundo a sua predição, o Espírito de Verdade viria esclarecer aos homens todas as coisas. O caráter essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do arrependimento, e Jesus nunca disse que o arrependimento não mereceria a graça do Pai.
Ao contrário,
sempre que se lhe deparou ensejo, ele falou de um Deus clemente,
misericordioso, solícito em receber o filho pródigo que voltasse ao lar
paterno; inflexível, sim, para o pecador obstinado, porém, pronto sempre a
trocar o castigo pelo perdão do culpado sinceramente arrependido. Este não
é, por certo, o traço de um Deus sem piedade. Também convém assinalar que
Jesus nunca pronunciou contra quem quer que fosse, mesmo contra os maiores
culpados, a condenação irremissível.
8. – Todas as religiões primitivas, revestindo o caráter dos povos, tiveram deuses guerreiros que combatiam à frente dos exércitos.
O Jeová dos
hebreus facultava-lhes mil modos de exterminar os inimigos; recompensava-os
com a vitória ou punia-os com a derrota. Tal idéia a respeito de Deus levava
a honrá-lo ou apaziguá-lo com sangue de animais ou de homens, e daí os
sacrifícios sangrentos que representavam papel tão saliente em todas as
religiões da antigüidade. Os judeus tinham abolido os sacrifícios humanos;
os cristãos, apesar dos ensinamentos do Cristo, por muito tempo julgaram
honrar o Criador votando, aos milhares, às chamas e às torturas, os que
denominavam hereges, o que constituía sob outra forma verdadeiros
sacrifícios humanos, pois que os promoviam para maior glória de Deus, e com
acompanhamento de cerimônias religiosas. Hoje, ainda invocam o Deus dos
exércitos antes do combate, glorificam-no após a vitória, e quantas vezes
por causas injustas e anticristãs.
9. – Quão tardo é o homem em desfazer-se dos seus hábitos, prejuízos e primitivas idéias! Quarenta séculos nos separam de Moisés, e a nossa geração cristã ainda vê traços de antigos usos bárbaros, senão consagrados, ao menos aprovados pela religião atual! Foi preciso a poderosa opinião dos não-ortodoxos para acabar com as fogueiras e fazer compreender a verdadeira grandeza de Deus. Mas, à falta de fogueiras, prevalecem ainda as perseguições materiais e morais, tão radicada está no homem a idéia da crueldade divina. Nutrido por sentimentos inculcados desde a infância, poderá o homem estranhar que o Deus que lhe apresentam, lisonjeado por atos bárbaros, condene a eternas torturas e veja sem piedade o sofrimento dos culpados? Sim, são filósofos, ímpios como querem alguns, que se hão escandalizado vendo o nome de Deus profanado por atos indignos dele. São eles que o mostram aos homens na plenitude da sua grandeza, despojando-o de paixões e baixezas atribuídas por uma crença menos esclarecida.
Neste ponto a religião tem ganho em dignidade o que tem perdido em prestígio exterior, porque se homens há devotados à forma, maior é o número dos sinceramente religiosos pelo sentimento, pelo coração.
Mas, ao lado
destes, quantos não têm sido levados, sem mais reflexão, a negarem toda a
Providência! O modo por que a religião tem estacionado, em antagonismo com
os progressos da razão humana, sem saber conciliá-los com as crenças,
degenerou em deísmo para uns, em cepticismo absoluto para outros, sem
esquecermos o panteísmo, isto é, o homem fazendo-se deus ele próprio, à
falta de um mais perfeito.
10. – Voltemos ao dogma das penas eternas. Eis o principal argumento invocado em seu favor: "É doutrina sancionada entre os homens que a gravidade da ofensa é proporcionada à qualidade do ofendido. O crime de lesa-majestade, por exemplo, o atentado à pessoa de um soberano, sendo considerado mais grave do que o fora em relação a qualquer súdito, é, por isso mesmo, mais severamente punido. E sendo Deus muito mais que um soberano, pois é infinito, deve ser infinita a ofensa a Ele, como infinito o respectivo castigo, isto é, eterno."
Refutação: Toda refutação é um raciocínio que deve ter seu ponto de partida, uma base sobre a qual se apóie, premissas, enfim. Tomemos essas premissas aos próprios atributos de Deus; – único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições.
É impossível conceber Deus de outra maneira, visto como, sem a infinita perfeição, poder-se-ia conceber outro ser que lhe fosse superior. Para que seja único acima de todos os seres, faz-se mister que ninguém possa excedê-lo ou sequer igualá-lo em qualquer coisa, Logo, é necessário que seja de todo infinito.
E porque são infinitos, os atributos divinos não sofrem aumento nem diminuição, sem o que não seriam infinitos e Deus perfeito tampouco. Se se tirasse a menor parcela de um só dos seus atributos, não haveria mais Deus, por isso que poderia coexistir um ser mais perfeito. O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de outra qualidade contrária que pudesse diminuí-la ou anulá-la. Um ser infinitamente bom não pode ter a menor parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau pode ter a menor parcela de bondade. Assim também um objeto não seria de um negro absoluto com a mais leve nuança de branco, e vice-versa.
Estabelecido
este ponto de partida, oporemos aos argumentos supra os seguintes:
11. – Só um ser infinito pode fazer algo de infinito. O homem, finito nas virtudes, nos conhecimentos, no poderio, nas aptidões e na existência terrestre, não pode produzir senão coisas limitadas.
Se o homem pudesse ser infinito no mal que faz, sê-lo-ia igualmente no bem, igualando-se, então, a Deus. Mas se o homem fosse infinito no bem não praticaria o mal, pois o bem absoluto é a exclusão de todo o mal.
Admitindo-se que uma ofensa temporária à Divindade pudesse ser infinita, Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria logo infinitamente vingativo; e sendo Deus infinitamente vingativo não pode ser infinitamente bom e misericordioso, visto como um destes atributos exclui o outro. Se não for infinitamente bom não é perfeito; e não sendo perfeito deixa de ser Deus.
Se Deus é inexorável para o culpado que se arrepende, não é misericordioso; e se não é misericordioso, deixa de ser infinitamente bom. E por que daria Deus aos homens uma lei de perdão, se Ele próprio não perdoasse? Resultaria dai que o homem que perdoa aos seus inimigos e lhes retribui o mal com o bem, seria melhor que Deus, surdo ao arrependimento dos que o ofendem, negando-lhes por todo o sempre o mais ligeiro carinho.
Achando-se em
toda parte e tudo vendo, Deus deve ver também as torturas dos condenados; e
se Ele se conserva insensível aos gemidos por toda a eternidade, será
eternamente impiedoso; ora, sem piedade, não há bondade
infinita.
12. – A isto se
responde que o pecador arrependido, antes da morte, tem a misericórdia de
Deus, e que mesmo o maior culpado pode receber essa graça. Quanto a isto não
há dúvida, e compreende-se que Deus só perdoe ao arrependido, mantendo-se
inflexível para com os obstinados; mas se Ele é todo misericordioso para a
alma arrependida antes da morte, por que deixará de o ser para quem se
arrepende depois dela? Por que a eficácia do arrependimento só durante a
vida, um breve instante, e não na eternidade que não tem fim? Circunscritas
a um dado tempo, a bondade e misericórdia divinas teriam limites, e Deus não
seria infinitamente bom.
13. – Deus é soberanamente justo. A soberana justiça não é inexorável absolutamente, nem leva a complacência ao ponto de deixar impunes todas as faltas; ao contrário, pondera rigorosamente o bem e o mal, recompensando um e punindo outro eqüitativa e proporcionalmente, sem se enganar jamais na aplicação.
Se por uma falta passageira, resultante sempre da natureza imperfeita do homem e muitas vezes do meio em que vive, a alma pode ser castigada eternamente sem esperança de clemência ou de perdão, não há proporção entre a falta e o castigo – não há justiça. Reconciliando-se com Deus, arrependendo-se, e pedindo para reparar o mal praticado, o culpado deve subsistir para o bem, para os bons sentimentos. Mas, se o castigo é irrevogável, esta subsistência para o bem não frutifica, e um bem não considerado significa injustiça. Entre os homens, o condenado que se corrige tem por comutada e às vezes mesmo perdoada a sua pena; e, assim, haveria mais equidade na justiça humana que na divina.
Se a pena é
irrevogável, inútil será o arrependimento, e o culpado, nada tendo a esperar
de sua correção, persiste no mal, de modo que Deus não só o condena a sofrer
perpetuamente, mas ainda a permanecer no mal por toda a eternidade. Nisso
não há nem bondade nem Justiça.
14. – Sendo em tudo infinito, Deus deve abranger o passado e o futuro; deve saber, ao criar uma alma, se ela virá a falir, assaz gravemente, para ser eternamente condenada. Se o não souber, a sua sabedoria deixará de ser infinita, e Ele deixará de ser Deus. Sabendo-o, cria voluntariamente uma alma desde logo