ERRATICIDADE E MUNDO ESPÍRITA
Ricardo Matos Damasceno
Um razoável
conjunto de espíritas habituou-se a reputar sinônimos os vocábulos erraticidade e mundo espírita, como se eles realmente fossem de idêntico
significado. Não obstante a força das idéias mal compreendidas e geradas pela
cultura verbal do ouvir dizer,
trata-se de dois conceitos só aparentemente idênticos, embora doutrinária e
semanticamente distintos. Nesse ínterim, ouve-se comumente algum espírita
situar os Espíritos na erraticidade, à semelhança de um lugar onde eles
estivessem, aí se produzindo uma equivalência entre o estado errático da
individualidade e o próprio mundo espiritual.
Na
questão 224 de O Livro dos Espíritos,
o Mestre de Lyon obteve dos Espíritos instrutores a inferência de que, no
intervalo das encarnações, a alma constitui um Espírito errante, a quem incumbe
aspirar a uma nova encarnação e aguardá-la. Em verdade, o Bom Senso Encarnado interrogou o que é a alma no intervalo das
encarnações, não havendo perguntado onde a alma estaria ou em que lugar ela se
encontraria, pois a resposta se lhe teria afigurado óbvia. A profundidade
filosófica da interrogativa ultrapassa os lindes da obviedade.
A
pergunta, como se pode naturalmente depreender, atém-se a um gravíssimo
problema ontológico, isto é, ao problema da natureza essencial do ser, aí
entendido de modo transcendental, enquanto princípio inteligente
individualizado. Nas questões ulteriores, o exame restou mais amplamente
desenvolvido, havendo-se chegado, no item 225 da Obra Inaugural, à verdadeira idéia de erraticidade como um estado subjetivo ou uma condição da alma no intervalo das
encarnações. Em outras palavras, afigura-se errante o Espírito suscetível de
reencarnar-se, de retornar ao mundo orgânico, de enclausurar-se novamente em um
corpo denso.
No item
recém-analisado, depara-se a iniludível conclusão de que erraticidade compõe um
estado subjetivo e uma condição dos Espíritos de 2ª. e 3ª. ordens, haja vista
mostrarem-se errantes, segundo a resposta dos Instrutores, Espíritos
pertencentes a todas as gradações.
Desse modo, se os há de todos os graus, em erraticidade, não se pode inferir
outra coisa senão admitir a idéia na monta de uma condição de passividade
reencarnatória. Em apoio de tal afirmativa, pode ler-se, por exemplo, a questão
226, em que resta afirmada a situação de definitividade espiritual dos
Espíritos puros, já insuscetíveis de reencarnações, uma vez chegados à
perfeição individual.
Ora, os Espíritos
puros, não estando mais em erraticidade
(prefira-se em a na), continuam a viver no mundo espírita, razão por si mesma
suficiente a comprovar a distinção semântica dos vocábulos em tela. Logo,
erraticidade constitui uma situação de passividade reencarnatória, enquanto
mundo espírita equivale, por assim dizer, ao local ou lugar em que
preexistem e sobreexistem os Espíritos.
Outrossim, O Livro dos Espíritos, por exemplo, nas
questões 232 e 318, alude à noção de estado de erraticidade, embora, em algumas
traduções, exsurja a contração na (em+a)
na pergunta da questão 230, dando uma confusa idéia de lugar. Em suma, trata-se
evidentemente de um erro de tradução, pois a pergunta em língua francesa se
encontra assim: 230. L’Esprit
progresse-t-il à l’état errant? Não se encontra referência ao vocábulo erraticidade, por tratar-se de um
neologismo não abonado, no Brasil, nem pelo Aurélio
nem pelo Houaiss. Dessa maneira,
resta evidente a utilização de uma idéia de condição no termo l’état errant, claramente modificado
por uma tradução adaptada a uma idéia preconcebida. Aliás, a nova tradução da
FEB por Evandro Noleto Bezerra e a
de Herculano Pires contêm remissão
ao termo original, em absoluta deferência ao texto kardeciano. Não obstante, no
equívoco parecem ter incorrido – tudo no-lo indica - o brilhante Júlio de Abreu Filho, na sua tradução
pela editora Pensamento, e o impoluto Guillon
Ribeiro, na primeira tradução da FEB.
Outra gravíssima e
falsa identidade também se há comumente feito entre a idéia da vida mental-emotivo-ético-moral (mundo
subjetivo) do Espírito e o próprio mundo espiritual. Posto que a primeira
interfira no segundo, devido à maleabilidade dos fluidos espirituais (vide cap. XIV de A Gênese), não há confundi-los em uma coisa só. O mundo espírita
mostra-se, por assim dizer, exterior ao Espírito, uma vez que a individualidade
vive e sobrevive nesse ambiente. Em outras palavras, o mundo espírita não se
compõe de todos os Espíritos agrupados ou reunidos por afinidade, porém
realmente se diferencia deles como um ambiente em que eles vivem. O mundo
espírita contém o Espírito, enquanto este se contém naquele. Isto de reduzir o
mundo espiritual aos próprios Espíritos conjugados assemelha-se a uma espécie
de panteísmo suprafísico. Tais
pseudo-inferências, aliás, têm sido publicadas e divulgadas na internet por um certo psiquiatra
carioca, dentro de um paradigma niilista
adstrito a um malparado e falso purismo
doutrinário, em que há de ter-se muita cautela.
Em muito purismo
doutrinário, não raro, logra-se, de cambulhada, encontrar idéias alienígenas e
pouco afeiçoadas ao verdadeiro sentido de conceitos espíritas nucleares. Nas
questões 84 usque 87 de O Livro dos Espíritos, apresenta-se o
mundo espírita como anterior ao denso, não sendo aquele a vida subjetiva da
individualidade (cap. XIV de A Gênese).
Mundo espírita e vida moral do Espírito não equivalem um ao outro, conquanto
interajam. Conceber essa falsa identidade seria crer em um niilismo espirítico, dentro de uma distorcida exegese doutrinária.
Conseguintemente,
o mundo espírita, por antecedente ao mundo material,
tem consistência per se e não pode ser
concebido senão como ambiente em que vivem os Espíritos e com que eles
naturalmente interagem. Aliás, de tão real e de tão consubstancial em si mesmo,
ele poderia existir independentemente do mundo material, segundo asseveram os
Espíritos. Assim, o Espírito possui vida subjetiva, notadamente vida moral, a
diferenciar-se do mundo objetivo em que ele preexiste e
sobrevive. Como as barreiras entre as duas perspectivas estão fragilizadas em
estado de Espírito, a condição moral – subjetiva – da individualidade cria um
mundo subjetivo-objetivo, pela sua
interação com a matéria fluídica. Ademais, consoante teoriza o Mestre de Lyon,
essa interferência fluídica pode ser até inconsciente (§2º. do item 14 do cap.
XIV de A Gênese).
Em O Que é o Espiritismo (itens 16 e 17 do
cap. II), por exemplo, podem encontrar-se referências à natureza concreta e
circunscrita do Espírito, não compondo ele uma abstração ou uma idéia
cerebrina. Desse modo, para circunscrever-se, isto é, para delinear-se em algo
(princípio inteligente e perispírito), ele há de ter em si zonas limítrofes,
capazes de distingui-lo do ambiente circunjacente (mundo espírita). Também se
observe o detalhe de que, segundo a questão 284 de O Livro dos Espíritos, os Espíritos se identificam uns para os
outros pelo perispírito, tal qual o fazem os homens com os corpos densos,
evidência mais do que suficiente a demonstrar a independência subjetiva da
individualidade espiritual relativamente ao mundo espírita.
Os fenômenos
psíquicos decorrem a priori das
faculdades do Espírito (ser concreto e circunscrito), ou seja, do psiquismo
espirítico e não do mundo espírita, porquanto a inteligência, os sentimentos,
as emoções e a vontade só podem advir de faculdades espirituais, isto é, de
faculdades do ser espiritual. De mais a mais, o mundo espírita só deve ser
considerado como o mundo psíquico na exata medida em que a individualidade
logra nele interferir. Leia-se, para melhor compreensão, a brilhante análise de
Kardec intitulada A Morte Espiritual,
constante das Obras Póstumas, na
qual se deduz muito claramente essa questão das faculdades do Espírito
encarnado ou errante.
Logo, tanto erraticidade se distingue de mundo
espírita, quanto o último se diferencia de vida moral do Espírito. Para arrematar o presente ensaio e para gerar
reflexão, consigna-se um entrecho de notável análise de Kardec, a qual consta
da edição de dezembro da Revista
Espírita de 1862 (Estudo Sobre os Possessos de Morzine – Causas da Obsessão e Meios de Combatê-la,
a partir do penúltimo período do segundo parágrafo):
Assim,
os mundos visível e invisível se interpenetram e se alternam incessantemente,
se assim nos podemos exprimir, e se alimentam mutuamente; ou, melhor dizendo, na realidade esses dois mundos não constituem
senão um só, em dois estados diferentes. Esta consideração é muito
importante para melhor compreender-se a solidariedade que existe entre eles.
(grifo nosso)
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