ESPIRITISMO E MOVIMENTO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

 

 

Quando nos desvencilhamos do fardo grave do organismo, sentimo-nos como que despidos de uma roupagem a que estávamos habituados, não raro, por razoável período. Entre o berço, em que surgimos na Terra, e o túmulo, em que daí nos despedimos, notamos a dialética da vida estuante. Um vir e um devir não analisáveis de chofre nem de afogadilho. Diante do nascimento, movemo-nos alegremente por enxergar no fenômeno embrionário algo transcendente, não limitado à organização fisiológica e anatômica, enquanto, perante a morte, quase nos prostramos como se tudo se findasse a nossos olhos.

 

            A Doutrina Espírita, porém, ensina-nos a desvendar a tese e a antítese, aparentemente representadas pelo nascimento e pelo tombamento orgânico, mas encontráveis unificadas na dialética da evolução ilimitada, sem fronteiras de clausura, porquanto as idéias de viver e de morrer não se antagonizam reciprocamente, a fim de poderem excluir-se um ao outro. Viver e morrer compõem etapas de uma coisa mesma, não fragmentável. Outrora, a cultura humana, ainda perdida na obscuridade invisível da inteligência incipiente, inventara a morte e produzira-lhe um significado não correspondente à sua verdadeira natureza. Allan Kardec, o notável arauto do Espírito de Verdade, provou essa premissa mediante a lógica rigorosa da experiência metodológica, havendo-se amparado no bom senso mais apurado. Em nenhum momento, o Mestre de Lyon se pôs a divagar em elucubrações cerebrinas, cuja abstração pudesse comprometer as estruturas inamovíveis em que se fincam as bases doutrinárias.

 

            O Cristianismo redivivo não podia mais depender da mera expressão religiosa das instituições humanas, porquanto, a fim de mostrar-se ao mundo como Verdade, deveria possuir pilares inconcussos, somente obteníveis pela experiência objetiva, da qual Allan Kardec extraiu todas as mais racionais ilações. Segundo ele próprio examinou, no artigo Período de Luta, constante da edição de dezembro de 1863 da Revue Spirite, o movimento então nascituro, malgrado potente, já havia passado pela primeira e pela segunda fase, estava passando pela terceira e passaria ainda por mais três distintas, conforme enumeradas: da curiosidade, filosófica, da luta, religiosa, intermediária e da regeneração social. Havemos, por óbvio, de perguntar-nos em que período nos encontramos. Apesar das proposições mais imediatistas, parecemos experimentar ainda uma fase mista, entre a da luta e a religiosa, pois nos defrontamos ainda com os detratotes e com os inimigos mais virulentos.

 

            Erasto, o infatigável Apóstolo de São Paulo, em epístola seguinte à análise de Kardec, intitulada A Guerra Surda e situada aquela na mesma edição do mensário fundado pelo Codificador, advertiu-nos os grandes desafios a que estaríamos expostos, entre os quais podemos citar as invectivas das trevas contra os próprios espíritas e não mais contra o Espiritismo em si. Não obstante continuarem os detratores a tentar demolir o Espiritismo, a Doutrina passa incólume, mas nem tão ilesos passam os espíritas, haja vista as diversas insídias em que se encontram, não raro, por eles mesmos geradas. Os espíritas digladiam-se uns contra os outros, em um verdadeiro espetáculo de arena romana, na qual eles aparecem como os gladiadores e os detratores como o poviléu a sentar-se no Coliseu. Talvez os espíritas estejam convertidos em cavaleiros a decidirem as justas, enquanto os detratores maledicentes permanecem assistindo à cena autodemolidora no Circus Maximus.

 

            Não nos podemos olvidar de que os inimigos dos espíritas e do Espiritismo não se localizam nas nossas próprias hostes, mas nos assentos cômodos em que nos vêem lutar entre nós. É necessário voltarmos à compreensão de que os espíritas não podem ser inimigos de si próprios, sob pena de sucumbirem diante de responsabilidades impostergáveis assumidas antes da reencarnação. Recordemo-nos da mensagem do próprio Erasto, constante do item 4 do capítulo XX de O Evangelho Segundo o Espiritismo, na qual se nos adverte a missão dos espíritas, ao enfrentarem os verdadeiros sicários da Doutrina. Destarte, cônscios de que não podemos vacilar ante aqueles que nos perscrutam os atos e as palavras, unamo-nos em torno do mesmo ideário de proporcionar a expansão do Espiritismo, não só pela sua divulgação, senão também pela resposta honesta e enérgica aos velhacos predadores da Verdade.

 

HÉRACLES PEREZ

(Fsa, 15/XI/2006, às 02h47min, recebido por RMD)

 

 

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