Jesus não é o Espírito da Verdade
Esse é o pensamento de muitos
confrades espíritas, que vem ao encontro com o que também pensam muitos de
nossos detratores, conforme percebemos num fórum espírita na Internet. Embora
não tenhamos por objetivo refutar a ninguém, iremos citar dois escritores
espíritas que defendem veementemente essa hipótese, apenas para servir de ponto
de partida para o presente estudo. Que fique claro que nada temos contra a
pessoa deles; aliás, os respeitamos e admiramos muito, pela garra com que
defendem a Doutrina.
No livro Quem pergunta quer
saber, o autor argumenta, por duas vezes, que Jesus não seria o Espírito de
Verdade; das suas alegações, transcrevemos:
Já vimos várias considerações e elucubrações referentes à
verdadeira identidade – ou à possível – desse Espírito Guia, contudo, gostaria
de esclarecer que, em visita a Dr. Canuto de Abreu, em companhia do grande
amigo e irmão Olympio da Silva Campos, aquele nos mostrou os arquivos
particulares do próprio Allan Kardec que vieram ter-lhes às mãos quando
visitou Paris às vésperas da II Grande Guerra. Os espíritas parisienses haviam
recebido comunicação mediúnica prevendo a ocupação da cidade pelos alemães e,
para evitar que tais documentos caíssem em mãos nazistas, estes teriam que ser
entregues a um brasileiro cujas características coincidiam com as deste grande
amigo Dr. Canuto.
Pois neste arquivo mereceu destaque uma
comunicação informativa dada ao próprio Kardec na qual se esclarecia que ele, Kardec,
fora Platão e que seu guia que, por vezes, se assinava com um simples “S” não
era senão o próprio Sócrates: o professor sempre orientando os estudos do
seu dileto aluno.
Sócrates parece ter um grande destino
na formação filosófica e social da nossa civilização. Portanto, é bem mais
provável que seja ele o mentor de toda a Codificação.
Contudo, se a própria Entidade
preferiu ficar no anonimato é porque assim julgava fosse melhor e mais prudente,
já que o importante é o conteúdo de suas mensagens; pouco ou nenhuma diferença
faz que se identifique sua personalidade, apenas, a referência de que se trata
do enviado prometido por Jesus a nós. Talvez, até, o intuito do anonimato
esteja ligado às comparações que pudessem se fazer com sua obra anterior e a da
Codificação.
[...]
Nada,
até então, existe que garanta de forma cabal qual seja a verdadeira
personalidade do Guia responsável pelas mensagens codificadoras.
Até mesmo o documento contido nos arquivos do mestre lionês mereceu dele os
devidos cuidados para que não fosse divulgada, sob sua responsabilidade, uma
afirmativa duvidosa. (IMBASSAHY, 1993, p. 25-26). (grifo nosso).
Informações importantíssimas,
que merecem uma dedicada análise. Para isso, fomos buscar em Canuto Abreu,
porquanto foi a pessoa citada, algumas coisas para confirmar essas afirmativas.
Encontramos, de sua autoria, o livro intitulado O Livro dos Espíritos e sua
tradição histórica e lendária, que se trata, segundo o prefaciador, Dr.
Paulo Toledo Machado, de
...
uma obra romanceada que retrata, UM SÉCULO DEPOIS, no tempo cronológico
de um dia, o dia 18 de abril de 1857, com uma riqueza de detalhes e brilhantes
lições doutrinárias, os dados históricos que começaram no alvorecer do
século XIX, no dia 3 de outubro de 1804, e que, então, naquele dia tem o
seu ponto culminante. (ABREU, 1983,.p. 31).(grifo nosso).
Dele destacamos o seguinte
trecho do diálogo entre Ermance Dufaux, Ruth Celine Japhet, Caroline Baudin e
Julie Baudin, as médiuns que Kardec se utilizou para se comunicar com os
Espíritos Superiores, cujo resultado culminou na composição das duas edições de
O Livro dos Espíritos:
- ... No dia 1º de janeiro a sessão foi
aberta, às oito horas da noite em ponto, de portas fechadas, com uma prece
feita pelo Professor, de pé, solenemente, como se fosse um padre, e de
improviso. Mas as palavras não eram de nenhuma reza eclesiástica nossa
conhecida nem aquela ditada por ZÉPHYR. Este saudou a todos
amistosamente e anunciou-nos o comparecimento de vários Espíritos superiores,
citando-lhes os nomes com deferência, isto é, um abaixo de outro, destacadamente.
- Lembra-se de alguns?
- Santo AGOSTINHO, S. JOÃO
EVANGELISTA, São VICENTE DE PAULO...
- Diversos Santos, enfim, interrompeu
Ermance.
- Também SÓCRATES, FÉNELON,
SWEDENBORG, HAHNEMANN...
- E O LIVRO principiou a ser
escrito, insinuou Ermance.
- Não sabíamos a essa altura coisa
nenhuma a respeito. Sendo o Senhor RIVAIL Mestre-escola e falando-nos
várias vezes dum curso, supusemos desejasse transformar as sessões em aulas
para um aprendizado metódico. Muitos consulentes, que só vinham aos Espíritos
para lhes perguntar tolices sobre casos domésticos, desconfiando da nova
orientação, não voltaram mais. Ficaram, porém, alguns mais dispostos a
aprender, satisfeitos com o sistema novo. E assim, duas vezes por semana, às
quartas e sábados, mantivemos sessões importantes de perguntas e respostas
sobre temas elevados, propostos pelo Professor e resolvidos por Espíritos
superiores.
-
Muito curioso o sistema, concordou Ermance. E assim...
-
Espere, querida. Uns três meses depois de inaugurado esse curso, quando já era
grande a cópia de ensinamentos, o Guia espiritual do Professor manifestou-se,
pela primeira vez entre nós, dizendo que, na véspera, à noite, havia dado ao
Professor, aqui nesta casa, sinais percucientes na parede com o intuito de o
impedir de escrever certo erro na obra em elaboração.
-
O Professor escrevia a obra durante as sessões?
-
Não, Ermance. Escrevia aqui, em casa dele, com todo o sigilo. Só então é que
soubemos não se limitar o Professor RIVAIL, como nos parecia, a
colecionar ensinos para uso privativo, mas escrevia uma obra a respeito do 'Spiritualisme'
e sob a vigilância invisível de seu Guia.
- De SÓCRATES, completou Ermance.
- Não. Do Espírito VERDADE.
- Espírito VERDADE? Curioso! - exclama Ermance. São LUÍS
disse-me ter por Chefe o Espírito VERDADE. Será o mesmo?
- Talvez. Espírito VERDADE deve ser um só.
- Mas, Caroline, Você não me falou há pouco ser SÓCRATES
o Guia do Senhor RIVAIL?
- Não. Disse-lhe que o Professor o 'evocava'
mentalmente e 'desejava' a assistência dele para 'desvendar' a
verdadeira 'Filosofia dos Espíritos'. Não falei porém que o filósofo
grego era seu Guia. O Gênio Protetor do Professor RIVAIL chama-se
Espírito VERDADE.
- Mas Você, Caroline, não percebe o simbolismo da expressão 'Espírito
VERDADE'? Para mim São LUÍS se refere a uma Entidade oculta sob o
véu dum símbolo. Símbolo aliás, que cabe perfeitamente a SÓCRATES.
- Quando ainda novato em nossas sessões - replicou Caroline.
O Professor um dia quis saber se, como nós outros também, ele tinha um Gênio
Protetor. ZÉPHYR, respondendo afirmativamente, acrescentou, em resposta
a outra indagação do Senhor RIVAIL: - "Seu Gênio foi na Terra um homem
justo e sábio".
-
Pois então! - exclama Ermance. SÓCRATES foi um homem justo e sábio.
- De acordo. Mas...
- E 'amigo da Verdade', insistiu Ermance, com ares
triunfantes.
- Mas JESUS?
- contrapõe Caroline. Não foi o mais justo e sábio dos homens? Não foi a
própria Verdade?
- Sim, mas JESUS era Deus,
sustentam Ermance. E, como homem, foi o 'mais' sábio, o 'mais'
justo – Você mesmo acabou de dizê-la - e não 'um justo e sábio' como alguns outros homens.
- DEUS é a 'Causa Primeira',
a 'Inteligência Suprema', replicou professoralmente Caroline. Os
Espíritos superiores ensinam ser JESUS um Espírito bem superior, não
porém a 'Causa Primeira'.
- Sem discutir esse ponto, que é de Fé,
pergunto-lhe: Se o Guia do professor foi 'um homem justo e sábio', que
homem o Professor supõe haja sido o Espírito VERDADE? - questionou
Ermance.
- Se ele o sabe, nunca o disse a nós.
Creio, porém, que o não sabe. Quando pela primeira vez falou com o Guia em
nossa casa, o Professor perguntou ao Espírito se havia animado alguma
personagem conhecida na Terra. E o Gênio respondeu-lhe:
- "Já lhe disse que, para Você,
sou A VERDADE. Este 'para Você' implica 'discrição'. De mim não saberá mais
nada a respeito".
- Para nós, intervém Julie, o Espírito VERDADE
não é SÓCRATES, pois este, quando se manifesta, declina o nome ou é
anunciado por ZÉPHYR.
- Para mim, opinou Ruth, é JESUS.
- Pode ser, apoiou Ermance. Só assim
poderia ser Chefe espiritual de São LUÍS.
- Respeitemos o sigilo imposto pelo
próprio Espírito, ponderou Caroline. Ir além seria imprudente. Essa questão de
identidade foi objeto de exame em nossas reuniões, e ZÉPHYR limitou-se a
pedir-nos decorássemos a afirmativa de SÓCRATES que já lhe citei e vou
repetir: - "A verdadeira 'Filosofia dos Espíritos' só poderá ser
revelada ao que for digno de receber A VERDADE".
(ABREU,
1996, p. 102-104). (maiúscula e grifo do original).
Pelo que percebemos, a afirmativa de
que seria Sócrates o guia de Kardec fica completamente sem respaldo no que se
vê nas obras que Canuto Abreu teve em mãos, com as quais fundamentou as
narrativas de seu livro. Quanto à questão de que Sócrates, por vezes, assinava
com um simples “S”, parece-nos não ser bem a realidade, pois em
nenhuma das obras da codificação se encontrará isso. No capítulo XVI, de O
Livro dos Médiuns, Kardec afirma de orientações recebidas por Sócrates
juntamente com Erasto (KARDEC, 2007c, p. 238), ali, quando julgou conveniente
apôs as assinaturas, sendo que de Sócrates aparecem apenas duas. (KARDEC,
2007c, p. 253 e 254).
E, mais ainda, pelo relatado por
Canuto Abreu, foi identificada a personalidade do Espírito de Verdade como
sendo de uma outra pessoa, que não é outra senão o próprio Jesus. Portanto,
enganou-se o autor citado logo no início, ao referenciar Canuto Abreu como
suporte para uma identificação contrária a essa.
Por outro lado, temos nos
Prolegômenos de O Livro dos Espíritos várias assinaturas (KARDEC, 2006b,
p. 66), dentre as quais a de Sócrates, a de Platão e a do Espírito de Verdade,
o que nos coloca diante dos seguintes fatos: a) Sócrates não pode logicamente
ser o Espírito de Verdade, porquanto são duas assinaturas distintas; b) Kardec,
por sua vez, não poderia ter mesmo sido Platão reencarnado, visto haver também
o filósofo grego assinado aquele texto. Fora essa há referências, nas atas da
Sociedade, a mais duas mensagens que levam a assinatura do discípulo de
Sócrates (KARDEC, 1993a, p. 357-358 e KARDEC, 2000, p. 39), além de uma
comunicação encontrável em O Livro dos Espíritos (p. 546-547) e de uma
outra assinada em conjunto e publicada na Revista Espírita de abril de
1860 (KARDEC, 2000, p. 124).
Seria interessante que pudéssemos
ver quem foi, na verdade, o guia de Kardec, uma vez que se fez confusão sobre
ele. Durante o seu discurso perante os espíritas de Bordeaux, Kardec afirma: “Sim, senhores, este fato é não só
característico, mas é providencial. Eis, a este respeito, o que me dizia ainda
ontem, antes da sessão, o meu guia espiritual: o Espírito de Verdade”. (KARDEC,
1993b, p. 356). Entretanto, o
seu biógrafo
Henri Sausse cita o Espírito Z. (SAUSSE, 2007, p. 19), talvez esteja aqui a
causa da confusão. Na data de 11 de dezembro de 1855, Kardec interrogou a Z
sobre quem seria o seu bom gênio, cuja resposta foi “um homem justo de muita
sabedoria” (KARDEC, 2006a, p. 302), portanto, não poderia ser o próprio Z, nem
um espírito familiar, pois lhe foi dito também que este Espírito não era de um
parente nem de um amigo (KARDEC, 2006a, p. 302). Sobre ele, o Espírito Z,
Kardec falou:
Eram geralmente frívolos os assuntos tratados. Os assistentes se
ocupavam, principalmente, de coisas respeitantes à vida material, ao futuro,
numa palavra, de coisas que nada tinham de realmente sério; a curiosidade e o
divertimento eram os móveis capitais de todos. Dava o nome de Zéfiro o
Espírito que costumava manifestar-se, nome perfeitamente acorde com o seu
caráter e com o da reunião. Entretanto, era muito bom e se dissera protetor
da família. Se com freqüência fazia rir, também sabia, quando preciso, dar
ponderados conselhos e manejar, se ensejo se apresentava, o epigrama,
espirituoso e mordaz. Relacionamo-nos de pronto e ele me ofereceu constantes
provas de grande simpatia. Não era um Espírito muito adiantado,
porém, mais tarde, assistido por Espíritos superiores, me auxiliou nos meus
trabalhos. Depois, disse que tinha de reencarnar e dele não mais ouvi falar.
(KARDEC, 2006a, p. 298).
Já tive ocasião de
dizer que Z. não era um Espírito superior, porém muito bom e muito benfazejo. Talvez fosse mais adiantado do que o deixava
supor o nome que tomara. Legitimavam essa suposição o caráter sério e a
sabedoria de suas comunicações, conforme as circunstâncias... dele guardei sempre grata recordação e
muito reconhecimento pelas boas advertências que sempre me deu e pelo
devotamento que me testemunhou. Desapareceu com a dispersão da família Baudin,
dizendo que em breve reencarnaria. (KARDEC, 2006a, p. 324). (grifo nosso)
As reuniões mencionadas no primeiro parágrafo aconteciam na casa do Sr. Baudin. No segundo, temos uma nota sobre uma mensagem recebida, em 17 de janeiro de 1857, pela Srta. Baudin, na qual Kardec recebe a notícia de uma nova encarnação. Fica claro que o Espírito Z tinha relação com a família do sr. Baudin, para nós, ele está mais para um protetor dos trabalhos do que propriamente da família, visto ter reencarnado. É por esse motivo também que ele não poderia ser o guia de Kardec. Esse só foi definido em 25 de março de 1856, quando Kardec, através da médium Srta. Baudin, teve a oportunidade de saber que seu guia denominava-se A Verdade, conforme se vê do diálogo entre dois (KARDEC, 2006a, p. 304-306).
Atestam
os escritores Zêus Wantuil e Francisco Thiesen que Canuto de Abreu possuía
volumosa correspondência original (rascunhos manuscritos) de Kardec. (WANTUIL e
THIESEN, vol. II, 2004, p. 30-31). Os dois são os autores do livro Allan
Kardec o educador e o codificador, no qual, apesar da extensa pesquisa, não
vimos algo diretamente relacionado à questão que estamos abordando, entretanto,
podemos perceber que não lhes era estranha a hipótese que defendemos. Senão
vejamos:
“A
25 de março de 1856, o Missionário toma conhecimento da existência de seu
guia espiritual – A Verdade -, que o protegeria e ajudaria sempre,
assistindo-o quer diretamente, através de médiuns, quer pelo pensamento, forma
esta que se tornou, mais tarde, a única.178
____
178 Oeuvres Posthumes, 1ére éd., pp. 312-313
(“Remarque”).
(WANTUIL e THIESEN,
vol. I, 2004, p. 313) (grifo nosso).
Temos aqui, diferente do que foi
afirmado anteriormente, que o guia de Kardec foi o Espírito que se denominava
de A Verdade e não Sócrates.
Mais à frente, ainda nessa obra,
podemos ler:
Se
incidentes vários se urdiram para lhe comprovar que os Espíritos superiores
tomavam parte em seus trabalhos196; se mereceu ser assistido, de
modo todo particular, até pelo Mestre de todos nós, quando da elaboração de
“O Evangelho segundo o Espiritismo”197; [...]
____
196 “Oeuvres Posthumes, 1ére éd. p. 353.
197 Id., lib., p. 351
(WANTUIL E THIESEN,
vol I, 2004, p. 321) (grifo nosso).
Embora Wantuil e Thiesen não tenham
feito uma relação direta entre os dois nomes a afirmação deles de que Kardec
“mereceu ser assistido, de modo todo particular, até pelo Mestre de todos nós”
nos leva a pensar em Jesus, pois somente a ele cabe a expressão “Mestre de
todos nós”.
Corroborando a informação sobre os
documentos constantes dos arquivos de Canuto de Abreu, podemos citar o que
disse Paulo Henrique Figueiredo, editor da revista Universo Espírita, que teve
acesso a eles:
[...]
O eminente pesquisador espírita Canuto Abreu (1892-1980), anos antes da Segunda
Guerra Mundial, esteve em Paris em busca de documentos históricos sobre o
Espiritismo. Quando visitou a livraria de Leymarie, na época administrada por
um sobrinho deste colaborador muito próximo de Kardec, teve acesso a uma caixa
repleta de manuscritos. Assim, Canuto trouxe para o Brasil algumas dezenas de
cartas inéditas de Kardec. Isso foi possível por que o Codificador fazia uma
duplicata de toda carta enviada, seja de próprio punho ou pelas mãos de Amelie
Gabrielle Boudet, sua esposa.(FIGUEIREDO, 2008, p. 7).
Agora vem o mais importante de sua
fala, para esse nosso estudo:
Pois
bem, as cartas estão sendo agora mantidas pelo neto de Canuto. Numa delas,
depois de comentar as dificuldades na divulgação do Espiritismo, Kardec
afirma que soube, por meio de comunicação mediúnica, o fato do Espírito da
Verdade ser Jesus: “Não sei se conseguiria ter calma e controlar minha
emoção se soubesse antes que o Espírito com quem conversei semanalmente era o
meigo rabino de Nazaré”. [...] (FIGUEIREDO, 2008, p. 7). (grifo nosso).
Os nossos detratores, o que vimos
também em alguns confrades, como é o caso, por exemplo, do pesquisador Jorge
Rizzini, cujo pensamento veremos mais à frente, buscam apoio bíblico para
refutar essa identificação, especialmente, no evangelista João, que, de certa
forma, relaciona o Consolador como sendo o Espírito Santo (Jo 14,26). Assim,
crêem que não poderia ser Jesus, mas, sim, esse último.
Vejamos, em A Gênese, a
análise que Kardec faz do passo que contém o versículo mencionado.
Se me amais, guardai os meus mandamentos -
e eu pedirei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique
eternamente convosco: - O Espírito de Verdade que o mundo não pode
receber, porque não o vê; vós, porém, o conhecereis, porque permanecerá
convosco e estará em vós. - Mas o Consolador, que é o Santo Espírito, que meu
Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e fará vos lembreis de
tudo o que vos tenho dito. (S. João, 14: 15 a 17 e 26. - O
Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI.).
36. -
Entretanto, digo-vos a verdade: Convém que eu me vá, porquanto, se eu não me
for, o Consolador não vos virá; eu, porém, me vou e vo-lo
enviarei. - E, quando ele vier, convencerá o mundo no que respeita ao pecado, à
justiça e ao juízo: - no que respeita ao pecado, por não terem acreditado em
mim; - no que respeita à justiça, porque me vou para meu Pai e não mais me
vereis; no que respeita ao juízo, porque já está julgado o príncipe deste
mundo.
Tenho
ainda muitas coisas a dizer-vos, mas presentemente não as podeis suportar.
Quando
vier esse Espírito de Verdade, ele vos ensinará toda a verdade,
porquanto não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tenha escutado e vos
anunciará as coisas porvindouras.
Ele me glorificará, porque receberá do que
está em mim e vo-lo anunciará. (S. João, 16: 7 a 14.)
37. - [...] Sob o nome de Consolador
e de Espírito de Verdade, Jesus anunciou a vinda daquele que havia
de ensinar todas as coisas e de lembrar o que ele dissera. Logo, não
estava completo o seu ensino. E, ao demais, prevê não só que ficaria esquecido,
como também que seria desvirtuado o que por ele fora dito, visto que o Espírito
de Verdade viria tudo lembrar e, de combinação com Elias, restabelecer todas
as coisas, isto é, pô-las de acordo com o verdadeiro pensamento de seus
ensinos.
[...]
39. - Qual deverá ser esse Enviado?
Dizendo: “Pedirei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador”, Jesus
claramente indica que esse Consolador não seria ele (grifo nosso), pois, do
contrário, dissera: “Voltarei a completar o que vos tenho ensinado”. Não só tal
não disse, como acrescentou: A fim de que fique eternamente convosco e
ele estará em vós. Esta proposição não poderia referir-se a uma
individualidade encarnada, visto que não poderia ficar eternamente conosco,
nem, ainda menos, estar em nós; compreendemo-la, porém, muito bem com
referência a uma doutrina, a qual, com efeito, quando a tenhamos assimilado,
poderá estar eternamente em nós. O Consolador é, pois, segundo o
pensamento de Jesus, a personificação de uma doutrina soberanamente
consoladora, cujo inspirador há de ser o Espírito de Verdade.
40 - O
Espiritismo realiza, como ficou demonstrado (cap. 1, nº 30), todas as
condições do Consolador que Jesus prometeu. Não é uma doutrina
individual, nem de concepção humana; ninguém pode dizer-se seu criador. É fruto
do ensino coletivo dos Espíritos, ensino a que preside o Espírito de Verdade.
[...]
[...]
42. - Se disserem que essa promessa se
cumpriu no dia de Pentecostes, por meio da descida do Espírito Santo,
poder-se-á responder que o Espírito Santo os inspirou, que lhes desanuviou a
inteligência, que desenvolveu neles as aptidões mediúnicas destinadas a
facilitar-lhes a missão, porém que nada lhes ensinou além daquilo que Jesus já
ensinara, porquanto, no que deixaram, nenhum vestígio se encontra de um
ensinamento especial. O Espírito Santo, pois, não realizou o que Jesus
anunciara relativamente ao Consolador; a não ser assim, os apóstolos teriam
elucidado o que, no Evangelho, permaneceu obscuro até ao dia de hoje e cuja
interpretação contraditória deu origem às inúmeras seitas que dividiram o
Cristianismo desde os primeiros séculos. (KARDEC, 2007a, p. 439-443) (negrito
nosso, itálico do original).
Aqui Kardec admite a vinda, na mesma
época, do Consolador e do Espírito da Verdade, num primeiro momento (item 37),
para depois, nos outros itens, distinguir um do outro. O Consolador ele
identificou como sendo a própria Doutrina Espírita, dando ao Espírito da
Verdade a função de inspirador e presidente do ensino coletivo dos Espíritos.
Estabelece, ainda que sem o querer, uma relação dele, o Espírito da Verdade,
com o Cristo, quando afirmou que o Cristo preside à regeneração que se opera na
humanidade (KARDEC, 2207b, p. 60), porquanto não há sentido em se admitir dois
presidentes.
Ressaltamos o item 42, porquanto foi
uma coisa que notamos, ao refletir sobre a possibilidade de que a expressão
“Espírito Santo” tenha sido alterada ou adicionada em Jo 14,26, justamente para
evitar-se interpretação idêntica à de Kardec e para não ter como não relacionar
o cumprimento da promessa da vinda do Consolador como sendo o fenômeno do dia
do Pentecostes.
Carlos Pastorino (1910-1980),
profundo conhecedor dos textos bíblicos, afirmou, sobre a expressão grega tò
pneuma tò hágion (o Espírito o santo), que “Em João aparece uma só vez, e
assim mesmo em apenas alguns códices tardios, havendo forte suspeição de haver
sido acrescentado posteriormente (em 14:26)”. (PASTORINO, 1964, vol. 5, p. 97),
ressaltando, num outro ponto, que “... Mais
adiante (vers. 26) o Espírito verdadeiro, ou evocado, é dito 'o Espírito, o
Santo', expressão que levou os teólogos a confundi-lo com a terceira 'pessoa'
da santíssima Trindade”. (PASTORINO, 1971, vol. 8, p. 158).
Alguns outros autores, sobre a
expressão Espírito Santo, dizem:
Na língua filosófica grega, a palavra espírito (pneuma)
ficou sendo a expressão usada para designar uma inteligência privada do corpo
carnal.
Como s.s. [se referindo a seu
contraditor] deve saber, o papa Dâmaso confiou a S. Jerônimo em 384 a missão de
redigir uma tradução latina do Antigo e do Novo Testamento.
Esta palavra pneuma S. Jerônimo
traduziu-a como spiritus reconhecendo com os Evangelistas que há bons e
maus.
Só depois é que surgiu a idéia de
divinizar os Espíritos e só depois a Vulgata é que a palavra sanctus foi
constantemente ligada à palavra spiritus. Não há dúvida que a Bíblia, em certos
casos, fala do Espírito Santo, mas sempre no sentido familiar do Espírito
ligado a uma pessoa. Assim, no Antigo Testamento (Daniel cap. XIII, 45: “O
senhor suscitou o Espírito Santo de um moço chamado Daniel”).
É
conveniente declarar que em certas Bíblias não se encontra este capítulo, que
talvez o interesse obrigasse a suprimir, - em outros ainda ele figura à parte
sob o título de História de Suzana. (SCHUTEL, 1987, p. 72).
Em uma obra anterior, fizemos esclarecimentos a
respeito da palavra ESPÍRITO SANTO, que a cada passo se encontra nos
Evangelhos.
Não será demais, entretanto, estendermo-nos em
certas considerações a esse respeito, para que os leitores melhor compreendam o
sentido das Escrituras, especialmente os "Atos dos Apóstolos" que nos
propomos a respigar.
As antigas Escrituras não continham o
qualificativo .santo quando se falava do Espírito.
Todos os Apóstolos reconheciam a existência de
Espíritos, mas entre estes, bons e maus.
No Evangelho de Lucas, XI, lê-se: "Aquele
que pede, obtém; o que procura, acha; abrir-se-á ao que bater; se vós sendo
maus sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, com muito mais forte razão
vosso Pai enviará do Céu UM BOM ESPÍRITO àqueles que o pedirem". (10 e
13).
Foi só com a tradução das antigas Escrituras e
constituição da Vulgata que esse qualificativo foi acrescentado, com certeza
para fortificar o "Mistério da Santíssima Trindade", tirado de uma
lenda hindu, aventado por comentadores das Escrituras, que desde logo após a
morte de Jesus, viviam em querelas, em discussões sobre modos de se interpretar
as Escrituras. Essa mesma "Trindade" é que foi proclamada como
"artigo de fé", pelo Concílio de Nicéia, em 325, após ter sido
rejeitado por três concílios.
O mistério da "S.S. Trindade" veio
criar uma doutrina nova sobre a concepção do Espírito, atribuindo a este,
quando revestido do qualificativo Santo, um ser misterioso, incriado, também
Deus e co-eterno com o Pai.
Desvirtuada por completo de sua verdadeira
significação, a promessa de Jesus não representa para as Igrejas Romana e
Protestante, a difusão do Espírito, ou antes dos Espíritos, que, por ordem de
Deus e enviados por Jesus, viriam restabelecer todas as coisas, mas sim um dom
sobrenatural, um movimento de cérebro e de coração que Deus operou unicamente
nos Apóstolos, no dia de Pentecostes.
Nós vamos ver adiante, pelo enredo dos trechos de
"Atos", que esta doutrina absolutamente errônea, não só errônea como
também obstrutiva dos princípios cristãos. Inutilizando por completo as
Palavras de Jesus, sua vida e os Ensinos Apostólicos, únicos capazes de, quando
recebidos em sua verdadeira significação, transformar o homem, guiando-o bem
aos seus destinos imortais.
[...]
Ao
estudar a Bíblia, todo o juízo preconcebido nos obscurece o entendimento.
O qualificativo Santo que se encontra na Bíblia para designar ESPÍRITO
BOM, não deve absolutamente, ser interpretado como um ente misterioso,
sibilino, que constitui a 3a pessoa da S.S. Trindade. Mas sim, como sendo um
Espírito adiantado, de bondade, de amor e sabedoria. (SCHUTEL, 1981, p. 6-8).
As
comunicações relatadas no Antigo Testamento e no Evangelho, que eram
originariamente referidas aos santos Espíritos, ou como constavam nos textos em
grego e na Vulgata em latim “Spiritum bonum” (Espíritos bons), em tantas
passagens e principalmente no Pentecostes, passaram a ser todas denominadas
manifestações divinas, atribuídas ao “Espírito Santo”, o novo deus integrante
da Trindade que não existia na Vulgata. A partir da criação desse dogma, todas
as manifestações de “Espíritos bons” relatadas no Evangelho passaram a ser do
Espírito Santo, e qualquer outra manifestação de intercâmbio entre os planos
espiritual e material, que se realizasse através de um Espírito sofredor,
ignorante de sua situação ou um necessitado de qualquer natureza, passaria a
ser interpretada como de um Espírito satânico, já que a alma não era aceita
como sendo de natureza espiritual. (ARMOND, 2004, p. 75).
Os Evangelhos primitivos não usavam a
expressão Espírito Santo, a qual foi introduzida pelos tradutores franceses dos
Evangelhos, com o escopo de corroborar ensinamentos da Igreja, principalmente
aqueles que objetivavam dar maior autenticidade à implantação do incrível dogma
da Trindade, o qual, incompreensivelmente, deu a Deus indivisível e uno o
caráter de Deus trino.
Sempre houve controvérsias no tocante à
interpretação do que seja Espírito Santo, pois, mesmo nas traduções e versões
dos atuais Evangelhos, se encontram, reiteradamente, as palavras Espírito,
ou Espírito de Deus.
O próprio evangelista Mateus, descrevendo o episódio ocorrido
com Jesus às margens do rio Jordão, escreveu: O Espírito
de Deus desceu sobre ele sob a forma de uma pomba, o que implica em dizer que foi um
Espírito enviado da parte de Deus. Nada se falou sobre Espírito Santo.
[...]
O dr. F. X. Funk, em sua "História
Eclesiástica" afirmou que "Maomé acusava os cristãos de haverem
falsificado os livros santos, principalmente o da doutrina da Trindade".
No Cristianismo primitivo, nem Jesus,
nem Pedro, nem João, nem Tiago, nem Paulo de Tarso jamais cogitaram dessa
trilogia, no sentido de ser o Espírito Santo uma das três partes de Deus. Os
evangelistas a nada disso se referem. Jesus jamais ensinou que seu Pai
Celestial tivesse três pessoas distintas contidas numa só, das quais ele seria
uma delas.
É fora de dúvida que o termo
"Espírito Santo" foi incorporado às traduções dos Evangelhos, não
tendo jamais constado dos originais. Isso foi feito com o propósito de servir
aos interesses da Igreja, que, no Concílio de Nicéia, realizado no ano 325, e
no Concílio de Constantinopla, realizado em 381, havia aprovado o dogma da
Trindade, pelo qual o Pai, o Filho e o Espírito Santo constituem uma só pessoa,
uma única entidade. Havia, portanto, necessidade de o assunto ser corroborado
pelos livros sagrados, o que, evidentemente, lhe daria foro de verdade. (GODOY, 1993, p. 79-80). (grifo do
original).
[...] A palavra espírito (pneuma)
ficou sendo a expressão usada para designar uma inteligência privada de corpo
carnal.
Essa palavra pneuma, traduziu-a
S. Jerônimo como spiritus, reconhecendo, com os evangelistas, que há
bons e maus Espíritos. A idéia de divinizar o Espírito não surgiu senão no
século II. Foi somente depois da Vulgata que a palavra sanctus
foi constantemente ligada a palavra spiritus, não conseguindo essa
junção, na maioria dos casos, senão tornar o sentido mais obscuro e mesmo, às
vezes, ininteligível. Os tradutores franceses dos livros canônicos foram ainda
mais longe a esse respeito e contribuíram para desnaturar o sentido primitivo.
Eis aqui um exemplo, entre outros muitos: lê-se em Lucas ( cap. XI, texto
grego):
10. "Aquele que pede, recebe; o que procura acha; ao
que bate se abrirá." - 13. "portanto, se bem que sejais maus, sabeis
dar boas coisas a vossos filhos, com muito mais forte razão vosso Pai enviará.
do céu "um bom espírito" àqueles que lho pedirem."
As traduções francesas trazem o Espírito
Santo. É um contra-senso. Na Vulgata, tradução latina do grego, está
escrito Spiritum bonum, palavra por palavra, espírito bom. A Vulgata
não fala absolutamente do Espírito Santo. O primitivo texto grego ainda é mais
frisante, e nem doutro modo poderia ser, pois que o Espírito Santo, como
terceira pessoa da Trindade, não foi imaginado senão no fim do século II.
Convém todavia, notar que a Bíblia, em
certos casos, fala do Espírito Santo, mas sempre no sentido de Espírito
familiar, de Espírito ligado a uma pessoa. Assim, no Antigo Testamento (Daniel,
XIII, 45) (150) se lê: "O Senhor suscitou o espírito santo de um moço
chamado Daniel".
______
(150)
Em certas Bíblias esse capítulo figura à parte, sob o título “História de
Susana”.
(DENIS, 1987, p. 276-277).
A não ser que tomemos todas essas
informações como inverídicas, para negar tudo, será melhor usar da prudência e
aceitar essas opiniões para se confirmar as alterações dos textos bíblicos,
visando ajustá-los aos dogmas estabelecidos posteriormente, os quais,
certamente, não faziam parte do que se convencionou chamar de cristianismo
primitivo. Uma necessária advertência aos que, porventura, tentarem verificar
na Vulgata:
A
Neovulgata é a mesma versão Vulgata, à qual foram incorporados os
avanços e descobertas mais recentes. O Papa João Paulo II aprovou e promulgou a
edição típica em 1979. O Papa assim o fez para que esta nova versão sirva como
base segura para fazer traduções da Bíblia às línguas modernas e para realizar
estudos bíblicos. (FERREIRA, 2008, internet).
Pesquisando no Novo Testamento,
observamos que a expressão “Espírito Santo”, tem 94 ocorrências, sendo que 57%
delas estão em Lucas – Evangelho e Atos. Especificamente, nos Evangelhos
sinópticos aparece: Mateus 06 vezes; Marcos 04 vezes e Lucas 12 vezes. Em João
só surge 03 vezes, sendo que no Apocalipse não há nenhuma citação. Nas quatorze
cartas de Paulo identificamos 19 ocorrências (20%). Esses dados nos parecem, à
primeira vista, muito estranhos, pois era de se esperar que, em se acreditando
no Espírito Santo, como uma das pessoas da Trindade, o seu nome fosse citado de
forma equivalente em todos os autores e não só aparecer poucas vezes em Mateus,
Marcos e João, e excessivamente em Lucas. Não terá isso sido exatamente por
conta das alterações posteriores? Fica aí a dúvida.
Seria conveniente que, também,
analisássemos algumas passagens de João relacionadas ao assunto. Vejamo-las,
pelos textos da Bíblia Anotada:
Jo
1,33: “Eu não o conhecia;
aquele, porém, que me enviou a batizar com água me disse: “Aquele sobre quem
vires descer e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo”.
Jo 14,16-17: “E eu rogarei ao Pai, e
ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco,
o Espírito
da verdade, que o mundo não pode
receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita
convosco e estará em vós.
Jo 14,26: “mas o Consolador, o Espírito
Santo
a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as cousas e vos fará
lembrar de tudo o que vos tenho dito”.
Jo 15,26: “Quando, porém, vier o Consolador,
que eu vos enviarei da parte
do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim;”
Jo 16,7: “Mas eu vos digo a verdade:
Convém-vos que eu vá, porque se eu não for, o Consolador não virá para
vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei.
Jo 16,13: “quando vier, porém, o Espírito
da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si
mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as cousas que hão de
vir.
Jo 20,22: “E, havendo dito isso,
soprou sobre eles,
e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo”.
Observamos
que os passos Jo 1,33; 14,26 e 20,22 são os únicos, nesse Evangelho, que contém
“Espírito Santo”, porém, se o seguinte pensamento estiver correto:
Logo
fica “cheia de um espírito santo”. Novamente sem artigo. Repisamos: a língua
grega não possuía artigos indefinidos. Quando a palavra era determinada,
empregava-se o artigo definido “ho, he, to”. Quando era indeterminada (caso em
que nós empregamos o artigo indefinido), o grego deixava a palavra sem artigo.
Então quando não aparece em grego o artigo, temos que colocar, em português, o
artigo indefinido: UM espírito santo, e nunca traduzir com o definido: O
espírito santo. (PASTORINO, vol. 1, 1964, p. 43).
então, as duas dos
extremos – Jo 1,33 e 20,22 - deveriam ser entendidas como “UM espírito santo”,
não como consta da tradução. A do meio, Jo 14,26, seria “o espírito o santo”,
na qual divergem os que a analisam, dizendo uns que seria mesmo “O Espírito
Santo”, e outros, como é o caso de Pastorino, que deveria ser entendida como “o
espírito, o santo”. Para que lado pende a balança, não sabemos; mas uma coisa é
certa: “há divergências”... Vejamos o porquê ao compararmos estas três
passagens:
Jo 14,16-17: “... ele vos dará outro Consolador,...,
o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber,...”
Jo 14,26: “mas o Consolador, o Espírito
Santo a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as cousas e
vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”.
Jo 15,26: “Quando, porém, vier o Consolador,
que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que dele
procede, esse dará testemunho de mim;”
Em
Jo 14,16-17 temos que o Consolador é o Espírito de Verdade, enquanto que em Jo
14,26, justamente aquela que Pastorino diz haver suspeita de ter tido um
acréscimo posterior, já é o Espírito Santo, que, além disso, possui teor quase
idêntico ao passo Jo 15,26, no qual se tem outra definição, pois nela há
diferenciação entre os dois, dando-nos conhecimento de que quando o Consolador
vier o Espírito de Verdade, que vem da parte do Pai, dará testemunho de Jesus,
fazendo, portanto, uma relação íntima entre eles, o que, claramente, se percebe
neste passo: “Convém-vos que eu vá, porque se eu não for, o Consolador não
virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (Jo 16,7)
Curioso
também é que encontramos várias vezes o uso da expressão “cheio do Espírito
Santo”, tanto usada para Jesus (Lc 1,4) quanto para qualquer outra pessoa: João
Batista, Zacarias, Pedro, Estevão, Paulo, os discípulos e outros não
especificados (Lc 1:15, 67; At 2:4, 8, 31; 6:3, 5; 7:55; 9:17; 11:24; 13:9,
52). Mas se Jesus é Deus como se poderá dizer que ele está cheio do Espírito
Santo? É porque esse espírito “santo” não é o da Trindade mesmo.
Conforme falamos anteriormente,
vamos ver o que pensa o escritor Jorge Rizzini. Respondendo à pergunta “O
Espírito de Verdade é o Cristo?”, diz ele, categoricamente: “Não. Se fosse,
jamais teria dito aos apóstolos; '... eu rogarei ao Pai e Ele vos enviará outro
Consolador, para que fique eternamente convosco: o Espírito de Verdade...'” [Jo
14,16] (RIZZINI, 1995, p. 12). Entretanto, conforme já explicamos é Kardec quem
relacionava o Consolador ao Espiritismo e não ao Espírito de Verdade, a esse,
atribuiu a tarefa de presidir todos os Espíritos envolvidos na Codificação.
Embora intimamente ligados um ao outro, são distintos.
Continuando com Rizzini, eis o
complemento de seu pensamento:
A
semelhança de personalidade, e até de linguagem (uma é reflexo de outra)
explica-se pelo fato de que a evolução de ambos pode apresentar o mesmo nível
ou quase o mesmo. Recordemos que Jesus não disse que enviaria o Espírito de
Verdade; o que o Mestre disse, e com ênfase, é que rogaria a Deus e o
Pai, então, enviaria o Espírito de Verdade à Terra. O Espírito de Verdade
foi um ilustre filósofo da Antiguidade. E, por ser puro, é que o insigne
Espírito foi porta-voz do Cristo ao trazer para nosso planeta o Espiritismo
(o novo Consolador) e a belíssima mensagem contida no capítulo VI de “O
Evangelho Segundo o Espiritismo”, em cujas primeiras frases Jesus, assim, se
identifica:
“Venho, como outrora,
entre os filhos desgarrados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas.
Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, deve lembrar aos
incrédulos que acima deles reina a verdade imutável: o Deus bom, o Deus grande
que faz geminar as plantas e levanta as ondas. Eu revelei a doutrina divina; e,
como um segador, liguei em feixes o bem esparso pela Humanidade e disse: 'Vinde
a mim, todos vós que sofreis'!”
Essa mensagem foi transmitida em Paris pelo Espírito de
Verdade em 1860, mas é de autoria de Jesus. Foi publicada
pela primeira vez em 1861 e está inserida no capítulo XXXI de “O Livro dos
Médiuns”... A mensagem em questão, posteriormente, foi um pouco reduzida e
incluída em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, trazendo, porém, desta vez, a
assinatura do Espírito de Verdade. O fato parece-nos explicável: Allan Kardec,
preocupado porque já muito se abusou deste nome (o de Jesus) em comunicações,
evidentemente, apócrifas (são palavras dele em "O Livro dos
Médiuns"), achou por bem consultar o Guia. E o Espírito de
Verdade, então, assinou-a, o que deixa patente que fora ele mesmo quem a
trouxera à Terra, visto que não havia, é claro, necessidade da presença de
Jesus para que fosse transmitida. O Codificador, notemos bem, não diz que a
referida mensagem é do Cristo; mas, perguntamos, se fosse apócrifa o Espírito
de Verdade a teria assinado? E mais: se não fosse autêntica, Allan Kardec, com
seu bom senso, a publicaria em dois livros da Codificação? E, mais ainda. O
Codificador, anos depois, transcreveria essa mensagem em “O Evangelho Segundo o
Espiritismo”, obra que trata, especificamente, dos ensinos de Jesus Cristo?
Observemos, agora, que as três mensagens finais do VI
capítulo, a última do capítulo XX e a que serviu de prefácio para “O Evangelho
Segundo o Espiritismo”, não obstante a linguagem que nos recorda a de Jesus,
essas, sim, são de autoria do Espírito de Verdade. A semelhança de linguagem,
já o dissemos, pode ser atribuída à afinidade entre o Espírito de Verdade e
Jesus. Tenhamos sempre em mente que o Espírito de Verdade foi enviado à Terra a
pedido do próprio Cristo! Fiel porta-voz das Verdades Divinas, ele merecia,
realmente, o pseudônimo que Jesus lhe deu: Espírito de Verdade. Que
linguagem poderia ter um Espírito em tais condições, senão a sublime,
principalmente ao tratar de temas evangélicos? Cremos, no entanto, que a
análise poderia mostrar que a linguagem de Jesus e a do Espírito de Verdade não
são, absolutamente, idênticas. Porque similitude não é igualdade.
Dissemos que o Espírito de Verdade é um filósofo da
Antiguidade. Essa informação encontra-se em uma obra de Kardec publicada em
1858 e que o Codificador jamais reeditou. Refiro-me ao livro “Instruções
Práticas sobre as Manifestações Espíritas”... Eis aí a revelação que Allan
Kardec nos faz sobre o Espírito de Verdade:
“Tendo eu
interrogado esse Espírito, ele se deu a conhecer sob um nome alegórico (eu
soube, depois, por outros Espíritos, que fora o de um ilustre filósofo da
Antiguidade).” (RIZZINI,
1995, p. 12-14).
Estranho dizer “semelhança de personalidade”, quando, ao citar a mensagem contida no Evangelho Segundo o Espiritismo, ele afirma “em cujas primeiras frases Jesus, assim, se identifica” se, de fato, não era o próprio Mestre quem a ditava. É irrelevante para a questão de se justificar ter sido Jesus quem rogou a Deus para enviar o Espírito de Verdade, pois sabemos de várias passagens bíblicas nas quais Jesus usa a terceira pessoa para se referir a ele mesmo.
Afirmar que a mensagem é de autoria de Jesus, mas que foi assinada pelo Espírito de Verdade, apoiando-se em que Kardec não disse ser do Cristo a referida mensagem, só pode ter sido por engano, pois foi dito sim. Em nota à mensagem XI constante do cap. XXXI, LM, Kardec diz: “Esta comunicação,... foi assinada com um nome que o respeito nos não permite reproduzir, senão sob todas as reservas tão grande seria o insigne favor de sua autenticidade ... Esse nome é o de Jesus de Nazaré” (KARDEC, 2007c, p. 483). E nesse mesmo livro, quando do comentário das mensagens apócrifas, ele dá essa assinatura como autêntica (KARDEC, 2007c, p. 508).
Por outro lado, essa explicação elucidativa de Kardec consta do grupo de mensagens consideradas autênticas e não apócrifas. Fosse pertencente a outro Espírito e não ao próprio Jesus, a mensagem acabaria sendo inautêntica e falsamente assinada, uma vez que a própria "Verdade" veio depois assumi-la como de sua autoria. Então, o Espírito de Verdade assinou Jesus não sendo Ele, havendo falseado a identificação. Lembremo-nos de que a citada comunicação se obteve por meio de um dos melhores médiuns da sociedade, o qual não poderia haver simplesmente alterado a assinatura sem o próprio Espírito de Verdade, de modo imediato, haver corrigido o engano. Ao contrário, o Espírito de Verdade deixou Kardec publicá-la primeiro em 1861 para depois corrigi-la em 1864, três anos depois???
A argumentação de similitude de linguagem para não se fazer distinção entre eles, não tem sentido, pois a Cristo podemos aplicar o “Venho como outrora” e não ao Espírito de Verdade, caso fosse uma outra personalidade e não o próprio Cristo.
Quanto à
questão de sido dito “um ilustre filósofo da
Antiguidade”, para identificar o Espírito de Verdade, seria bom observar que em
O Livro dos Médiuns, relatando esse fato, Kardec já diz que “ele
pertencia a uma ordem muito elevada, e que desempenhou um papel muito
importante sobre a Terra” (KARDEC, 2007c, p. 110), porém em Obras Póstumas
ele já fala que o Espírito usou o codinome “A Verdade” (KARDEC, 2006a, p.
305-306). Infelizmente, apesar de toda a capacidade incontestável desse
renomado pesquisador, ele não foi a fundo em suas pesquisas.
Diante
de tudo o que colocamos, quer sob o aspecto histórico, quer pelo bíblico, o
Espírito Santo não é o Consolador. Baseando-nos no primeiro, podemos afirmar
que Jesus é o Espírito de Verdade; e quanto ao segundo, ou seja, o aspecto
bíblico?... Dele já definimos que ele não é o Consolador, que também não é
Jesus, porquanto esse disse que enviaria “outro Consolador” (Jo 14,16). A
expressão “em verdade” foi usada por Jesus 60 vezes, fora esta que é muito
significativa: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), que
poderíamos desdobrar em três frases; uma delas seria: “Eu sou a Verdade”. Fora
o fato de que “a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17).
Portanto, não vemos como não relacionar esse versículo e os outros ao nome de
Jesus.
Podemos ainda, por derradeiro, colocar
algumas passagens bíblicas ainda não mencionadas, pelas quais a relação do nome
Espírito de Verdade a Jesus é, para nós, evidente:
Ef 1,13: "Em Cristo, também vocês
ouviram a Palavra da verdade, o
Evangelho que os salva..."
Cl 1,4-6: "De
fato, ouvimos falar da fé que vocês têm em Jesus Cristo, e do amor de vocês por
todos os cristãos, por causa da esperança daquilo que para vocês está reservado
no céu. Tal esperança já lhes foi anunciada pela Palavra da Verdade, o Evangelho, que chegou até vocês..."
2Jo 1,1-2: "O
Ancião à Senhora eleita e a seus filhos, a quem amo sinceramente - não apenas
eu, mas todos os que conheceram a
Verdade - por causa da verdade que permanece em nós e estará conosco para
sempre."
3Jo, 1,8: "Devemos,
portanto, acolher a esses homens, para que sejamos cooperadores da Verdade."
3Jo 1,12: "Quanto a Demétrio,
todos dão testemunho dele, inclusive a própria Verdade. Nós também testemunhamos em favor dele, e você sabe que o
nosso testemunho é verdadeiro."
Nossa
grata surpresa foi saber que nossa opinião vai ao encontro do que pensava Santo
Agostinho (354-430), bispo de Hipona, padre e doutor da Igreja, que em Confissões
(AGOSTINHO, 2003), por várias vezes, estabelece a relação que
estamos advogando, entre as quais destacamos:
Da boca da
própria Verdade, eu tinha ouvido que há “eunucos que se mutilaram
voluntariamente por causa do Reino dos céus”. Mas acrescentou: “Quem tiver
capacidade para compreender, comprenda” (Mt 19,12). (p. 202-203).
E tu, Senhor,
já tinhas engrandecido o teu eleito, “ressuscitando-o dentre os mortos e
fazendo-o assentar à tua direita” (Ef 1,20), de onde deverias enviar-nos o
“Paráclito” prometido, “o Espírito de Verdade” (Jo 14,16s). O Senhor já
o tinha enviado, e eu não o sabia. Ele o enviara, porque já estava glorificado
“ressurgindo dos mortos” e subindo ao céu. (p. 238-239).
Foi afirmado pela própria Verdade, que é teu Filho: “Aquele que chamar a seu irmão 'louco' terá que responder ao julgamento da geena do fogo” (Mt 5,22). (p. 258-259).
Se
a conclusão que chegamos aqui ainda possa lhe parecer que carece de maiores
confirmações, recomendamos o nosso texto Espírito
de Verdade, quem seria ele?,
onde, com maior profundidade, apoiando-nos nas obras da codificação, analisamos
esse delicado assunto.
Paulo da Silva Neto
Sobrinho
Jul/2008.
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FERREIRA, W. C. A Bíblia.
http://www.weliton.net/a_biblia.php, acesso dia 08.05.2008, às 15:47hs.
Ps.: sobre esse tema recomendamos a leitura, pela ordem:
1 – O
Consolador veio no Pentecostes?