Nós somos sobreviventes

 

 

Por incrível que pareça, eu tenho freqüentado vários serviços fúnebres de amigos da minha idade. Olha que não sou nenhuma octogenária, tenho 42 anos. Por isso, apesar de me sentir ainda muito jovem, sinto-me, também, uma sobrevivente. E tenho comentado isso durante essas oportunidades.

 

Perdi um amigo para a leucemia quando tinha 8 anos. Na década dos vinte perdi mais dois amigos em acidentes automobilísticos. O Câncer já me levou mais dois. Meu cunhado querido se foi aos 38 anos, em outro acidente automobilístico. O último foi vítima de um brutal assassinato em dezembro do ano passado. Estes são alguns dos quais me lembrei prontamente.

 

Uma história, entre essas, me impressiona muito. Tive um colega de faculdade que era um amor. Um verdadeiro gentleman. Ele estava sempre arrumadinho e tranqüilo. Gostava muito de uma boa prosa. Dávamos plantão, juntos, em uma maternidade pública muito movimentada de Goiânia, enquanto cursávamos o 3º ano de Medicina.

 

Éramos um grupo muito alegre e produtivo. Todos nos tornamos Ginecologistas e Obstetras. Trocarei os nomes para que aqueles que não se sentirem bem com a divulgação dessa história não sejam ofendidos. A equipe era formada por mim, pela Janaína e pelo Carlos, como acadêmicos da Obstetrícia. Cumpriam também o plantão o Chefe da Obstetrícia, o Pediatra e o acadêmico da pediatria.

             

Disputávamos de forma saudável quem trabalhava mais, quem fazia o maior número de partos, quem fazia o maior número de cesarianas, curetagens... Atendíamos com entusiasmo e carinho aquelas pacientes carentes de tudo e de mais alguma coisa.

 

Divertíamo-nos muito no horário do almoço, isso quando, por um milagre, os partos davam um tempo. Levávamos sobremesas deliciosas e dividíamos irmamente. Um pirex gigante, de uma torta espetacularmente calórica, era dividido em 6 pedaços iguais. Comíamos tudo em uma sentada. E olhem, nenhum de nós é ou foi gordo.

 

O Carlos era noivo de uma moça que era membro da mesma igreja que ele. Por coincidência era a mesma igreja que meu namorado, na época, hoje meu marido, freqüentava. Casou-se cedo. Fizemos Residência Médica em Hospitais diferentes, ele em Goiânia, eu na UFMG em BH. 

 

Quando iniciamos nossa prática clínica nos reencontramos, tornamo-nos sócios em um serviço de Vídeo-cirúrgia Ginecológica. Trabalhávamos juntos em algumas oportunidades e nos reuníamos mensalmente para um jantar de confraternização entre os 10 sócios do grupo e suas famílias.

 

Em uma dessas oportunidades comentei com ele que estava pagando seguro de vida e de incapacidade temporária, afinal sou profissional liberal e tenho dois filhos. Sempre convivi com respeito em relação à sua religião, que era a mesma do meu marido, que também é médico. Surpreendi-me com a resposta dele sobre o assunto seguro de vida. Ele pegou sua Bíblia, que estava sempre ao seu alcance, mostrou-me e me disse: - Esse é o meu seguro de vida.

 

Poucos meses depois ele se descobriu portador de um câncer de intestino em fase já avançada. Lutou bravamente contra a doença. Mas ela evoluiu sem piedade. Estive com ele na véspera do seu desencarne, ele ainda cria e esperava um milagre. Senti muito sua perda, orei fervorosamente para que ele aceitasse sua nova condição.

 

Suas pacientes ficaram órfãs, ele era muito querido. Quando uma delas entrava em meu consultório, a procura de outro Carlos, eu as atendia com um sentimento estranho. Às recebia com carinho, mas não queria ter que cuidar delas, de nenhuma delas. Não queria ter que substituí-lo.

 

Ao escrever esse depoimento sinto a dor que senti na época, há 6 anos. Mas sei que o faço como um alerta para aqueles que julgam conhecer a vontade de Deus. Os planos Divinos estão além de nossa capacidade de conhecimento. Cuidar de nossa saúde, sermos previdentes não é sinal de pouca fé, mas de submissão aos desígnios Divinos.

 

Após o desencarne do meu amigo, sua família passou por inúmeras dificuldades. Ainda passa. O grupo de sócios fez o que “pode” para atenuar as dificuldades, a família dele e a da viúva fizeram muito mais. Mas sabemos que se ele tivesse entendido a verdadeira mensagem do Cristo, sua família poderia ter passado por privações apenas de ordem emocional e não por aquelas de ordem material.

 

Deus não fará o nosso dever por nós. Devemos pensar em nosso futuro e no de nossa família. Devemos estar preparados para quando nossa hora chegar. Pode ser muito antes do que gostaríamos.

 

Tenho muitas saudades do Carlos. Devo muito a ele como amigo leal que foi. Este texto foi escrito em honra dele, não para desmerecê-lo. Ele teve uma fé maravilhosa, concreta e vibrante até os últimos instantes de sua vida física. Só não soube identificar que o melhor para ele quem conhecia era Deus.

 

            Sua fé deve tê-lo acompanhado e com certeza o fez superar as dificuldades relativas à mudança de plano. Agora sinto que cumpro um desejo atual dele, para que alertemos aqueles cujos olhos não querem ver. Não sejamos radicais, mas tolerantes. Não sejamos imediatistas, mas resignados. Não sejamos imprevidentes, mas equilibrados.

 

            Espero que esse amigo receba minhas preces de carinho e conforto e lembre-se que o respeito muito. Que Jesus o ilumine e oriente para que suas aspirações sejam satisfeitas conforme a vontade do Pai.

 

Giselle Fachetti machado.

 

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