O Inferno
Autor: Aureliano Alves Netto
01/09/2005
Fonte: Livro: Luz na Penumbra
“Mas uma voz me disse:
O Céu e o Inferno estão em ti mesmo”.
Omar
Kháyyám.
Segundo o dogma do pecado original, todos os homens, manchados pela culpa de Adão, estariam virtualmente condenados às penas eternas, não fora a Misericórdia Divina haver-lhes facilitado um meio de salvação: o holocausto do filho de Deus feito homem, para redenção de quantos fossem eleitos para o recebimento da graça. Predestinação e favoritismo, incompatíveis com a bondade e perfeita justiça de Deus.
- Que pensar – indaga com razão E. Bellamare – de um juiz que condenasse um homem sob o pretexto de que, milhares de anos, um seu antepassado cometera um crime?
“Se o sacrifício de Jesus fosse necessário para salvar a humanidade terrestre, Deus deveria o mesmo socorro a outras Humanidades desgraçadas. Sendo, porém, ilimitado o número de mundos inferiores em que dominam as paixões materiais, o filho de Deus seria, por isso mesmo, condenado a sofrimentos e sacrifícios infinitos. É inadmissível semelhante hipótese”. (Cristianismo e Espiritismo – Léon Denis).
O dogma das penas eternas e o do pecado original se entrelaçam, guardando entre si estreitas relações de causa e efeito. Um já condenado, Satã, disfarçando-se em serpente, induz a primeira mulher ao pecado e a culpa de Eva contaminará todas as futuras gerações, per omnia saecula saeculorum. E como não são muitos os favorecidos pelo “estado de graça”, haja espaço nos departamentos do inferno...
Acreditava-se antigamente que a Terra era o centro do Universo e que o firmamento formava uma abóbada na qual se incrustavam as estrelas, ficando o Céu situado no alto e o Inferno embaixo.
Mas Copérnico demonstrou o duplo movimento dos planetas sobre si mesmos e à volta do Sol; e Galileu, seguindo-lhe as pegadas, proclamou a teoria heliocêntrica do Universo. Provou-se ser errônea a idéia de subir ao Céu ou de descer aos infernos. Evidenciou-se que, devido ao movimento de rotação da Terra, há lugares antípodas a se alternarem permanentemente de posição, e que, sendo infinito o espaço, não pode haver alto nem baixo no Universo.
Contudo, por mais estranho que pareça, ainda hoje, no século da cibernética e das viagens pelo Cosmo, há certas religiões que continuam querendo demonstrar o indemonstrável: a existência do inferno.
Não é fora de propósito, por conseguinte, alinharmos algumas considerações nossas e alheias, acerca do velho assunto que de há muito já devia ter saído de pauta.
Vale repetir a frase de Denis: - Admitir Satanás e o inferno eterno é insultar a Divindade.
Efetivamente. Deus, onisciente que é, conhece todo o passado e antevê o futuro. Ao criar uma alma, deve saber se ela haverá de cometer faltas graves. E, se tendo conhecimento antecipado dessas faltas, condena a alma ao sofrimento eterno, o Criador deixa de ser bom e justo.
Outro aspecto a considerar, na lúcida explanação de Kardec:
“Se Deus é inexorável para o culpado que se arrepende, não é misericordioso, deixa de ser infinitamente bom. E porque daria Deus aos homens uma lei de perdão, se Ele próprio não perdoasse? Resultaria daí que o homem que perdoa aos seus inimigos e lhes retribui o mal com o bem, seria melhor que Deus, surdo ao arrependimento dos que O ofendem, negando-lhes por todo o sempre o mais ligeiro carinho”.
“Achando-se em toda parte e tudo vendo, Deus deve ver também as torturas dos condenados; e se Ele se conserva insensível aos gemidos por toda a eternidade, será eternamente impiedoso; ora, sem piedade, não há bondade infinita”. (O Céu e o Inferno – Capítulo VI).
Afirma Bernardo Bartmann, em sua Teologia Dogmática, que “o fogo do inferno, em si, na sua natureza é semelhante ao fogo terrestre, mas dotado de propriedades particulares: não necessita ser aceso e alimentado”.
Santo Agostinho imagina um quadro pavoroso: num verdadeiro lago de enxofre, vermes e serpentes saciando-se nos corpos, conjugando suas picadas com as do fogo. Esse fogo, no entender de conceituados teólogos, queima sem destruir, penetrando a pele dos condenados, bem como embebendo e saturando-lhes todos os membros, medula dos ossos, pupila dos olhos, enfim, as mais recônditas fibras do seu ser.
O piedoso Doutor Angélico S. Tomás de Aquino, dá-nos ciência de que os bem-aventurados, ao contemplar as torturas dos condenados, “não somente serão insensíveis à dor, mas até ficarão repletos de alegria e renderão graças a Deus por sua própria felicidade, assistindo à inefável calamidade dos ímpios”.
Como conceber-se – objetamos nós, tanto gozo da parte de u´a mãe amorosa ou dum pai extremoso que, das beatíficas regiões celestes, observa, impassível, os ingentes sofrimentos do filho querido que foi dar com os costados no inferno?
Puro sadismo angelical, o que é uma contradição nos termos.
À vista de tanta insensatez e de tanto despautério, surge como um bálsamo a palavra sensata de um pastor evangélico, o reverendo Doutor Charles R. Brown, da Igreja Congregacionalista de Oakland e decano da Universidade de Yale:
“Hoje o Universalismo ensina que todos os homens colhem o que semeiam, segundo uma Justiça que não falha. Todo erro será castigado ou aqui ou além, mas sempre com o fim de corrigir o malfeitor. O inferno não é um lugar de condenação eterna e de desespero: é mais uma escola de reforma”.
* * *
PESQUISA (A ERA DO ESPÍRITO):
Texto extraído do livro “Instruções práticas sobre as Manifestações Espíritas”
obra de Allan Kardec
Expiação, pena que sofrem os Espíritos como punição das faltas cometidas durante a vida corporal. A expiação, sofrimento moral, ocorre no estado de erraticidade, como o sofrimento físico ocorre no estado corporal. As vicissitudes e os tormentos da vida corporal são ao mesmo tempo, provas para o futuro e expiação do passado.
Penas eternas. Os Espíritos superiores nos ensinam que só o bem é eterno, porque é a essência de Deus, e que o mal terá um fim. Por conseqüência deste princípio, combatem a doutrina da eternidade da penas como contrária à idéia que Deus nos dá de sua justiça e de sua bondade. Mas a luz não se faz para os Espíritos senão proporcionalmente à sua elevação: nas classes inferiores suas idéias são ainda obscurecidas pela matéria; o futuro para eles está coberto por um véu. Não vêem senão o presente. Estão na posição de um homem que sobe uma montanha: no fundo do vale a neblina e as voltas do caminho limitam-lhe a vista; é-lhe preciso chegar ao cimo para descortinar todo o horizonte, avaliar o caminho que fez e o que lhe resta fazer. Os Espíritos imperfeitos, não divisando o termo de seus sofrimentos, julgam sofrer sempre, e este pensamento mesmo é um castigo para eles. Se, pois, certos Espíritos nos falam de penas eternas, é porque eles próprios crêem nelas em conseqüência de sua inferioridade.
Provas, vicissitudes da vida corporal pelas quais os Espíritos se purificam segundo a maneira pela qual as suportam. Segundo a doutrina espírita, o Espírito desprendido do corpo, reconhecendo sua imperfeição, escolhe ele próprio, por ato de seu livre arbítrio, o gênero de provas que julga mais próprio ao seu adiantamento e que sofrerá em sua nova existência. Se ele escolhe uma prova acima de suas forças, sucumbe, e seu adiantamento e retardado.
* * *
TEXTOS EXTRAÍDOS DA CODIFICAÇÃO ESPÍRITA QUE JUSTIFICAM OS CASTIGOS DIVINOS E QUE DIZEM SEREM TEMPORÁRIOS, OU SEJA:
"O homem sofre sempre a conseqüência de suas faltas; não há uma só infração à lei de Deus que fique sem a correspondente punição. A severidade do castigo é proporcionada à gravidade da falta. Indeterminada é a duração do castigo, para qualquer falta; fica subordinada ao arrependimento do culpado e ao seu retorno a senda do bem; a pena dura tanto quanto a obstinação no mal; seria perpétua, se perpétua fosse a obstinação; dura pouco, se pronto é o arrependimento. Desde que o culpado clame por misericórdia, Deus o ouve e lhe concede a esperança. Mas, não basta o simples pesar do mal causado; é necessária a reparação, pelo que o culpado se vê submetido a novas provas em que pode, sempre por sua livre vontade, praticar o bem, reparando o mal que haja feito.
«O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO - CAPÍTULO XXVII - Pedi e obtereis - item 21
MAS, REPELEM AS PENAS ETERNAS.
“Que é o castigo? A conseqüência natural, derivada desse falso movimento; uma certa soma de dores necessária a desgostá-lo da sua deformidade, pela experimentação do sofrimento. O castigo é o aguilhão que estimula a alma, pela amargura, a se dobrar sobre si mesma e a buscar o porto de salvação. O castigo só tem por fim a reabilitação, a redenção. Querê-lo eterno, por uma falta não eterna, é negar-lhe toda a razão de ser.
“Oh! Em verdade vos digo, cessai, cessai de pôr em paralelo, na sua eternidade, o Bem, essência do Criador, com o Mal, essência da criatura. Fora criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, o abrandamento gradual dos castigos e das penas pelas transgressões e consagrareis a unidade divina, tendo unidos o sentimento e a razão.”
Comunicação de Paulo, Apóstolo dada na questão 1009 de «O LIVRO DOS ESPÍRITOS»
* * *
"Enquanto existir o mal entre os homens
subsistirão os castigos;"
Platão, resposta à questão 1009 «O LIVRO DOS ESPÍRITOS», 1889
* * *
EM OUTRAS OBRAS:
Textos extraídos do livro “Nos Domínios da Mediunidade” — FEB — 14a edição — 1985
F. C. Xavier > Médium psicógrafo
André Luiz > Autor Espiritual
... o que a vida começou, a morte continua... Esses nossos companheiros situaram a mente nos apetites mais baixos do mundo, alimentando- se com um tipo de emoções que os localiza na vizinhança da animalidade. Não obstante haverem freqüentado santuários religiosos, não se preocuparam em atender aos princípios da fé que abraçaram, acreditando que a existência devia ser para eles o culto de satisfações menos dignas, com a exaltação dos mais astuciosos e dos mais fortes. O chamamento da morte encontrou-os na esfera das impressões delituosas e escuras e, como é da Lei que cada alma receba da vida de conformidade com aquilo que dá, não encontram interesse senão nos lugares onde podem nutrir as ilusões que lhes são peculiares, porquanto, na posição em que se vêem, temem a verdade e abominam-na, procedendo como a coruja que foge à luz.
Meu colega (Hilário) fez um gesto de piedade e indagou:
- Entretanto, como se transformarão?
- Chegara o dia em que a própria Natureza lhes esvaziará o cálice — respondeu Aulus, convicto. — Há mil processos de reajuste, no Universo Infinito em que se cumprem os Desígnios do Senhor, chamam-se eles aflição, desencanto, cansaço, tédio, sofrimento, cárcere...
- Contudo — ponderei —, tudo indica que esses Espíritos infortunados não se enfastiarão tão cedo da loucura em que se comprazem...
- Concordo plenamente — redargüiu o instrutor —, todavia, quando não se fatiguem, a Lei poderá conduzi-los a prisão regeneradora.
- Como?
- A pergunta de Hilário ecoou, cristalina, e o Assistente deu-se pressa em explicar:
- Há dolorosas reencarnações que significam tremenda luta expiatória para as almas necrosadas no vício. Temos, por exemplo, o mongolismo, a hidrocefalia, a paralisia, a cegueira, a epilepsia secundária, o idiotismo, o aleijão de nascença e muitos outros recursos angustiosos, embora, mas necessários, e que podem funcionar, em benefício da mente desequilibrada, desde o berço, em plena fase infantil. Na maioria das vezes, semelhantes processos de cura prodigalizam bons resultados pelas provações obrigatórias que oferece...
- No entanto — comentei —, e se nossos irmãos encarnados visivelmente confiados à devassidão, resolvessem reconsiderar o próprio caminho?!... se voltassem à regularidade, através da renovação (transformação) mental com alicerces no bem?!...
- Ah! Isso seria ganhar tempo, recuperando a si mesmos e amparando com segurança os amigos desencarnados. .. Usando a alavanca da vontade, atingimos a realização de verdadeiros milagres... Entretanto, para isso, precisariam despender esforço heróico.
- André, sua dúvida é fora de propósito. Você possui bastante experiência para saber que a dor é o grande ministro da Justiça Divina. Vivemos a nossa grande batalha de evolução. Quem foge ao trabalho sacrificial da frente, encontra a dor pela retaguarda. O Espírito pode confiar-se à inação, mobilizando delituosamente a vontade, contudo, lá vem um dia a tormenta, compelindo-o a agitar-se e a mover-se para entender os impositivos do progresso com mais segurança. Não adianta fugir da eternidade, porque o tempo, benfeitor do trabalho, é também o verdugo da inércia.
- E esse delito ficará impune?
Aulus fixou a expressão de bom humor e respondeu:
- Não se preocupem demasiado. Quando o erro procede da ignorância bem-intencionada, a Lei prevê recursos indispensáveis ao esclarecimento justo no espaço e no tempo, porquanto a genuína caridade, sob qualquer título, é sempre venerável. Entretanto, se o abuso é deliberado, não faltará corrigenda.
* * *
Emmanuel, no livro «O CONSOLADOR» 2a parte - cap. V - Provação - q. 246
Qual a diferença entre provação e expiação?
A provação é a luta que ensina ao discípulo rebelde e preguiçoso a estrada do trabalho e da edificação espiritual. A expiação é a pena imposta ao malfeitor que comete um crime.
* * *
Bezerra de Menezes, cap. LXXXIV, Estudos Filosóficos, Edicel, São Paulo, Brasil, 1977.
"O Espiritismo não exclui os castigos, que constituem a sanção das leis divinas impostas à humanidade".
* * *
Com esta mensagem eletrônica
seguem muitas vibrações de paz e amor
para você
---------
[Ir para a página inicial - se estiver DENTRO DO SITE]
[Ir para a página inicial - se estiver FORA DO SITE]