É comum encontrarmos alguns autores espíritas que confundem alguns atributos do Espírito como sendo do perispírito. A sede da memória é um deles. Segundo Kardec, o Espírito é quem possui a sede da memória, pois ele é o ser inteligente, pensante e eterno. Sem o Espírito, o perispírito é uma matéria inerte privada de vida e sensações. É importante lembrar que os Espíritos ao passarem de um mundo para outro, mudam de perispírito de acordo com a natureza dos fluidos ambientes. Se no perispírito residisse a sede da memória, o Espírito a perderia cada vez que tivesse que mudar a constituição íntima de seu envoltório fluídico.
A mesma coisa se dá quando nos referimos à sede da sensibilidade. É o Espírito quem ama, sofre, pensa, é feliz, triste, ou seja, é nele que residem todas essas sensações ou faculdades. O perispírito é apenas o órgão que transmite todas essas sensações, portanto, é um instrumento a serviço do Espírito. Logo, segundo Kardec, é incorreto dizer que é no perispírito que ficam marcadas ou gravadas certas memórias ou atos do Espírito durante sua vida. Como já vimos, o perispírito é matéria, não pensa nem tem memória. Isso são atributos do Espírito.
94. D e onde tira o
Espírito o seu invólucro semimaterial?
“Do fluido universal de cada
globo, razão por que não é idêntico em todos os mundos. Passando de um mundo a outro, o
Espírito muda de envoltório, como mudais de
roupa.”
94a) - Assim, quando os
Espíritos que habitam mundos superiores vêm ao nosso meio, tomam um
perispírito mais grosseiro?
“É necessário
que se revistam da vossa matéria, já o dissemos.”
118. Podem os Espíritos
degenerar?
“Não; à medida que
avançam, compreendem o que os distanciava da perfeição. Concluindo uma prova, o Espírito fica com a ciência que
daí lhe veio e não a esquece. Pode permanecer
estacionário, mas não retrograda.”
180. Passando deste
planeta para outro, conserva o Espírito a inteligência que aqui
tinha?
“Sem dúvida; a inteligência não se perde. Pode, porém, acontecer que ele não disponha dos mesmos meios
para manifestá-la, dependendo isto da sua superioridade e das condições do
corpo que tomar.” (Veja-se: “Influência do organismo”. cap. VII, para
2ª.)
187. A substância do
perispírito é a mesma em todos os mundos?
“Não; é mais ou menos
etérea. Passando de um mundo a outro, o
Espírito se reveste da matéria própria desse outro, operando-se, porém, essa
mudança com a rapidez do relâmpago.”
257. (...)
(...) Ora, não sendo o perispírito, realmente, mais do que simples agente de transmissão, pois que no Espírito é que está a consciência, lógico será deduzir-se que, se pudesse existir perispírito sem Espírito, aquele nada sentiria, exatamente como um corpo que morreu. Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a toda e qualquer sensação dolorosa.
Haurido do meio ambiente, esse invólucro varia de acordo
com a natureza dos mundos. Ao passarem de um mundo a outro, os Espíritos
mudam de envoltório, como nós mudamos de roupa,
quando passamos do inverno ao verão, ou do pólo ao equador. Quando vêm visitar-nos, os mais elevados se revestem do
perispírito terrestre e então suas percepções se produzem como no comum dos
Espíritos. Todos, porém, assim os inferiores como
os superiores, não ouvem, nem sentem, senão o que queiram ouvir ou sentir.
Não possuindo órgãos sensitivos, eles podem,
livremente, tornar ativas ou nulas suas percepções. Uma só coisa são obrigados a ouvir - os conselhos dos
Espíritos bons. A vista, essa é sempre ativa; mas, eles podem fazer-se
invisíveis uns aos outros. Conforme a categoria que ocupem, podem ocultar-se
dos que lhes são inferiores, porém não dos que lhes são superiores. Nos
primeiros instantes que se seguem à morte, a visão do Espírito é sempre
turbada e confusa. Aclara-se, à medida que ele se desprende, e pode alcançar
a nitidez que tinha durante a vida terrena, independentemente da
possibilidade de penetrar através dos corpos que nos são opacos. Quanto à
sua extensão através do espaço indefinito, do futuro e do passado, depende
do grau de pureza e de elevação do Espírito.
(O Livro dos Espíritos - qs. 94, 94a, 118, 180, 187 e 257, § 4 e 7- obra codificada por Allan Kardec)
4ª Desde que o Espírito do médium há podido, em existências
anteriores, adquirir conhecimentos que esqueceu debaixo do envoltório
corporal, mas de que se lembra como Espírito, não poderá ele haurir nas
profundezas do seu próprio eu as idéias que parecem fora do alcance da sua
instrução?
"Isso acontece freqüentemente, no estado de crise sonambúlica, ou extática, porém, ainda uma vez repito, há circunstâncias que não permitem dúvida. Estuda longamente e medita."
O Livro dos Médiuns - 2a parte, cap. XIX, item 223, 4ª pergunta - obra codificada por Allan Kardec
8. - Do meio onde se encontra é que o Espírito extrai o seu perispírito, isto é, esse envoltório ele o forma dos fluidos ambientes. Resulta daí que os elementos constitutivos do perispírito naturalmente variam, conforme os mundos. Dando-se Júpiter como orbe muito adiantado em comparação com a Terra, como um orbe onde a vida corpórea não apresenta a materialidade da nossa, os envoltórios perispirituais hão de ser lá de natureza muito mais quintessenciada do que aqui. Ora, assim como não poderíamos existir naquele mundo com o nosso corpo carnal, também os nossos Espíritos não poderiam nele penetrar com o perispírito terrestre que os reveste. Emigrando da Terra, o Espírito deixa aí o seu invólucro fluídico e toma outro apropriado ao mundo onde vai habitar.
A Gênese- cap. XIV - item 8 - obra codificada por Allan Kardec
9. - A natureza do
envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento moral
do Espírito. Os Espíritos inferiores não podem mudar de envoltório a seu
bel-prazer, pelo que não podem passar, a vontade, de um mundo para outro.
Alguns há, portanto, cujo envoltório fluídico, se bem que etéreo e
imponderável com relação à matéria tangível, ainda é por demais pesado, se
assim nos podemos exprimir, com relação ao mundo espiritual, para não
permitir que eles saiam do meio que lhes é próprio. Nessa categoria se devem
incluir aqueles cujo perispírito é tão grosseiro, que eles o confundem com o
corpo carnal, razão por que continuam a crer-se vivos. Esses Espíritos, cujo
número é avultado, permanecem na superfície da Terra, como os encarnados,
julgando-se entregues às suas ocupações terrenas. Outros um pouco mais
desmaterializados não o são, contudo, suficientemente, para se elevarem
acima das regiões terrestres. ([1]) Os Espíritos superiores, ao contrário, podem vir aos mundos
inferiores, e, até, encarnar neles. Tiram, dos elementos constitutivos do
mundo onde entram, os materiais para a formação do envoltório fluídico ou
carnal apropriado ao meio em que se encontrem. Fazem como o nobre que despe
temporariamente suas vestes, para envergar os trajes plebeus, sem deixar por
isso de ser nobre. É assim que os Espíritos da categoria mais elevada podem
manifestar-se aos habitantes da Terra ou encarnar em missão entre estes.
Tais Espíritos trazem consigo, não o
invólucro, mas a lembrança, por intuição, das regiões donde vieram e que, em
pensamento, eles vêem. São videntes entre
cegos.
A Gênese- cap. XIV – item 9 - obra codificada por Allan Kardec
10. - A camada de fluidos espirituais que cerca a Terra se pode
comparar às camadas inferiores da atmosfera, mais pesadas, mais compactas,
menos puras, do que as camadas superiores. Não são homogêneos esses fluidos;
são uma mistura de moléculas de diversas qualidades, entre as quais
necessariamente se encontram. as moléculas elementares que lhes formam a
base, porém mais ou menos alteradas. Os efeitos que esses fluidos produzem
estarão na razão da soma das partes puras que eles encerram. Tal, por comparação, o álcool retificado, ou misturado, em
diferentes proporções, com água ou outras substâncias: seu peso específico
aumenta, por efeito dessa mistura, ao mesmo tempo que sua força e sua
inflamabilidade diminuem, embora no todo continue a haver álcool puro.
Os Espíritos chamados a viver naquele meio
tiram dele seus perispíritos; porém, conforme seja mais ou menos depurado o
Espírito, seu perispírito se formará das partes mais puras ou das mais
grosseiras do fluido peculiar ao mundo onde ele encarna. O Espírito produz aí, sempre por comparação e não por
assimilação, o efeito de um reativo químico que atrai a si as moléculas que
a sua natureza pode assimilar. Resulta disso
este fato capital: a constituição íntima do perispírito não é idêntica em
todos os Espíritos encarnados ou desencarnados que povoam a Terra ou o
espaço que a circunda. O mesmo já não se dá com o
corpo carnal, que, como foi demonstrado, se forma dos mesmos elementos,
qualquer que seja a superioridade ou a inferioridade do Espírito. Por isso,
em todos, são os mesmos os efeitos que o corpo produz, semelhantes as
necessidades, ao passo que diferem em tudo o que respeita ao perispírito.
Também resulta que: o envoltório perispirítico de um Espírito se modifica
com o progresso moral que este realiza em cada encarnação, embora ele
encarne no mesmo meio; que os Espíritos superiores, encarnando
excepcionalmente, em missão, num mundo inferior, têm perispírito menos
grosseiro do que o dos indígenas desse mundo.
A Gênese- cap. XIV – item 10 - obra codificada por Allan Kardec
12. Fazeis distinção
entre o vosso Espírito e o vosso perispírito? Qual a diferença que
estabeleceis entre as duas coisas?
“Penso, logo sinto e
tenho uma alma, como diz o filósofo. Não sei mais do que ele a respeito.
Quanto ao perispírito, é uma forma, como sabeis, fluídica e natural; mas
buscar a alma é querer buscar o absoluto
espiritual.”
13. Crede que a faculdade
de pensar resida no perispírito? Numa palavra, que a alma e o perispírito
sejam uma só e mesma coisa?
“É absolutamente como se perguntásseis se o pensamento
reside no vosso corpo. Um se vê, o outro se sente
e se concebe.”
14. Assim, não sois um
ser vago e indefinido, mas um ser limitado e circunscrito?
“ Limitado, sim; mas
rápido como o pensamento.”
Revista Espírita (Jornal de Estudos Psicológicos publicado sobre a direção de Allan Kardec), Ano IV, maio de 1861, pág. 159 - EDICEL.
Pela morte do corpo, a humanidade corporal fornece almas ou Espíritos ao mundo espiritual; pelos nascimentos, o mundo espiritual alimenta o mundo corporal; há, pois transmutação ou deversão incessante de um no outro. Esta relação constante os torna solidários, pois são os mesmos seres que entram no nosso mundo e dele saem alternativamente. Eis um primeiro traço de união, um ponto de contato, que já diminui a distância que parecia separar o mundo visível do mundo invisível.
A natureza íntima da alma, isto é, do princípio inteligente, fonte do pensamento, escapa completamente às nossas investigações. Mas sabe-se agora que a alma é revestida de um envoltório ou corpo fluídico, que dela faz, após a morte do corpo material, como antes, um ser distinto, circunscrito e individual. A alma é o princípio inteligente considerado isoladamente; é a força atuante e pensante, que não podemos conceber isolada da matéria senão como uma abstração. Revestida de seu envoltório fluídico, ou perispírito, a alma constitui o ser chamado Espírito, como quando está revestida do envoltório corporal, constitui o homem. Ora, posto que no estado de Espírito goze de propriedades e de faculdades especiais, não cessou de pertencer à humanidade. Os Espíritos são, pois, seres semelhantes a nós, pois cada um de nós torna-se Espírito após a morte do corpo, e cada Espírito torna-se homem pelo nascimento.
Esse envoltório não é a alma, pois não pensa: é apenas uma vestimenta; sem a alma, o perispírito, assim como o corpo, é uma matéria inerte privada de vida e de sensações. Dizemos matéria, porque, com que efeito, o perispírito, posto que de uma natureza etérea e sutil, não é menos matéria com os fluidos imponderáveis e, demais, matéria da mesma natureza e da mesma origem que a mais grosseira matéria tangível, como logo veremos.
A alma não reveste o perispírito apenas no estado de Espírito; é inseparável desse envoltório, que a segue na encarnação, como na erraticidade. Na encarnação, é o laço que a une ao envoltório corporal, o intermediário com cujo auxílio age sobre os órgãos e percebe as sensações das coisas exteriores. Durante a vida, o fluido perispiritual identifica-se com o corpo, cujas partes toda penetra; com a morte, dele se desprende; privado da vida, o corpo se dissolve, mas o perispírito, sempre unido à alma, isto é, ao princípio vivicante, não percebe; apenas a alma, em vez de dois envoltórios conserva apenas uma: a mais leve, a que esta mais em harmonia com o seu estado espiritual.
Posto que esses
princípios sejam elementares para os Espíritas, era útil lembrá-los para a
compreensão das explicações subsequentes e a ligação das
idéias.
Revista Espírita (Jornal de Estudos Psicológicos publicado sobre a direção de Allan Kardec), Ano IX, março de 1866, págs. 72 e 73 - EDICEL.