O PIOR DOS MALES

Gil Restani de Andrade

  • Dentre os vícios, qual pode ser considerado maior?
  • Nós o dissemos muitas vezes. O Egoísmo. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos está o Egoísmo.(...)

(O Livro dos Espíritos – excerto da questão nº913)

Ao receber esta resposta peremptória, inserida no Capítulo XII da obra maior da Codificação Espírita, Allan Kardec, arguto, judicioso, intuído, prossegue obtendo mais e mais características do "pior dos males", do "monstro moral" que vem se assenhoreando da Humanidade, desde priscas eras.

Compreendendo a importância do tema, finaliza seu questionário inserindo belíssima lição do Espírito Fénelon (1), bem como outra, de sua própria lavra, não menos bela e ainda eivada dos argumentos racionais, lógicos, do primeiro dos "Cientistas da Espiritualidade" em que se convertera.

Nosso objetivo, contudo, não é discorrer sobre essas peças, conquanto seu destaque, nesta oportunidade.

Entendemos ser suficiente sua citação para que fique expresso o convite aos confrades que lêem este despretensioso comentário.

A Espiritualidade Superior, na resposta à questão 914 de "O Livro dos Espíritos", na qual Kardec alude à grande dificuldade que antevê para a extirpação do egoísmo do coração dos homens, assim se manifesta: "Aliás, é preciso reformar as instituições humanas que o entretêm e o excitam. Isso depende da educação."

Da segunda metade do século XIV até nossos dias sensível progresso institucional se registrou, sem dúvida; podemos citar, como exemplos:

· O desaparecimento do duelo, como forma de manutenção da honra;

· Extinção da escravidão;

· Desenvolvimento da igualdade entre os homens;

· Desaparecimento ou desvalorização das distinções nobiliárquicas;

· Melhoria acentuada no posicionamento da mulher, na Sociedade;

· Maior liberdade para povos anteriormente submetidos ao jugo temporal

das nações mais poderosas;

· Maior liberdade de crença, com diminuição de poder das igrejas

tradicionais;

· Criação de uma Instituição de âmbito internacional, voltada

fundamentalmente para a paz, a saúde, a cooperação mútua e para

defesa dos direitos universais do homem .(ONU).

Se houve acentuada evolução no período, em termos institucionais e nos campos da ciência e da tecnologia, tal não se verifica no campo educacional.

Ressalvando, logo de início, estarmo-nos referindo à educação no seu sentido lato ou amplo, explicamo-nos.

 

É fora de dúvida que:

· O número de instituições de ensino multiplicou-se quase proporcionalmente ao crescimento populacional;

· O número de pessoas alfabetizadas, em termos relativos, é, sem dúvida, muito maior;

· As oportunidades para alguém chegar até aos níveis superiores do conhecimento cresceram geometricamente.

É também inquestionável que:

· As bases de desenvolvimento intelectual e político do homem passaram a

obedecer "escolas filosóficas" bem caracterizadas, dividindo a Humanidade

em duas facções primordiais, que se subdividem em vertentes secundárias;

· As bases filosóficas assim dispostas interpenetram-se às crenças religiosas de cada povo, e, na maior parte das ocasiões são estas que "têm" que se adequar àquelas, no sentido da sobrevivência, na maioria das vezes;

· Nesta circunstância, nota-se a prevalência do egoísmo e de um de seus filhos, a prepotência, sobre os próprios valores morais dos vários pensamentos de fé e religiosidade.

Sem nos voltarmos para outras crenças religiosas que não a cristã, por não as conhecermos senão ligeiramente, havemos de olhar o que, em termos educacionais, tem sido mal orientado, dentro do Cristianismo, de molde a que o egoísmo mantenha-se ainda entretido e excitado, como percebemos.

A base do Cristianismo acha-se nos Evangelhos. Conquanto as divergências no texto da "Vulgata Latina" ao longo do tempo, em decorrência dos "ajustes", para fazer valer essa ou aquela decisão conciliar, ou mesmo com o sentido de contrariá-las, dos "desencontros" de terminologia por peculiaridades lingüísticas, são esses textos que nos trazem a essência do pensamento de Jesus, interessando a nós, espíritas, de modo específico, o aspecto moral de seus ensinamentos.

Nesse particular, dois versículos, um do Evangelho de Mateus e outro do de Marcos, interessam-nos muito de perto, por virem, de longa data, influenciando o Cristianismo e, mais especificamente, as religiões dele derivadas.

O primeiro, de Mateus, acha-se consignado no Capítulo 12, Versículo 30: "Quem não é comigo, está contra mim". O segundo, de Marcos, no Capítulo 9, Versículos 39 ou 40: "Porque quem não é contra nós, é por nós".

Caros irmãos que nos honram com a leitura destas linhas, interrompam-na agora por um instante e meditemos juntos: Quantos crimes, quanta injustiça, quanto sangue vem sendo derramado em nome do Meigo Rabi da Galiléia, pelo apego à letra da Boa Nova? Arianos, Apolonistas, Judeus, Muçulmanos, Ocultistas, Protestantes, Católicos, Espíritas, todos temos o nosso repto de lamento pela interpretação lítero-interessada do Evangelho de Mateus, a que vem vigorando no mundo ocidental por todos os pessimistas, interessados, totalitários, os de "espírito fechado", segundo famosos pensador católico. Ninguém parou, sequer por um momento, para constatar a sensível diferença dos dois verbos de ligação da sentença.

É, do verbo ser, significa engajamento, adesão, participação, responsabilidade. Está, do verbo estar, significa posição de momento, de ocasionalidade. Fácil de se entender a questão, ao nos lembrarmos de determinado Ministro de Estado, que indagado sobre sua situação no cargo, respondeu: "Eu não sou Ministro; estou Ministro."

O evangelista Marcos liquida de vez o desentendimento. Como se pode constatar, sua sentença é otimista, veraz e pacificante. Não tem a força de antagonismo, de autoritarismo, como a de Mateus. É preferida pelos "espíritos abertos", dela não constando o verbo estar.

Temos, contudo, de indagar: qual dos dois é mais conhecido e divulgado? E, ainda que não segundo sua letra, qual o modo de proceder da maior parte da Humanidade, em nossos dias? Aos co-irmãos, aos consangüíneos, aos compatriotas, tudo. Aos outros...

"A cura poderá ser demorada, porque as causas são numerosas, mas não é impossível. A isso não se chegará, de resto, senão pela educação; não essa educação que tende a fazer homens instruídos, mas que tende a fazer Homens de Bem. A educação, se bem entendida, é a chave do progresso moral." Allan Kardec. (Trecho da nota dissertativa inserida após a do Espírito Fénelon, como complemento à resposta à questão nº 917 de "O Livro dos Espíritos")

(1) Fénelon – Escritor e prelado francês (1651-1715). Seus escritos, pela autenticidade, valeram-lhe a perseguição do Estado, à época de Luís XIV e a condenação da Igreja Católica, por entendê-lo adepto do "quietismo", doutrina que entendia que a perfeição individual cristã era obtida pela anulação das vontades individuais.

 

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