Orígenes e a
Palingenesia
FONTE:
Anuário
Espírita 1971 – Wallace Leal
Rodrigues
Supõe-se
que Orígenes tenha nascido em
Alexandria, por volta do ano 185. Depois
do martírio de
seu
pai Leônidas (202), cuidou da família, dedicando-se ao ensino.
Em 202, quando
Clemente abandona a
Escola
Alexandrina, Orígenes o substitui. Durante o seu magistério a Escola
atingiu o seu
apogeu
de esplendor. Ensinando teologia e filosofia,
Orígenes, por sua
vez, estudava, completando sua formação
filosófica
com o neoplatônico Ammônio
Sacas. Para
consultas diretas às fontes bíblicas,
aprendeu hebreu. Levava vida de rigoroso ascetismo. Em 212
visitou Roma, em 230, a Grécia. Foi ordenado presbítero
na Palestina,
apesar
de ser eunuco
e sem o
consentimento
do bispo Demétrio.
Este,
aborrecido, nos
sínodos de Alexandria em 231 e 232 degradou-o, expulsando-o da comunidade de Alexandria.
Dirigiu-se a Cesaréia, na Palestina, sendo bem
acolhido pelo bispo
Teoctisto. Ali fundou uma escola semelhante
à de Alexandria, tornando-se célebre
por
sua cultura.
Um seu
discípulo, Ambrósio, pôs à sua disposição sete taquígrafos
e numerosos
copistas
e calígrafos, para
que recolhessem o
que
ditava. Em 232 Júlia Mamea, mão do imperador
Alexandre Severo, chamou-o a Antióquia,
Síria, desejando ser instruída por ele. Na perseguição movida por
Décio, foi encarcerado e atormentado barbaramente. Em
razão dos maus
tratos sofridos
veio
a falecer em Tiro, aos setenta anos,
em 254 ou
255.
É o
maior
teólogo da escola
oriental; sua
influência foi universal;
é o pai da
teologia
grega. Já
em vida
Orígenes foi muito discutido, apreciado por uns e combatido
por outros.
Os padres gregos
do século IV veneraram-no com um Mestre, mas a partir de 543 passa a
ser anatematizado por
“seus erros”,
à sua excomunhão
aderindo todos os
Concílios
orientais. Na
Idade
Média passou por
herege. A partir do Renascimento e especialmente
em nosso
tempo reconhece-se a grande importância
teológica de Orígenes, e isso, segundo a
Igreja, apesar
de sua “doutrinas
errôneas”. Entre essa “doutrinas errôneas”, ensinadas
por
Origenes, a reencarnação reponta como a mais significativa.
Por esse motivo
tem-se feito em
torno de sua
obra uma
conspiração
de silêncio. Ruffinus, traduzindo o texto do “De Principiis”, em
quatro livros,
sua obra
mais conhecida
e onde se encontram
seus
“principais erros”,
suprimiu o que se referia à palingenesia.
Essa versão duvidosa
pode, no entanto, ser
corrigida por
citações
de S. Jerônimo e outros (Ed. Koetschan,
CB, 3; Freiburg, 1894).
Para
desembaraçar
a doutrina de
Cristo
de toda a relação
com a reencarnação e ao mesmo tempo diminuir a importância
da palavra de Origenes, os escritores ortodoxos
passaram a dizer que
este grande
“Pai da Igreja”
tirou seus erros
de Platão. Não é
assim. Origenes aceitara essa doutrina
– diz Pascal – de Clemente de Alexandria, que, por sua vez, a
recebeu de Pantène, discípulo dos primeiros cristãos.
Pantène foi primeiro mestre
da Escola de Alexandria. Desde o ano de
181 é encontrado expondo e explicando o Cristianismo
em Alexandria. As
convicções
reencarnacionistas de Pantène certamente
se fortaleceram quando, por volta de
190, no “interesse do Cristianismo”, fez uma viagem
à Índia, isto
é, ao sua da Arábia. A doutrina palingenésica na Índia
parece ser imemorial.
Ali Pantène deve ter
visto confirmado o
que
aprendera da primeira geração cristã. Sabe-se que
seu mais
ilustre discípulo
foi Clemente de Alexandria que, por sua vez foi orientador
de Origenes. Como se viu, Origenes
substituiu-o à cabeça da Escola. Pantène morreu por
volta do ano
de 202 depois de
Cristo. Dos seus
numerosos
escritos subsistem
apenas
dois pequenos
fragmentos (V. Enc. De Berthelot, pág.
956, t, XXV).
Contrariando os seus intérpretes, o próprio
Origenes protesta
mais
de uma vez conta
a concepção
platônica
da palingenesia. Em “Contra Celso” (livro IV, c. XVII), obra
em que
refuta um
platônico e racionalista, que pinta Jesus
Cristo como
um mentiroso
e seus milagres
como fraude
de seus
discípulos, fazendo a propagação
do Cristianismo um
efeito do terror
pelo juízo de
Deus, Origenes escreve:
Celso é completamente ignorante
do objetivo de
nossos
escritos; é sobre
a interpretação
que ele
dá que leva
ao descrédito, e
não
sobre a sua
significação real. Se ele houvesse refletido sobre
o que é necessário
a uma alma destinada à vida eterna, se
ele houvesse pensado na natureza da sua
essência e de seu
princípio, não
teria tornado
ridícula
a entrada do que
é imortal em
um corpo
mortal, entrada
que se efetua,
não
segundo o
ensinamento
platônico
da metempsicose,
mas segundo
uma visão mais
elevada deste
fato.
Aqui,
pois, vemos Origenes discordando do “ensinamento
platônico” da
metempsicose”.
Qual é o seu
ensinamento? É
difícil
de ser apresentado com
clareza. Ele
o envolveu em
reticências
e o expôs em uma
linguagem
para a qual a
filosofia atual
nem sempre
conhece a chave.
Todavia
ele surge
completo.
Abarca a preexistência e a
reencarnação, e mesmo certas associações
particulares de
almas
humanas com almas
animais,
associações
já antes
dele assinaladas e que, no dizer de Pascal, são fatos capitais na misteriosa
metempsicose. Em
nosso tempo
André Luiz lança
forte jorro
de luz sobre
o fenômeno nebulosamente
pressentido ao longo dos tempos, enquadrando-o nas diversas caracterizações da
licantropia espiritual.
Mas, eis com
Origenes explica a preexistência das almas
nos universos
anteriores:
A alma não tem começo nem fim (“De
Principiis”, liv. III, c.V).
As criaturas razoáveis existiam desde
o começo destes
séculos,
que nos
não vemos e que
são eternos.
Houve aí a
descida
de uma condição
superior
a uma condição
inferior,
não somente entre as almas que mereceram esta mudança
por suas
ações, mas
também entre
as que, para
servirem o mundo, deixaram as altas esferas pela nossa. O Sol, a Lua, as estrelas e os anjos
servem o mundo, servem as almas cujos defeitos mentais
as condenaram a encarnar-se em corpos grosseiros,
e é por interesse
das almas que
tem necessidade
de corpos densos,
que o mundo
foi criado... A
variedade
deste arranjo foi
obra
de Deus, que
estabeleceu segundo as causas que o livre arbítrio
das almas criaram no passado (“De Principiis”, liv. III, c.V).
A evolução no curso dos renascimentos
é claramente indicada; a desigualdade de
condições provém de
vidas
anteriores:
Não é
razoável
que as almas
sejam introduzidas nos corpos em relação com seus méritos e
as suas ações
anteriores, e que
aquelas que utilizaram os seus corpos para praticarem a maior
soma de bem possível tenham direito
a um corpo
dotado de qualidades superiores aos outros
corpos? (“Contra
Celso”, liv. I).
Todas as almas
alcançaram o mesmo
fim
(“Contra Celso”,
liv. I); as almas engrandecem-se pouco a pouco,
atingem a Terra e aprendem as
lições
que ela
lhes pode dar,
depois sobem a um
lugar melhor
e chegam finalmente
ao estado de perfeição
(“De Principiis”, liv. I, c. VI). Mediante
vidas repetidas
em
diversas esferas
onde
elas tomam corpos
em relação
com o mundo
que habitam, estas
almas
caídas reconquistarão a pureza e a bondade (“Contra
Celso”, c.VI e VII). Certas almas
chegadas ao repouso completo voltam em
novos corpos,
em mundos
novos; umas conservam-se fiéis, as outras
degeneram-se de tal forma que se tornam demônios (“De Principiis”, liv. IV, c.IV).
E alhures:
A alma, sendo imaterial e invisível,
não pode existir
em nenhum
lugar material
sem revestir
corpos
apropriados
a este lugar;
ela rejeita, num
dado
momento, um
corpo que
era necessário
até aí,
mas do qual
não tem
necessidade, e ela o
troca
por outro.
(“Contra Celso”,
liv. VII, c. XXXII).
Origenes serviu-se muito
da doutrina dos
renascimentos
para criticar e justificar os livros sagrados. Fazendo alusão
a certas
passagens
da Bíblia, ele
diz:
Se o nosso destino atual não era determinado pelas obras
de nossas existências passadas, como poderia Deus ser justo, permitindo
que primogênito
servisse ao mais
jovem
e fosse odiado, antes de
haver
cometido atos merecendo a servidão e o ódio?
Só as vidas
anteriores podem
explicar
a luta de Jacob e Esaú, antes do seu
nascimento, a eleição de Jeremias durante o tempo
em que estava ainda
no seio de sua
mãe..., e tantos
outros fatos
que atirarão o
descrédito
sobre a justiça
divina, se não
forem justificados por atos bons ou maus,
cometidos ou praticados em existências passadas (“Contra
Celso”, liv. I, III).
Se bem
que
a “metensomatose”, isto é, a verdadeira doutrina de Origenes, não
seja apresentada sob uma
forma
clara, a palingenesia não é posta em dúvida por ele, que influenciou consideravelmente os filósofos cristão dos primeiros
séculos e foi acolhido com simpatia até a sua condenação no Sínodo
de Constantinopla. As seitas da época, conforme argumenta Pascal,
e as do séculos
consecutivos
– simonistas, basilistas, velencianistas, marcionistas, gnósticos, maniqueus,
priscilianos, cátaros, tártaros, albigenses, bogomilenses, etc. – eram todas
reencarnacionistas.
O Sínodo de
Constantinopla ocorreu em 543. Foi nesta
data precisamente
que se condenou ao
esquecimento
um ensinamento
sublime que
a Igreja tinha
o dever de conservar preciosamente e transmitir
às gerações futuras
como
um farol em meio aos escolhos sociais,
um ensinamento
que teria
desenraizado
esse egoísmo
estúpido que
ameaça
aniquilar o mundo,
que nos
dá uma perfeita
idéia
da justiça de
Deus, contrapondo-se á velha doutrina das graças
e das predestinações, que anula o valor
do esforço humano
em detrimento
de afirmativas inconsistentes e
originárias de uma escolástica profundamente humana.
Em 553, no grande Concílio
realizado em Constantinopla, convocado por Justiniano, que
se envolvia em
questões
teológicas, tratou-se de três pequenos escritos
diferentes, que
não se conhecem
mais
em nossos
dias. Eram denominados “os três capítulos”.
Disputou-se também
sobre
algumas passagens de Origenes.
O bispo de Roma, um certo
Virgílio, quis ir lá
ter em pessoa; mas
Justiniano fê-lo pôr em
cadeia. O
patriarca
de Constantinopla presidiu a este Concílio. Nele não
compareceu ninguém da Igreja latina, porque, então, o
grego não
era mais
compreendido no Ocidente, tornado inteiramente
bárbaro (Voltaire, Dict. Phisosophique,
pág. 609).
A respeito, a
“Encyclopédie de Berthelot” comenta o seguinte:
Em 2 de junho, tendo já
proclamado o direito da Igreja de pronunciar uma condenação póstuma
contra um
herético, resumiu as sua
decisões precedentes e condenou formalmente os três
capítulos e, em
outra, a pessoa
de Teodoro. Estes
anátemas
foram pronunciados com expressões análogas aqueles
em que
Justiniano se serviu nos seus éditos. Ele adotou semelhantemente,
contra
os ERROS DE ORIGENES as
condenações
contidas num édito de Justiniano e
confirmadas por
um
precedente Concílio de Constantinopla.
Virgílio resignou-se finalmente a aprovar todas essas decisões,
etc. (E. H. Vollet. Pág. 627).
Com estas decisões infelizes,
roubou-se a reencarnação ao Cristianismo.
O trabalho dos Espíritos
Superiores,
através
de Allan Kardec conseguiria a sua reincorporação tal
qual a temos hoje,
enquanto homens
de ciência, o Dr. Ian Stevenson, por exemplo,
tornam “best-seller”,
um livro
contendo “Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação”. Taxado de
herege
e relegado ao esquecimento, Origenes pode
voltar a ter o seu momento entre os precursores
da Revelação. Excetuando-se João
Crisóstomo e Agostinho, nenhum dos Pais da Igreja
o comparam pela
sua
cintilante inteligência e
erudição. Eusébio denomina-o: “o homem
de aço”.
Para os
espíritas
Origenes ergue-se agora como um desafio crítico.
http://www.universoespirita.org.br/catalogo_dos_espiritos/artigos/ORIGENES.htm
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