Os espíritos se comunicam na Igreja Católica

(as almas do purgatório se manifestam a fiéis)

Ora, ninguém, dotado de senso comum e que saiba racionar, pode ignorar a existência de uma comunidade e de uma comunhão entre os que vivem, com os que faleceram. (Golo Mann, 1909-1994).

Estamos rodeados por pessoas falecidas que, indizivelmente tristes, querem comunicar-se conosco enquanto olhamos unicamente para o mundo terreno. Oh! que miserável escravidão em que nos metem os sentidos! (Dr. Peter Gehring, 1953-2003).

Introdução

Embora, num esforço inaudito, se tente provar que os mortos não se comunicam, a verdade é que eles não estão nem aí para isso e se comunicam assim mesmo. Podemos ver que, dentro da Igreja Católica, a manifestação dos defuntos é coisa comum, apesar de fazerem de tudo para que isso não venha à tona, porquanto haverá de se mudar dogmas impostos à força, o que poderá abalar a sua credibilidade como uma instituição religiosa.

É evidente a contradição dos católicos, pois, apesar de dizerem que os mortos não se comunicam, mesmo assim não deixam de fazer seus pedidos ao santo ao qual dedicam a sua devoção. O pobre do Santo Antônio então, coitado, desde quando foi elevado a esse status de santo, não tem mais paz, tantos os petitórios que lhe fazem as solteironas, que não largam de sua batina, em súplica desesperada para conseguirem um bom marido. Ele faz cada “milagre” que espanta a qualquer um.

Quando lhes demonstramos que também eles evocam os mortos (já que santo vivo, só mesmo o Santo Padre, o Papa), nos apresentam o argumento de que não “evocam”, mas “invocam”. Diante disso é bom socorrer-nos com o Houaiss:

evocar: 1 t.d. chamar (algo, ger. sobrenatural), fazendo com que apareça “evocou todos os santos que conhecia para ajudá-lo naquela hora”; 2 t.d. tornar (algo) presente pelo exercício da memória e/ou da imaginação; lembrar “saudoso, evocava a infância com freqüência”,apaixonado, evocava o rosto da amada”; 3 t.d. jur passar (causa judicial) de um tribunal a outro.

Invocar: 1.t.d. chamar em auxílio, pedir a proteção de (falando ger. de seres ou forças divinas, sobrenaturais); suplicar “i. os santos”; 2 t.d. pedir auxílio, assistência; recorrer “i. a ajuda dos amigos”; 3 t.d. evocar (quaisquer forças sobrenaturais, ocultas) “i. os espíritos de antepassados”; 4 t.d. B infrm. causar irritação a; provocar (alguém) “a conversa mole dele invoca qualquer um”; 5 t.d. B infrm. deixar cismado; dar o que pensar a, intrigar “ele o invocou quando evitou o assunto do relógio roubado”; 6 t.i. e pron. B infrm. não simpatizar; antipatizar com “invocou(-se) com a cara dele logo de saída”; 7 t.d. jur alegar a seu favor, aduzir como prova do que se diz “i. leis, precedentes, testemunhos”.

Todos os dois verbos poderão ser usados indistintamente, já que ambos podem assumir o mesmo significado, que é chamar por algo sobrenatural, uma vez que é assim que todos vêem os fenômenos de aparição de um santo; dessa mesma forma é que também vêem a manifestação de qualquer outro espírito. Somente a Doutrina Espírita é que procura demonstrar que tais coisas estão estritamente dentro das leis divinas; conseqüentemente, são leis naturais, que ainda não são vistas assim, porquanto prevalecem a ignorância e o preconceito diante delas.

Seriam as comunicações com os mortos algo abominável a Deus (Dt 18,12)? A questão é: Deus faria uma lei que pudesse levar a algo contrário ao que ele deseja ou que viesse a aborrecê-Lo? Certamente que não! Portanto, se existe a possibilidade de se comunicar com os mortos, é porque Deus criou uma lei para que isso aconteça, sem nenhuma dúvida. Mas, e a proibição? Reputamo-la provinda da vontade de Moisés, que não queria que se evocassem os mortos para fins de adivinhação, pois o que ele proibiu foi a necromancia, que é exatamente isso. Só que espertamente alguns teólogos querem fazer dessa proibição mosaica seu cavalo de batalha, ou seja, uma proibição divina, porquanto, morrem de medo de que os “mortos” venham a revelar outra verdade, da qual nem querem ouvir falar.

Vejamos o que Kardec falou a respeito disso, no Cap. XI, de O Céu e o Inferno:

Da proibição de evocar os mortos

1. - A Igreja de modo algum nega a realidade das manifestações. Ao contrário, como vimos nas citações precedentes, admite-as totalmente, atribuindo-as à exclusiva intervenção dos demônios. É debalde invocar os Evangelhos como fazem alguns para justificar a sua interdição, visto que os Evangelhos nada dizem a esse respeito. O supremo argumento que prevalece é a proibição de Moisés. A seguir damos os termos nos quais se refere ao assunto a mesma pastoral que citamos nos capítulos precedentes:

"Não é permitido entreter relações com eles (os Espíritos), seja imediatamente, seja por intermédio dos que os evocam e interrogam. A lei moisaica punia os gentios. Não procureis os mágicos, diz o Levítico, nem procureis saber coisa alguma dos adivinhos, de maneira a vos contaminardes por meio deles. (Cap. XIX, v. 31.) Morra de morte o homem ou a mulher em quem houver Espírito pitônico; sejam apedrejados e sobre eles recaia seu sangue. (Cap. XX, v. 27.) O Deuteronômio diz: Nunca exista entre vós quem consulte adivinhos, quem observe sonhos e agouros, quem use de malefícios, sortilégios, encantamentos, ou consultem os que têm o Espírito pitônico e se dão a práticas de adivinhação interrogando os mortos. O Senhor abomina todas essas coisas e destruirá, à vossa entrada, as nações que cometem tais crimes." (Cap. XVIII, vv. 10, 11 e 12.)

2. - É útil, para melhor compreensão do verdadeiro sentido das palavras de Moisés, reproduzir por completo o texto um tanto abreviado na citação antecedente. Ei-lo: "Não vos desvieis do vosso Deus para procurar mágicos; não consulteis os adivinhos, e receai que vos contamineis dirigindo-vos a eles. Eu sou o Senhor vosso Deus." (Levítico, cap. XIX, v. 31.) O homem ou a mulher que tiver Espírito pitônico, ou de adivinho, morra de morte. Serão apedrejados, e o seu sangue recairá sobre eles." (Idem, cap. XX, v. 27.) Quando houverdes entrado na terra que o Senhor vosso Deus vos há de dar, guardai-vos; tomai cuidado em não imitar as abominações de tais povos; - e entre vós ninguém haja que pretenda purificar filho ou filha passando-os pelo fogo; que use de malefícios, sortilégios e encantamentos: que consulte os que têm o Espírito de Píton e se propõem adivinhar, interrogando os mortos para saber a verdade. O Senhor abomina todas essas coisas e exterminará todos esses povos, à vossa entrada, por causa dos crimes que têm cometido. (Deuteronômio, cap. XVIII, vv. 9, 10, 11 e 12.)

3. - Se a lei de Moisés deve ser tão rigorosamente observada neste ponto, força é que o seja igualmente em todos os outros. Por que seria ela boa no tocante às evocações e má em outras de suas partes? É preciso ser conseqüente. Desde que se reconhece que a lei moisaica não está mais de acordo com a nossa época e costumes em dados casos, a mesma razão procede para a proibição de que tratamos.

Demais, é preciso expender os motivos que justificavam essa proibição e que hoje se anularam completamente. O legislador hebreu queria que o seu povo abandonasse todos os costumes adquiridos no Egito, onde as evocações estavam em uso e facilitavam abusos, como se infere destas palavras de Isaías: "O Espírito do Egito se aniquilará de si mesmo e eu precipitarei seu conselho; eles consultarão seus ídolos, seus adivinhos, seus pítons e seus mágicos." (Cap. XIX, v. 3.)

Os israelitas não deviam contratar alianças com as nações estrangeiras, e sabido era que naquelas nações que iam combater encontrariam as mesmas práticas.

Moisés devia, pois, por política, inspirar aos hebreus aversão a todos os costumes que pudessem ter semelhanças e pontos de contacto com o inimigo. Para justificar essa aversão, preciso era que apresentasse tais práticas como reprovadas pelo próprio Deus, e dai estas palavras: - "O Senhor abomina todas essas coisas e destruirá, à vossa chegada, as nações que cometem tais crimes."

4. - A proibição de Moisés era assaz justa, porque a evocação dos mortos não se originava nos sentimentos de respeito, afeição ou piedade para com eles, sendo antes um recurso para adivinhações, tal como nos augúrios e presságios explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Essas práticas, ao que parece, também eram objeto de negócio, e Moisés, por mais que fizesse, não conseguiu desentranhá-las dos costumes populares.

As seguintes palavras do profeta justificam o asserto: - "Quando vos disserem: Consultai os mágicos e adivinhos que balbuciam encantamentos, respondei: -Não consulta cada povo ao seu Deus? E aos mortos se fala do que compete aos vivos?" (Isaías, cap. VIII, v. 19.) "Sou eu quem aponta a falsidade dos prodígios mágicos; quem enlouquece os que se propõem adivinhar, quem transtorna o espírito dos sábios e confunde a sua ciência vã." (Cap. XLIV, v. 25.)

"Que esses adivinhos, que estudam o céu, contemplam os astros e contam os meses para fazer predições, dizendo revelar-vos o futuro, venham agora salvar-vos. - Eles tornaram-se como a palha, e o fogo os devorou; não poderão livrar suas almas do fogo ardente; não restarão das chamas que despedirem, nem carvões que possam aquecer, nem fogo ao qual se possam sentar. - Eis ao que ficarão reduzidas todas essas coisas das quais vos tendes ocupado com tanto afinco: os traficantes que convosco traficam desde a infância foram-se, cada qual para seu lado, sem que um só deles se encontre que vos tire os vossos males." (Cap. XLVII, vv. 13, 14 e 15.)

Neste capítulo Isaías dirige-se aos babilônios sob a figura alegórica "da virgem filha de Babilônia, filha de caldeus" (v. 1). Diz ele que os adivinhos não impedirão a ruína da monarquia. No seguinte capítulo dirige-se diretamente aos israelitas.

"Vinde aqui vós outros, filhos de uma agoureira, raça dum homem adúltero e de uma mulher prostituída. - De quem vos rides vós? Contra quem abristes a boca e mostrastes ferinas línguas? Não sois vós filhos perversos de bastarda raça - vós que procurais conforto em vossos deuses debaixo de todas as frontes, sacrificando-lhes os tenros filhinhos nas torrentes, sob os rochedos sobranceiros? Depositastes a vossa confiança nas pedras da torrente, espalhastes e bebestes licores em sua honra, oferecestes sacrifícios. Depois disso como não se acender a minha indignação?" (Cap. LVII, vv. 3, 4, 5 e 6.)

Estas palavras são inequívocas e provam claramente que nesse tempo as evocações tinham por fim a adivinhação, ao mesmo tempo que constituíam comércio, associadas às práticas da magia e do sortilégio, acompanhadas até de sacrifícios humanos. Moisés tinha razão, portanto, proibindo tais coisas e afirmando que Deus as abominava.

Essas práticas supersticiosas perpetuaram-se até à Idade Média, mas hoje a razão predomina, ao mesmo tempo em que o Espiritismo veio mostrar o fim exclusivamente moral, consolador e religioso das relações de além-túmulo.

Uma vez, porém, que os espíritas não sacrificam criancinhas nem fazem libações para honrar deuses; uma vez que não interrogam astros, mortos e augures para adivinhar a verdade sabiamente velada aos homens; uma vez que repudiam traficar com a faculdade de comunicar com os Espíritos; uma vez que os não movem a curiosidade nem a cupidez, mas um sentimento de piedade, um desejo de instruir-se e melhorar-se, aliviando as almas sofredoras; uma vez que assim é, porque o é - a proibição de Moisés não lhes pode ser extensiva.

Se os que clamam injustamente contra os espíritas se aprofundassem mais no sentido das palavras bíblicas, reconheceriam que nada existe de análogo, nos princípios do Espiritismo, com o que se passava entre os hebreus. A verdade é que o Espiritismo condena tudo que motivou a interdição de Moisés; mas os seus adversários, no afã de encontrar argumentos com que rebatam as novas idéias, nem se apercebem de que tais argumentos são negativos, por serem completamente falsos.

A lei civil contemporânea pune todos os abusos que Moisés tinha em vista reprimir.

Contudo, se ele pronunciou a pena última contra os delinqüentes, é porque lhe faleciam meios brandos para governar um povo tão indisciplinado. Esta pena, ao demais, era muito prodigalizada na legislação moisaica, pois não havia muito onde escolher nos meios de repressão. Sem prisões nem casas de correção no deserto, Moisés não podia graduar a penalidade como se faz em nossos dias, além de que o seu povo não era de natureza a atemorizar-se com penas puramente disciplinares. Carecem portanto de razão os que se apóiam na severidade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evocação dos mortos. Conviria, por consideração à lei de Moisés, manter a pena capital em todos os casos nos quais ele a prescrevia? Por que, então, reviver com tanta insistência este artigo, silenciando ao mesmo tempo o princípio do capítulo que proíbe aos sacerdotes a posse de bens terrenos e partilhar de qualquer herança, porque o Senhor é a sua própria herança? (Deuteronômio, cap. XXVIII, vv. 1 e 2.)

5. - Há duas partes distintas na lei de Moisés: a lei de Deus propriamente dita, promulgada sobre o Sinai, e a lei civil ou disciplinar, apropriada aos costumes e caráter do povo. Uma dessas leis é invariável, ao passo que a outra se modifica com o tempo, e a ninguém ocorre que possamos ser governados pelos mesmos meios por que o eram os judeus no deserto e tampouco que os capitulares de Carlos Magno se moldem à França do século XIX. Quem pensaria hoje, por exemplo, em reviver este artigo da lei moisaica: "Se um boi escornar um homem ou mulher, que disso morram, seja o boi apedrejado e ninguém coma de sua carne; mas o dono do boi será julgado inocente"? (Êxodo, cap. XXI, vv. 28 e seguintes.)

Este artigo, que nos parece tão absurdo, não tinha, no entanto, outro objetivo que o de punir o boi e inocentar o dono, equivalendo simplesmente à confiscação do animal, causa do acidente, para obrigar o proprietário a maior vigilância. A perda do boi era a punição que devia ser bem sensível para um povo de pastores, a ponto de dispensar outra qualquer; entretanto, essa perda a ninguém aproveitava, por ser proibido comer a carne. Outros artigos prescrevem o caso em que o proprietário é responsável.

Tudo tinha sua razão de ser na legislação de Moisés, uma vez que tudo ela prevê em seus mínimos detalhes, mas a forma, bem como o fundo, adaptavam-se às circunstâncias ocasionais. Se Moisés voltasse em nossos dias para legislar sobre uma nação civilizada, decerto não lhe daria um código igual ao dos hebreus.

6. - A esta objeção opõem a afirmativa de que todas as leis de Moisés foram ditadas em nome de Deus, assim como as do Sinai. Mas julgando-as todas de fonte divina, por que ao decálogo limitam os mandamentos? Qual a razão de ser da diferença? Pois não é certo que se todas essas leis emanam de Deus, deveriam todas ser igualmente obrigatórias? E por que não conservaram a circuncisão, à qual Jesus se submeteu e não aboliu? Ah! esquecem que, para dar autoridade às suas leis, todos os legisladores antigos lhes atribuíam uma origem divina. Pois bem: Moisés, mais que nenhum outro, tinha necessidade desse recurso, atento ao caráter do seu povo; e se, a despeito disso, ele teve dificuldade em se fazer obedecer, o que não sucederia se as leis fossem promulgadas em seu próprio nome!

Não veio Jesus modificar a lei moisaica, fazendo da sua lei o código dos cristãos?

Não disse ele: - "Vós sabeis o que foi dito aos antigos, tal e tal coisa, e eu vos digo tal outra coisa?" Entretanto, Jesus não proscreveu, antes sancionou a lei do Sinai, da qual toda a sua doutrina moral é um desdobramento. Ora, Jesus nunca aludiu em parte alguma à proibição de evocar os mortos, quando este era um assunto bastante grave para ser omitido nas suas prédicas, mormente tendo ele tratado de outros assuntos secundários.

7. - Finalmente, convém saber se a Igreja coloca a lei moisaica acima da evangélica, ou por outra, se é mais judia que cristã. Convém também notar que, de todas as religiões, precisamente a judia é que faz menos oposição ao Espiritismo, porquanto não invoca a lei de Moisés contrária às relações com os mortos, como fazem as seitas cristãs.

8. - Mas temos ainda outra contradição: - Se Moisés proibiu evocar os mortos, é que estes podiam vir, pois do contrário inútil fora a proibição. Ora, se os mortos podiam vir naqueles tempos, também o podem hoje; e se são Espíritos de mortos os que vêm, não são exclusivamente demônios. Demais, Moisés de modo algum fala nesses últimos.

É duplo, portanto, o motivo pelo qual não se pode aceitar logicamente a autoridade de Moisés na espécie, a saber: - primeiro, porque a sua lei não rege o Cristianismo; e, segundo, porque é imprópria aos costumes da nossa época. Mas, suponhamos que essa lei tem a plenitude da autoridade por alguns outorgada, e ainda assim ela não poderá, como vimos, aplicar-se ao Espiritismo. É verdade que a proibição de Moisés abrange a interrogação dos mortos, porém de modo secundário, como acessória às práticas da feitiçaria.

O próprio vocábulo interrogação, junto aos de adivinho e agoureiro, prova que entre os hebreus as evocações eram um meio de adivinhar; entretanto, os espíritas só evocam mortos para receber sábios conselhos e obter alívio em favor dos que sofrem, nunca para conseguir revelações ilícitas. Certo, se os hebreus usassem das comunicações como fazem os espíritas, longe de as proibir, Moisés acoroçoá-las-ia, porque o seu povo só teria que lucrar.

9. - É certo que alguns críticos jucundos ou mal-intencionados têm descrito as reuniões espíritas como assembléias de nigromantes ou feiticeiros, e os médiuns como astrólogos e ciganos, isto porque talvez quaisquer charlatães tenham afeiçoado tais nomes às suas práticas, que o Espiritismo não pode, aliás, aprovar.

Em compensação, há também muita gente que faz justiça e testemunha o caráter essencialmente moral e grave das reuniões sérias. Além disso, a Doutrina, em livros ao alcance de todo o mundo, protesta bem alto contra os abusos, para que a calúnia recaia sobre quem merece.

10. - A evocação, dizem, é uma falta de consideração para com os mortos, cujas cinzas devem ser respeitadas. Mas quem é que diz tal coisa? São os antagonistas de dois campos opostos, isto é, os incrédulos que nas almas não crêem, e os crédulos que pretendem que só os demônios, e não as almas, podem vir.

Quando a evocação é feita com recolhimento e religiosamente; quando os Espíritos são chamados, não por curiosidade, mas por um sentimento de afeição e simpatia, com desejo sincero de instrução e progresso, não vemos nada de irreverente em apelar-se para as pessoas mortas, como se fizera com os vivos. Há, contudo, uma outra resposta peremptória a essa objeção, é que os Espíritos se apresentam espontaneamente, sem constrangimento, muitas vezes mesmo sem que sejam chamados. Eles também dão testemunho da satisfação que experimentam por comunicar-se com os homens, e queixam-se às vezes do esquecimento em que os deixam. Se os Espíritos se perturbassem ou se agastassem com os nossos chamados, certo o diriam e não retornariam; porém, nessas evocações, livres como são, se se manifestam, é porque lhes convém.

11. - Ainda uma outra razão é alegada: - As almas permanecem na morada que a justiça divina lhes designa - o que equivale dizer no céu ou no inferno. Assim, as que estão no inferno, de lá não podem sair, posto que para tanto a mais ampla liberdade seja outorgada aos demônios. As do céu, inteiramente entregues à sua beatitude, estão muito superiores aos mortais para deles se ocuparem, e são bastantemente felizes para não voltarem a esta terra de misérias, no interesse de parentes e amigos que aqui deixassem. Então essas almas podem ser comparadas aos nababos que dos pobres desviam a vista com receio de perturbar a digestão? Mas se assim fora, essas almas se mostrariam pouco dignas da suprema bem-aventurança, transformando-se em padrão de egoísmo!

Restam ainda as almas do purgatório, porém, estas, sofredoras como devem ser, antes que de outra coisa, devem cuidar da sua salvação. Deste modo, não podendo nem umas nem outras almas corresponder ao nosso apelo, somente o demônio se apresenta em seu lugar.

Então é o caso de dizer: se as almas não podem vir, não há de que recear pela perturbação do seu repouso.

12. - Mas aqui reponta uma outra dificuldade. Se as almas bem-aventuradas não podem deixar a mansão gloriosa para socorrer os mortais, por que invoca a Igreja a assistência dos santos que devem fruir ainda maior soma de beatitude? Por que aconselha invocá-los em casos de moléstia, de aflição, de flagelos? Por que razão e segundo essa mesma Igreja os santos e a própria Virgem aparecem aos homens e fazem milagres? Estes deixam o céu para baixar à Terra; entretanto, os que estão menos elevados não o podem fazer!

13. - Que os cépticos neguem a manifestação das almas, vá, visto que nelas não acreditam; mas o que se torna estranhável é ver encarniçar-se contra os meios de provar a sua existência, esforçando-se por demonstrar a impossibilidade desses meios, aqueles mesmos cujas crenças repousam na existência e no futuro das almas! Parece que seria mais natural acolherem como benefício da Providência os meios de confundir os cépticos com provas irrecusáveis, pois que são os negadores da própria religião. Os que têm interesse na existência da alma deploram constantemente a avalancha da incredulidade que invade, dizimando o rebanho de fiéis: entretanto, quando se lhes apresenta o meio mais poderoso de combatê-la, recusam-no com tanta ou mais obstinação que os próprios incrédulos. Depois, quando as provas avultam de modo a não deixar dúvidas, eis que procuram como recurso de supremo argumento a interdição do assunto, buscando, para justificá-la, um artigo da lei moisaica do qual ninguém cogitara, emprestando-lhe, à força, um sentido e aplicação inexistentes. E tão felizes se julgam com a descoberta, que não percebem que esse artigo é ainda uma justificativa da Doutrina Espírita.

14. - Todas as razões alegadas para condenar as relações com os Espíritos não resistem a um exame sério. Pelo ardor com que se combate nesse sentido é fácil deduzir o grande interesse ligado ao assunto. Daí a insistência. Em vendo esta cruzada de todos os cultos contra as manifestações, dir-se-ia que delas se atemorizam.

O verdadeiro motivo poderia bem ser o receio de que os Espíritos muito esclarecidos viessem instruir os homens sobre pontos que se pretende obscurecer, dando-lhes conhecimento, ao mesmo tempo, da certeza de um outro mundo, a par das verdadeiras condições para nele serem felizes ou desgraçados. A razão deve ser a mesma por que se diz à criança: - "Não vá lá, que há lobisomens." Ao homem dizem: - "Não chameis os Espíritos: - São o diabo." - Não importa, porém: - impedem os homens de os evocar, mas não poderão impedi-los de vir aos homens para levantar a lâmpada de sob o alqueire.

O culto que estiver com a verdade absoluta nada terá que temer da luz, pois a luz faz brilhar a verdade e o demônio nada pode contra esta.

15. - Repelir as comunicações de além-túmulo é repudiar o meio mais poderoso de instruir-se, já pela iniciação nos conhecimentos da vida futura, já pelos exemplos que tais comunicações nos fornecem. A experiência nos ensina, além disso, o bem que podemos fazer, desviando do mal os Espíritos imperfeitos, ajudando os que sofrem a desprenderem-se da matéria e a se aperfeiçoarem. Interdizer as comunicações é, portanto, privar as almas sofredoras da assistência que lhes podemos e devemos dispensar.

As seguintes palavras de um Espírito resumem admiravelmente as conseqüências da evocação, quando praticada com fim caritativo:

"Todo Espírito sofredor e desolado vos contará a causa da sua queda, os desvarios que o perderam. Esperanças, combates e terrores; remorsos, desesperos e dores, tudo vos dirá, mostrando Deus justamente irritado a punir o culpado com toda a severidade. Ao ouvi-lo, dois sentimentos vos acometerão: o da compaixão e o do temor! Compaixão por ele, temor por vós mesmos. E se o seguirdes nos seus queixumes, vereis então que Deus jamais o perde de vista, esperando o pecador arrependido e estendendo-lhe os braços logo que procure regenerar-se. Do culpado vereis, enfim, os progressos benéficos para os quais tereis a felicidade e a glória de contribuir, com a solicitude e o carinho do cirurgião acompanhando a cicatrização da ferida que pensa diariamente." (Bordéus, 1861.)

(KARDEC, 1995, p. 155-165).

O texto de Kardec é claro por demais, não necessitando, portanto, de nossa parte, de nenhum comentário adicional.

O contato dos católicos com os mortos

Ao liberar os relatos de aparições e manifestações, a Igreja Católica, mesmo que não tenha sido essa a sua intenção, e, talvez, nem seja do agrado de seus líderes, acabou abrindo espaço para que tais fenômenos viessem a público. Acreditamos que alguns deles vão se arder por conta disso. São os ortodoxos que não abrem mão das tradições antigas, vivem num mundo da lua, sem qualquer sintonia com os tempos modernos de liberdade de expressão e pensamento. Esses, certamente, são os que dariam tudo para restabelecer os tempos negros da Inquisição, pois se sentiriam felizes em ver as pessoas, que não pensam como eles, provando, ainda no plano físico, do gostinho do inferno, nas chamas da intolerância. Oh! desculpe-nos, da fogueira! Ora, é tudo a mesma coisa!

Transcrevemos, para conhecimento do nosso leitor, essa declaração constante da Edições Boa Nova, uma publicação portuguesa de fonte católica:

Depois de terem sido ab-rogados os cânones 1399 e 2318 do C.D.C., mercê da intervenção de Paulo VI em AAS 58 (1966) 1186, os escritos referentes a novas aparições, manifestações, milagres, etc., podem ser espalhados e lidos pelos fiéis, mesmo sem licença expressa da autoridade eclesiástica, contanto que se observe a moral cristã em geral. (LINDMAYR, 2003, p. 4).

1º Caso – Maria-Ana Lindmayr (1657-1726)

O primeiro caso que iremos apresentar é de Maria-Ana Lindmayr, carmelita descalça do Convento da Trindade, em Munique (Alemanha). Ela, ao longo de suas experiências, foi escrevendo um diário, no qual relatava o seu contato com as almas do purgatório. Segundo o que consta desse livro, ela possuía o dom da profecia.

Suas palavras:

Para fortificar a minha alma, aprendi por experiências que força há no Nome de Jesus. Deus seja louvado por me ter assim fortificado e a tal ponto instruído, fazendo-me muitíssimas vezes experimentar como é importante pronunciar o Santíssimo Nome de Jesus com uma grande confiança. Por este Nome Santíssimo, eu mesma beneficiei de um auxílio especial, na presença dos maus espíritos que tantas vezes me atacavam visivelmente, olhando-me como se fossem fazer-me em pedaços. Quando pronunciava o Santíssimo Nome de Jesus, eles punham-se logo em fuga. (LINDMAYR, 2003, p. 10-11). (grifo nosso).

Observamos que a nobre freira era alvo de espíritos obsessores que lhe queriam mal; contudo, como era muito fervorosa, conseguia afastá-los apenas pronunciando o nome de Jesus. Isso prova que a fé é um elemento substancial para nos livrarmos das ações desses espíritos ignorantes que ainda se comprazem na prática da maldade. Nada de novo em relação ao que acontece por todos os lados, mas que, infelizmente, somente os Espíritas parecem ser os únicos acordados para tais ocorrências. Quantas pessoas não foram tomadas como loucas, quando, na verdade, apenas estavam subjugadas por espíritos maus? Infelizmente, a ignorância sobre esses fenômenos fazia com que se relacionassem tais casos à perda de juízo da pessoa que sofria as suas nefastas influências.

Nas experiências, dizia Maria-Ana, que passava períodos de êxtase, dos quais havia três espécies. Conta-nos:

No princípio, quando ainda não tinha nenhuma experiência destas três espécies de êxtases, preparava-me para a morte. No decurso destes êxtases, recebi a garantia (e a experiência ensinou-mo) de que o espírito ou a alma saía completamente do corpo e abandonava-o completamente. Este êxtase produziu sempre, como conseqüência, uma tal força, que me é impossível descrevê-la... mas o corpo é que ficava mais fortemente surpreendido, quando a alma volta a entrar nele. Muitas vezes, durante três dias, eu não podia aquecer-me; os meus membros estavam tão adormecidos, e inutilizados, como os de um corpo morto”. (LINDMAYR, 2003, p. 15). (grifo nosso).

Não é outra coisa senão aquilo que denominamos de desdobramento, fenômeno pelo qual o espírito se afasta do corpo, mas ainda não completamente desligado dele, e entra na dimensão espiritual, onde passa a viver temporariamente enquanto durar essa situação. Kardec o chamou de emancipação da alma. Nessa situação, pode o corpo ficar totalmente enrijecido, mantendo-se numa atividade mínima que lhe permite conservar-se vivo. Durante o período do sono, é comum passarmos por isso; o grande problema é termos a consciência dele. Inclusive, diga-se de passagem, que Lindmayr os comparava a essa fala de Paulo: “Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos – ignoro se no corpo ou fora dele, Deus o sabe -, foi arrebatado até o terceiro céu” (2Cor 12,2).

No caso desta freira, veja o que ela fez: “pedi ao Senhor que me fizesse perceber o desenrolar do êxtase, mantendo-me o pleno uso da minha razão,... Esta graça foi-me concedida...”. (LINDMAYR, 2003, p. 16). Tal fato, que acontece com muitas pessoas, é conhecido como desdobramento consciente, pois a pessoa, sabe e retém na memória os fatos acontecidos na dimensão espiritual, durante o período em que ela lá permaneceu.

E deste modo, já alguns anos antes que Deus Se dignasse conceder-me a graça de comunicar com as ALMAS DO PURGATÓRIO, eu lhes fui dando testemunho ou prova da minha afeição por elas. Aprendi muito com esta prática das virtudes, e precisamente porque as próprias almas me avisavam e aconselhavam com todo o cuidado, não caía facilmente numa falta. Mas, em tudo isso, eu não pensava em nenhuma outra coisa e muito menos ainda eu poderia sonhar com libertar assim as ALMAS DO PURGATÓRIO. (LINDMAYR, 2003, p. 27). (grifo nosso).

Não muito diferente do que acontece nas casas espíritas, onde os médiuns, em contato com os espíritos, aprendem com eles, e a alguns deles, dependendo da condição evolutiva em que se encontram, transmitem-lhes seus conselhos, exortando-os à prática das virtudes e do bem. Não raro podem, os medianeiros, pela dedicação e amor aos espíritos, libertá-los de suas prisões mentais, proporcionando-lhes a luz do entendimento, para que continuem a sua caminhada evolutiva em busca da LUZ PLENA.

Observe, caro leitor, que Maria-Ana considerou uma graça a possibilidade de comunicar-se com os mortos; entretanto os que nunca passaram por uma experiência desse tipo, dizem coisas absurdas, até mesmo atribuindo-as como sendo demoníacas. A quem assiste a razão? Nem precisa responder, tão óbvia é a resposta.

Contando como tudo começou, diz ela:

Há já alguns anos que eu recebo, da parte das ALMAS DO PURGATÓRIO, muitos avisos e isso de diversos modos, isto é, na medida em que eu mesma progrido na prática das virtudes. Sempre pedi a Deus que me libertasse de tais manifestações, com receio de que o Maligno se intrometesse nelas e assim me enganasse. (LINDMAYR, 2003, p. 28). (grifo nosso).

O sentimento da freira é o mesmo de tantos que são médiuns sem o saberem e que muito menos conhecimento possuem do fenômeno, situação que os leva a sofrer as influências dos espíritos, muitas das vezes, maus; outras, dos viciados de ordem geral (sexo, bebida, prazeres, etc). Por temor, fruto do desconhecimento, pedem a Deus que lhes retirem tal “dom”, como se isso fosse possível. Quantos, no início do afloramento de sua mediunidade, não foram confundidos como tomados de possessão demoníaca... Infelizmente, a ignorância tem mantido a idéia de que não se pode utilizar-se de tais dons, o que impede de se levar ajuda a muitos espíritos, para que encontrem o seu caminho, de um lado, e, de outro, o restabelecimento emocional do próprio médium.

Seu primeiro contato:

As minhas relações mais estreitas com as ALMAS DO PURGATÓRIO começaram pouco depois da morte de meu pai. Uma jovem, Maria Pecher, deu-me a entender que tinha uma grande confiança em mim e desejava falar-me. Mas como ela era doente, não podia vir a minha casa. Até então, eu não tinha ainda tido qualquer relação amistosa com ela, mas soube que ela queria, já antes, encontrar-se comigo, e que tinha então sido impedida de o fazer por sua mãe, com medo de que eu viesse a meter a sua filha em beatices ou na vida religiosa. Depois da morte de sua mãe, Maria Pecher continuou a comportar-se de uma forma exemplar e digna de elogio, uma ótima jovem. Estava então noiva de um jovem de nome Hufnagel.

Tive de escusar-me, alegando que não podia sair de casa, antes que as cerimônias religiosas pela alma de meu pai tivessem sido celebradas, mas prometi-lhe ir nessa mesma semana. Ora, justamente na festa de Santa Catarina, virgem (25 de novembro), um sábado, fui ver essa jovem, na sua casa. Ela falou-me com toda a franqueza, pediu-me que rezasse por ela, para que pudesse morrer virgem. Passados dois dias, depois de ter posto em ordem todos os seus assuntos e de ter feito tudo quanto era necessário a um feliz fim, morreu, no dia 28 de novembro de 1690. Fiquei espantada com esta rápida morte e o Maligno sujeitou-me a verdadeiras angústias, como se eu tivesse rezado realmente para que ela morresse. Por isso, fiquei mesmo contente pelo fato de ninguém ter sabido daquilo que nós tínhamos dito uma à outra. Eu não tinha a menor idéia de que ela viria a minha casa, depois de sua morte. Mas bem depressa vários sinais me fizeram perceber a sua presença. Todavia, como não tinha experiência alguma de tais fenômenos, e muito menos os poderia imaginar, pouco auxílio conseguiu obter de mim.

Alguns dias mais tarde, no dia 1º de dezembro, uma sexta-feira, enquanto eu fazia as minhas orações da noite, diante do meu quadro da Santíssima Virgem, foi-me dito, em alta voz: “Reza por mim!”. Foi como se tivesse ouvido um cântico fúnebre. Depois, arejou-me o rosto com um vento frio e puxou-me pelo hábito. Seguidamente, quando andava de noite com uma lanterna, via como que uma sombra, a caminhar diante de mim. Mas verdade é que, apesar de tudo isto, eu não pensava em coisa alguma de especial. (LINDMAYR, 2003, p. 28-30). (grifo nosso).

Uma observação se faz necessária: é que o espírito se manifestou sem ter sido evocado, provando, peremptoriamente, que as manifestações só acontecem mesmo porque Deus as permite. A tão alegada proibição bíblica, tomada à conta de divina é, na realidade, fruto da observação de Moisés, quando via, na prática da necromancia, que era a evocação dos mortos para fins de adivinhação, um completo desrespeito aos mortos. Isto também é proibido no âmbito do Espiritismo, conforme nos orientou o codificador: “A verdade é que o Espiritismo condena tudo que motivou a interdição de Moisés;...”. (KARDEC, 1995, p. 159). Reforça também a famosa frase de Chico Xavier: “o telefone toca de lá para cá”.

A primeira visita:

Por fim, no dia da festa da Imaculada Conceição (8 de Dezembro de 1690), eis o que me aconteceu: tinha por costume, em todas as festas da Santíssima Virgem, sempre que não estava doente, assistir à Missa das 4 horas ou das 4,30, na nossa capela da Santíssima Virgem. Inteiramente só, pelo caminho, munida de uma pequena lanterna, ia apressadamente à Missa. No meio da rua chamada ”Allée des Carmes”, vi diante de mim uma pessoa vestida de branco. Tinha a estatura e talha de Maria Pecher. Eu não pensava em nada de especial e seguramente por isso mesmo não senti pavor algum. Esta forma branca vai à minha frente ao longo de toda a caminhada de que já falei, ao longo das ruas e até à igreja dos jesuítas. Mas aí mesmo, quando quis ver exatamente o que era, não pude descobrir ninguém.

Apenas o consegui depois, uma vez na capela, quando me veio à mente quem tinha caminhado diante de mim e tive então o conhecimento interior disso mesmo. Mais tarde, Maria fez-se uma vez mais reconhecer também de noite. E criei por ela uma terna afeição e, na minha oração da noite, diante do quadro da Santíssima Virgem, perguntei com uma grande confiança, se era para glória de Deus e salvação desta alma que ela vinha e se dava a conhecer, a fim de que não fosse enganada.

Ora, esta mesma noite, à meia-noite, uma alma apresentou-se. Era como se alguém me calcasse o pé com um dedo ardente, como uma agulha no fogo. Era tão doloroso como se uma perna se me tivesse partido. Levantei-me imediatamente e dirigi-me para o meu altar. Ali, Deus levou-me, por três horas, a um estado tal, que não era senhora de mim, sem que, no entanto, tivesse perdido os sentidos. Tinha verdadeiramente de acautelar-me. Foi-me claramente mostrado o que faltava a esta minha alma. Foi-me mostrado também que tinha sido chamada no estado de virgindade e que o único motivo pelo qual o Senhor a tinha levado para Si tão depressa, era o fato de ser noiva. Ora, ela devia morrer virgem. Jamais teria podido imaginar que o Além se poderia mostrar tão severo. Não, ninguém seria capaz de o compreender. Mas eu fui afinal instruída por esta alma e, deste modo, pude seguidamente acreditar em coisas que, de outra forma, jamais teria acreditado. Eu não me tinha enganado: a sua mãe, que veio no dia seguinte, deu-me uma sua confirmação tangível. Ela queimou-me ainda muito mais fortemente. Tive também de passar três horas em oração, junto dela, e notar o que lhe faltava. Foi-me então manifestado que a mamã Pecher havia também ela morrido tão depressa unicamente porque tudo tinha feito para impedir a sua filha de abraçar o estado religioso. Era também por este motivo que ela tinha de sofrer muito no Purgatório. Esta alma indicou-me também muitas outras faltas que tinha cometido, comendo e bebendo boas coisas, sem que se tenha querido moderar. Porque não gostava de dar esmolas, durante a sua vida, ela disse-me que seu marido, ainda vivo (morreu apenas em 15 de Junho de 1700), me enviaria um pouco de dinheiro, que eu deveria distribuir pelos pobres da região. E de fato, o dinheiro foi-me entregue. Esta alma custou-me muito. Tive também de jejuar por ela a pão e água. Quatro semanas mais tarde, ainda eu via as marcas dessas queimaduras, porque a forma da mão e do dedo com que esta alma me tinha tocado o pé ainda continuavam visíveis. Quanto mais consolação eu experimentava ou sentia com estas aparições, tanto mais estas almas me custavam. Logo que ofereci todas as satisfações ou reparações por elas, a mãe e a filha vieram uma vez mais ao meu quarto, no dia 13 de Dezembro de 1690, dia da festa de Santa Luzia, virgem e mártir. Ressoou um belíssimo canto, tirado do Salmo.

“Que alegria, quando me disseram: vamos para a casa do Senhor!”.

Isso encheu-me de uma alegria, que jamais serei capaz de descrever. (LINDMAYR, 2003, p. 31-33). (grifo nosso).

O importante aqui é registrar as queimaduras provocadas no corpo da freira pelo contato desse espírito. Fatos como esse, mas em objetos, poderão ser vistos no Museu do Santo Sufrágio em Roma, assunto que iremos falar mais à frente. Ao que tudo indica, estamos diante de fenômenos de efeitos físicos, comuns outrora, mas hoje são raros, não sabemos por qual motivo. Digna, também, é a informação de que o espírito lhe passou informações para que acreditasse no que lhe estava acontecendo.

Deus deu-me também muitas luzes a respeito das almas dos que viveram e morreram no luteranismo. Um grandíssimo número delas não são reprovadas e vão mesmo para a Bem-Aventurança eterna, porque não tiveram suficiente compreensão do seu erro ou foram completamente inocentes. (LINDMAYR, 2003, p. 48). (grifo nosso).

Fantástica a confirmação de que Deus não faz mesmo acepção de pessoas. A freira católica comprova isso ao ver algumas almas, que “morreram no luteranismo”, indo para a bem-aventurança eterna, dando a explicação: “porque não tiveram suficiente compreensão do seu erro” (aqui reflete o pensamento eclesiástico de que só quem está na Igreja Católica é que se salva) “ou foram completamente inocentes” (quer dizer sem pecado, ainda no conceito Católico).

As pobres almas mostraram-me que, no outro mundo, tudo está calculado com uma exatidão absoluta e que, nesta vida, dificilmente se pode fazer uma idéia perfeita dessa duração... A permanência no Purgatório dura muitas vezes algumas centenas de anos. Tudo isso me fez ver como é grande a ofensa feita a Deus pelo pecado e que tudo quanto não foi expiado nesta vida o deve ser na outra. (LINDMAYR, 2003, p. 51). (grifo nosso).

Embora agindo dentro dos padrões católicos, e nem poderíamos esperar algo diferente, é certo que “tudo quanto não foi expiado nesta vida o deve ser na outra”, confirmando que não há “perdão”, puro e simples, mas pagamento, exatamente o que disse Jesus: “... a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27) e “... dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo” (Mt 5,26).

As pobres Almas do Purgatório fizeram-me ver que no outro mundo tudo é tão exatamente contado e examinado, que quase se não pode fazer uma idéia disso mesmo, nesta vida, e que no Além tudo veremos de uma forma absolutamente diferente daquela que poderemos imaginar neste mundo. (LINDMAYR, 2003, p. 54). (grifo nosso).

São quase que as mesmas palavras dos Espíritos Superiores, prepostos de Jesus, que disseram que nossa percepção no plano espiritual realmente irá mudar. Na condição de espíritos a nossa visão se amplia, de tal forma que perceberemos muitas coisas de um jeito bem mais claro do que imaginávamos aqui, quando encarnados, e acontecerá, certamente, que muitas outras nem sonhávamos existir.

Apareceram-lhe vários sacerdotes e bispos; sobre um deles a freira disse:

A este respeito, foi-me dada uma bem maravilhosa comparação. Vi, ao lado deste sacerdote, uma lâmpada. Uma lâmpada ordinária. Estava toda suja, cheia de gotas de sebo e não havia no interior mais que um pequeno coto de vela. E foi-me dito: “A lâmpada é a imagem da alma e do corpo. A alma deve dar o bom exemplo e iluminar, como uma luz. O corpo, em que habita a alma, deve dirigir-se segundo a alma; é necessário que não seja uma lâmpada suja, a fim de que a luz ilumine a lâmpada e a lâmpada seja para a luz um ornamento. Eu devia interrogar-me se colocaríamos uma lâmpada assim tão suja, sobre a mesa, diante de um homem todo limpinho e respeitável. E foi-me dito: “Tal como se não metem belas velas de cera branca numa lanterna ordinária e suja de cozinha, assim Deus já não dá a Sua Graça a um homem que, colocando no candelabro, deveria iluminar, mas que já não dá luz, já não dá bom exemplo. É antes uma pequenina e má luz, pronta a apagar-se, aquilo que convém a uma lanterna deste gênero. (LINDMAYR, 2003, p. 67). (grifo nosso).

Jesus já alertara de que “a quem muito foi dado, muito será exigido” (Lc 12,48). Se os líderes meditassem mesmo na missão que lhes cabe em conduzir os fiéis à verdade, deixariam o egoísmo e o orgulho de lado, assumiriam de vez a sua condição de cristãos, informando-os desses fatos. Aos infratores da Lei, não importa quem, será exigida a prestação de contas; aos líderes que muito sabiam, mais ainda.

No dia 19 de Outubro de 1716, festa de São Pedro de Alcântara, indo à igreja, à noite, para rezar o Ângelus, vi uma figura a caminhar à minha frente. Era como que uma sombra de uma brancura de neve e de grande estatura. Recomendei a sua alma a meu Bem-Amado. No dia 21 de Outubro, chegou-me a notícia da morte de meu antigo confessor, o Padre Inácio Wagner, S.J., falecido no dia 15 de Outubro, em Regensbourg.

Este confessor tinha-me dito outrora, para que eu pudesse dormir sem ser incomodada pelas ALMAS DO PURGATORIO e assim pudesse descansar melhor, que, das 8 horas da noite às 4 horas da manhã, nenhuma ALMA DO PURGATÓRIO deveria apresentar-se em minha casa. Quando eu perguntei a esta alma por que razão ela se não havia feito anunciar mais cedo, ela respondeu-me: “Minha querida filha, eu não pude manifestar-me mais cedo porque Deus queria que a notícia da minha morte te não chegasse senão pelos homens. Como isso já aconteceu, eu posso já fazer-me reconhecer por ti e falar-te. Minha filha! Só agora eu vejo o que significa estar no Purgatório. Anuncio-te que a minha proibição feita às ALMAS DO PURGATÓRIO, de se apresentarem em tua casa, de noite, não tem valor algum. Di-lo ao Padre Provincial e ao teu confessor. Minha querida filha, quanto eu gostaria de vir, mesmo durante a noite, se isso me não tivesse sido proibido, por causa dessa minha proibição. Ah! Que nos seja, pois, consenti vir de novo a tua casa, porque o próprio Deus o permite e só a obediência aos homens aqui está posta em causa. Eu não pensei que agi mal, fazendo-te uma tal proibição, e as almas sofredoras mostraram-se obedientes.

Mas quanto as penas do Purgatório são pesadas, isso só o sabem aqueles que as experimentaram”.

E eu disse a esta alma: “Em que posso eu, pobre como sou, prestar-te algum auxílio?”

A alma disse-me: “Minha filha, como acontece aí, convosco, na terra? Acaso não gostam as pessoas de estar com os seus amigos e benfeitores? Pois dessa mesma forma eu gosto de estar contigo”. (LINDMAYR, 2003, p. 79-80). (grifo nosso).

Aqui se confirma o que foi informado pelas almas do purgatório, ou seja, que a visão da pessoa muda, quando ela passa para o mundo espiritual. O seu confessor, que antes proibia o contato com as almas, vem, do mundo espiritual, dizer que estava enganado. Vai mais longe ainda, quando disse que essas coisas só acontecem “porque o próprio Deus o permite”, derrubando toda e qualquer citação bíblica contrária; para nós de Moisés, para os fanáticos de Deus. E o próprio Moisés, depois de morto, também muda de opinião, pois aparece a Jesus e a três de seus discípulos (Lc 9,29-36). Assim, o padre confessor vem por os pingos nos is, colocando tudo no devido lugar. Se os fundamentalistas tivessem a coragem de ler isso, será que mudariam de opinião? Como se diz popularmente: “sei não...”.

Na condição de espírito, reconheceu humildemente, o padre-confessor, que a proibição que fizera, de as almas não se apresentarem à freira, não tinha valor algum; obviamente porque passou a ter conhecimento de que ele não tinha esse poder, que somente a Deus pertence. A explicação que ele deu para estar junto à freira (ao final do trecho acima) é muito interessante; merece reflexão profunda dos contrários às comunicações com os mortos: “... se nós gostamos de estar junto aos amigos, por que os mortos também não gostariam?” Perguntamos, por nossa vez: seria uma coisa má deixar que isso acontecesse? Se tivermos um Deus de amor, certamente, que deixará isso acontecer, pois tal atitude revelará o seu amor por nós. O nosso Deus é assim; e o seu, caro leitor, como é?...

Nenhum período da minha vida foi mais feliz e mais cheio de graças do que o tempo que eu passei com e pelas ALMAS DO PURGATÓRIO. Aprendi também que, amando as ALMAS DO PURGATÓRIO, se dá a Deus o maior prazer, porque estas Almas O têm muito a peito e O amam de verdade, mas são também as mais pobres e não podem já conseguir em nada o mais pequeno alívio para elas próprias. O próprio Deus as não pode já ajudar a elas, por mais forte que seja o Seu amor por elas, porque, pelas faltas cometidas durante a sua vida, elas caíram sob o golpe da Justiça Divina. Então, não é já o tempo da graça, mas o da estrita justiça. (LINDMAYR, 2003, p. 94).

Os que acreditam que se comunicar com os mortos é “algo abominável a Deus” ficarão sem saída para explicar como uma coisa dessa natureza venha fazer feliz uma pessoa que passou a vida se dedicando às coisas de Deus, como é o caso dessa freira.

Se as que foram para o lado de lá não podem ser ajudadas por Deus, porquanto, caíram “sob o golpe da justiça Divina”, por que então se crê no perdão puro e simples de nossas faltas, que, de igual modo como as das nossas almas, são cometidas quando estamos vivos?

2º Caso: Irmã Maria da Cruz (?-1917)

No livreto Manuscrito do Purgatório, tradução de uma edição francesa, no qual não logramos identificar o autor, narra-se as mensagens feitas a uma religiosa da Ordem de Santo Agostinho, Irmã Maria da Cruz, durante os anos de 1873 a 1890.

A alma que se apresenta a essa religiosa se identifica dizendo: “Não tenhais medo! Eu sou a Irmã M.G.” (uma religiosa falecida em X, com 36 anos de idade, no dia 22 de fevereiro de 1871, vítima da sua dedicação). (p. 7).

O Manuscrito do Purgatório contém o que foi escrito do diálogo desta alma, durante o período citado. Destacamos os seguintes trechos:

É Verdade que não sois digna, mas Deus permitiu isto tudo... Ele é o Senhor e concede as Suas graças a quem lhe apraz. (Manuscrito, p. 15).

Eu compreendo bem o vosso embaraço. Eu sei o que tendes sofrido com isto, mas já que Deus o permite, e é para meu alívio, deveis ter piedade de mim, não é? (Manuscrito, pp. 35-36).

Em quase todos os casos os espíritos que se manifestam fazem questão de informar, que tudo acontece com a permissão de Deus. Além disso, as manifestações são, invariavelmente, espontâneas, o que vem a confirmar essa permissão, pois não podemos supor que algo aconteça sem que Deus o permita.

- Conhecei-vos uma às outras no purgatório?

As almas se comunicam entre si quando Deus o permite, porém, à maneira das almas, sem palavras...

- Sim, é verdade que eu vos falo, mas sois um espírito! Havíeis de me compreender se eu não pronunciasse as palavras?

Para mim, pois que Deus o permitiu, eu vos compreendo sem que pronuncieis palavras com os lábios. Há, entretanto, comunicações de almas assim quando vos vem um bom pensamento pelo vosso Anjo da Guarda, ou por Deus mesmo. Eis a linguagem das almas. (Manuscrito, p. 46).

Não diferente do que se sabe na Doutrina Espírita, ou seja, que a linguagem dos espíritos é o pensamento, não as palavras articuladas. Que eles podem comunicar-se entre si, e conosco, os que ainda se encontram na carne, via inspiração de um bom pensamento.

É uma lembrança bem doce para as almas do outro mundo, ver que os parentes e os amigos não as esqueceram na terra,... (Manuscrito, p. 50).

Exatamente como os Espíritos responderam a Kardec, que os espíritos são sensíveis à lembrança que deles guardam os que lhes foram caros na Terra, muito mais do que podemos imaginar. Se são felizes, essa lembrança lhes aumenta a felicidade; se são infelizes, serve-lhes de lenitivo. (KARDEC, 2006).

No mesmo instante em que vosso corpo se separar da alma, vossa consciência aparecer-vos-á como num espelho e vós mesmos podereis julgar o estado da vossa alma, com o próprio olhar de Deus. Aparecerão as vossas ações, com todas as suas imperfeições. Os vossos pensamentos, embora escondidos, aos olhos de todos, serão tão claros diante de vós, como se os vísseis escritos. Os afetos, as palavras, as intenções surgirão como se fossem escritas numa página impressa com tipos claros e indeléveis. Tudo terá então, de ser avaliado, examinado, na origem, no ato da realização e no fim. Coisa alguma, por pequena que seja, poderá fugir a esse exame perfeito, no qual vós mesmos estais em causa e, nele, dar-vos-eis perfeitamente conta do mal feito, do bem feito mal e do bem que deveríeis e poderíeis ter feito e que não fizestes, por má vontade, preguiça e indolência ou por terdes preferido a vossa comodidade à lei de Deus. (Manuscrito, p. 91-92).

Daquilo que nos informaram os espíritos, nada mais precisaria acrescentarmos ao que está dito acima. Apenas para ressaltar essa visão retrospectiva, vemos que as pessoas que passam pela EQM (Experiência quase morte), falam que passaram por semelhante processo, confirmando, portanto, as informações do plano espiritual.

3º Caso: Eugênia von der Leyen (1867-1929)

Informa-nos Arnold Guillet, editor do livro Conversando com as Almas do Purgatório, que Eugênia era uma princesa da dinastia germânica dos “von der Leyen”, do lado materno, da estirpe dos Thyurn e Taxis, de cuja família o papa Pio XII foi amigo íntimo, e que, no período de 1921 a 1929, teve contato com as almas do purgatório, apresentando o pároco Sebastião Wieser, seu diretor espiritual, que testemunha:

Conheci a vidente nos últimos doze anos de sua vida e todos os dias eu ficava ciente dos acontecimentos que se davam com ela e das aparições que lhe surgiam... A vidente levava uma vida santa; sua caridade não conhecia limites; era prestativa e sempre solícita em ajudar a quem quer que fosse. Era querida por Deus e pelos homens. É verdade que levei a princesa a anotar os fatos que com ela aconteciam; declaro, porém, sob palavra de honra, que nunca, em ocasião alguma, lhe sugeri qualquer opinião minha. Responsabilizo-me, pela veracidade de seu diário, que é totalmente digno de fé... (VON DER LEYEN, 1994, p. 7).

Aqui, temos um padre atestando, sem o mínimo constrangimento, que os fatos são verdadeiros; isso é importante, pois, muitas vezes, os que ficam preocupados em ter as provas científicas dos fenômenos, se esquecem de que o testemunho de pessoas idôneas deve também ser levado em conta. Nos outros casos que citamos, isso também acontece, ou seja, a própria liderança religiosa afirma da veracidade dos fenômenos.

A informação que o pároco nos dá de que Eugênia “era querida por Deus”, nos remete à questão sempre levantada por alguns fundamentalistas, de que a comunicação com os mortos é coisa abominável a Deus. Se fosse, como uma pessoa que estava em contato com as almas “do outro mundo” poderia ser querida por Deus, conforme atesta o seu pároco? Aliás, como em todos os casos aqui citados, as aparições desses espíritos sempre se iniciavam sem que nenhuma das pessoas envolvidas, por algum ato de vontade própria, as tivessem provocado, confirmando, portanto, que as coisas só acontecem com a permissão e por vontade de Deus. Por que, nesses casos, são almas do purgatório e as que aparecem aos espíritas são os demônios? Por qual privilégio e desgraça isso se dá?

Eugênia von der Leyen teve de levar uma vida opressiva entre dois mundos, tão pesada que lhe comprimia o coração. Unicamente o pequeno príncipe herdeiro Wolfram e os animais domésticos viram algumas de suas aparições, e mais ninguém. E com ninguém podia conversar sobre esses assuntos, a não ser com seu diretor espiritual. Deve ter sido para essa mulher algo de obscuro e confuso: uma invasão do sobrenatural que só foi possível por especial permissão de Deus. Algo tão espantoso, que não se compara com banalidades,... O contato com o Além é incomparavelmente mais profundo, pois fica ligado, por assim dizer, a uma corrente de alta tensão, impossível de ser suportado, até fisicamente, por qualquer criatura. Só graças especiais de Deus podem sustentar uma tal sobrecarga do Além, sem conseqüências letais para o ente que a recebe. (VON DER LEYEN, 1994, p. 17).

Realmente para uma pessoa que não tem conhecimento nenhum do plano espiritual a coisa pode se complicar. Quantos não foram taxados de loucos por conta disso? Sabemos que os animais, algumas vezes, percebem os espíritos, fato confirmado aqui.

As pessoas que podem receber essa “sobrecarga do Além”, nós as denominamos simplesmente de médiuns.

Dizem que em tempos passados reinava entre o povo uma forte crença em aparições de espíritos. Pois bem, tal crença, antigamente, era geral em toda parte e entre todos os povos. A parapsicologia tem demonstrado, por meio de provas, que tal crença tem razão de ser; baseia-se em fatos reais. (VON DER LEYEN, 1994, p. 19).

Mas é exatamente isso que estamos falando o tempo todo. O que nos causa estranheza é que os contrários são, invariavelmente, os que não estudam e nem pesquisam nada; por isso, ficam presos aos dogmas teológicos de antanho, que foram impostos a ferro e fogo.

E para finalizar as colocações do editor Arnold Guillet, citaremos apenas mais duas coisas do que ele disse. A primeira diz respeito ao que apresenta como autenticidade da atuação divina desses casos:

Na sexta-feira santa de 1949, morria em Gerlachscheim, Baden, após 68 anos de sofrimentos expiatórios pelas Almas do Purgatório, com a idade de 86 anos, Margarete Schäffner. Como escreve o professor Georg Seigmund, ela pedira “a Deus um sinal de que ela não era vítima de um engano, de sua própria fantasia ou de um logro diabólico. Apareceram-lhe então, duas vezes, Almas do Purgatório, que deixaram gravada num pano a marca dos dedos da mão, que parece ter estado em fogo, fornecendo, pois, um sinal visível que ela havia pedido. O Ordinariato de Freiburg exigiu e recebeu para exame aqueles panos...” (VON DER LEYEN, 1994, p. 29). (grifo nosso).

A segunda é como essas coisas são vistas pelo público, culpando os pregadores por não o esclarecer sobre isso:

Seremos tolos, se não nos convencermos destas verdades. Se os nossos pregadores, em vez de se dedicarem tanto à psicologia e a obras sociais, dissessem aos homens as verdades sobre as Almas do Purgatório e sobre as outras grandes realidades da religião, em breve, as nossas igrejas vazias se encheriam de fiéis, ávidos de ouvirem e meditarem sobre essas verdades, ao invés de reduzidas, como se encontram hoje, a uma existência meramente museulógica. ((VON DER LEYEN, 1994, p. 33). (grifo nosso).

Agora, iremos transcrever um trecho da fala do Dr. Peter Gehring, prefaciador desse livro com o diário de Eugênia:

Sabe-se, no entanto, que os mortos continuam a viver no Além. A experiência dá testemunho de que os falecidos continuam vivos. Nunca se ignorou que os seres humanos têm uma vida eterna e pode-se dizer que as relações com os mortos não se trata de uma crença, mas de um saber, de conhecimentos de todos os povos e de todas as comunidades tribais. (VON DER LEYEN, 1994, p. 40). (grifo nosso).

E ainda há os teimosos que querem negar tudo. Infelizmente, também encontramos os que sabem de tudo e preferem esconder do povo, cujos interesses próprios sobressaem à mensagem de conforto e consolação que deveriam proporcionar, pela função que exercem, junto a seus fiéis.

Cabe-nos aqui provar que o Dr. Peter Gehring está coberto de razão, porquanto, a relação com os mortos é de conhecimento de todos os povos. Traremos uma informação obtida de um documento escrito no ano de 1319 a.C., que a transcrevemos do artigo de Paulo Henrique, editor da Revista Universo Espírita:

Há 4 mil anos, o sumo sacerdote de Amon, a mais importante autoridade a serviço do faraó Mentuhotep II do Egito, estava preocupado com uma influência espiritual que o afligia. Mas ele estava determinado a, quando chegasse à noite em sua casa, resolver essa questão. Para os egípcios, os mortos podiam interferir em suas vidas.

Depois de dar as ordens aos servos e cuidar de sua higiene, subiu ao terraço de sua luxuosa residência e estendeu suas mãos para o céu estrelado fazendo uma evocação, pedindo auxílio dos Espíritos protetores: “Invoco os deuses do céu, os deuses da Terra, os do Sul, os do Norte, os do Ocidente, os do Oriente, os deuses do outro mundo”; então fez a eles um pedido: “Fazei com que venha até mim o Espírito”.

O Espírito veio, e lhe disse: “Eu sou aquele que vem para dormir em seu túmulo”.

O sumo sacerdote de Amon pediu que o Espírito se identificasse para que pudesse ofe