A Parapsicologia e a questão dos 200 anos

Um homem é sábio quando busca a sabedoria, é louco quando julga tê-la encontrado. (Talmud).

A maior ignorância é a que não sabe e crê saber, pois dá origem a todos os erros que comentemos com nossa inteligência. (Sócrates).

Basta um corvo branco para provar que nem todos são negros. (LOEFLLER).

Introdução

Tese preferida de Quevedo e “Cia. Ltda.”, é que nenhuma pessoa pode captar, por qualquer meio psíquico, o que aconteceu numa faixa de até 200 anos. Embora tenhamos procurado esse seu pensamento na internet, nós não logramos êxito em encontrá-lo. Entretanto, conseguimos de um outro parapsicólogo, que reflete exatamente o que pensa esse “parapsicatólico”:

[...] A parapsicologia, ciência que estuda este fenômeno e muitos outros realizados pelo inconsciente, tem-nos comprovado, experimentalmente, que o nosso inconsciente sabe o passado (retrocognição), o presente (simulcognição) e o futuro (precognição) de alguém (telepatia) ou da história (clarividência), numa faixa de até 200 anos.

(SAMPAIO, L. F., http://www.noolhar.com/opovo/jornaldoleitor/578038.html).

Interessante é que esse “tem-nos comprovado” não se encontra em canto algum, daí perguntamos: que pesquisas foram feitas para se comprovar isso? Se foram feitas, quem as fez, estava livre de preconceitos religiosos? Enfim, são inúmeras perguntas para as quais não encontramos as devidas respostas. Mas quem sabe se essa comprovação não esteja localizada no “inconsciente” de algum parapsicólogo?

Mas como “basta um corvo branco para provar que nem todos são negros”, vamos expor o seguinte caso, que transcrevemos do livro Região em Litígio entre este mundo e o outro de Robert Dale Owen:

MANIFESTAÇÃO DE UM MÚSICO FAVORITO DO REI DE FRANÇA

Nos dias que ainda não vão longe, em que Paris se considerava o centro da civilização e pretendia ser a mais alegre e brilhante das capitais do mundo, no ano de 1865, vivia ali, e creio que ainda vive, um respeitável gentil homem, que herdara dos antepassados o dom musical.

O Sr. N. G. Bach, então com sessenta e sete anos de idade, era bisneto do célebre Sebastião Bach, que floresceu na primeira metade do século décimo-oitavo. Apesar de ser a sua saúde um tanto delicada, ele estava, na época a que nos referimos, no pleno gozo de suas faculdades mentais, era um compositor aplicado e muito estimado por seus colegas de arte, tanto por seus talentos profissionais, como por sua retidão e amabilidade.

A 4 de Maio de 1865 o filho do Sr. N. Bach, Léon Bach, um cavalheiro de tipo antigo, encontrou, entre as curiosidades de uma loja de objetos usados, em Paris, uma espineta evidentemente muito antiga, mas de notável beleza e perfeição, e ainda bem conservada. Era feita de carvalho, ornamentada com delicadas esculturas de belos arabescos, incrustadas com turquesas e flores de lis, de ouro. Evidentemente tinha pertencido a alguma pessoa de fortuna ou distinção; o negociante, porém, só sabia que tinha sido recentemente trazida da Itália, por quem lha vendera.

Supondo que seria mui agradável a seu pai, o jovem efetuou a compra. Não se enganou. O Sr. Bach, que partilhava do gosto do filho pelas relíquias do passado, ficou satisfeitíssimo com a nova aquisição e passou a maior parte do dia a admirá-la, experimentando-lhe os sons e examinando o maquinismo. Ela media cinco pés de comprimento por dois de largura; não tinha pés, porém era encerrada em uma caixa protetora, de madeira, como um violino. Para tocá-la, colocava-se a espineta sobre uma mesa. Apesar da riqueza de decoração, era pequena, comparada com as fabricadas hoje com seu poder maravilhoso e soberbos tons. Na sua confecção geral, porém, assemelhava-se a estas, sendo o pequeno teclado disposto na mesma ordem; mas as teclas, quando tocadas, moviam uma peça de madeira da grossura de um dedo de mulher, munida cada qual de uma ponta destinada a bater na corda correspondente. Quanto á qualidade do tom, facilmente se pode imaginar.

Antes de findar o dia, o Sr. Bach fez uma descoberta que, para ele, compensou as imperfeições notadas no instrumento. Parecendo-lhe distinguir alguma cousa escrita na estreita faixa de madeira que amparava a prancha, somente. Fixo sobre essa faixa, havia dois cavaletes que a separavam da supradita prancha e escondiam uma parte do que naquela estava escrito. Dando, porém, ao instrumento uma posição conveniente e fornecendo-lhe uma luz bastante viva, pôde-se ler o seguinte: ln Roma Antonins Nobilis; vinha depois um dos cavaletes, e em seguida: Brena Medislani Patrice; e depois do outro cavalete: Diexiy Aprillis 1564. Sem dúvida, essas palavras foram escritas antes da construção do instrumento.

Ficou assim o Sr. Bach sabendo que a sua espineta contava mais de trezentos anos; tendo sido fabricada em Roma, no ano de 1564, por um certo Ancôneos Nobilis, aparentemente dos subúrbios de Milão, e é provável que ficasse concluída em 14 de Abril daquele ano. O espécime tinha, pois, a indicação do lugar onde fora construído e o nome do fabricante. Isto, aos olhos dos antiquários, como se dá com os paleontologistas, aumenta muito o valor de uma relíquia.

Assaz contente, o velho fidalgo foi dormir e, como é natural, sonhou com o presente do filho. Mas esse sonho teve alguma cousa de esquisito. Nele se lhe apresentou um belo jovem estrangeiro, trazendo a barba cuidadosamente penteada e trajado elegantemente, á moda da antiga corte francesa: rico gibão com largo colarinho e as mangas justas e golpeadas na parte superior; amplo calção, meias compridas e sapatos de entrada baixa, com tope. O chapéu alto, pontudo e de abas largas, era adornado com uma pluma branca. Esse jovem, fazendo mesuras e sorrindo, adiantou-se para o leito do Sr. Bach e assim lhe falou: "A espineta que hoje possuis me pertenceu. Dela me servia para agradar ou distrair meu amo, o Rei Henrique. Em sua juventude, ele compôs uma ária que gostava de cantar, acompanhado por mim, e cujas letras tinham sido escritas em memória de uma dama a quem ele muito amava e de quem, com grande pesar, se achava separado. Essa dama morreu, e, nos seus momentos de tristeza ele costumava cantar essa ária".

Depois de algum tempo, esse estranho visitante continuou: "Vou tocá-la e buscarei o meio de vo-la fazer recordar, pois a vossa memória é fraca." Assentou-se junto da espineta e nela acompanhou as palavras que ele mesmo cantou. O velho despertou chorando, tocado pela tristeza do cantor.

Acendendo uma vela, verificou que eram duas horas. Pensando, então, no sonho e parecendo-lhe ainda ouvir a dolente melodia daquele cântico, dispôs-se a dormir de novo.

Nada há de notável em tudo isto. Se sucedeu alguma cousa ao Sr. Bach antes do despertar na manhã seguinte, ele de nada se lembrava quando abriu os olhos já pleno dia. Mas, então, achou, com grande espanto, um pedaço de papel no leito, ao alto do qual se liam escritas em caracteres antigos: Palavras do Rei Henrique III. Sua estupefação cresceu quando examinou com maior atenção o escrito. Era um raro espécime arqueológico: as notas eram miúdas, as claves semelhantes as usadas outrora, a escrita cuidadosa e antiquada, aparecendo em um que outro ponto o tipo gótico, que se nota em certas letras, nos manuscritos dos séculos décimo-sexto e décimo-sétimo; uma ortografia muito semelhante a usada há trezentos anos.

Correndo os olhos pelas primeiras notas, reconheceu a música que ouvira em sonho. Depois, notou as palavras do canto: eram também as mesmas. Assentou-se ao piano e ficou logo convencido, sem lhe restar a menor dúvida, de estarem ali reproduzidos exatamente o cântico e os versos que o visitante onírico havia cantado com acompanhamento da espineta.

A princípio, sentiu-se perplexo, perturbado e mesmo assustado. Que queria dizer tudo aquilo? Ao sonho mesmo, apesar de vivaz e notável, ele, quando acordou de noite, não havia ligado importância. Mas que era isso? Prestando atenção ao papel achado no leito, viu que era a quarta página de uma folha de papel de música, nas duas primeiras das quais ele, no dia anterior, tinha escrito uma música de sua composição; folha essa que havia deixado na secretária. Podia alguém tê-la dali tirado durante a noite? Mas, quem foi esse alguém, que assim encheu as duas páginas em branco com essa misteriosa música de uma época passada? Alguém estivera ali...

Teria sido ele próprio? Mas, não era sonâmbulo, não lhe constava que, alguma vez, dormindo, passeasse pela casa e escrevesse. Não acreditava, nem conhecia o Espiritismo; portanto, não havia possibilidade de lhe ser sugerida a idéia de uma mensagem espiritual. Estava confuso e desnorteado, principalmente depois que notou a coincidência dos nomes e datas. O homem da visão havia falado do seu amo, o Rei Henrique; no alto da página em que estava escrito o canto, lia-se que a letra era de Henrique III; a espineta fora construída em 1564, quando Henrique, então Duque de Anjú, tinha quatorze anos de idade. Que haverá de mais natural que o fato de haver ele encontrado esse instrumento, alguns anos depois, em sua viagem de Roma á corte de França, e tê-lo trazido, quando a história diz que era um compositor musical de algum merecimento?

O Sr. Bach falou dessas maravilhas aos seus amigos, que as foram contando a outros, e bem de pressa uma multidão de curiosos, literatos, artistas, antiquários e outros afluiu aos aposentos do conhecido músico, a fim de ouvir de sua própria boca a narração e ver, com os próprios olhos a maravilhosa espineta. Entre esses visitantes estavam alguns espíritas convictos, e foi então quê, pela primeira vez, o Sr. Bach ouviu falar de médiuns escreventes e teve conhecimento de que a sua mão podia ter sido guiada para escrever durante o sono.

Tudo isso, apesar de muito insólito e estranho para firmar sua crença, fê-lo pensar; e, certo dia, três ou quatro semanas depois do sonho, sentindo a cabeça pesada e um estremecimento nervoso no braço, veio-lhe a idéia de que talvez algum Espírito desejasse escrever por seu intermédio, a fim de por esse meio fornecer-lhe qualquer explicação do mistério que não conseguia esclarecer. Apenas tomou o lápis e o papel, perdeu a consciência de si e nesse estado, a mão escreveu em francês: "O rei Henrique, meu amo, que me deu a espineta, hoje de vossa propriedade, escreveu quatro linhas em um pedaço de pergaminho, que fez pregar na caixa, na manhã em que me enviou o instrumento. Alguns anos depois, tendo eu de viajar e de conduzir comigo a espineta, receando perder o pergaminho, tirei-o e por segurança, coloquei-o em pequena abertura, á esquerda do teclado, onde se acha ainda" Essa comunicação era assinada Baldazzarini. Depois dela estavam as linhas seguintes:

"Le roy Henry donne cette grande espinette
a Baldazzarini, très-bon musicien.
Si elle n'este bonne ou pas assez coquette,
pour souvenir, du moins, qu'el la conserve bien"

O rei Henrique dá esta bela espineta
a Baldazzarini, um músico excelente.
Se achar que não é boa, se a crer mui singela,
que em lembrança, ao menos, a conserve presente.

Afinal, aparecia alguma probabilidade de obter uma evidência tangível em relação a esses mistérios. Restava encontrar uma prova para determinar se Baldazzarini era um mito ou um personagem real, capaz de esclarecer os fatos em causa.

Para satisfazer á curiosidade pública, a espineta ficou alguns dias exposta no Museu Retrospectivo do Palácio da Indústria; e foi nesse tempo que a comunicação foi escrita. Imediatamente, mandaram-na buscar.

Imagine-se com que ânsia nervosa pai e filho aguardavam a sua chegada, a fim de verificar se a história do pergaminho, escrito pela própria mão do rei e escondido em uma abertura da caixa do instrumento, era um romance ou uma realidade.

Durante uma ou duas horas, diz o Sr. Bach, eles exploraram todos os recantos do velho instrumento, sem nada encontrarem. Afinal, quando já toda a esperança parecia perdida, Léon Bach relendo o que a mão de seu pai tinha escrito, propôs que, sem inutilizá-lo, se desmanchasse o instrumento. Quando retiraram o teclado e afastaram alguns martelos, descobriram em baixo e do lado esquerdo, uma estreita fenda na madeira, na qual se achava oculta uma tira de pergaminho de onze ou doze polegadas de comprimento por dois quartos de largura, na qual se viam escritas, com mão firme, quatro linhas semelhantes às que a mão do Sr. Bach tinha traçado; mas a quadra recém achada trazia a assinatura manual de Henrique. Eles limparam-na como puderam, e então conseguiram ler:

"Moy le Roy Henry trois offrois cette espinette
a Baltazzarini mon gay muscien.
Mais s'il dit mal sone ou bien (ma) moule simplette
lors pour mon seuvenr dans l’etui garde bien.

Henry".

***

Eu, o rei Henrique terceiro, esta espineta ofereço
a Baltazzarini, meu músico estimado,
Se a achar pobre de tons e de pequeno preço,
que em seu estojo a guarde e que eu fique lembrado

Henrique.

É difícil, em palavras prosaicas, traduzir a emoção desses exaltados investigadores quando, afinal, do seu secreto esconderijo sacaram, descolorida pelo tempo e coberta do pó dos séculos, essa testemunha muda. O pai, quando viu aquilo, teve a consciência de que o aviso que o levara a fazer essa descoberta era tanto seu como da pena que o escrevera. Quando despertou do transe, durante o qual havia escrito, ele o leu como se fosse escrito por uma pessoa estranha. Entretanto, em substância, o que estava escrito era real e as provas da evidência ali se achavam!

As diferenças que aparecem no que foi obtido pelo Sr. Bach e no que se lê no pergaminho são insignificantes. Ali se vê: Le roy Henry; aqui: Moy le roy Henry trois; ali: très bon musicien, aqui gay musicien; lá: si elle n’est bonne; e aqui: s’il dit mal sone; ali: pas assez coquette, e aqui: ou bien (ma) moule simplette; etc. O sentido é o mesmo.

Atônitos como estavam, duvido que tivesse ocorrido aos dois, como ocorre a mim, que a evidência assim obtida é muito mais forte, muito mais convincente, porque, sendo as duas quadras substancialmente idênticas na forma, uma não é cópia da outra. No terceiro verso da quadra do pergaminho, lê-se intercalada a palavra (ma), que a princípio não foi compreendida, mas depois ficou perfeitamente explicada. Quando o Sr. Bach exibiu o pergaminho original ao amigo de quem obtive essa narrativa, disse-lhe: "Ninguém compreendia o que queria dizer a palavra ma entre aspas, que aí se vê; mas um dia minha mão de novo moveu-se involuntariamente e escreveu: "Amigo mio, o rei gostava de pilheriar com a minha pronúncia francesa, pois que eu dizia sempre ma em vez de mais, Foi por isso que ele escreveu assim". É' fato de simples observação que o italiano, falando o francês ou o português, diz ma em vez de mais ou mas.

O pergaminho original, enegrecido pela idade, foi levado pelo Sr. Bach à Biblioteca Imperial (caso ainda assim se chame a grande Biblioteca da França), e aí foi comparada com os manuscritos originais, Nestes notou-se que a letra de Henrique não tinha um tipo constante; mas, a respeito da assinatura, a concordância da do pergaminho com as dos outros era perfeita, como disse o Sr. Bach. O exame dos antiquários chegou à mesma conclusão.

Os pequeninos buracos que se viam ao longo das margens do pergaminho, indicavam que ele estivera pregado numa superfície de madeira, como dissera a comunicação; sobre a quadra escrita no pergaminho notava-se uma cruz vermelha; é também uma prova adicional de autenticidade, pois, é um sinal de devoção que aparece sempre em todos os escritos de Henrique III, chegados até nós.

Esses maravilhosos incidentes, mais ou menos corretamente relatados, não podiam deixar de aparecer na imprensa jornalística. Vários jornais parisienses com eles se ocuparam e, depois, os de toda parte. Por espaço de uma semana a espineta do Sr. Bach com os seus acessórios sobrenaturais foi a grande sensação dos amadores de novidades na metrópole francesa. O conjunto foi julgado incompreensível, todos admitiam os fatos, classificando-os de mistérios que não ousavam aprofundar, e confiavam na existência de alguma lei natural que os havia de explicar; mas, ninguém pôs em dúvida os fatos, por causa da reputação sólida de integridade, de que gozava o Sr. Bach.

Depois de algum tempo, essa excitação foi substituída por outras notícias sensacionais, sem que aquela tivesse tido qualquer solução ou explicação.

O cântico foi publicado, e como no original só estava a parte cantante sem o acompanhamento, o Sr. Bach o arranjou com muito gosto e discernimento, A letra era linda e adaptava-se ao sentimento do romance.

Estribilho

J'ay perdu celle pour quy j'avois tant d'amour,
Elle, si belle, avoit pour moy, chaque jour,

Faveur nouvelle et nouveau dèsir;

Oh! ouy! sans elle il me faut mourir.

1º. verso

Un jour, pendant une chasse lointaine,
Je l’aperçus pour la primiere fois;
Je croyais voir un ange dans la plaine,
Lors, je devins le plus heureux des Roys!

Mais!

2º. verso

Je donnerais certes tout mon royame
Pour la revoir encore un seul instant,
Près d'eIle assis dessous un humble chaume,
Pour sentir mon coeur battre en l'admirant.

Mais!

verso

Triste et cloistrèe, oh! ma pouvre belle
Fut loin de moi pendant ses derniers jours.
Elle ne sens plus sa piene cruelle,
Ici bas, helas!... je souffre toujours!

Ah!

Esses versos encerram duas alusões especiais; uma ao seu real autor, apaixonado por uma pessoa vista na ocasião de uma caçada distante, e a outra a uma dama que terminou seus dias num claustro. A publicação dos incidentes supramencionados e do cântico misterioso deu lugar a várias buscas nos anais do século décimo-sexto, a fim de firmar o valor da história do Sr. Bach. Segundo os melhores biógrafos, logo se ficou sabendo que o objeto dessa grande paixão da vida de Henrique tinha sido a Princesa Maria de Cleves, que parece ter morrido em uma abadia.

Foi encontrada também uma passagem na obra do laborioso cronista, abade Lenglet Dufresnoy, a qual diz: "Em 1579 Baltazzarini, célebre músico italiano, veio à França e viveu na corte de Henrique III".

Tomei a resolução de obter o maior número possível de testemunhas e encontrei alguns outros particulares, de importância.

HENRIQUE, O ÚLTIMO DOS VALOIS

Esse filho predileto de Catarina de Medicis é mais conhecido por um grande crime de sua vida: o de ter dado o seu assentimento ao massacre de S. Bartolomeu, que se efetuou por instigação de sua mãe e por ordem de seu irmão mais velho, Carlos IX, em Agosto de 1572.

Henrique, porém, não era destituído de outras qualidades excelentes. Com a idade de dezenove anos, ganhou para o irmão as batalhas de Jarnac e de Montcontour, adquirindo uma reputação militar que lhe valeu a eleição ao trono da Polônia.

Um dos mais minuciosos historiadores modernos, diz: "Henrique desejava levar uma vida palaciana, dividida entre os exercícios piedosos e os prazeres da cidade, entre o retiro e a ostentação própria da soberana magistratura. Era pouco inclinado a cultivar as relações dos velhos generais, dos políticos e homens de saber, preferindo a companhia dos rapazes alegres e de bela aparência, que o imitavam na irrepreensibilidade dos vestuários e no brilhantismo dos ornamentos." (91)

Isso, porém, só nos mostra uma das faces do seu caráter. "Sua natureza, diz Ranke, assemelhava-se á de Sardanápalo que, nos tempos de prosperidade, se entregava à enervadora luxúria, mas, nos da adversidade tornava-se corajoso e atrevido... Suas faltas prendiam-se a essas duas qualidades. Sua falta de moralidade, inclinação aos prazeres mundanos e submissão a alguns favoritos, davam lugar a um ressentimento geral e bem fundado. Ocasionalmente, contudo, ele se elevava á altura da sua vocação, manifestando uma capacidade intelectual digna da sua elevada posição; e apesar de estar sujeito a muitas vacilações, era uma alma grandemente susceptível de boas disposições."

Tal foi o monarca que, segundo o alegado no sonho do Sr. Bach, compôs o canto elegíaco acima referido. O nome da dama por quem ele chorava, ali não estava mencionado; mas, admitida a veracidade do canto, não pode restar dúvida sobre sua personalidade. O nome de Beatriz não está mais intimamente preso à memória do Dante, nem o de Laura à do Petrarca, do que o de Maria de Cleves à de Henrique III. Nenhuma história detalhada desse tempo, porém, nenhum biógrafo de Henrique, lhe faz alusão.

Ele encontrou-a, quando era ainda Duque de Anjú, e pretendeu casar-se; ela, porém, era protestante e ele católico, do sangue dos Medicis. Essa diferença de religião, insuperável aos olhos da Rainha Mãe, parece ter sido o único motivo de se não ter efetuado tal casamento.

Ela casou-se em Julho de 1572 com o Príncipe de Condé, um dos principais chefes protestantes; no ano imediato, 1573, Henrique deixou a França para subir ao trono da Polônia levando consigo, segundo Chateaubriand, o remorso do massacre de S. Bartolomeu e, ainda mais forte, a dor da sua derrota no amor. "Ele escreveu com sangue, diz esse historiador, uma carta a Maria de Cleves, primeira mulher de Henrique, príncipe de Condé."

Carlos IX faleceu em 1574 e Henrique regressou logo da Polônia a Paris, como herdeiro do trono de França. Um mês depois de sua chegada, morreu Maria e essa morte foi-lhe um golpe tão profundo, que passou muitos dias sem comer, encerrado em uma sala forrada de preto, e quando apareceu, foi trajando roupas de luto, semeadas de figuras representando caveiras.

Os poetas daqueles dias fazem alusões ao profundo pesar de Henrique.

Nas obras de Pasquier, contemporâneo de Henrique, encontra-se uma monodia sobre a morte de Maria de Cleves, que o poeta simula ter sido dita pelo próprio Rei.

Tudo isso combina perfeitamente com o que nos diz a história a respeito dessa dama.

MARIA DE CLEVES

Essa princesa parece ter sido quase tão notável por sua graça e beleza, como a sua tão célebre homônima, Maria da Escóssia.

Ela fora objeto de admiração na corte de Carlos IX, por sua amabilidade e virtudes. Os poetas de então celebravam-na com o nome de - A. bela Maria; e a fascinação que seus encantos exerceram sobre Henrique foi tal, que a credulidade do tempo atribuiu-a à feitiçaria.

Acharemos um depoimento sobre o caráter dessa dama e o profundo desgosto que a sua perda causou ao Rei, no seguinte extrato de um manuscrito tratando dos reinados de Henrique III e Henrique IV, de Pedro l'Estoile, Senhor de Grand, cavalheiro de nobre e bem reconhecida família, ocupando lugar importante na magistratura e no Parlamento de Paris; "No sábado, 30 de Outubro de 1574, faleceu em Paris, na flor da idade, deixando uma filha, a Sra. Maria de Cleves, marquesa d'Isle, mulher do Sr. Henrique de Bourbon, príncipe de Condé. Ela era dotada de singular bondade e beleza, motivo pelo qual o Rei amava-a loucamente, a ponto do Cardeal de Bourbon, tio político dela, tendo de receber o Rei em sua abadia de Saint-Germain-des-Prés, remover o corpo da princesa, e ordenando ao Rei que não entrasse enquanto o corpo ali estivesse. No seu leito de morte, ela disse que tinha desposado ao mais generoso, mas também ao mais ciumento príncipe de França, apesar de ter a consciência de nunca lhe haver dado o mínimo motivo para o seu ciúme".

Não encontrei prova positiva de haver Maria passado seus últimos dias na abadia onde seu corpo foi sepultado; mas, há muita probabilidade de que isso se tenha dado.

Sabemos que ela morreu em Paris e que o marido, príncipe de Condé, receando que a Rainha Mãe tentasse contra sua vida, tinha, alguns meses antes, se refugiado na Alemanha, onde se conservou até fins de 1575, isto é, até um ano depois da morte de Maria. O pai dela tinha falecido muitos anos antes. O príncipe, sem dúvida, expatriando-se, confiou a mulher aos cuidados do tio, o Cardeal de Bourbon. O Cardeal, evidentemente, residia em sua abadia e é natural que ali recebesse a sobrinha, órfã e privada da companhia do marido. Triste devia ter sido ali a sua vida, ignorando o destino do esposo! Tudo isso coincide com a letra do canto.

Digamos, agora, alguma cousa acerca do músico, cujo Espírito, como dizem, se manifestou.

BALTAZZARINI

Este nome não se encontra nem na Biographie Generale, nem na Biographie Universale. Depois, porém, de longa busca, quando eu já desesperava de encontrar alguma notícia biográfica de tal personagem, tive a felicidade de descobrir na Biblioteca do Ateneu, de Boston, um dicionário francês de músicos notáveis, em oito ou nove volumes; e aí encontrei o nome do favorito de Henrique. Aí se lê: "Baltazzarini, músico italiano: conhecido em França com o nome de Belo alegre (Beaujoyeux), foi o primeiro violinista do seu tempo. O marechal de Brissac trouxe-o do Piemonte, em 1577, para a corte da Rainha Catarina de Medicis, que o fez seu diretor de música e primeiro cavalheiro. Henrique III confiou-lhe a direção das festas de palácio, cargo que ele desempenhou sempre a contento geral. Foi o primeiro que teve a idéia de um espetáculo dramático, combinado com música e dança."

Baltazzarini, pois, viveu na corte de Henrique com a alcunha de Beaujoyeux (o belo-alegre).

Isso combina com a dedicatória da espineta, escrita pelo Rei, onde este o chama gay mucisien, e com a escrita pela mão do médium, onde se lê: très bon mucisien.

Não é possível encontrar-se uma prova mais forte de autenticidade, do que nesses pequenos incidentes.

Que diremos agora da história contada ao Sr. Bach? Os documentos que reuni, foram para mim obtidos por um inglês amigo, residente em Paris, a quem nunca terei expressões para patentear, como desejo, a minha gratidão por sua desinteressada e infatigável benevolência e cujo nome muito desejaria tornar conhecido. Esse amigo, tendo travado relações com o Sr. Bach, dele obteve pessoalmente todas as particularidades, confirmadas pelas publicações jornalísticas e pelos documentos que hoje possuo, como fotografias fornecidas pela obsequiosidade do Sr. Bach, acompanhadas do certificado abaixo e do fac-símile da música original: "É um fac-símile correto, da folha de papel de música que encontrei no meu leito, na manhã de 5 de Maio de 1865. O canto e a letra são exatamente os que ouvira em sonho. - N. G. Bach."

Em aditamento, o Sr. Bach, respondendo a uma sugestão minha, que muitos talvez julguem importuna, fez-me o favor de me escrever uma carta com data de 23 de Março de 1867, na qual diz: "Atesto a existência do pergaminho que ainda se acha em meu poder, contendo o verso composto pelo rei e dirigido ao célebre músico Baltazzarini, e que foi encontrado em uma fenda secreta da espineta que o rei lhe dera; bem assim, que a comunicação anunciando a existência desse pergaminho e o local em que se achava, é rigorosamente real. Acrescento que as fotografias da espineta e do pergaminho, bem como a reprodução do autógrafo da música e da letra, foram executados com cuidado e são perfeitamente exatos."

Tal é o caso, com todos os seus importantes pormenores. Cabe ao leitor decidir se em tais circunstâncias a suposição de impostura é admissível.

Qual o móvel? Nenhum lucro mundano havia nisso. Antes sério risco e talvez mesmo, prejuízo. O risco de ser iludido, suspeitado, acusado de monomania ou, talvez, de conspirar para enganar o mundo com uma série de combinados embustes, envolvendo uma mentira sacrílega e visando cousas sagradas, relativas não só a este como ao outro mundo. Por esse modo, corre-se o risco de perder uma reputação firmada na integridade de uma vida longa e honrada. E, mais ainda, a atração á sua casa de visitantes importunos e impertinentes, questionadores, perturbando a quietação tão cara a um sexagenário ilustrado e estudioso.

Se, porém, o caráter e todos os motivos imagináveis não dão lugar à suspeita alguma, as circunstâncias são de tal ordem, que a fraude só poderia ser sustentada com extremas dificuldades. O amigo a quem devo os meus documentos, mostrou o original do cântico ao Sr. D., um dos maiores harmonistas dos nossos dias, um perfeito tesouro de instrução musical. Esse cavalheiro examinou-o como crítico e declarou que ali se via o estilo exato da época, cuja imitação exigia não só um grande gênio musical, como ainda um estudo especial do modo de vida de então. O Sr. D. que não crê na comunicação dos espíritos, não procurou explicar o mistério e só disse que, apesar de ser o Sr. Bach um insigne músico, julgava absolutamente impossível fosse ele o autor daquele cântico; e, mesmo que o pudesse fazer, não o conseguiria em uma só noite e sem recorrer à velhas autoridades.

E, que dizer das coincidências entre as palavras do canto e os incidentes das vidas de Henrique III e Maria de Cleves? Todas as alusões foram justificadas, exceto a da caçada longínqua. Deixemos que os saduceus zombem da crença no invisível; confesso que tenho essa crença, e, se algum dia tiver a oportunidade de consultar a Biblioteca do Museu Britânico ou a Biblioteca Imperial de França, espero verificar esse ponto.

Pensai nas mínimas particularidades a que fiz referência. Podia alguém combinar um plano de falsidades e indicações, de modo a explicar todas as variações entre a estância predita e a original? e aquele (ma) tão bem explicado? - e aquele si tão correto, apesar de parecer um erro? - e mesmo as variações, no modo de escrever o nome do músico? - cousa mui natural, se tivermos em vista a ortografia incerta daqueles dias, mas como inverossímil de ser hoje apresentada? Foi só depois de longas meditações e indutivamente, que concluí que as palavras triste et cloistrèe estavam em perfeita concordância com os fatos. Como, então, acreditar que uma remota referência pudesse, na noite misteriosa, levar o Sr. Bach a mesma conclusão?

Ainda mais: se a comunicação indicando o esconderijo do pergaminho foi uma invenção, então já o Sr. Bach o havia encontrado, sem indicação alguma, antes de expor a espineta no Museu Retrospectivo.

Mas, estará nos limites do provável, o fato da surpreendente descoberta de um tão interessante documento ter sido calculadamente escondido por alguém; de ser a espineta, sob um falso pretexto, exposta no museu e depois apresentar-se a comunicação forjada como motivo para mandá-la buscar e nela proceder-se a um pretenso exame?

Não creio que o leitor desapaixonado aceite tão chocantes improbabilidades; e, se as não aceita, que interessantes sugestões, em relação às comunicações espirituais e à identidade dos Espíritos, se encerram na simples história da espineta do Sr. Bach?

__________

(91) Ranke.

(OWEN, 1982, p. 351-368).

Conclusão

Certamente, quando os dados pessoais dos indivíduos eram muito poucos, comprovar relatos de fatos acontecidos no passado será sempre um problema quanto à sua comprovação. Entretanto, como nos dias atuais as informações pessoais são cada vez mais detalhadas (certidão de nascimento, certidão de casamento, diplomas de todos os gêneros, jornais, revistas e periódicos diversos), é promissor, quanto ao futuro, a real possibilidade de, cada vez mais, se comprovar esses relatos. A questão é: quem sobreviver verá.

 

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Abr/2006.

 

 

 

Referência bibliográfica

 

OWEN, R. D. Região em Litígio entre este mundo e o outro, Rio de Janeiro: FEB, 1982.

 

 

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