Pensamento, do que é feito?


Certa vez, num fórum de discussão, nos deparamos com a seguinte pergunta: "Pensamento, do que é feito?"

Para tentar responder a essa pergunta, precisamos primeiramente rever os nossos conceitos sobre alma, espírito e homem. Na Revista Espírita de abril de 1864, no artigo “Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas”, item 5, Kardec diz:

"A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito, separados do corpo, constituem o ser chamado Espírito."

Embora seja comum usarmos as palavras "Alma" e "Espírito" como tendo uma só significação, na realidade, filosoficamente falando, elas são ligeiramente diferentes. A Alma é o princípio inteligente do indivíduo e é imaterial. Já o perispírito (ou corpo espiritual nas palavras de São Paulo) é um envoltório que reveste a Alma. O perispírito é constituído por uma matéria etérea, invisível aos nossos olhos, que pode se tornar visível e palpável em fenômenos de aparição. Mas é matéria. O Espírito propriamente dito é constituído pela união da alma e do perispírito e, logo, podemos afirmar que o Espírito possui qualquer coisa de material, enquanto que a Alma é totalmente imaterial.

O assunto que será tratado é mais relativamente sobre a alma, que é imaterial, fonte da inteligência e do pensamento, objeto da pergunta inicial. Mas como pode algo ser imaterial e existir?

O Espiritismo não resolve a questão da natureza da Alma, e nem será tentado aqui fazê-lo. O mesmo com relação ao pensamento, que é um atributo da alma e igualmente imaterial. Será apenas demonstrado que não é absurdo e irracional concebermos a existência de algo imaterial e que este algo tenha poder sobre as coisas materiais.

Como analogia, imaginemos uma máquina totalmente automática que, após pressionado o botão de partida, executa todas as operações e decisões sozinha. O que seria a "alma" dessa máquina? Qual seria seu princípio inteligente? Certamente responderíamos que seria o microprocessador e as memórias, que trabalham conjuntamente para que a máquina desempenhe a sua função. Então perguntamos: quanta matéria é idealmente necessária para construir esse microprocessador e memórias?

A cada dia que passa, os cientistas conseguem espremer mais e mais transistores em espaços cada vez menores. O futuro sinaliza que, em breve, entraremos na era nanotecnológica, onde serão combinados grande capacidade de processamento e armazenamento com espaço diminuto. Pergunta-se novamente: qual o limite dessa redução?

Se a resposta for "podemos reduzir infinitamente...", chegaremos ao paradoxo (ou aparente paradoxo) de dizer que não precisamos de matéria para construir um microprocessador. Que ele poderia ser "imaterial". E que esse algo imaterial poderia controlar os movimentos de qualquer quantidade de matéria, pois não há limites para o tamanho de uma máquina automática. É nesse mesmo sentido que poderíamos afirmar que a nossa alma é imaterial, sem atentar contra a lógica ou o bom senso.

Raciocínio análogo pode-se fazer para concluir que esse algo imaterial precisa de uma quantidade de energia idealmente "zero" para operar.

Como primeira objeção a este raciocínio, poderiam dizer que, baseados nos conceitos da física quântica, a redução é limitada, e, logo, não poderíamos reduzir infinitamente o tamanho do microprocessador, sendo necessário pelo menos uma unidade básica de matéria, que seria o fóton. Mas quem disse que a física já deu a última palavra e que não haja nada mais sutil que o fóton? É bom lembrar que ainda não existe consenso entre os físicos sobre a constituição e o comportamento da matéria, e que há hoje duas físicas em vigor, que se contrapõem mutuamente: a física quântica e a física relativística. O Universo é um só e não podemos ter duas explicações divergentes para ele, o que implica que, necessariamente, pelo menos uma dessas físicas terá que ser revisada futuramente. O mais provável, contudo, é que ambas sejam revisadas e fundidas e, quem sabe, nesse processo, seja descoberta a parcela sub-quântica do Universo. Isso é só especulação, é verdade, mas, uma refutação à imaterialidade baseada somente na física quântica, é no máximo hipotética hoje em dia.

Tudo o que podemos, por ora, responder sobre a pergunta inicial, sem "chutes", é que o pensamento é imaterial, assim como a alma, sua origem. Alguns debocham quando usamos palavra "imaterial" para definir a alma, mas o conceito não é tão místico e sobrenatural quanto parece. Para quem discorda, gostaríamos que nos respondesse quanto é que deve "pesar" um poema qualquer de Drummond.


Rafael Gasparini Moreira
Paulínia/SP
e-mail: rafael.gasparini@gmail.com
out/2007


Fontes Bibliográficas:

1. Revista Espírita, ano VII, 1864, tradução de Evandro Noleto Bezerra, Editora FEB.




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