A Lenda Bíblica de Jó

Examinem tudo e fiquem com o que é bom. (Paulo de Tarso, 1Ts 5,21).

Os erros não deixam de ser erros porque todos os cometem ao mesmo tempo. (FOX, 1996).

Em busca da solução para a dor e o sofrimento, os povos primitivos inventaram uma lenda com a qual pensavam justificá-los. Daí surgiu a lenda de Jó. Não, caro leitor, nós ainda não estamos necessitando ser dominados com uma camisa de força; mas usaremos a força dos argumentos para provar o que estamos falando com essa análise que faremos do livro de Jó.

Alguns tradutores afirmam:

“A literatura sapiencial floresceu em todo o Antigo Oriente. Ao longo de sua história, o Egito produziu escritos de sabedoria. Na Mesopotâmia, desde a época sumérica, foram compostos provérbios, fábulas e poemas sobre o sofrimento que se assemelham ao livro de Jó”.

(...)

Não é de admirar que as primeiras obras sapienciais de Israel se pareçam muito com a de seus vizinhos: todas elas provêm do mesmo ambiente”. (Bíblia de Jerusalém, p. 797).

“... o autor usa uma antiga lenda sobre a retribuição (1,1-2,13; 42,7-17), omitindo o final (42,7-17) e substituindo-o por uma série de debates que mostram o absurdo da teologia em voga, incapaz de atender à nova situação (3,1-42,6)”. (Bíblia SagradaEdição Pastoral, p. 639)

O autor toma como ponto de partida uma lenda comum na época e, com leves retoques, a relata em 1,1-2,13. O final primitivo dessa lenda se encontra em 42,7-17. A intenção é substituir o final da lenda pelo debate que se encontra em 3,1-42,6”. (Bíblia SagradaEdição Pastoral, p. 640).

“Da natureza poética do livro se segue que não se deve insistir na veracidade histórica de cada passo da discussão. Além disso, a própria índole do diálogo supõe que o autor não tenha querido aprovar todas as idéias expressas pelos interlocutores. A chave da composição conexa está em 42,1-8: Jó, embora tendo um conceito elevado de Deus, pecou por presunção e violência; aos seus amigos, pelo contrário, faltou o conceito adequado de Deus e de sua Providência”.

O prólogo e o epílogo são ficções literárias. Discute-se a historicidade da pessoa de Jó; a opinião mais plausível é a de que também seja uma personagem fictícia, pois o objetivo da obra não é contar a história de um sofredor, e sim, oferecer uma solução e um consolo a todos os que sofrem...”. (Bíblia SagradaEdições Paulinas, p. 579).

Como se vê, desde tempos imemoriais, os “donos” das religiões sempre fizeram suas interpolações (usando até lendas, como aqui) e que, para dar força a elas, as atribuía à divindade a que eles prestavam culto.

Lembramo-nos muito bem, quando, nos primeiros contatos com as letras, nossa professora primária, para entreter a turma e desenvolver-lhes a imaginação, contava as famosas histórias infantis. Invariavelmente iniciava assim Era uma vez...” buscando atrair a atenção dos alunos e criando, desde o início, um clima de expectativa. Bom, poderá nos perguntar: mas o que tem isso a ver com o assunto que você se propõe a falar? O que estamos propondo, caro leitor, é uma relação direta entre essas histórias e a história de Jô; veja como se inicia o relato bíblico:

Era uma vez um homem chamado Jó, que vivia no país de Hus. Era um homem íntegro e reto, que temia a Deus e evitava o mal. (Jó 1,1)

É estonteante a correlação entre as histórias infantis e essa que estamos citando. Aliás, sobre esse país de Hus instala-se cizânia geral sobre onde se localiza:

Ø       Hus, não identificada, mas por certo, situada ao oriente da Palestina. Há quem a coloque no Hauran, sul de Damasco (cf. Gen. 36,28; Lam 4,21),... (Bíblia SagradaEdições Paulinas, p. 580)

Ø       Embora não saibamos com certeza onde se encontra Hus, sabemos que não é território israelita. (Bíblia do Peregrino, p. 1062).

Ø       Terra de Hus é o território de Edom, fora de Israel... (Bíblia SagradaVozes, p. 634).

Ø       ... Jó, que viveu em Hus, provavelmente a sudoeste do Mar Morto,... (Bíblia Sagrada - Santuário, p. 733).

Ø       Ficava a sudeste da Palestina, na Iduméia ou Edom (cf. Lm, 4,21). (Bíblia Barsa, p. 389).

Ø       Certamente ao sul de Edom (cf. Gn 36,28; Lm 4,21). (Bíblia de Jerusalém, p. 803).

No fundo, ninguém tem certeza de onde é, mas, para escapar dessa dúvida, alguns querem situá-la num lugar conhecido, esperando que os néscios acreditem neles. Consultamos vários mapas bíblicos e em nenhum deles encontramos a localização de Hus, obviamente por não saberem mesmo onde era ou, conforme acreditamos, não passa de uma ficção literária.

Mas, continuando:

Tinha sete filhos e três filhas. Possuía também sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas mulas e grande número de empregados. Jó era o mais rico dos homens do Oriente. Os filhos de Jó costumavam fazer banquetes, um dia na casa de cada um, e convidavam as três irmãs para comer e beber com eles. Quando terminavam esses dias de festa, Jó os mandava chamar, para purificá-los. Ele madrugava e oferecia um holocausto para cada um deles, pensando: ‘Talvez meus filhos tenham pecado, ofendendo Deus em seu coração’. E Jó fazia assim todas as vezes” (Jó 1, 2-5).

Tal qual as estórias infantis, aqui também é realçada a riqueza de Jó e um pouco de sua vivência diária. Interessante, nesse relato, é que não são citados os nomes de seus filhos, como seria de se esperar, caso o relato fosse verdadeiro; nem mesmo o de sua mulher.

Embora não seja o que pretendemos abordar, vale uma digressão para um outro assunto, não menos curioso. É a questão de satanás, como sendo o deus do mal; leiamos:

Certo dia, os anjos se apresentaram a Javé e, entre eles, foi também Satã. Então Javé perguntou a Satã: "De onde você vem?" Satã respondeu: "Fui dar uma volta pela terra". Javé lhe disse: "Você reparou no meu servo Jó? Na terra não existe nenhum outro como ele: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e evita o mal". Satã respondeu a Javé: "E é a troco de nada que Jó teme a Deus? Tu mesmo puseste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens. Abençoaste os trabalhos dele e seus rebanhos cobrem toda a região. Estende, porém, a mão e mexe no que ele possui. Garanto que ele te amaldiçoará na cara!" Então Javé disse a Satã: "Pois bem! Faça o que você quiser com o que ele possui, mas não estenda a mão contra ele". E Satã saiu da presença de Javé. (Jó 1, 6-12).

A expressão satanás, conforme nos informam vários tradutores bíblicos, quer dizeracusador”, não sendo, portanto, um ser, mas apenas uma função. Imaginemos num Tribunal de Júri, o promotor de justiça que age na linha de acusação do réu, exatamente o que, no texto, se atribui a esse anjo. Confirmamos o que dizemos pela nota a seguir, relativa a essa passagem:

“A corte celeste, que decide os rumos da história, se reúne no estilo de uma corte oriental. Satã, que significa adversário no tribunal, não é aqui a personificação do mal, e sim uma espécie de investigador...” (Bíblia SagradaEdição Pastoral, p. 640).

Observar que, se na narrativa está se afirmando que entre os anjos que se apresentaram a Javé estava também satanás, é porque ele, evidentemente, era um deles. E se estava junto com os outros não era anjo mau coisíssima nenhuma. Seria a mesma coisa que se dizer que o Promotor de Justiça, que é o outro pólo de que necessita a sociedade para o equilíbrio da Justiça, é um advogado mau, pelo simples fato de exercer a função de acusador.

Entretanto, não sabemos de onde a teologia retira que ele, satanás, é um anjo mau. por pura extrapolação, pois, pelo que se vê do relato bíblico, a única coisa que fez foi ferir um pouco o orgulho de Javé. Isso porque, quando Javé disse queera um homem íntegro, o anjo respondeu que ele era assim só porque “os braços” de Javé se estendiam sobre ele, protegendo-o e proporcionando-lhe as regalias terrenas, mas que, se não tivesse isso, talvez Jó não se comportasse daquele modo. Aí Javé deixa que o anjo retire de Jó tudo quanto tinha para ver se assim ele ainda se manteria firme na sua integralidade, como se em algum momento Deus pudesse ter dúvida sobre qualquer coisa ou sentisse a necessidade de alguém lhe provar algo que pensava ser verdadeiro.

Muitos têm a Jó como o “paciente sofredor”; mas será mesmo? Veja:

Então Jó abriu a boca e amaldiçoou o dia do seu nascimento, dizendo: ‘Morra o dia em que nasci e a noite em que se disse: 'Um menino foi concebido'. Que esse dia se transforme em trevas; que Deus, do alto, não cuide dele e sobre ele não brilhe a luz. (Jó 3,1-4).

         A pergunta é: uma pessoa paciente amaldiçoa o dia em que nasceu ou isso é tipo dos impacientes? Como se diz; perguntar não ofende.

         Mas, não bastasse isso, continua o impaciente e revoltado Jó:

Por que não morri ao sair do ventre de minha mãe, ou não pereci ao sair de suas entranhas? Por que dois joelhos me receberam, e dois peitos me amamentaram? Agora eu repousaria tranqüilo e dormiria em paz, junto com os reis e governantes da terra, que construíram túmulos suntuosos para si, ou com os nobres que possuíram ouro e encheram de prata seus mausoléus. Agora eu seria um aborto enterrado, uma criatura que não chegou a ver a luz”. (Jó 3,11-16).

O nosso amigo apelou feio, pois disse ter sido preferível que tivesse sido abortado. Atitude compreensível para os que, advogando a vida única, não encontra explicação para a dor e o sofrimento, cujo entendimento poderá ser justificado se aceitarmos a reencarnação, única situação em que a justiça de Deus se manifesta em plenitude. Mas, apesar disso tudo, encontramos emverdades que bem se aplicam aos que acreditam na reencarnação:

Pelo que eu sei, os que cultivam injustiça e semeiam miséria, são esses que as colhem” (Jó 4,8).

E o homem gera seu próprio sofrimento, como as faíscas voam para cima (Jó 5,7).

         Dessa fala de Jó retiramos a Lei de Causa e Efeito, comumente denominada de carma, cuja relação com a reencarnação é direta; quem acredita em uma delas acredita também na outra.

em Jó uma afirmação que os teólogos fazem de tudo para mudar-lhe o sentido. Leiamo-la:

Então um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos do meu corpo; parou ele, mas não lhe discerni a aparência; um vulto estava diante de meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz:...” (Jó 4,15-16).

Aqui fica evidente, por demais, o fato de Jó ter percebido um espírito; entretanto, os não comprometidos com a verdade, mas com seus próprios dogmas, mudam a palavraum espíritopor um sopro (Bíblias: Vozes, Ave Maria, Paulus) ou por um vento (Bíblia Pastoral). Lamentável!

         Um conselho de Jó:

“Consulte as gerações passadas e observe a experiência de nossos antepassados. Nós nascemos ontem e não sabemos nada. Nossos dias são como sombra no chão. Os nossos antepassados, no entanto, vão instruí-lo e falar a você com palavras tiradas da experiência deles”. (Jó 8,8-10).

Mesmo não sendo o sentido que iremos dar, é, por sinal, um sábio conselho, pois os nossos antepassados podem nos orientar com suas experiências pessoais, de modo que não venhamos a errar em coisas que poderemos ter conhecimento para fazer da forma certa. Considerando que àquela época havia muito pouca coisa escrita, como consultar as gerações passadas se seus componentes morreram e levaram para o sepulcro seus conhecimentos? Simples: Evocando-os para lhes consultar o espírito, e, evidentemente, estamos falando aos que acreditam na possibilidade da comunicação com os mortos. Aos que não acreditam, perguntaremos: Teria algum sentido Moisés proibir de se comunicar com os mortos se isso não existisse ou não fosse possível?

Muitos acreditam que o homem ainda vem pagando pelo pecado de Adão e Eva; aliás, isso parece muito com a dívida externa brasileira, que governo nenhum consegue pagar; e disso tiram que os filhos pagam pelos erros dos pais; mas Jó parece não concordar com isso:

“Dizem que Deus castiga os filhos do injusto! Ora, faça que o injusto mesmo pague e aprenda: que veja com seus próprios olhos a desgraça, e beba a ira do Todo-poderoso. Pois, o que lhe importa a sua família depois de morto, quando o tempo de sua vida tiver chegado ao fim?” (Jó 21,19-21).

Pena que, em sua justificativa, Jó demonstra não acreditar na vida após a morte, evidenciando uma posição incontestavelmente materialista: morreu acabou.

Um ponto fundamental levantado por Jó, mas, infelizmente, ainda não assimilado pela grande maioria das pessoas:

Deus paga ao homem conforme as suas obras e retribui a cada