A morte de
Agripa:
Quem conta um conto aumenta um ponto
A verdade não pode existir em coisas que divergem. (S. Jerônimo)
Introdução
A ingenuidade
de muitos em acreditar
piamente em todas as narrativas
bíblicas como se fossem verdades
irrefutáveis é digna
de pena. A grande maioria
dessas pessoas se nem
mesmo ousa admitir uma simples
dúvida que dirá contestar
aquilo que se encontra
relatado na Bíblia, já
que pressupõem que tudo
que ali está é plena
verdade proveniente de Deus. Não
perceberam que por conta
da esperteza da liderança
religiosa da antiqüidade, tacitamente incorporada pela
atual, foi o que
transformou a Bíblia num livro
cujo conteúdo passou
a ser supostamente a palavra
de Deus. Foi a forma fácil
e prática que se encontrou para
manter sob domínio
os fiéis: ovelhas que
não berram.
A morte de Agripa
Leiamos esse
acontecimento conforme
a narrativa bíblica:
Herodes
estava enfurecido com os habitantes de Tiro e
Sidônia. Estes fizeram um acordo entre si e se apresentaram diante de
Herodes, depois de conquistarem as graças de Blasto, o camareiro real. Eles pediam a paz, já que seu país recebia mantimentos do território do
rei. No dia
marcado, Herodes vestiu-se com os trajes reais, tomou seu lugar na tribuna, e lhes dirigiu
a palavra oficial. O povo começou a clamar: "É
a voz de um deus, e não de um homem!" Mas, imediatamente, o anjo do Senhor feriu Herodes, porque ele não tinha dado glória a Deus. E Herodes
expirou, carcomido por vermes. (At 12, 20-23)
Segundo
os tradutores da Bíblia Anotada, esse
personagem é “Herodes Agripa I, neto
de Herodes, o Grande, que
reinara ao tempo do nascimento de Cristo.
Agripa, pelo menos exteriormente,
era um zeloso
praticante dos rituais
judaicos e era
um patriota em
questões religiosas” (p. 1378).
E, em
relação à sua morte,
completam: “Josefo afirma que Herodes adoeceu
subitamente durante seu
discurso e, depois de
cinco dias de
sofrimento, morreu (44 A.D.)” (p. 1379).
Vejamos então,
para conferir, o que
Josefo (37 a 103 d.C.), o historiador hebreu, fala
a respeito desse assunto.
A versão de Josefo, parece-nos ser
bem diferente dessa que
acabamos de citar. Vamos iniciar seu
relato após Agripa ter sido preso
pelo imperador Tibério, acusado por
um liberto de nome
Eutico, de desejar a sua
morte para que seu
amigo Caio o substituísse no poder:
Um
dia, quando Agripa estava com
outros prisioneiros diante do palácio, a fraqueza, que lhe causava a tristeza, fez que ele se apoiasse a uma
árvore sobre a qual uma coruja veio pousar. Um alemão, que era do número desses prisioneiros,
tendo-o notado, perguntou a um soldado que o olhava e que
estava acorrentado com ele, quem era aquele homem; tendo sabido que
era Agripa, o mais notável de todos os judeus pela glória de sua origem, rogou-lhe que
se aproximasse dele, a fim de que pudesse ouvir de sua boca alguma coisa sobre os costumes de seu país. O soldado assim fez; o alemão, então, disse a Agripa, por
meio de um intérprete: “Bem vejo que uma mudança tão grande e tão repentina de vossa sorte vos aflige, e que dificilmente
acreditaríeis que a divina providência vos dará a liberdade, muito em breve. Mas eu tomo os deuses como testemunhas, os deuses que eu adoro e os que
são reverenciados neste país,
que me puseram nestas cadeias, de que, o que eu vos tenho a dizer, não é para vos dar uma vã consolação, sabendo, como
eu sei, que quando as predições favoráveis não são seguidas de seus efeitos só servem para aumentar a nossa tristeza. Quero pois dizer-vos, embora com perigo, o que essa ave que acaba de voar sobre vossa cabeça vos pressagia. Estareis bem depressa em liberdade e elevado a tão grande poder, que sereis invejado por
aqueles que agora têm compaixão de vossa infelicidade. Sereis feliz durante todo o resto de vossa vida e deixareis filhos que sucederão à vossa felicidade. Mas quando virdes aparecer de novo essa mesma ave, sabei que somente vos restarão cinco dias de vida. Eis o que os deuses vos pressagiam e como eu tenho conhecimento disso,
julguei dever dar-vos essa alegria, para amenizar vossos males presentes, com esperança de tantos bens futuros. Quando vos encontrardes em
tão grande prosperidade não
nos esqueçais, eu
vos rogo, e trabalhai para nos
tirar da miséria em que nos encontramos”. A predição desse alemão
pareceu tão ridícula a Agripa, que provocou nele,
naquele instante, uma gargalhada, tão forte que depois causou-lhe a ele
mesmo, espanto e admiração. (JOSEFO, F. História dos Hebreus, pp. 425-426)
Será que
essa profecia foi cumprida? Para
sabermos o que aconteceu, continuemos o relato de
Josefo um pouco mais
à frente, cujo tempo
decorrido é cerca
de seis meses depois:
Trouxeram
nesse mesmo tempo duas cartas de Caio; uma endereçada ao senado, com a qual lhe dava o anúncio da morte de
Tibério e de que ele o havia escolhido para
substituí-lo no império; a outra, a Pisão, governador da cidade, que dizia a mesma coisa,
ordenando-lhe tirar Agripa da prisão e permitir-lhe voltar à sua
casa. Assim ele se viu livre de todo
temor: e embora estivesse ainda guardado,
vivia no resto, como queria. Pouco depois, Caio veio a Roma para onde fez trazer o corpo de Tibério, mandando fazer-lhe, segundo o costume dos romanos, soberbos funerais. Ele quis pôr Agripa em liberdade, no mesmo dia, mas Antônia aconselhou-o a diferir,
não, porque não sentisse afeto por
ele, mas porque julgava que aquela
precipitação iria contra o decoro, porque não se podia apressar tanto a liberdade daquele a quem Tibério
conservava preso, sem manifestar ódio por sua memória. No entanto, alguns dias depois, Caio mandou
chamá-lo e não se contentou em
dizer-lhe que mandasse cortar os cabelos, mas lhe pôs a coroa na cabeça; depois fê-lo rei da
tetrarquia que
Felipe havia possuído e acrescentou-lhe ainda a de Lisânias. Quis também como sinal de seu afeto dar-lhe uma cadeia de ouro do mesmo peso da de ferro que
ele havia usado e mandou em
seguida Marullhe, como
governador da Judéia. (JOSEFO, F. História dos Hebreus, p. 427)
Então
se a primeira parte
da profecia, dita pelo
alemão, foi cumprida, fica provado que
os deuses que lhe
passaram a informação estavam certos.
Mas e quanto à segunda
parte da profecia, a que
dizia a respeito de sua
morte? Será que Agripa ouviu a coruja
piar novamente? Voltemos à Josefo
e leiamos:
No terceiro ano do seu reinado ele celebrou na cidade de Cesaréia, que antigamente era chamada a Torre de Estratão, jogos solenes em honra do imperador. Todos os grandes e toda a nobreza da província, reuniram-se nessa festa; no segundo dia dos espetáculos Agripa veio bem cedo,
pela manhã, ao teatro, com uma veste cujo forro era de prata trabalhada com
tanta arte, que quando o sol o iluminava com
seus raios, desprendiam-se reflexos tão vivos de luz, que não se podia olhar para ele sem se sentir tomado de um respeito, misto de temor. Mesquinhos bajuladores, então, com palavras melífluas que destilam veneno mortal no coração dos príncipes, começaram a dizer que
até então haviam considerado seu
rei, como um simples homem, mas que agora viam que o deviam reverenciar como um deus, rogando-lhe que
se lhes mostrasse favorável, pois parecia que ele
não era como os demais, de condição mortal. Agripa tolerou essa impiedade, que deveria ter castigado mui rigorosamente. Mas, logo levantando os olhos, viu uma coruja, por sobre sua cabeça, pousada numa corda estendida no ar
e lembrou-se de que aquela ave era
um presságio de sua infelicidade como outrora tinha sido de sua prosperidade.
Soltou, então, um profundo suspiro e sentiu, ao mesmo tempo, as entranhas roídas por uma dor
horrível. Voltou-se para seus amigos e disse-lhes: “Aquele que quereis fazer acreditar que é imortal, está prestes a morrer
e essa necessidade inevitável não podia ser uma mais pronta convicção de vossa mentira. Mas é preciso querer tudo o que Deus quer. Eu era muito feliz e não havia príncipe de quem
eu devesse invejar a felicidade”. Dizendo estas palavras, sentiu que as dores cresciam cada vez
mais; levaram-no ao palácio e a notícia espalhou-se imediatamente, de que ele estava prestes a exalar
o último suspiro. Logo todo o povo, com a cabeça coberta de um saco, segundo costume de nossos pais, fez oração a Deus pela saúde e todo o ar ressoou com gritos e lamentações. O príncipe que estava no quarto mais alto do palácio, vendo-os de lá,
prostrados por terra, não pôde reter as lágrimas; as dores, porém, continuaram
por cinco dias a fio e o levaram,
aos cinqüenta e quatro anos de sua vida, sétimo do seu reinado, pois reinara quatro sob
o imperador Caio, nos três
primeiros dos quais ele só tinha a tetrarquia, que
fora de Filipe, e no quarto, acrescentaram-lhe
a de Herodes; nos três anos em que reinou sob Cláudio, esse
imperador deu-lhe também a Judéia, a
Samaria e Cesaréia. Mas, embora suas rendas [*] fossem muito grandes, ele era liberal e tão magnânimo que era obrigado ainda a pedir emprestado.
[*] O grego diz: Mil e duzentas vezes dez mil, sem nada mais especificar.
(JOSEFO, F. História dos Hebreus, p. 453).
Analisando os fatos
Interessantíssimo é que
as duas previsões, constantes
da profecia, que
foram ditas pelo alemão a Agripa, se
cumpriram. Ora, ele mesmo
afirmou a ter recebido dos deuses,
o que então prova
que não era
somente o Deus dos hebreus
que tinha profetas
aqui na terra. Será que
havia um acordo entre
os deuses de ambos – o
do alemão e o dos hebreus?
Provavelmente, haja vista o cumprimento
integral da profecia.
Vejamos, agora,
os pontos que foram
aumentados:
Lucas: Herodes estava enfurecido com
os habitantes de Tiro
e Sidônia. Estes fizeram um
acordo entre si
e se apresentaram diante de Herodes, depois
de conquistarem as graças de Blasto, o camareiro
real. Eles pediam a paz,
já que seu
país recebia mantimentos
do território do rei.
Josefo: Nada fala
desse assunto. Coloca o evento
quando do acontecimento
de jogos solenes
oferecidos por Agripa em
honra ao imperador, ocasião
em que se reuniram vários
príncipes e toda a
nobreza para essa majestosa festa.
Lucas: No dia marcado, Herodes
vestiu-se com os trajes
reais, tomou seu lugar
na tribuna, e lhes
dirigiu a palavra oficial
Josefo: Fala que
Agripa chegou ao local dos jogos
de manhã usando “uma veste
cujo forro era
de prata trabalhada com
tanta arte, que
quando o sol o
iluminava com seus raios,
desprendiam-se reflexos tão
vivos de luz, que
não se podia olhar parar
ele sem se sentir
tomado de um respeito,
misto de temor.” Não
diz absolutamente nada
de que Agripa tenha feito,
da tribuna, algum tipo
de discurso oficial.
Lucas: O povo começou a clamar:
"É a voz de um deus,
e não de um homem!"
Josefo: O motivo para
que alguns o elevaram
à categoria de um deus,
foi justamente a roupa
brilhante citada anteriormente. Condição
não contestada por
Agripa, que ainda, segundo
Josefo, deveria tê-los castigados. E quem disse
alguma coisa foram os mesquinhos bajuladores,
o que pode não significar
necessariamente que teria sido o povo,
que dá uma idéia de que
todos, ou pelo
menos, a maioria dos que
ali estavam.
Lucas: Mas, imediatamente,
o anjo do Senhor feriu Herodes, porque
ele não tinha
dado glória a Deus.
E Herodes expirou, carcomido por vermes.
Josefo: Após o episódio
acima, Agripa vê uma coruja
o que o faz lembrar-se da profecia
que ouvira do alemão, daí sim
é que ele fala
ao povo contestando a sua
condição de deus, assumindo
sua condição de mortal
e dizendo-lhes que brevemente
estaria morto. O fato
imediato é que ele
começou a passar mal, sentindo
muitas dores. Nesse estado,
Agripa permaneceu por cinco
dias, quando finalmente
dá o seu último suspiro.
Embora Josefo não fale
nada sobre o enterro
de Agripa, é de se presumir que
aconteceu, pois se tivesse ocorrido algo
em contrário, seria ponto
de destaque que não
passaria despercebido por um
historiador. Assim, Agripa não
foi imediatamente carcomido por
vermes, fato que,
para salvar o texto
bíblico, devemos considerar como
épico. E mais,
o motivo da morte de Agripa nada
tem a ver com ele
não ter dado
glória a Deus.
Conclusão
Por
aqui provamos que, no
presente caso, quem
contou o conto aumentou não
foi um só ponto,
mas vários. Os
relatos históricos
não podem ser preteridos às narrativas
bíblicas, cujos autores
não se preocuparam nem
com a verdade histórica,
nem mesmo com
a ordem cronológica dos acontecimentos,
a eles só
interessavam os seus heróis
enaltecidos.
Sempre
estamos ouvindo dogmáticos
querendo salvar a veracidade dos textos
bíblicos, relegando os fatos
históricos,
arqueológicos e mesmo
científicos, na doce
ilusão de que “tá na Bíblia”
é verdade. Coitados, pois
ainda acham que
conseguirão tapar o Sol com
uma peneira!
Paulo da Silva Neto
Sobrinho
Dez/2005
Referência
bibliográfica.
JOSEFO,
F. História dos Hebreus, Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
Bíblia Anotada, São Paulo: Mundo Cristão, 1994.
Bíblia Sagrada – Edição Pastoral, São Paulo: Paulus, 1990.
GEISLER, N e HOWE T., Manual popular de dúvidas e enigmas e “contradições” da Bíblia, São Paulo: Mundo
Cristão, 1999.