Doutrina da preguiça

 

Luciano Ribeiro

 

 

Vemos, com freqüência, muitos defendendo a salvação unicamente pela fé, base da tese Calvinista, Lutero também estudou a epistola de Paulo tentando entender a salvação pela fé. O que observamos é que nas escrituras existem inúmeros versículos que nos mostram nitidamente que a fé ajuda e vem salvar o homem, entretanto também existem inúmeros outros que nos mostram a salvação também pelas obras. Notamos algumas divergências entre si, uns admitem o livre arbítrio, outros a predestinação, mas todos se justificam pela fé. O próprio Santo Agostinho chegou a pregar a condenação das crianças mortas sem batismo, assim como a igreja católica discordou de Lutero também por defender essa idéia. Ora, Jesus nunca afirmou que bastava a fé para a conquista da salvação, mas no conjunto de seus ensinos podemos notar que são várias as atitudes para conquistarmos os céus, vejamos algumas das vinte e três passagens que afirmam a salvação pelas obras, refletidas no amor ao próximo.

 

Ecles. 12,14 “Porque Deus há de trazer juízo todas as obras , até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más”.

 

Isaías 58,10 “Se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita, então a tua luz nascerá nas trevas e a tua escuridão será como o meio-dia”

 

Mateus 16,27 “ Porque o filho do homem... retribuirá a cada um segundo suas obras”.

 

Romanos 2,6 “... o justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo suas obras”.

 

Percebemos a mesma frase em dois livros distintos, Romanos e Mateus, mas em nenhum outro livro consta que “Deus retribuirá segundo sua fé”, do que podemos conclui que é um conjunto de ensinamentos, fé mais obras, já que é inadmissível que tenhamos fé e não pratiquemos as obras a favor dos necessitados, uma vez que é isso o amor operante, conforme nos recomenda Jesus, pela narrativa de Lucas: "Por que vocês me chamam: 'Senhor! Senhor!', e não fazem o que eu digo? Vou mostrar a vocês com quem se parece todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática. É semelhante a um homem que construiu uma casa: cavou fundo e colocou o alicerce sobre a rocha. Veio a enchente, a enxurrada bateu contra a casa, mas não conseguiu derrubá-la, porque estava bem construída. Aquele que ouve e não põe em prática, é semelhante a um homem que construiu uma casa sobre a terra, sem alicerce. A enxurrada bateu contra a casa, e ela imediatamente desabou; e foi grande a ruína dessa casa." (Lc 6,46-49).

 

Exatamente foi isso também o que percebeu Thiago: “Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo? (Tg 2,14). Na seqüência, arremata categórico:“a fé sem obras é morta”, corretíssimo. Entretanto, em nenhum outro versículo foi dito que as obras são mortas sem a fé, o que dá uma conotação totalmente diferente. Muitos acreditam que as obras não tem valor se não tiver fé, puro engano,pois tem muita gente que tem obras  e nem religião possui. A passagem do bom samaritano (Lc 10,30-37) merece uma reflexão especial por todos aqueles que assim pensam, pois o exemplo que Jesus manda seguir, não foi dos que tinham fé, como o sacerdote e o levita, mas do herético samaritano. Analisemos agora buscando a lógica: Inúmeras famílias passam fome, frio e sede nas favelas, o homem de boa vontade, ainda que tenha pouca fé, o que eu não acredito, vai à noite dar sopa a quem tem fome, agasalho a quem tem frio e água a quem tem sede, enquanto outras pessoas ficam no aconchego do lar, debaixo do edredom, de barriga cheia com um copo de água na mesinha de cabeceira para saciar a sede de madrugada, este apenas crê, enquanto o outro obra. Quem tem mais valor para Deus? Será que foi isso que Jesus pregou? Não, certamente não. Leiamos: "Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita, e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: 'Venham vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar'. Então os justos lhe perguntarão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?' Então o Rei lhes responderá: 'Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.' Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: 'Afastem-se de mim, malditos. Vão para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque eu estava com fome, e vocês não me deram de comer; eu estava com sede, e não me deram de beber; eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram visitar'. Também estes responderão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou sem roupa, doente ou preso, e não te servimos?' Então o Rei responderá a esses: 'Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram'.  Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”. (Mt 25,31-45)

 

Ademais, quem realiza obras é porque tem fé em Deus ou no mínimo compaixão para com o semelhante o que dá no mesmo, pois para Deus o que vale é a boa vontade, não estando preocupado com quem acredita Nele, pois Deus não faz acepção de pessoas Atos 10,34 e 35.

 

O que acontece é que as obras dão trabalho, descascar legumes para servir a sopa, por exemplo, realmente é para poucos, assim como correr atrás de roupas usadas durante semanas ou meses antes do inverno, pedir alimentos nos supermercados, isso dá trabalho. então preferem seguir a doutrina da preguiça que lhes é mais cômodo e gasta-se menos.

 



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