Eclesiastes

Esse é um dos livros bíblicos preferido dos que querem sustentar que não há vida após a morte e também daqueles que alegam que, após a morte, o espírito fica totalmente inconsciente, aguardando o julgamento final.

Vamos comentar algumas de suas passagens, para tentar descobrir se há sentido nestas causas que advogam.

Ecl 1,12: “Eu, Coélet, fui rei de Israel em Jerusalém”.

Pelas informações que temos, Coélet foi filho de Davi e rei em Jerusalém. Significa “o Pregador” e a única pessoa que se encaixa neste perfil é Salomão. Corroborando a sua identificação, transcrevemos:

“Este pequeno livro se intitula 'Palavras de Coélet, filho de Davi, rei em Jerusalém'. A palavra Coélet (cf. 1,2.12; 7,27; 18,8-10) não é um nome próprio, e sim um substantivo comum usado às vezes com artigo; embora feminino em sua forma, constrói-se com o masculino. Conforme a explicação mais verossímil, é um nome de ofício e designa aquele que fala na assembléia (gahal, em grego ekklesia; daí os títulos latino e português, transcritos da Bíblia grega), numa palavra, 'o Pregador'. É chamado 'filho de Davi e rei em Jerusalém' (cf. 1,12) e, embora o nome não seja mencionado, ele é certamente identificado com Salomão, ao qual o texto com certeza faz alusão em 1,16 (cf 1Rs 3,12; 5,10-11; 10,7) e 2,7-9 (cf. 1Rs 3,13; 10,23). (Bíblia de Jerusalém, p. 1070). (grifo nosso).

Interessante essa informação, pois sabemos que Salomão reinou até a sua morte, daí ele só poderia, por lógica, ter escrito esse livro, na sua condição de espírito desencarnado, usando um médium para tal, o que nos prova que a vida continua. Porém, contraditoriamente, todo o conteúdo do livro é de quem que se preocupa apenas com a vida terrena, não tendo esperança de nada mais além dela.

Ecl 3,15: “O que existe, já havia existido; o que existirá, também já existiu. Deus busca aquilo que foge”.

Se víssemos essa frase isolada iríamos pensar que ela até serviria para sustentar a idéia da reencarnação, entretanto, não é o que o seu autor quer. Ao que tudo indica, ele apenas está se referindo à monotonia das coisas que acontecem sem nada mudar, entra ano sai ano e tudo é a mesma coisa.

Ecl 3,18-22: “Quanto aos homens, penso assim: Deus os coloca à prova, para mostrar que eles, em si mesmos, são como animais. De fato, o destino do homem e do animal são idênticos: do modo que morrem estes, morrem também aqueles. Uns e outros têm o mesmo sopro vital, sem que o homem tenha vantagem nenhuma sobre o animal, porque tudo é fugaz. Uns e outros vão para o mesmo lugar: vêm do pó, e voltam para o pó. Quem pode saber se o sopro vital do homem sobe para o alto, e o do animal desce para baixo da terra? Percebo que não há nada melhor para o homem do que alegrar-se com suas obras, porque essa é a porção que lhe cabe. De fato, ninguém lhe fará ver o que acontecerá depois dele”.

Desiludido com a vida, ele compara a vida dos homens como sendo igual à dos animais, vendo em ambos o mesmo destino, daí não resta alternativa senão aproveitar a vida, enquanto vivo for. Isso se verá também em outros versículos.

Ecl 4,2-3: “Então proclamei os mortos, esses que já morreram, mais felizes do que os vivos, esses que ainda vivem. Mais feliz que os dois é quem não nasceu ainda, pois não vê todo o mal que se pratica debaixo do sol”.

Ele pensava que a vida não tinha nenhum valor, já que homens e animais têm o mesmo destino, por isso, raciocinava, é melhor que não houvesse nascido ou que já estivesse morto.

Ecl 5,17: “Concluí que a felicidade para o homem é comer e beber, usufruindo de toda a fadiga que ele realiza debaixo do sol, durante os dias de vida que Deus lhe concede. Essa é a sua porção”.

Ecl 8,15: “Por isso, eu exalto a alegria, porque não existe felicidade para o homem debaixo do sol, além do comer, beber e alegrar-se. Essa é a única coisa que lhe serve de companhia na fadiga, nos dias contados da vida que Deus lhe concede debaixo do sol”.

Ecl 9,7: “Portanto, vá, coma o seu pão com alegria e beba o seu vinho com satisfação, porque com isso Deus já foi bondoso para com você”.

Então, se não há nada após a morte a nossa vida deve-se resumir em aproveitá-la ao máximo; comer e beber é a melhor opção.

Ecl 6,1-6: “Existe outro mal que observei debaixo do sol, e é grave para o homem: Para um, Deus concede riquezas, recursos e honras, e nada lhe falta de tudo o que poderia desejar. Deus, porém, não lhe permite desfrutar essas coisas, porque um estrangeiro é que vai desfrutá-las. Isso é coisa fugaz e sofrimento cruel. Mesmo que tivesse tido cem filhos e vivido muitos anos, se não encontrou satisfação nos bens que possuía e nem mesmo teve um túmulo, garanto que um aborto é mais feliz do que ele. De fato, o aborto veio inutilmente e se foi para as trevas, e as trevas sepultaram o seu nome. Não viu o sol nem o conheceu, mas a sua sorte é sempre melhor do que a do outro. E mesmo que o outro pudesse viver dois mil anos, mas sem poder usufruir dos bens, não iria terminar no mesmo lugar que o aborto?”.

Vendo as desigualdades da vida, o autor, sem resposta para justificar tais situações em que Deus dá a um e não dá a outro, diz que é preferível, para os deserdados, que nem mesmo tivessem nascido.

Ecl 7,1-2: “Mais vale a honradez do que um bom perfume, e o dia da morte é melhor que o dia do nascimento. É melhor ir a uma casa onde há luto do que ir a uma casa onde se faz festa, pois aquele é o fim de todo homem e faz, desse modo, quem está vivo refletir”.

Enfadado da vida, o autor prefere a morte do que continuar vivendo, daí dizer que é melhor ir a uma casa onde há luto do que onde há festa. O que confirma a sua completa desilusão para com a sua vida.

Ecl 7,20: “Não existe na terra homem tão justo que faça o bem sem nunca pecar.”

Dentro desse pensamento, quem poderá merecer o céu, já que o lugar de pecador é no inferno? (isso para quem acredita neles).

Ecl 7,26: “Então descobri que a mulher é mais amarga do que a morte, porque ela é uma armadilha, o seu coração é uma rede e os seus braços são cadeias. Quem agrada a Deus consegue dela escapar, mas o pecador se deixa prender por ela”.

Interessante essa opinião sobre as mulheres, e, diga-se de passagem, de quem realmente as conhecia, pois ele, Salomão, teve setecentas mulheres e trezentas concubinas (1Rs 11,3). Mas a questão é que os seguidores da “palavra de Deus” mesmo sabendo disso, continuam pecando, pois não está dito que o pecador se deixa prender por elas. Quem ler essa passagem e não souber quem é o autor, certamente, pensará que ele não gostava de mulheres, um gay talvez.

Ecl 9,1-3: “Refleti sobre tudo isso e compreendi que os justos, os sábios e suas ações estão nas mãos de Deus. O homem não conhece nem sequer o amor e o ódio, embora isso tudo se desenvolva diante dele. Todos têm o mesmo destino, tanto o justo como o injusto, o bom e o mau, o puro e o impuro, quem sacrifica e quem não sacrifica. O bom é tal qual o pecador, e quem jura é igual a quem evita o juramento. O mal que existe em tudo o que se faz debaixo do sol é que todos têm o mesmo destino. Além disso, o coração dos homens está cheio de maldade, e a insensatez se abriga no coração deles durante todo o tempo que vivem. Depois eles se dirigem para junto dos mortos”.

Desenvolve a idéia de que tanto os bons quanto os maus têm o mesmo destino, não vendo nada mais além dessa vida, concentra seu pensamento naquilo que vê, ou seja, bons e maus ambos morrendo. Então, para ele, não existe nenhuma recompensa futura para os bons, muito menos castigo para os maus. Todos têm o mesmo destino. É por conta deste pensamento que é melhor comer e beber, enquanto ainda se está vivo.

Ecl 9,5-6: “Os vivos estão sabendo que devem morrer, mas os mortos não sabem nada, nem terão recompensa, porque a lembrança deles cairá no esquecimento. Seu amor, ódio e ciúme se acabam, e eles nunca mais participarão de nada que se faz debaixo do sol”.

Estamos agora diante de um dos versículos mais utilizados para sustentar que os mortos ficam inconscientes. Percebe-se claramente, pelo que já expomos, que, aos que pensam assim, faltou uma compreensão mais profunda do pensamento desse autor. Essa frase, fora do contexto, pode levar o leitor a pensar o que realmente não é; na verdade, o que o autor quis dizer, foi que seu pensamento, conforme estamos acompanhando desde o início, é que, não havendo vida após a morte, então, tudo se resume ao que acontece nesta existência. Por isso é que diz que os vivos sabem e os mortos não sabem de nada. E para corroborar esse seu pensamento volta a afirmar que os mortos não terão recompensa. O que poderia servir de argumento de que não há céu para ninguém. Eis a que ponto se pode chegar, quando se pega um texto isolado do seu contexto.

Ecl 9,10: “Tudo o que você puder fazer, faça-o enquanto tem forças, porque no mundo dos mortos, para onde você vai, não existe ação, nem pensamento, nem ciência, nem sabedoria”.

Essa é uma outra passagem também utilizada para “provar” a inconsciência após a morte. Isolada até que pode dar essa idéia, mas dentro do contexto quer significar que o autor não acreditava em vida após a morte. E ele, em momento algum, diz que os mortos teriam recompensa ou castigo, ao contrário, sempre disse que não, porque, para ele, a vida após a morte era pura ilusão e, à sua época, nem se pensava nisso.

Ecl 12,7: “Então o pó volta para a terra de onde veio, e o sopro vital retorna para Deus que o concedeu”.

Após a morte, o corpo físico volta para o lugar de onde veio, e o espírito, aqui denominado de sopro vital, volta para Deus. Não fala em uma nova vida espiritual, dando-nos a idéia que voltaremos ao todo, isso seria puro panteísmo materialista.

A conclusão que chegamos é bem simples: podem buscar outra passagem para sustentar a idéia de que não há, para o espírito, consciência após a morte, que ele fica dormindo aguardando o juízo final, pois aqui não se fala absolutamente nada disso. Temos que alertar aos menos avisados que os autores bíblicos devem ser tomados isoladamente, pois os livros foram escritos e lidos sem nenhuma preocupação de se ligar um ao outro, coisa que só se passou a fazer, bem mais tarde, quando os cristãos juntaram o AT e o NT num livro só.

E sobre a crença na vida após a morte, eis aqui uma opinião de valor:

"Dentro do judaísmo, a crença em uma vida após a morte era uma idéia relativamente recente. Emergiu cerca de dois séculos antes, com o martírio de judeus fiéis que resistiram ao imperador helenístico Antíoco Epífanes IV. Seu objetivo era consertar a injustiça humana: judeus fiéis a Deus eram executados, e judeus que se dispunham a colaborar com Antíoco eram poupados. Assim, a crença na ressurreição era um modo de defender a justiça de Deus: os mártires receberiam uma outra vida abençoada. Na época de Jesus, a maioria dos judeus (inclusive grupos profundamente comprometidos com os fariseus e os essênios) afirmavam uma vida após a morte. Aparentemente Jesus também afirmava isso, ainda que tal idéia não fosse o foco de sua mensagem". (BORG, e CROSSAN, 2007, p. 88).

 

 

 

Paulo da Silva Neto Sobrinho

Jun/2007.

 

 

 

 

Referência bibliográfica

 

BORG, M. J. e CROSSAN, J. D. A última semana, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007

Bíblia de Jerusalém, nova edição, revista e ampliada, São Paulo: Paulus, 2002.



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