O
Consolador veio no Pentecostes?
Os teólogos, se não todos, pelo menos a sua
grande maioria, afirmam que o Consolador prometido por Jesus (Jo 14,16) teria
vindo no dia de Pentecostes (At 2,1-4); quem sabe se não buscaram apoio a isso
no documento apócrifo denominado Caverna dos Tesouros, do qual
extraímos: “Decidiram jejuar, até receberem todos juntos o Espírito, o Paráclito,
no dia de Pentecostes, ali mesmo onde estavam reunidos”. Foram-lhes
distribuídas línguas, e cada um partiu para ensinar os povos, de acordo com a
língua que lhes fora dada;...”(TRICCA, Apócrifos III, p.100). Se isso for
verdade, então a base para essa afirmação é tirada de uma fonte considerada não
inspirada, colocando, portanto, em sérios apuros os que assim pensam.
O primeiro ponto importante a se levantar é
aquele em que vamos demonstrar que o Consolador não é o Espírito Santo,
porquanto, àquela época, nem ele nem essa terminologia existiam, uma vez que é
uma criação posterior para sustentar o dogma da Trindade. Em toda a Bíblia a passagem
Mt 28,19-20 é a única em que se nomeiam as supostas pessoas da Trindade.
Sabemos que o dogma da Trindade se iniciou no
Concílio Ecumênico de Nicéia, em 325, quando Jesus foi divinizado; a
providência seguinte foi também dar status de Deus ao Espírito Santo,
fato que ocorreu no Concílio de Constantinopla, em 381. (CHAVES, 2006). Depois
foi só ajustar os textos do Novo Testamento a essa nova realidade; aí, onde
havia “um” espírito santo (puro), transformaram em “o” Espírito Santo, eleito a
terceira pessoa da Trindade.
Ademais, estudiosos bíblicos têm esse passo de
Mateus (28,19-20) como uma interpolação. Por exemplo, o historiador e professor
da Universidade Hebraica de Jerusalém, David Flusser (1917-2000), que lecionou
no Departamento de Religião Comparada por mais de 50 anos, nascido na Áustria,
estudioso da literatura clássica e talmúdica, e conhecedor de 26 idiomas,
informa que:
De acordo
com os manuscritos de Mateus que foram preservados, o Jesus ressuscitado
ordenou aos seus discípulos batizar todas as nações “em nome do Pai e do Filho
e do Espírito Santo”. A fórmula trinitária franca, aqui, é de fato notável, mas
já foi mostrado que a ordem para batizar e a fórmula trinitária faltam
em todas as citações das passagens de Mateus nos escritos de Eusébio anteriores
ao Concílio de Nicéia. O texto de Eusébio de Mt 28:19-20 antes de Nicéia
era o seguinte: “Ide e tornai todas as nações discípulas em meu nome,
ensinando-as a observar tudo o que vos ordenei”. Parece que Eusébio encontrou
essa forma do texto nos códices da famosa biblioteca cristã em Cesaréia. 75
Esse texto mais curto está completo e coerente. Seu sentido é claro e tem
seus méritos óbvios: diz que o Jesus ressuscitado ordenou que seus discípulos
instruíssem todas as nações em seu nome, o que significa que os discípulos
deveriam ensinar a doutrina de seu mestre, depois de sua morte, tal como a
receberam dele. (FLUSSER, 2001, p. 156).
Transcreveremos a nota (75) em que Flusser coloca
sua base de informação:
75 Ver D. Flusser, "The Conclusion of Matthew in a New Jewish
Christian Source", Annual of the Swedish Theological lnstitute, vol.
V, 1967, Leiden, 1967, pp. 110-20; Benjamin J. Hubbard, “The Matthean Redaction
of a Primitive Apostolic Commissioning", SBL, Dissertation Series 19, Montana, 1974. Mais
testemunho da conclusão não-trinitária de Mateus está preservado num texto
copta (ver E. Budge, Miscelleaneous Coptic Texts, Londres, 1915, pp.
58 e seguintes, 628 e 636), onde é descrita uma controvérsia entre Cirilo de
Jerusalém e um monge herético. "E o patriarca Cirilo disse ao monge: 'Quem
te mandou pregar essas coisas?' E o monge lhe disse: 'O Cristo disse: Ide a
todo o mundo e pregai a todas as nações em Meu nome em cada lugar". O texto é citado por Morcon Smith, Clement
of Alexandria and a Secret Cospel of Mark, Harvard University Press,
Cambridge, Mass, 1973, pp. 342-6. (FLUSSER, 2001, p. 170).
Na seqüência, Flusser diz que “um testemunho
adicional das versões mais curtas de Mt 28:19-20a foi descoberto há pouco tempo
numa fonte judeu-cristã...” (FLUSSER, 2001, p. 156), citando como fonte: Sh. Pinès, “The Jewish
Christians of the Early Centuries of Christianity According to a New Source”, The Israel Academy of Sciences and
Humanities Proceedings, vol. II, nº
13, Jerusalém, 1966, p. 25. (FLUSSER, 2001, p. 170).
Em sua obra apologética intitulada Contra Celso
(cerca de 248) Orígenes(185-254), refutando a esse filósofo pagão, cita
inúmeras passagens bíblicas, entre as quais Mt 28,19: “Ide, portanto, e fazei
que todas as nações se tornem discípulos” (ORÍGENES, 2004, p. 154). O que prova
incontestavelmente que a expressão “batizando-os em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo” é uma interpolação que foi colocada posteriormente para se
justificar o dogma da Trindade.
Essa interpolação é até fácil de ser comprovada,
pois, enquanto no versículo se recomendava batizar “em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo” (Mt 28,19), os discípulos só o faziam “em nome de Jesus”, do
qual também se utilizavam para expulsar os espíritos (At 16,18).
Por outro lado, não foi por mera coincidência que
essa passagem seja a que se encontra por último no Evangelho de Mateus;
certamente, como não encontraram outro lugar melhor para situá-la acharam por
bem colocá-la ali mesmo no final. Então, fica
aí demonstrado, de forma clara, que essa passagem é uma interpolação. Assim,
qualquer relação que se queira estabelecer entre o Consolador e o Espírito
Santo não faz sentido algum.
Um outro ponto, também não menos importante, é que
devemos situar as coisas no tempo próprio. Assim, não é válido usar o Evangelho
de João para justificar alguma coisa em Lucas, pois, como sabemos, os
Evangelhos foram escritos em épocas diferentes. Segundo o prof. Julio Trebolle
Barrera, Marcos por volta de 65 a 70, Lucas entre 70 e 80, Mateus no período de
70 e 80, e, finalmente, João, no ano de 90 (BARRERA, 1995, p. 287); mas é bom ressaltar que os estudiosos não se
entendem quanto a essas datas. Assim, depois da morte de Jesus, até um certo
período, os textos eram utilizados isoladamente; isso deve ter acontecido por
não haver necessidade, à época, de uma “uniformização” das descrições dos fatos
acontecidos com Jesus, já que não havia condições de se estabelecer uma
sistematização no sentido de tornar os escritos esparsos em um único corpo
doutrinário dos ensinamentos deixados pelo Mestre. Mas, com a sistematização
desses ensinamentos, visando dar uma característica sinóptica aos Evangelhos,
certamente houve uma “necessidade” (para não dizer conveniência) de algumas
“adequações” de alguns textos a algumas interpretações dos dirigentes
religiosos de então. Vejamos:
Quanto aos livros do Novo
Testamento, houve também certa confusão, já que além dos livros inspirados,
circulavam outros que gozavam também de muito prestígio entre as comunidades
cristãs, alguns dos quais atribuídos aos próprios Apóstolos. Em compensação,
alguns dos livros inspirados não eram aceitos como tais por pessoas de
prestígio na própria Igreja.
Os Concílios de Hipona e de Cartago,
celebrados em fins do séc. IV, pela primeira vez apresentaram uma lista
oficial dos livros inspirados, tanto do Novo como do Antigo Testamento,
entre os quais se incluíram os deuterocanônicos também do Novo, que são:
Epístolas de S. Tiago, 2ª e 3ª de S. João, de S. Judas, 2ª de S. Pedro, aos
Hebreus e o Apocalipse.
Como nenhum desses concílios africanos, por seu caráter local,
implicasse a autoridade oficial da Igreja universal, houve necessidade de se
proclamar de novo, em forma solene, a doutrina tradicional católica, o que se
fez no Concílio Ecumênico de Florença, celebrado no ano de 1441 e,
posteriormente, no de Trento em 1546, onde se enumeram de forma definitiva os
livros que constituem a Bíblia. (Bíblia Barsa – A Igreja e a Bíblia, p. xii).
(grifo nosso).
Então, somente após o final do séc. IV, é que
temos algo próximo da Bíblia como a conhecemos hoje. E para ser mais
específico, leiamos:
No ano de 367 E.C., Atanásio escreveu sua carta
pastoral anual às igrejas egípcias sob sua jurisdição e, nela, incluiu um
conselho acerca de quais livros deviam ser lidos como escritura nas igrejas.
Ele relaciona nossos vinte e sete livros, com exclusão de todos os demais. Essa
é a primeira instância que chegou ao nosso conhecimento de alguém declarando
que esse novo conjunto de livros era o Novo Testamento. (EHRMAN, 2006, p. 46).
Isso significa que não assiste razão aos que,
querendo interpretar uma passagem, relacionam, no sentido de completar, um
escritor com outro; e é por isso que afirmamos que cada um deles tem que se
explicar por si mesmo. A se aceitar isso, então, preferimos ficar com a opinião
de Orígenes, considerado um dos “Pais da Igreja”, porquanto foi um expoente do
cristianismo nascente. Vejamos o que ele disse:
E como as práticas legais eram uma figura, penso eu, e
a verdade era o que o Espírito Santo lhes ensinara, foi dito: “Quando vier o
Espírito de Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena” (Jo 16,13); como se
dissesse: à verdade integral das realidades das quais, não possuindo senão as
figuras, vós acreditáveis adorar a Deus com a verdadeira adoração. De acordo
com a promessa de Jesus, o Espírito de Verdade veio sobre Pedro e lhe
disse, a respeito dos quadrúpedes e répteis da terra e dos pássaros do céu:
“Levanta-te, Pedro, imola e come!” Ele voltou a si, embora ainda imbuído de
superstição, pois mesmo ao ouvir a voz divina ele responde: “De modo algum,
Senhor, pois jamais comi alguma coisa impura e profana”. E lhe ensinou a
doutrina sobre os alimentos verdadeiros e espirituais com estas palavras: “Ao
que Deus purificou, não chames tu de profano”. E depois desta visão, o Espírito
de Verdade, conduzindo Pedro “à verdade plena”, lhe disse “o muito que vos
dizer” que ele não podia “suportar enquanto Jesus estava ainda presente segundo
a carne. (ORÍGENES, p. 122-123). (grifo nosso).
Sendo assim, ou seja, que temos que relacionar
o autor com ele mesmo, fomos buscar primeiramente Lucas. Em seu Evangelho
pudemos encontrar apenas duas passagens que poderíamos entender como alguma
promessa sendo feita: a primeira é onde João Batista diz que “Ele é quem
batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo” (Lc 3,16); e a segunda é
quando Jesus recomenda aos discípulos não se preocuparem com o que irão falar,
pois “nessa hora o Espírito Santo ensinará o que vocês devem dizer” (Lc
12,12). Ambas não servem de suporte, pelo simples motivo de que falam em
Espírito Santo, que, conforme demonstramos, esse epíteto ainda não “existia”.
Jesus ressurreto, entre outras coisas, disse
aos discípulos: “Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai prometeu. Por
isso, fiquem esperando na cidade, até que vocês sejam revestidos da força do
alto". (Lc 24,49). Vejamos a opinião de um exegeta sobre esse
versículo:
Lc 24,49: “... envio sobre vós a promessa de meu Pai...” A promessa que
se cumpriu no dia de Pentecostes, antecipa também, neste passo bíblico, a
declaração mais completa que se vê no livro de Atos, que Lucas tencionava
escrever, a fim de completar a sua obra em dois volumes, que versa sobre as
origens do cristianismo (Lucas-Atos); e não é mesmo impossível que Lucas já
tivesse dado início a essa obra, em algum estágio preliminar. Este versículo é
paralelo a Atos 1,4-5, 8; 2,1-13. A promessa feita pelo Pai, que é o próprio
Espírito Santo, não é claramente definida nos evangelhos sinópticos, mas
poderemos aceitar o trecho de Luc. 11,13 como indicação sobre isso; e não há
que duvidar que a mensagem de João Batista, na tradição evangélica mais
primitiva, conforme nos é dada em Marc. 1;8 - “mas ele vos batizará com o
Espírito Santo...” - deve ser compreendida como paralela à promessa aqui
registrada. Trata-se, por conseguinte, da tradição evangélica mais remota. O
evangelho de João a anuncia de forma ainda mais clara. (ver João 14:16 e
15:26). A ordem dada aos discípulos de se demorarem em Jerusalém, até que se
cumprisse essa promessa, é paralela à passagem de Atos 1:4. (CHAMPLIN, 2005,
vol. 2, p. 247).
Observamos que o autor diz que a promessa não é
claramente definida nos evangelhos sinópticos, embora tente, de alguma forma,
estabelecer uma ligação dela com o Evangelho de João. O que ele não percebeu é
que não poderia relacionar essa passagem de Lucas ao que consta em João, pelas
razões já expostas.
Em Atos dos Apóstolos, Lucas já narra da
seguinte forma:
At
1,4-8: “...'Não se afastem de Jerusalém. Esperem que se realize a
promessa do Pai, da qual vocês ouviram falar: 'João batizou com água;
vocês, porém, dentro de poucos dias, serão batizados com o Espírito Santo'...
Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem as
minhas testemunhas...'".
Pelo que se pode entender, a promessa aqui é o
batismo com o Espírito Santo; entretanto, está se prometendo o que não existe.
No dia de Pentecostes é, quando se supõe, que houve o cumprimento dessa
promessa; leiamos:
At
2,1-4: “Quando chegou o dia de Pentecostes, todos eles estavam
reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um
forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas
como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles.
Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e começaram a falar em outras
línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem”.
Novamente aparece a expressão Espírito Santo,
que só poderia ser entendida como “um espírito santo”, não a pessoa da Trindade
que, conforme provado, não se falava dela ainda. Se cada um falava conforme o
espírito lhe concedia, já não é mais o Santo; então, temos, nessa ocorrência,
um fenômeno mediúnico, onde cada um falava sob a ação de um espírito. Aqui
percebe-se, claramente, a mediunidade em propulsão espontânea a todos os
discípulos. Fato idêntico se repetirá novamente nos episódios conhecidos como o
“Pentecostes samaritano” (At 8,14-17) e o “Pentecostes dos pagãos” (At
10,44-46) (CHAMPLIN, 2005, vol. 3, p. 45). Vejamo-los:
At
8,14-17: “Os apóstolos, que estavam em Jerusalém, souberam que a Samaria
acolhera a Palavra de Deus, e enviaram para lá Pedro e João. Ao chegarem, Pedro
e João rezaram pelos samaritanos, a fim de que eles recebessem o Espírito
Santo. De fato, o Espírito ainda não viera sobre nenhum deles; e os samaritanos
tinham apenas recebido o batismo em nome do Senhor Jesus. Então Pedro e João
impuseram as mãos sobre os samaritanos, e eles receberam o Espírito Santo”.
At 10,44-46: “Pedro
ainda estava falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam
a Palavra. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido com Pedro, ficaram
admirados de que o dom do Espírito Santo também fosse derramado sobre os
pagãos. De fato, eles os ouviam falar em línguas estranhas e louvar
a grandeza de Deus...”
Por isso, então, poder-se-á concluir, numa boa
lógica, que, a supor seja o Espírito Santo o Consolador, ele veio por mais duas
vezes para cumprir a mesma promessa? Fica aí a nossa dúvida.
Em relação ao Pentecostes narrado em At 2,1,
temos duas observações importantes. A primeira é que, na própria Bíblia, esse
fato não é relacionado à promessa do Consolador, mas a uma outra bem mais
antiga; leiamos:
At
2,14-18: “Então Pedro ...falou em voz alta: 'Homens da Judéia e todos vocês
que se encontram em Jerusalém! Compreendam o que está acontecendo e prestem
atenção nas minhas palavras: ...está acontecendo aquilo que o profeta Joel
anunciou: 'Nos últimos dias, diz o Senhor, eu derramarei o meu Espírito
sobre todas as pessoas. Os filhos e filhas de vocês vão profetizar, os
jovens terão visões e os anciãos terão sonhos. E, naqueles dias, derramarei o
meu Espírito também sobre meus servos e servas, e eles profetizarão”.
Se aqui está se relacionando o fenômeno do
Pentecostes à profecia de Joel, que viveu no século VIII a.C.; então, não está
reservado o direito a ninguém de mudar isso, para relacioná-lo ao cumprimento
da promessa do envio do Consolador. Podemos confirmar com Champlin:
No dia de Pentecoste, o Espírito Santo desceu sobre todos quantos
estavam reunidos no mesmo cenáculo, num total de cerca de cento e vinte
pessoas. Não se há de duvidar que essa dádiva do Espírito envolvendo mais do
que os doze apóstolos, segundo fica subentendido no trecho de Atos 2:14, como
também na profecia de Joel, conforme Simão Pedro mencionou em seu sermão,
como interpretação daquela extraordinária ocorrência, que acabara de suceder.
(Ver Atos 2:16-21 e Joel 2:28-32). Essa profecia revela-nos como o Espírito
haveria de ser derramado sobre toda a carne, de modo pleno e transbordante.
Os cento e vinte irmãos reunidos no cenáculo, pois, foram os primeiros a
experimentar isso. (Champlin, 2005, vol. 3, p. 45) (grifo nosso).
Comprova-se, então, como sendo a realização
da profecia de Joel.
A segunda observação é que, no dia citado como
o Pentecostes, o fenômeno pode mesmo nem ter ocorrido, conforme se pode ver na
explicação dada a respeito de At 2,1-13, cujo teor é: “O relato é simbólico. De
fato, quando o autor escreveu, as comunidades cristãs já se haviam espalhado
por todas as regiões aqui mencionadas”. (Bíblia Sagrada Pastoral, p. 1391).
Certamente agiram com prudência em não dizer diretamente que o dito fenômeno
não ocorreu, preferindo ir pelo caminho do simbólico, para salvar a Bíblia da
contradição do texto bíblico com os fatos realmente ocorridos.
Como em Lucas não encontramos nada, quem sabe
se agora, ao analisarmos João, possamos encontrar algo?... Leiamos a passagem
relacionada à promessa:
Jo
14,15-26: "'Se me amais, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei
ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja sempre
convosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque
não no vê, nem o conhece; vós o conhecereis, porque ele habita convosco e
estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros... Respondeu
Jesus: '... Isto vos tenho dito, estando ainda convosco; mas o Consolador,
o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará
todas as cousas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito'”.
O que significa Consolador? Segundo Champlin, a
palavra Consolador significa “alguém chamado para o lado de outrem, a fim de
ajudar” (CHAMPLIN, 2005, vol. 2, p. 534).
Interessante essa afirmação de que enviaria
“outro”; é sinal que Jesus se considerava como sendo um Consolador. E muito
curioso, também, é que a cidade onde Jesus fixou residência, que se tornou
centro do seu ministério, chamava-se Cafarnaum, que, segundo Pastorino,
significa “cidade do Consolador” (PASTORINO, 1964, p. 139).
Neste passo Jesus também afirma que voltará. Se
aqui o Consolador é especificado como o Espírito da Verdade, por que mais à
frente ele passa a ser o Espírito Santo, epíteto esse que nem existia?
Certamente que é por uma interpolação; ou, quem sabe, se esse último também não
seria o Espírito de Verdade, que sofreu uma modificação?...
Jo
15,26-27: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da
parte do Pai, o Espírito da Verdade, que dele procede, esse dará
testemunho de mim; e vós também testemunhareis, porque estais comigo desde o
princípio”.
Aqui se reafirma a identidade do Consolador
como sendo o Espírito da Verdade, acrescentando que ele dará testemunho de
Jesus. Um detalhe, que depois voltaremos a falar, é que Jesus afirma que os
discípulos também iriam testemunhar.
Jo 16,7-11: “Mas eu vos digo a verdade: ‘Convém-vos
que eu vá, porque se eu não for, o Consolador não virá para vós
outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. Quando ele vier convencerá
o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim;
da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o
príncipe desse mundo já está julgado’”.
Percebemos que há uma
estreita relação entre a vinda do Consolador com a questão de Jesus ter que
partir, o que se justifica, porquanto Ele mesmo é quem o enviaria ou, quem
sabe, voltaria para cumprir sua promessa: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros (Jo 14,18);
inclusive, como está dito no passo, que ainda estabelece a missão do
Consolador.
Jo
16,12-14: "Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis
suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da Verdade, ele vos
guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o
que tiver ouvido, e vos anunciará as cousas que hão de vir. Ele me glorificará
porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar”.
Jesus afirma que não falou tudo que era para
ser dito aos discípulos, que a missão do Espírito da Verdade, o Consolador,
seria também para que fosse completado o seu ensinamento. Nesse ponto, iremos
ver o que Kardec abordou sobre o assunto, já que isso foi objeto de sua
preocupação:
37 - Esta predição, não há contestar, é uma das mais
importantes, do ponto de vista religioso, porquanto comprova, sem a
possibilidade do menor equívoco, que Jesus não disse o que tinha a dizer, pela
razão de que não o teriam compreendido nem mesmo seus apóstolos, visto que a
eles é que o Mestre se dirigia. Se lhes houvesse dado instruções secretas, os
Evangelhos fariam referência a tais instruções. Ora, desde que ele não disse
tudo a seus apóstolos, os sucessores destes não terão podido saber mais do que
eles, com relação ao que foi dito; ter-se-ão possivelmente enganado, quanto ao
sentido das palavras do Senhor, ou dado interpretação falsa aos seus
pensamentos, muitas vezes velados sob a forma parabólica. As religiões que
se fundaram no Evangelho não podem, pois, dizer-se possuidoras de toda a
verdade, porquanto ele, Jesus, reservou para si a completação ulterior de seus
ensinamentos. O princípio da imutabilidade, em que elas se firmam, constitui
um desmentido às próprias palavras do Cristo.
Sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade,
Jesus anunciou a vinda daquele que havia de ensinar todas as coisas e de
lembrar o que ele dissera. Logo, não estava completo o seu ensino. E, ao
demais, prevê não só que ficaria esquecido, como também que seria desvirtuado o
que por ele fora dito, visto que o Espírito de Verdade viria tudo lembrar e, de
combinação com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, pô-las de acordo
com o verdadeiro pensamento de seus ensinos.
38 - Quando terá de vir esse novo revelador? É
evidente que se, na época em que Jesus falava, os homens não se achavam em
estado de compreender as coisas que lhe restavam a dizer, não seria em alguns
anos apenas que poderiam adquirir as luzes necessárias a entendê-las. Para a
inteligência de certas partes do Evangelho, excluídos os preceitos morais,
faziam-se mister conhecimentos que só o progresso das ciências facultaria e que
tinham de ser obra do tempo e de muitas gerações. Se, portanto, o novo Messias
tivesse vindo pouco tempo depois do Cristo, houvera encontrado o terreno ainda
nas mesmas condições e não teria feito mais do que o mesmo Cristo. Ora, desde
aquela época até os nossos dias, nenhuma grande revelação se produziu que haja
completado o Evangelho e elucidado suas partes obscuras, indício seguro de que
o Enviado ainda não aparecera.
39 - Qual deverá ser esse Enviado? Dizendo: “Pedirei a
meu Pai e ele vos enviará outro Consolador”, Jesus claramente indica que esse
Consolador não seria ele, pois, do contrário, dissera: “Voltarei a completar o
que vos tenho ensinado”. Não só tal não disse, como acrescentou: A fim de que
fique eternamente convosco e ele estará em vós. Esta proposição não poderia
referir-se a uma individualidade encarnada, visto que não poderia ficar
eternamente conosco, nem, ainda menos, estar em nós; compreendemo-la, porém,
muito bem com referência a uma doutrina, a qual, com efeito, quando a tenhamos
assimilado, poderá estar eternamente em nós. O Consolador é, pois, segundo o
pensamento de Jesus, a personificação de uma doutrina soberanamente
consoladora, cujo inspirador há de ser o Espírito de Verdade.
40 - O Espiritismo realiza, como ficou demonstrado
(cap. 1, nº 30), todas as condições do Consolador que Jesus prometeu. Não é uma
doutrina individual, nem de concepção humana; ninguém pode dizer-se seu
criador. É fruto do ensino coletivo dos Espíritos, ensino a que preside o
Espírito de Verdade. Nada suprime do Evangelho: antes o completa e elucida. Com
o auxílio das novas leis que revela, conjugadas essas leis às que a Ciência já
descobrira, faz se compreenda o que era ininteligível e se admita a
possibilidade daquilo que a incredulidade considerava inadmissível. Teve
precursores e profetas, que lhe pressentiram a vinda. Pela sua força
moralizadora, ele prepara o reinado do bem na Terra. (KARDEC, 1995, p.
386-387). (grifo nosso).
Como foi citado o
item 30 do capítulo I de A Gênese, iremos também transcrevê-lo para que
o entendimento não fique prejudicado:
30 - O Espiritismo, partindo das próprias
palavras do Cristo, como este partiu das de Moisés, é conseqüência direta da
sua doutrina. A idéia vaga da vida futura, acrescenta a revelação da existência
do mundo invisível que nos rodeia e povoa o espaço, e com isso precisa a crença,
dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade à idéia. Define os laços que
unem a alma ao corpo e levanta o véu que ocultava aos homens os mistérios do
nascimento e da morte. Pelo Espiritismo, o homem sabe donde vem, para onde vai,
por que está na Terra, por que sofre temporariamente e vê por toda parte a
justiça de Deus.
Sabe que a alma progride incessantemente, através de
uma série de existências sucessivas, até atingir o grau de perfeição que a
aproxima de Deus. Sabe que todas as almas, tendo um mesmo ponto de origem, são
criadas iguais, com idêntica aptidão para progredir, em virtude do seu
livre-arbítrio; que todas são da mesma essência e que não há entre elas
diferença, senão quanto ao progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e
alcançarão a mesma meta, mais ou menos rapidamente, pelo trabalho e
boa-vontade.
Sabe que não há criaturas deserdadas, nem mais
favorecidas umas do que outras; que Deus a nenhuma criou privilegiada e
dispensada do trabalho imposto às outras para progredirem; que não há seres
perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que os que se designam pelo nome
de demônios são Espíritos ainda atrasados e imperfeitos, que praticam o mal no
espaço, como o praticavam na Terra, mas que se adiantarão e aperfeiçoarão; que
os anjos ou Espíritos puros não são seres à parte na criação, mas Espíritos que
chegaram à meta, depois de terem percorrido a estrada do progresso; que, por
essa forma, não há criações múltiplas, nem diferentes categorias entre os seres
inteligentes, mas que toda a criação deriva da grande lei de unidade que rege o
Universo e que todos os seres gravitam para um fim comum que é a perfeição, sem
que uns sejam favorecidos à custa de outros, visto serem todos filhos das suas
próprias obras. (KARDEC, 1995, p. 28-29).
Considerando:
a) que a expressão “Espírito Santo” não deveria
ser relacionada ao Consolador;
b) que temos que
identificar com o próprio evangelista, e não com um outro, se o Consolador já
veio ou não;
c) que Jesus disse que voltaria;
d) que também disse que os discípulos o
testemunhariam;
fatalmente teremos que concluir que, dentro do Novo Testamento, não se
encontra nenhuma passagem na qual poderemos afirmar que o Consolador teria
voltado naquela época; portanto, isso nos remete a um tempo num futuro mais
distante daquela época.
Assim, o Espiritismo vem assumir essa condição
de ser o Consolador, pelas razões expostas por Kardec e por ter João
Evangelista, Paulo de Tarso e o Espírito da Verdade entre os espíritos que
participaram da codificação, ajustando-se, assim, às previsões de Jesus, sobre
a sua volta e que os discípulos o testemunhariam.
Apenas para esclarecer, informamos que, para
nós, o Espírito da (de) Verdade é Jesus; quem quiser ver isso com maiores
detalhes leia o nosso texto: “Espírito
de verdade, quem seria ele?”
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Mai/2007.
(Revisão mai/2008)
Referência
bibliográfica:
A Bíblia Anotada. 8ª ed. São Paulo: Mundo
Cristão, 1994.
Bíblia de Jerusalém, nova edição. São Paulo:
Paulus, 2002.
Bíblia Sagrada, Edição Barsa. s/ed. Rio de Janeiro:
Catholic Press, 1965.
Bíblia Sagrada,
Edição Pastoral. 43ª imp. São Paulo: Paulus, 2001.
BARRERA, J. T. A
bíblia judaica e a bíblia cristã: introdução à história da Bíblia.
Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado versículo por
versículo, vol. 2, São Paulo: Hagnos, 2005.
CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado versículo por
versículo, vol. 3, São Paulo: Hagnos, 2005.
CHAVES, J. R. A Face Oculta das Religiões – uma visão racional da
Bíblia, Santo André, SP: EBM, 2006.
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TRICCA, M. H. O. Apócrifos III: os proscritos da Bíblia. São
Paulo: Mercuryo, 1995.
Ps.: sobre esse tema recomendamos a leitura, pela ordem:
1 – O
Consolador veio no Pentecostes?