O espírito é imortal?
“A história oferece inúmeros exemplos: as idéias novas, ao questionar o universo cultural anterior, geram angústia diante da impressão de que tudo se derruba”. (QUEIROGA).
“A única direção para a vida é a Bíblia, que cada um pode interpretar à vontade”. (LUTERO).
“Deus não realizaria para nós tantas maravilhas, se com a morte do corpo acabasse também a vida da alma”. (SANTO AGOSTINHO).
Introdução
Ainda existem pessoas que, buscando apoio na Bíblia, não aceitam a imortalidade da alma, visando, especificamente, justificava para os seus dogmas. Uma coisa que temos indagado é: qual será a finalidade de estabelecermos vínculos de amor uns para com os outros, especialmente pelos nobres laços de família, se não houver vida após a morte,? Se tudo se resumir a essa tênue existência, melhor que a nossa vida fosse exatamente igual à dos animais, que, em geral, depois de passado o período de amamentação, nenhum compromisso mantêm a mais para com sua prole. Não há sentido algum não ter vida “após a vida”; aliás, pensamento que se alinha ao dos materialistas, mas que, estranhamente, ainda é alimentado por pessoas que se dizem espiritualistas.
Outros pensam que, após a morte, ficaremos dormindo, totalmente inconscientes, aguardando o dia do juízo final, época em que os puros receberão a recompensa do reino dos céus, e os ímpios sofrerão a segunda morte no lago de fogo. Portanto, serão destruídos pela ira de Deus, embora isso contraste frontalmente com a idéia de um Deus como sendo um pai amoroso, na visão que nos passou o Mestre de Nazaré. Será que ainda não leram que: “O mundo inteiro diante de ti é como grão de areia na balança, como gota de orvalho matutino caindo sobre a terra. Todavia, tu tens compaixão de todos, porque podes tudo, e não levas em conta os pecados dos homens, para que eles se arrependam. Tu amas tudo o que existe, e não desprezas nada do que criaste. Se odiasses alguma coisa, não a terias criado”. (Sb 11,22-24).
Por outro lado, a destruição ou o castigo eterno são, frontalmente, contrários ao que se afirma, nessas passagens:
Jó 35,6-8: “Se você pecar, que mal estará fazendo a Deus? Se você amontoa crimes,
que danos está causando para ele? E se você é justo, o que é que está dando a
ele? O que é que ele recebe de sua mão? Sua
maldade só pode afetar outro homem igual a você. Sua justiça só atinge
outro ser humano como você”.
Sl 103,8-10: “O Senhor é misericordioso e compassivo;
longânimo e assaz benigno. Não repreende
perpetuamente, nem conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os
nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades”.
Rm 8,38-39: “Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os
principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes nem as forças das
alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus
Cristo, nosso Senhor”.
Em busca da solução
Cada vez que lemos os argumentos dos que dizem não ser a alma imortal, ficamos pensando como é plenamente válida a afirmativa de que acreditamos naquilo que queremos ou, no máximo, no que comporta o nosso conhecimento; além disso, nem mais um milímetro.
Qualquer pesquisador perspicaz, e não compromissado com os dogmas instituídos pelos teólogos de outrora, perceberá que a crença na imortalidade foi lentamente sendo incorporada ao conceito religioso dos judeus. Para se ter uma noção de que isso é verdade, basta verificar que, sendo os Dez Mandamentos o código divino por excelência, nada existe nele de retribuição ou penalidade para uma vida após a morte. Tudo quanto lá se encontra são coisas para situações terrenas, já que, nessa época, não se tinha a menor idéia da vida após a morte.
Mas é certo que, ao tempo de Jesus, havia essa crença, conforme poder-se-á confirmar em Flávio Josefo, autor de História dos Hebreus, que viveu de 37 a 103 d.C. Segundo esse historiador hebreu, os fariseus e os essênios tinham a alma como imortal; apenas os saduceus não comungavam com isso, pois eram da opinião de que a alma morria juntamente com o corpo, e, em virtude disso, não havia recompensa nem castigo num outro mundo (JOSEFO, 1990, pp. 416 e 556).
O primeiro ponto de análise seria demonstrar a existência do espírito, para depois verificarmos se ele é imortal ou não. Vamos fazer algumas análises para desvendar esse “mistério”.
Quando se diz que Deus tomou o barro, no qual havia modelado o homem, insuflando-lhe, nas narinas, um sopro de vida, tornando-o, a partir daí, num ser vivente (Gn 2,7), os que interpretam isso ao pé da letra não admitem que, neste momento, o que Deus fez foi “colocar” o espírito no homem físico. Mas se não for isso o que poderemos entender da afirmativa de que Deus tenha criado o homem à Sua imagem e semelhança (Gn 1,27)? Certamente que o “sopro” deve ser biblicamente entendido por espírito, o que pode ser facilmente comprovado, pois “quem dá inteligência é um espírito no homem, o sopro do Todo-poderoso”. (Jó 32,8) e, conforme foi dito, Deus “...forma o espírito dentro do homem” (Zc 12,1).
Nenhuma dúvida poder-se-ia ter, ainda mais quando, para corroborar essa idéia, podemos ler: “Assim diz o Deus Javé, que criou o céu e o estendeu; que firmou a terra e tudo o que ela produz; ele dá respiração ao povo que nela habita e o espírito aos que sobre ela caminham”. (Is 42,5) e “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas”. (Sb 12,1).
Mas não adianta ficar muito preso ao Antigo Testamento; temos que ir além, para que o véu seja retirado com Jesus (2Cor 3,14), que disse “Deus é espírito” (Jo 4,24); portanto, a única semelhança que podemos ter para com Deus é na questão do Espírito; até porque ele é “Deus dos espíritos de todos os seres vivos!” (Nm 16,22; 27,16); e disso haveremos de admitir que todos os seres viventes têm um espírito. Isso, inclusive, pode ser confirmado pela passagem que diz: “Que toda a criação sirva a ti, porque ordenaste, e os seres existiram. Enviaste o teu espírito, e eles foram feitos” (Jt 16,14).
Numa passagem em que se condena o divórcio, que nada tem a ver com o nosso
assunto, mas que irá nos ajudar a entendê-lo, encontramos o seguinte trecho: “Por acaso, Deus não fez dos dois um único
ser, dotado de carne e espírito?” (Ml 2,15). Isso vem comprovar que nós, os
seres humanos, não somos somente carne e nem só espírito, mas que, quando
encarnados, somos ambos ao mesmo tempo. Mas qual dos dois será o mais
importante? A resposta temos em Jesus, que afirmou: “o espírito é que dá vida, a carne não serve para nada” (Jo 6,63).
Portanto, podemos concluir que “o
corpo sem o espírito está morto” (Tg 2,26), o que, realmente, é uma afirmativa coerente.
Numa importante recomendação, a todos nós, Jesus disse: “Vigiem e rezem, para não caírem na tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca" (Mt 26,41; Mc 14,38), mostrando-nos, indubitavelmente, que temos um espírito em “luta” permanente com a carne.
Algumas passagens que provam que temos um espírito:
2Rs 5,25-26: “Mas Eliseu retrucou: 'Você pensa que o meu espírito não estava presente quando alguém desceu do carro e foi encontrar você? Agora que você recebeu o dinheiro, com ele você pode comprar roupas, plantações de azeitonas, vinhas, ovelhas, bois, servos e servas'.”
1Cr 28,9: “Quanto a você, Salomão, meu filho, reconheça o Deus do seu pai e o sirva de todo o coração e com generosidade de espírito, pois Javé sonda todos os corações e penetra todas as intenções do espírito. Se você o procurar, ele se deixará encontrar. Mas, se você o abandonar, ele se afastará para sempre”.
Jó 12,10: Na sua mão está a vida de
todo ser vivente, e o espírito de todo o
gênero humano.
Jó 34,14-15: “Se ele retirasse o seu sopro e fizesse voltar a si o espírito do homem, toda a carne pereceria no mesmo instante, e o homem voltaria ao pó.”
Eclo 34,13: “O espírito daqueles que temem ao Senhor viverá, porque a esperança deles está em alguém que pode salvá-los”.
Is 26,9: "Por ti suspira a minha alma a noite toda, no meu íntimo o meu espírito madruga por ti, pois sempre que tuas sentenças chegam à terra, os habitantes do mundo aprendem a justiça”.
Br 3,1: “Senhor todo-poderoso, Deus de Israel: é uma alma angustiada e um espírito aflito que clama por ti”,
Zc 12,1: “Oráculo. Palavra de Javé a respeito de Israel - oráculo de Javé, que estende o céu, firma as bases da terra e forma o espírito dentro do homem”.
1Cor 2,11: “Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está?
assim também as coisas de Deus, ninguém as compreendeu, senão o Espírito de
Deus”.
A morte, na verdade, é apenas a separação do espírito do corpo, segundo podemos deduzir dos passos: “Então Jesus deu um forte grito: 'Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito'. Dizendo isso, expirou” (Lc 23,46) e “Atiravam pedras em Estevão, que repetia esta invocação: ‘Senhor Jesus, recebe o meu espírito’" (At 7,59). Morre o corpo, mas o que acontecerá com o espírito? Essa é uma pergunta assaz difícil de responder, se não buscarmos levar em conta os conceitos de época. Vejamos que, embora não tivessem plena certeza a respeito do futuro do espírito, uma coisa lhes era certa: que a morte acorria apenas ao corpo físico. Passagens em que podemos perceber isso:
Sl 146,4: “Exalam o espírito e voltam ao pó, e no mesmo dia perecem seus planos!”.
Ecl 12,7: “Então o pó volta para a terra de onde veio, e o sopro vital retorna para Deus que o concedeu”.
Sb 16,14: “O homem, na sua maldade, pode matar, mas não é capaz de fazer voltar o espírito que se exalou, nem libertar a alma que foi recolhida no reino dos mortos”.
Eclo 38,23: “Quando o morto repousa, pare de pensar nele. Console-se, porque o espírito dele já partiu”.
Em todas elas, o fato é que tinham convicção de que o espírito saía do corpo; este, sim, é que morria. A incerteza ficava apenas por conta do que iria acontecer com o espírito. Quem fala em corpo ou carne mortal é porque acredita que, no homem, há uma outra coisa que não seja material; quer dizer, crê existir um princípio imortal; esse, para nós, não é senão o espírito. Vejam:
Rm 6,12: “Que o pecado não reine mais no
corpo mortal de vocês, submetendo-os às suas paixões”.
Rm 8,3: “Deus tornou possível aquilo que para a Lei era impossível, porque os
instintos egoístas a tornaram impotente. Ele enviou seu próprio Filho numa
condição semelhante à do pecado, em vista do pecado, e assim condenou o pecado na sua carne mortal”.
Cl 1,22: “Agora, porém, com a morte que Cristo
sofreu em seu corpo mortal, Deus
reconciliou vocês, para torná-los santos, sem mancha e sem reprovação diante
dele”.
1Pe 4,6: “Por que o Evangelho foi anunciado também aos mortos? A fim de que eles
vivam pelo Espírito a vida de Deus, depois de receberem, na sua carne mortal, a sentença comum a todos os homens”.
Mas essa incerteza ainda leva alguns a dizer que, depois da morte física, o espírito fica dormindo, usando-se de passagens bíblicas pela literalidade, como, por exemplo:
1Rs 2,10: “Depois Davi dormiu com seus pais, e foi sepultado na cidade de Davi”.
1Rs 11,43: “E Salomão dormiu com seus pais, e foi sepultado na cidade de Davi,...”.
1Rs 14,20: “E o tempo que Jeroboão reinou foi vinte e dois anos. E dormiu com seus pais;...”.
1Rs 14,31: “E Roboão dormiu com seus pais, e foi sepultado com eles na cidade de Davi...”.
1Rs 15,8: “Abião dormiu com seus pais, e o sepultaram na cidade de Davi...”.
A palavra “dormiu” aparece, na Bíblia, por 36 vezes [[1]], concentrando, sua maioria, no livro dos Reis (I e II) e no de Crônicas (II); mas será realmente que ela tem o sentido literal de dormir? Se alguém usasse uma dessas expressões: abotoou o paletó, apagou, bateu as botas, comeu capim pela raiz, empacotou, espichou a canela, vestiu o paletó de madeira, virou presunto, o que se entenderia? Iríamos tomá-las ao pé da letra ou entendê-las no sentido figurado? A resposta deverá indicar como deveremos interpretar o que consta da Bíblia.
Há, ainda, os que tomam da seguinte passagem para justificar a inconsciência do espírito após a morte:
Ecl 9,5-6.10: “Os vivos estão sabendo que devem morrer, mas os mortos não sabem nada, nem terão recompensa, porque a lembrança deles cairá no esquecimento. Seu amor, ódio e ciúme se acabam, e eles nunca mais participarão de nada que se faz debaixo do Sol. Tudo o que você puder fazer, faça-o enquanto tem forças, porque no mundo dos mortos, para onde você vai, não existe ação, nem pensamento, nem ciência, nem sabedoria”.
Apesar de ser, incontestavelmente, uma visão materialista, mesmo assim, daí tomam que os mortos não têm consciência de nada; deveriam também tomar, para serem mais coerentes com tudo que se diz nela, que os mortos não terão recompensa, apesar de contrariar o que Jesus pregou: “a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27). Fácil identificar no autor dela um saduceu, já que esse pensamento se iguala aos desse grupo religioso.
E, quanto à questão da não imortalidade, pegam para justificá-la, entre outros, o seguinte passo: “O homem não pode ter tudo, pois o ser humano não é imortal” (Eclo 17,25). Certamente que nessa passagem o autor estava se referindo ao homem físico; esse, sim, não é mesmo imortal, volta ao pó. Vimos, um pouco atrás, vários autores bíblicos separando as duas coisas, como, por exemplo: “Então o pó volta para a terra de onde veio, e o sopro vital retorna para Deus que o concedeu” (Ecl 12,7), onde o “sopro vital” significa espírito, conforme já o dissemos.
Há ainda uma outra passagem em que se agarram para negar a imortalidade do espírito, que é aquela onde está dito que Jesus é o único que tem a imortalidade (1Tm 6,16). Entretanto, mais tarde, Paulo, explicando melhor seu pensamento, disse: “... agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho” (2Tm 1,10). Fora a questão de que Jesus sempre se igualou a nós, é fácil perceber que a razão de tal afirmativa se encontra na questão de que o viram voltando do mundo dos mortos; daí atribuírem apenas a ele essa condição. Pelo conhecimento que detinham à época, não era de se esperar outra coisa.
Vamos trazer algumas passagens para comprovação da imortalidade do nosso espírito.
Primeiramente, há uma em que se apóiam para dizer que a comunicação com os mortos é proibida. Está em Dt 18,9-11: “Não se achará em ti quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, nem adivinhador, nem feiticeiros, nem agoureiro, nem cartomante, nem bruxo, nem mago, nem quem consulte o necromante e o adivinho, nem quem exija a presença dos mortos”. (SILVA, 2001, p. 75).
A necromancia, entendida pelo que faziam àquela época, consistia na evocação dos mortos para fins de adivinhação; e todas as proibições contidas nesse passo se resumem exatamente neste ponto. A própria proibição atesta que, de fato, os mortos se comunicavam, porquanto, não há sentido algum em se proibir o que não acontece. Veremos, que, na seqüência do texto até o final desse capítulo, o assunto é relativo ao suposto desejo de Deus de que as pessoas somente consultassem a Ele, já não havia dito que era um Deus ciumento (Ex 20,5). Portanto, existia, sim, a crença na comunicação com os mortos; por conseqüência, a manifestação deles prova categoricamente que o espírito é imortal e permanece consciente após a morte física.
No Antigo Testamento há, ainda, uma outra passagem que deixa claro isso; é a que provoca, nos contrários a essa idéia, um verdadeiro malabarismo exegético para, justamente, tirar dela a realidade da comunicação com os mortos. Estamos falando de 1Sm 28,3-20, onde se relata o episódio em que o rei Saul vai a Endor em busca de uma mulher que consultava os mortos, uma necromante, à qual solicita evocar o espírito Samuel. Este atende à evocação, e faz uma profecia a Saul, dizendo-lhe que viria a morrer na guerra contra os filisteus, juntamente com seus filhos. Fato reconhecido como verdadeiro pelo autor de Eclesiástico que, falando de Samuel, disse: “Mesmo depois de sua morte, ele profetizou, predizendo ao rei o seu fim. Mesmo do sepulcro, ele levantou a voz, numa profecia, para apagar a injustiça do povo” (Eclo 46,20). É um relato histórico que não poderá ser negado pelos que não atribuem a esse livro um valor canônico.
Eis a narrativa:
1Sm 28,3-20: “Samuel tinha morrido. Todo o Israel participara dos funerais, e o enterraram em Ramá, sua cidade. De outro lado, Saul tinha expulsado do país os necromantes e adivinhos. Os filisteus se concentraram e acamparam em Sunam. Saul reuniu todo o Israel e acamparam em Gelboé. Quando viu o acampamento dos filisteus, Saul teve medo e começou a tremer. Consultou a Javé, porém Javé não lhe respondeu, nem por sonhos, nem pela sorte, nem pelos profetas. Então Saul disse a seus servos: ‘Procurem uma necromante, para que eu faça uma consulta’. Os servos responderam: ‘Há uma necromante em Endor’. Saul se disfarçou, vestiu roupa de outro, e à noite, acompanhado de dois homens, foi encontrar-se com a mulher. Saul disse a ela: ‘Quero que você me adivinhe o futuro, evocando os mortos. Faça aparecer a pessoa que eu lhe disser’. A mulher, porém, respondeu: ‘Você sabe o que fez Saul, expulsando do país os necromantes e adivinhos. Por que está armando uma cilada, para eu ser morta?’ Então Saul jurou por Javé: ‘Pela vida de Javé, nenhum mal vai lhe acontecer por causa disso’. A mulher perguntou: ‘Quem você quer que eu chame?’ Saul respondeu: ‘Chame Samuel’. Quando a mulher viu Samuel aparecer, deu um grito e falou para Saul: ‘Por que você me enganou? Você é Saul!’ O rei a tranqüilizou: ‘Não tenha medo. O que você está vendo?’ A mulher respondeu: ‘Vejo um espírito subindo da terra’. Saul perguntou: ‘Qual é a aparência dele?’ A mulher respondeu: ‘É a de um ancião que sobe, vestido com um manto’. Então Saul compreendeu que era Samuel, e se prostrou com o rosto por terra. Samuel perguntou a Saul: ‘Por que você me chamou, perturbando o meu descanso?’ Saul respondeu: ‘É que estou em situação desesperadora: os filisteus estão guerreando contra mim. Deus se afastou de mim e não me responde mais, nem pelos profetas, nem por sonhos. Por isso, eu vim chamar você, para que me diga o que devo fazer’. Samuel respondeu: ‘Por que você veio me consultar, se Javé se afastou de você e se tornou seu inimigo? Javé fez com você o que já lhe foi anunciado por mim: tirou de você a realeza e a entregou para Davi. Porque você não obedeceu a Javé e não executou o ardor da ira dele contra Amalec. É por isso que Javé hoje trata você desse modo. E Javé vai entregar aos filisteus tanto você, como seu povo Israel. Amanhã mesmo, você e seus filhos estarão comigo, e o acampamento de Israel também: Javé o entregará nas mãos dos filisteus’. Saul caiu imediatamente no chão, apavorado com as palavras de Samuel”.
A preocupação inicial desse autor bíblico foi ressaltar em que condição Samuel viria aparecer; é por isso que vai logo informando que “Samuel tinha morrido”. Na seqüência do texto, fica clara a aparição de Samuel, primeiramente visto pela necromante, depois reconhecido por Saul. Inclusive ele, Samuel, diz ao rei que já lhe havia falado a respeito de que viria perder a realeza para um outro, ou seja, quando ele ainda estava vivo (1Sm 15,28). E finaliza o texto dizendo que Saul ficou “apavorado com as palavras de Samuel”. Alguma dúvida? Ou será preciso apelar para: “foi o demônio quem se manifestou ou um pseudo-espírito”? Mas, e os textos, não valem nada?
Há um momento da vida de Jesus, em que ele conversa com dois mortos. Esse fato encontra-se narrado por Mateus (17,1-9), por Marcos (9,2-13) e por Lucas (9,28-36), que afirmam que os dois homens que estavam conversando com Jesus eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em sua glória, ou seja, na condição de espíritos. O assunto era sobre o sua morte que aconteceria em Jerusalém. Os negadores apelam querendo justificar que Elias não morreu e que Moisés estaria ressuscitado em corpo físico, numa evidente exegese bíblica às avessas. A palavra aparecer é usada para espíritos, fantasmas e almas; não para um encarnado.
Vejamos os textos:
Mt 17,1-4.9: “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, os irmãos Tiago e João, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou diante deles: o seu rosto brilhou como o sol, e as suas roupas ficaram brancas como a luz. Nisso lhes apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes: 'Não contem a ninguém essa visão, até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos'."
Lc 9,28-31.36: “Oito dias após dizer essas palavras, Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. Nisso, dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. Apareceram na glória, e conversavam sobre o êxodo de Jesus, que iria acontecer em Jerusalém. ... Os discípulos ficaram calados, e nesses dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto”.
Mc 9,2-4.9: Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou sozinhos a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E se transfigurou diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma lavadeira no mundo as poderia alvejar. Apareceram-lhes Elias e Moisés, que conversavam com Jesus. Ao descerem da montanha, Jesus recomendou-lhes que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos.
Vale a pena ressaltar que Jesus não proibiu a ninguém de conversar com os mortos; a recomendação, aos discípulos, foi de que esperassem a sua ressurreição para falar do acontecido.
Na seqüência da narrativa de Mateus, é-nos mostrado que os discípulos ficaram confusos; vendo Elias ali, surgiu-lhes a dúvida sobre a profecia a respeito de sua volta. A mais interessante narrativa é a de Marcos, leiamo-la:
Mc 9,10-13: Eles observaram a recomendação e se perguntavam o que queria dizer "ressuscitar dos mortos". Os discípulos perguntaram a Jesus: "Por que os doutores da Lei dizem que antes deve vir Elias?" Jesus respondeu: "Antes vem Elias para colocar tudo em ordem. Mas, como dizem as Escrituras, o Filho do Homem deve sofrer muito e ser rejeitado. Eu, porém, digo a vocês: Elias já veio e fizeram com ele tudo o que queriam, exatamente como as Escrituras falaram a respeito dele."
A pergunta sobre “ressuscitar dos mortos”, tendo como complemento o questionamento sobre a volta de Elias e, na seqüência, a resposta de Jesus confirmando a sua volta, dizendo que isso de fato já aconteceu, porquanto “Elias já veio, mas não o reconheceram, do que os discípulos entenderam que falava de João Batista” (Mt 17,10-13), faz com que o conceito de “ressuscitar dos mortos”, neste contexto, signifique reencarnação, sem a mínima possibilidade de contestação. Assim, se João Batista é Elias em nova encarnação, isso também, por tabela, prova a imortalidade da alma, quer gostem ou não. Não foi sem motivo que Jesus disse: “Quem tem ouvidos, ouça!”. (Mt 11,15).
E já que falamos de reencarnação, há um outro princípio intimamente ligado a ela, e que é o da preexistência do espírito. Será que encontramos alguma passagem bíblica em que poderemos identificá-lo? Achamos que sim. Vejam, por exemplo, essas duas:
Jó 8,9: “Somos de ontem, não sabemos nada. Nossos dias são uma sombra sobre a terra”.
Sb 8,19-20: “Eu era um jovem de boas qualidades e tive a sorte de ter uma boa alma, ou melhor, sendo bom, vim a um corpo sem mancha”.
Obviamente que alguns poderão contestar; mas o que fazer? Vamos convencê-los à força? De forma alguma! Plena liberdade para se acreditar no que quiser, pois, da mesma forma, advogamos, a nós, esse princípio universal de direito.
Em outra passagem o “ressuscitar dos mortos” tem como entendimento voltar à
condição de espírito, conforme podemos deduzir de: “Mas, se estamos
mortos com Cristo, acreditamos que também viveremos com ele, pois sabemos que
Cristo, ressuscitado dos mortos, não
morre mais; a morte já não tem poder sobre ele”. (Rm 6,8-9). Não se trata da
ressurreição do juízo final, pois, mesmo que ele ainda não tenha acontecido, é
fato que Cristo ressuscitou, o que igualmente ocorrerá conosco. Mas aqui fala
que os ressuscitados não morrem mais, ora, se isso não for imortalidade, o que
seria então?
É falsa a idéia de ressuscitar da carne, como muitos acreditam que irá acontecer. Isso não passa de pensamento dos egípcios que achavam que o corpo era necessário na outra vida; daí o motivo pelo qual eles mumificavam os corpos. Além disso, ainda temos Paulo afirmando: “é semeado corpo animal, mas ressuscita corpo espiritual. Se existe um corpo animal, também existe um corpo espiritual” (1Cor 15,44) e “a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus” (1Cor 15,50). Citaremos também mais essa passagem que fala da morte: “é porque o homem já está a caminho de sua morada eterna, e os que choram a sua morte, já começam a rondar pela rua” (Ecl 12,5). Se a morada é eterna, e aqui está se falando da morte física, então como explicar o retorno do corpo na ressurreição dos mortos?
Merece destaque uma parábola de Jesus, que virá ajudar-nos no desenvolvimento que estamos fazendo. Leiamo-la:
Lc 16,19-31: "Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, e dava banquete todos os dias. E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava caído à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E ainda vinham os cachorros lamber-lhe as feridas. Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico, e foi enterrado. No inferno, em meio aos tormentos, o rico levantou os olhos, e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado. Então o rico gritou: 'Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque este fogo me atormenta'. Mas Abraão respondeu: 'Lembre-se, filho: você recebeu seus bens durante a vida, enquanto Lázaro recebeu males. Agora, porém, ele encontra consolo aqui, e você é atormentado. Além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, nunca poderia passar daqui para junto de vocês, nem os daí poderiam atravessar até nós'. O rico insistiu: 'Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa de meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não acabem também eles vindo para este lugar de tormento'. Mas Abraão respondeu: 'Eles têm Moisés e os profetas: que os escutem!' O rico insistiu: 'Não, pai Abraão! Se um dos mortos for até eles, eles vão se converter'. Mas Abraão lhe disse: 'Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos'".
Sabemos que toda parábola traz sempre no fundo alguma verdade. O Aurélio a define: “Narração alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior”.
Vejamos o que ainda poderemos retirar dessa parábola do rico e Lázaro, fora a questão da recompensa no após morte. Uma coisa bem clara é que acreditavam na comunicação com os mortos, pois é por este motivo que se justifica o pedido do rico a Abraão para enviar Lázaro a seus irmãos. A resposta de Abraão não é que isso não poderia acontecer, mas não havia necessidade, pois eles já tinham Moisés e os Profetas para lhes ensinar a verdade.
E já que citamos o nome de Lázaro, há um outro, o irmão de Marta e Maria que foi ressuscitado por Jesus (Jo 11,1-44). Depois de já ter passado quatro dias de sua morte, o Mestre, junto ao seu túmulo, lhe disse: “Lázaro, saia para fora!”, o que fez com que o morto saísse. Essa ressurreição como a volta do espírito ao corpo físico, nos prova que os mortos não ficam inconscientes, pois, caso ficassem, o espírito Lázaro não atenderia ao chamado de Jesus. E houve comunicação com um morto. Na visão do rico era útil um morto ir comunicar-se com seus parentes. Para Abraão era inútil.
Poderíamos questionar se havia mesmo manifestações espirituais àquela época. Para sabermos, vamos à pesquisa. Encontramos algumas situações que poderemos, sim, atribuir a manifestações de espíritos; vejamos:
a) Manifestação de espíritos confundidos como sendo o próprio Deus
Nm 24,2-3: “...levantou os olhos e viu Israel acampado por tribos. Então o espírito de Deus desceu sobre ele, e ele pronunciou o seu poema:..";
Jz 6,34: “O espírito de Javé se apoderou de Gedeão, que tocou a trombeta, e Abiezer se agrupou a ele”.
Jz 11,29: “Então o espírito de Javé desceu sobre Jefté, que atravessou o território de Galaad e Manassés, passou por Masfa e Galaad, e daí foi até os amonitas”.
Jz 14,6: “O espírito de Javé desceu sobre Sansão, e ele, sem ter nada nas mãos, despedaçou o leãozinho, como se despedaça um cabrito...”
Jz 14,19: “Então o espírito de Javé desceu sobre Sansão e apossou-se dele. Ele foi até Ascalon, matou trinta homens, tirou as roupas deles e deu para os que tinham adivinhado a resposta. Depois, cheio de raiva, voltou para a casa do seu pai”.
1Sm 10,6.10: “Então o espírito de Javé virá sobre você, e também você entrará em transe com eles e se transformará em outro homem. Daí, partiram para Gabaá, e um grupo de profetas foi ao encontro de Saul. O espírito de Javé desceu sobre ele, que entrou em transe no meio deles”.
1Sm 11,6-7: “Quando Saul ouviu a notícia, o espírito de Javé tomou conta dele. Saul ficou enfurecido, pegou uma junta de bois, os despedaçou e os mandou por mensageiros a todo o território de Israel, com este recado: ‘Se alguém não acompanhar Saul e Samuel, a mesma coisa acontecerá com seus bois’. O terror de Javé se abateu sobre o povo. E eles marcharam para a guerra, como se fossem um só homem”.
1Cr 12,19: “Então o espírito se apoderou de Amasai, chefe dos Trinta, que exclamou: 'Nós somos dos seus, Davi. Estamos com você, filho de Isaí. Paz a você e aos seus companheiros, porque o seu Deus está do seu lado'...”
2Cr 24,20: “Então o espírito de Deus se apoderou de Zacarias, filho do sacerdote Joiada. Ele se dirigiu ao povo e disse: ‘Assim fala Deus: Por que é que vocês estão desobedecendo aos mandamentos de Javé? Vocês vão se arruinar. Vocês abandonaram Javé, e ele também os abandona!’".
Certamente que não iremos atribuir a Deus tanta barbaridade acontecida aqui pelos que, supostamente, estavam investidos do “espírito de Deus”; não é mesmo? Mas mude-se o artigo “o” para o indefinido “um” e tudo se ajusta sem problema algum. Por outro lado, é fácil reconhecer que, de fato, o espírito é de Deus como o são todos os espíritos, o que não quer dizer que seja o espírito do próprio Deus.
b) Influência de espíritos bons
Mt 10,20: “Com efeito, não serão vocês que irão falar, e sim o Espírito do Pai de vocês é quem falará através de vocês”.
Mc 13,11: “Quando conduzirem vocês para serem entregues, não se preocupem com aquilo que vocês deverão dizer: digam o que vier na mente de vocês nesse momento, porque não serão vocês que falarão, mas o Espírito Santo”.
Lc 11,13: “Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas aos filhos, quanto mais o Pai do céu! Ele dará o Espírito Santo àqueles que o pedirem."
Bom; aqui, nestes passos, teremos que mudar o artigo “o” para “um”, já que, pela grandeza de Deus e, conseqüentemente, pela nossa pequenez, é bastante improvável que Ele venha a influenciar diretamente um ser humano. É bem certo que o fará, mas por via indireta, usando um espírito puro, ou no linguajar bíblico: “um Espírito Santo”.
c) Influência de espíritos maus
1Sm 16,14-16.23: “Ora, o
Espírito do Senhor retirou-se de Saul, e o atormentava um espírito maligno da parte do Senhor. Então os criados de Saul
lhe disseram: ‘Eis que agora um espírito
maligno da parte de Deus te atormenta; dize, pois, Senhor nosso, a teus
servos que estão na tua presença, que busquem um homem que saiba tocar harpa; e
quando o espírito maligno da parte do Senhor vier sobre ti, ele tocará com a
sua mão, e te sentirás melhor’. E quando o espírito maligno da parte de Deus
vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa,
e a tocava com a sua mão; então Saul
sentia alívio, e se achava melhor, e
o espírito maligno se retirava dele”.
1Sm 18,10-11: “No dia seguinte, apoderou-se dele o espírito maligno e teve um acesso de delírio em
casa. Como nos outros dias, Davi pôs-se a tocar a harpa. Saul, segurando uma
lança na mão, arremessou-a contra Davi, dizendo: 'Vou pregar Davi na parede!'
Mas Davi desviou-se por duas vezes e evitou o golpe”.
Mc 1, 23-26: “Nesse momento, estava na sinagoga um homem possuído por um espírito mau, que começou a gritar: 'Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!' Jesus ameaçou o espírito mau: 'Cale-se, e saia dele!' Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu dele”.
Mc 3,30: “Jesus falou isso porque estavam dizendo: 'Ele está possuído por um espírito mau'”.
Mc 5,1-13: “Jesus e seus discípulos chegaram à outra margem do mar, na região dos gerasenos. Logo que Jesus saiu da barca, um homem possuído por um espírito mau saiu de um cemitério e foi ao seu encontro. Esse homem morava no meio dos túmulos e ninguém conseguia amarrá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes tinha sido amarrado com algemas e correntes, mas ele arrebentava as correntes e quebrava as algemas. E ninguém era capaz de dominá-lo. Dia e noite ele vagava entre os túmulos e pelos montes, gritando e ferindo-se com pedras. Vendo Jesus de longe, o endemoninhado correu, caiu de joelhos diante dele e gritou bem alto: ‘Que há entre mim e ti, Jesus, Filho do Deus altíssimo? Eu te peço por Deus, não me atormentes!’ O homem falou assim, porque Jesus tinha dito: ‘Espírito mau, saia desse homem!’ Então Jesus perguntou: ‘Qual é o seu nome?’ O homem respondeu: ‘Meu nome é 'Legião', porque somos muitos’. E pedia com insistência para que Jesus não o expulsasse da região. Havia aí perto uma grande manada de porcos, pastando na montanha. Os espíritos maus suplicaram: ‘Manda-nos para os porcos, para que entremos neles’. Jesus deixou. Os espíritos maus saíram do homem e entraram nos porcos. E a manada - mais ou menos uns dois mil porcos - atirou-se monte abaixo para dentro do mar, onde se afogou”.
At
19,15: “respondendo,
porém, o espírito maligno, disse: 'A
Jesus conheço, e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?' Então o homem, no qual estava o espírito maligno, saltando sobre
eles, apoderou-se de dois e prevaleceu contra eles, de modo que, nus e feridos,
fugiram daquela casa”.
Manifestações desses espíritos podem-se ver em toda a Bíblia. Aliás, poderemos dizer, sem medo de errar, que ela, a Bíblia, é o maior repositório de fenômenos mediúnicos, ainda incompreendidos pela massa dos fiéis, e, por vezes, escamoteados pelos seus líderes.
d) outras manifestações
Ez 2,1-3: “Ele me disse: 'Criatura humana, fique de pé, que eu vou falar com você'. Foi só ele falar assim, e entrou em mim um espírito que me fez ficar de pé. Então eu pude ouvir aquele que falava comigo. Ele me disse: 'Criatura humana, vou mandar você a Israel, a esse povo rebelde, que se rebelou contra mim. Eles e seus antepassados se revoltaram contra mim até o dia de hoje'”.
Aqui, no linguajar popular, estamos diante de uma incorporação, onde um espírito, agindo diretamente no corpo do médium, usa-o conforme sua conveniência.
Podemos incluir aqui, nesse item, mais um acontecimento narrado pelos passos:
2Cor 12,1-4: “É preciso gabar-se? Embora não convenha, vou mencionar as visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo, que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu. Se estava em seu corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe. Sei apenas que esse homem - se no corpo ou fora do corpo não sei; Deus o sabe! foi arrebatado até o paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não são permitidas ao homem repetir”.
Ap 17,3: “E o Anjo me levou em espírito até o deserto”.
Ap 21,9-10: “...um dos sete Anjos... veio até mim... E me levou em espírito até um grande e alto monte”.
Tanto Paulo quanto João são arrebatados em espírito, ou seja, passam pelo fenômeno de afastamento temporário dos seus espíritos de seus corpos, comumente denominado de “viagem astral”, o que nós, os Espíritas chamamos de desdobramento. Não resta dúvida que para nosso espírito ser arrebatado e enviado a um outro lugar é porque somos, no mínimo, dualistas: corpo e espírito. Entretanto, vamos mais além disso, conforme percebido por Paulo: “O Deus da paz vos conceda santidade perfeita; e que o vosso ser inteiro, o espírito, a alma e o corpo sejam guardados de modo irrepreensível para o dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. (1Ts 5,23), isso, numa linguagem atual, diríamos: o vosso ser inteiro: o espírito, o perispírito e o corpo físico, porquanto são esses os elementos que compõem o homem.
Tomando-se como exemplo o livro de Tobias, poderemos dizer que os anjos são seres humanos desencarnados; senão vejamos essa história:
Tb 5,1-23: “Tobias perguntou a seu pai: ‘Meu pai, vou fazer tudo o que o senhor me mandou. Mas como posso recuperar esse dinheiro? Gabael não me conhece e eu não o conheço. Que sinal posso dar-lhe para que ele me reconheça, acredite em mim e me entregue o dinheiro? Além disso, não conheço o caminho para ir até a Média’. Tobit respondeu: ‘Gabael me deu um documento e eu dei outro a ele. Dividi o documento em duas partes, e cada um ficou com uma delas. Uma parte, eu deixei lá com o dinheiro, e a outra está comigo. Já se passaram vinte anos, desde que eu depositei esse dinheiro! Agora, meu filho, vá procurar uma pessoa de confiança que possa acompanhá-lo na viagem, e nós pagaremos a ela quando vocês voltarem. Vá e recupere esse dinheiro que está com Gabael’. Tobias saiu para procurar uma pessoa que pudesse ir com ele até a Média e conhecesse o caminho. Logo que saiu, encontrou o anjo Rafael bem à frente dele, mas não sabia que era um anjo de Deus. Tobias lhe perguntou: ‘De onde você é, rapaz?’ Ele respondeu: ‘Sou israelita, seu compatriota, e estou aqui procurando trabalho’. Tobias lhe perguntou: ‘Você sabe o caminho para a Média?’ Ele respondeu: ‘Sim. Já estive lá muitas vezes e conheço bem todos os caminhos. Fui muitas vezes à Média, e me hospedei na casa do nosso compatriota Gabael, que mora em Rages, na Média. São dois dias de viagem de Ecbátana até Rages, pois Rages fica na região montanhosa e Ecbátana fica na planície’. Tobias disse: ‘Espere aqui, rapaz, enquanto vou contar isso a meu pai. Estou precisando que você viaje comigo. Eu lhe pago depois’. Rafael disse: ‘Está bem. Ficarei esperando, mas não demore’. Tobias entrou em casa e contou a seu pai Tobit: ‘Pai, encontrei um israelita, que é nosso compatriota!’ Tobit lhe disse: ‘Chame-o para que eu saiba de que família e tribo ele é, e se é de confiança para viajar com você, meu filho’. Tobias saiu para chamá-lo e disse: ‘Rapaz, meu pai está chamando você!’ O anjo entrou na casa, e Tobit se apressou em cumprimentá-lo. O anjo disse: ‘Desejo-lhe muita alegria’. Tobit respondeu: ‘Que alegria ainda posso ter? Sou cego, não enxergo a luz do dia, vivo na escuridão com os mortos, que já não enxergam a luz. Escuto a voz das pessoas, mas não posso vê-las’. Rafael disse-lhe: ‘Coragem! Em breve, Deus vai curá-lo. Tenha confiança’. Tobit disse a ele: ‘Meu filho Tobias quer ir até a Média. Você pode ir com ele para ensinar o caminho? Eu lhe pagarei por isso, meu irmão’. Ele respondeu: ‘Posso ir. Conheço todas as estradas. Muitas vezes viajei até a Média e já percorri todas as suas planícies e montanhas, e conheço todos os caminhos por lá’. Tobit lhe perguntou: ‘Meu irmão, de que família e tribo você é? Conte para mim’. O anjo respondeu: ‘Para que você quer saber sobre minha família e tribo?’ Tobit insistiu: ‘Gostaria de saber de quem você é filho e qual é o seu nome’. Rafael respondeu: ‘Sou Azarias, filho do grande Ananias, um compatriota seu’. Tobit disse: ‘Seja bem-vindo, meu irmão. Não leve a mal se eu procuro saber exatamente seu nome e sua família. Acontece que você é parente meu e vem de uma família honesta e honrada. Conheço bem Ananias e Natã, os dois filhos do grande Semeías. Eles costumavam ir comigo a Jerusalém, para juntos adorarmos a Deus. Eles nunca se desviaram do caminho certo. Seus parentes são homens de bem. Seja bem-vindo, porque você vem de uma raiz muito boa’. E acrescentou: ‘Vou lhe pagar uma dracma por dia, além do necessário para você e meu filho. Acompanhe meu filho, que depois eu ainda posso lhe aumentar o pagamento’. O rapaz respondeu: ‘Vou com ele. Não tenha medo. Iremos e voltaremos sãos e salvos. O caminho é seguro’. Tobit disse: ‘Deus lhe pague, meu irmão’. Então Tobit chamou o filho e recomendou: ‘Filho, prepare o necessário para a viagem e parta com o seu parente. Que o Deus do céu proteja vocês e os traga sãos e salvos. Que seu anjo os acompanhe com sua proteção, meu filho’. Tobias beijou seu pai e sua mãe e partiu para a viagem, enquanto Tobit lhe dizia: ‘Boa viagem!’ Sua mãe começou a chorar, e disse a Tobit: ‘Por que você mandou o meu filho? Ele era o nosso apoio e sempre estava perto de nós! O dinheiro não vale nada em comparação com o nosso filho. O que Deus nos dava era o bastante’. Tobit disse: ‘Não se preocupe! Nosso filho partiu e voltará são e salvo. Você verá com seus próprios olhos, quando ele voltar são e salvo. Não se preocupe nem se atormente, minha irmã. Um anjo bom o acompanhará, lhe dará uma viagem tranqüila e o trará são e salvo’. Então, ela parou de chorar”.
Se isso for verdade, então todas as vezes que encontrarmos a ação de um anjo, a entenderemos como sendo um espírito manifestando-se. “Eu sou um servo como você e como os seus irmãos...” (Ap 19,20), foi o que o anjo disse a João, quando esse caiu de joelhos para o adorar, o que faz com que anjo e ser humano sejam a mesma coisa. Inclusive, quando da ressurreição,, os anjos que foram vistos junto ao túmulo de Jesus (Mt 28,2; Jo 20,12) como homens de vestes brancas.(Mc 16,5; Lc 24,4).
Obviamente que não relacionamos todas as passagens, mas apenas algumas delas para dar exemplos das manifestações de espíritos. Aliás, para os que têm “olhos de ver”, a Bíblia está cheia delas, conforme já o dissemos.
Mas poderiam nos perguntar o que é espírito? Espírito é um ser humano desencarnado; ; vejamos a comprovação:
Lc 24,36-39: “Ainda estavam falando, quando Jesus apareceu no meio deles, e disse: 'A paz esteja com vocês.' Espantados e cheios de medo, pensavam estar vendo um espírito. Então Jesus disse: ‘Por que vocês estão perturbados, e por que o coração de vocês está cheio de dúvidas? Vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo. Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho’”.
Quando Jesus lhes aparece, ele já estava fisicamente morto; é por isso que seus discípulos pensavam estar vendo um espírito. E se “um espírito não tem carne e ossos”, como explicar a ressurreição da carne? Especialmente depois de tão óbvia afirmação de Paulo de que “a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus” (1Cor 15,50). Acrescentamos ainda: “na ressurreição serão como os anjos do céu” (Mt 22,30), embora Jesus esteja se referindo a uma outra situação; o fato é que os anjos são seres espirituais; portanto, se seremos iguais a eles, via de conseqüência também seremos, da mesma forma, seres espirituais.
Uma outra situação interessante ocorreu, quando Jesus ainda estava vivo. O episódio inicia-se no ponto em que Jesus, após a multiplicação dos pães e peixes, fica para trás, enquanto que seus discípulos entram mar adentro, se dirigindo a Genesaré. À quarta vigília, ou seja, entre três e seis horas da manhã, Jesus, andando sobre o mar, vai ao encontro deles, que, ao vê-lo, apavorados disseram: "É um fantasma!" (Mt 14,22-26), ao que Jesus logo lhes disse: "Coragem! Sou eu. Não tenham medo" (Mt 14,27). Então, os fantasmas existem! Mas o que são eles, senão os espíritos dos mortos?
Para corroborar essa nossa idéia, transcrevemos o pensamento do teólogo Rev. Haraldur Nielsson:
De resto, acho que há muitas passagens no Novo Testamento que indicam, exatamente, que se compreendia, pela palavra “espírito” (em grego pneuma), a “alma de um morto”.
Desejo, sobre o assunto, indicar duas passagens em as quais pneumata não pode significar senão almas de mortos: Hebreus XII,23 (Espíritos de justos chegados à perfeição) e 1ª Epístola de Pedro III, 19 ( porém tendo sido vivificados pelo espírito, no qual foi pregar aos espíritos em prisão, os quais foram outrora incrédulos, quando a paciência de Deus se estendeu aos dias de Noé). É claro como o dia que, na primeira passagem, se trata de almas de homens mortos no estado de perfeição e, na última, das almas dos homens decaídos, que viveram na Terra, no tempo do dilúvio. Se não quiserem acreditar em mim, podem consultar o dicionário grego latino de Grimm, sobre os livros do Novo Testamento.
Se Deus é, em Hebreus XII, 9, chamado de “Deus dos Espíritos”, o dicionário indica que a palavra espírito significa tanto as almas dos homens mortos como as dos anjos. Posso ainda acrescentar, sobre o assunto, que o Cristo foi chamado, várias vezes, depois da sua ressurreição, de pneuma e, indiscutivelmente, se tratava de “alma de um morto”, pois que ele vivera na Terra. (NIELSSON, 1983).
Algumas passagens, se bem analisadas, mostram-nos a idéia de que a vida
continua. Vejamos essa, por exemplo: “E muitos dos que dormem no pó
da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e
desprezo eterno”.
(Dn 12,2). Saindo da literalidade da letra que mata, entendemos que a expressão
“os que dormem no pó”, não seja outra
coisa, senão os que já morreram. E se algum deles, futuramente, ressuscitar,
não há como duvidar de que estão vivos até lá, mesmo que supostamente dormindo,
para daí viverem a vida eterna, gozando do prêmio ou sofrendo o castigo
merecido. Aliás, podemos corroborar isso com “Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para ele”
(Lc 20,37-38, ver tb Mt 22,31-32 e Mc 12,26-27).
Mas, voltando à questão das manifestações de espíritos, é necessária uma análise especial de uma passagem bíblica, dadas as traduções de conveniência, que tiram dela esse caráter. A passagem é 2Pe 1,13-15, cujo livro, segundo os entendidos, foi escrito em 66 d.C.; vamos transcrevê-la do Novo Testamento – Ed. Loyola. Para não ficar repetindo-a, iremos colocar das outras traduções apenas as expressões que, para realce, destacamos nessa, obedecendo à mesma ordem em que aparecem no texto:
1 - Novo Testamento - Ed. Loyola: "Sim, creio ser do meu dever, enquanto habitar nesta tenda, estimular-vos com minhas exortações. Estou ciente de que logo deverei desarmar esta tenda, conforme Nosso Senhor Jesus Cristo me deu a conhecer. Mas, eu farei todo o possível para que, em toda ocasião, depois de minha morte, vos lembreis destas coisas".
2 - Anotada (Protestante) - estou neste tabernáculo; prestes a deixar o meu tabernáculo; mesmo depois de minha partida;
3 - Vozes - habitar nesta tenda; breve verei desarmada minha tenda; depois de minha partida;
4 - Bíblia de Jerusalém - estou nesta tenda terrena; breve hei de despojar-me dela; depois da minha partida;
6 - Novo Mundo (protestante) - estiver nesta habitação; breve se há de eliminar a minha habitação; depois da minha partida;
7 - Edição Pastoral - estiver nesta tenda; breve devo despojar-me dela; depois de minha partida;
8 - Ave Maria - estiver neste tabernáculo; terei que deixá-lo; depois do meu falecimento;
9 - Paulinas - estou neste tabernáculo; deixarei o meu tabernáculo; depois da minha morte;
10 - SSB (protestante) - estiver neste tabernáculo, brevemente hei de deixar este meu tabernáculo; depois da minha morte;
11 - Santuário - estiver neste tabernáculo; breve terei de o deixar; depois da minha partida;
12 - Barsa - estou neste tabernáculo; logo tenho que deixar o meu tabernáculo, depois do meu falecimento;
Para entendermos o que significam as palavras usadas, leiamos: “Nós sabemos: quando a nossa morada terrestre, a nossa tenda, for desfeita, receberemos de Deus uma habitação no céu, uma casa eterna não construída por mãos humanas”. (2Cor 5,1). Assim, acreditamos que as palavras “tabernáculo”, “tenda” e “habitação” se referem ao corpo físico. O que percebemos nos tradutores é a desesperada tentativa de não deixar em evidência a influência espiritual de Pedro após sua morte física, pois foi isso que ele prometeu. Por outro lado, se essa carta foi escrita cerca de trinta e poucos anos depois da morte de Jesus, e por ela Pedro afirma que ele o havia dito que brevemente deixaria sua tenda (tabernáculo ou habitação), então o Mestre só poderia ter feito isso na sua condição de Espírito, o que prova a imortalidade.
Pedro vendo as manifestações de Jesus após a sua morte, e essa da qual fala, é muito provável que isso o levara a crer que também, depois que morresse, poderia, na condição de espírito, fazer o mesmo, porquanto o Mestre sempre se igualou a nós; nunca se colocou numa condição superior, inclusive dizendo: “tudo o que eu fiz vós podeis fazer e até mais” (Jo 14,12).
Um outro detalhe interessante é que, mesmo considerando tabernáculo como um local sagrado onde se reuniam os cristãos primitivos e que, segundo pensavam os judeus, Deus o habitava (Ex 26,1; 25,21; Dt 31,26; Hb 9,4), ele pode muito bem ser comparado a uma tenda, ou morada. Mas, quando Pedro se reporta a ele mesmo, o tabernáculo ao qual se refere é justamente o próprio corpo (verso 14). Sobre a intenção de Pedro, para que os novos Cristãos permanecessem no Evangelho, ele mostra que, mesmo depois de deixar o seu tabernáculo, ou seja, o seu espírito abandonar o corpo físico, ele viria a inspirá-los para que os fiéis continuassem no caminho, mesmo após a sua morte (verso 15). Destarte, se essa carta de Pedro foi escrita em 66 d.C., vemos que ele estava certo de que viria a morrer em breve, conforme anunciado por Jesus em espírito, já que o crucificaram, de cabeça para baixo, em 67 d.C. Traçando um paralelo ao esclarecimento de Pedro, quando ele se reporta ao próprio corpo como tabernáculo, entendemos que seja sobre uma habitação sagrada de seu espírito, podendo ainda inspirar os cristãos primitivos, mesmo após a morte. Enfim, pelo que podemos concluir, o espírito sobrevive e é plenamente consciente após a morte do corpo.
Conclusão
De nossa parte,
não há dúvida alguma de que o nosso espírito é imortal. E se não fosse imortal,
de que nos serviria a religião? Para nós, a relação entre o mundo físico e
espiritual pode ser facilmente comprovada no Novo Testamento. Senão vejamos:
Primeiro,
em Paulo, que disse “A
propósito dos dons do Espírito, irmãos, não quero que estejais na ignorância”
(1Cor 12,1), quando passa a dar orientação sobre a mediunidade, vista por
ele, como “dons do Espírito”, e entendida pelos teólogos como “carismas”. Na
seqüência,
Paulo orienta: “Há diversidade de dons,
mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo;
diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Cada um
recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. A um, o
Espírito dá a mensagem de sabedoria, a outro, a palavra de ciência segundo o
mesmo Espírito, a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro ainda, o único e
mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a
outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de
falar em línguas, a outro ainda, o dom de as interpretar. Mas é o único e mesmo
Espírito que isso tudo realiza, distribuindo a cada um os seus dons, conforme
lhe apraz”. (1Cor 12,4-11). Esses “dons do Espírito” não são
outra coisa senão a mediunidade, que também possui vários tipos, além de todos
esses discriminados nessa passagem. Muitos crêem que aí existe a manifestação
do Espírito Santo, que, em todos esses “dons”, é ele quem age;
mas,
se assim fosse, então não haveria necessidade de analisar o que os profetas
estivessem falando, conforme recomendou Paulo em 1Cor 14,29. Por outro lado,
devemos observar que, quando ele diz “o dom de discernimento dos espíritos”, como
está no plural não pode ser o Espírito Santo; por isso,
o que ele está falando é da possibilidade do médium (profeta) poder identificar
se o espírito que se manifesta é bom ou mau.
João, também, recomendou
algo a respeito disso; leiamos: “Amados, não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos
para ver se são de Deus, pois muitos falsos profetas vieram ao mundo”. (1Jo
4,1), cujo sentido é o mesmo que podemos ver em Paulo, quanto ao discernimento
dos espíritos. Se havia necessidade disso é porque se apresentavam duas
categorias de espíritos: os bons e os maus, esses últimos conhecidos como os
demônios. Sobre eles vejamos a opinião de Nilsson:
Como
sabemos, os demônios são, no Novo Testamento, a antítese dos bons espíritos. E
sabemos pelo bem conhecido historiador judeu Josefo que uma parte, ao menos, da
humanidade contemporânea do Cristo não considerava os demônios como
anjos decaídos, mas como almas de homens mortos maus. (NIELSOON, p. 91).
Esperamos, caro leitor,
que tenhamos lhe fornecido elementos suficientes para sua própria conclusão.
Nosso objetivo foi esse, ou seja, colocar à sua disposição várias passagens
bíblicas, para que também você faça a sua análise. Não temos a
pretensão de fazer com que todos pensem como nós; aliás, ninguém
mesmo terá essa obrigação, apenas quisemos lhe oferecer um estudo que sirva de
base para sua reflexão sobre o assunto.
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Jan/2007.
Referências Bibliográficas
JOSEFO, F. História dos Hebreus, Rio de Janeiro: CPAD, 1990.
MONLOUBOU, L. e DU BRUIT, F.M. Dicionário Bíblico Universal, Petrópolis, RJ, Vozes; Aparecida, SP: Editora Santuário, 1996.
NIELSSON, H. O Espiritismo e a Igreja, São Bernardo do Campo, SP: Correio Fraterno, 1983.
SILVA, S. C. Analisando as Traduções Bíblicas: refletindo a essência da mensagem bíblica, João Pessoa, PB: Idéia, 2001.
A Bíblia Anotada. 8ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.
Bíblia Sagrada. 68ª ed. São Paulo: Ave Maria, 1989.
Bíblia Sagrada, Edição Barsa. s/ed. Rio de Janeiro: Catholic Press, 1965.
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. 43ª imp. São Paulo: Paulus, 2001.
Bíblia Sagrada, 37a. ed. São Paulo: Paulinas, 1980.
Bíblia Sagrada, 5ª ed. Aparecida-SP: Santuário, 1984.
Bíblia Sagrada, 8ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1989.
Bíblia de Jerusalém, nova edição. São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia do Peregrino. s/ed. São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia Sagrada, s/ed. Brasília – DF: Sociedade Bíblica do Brasil 1969.
Escrituras Sagradas, Tradução do Novo Mundo das. Cesário Lange, SP: STVBT, 1986.
Bíblia Mensagem de Deus - Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1984.
Novo Testamento,
LEB – Edições Loyola, São Paulo, SP, 1984.
[1]
Gn 47,30; 2Sm 7,12; 1Rs 1,21; 2,10;
11,43; 14,20.31; 15,8.24; 16,6.28; 22,40.50; 2Rs 8,24; 10,35; 13,9.13;
14,16.29; 15,7.22.38; 16,20; 20,21; 21,18; 24,6; 2Cr 9,31; 12,16; 14,1;
16,13; 21,1; 26,23; 27,9; 28,27; 32,33; 33,20; At 13,36.
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