O Sudário de Turim: um milagre comprovado?

Para lançar um milagre, basta um mentiroso que o invente e um imbecil que nele creia (WASHBURN).

Introdução

Vamos analisar parte de um texto disponível na Internet [[1]], onde o autor fala sobre o Sudário de Turim, nestes termos:

E como em todos as classificações parapsicológicas, EN e PN, também na piro-gravura existem casos SN, milagre, divino, imensamente superior. Abordo agora uns detalhes: no extraordinário milagre - ou conjunto de milagres - do "Santo Sudário" ao que deveremos dedicar amplo trabalho.

No Sudário aparece que o Corpo de Cristo transformou-se em luz. Uma luz desconhecida no mundo, diferente, brilhantíssima, muito superior à luminosidade gerada pela explosão da bomba atômica de Hiroshima, Nagasaki... Mas é transformação atômica e é luz. E luz com vida. O Cadáver transformou-se em luz vivente. Isso mesmo que se vislumbrava quando desde o tempo dos Apóstolos se falava em Ressurreição gloriosa.

Essa luz poderosíssima, sobrenatural, queimou a parte Interna do Sudário. Aparece a pirografia de todo o Corpo, por cima, por trás, pelos lados. Corpo sem peso: na parte correspondente às costas nãomaior pressão do que nos lados e na parte da frente.

A imagem ficou gravada em relevo: tanto mais profundamente queimada a superfície das fibras da parte interna da mortalha quanto mais perto estavam ou em contato com o Corpo Sagrado. Tanto menos profundamente queimadas quanto mais afastadas. Em três milionésimos de segundo. Um milionésimo de segundo mais que o Corpo Glorioso tivesse demorado para sair da mortalha, e todo o lençol teria sido volatizado pela luz.

Todo o Corpo de Cristo ressuscitou, tudo inclusive a matéria inerte dos cabelos, da barba, das unhas, o sangue derramado e coagulado..., menos pequenas partículas de sangue entre o tecido do lençol. Tudo transformou-se em luz.

Imagem estável, resistente à água, ao calor, à luz do mundo. Fluorescente. As análises científicas modernas provam que a impressão por pirogênese SN foi realizada com todos os mínimos e inclusive até então desconhecidos detalhes de patologia e história da flagelação, coroação de espinhos, crucificação, morte.

Isso sim é milagre e isso sim é identificação. Impressão por termogênese incomensuravelmente superior às pirogravuras humanas. Incontestável identificação. Identificação da autenticidade do Sudário. Identificação da meticulosa historicidade dos Evangelhos na narração da Paixão, Morte e Ressurreição. Identificação de que foi precisamente de Jesus (contra a opinião "precipitada" - mal intencionada - de uns cientistas, contra o que a "máfia" de racionalistas e sequazes recentemente divulgou).

Todas as pretendidas identificações de "espíritos" dos mortos por fenômenos parafísicos, são documentos essencialmente falsos. No Sudário de Turim, porém, o documento de identificação é perfeito: marcas deixadas pelo Ressuscitado, no momento da Ressurreição, juntamente com todas as marcas que havia no Cadáver impressas Nele durante a Paixão. Identificação global, completa, sem solução de continuidade, da Pessoa de Cristo.

Identificação de um morto? Não é poder dos mortos, é como em todas as manifestações do "outro mundo", poder divino: aquele Morto era e provou, também por estas pirogravuras SN, ser o Filho de Deus. A Boa Nova (= Evangelho), acrescentou seu "autógrafo" no mais estrito sentido do termo: gravado por Ele mesmo.

Análise

         O que mais nos chama a atenção nesse texto é que o seu autor, sempre pousando de cientista, quando, na verdade, nada mais é que um fanático, a serviço dos dogmas de sua Igreja.

         A autoridade máxima da Igreja Católica, até onde sabemos, ainda não assinou em baixo, dizendo que o Sudário é verdadeiramente a mortalha que envolveu o corpo de Jesus, numa atitude prudente, espera a opinião da ciência [[2]]. Pelo que podemos perceber, quando pesquisamos sobre esse assunto, a coisa é muito mais complexa que imaginávamos, pois existem duas correntes diametralmente opostas. Uma delas é cética não aceita tal peça como verdadeira, a outra, obviamente, compostas de fiéis da igreja católica, mãos postas ao alto, afirmam que o Sudário é mesmo o lençol que foi usado para envolver o corpo de Jesus, que por um atomilagroso” reflete a imagem do crucificado. O leitor, deve ter percebido qual linha segue o autor do texto em análise.

         No texto o autor usando, em algumas partes, de uma linguagem cientificista quer levar o leitor a crer naquilo que fala para justificar o fenômeno: um corpo físico transformado em luz!? Quando a ciência terrena provou que um corpo físico pode ser transformado em luz? Quando a ciência demonstrou que isso é mais potente que a explosão de uma bomba atômica? Quando a ciência conseguiu estabelecer que um milionésimo de segundo a mais, que os três milionésimos de segundos ocorridos durante a “transformação”, o lençol seria volatizado pela luz?

         E, finalmente, quando a ciência provou que a impressão por pirogênese sobrenatural ocorreu no Sudário?

         Lembramo-nos aqui do filósofo Espinosa que, em relação aos milagres, disse dos crentes:

[...] O vulgo, com efeito, pensa que a providência e o poder de Deus nunca se manifestam tão claramente como quando parece acontecer algo de insólito e contrário à opinião que habitualmente faz da natureza, em especial se resultar em seu proveito ou vantagem. [...]

[...] isso agradou de tal maneira aos homens que, até hoje, ainda não pararam de inventar milagres para fazer crer que Deus os ama a eles mais do que aos outros e que são a causa final que levou Deus a criar e a reger continuamente todas as coisas. De quanta presunção se arroga a insensatez do vulgo, que não tem Deus nem da natureza um conceito que seja correto, que confunde as volições de Deus com a dos homens e que, ainda por cima, imagina a natureza de tal modo limitada que acredita ser o homem a sua parte principal! (ESPINOSA, 2003, pp. 95-96).

E, em relação ao fato em si, afirmou:

Se, por conseguinte, acontecesse na natureza algo que repugnasse às suas leis universais, repugnaria, necessariamente e igualmente, ao decreto, ao entendimento e à natureza de Deus; por outro lado, se admitíssemos que Deus faz alguma coisa contrária às leis da natureza, seríamos também obrigados a admitir que Deus age em contradição com a sua própria natureza, o que é um absurdo.

[...] Nem sequer há nenhuma razão válida para atribuirmos à natureza uma potência e uma virtude limitadas e concluirmos que as suas leis se aplicam unicamente a certas coisas e não a todas. Porque se a virtude e a potência da natureza são a própria virtude e potência divinas, se as leis e regras da natureza são os próprios decretos de Deus, então somos obrigados a admitir que a potência da natureza é infinita e que as suas leis são tão amplas que se estendem a tudo o que é concebido pelo entendimento divino. De outro modo, teríamos de admitir que Deus criou uma natureza de tal maneira impotente e que as suas leis e regras são tão ineficazes que se freqüentemente obrigado a vir de novo em seu auxílio se quer que ela se conserve e que as coisas se passem conforme deseja. Mas isso, presumo, não faz sentido. (ESPINOSA, 2003, pp. 97-98).

         Mas se o autor