Pedro, tu és papa?

“Na qualidade de bispo da Igreja, eu devo continuar a disseminar as fábulas de nossa religião; porém, particularmente, eu devo permanecer um filósofo até o fim”. (SINÉSIO, bispo de Alexandria).

“Não se preocupem com eles. São cegos guiando cegos. Ora, se um cego guia outro cego, os dois cairão num buraco" (Jesus, em Mt 15,14).

"Não tenham medo deles, pois não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido”. (Jesus, em Mt 10,26).

Introdução

         Concordaremos com os que disserem que esse deveria ser um assunto que não nos diz respeito. Entretanto, como estão sempre nos aparecendo detratores, especialmente no presente caso, os fundamentalistas católicos que querem justificar sua religião como sendo a que é exclusivamente verdadeira, usando, para isso, do argumento de que Pedro foi nomeado por Jesus o primeiro Papa, e daí concluírem que somente a Igreja Católica Romana é quem tem as chaves do reino dos céus, e que quem estiver fora dela pode ir se preparando para arder eternamente no fogo do inferno, diremos que não fosse por isso, poderíamos não ter escrito nada a esse respeito.

         Sabemos que iremos contrariar interesses seculares; entretanto, a verdade deve aparecer, porquanto “nada há oculto que não venha a ser conhecido” (Lc 12,2). Não sem razão, disse o escritor José Reis Chaves: “Acontece que a verdade é, às vezes, para todos nós seres humanos, o que menos queremos ouvir, principalmente com relação aos nossos princípios religiosos, pois o nosso ego aflora logo com esses assuntos”. (CHAVES, 2006).

Significado da palavra papa

         Encontramos a seguinte explicação:

... “papa” é a forma latinizada de uma palavra grega popular, “papas”, variante de “pappas”, pai. Nos primeiros tempos da história do cristianismo, o título de papa era dado a todos os padres; depois, com o passar dos anos, foi limitado aos bispos. Em algumas aldeias de origem grego-bizantina, na Itália meridional, o pároco ainda era chamado papa, em sinal de respeito, de acordo com o costume do clero ortodoxo, segundo nos informa Ambrogio Donini.(8)

(8) Donini, Ambrogio - “História do Cristianismo: das origens a Justiniano”, Lisboa, Edições 70, 1988,p. 262.

(MARTINS, 1993, pp. 32).

         Essa outra viria a somar:

“Donde vem essa palavra? Não se sabe ao certo. Para a Igreja Romana, essa palavra é formada pelas iniciais da expressão “Petrus Apostolus Princeps Apostolorum” (Pedro Apóstolo, Príncipe dos Apóstolos); mas essa interpretação é mera coincidência, e ocorreu porque os católicos consideram o Apóstolo Pedro como o primeiro Papa, e o chefe supremo da Igreja como sendo o sucessor de São Pedro (Daí a expressão: o Papa está assentado na “cadeira de S. Pedro”.). (ALMEIDA, 2002, p. 86).

O nome do apóstolo e sua escolha para discípulo

         Iremos acompanhar as passagens que tratam do convite e do nome do apóstolo, que dizem ser o primeiro papa:

Mt 4,18-20: “Jesus andava à beira do mar da Galiléia, quando viu dois irmãos: Simão, também chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam jogando a rede no mar, pois eram pescadores. Jesus disse para eles: 'Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens.' Eles deixaram imediatamente as redes, e seguiram a Jesus.”

Mc 1,16-18: “Ao passar pela beira do mar da Galiléia, Jesus viu Simão e seu irmão André; estavam jogando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse para eles: 'Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens.' Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram a Jesus.”

Mc 3,13-16: “Jesus subiu ao monte e chamou os que desejava escolher. E foram até ele. Então Jesus constituiu o grupo dos Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios. Constituiu assim os Doze: Simão, a quem deu o nome de Pedro;”

Lc 5,1-11: “Certo dia, Jesus estava na margem do lago de Genesaré. A multidão se apertava ao seu redor para ouvir a palavra de Deus. Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago; os pescadores haviam desembarcado, e lavavam as redes. Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: 'Avance para águas mais profundas, e lancem as redes para a pesca.' Simão respondeu: 'Mestre, tentamos a noite inteira, e não pescamos nada. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes.' Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes, que as redes se arrebentavam. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que fossem ajudá-los. Eles foram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. Ao ver isso, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: ‘Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!’ É que o espanto tinha tomado conta de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Mas Jesus disse a Simão: ‘Não tenha medo! De hoje em diante você será pescador de homens.’ Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo, e seguiram a Jesus”.

Lc 6,12-14: “Nesses dias, Jesus foi para a montanha a fim de rezar. E passou toda a noite em oração a Deus. Ao amanhecer, chamou seus discípulos, e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos: Simão, a quem também deu o nome de Pedro, e seu irmão André;...”

Jo 1,35-42: “No dia seguinte, João aí estava de novo, com dois discípulos. Vendo Jesus que ia passando, apontou: 'Eis aí o Cordeiro de Deus.' Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram a Jesus. Jesus virou-se para trás, e vendo que o seguiam, perguntou: 'O que é que vocês estão procurando?' Eles disseram: 'Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?' Jesus respondeu: 'Venham, e vocês verão.' Então eles foram e viram onde Jesus morava. E começaram a viver com ele naquele mesmo dia. Eram mais ou menos quatro horas da tarde. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram as palavras de João e seguiram a Jesus. Ele encontrou primeiro o seu próprio irmão Simão, e lhe disse: ‘Nós encontramos o Messias (que quer dizer Cristo).’ Então André apresentou Simão a Jesus. Jesus olhou bem para Simão e disse: ‘Você é Simão, o filho de João. Você vai se chamar Cefas (que quer dizer Pedra)’."

         Mateus diz que Simão também se chamava Pedro, que ele e André, seu irmão, eram simples pescadores.

         Marcos confirma ser essa a profissão dos dois, mas, em relação ao nome, fala que ele se chamava Simão, que mais tarde Jesus trocou o seu nome para Pedro, especificando que isso aconteceu quando constituiu o grupo dos doze.

         Lucas denomina o pescador de Simão e também de Simão Pedro, e, em contradição, um pouco mais adiante, disse que Jesus, quando escolhe os doze discípulos, dá a ele o nome de Pedro, e só neste momento é que aparece o seu irmão André.

         João coloca André como discípulo de João Batista, que, um pouco depois de aceitar o convite de Jesus, apresenta seu irmão, Simão Pedro, ao Messias. E é neste momento que Jesus muda-lhe o nome de Simão, não para Pedro, mas para Cefas. Não fala nada a respeito da profissão deles.

         Apesar de João ter afirmado que Jesus mudara o nome para Cefas, continua chamando-o de Simão Pedro, por quinze vezes (Jo 6,8; 6,68; 13,6; 13,9; 13,24; 13,36; 18,10, 18,15; 18;25, 20,2; 20,6; 21,2; 21,3; 21,7; 21,11) ou só de Pedro, por treze vezes (Jo 13,37; 18,16, 18,17; 18,18; 18,26; 18,27; 20,3; 20,4; 21,7; 21,17; 21,19; 21,20; 21,21) e ainda coloca o próprio Jesus chamando-o de Pedro (Jo 18,11), também de Simão (Jo 21,16; 21,17) e só por uma vez Ele o chama de Simão Pedro (Jo 21,15). A não ser no versículo 42 de Jo 1, que diz ter Jesus lhe dado o nome de Cefas, em nenhuma outra passagem de seu Evangelho, João o nomeia assim. Então, o que adiantou mudar-lhe o nome, se não o chama pelo seu novo nome (se é que é novo mesmo)? E, em relação aos evangelhos sinópticos, não há disso uma ocorrência sequer.

         Em Atos, usa-se Pedro (cinqüenta e sete vezes) e, somente por quatro vezes, é dito Simão, mas completando com “o que tinha por sobrenome Pedro” (At 10,5; 10,18; 10,32; 11,13). Somente encontraremos o uso de Cefas em Paulo, na sua primeira carta aos coríntios (1Cor 1,12; 3,22; 9,5; 15,5) e na sua epístola aos gálatas (Gl 1,18; 2,9; 2,11; 2,14); entretanto, nela foi usado o nome Pedro, por duas vezes (Gl 2,7; 2,8). Isso é muito pouco, porquanto são atribuídas a Paulo treze cartas, ou seja, onze além dessas duas.

         Vejamos, a título de curiosidade, como o versículo 42 (Jo 1), aparece nas várias traduções bíblicas:

1. “...Cefas, que quer dizer Pedra”: Santuário, Paulus (de Jerusalém, do Peregrino e Pastoral) e Ave Maria.

2. “...Cefas, que quer dizer Pedro”: Barsa, Mundo Cristão, Vozes, Paulinas e SBB.

3. “...Cefas, que, traduzido, é Pedro”: Novo Mundo.

         Dessa última retiramos: “Cefas”. Gr. Ke.fás. Este é um nome aram. (Keh.fa'), aqui no masc., como em Mt 16;18 nos mss. sir. (p. 1232), significa “rocha”. Pelo Dicionário Prático da Barsa: cefas. Nome aramaico equivalente ao grego petrus que quer dizer rocha (p. 51).

         Mas a moral da história é que é tudo muito estranho: o nome era Simão Pedro ou só Simão que foi mudado para Pedro ou para Cefas? Tamanha confusão nos leva até a pensar que Jesus não mudou o nome de Simão Pedro, e que, provavelmente, foram os teólogos, que, querendo defender seus próprios dogmas, é que interpolaram isso, como é fácil de se perceber. Aqui vale a expressão: “só não vê quem não quer”. A finalidade era relacionar o nome de Pedro com a palavra “pedra” para daí nomeá-lo primeiro papa. Vejamos, na seqüência, a passagem na qual buscam estabelecer essa relação.

Passagem em que se lhe atribui o primado do papado

         A passagem, que é sempre citada para justificar o assunto, é a de Mateus. Entretanto, ocorreu-nos fazer uma comparação, cujo resultado, pelo que já vimos até aqui (e ainda nem bem começamos), não nos surpreendeu. Vejamos:

Mt 16,13-20

Mc 8,27-30 (= Lc 9,18-21)

13. Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, e perguntou aos seus discípulos: "Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?"

27. Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesaréia de Filipe. No caminho, ele perguntou a seus discípulos: "Quem dizem os homens que eu sou?"

14. Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas."

28. Eles responderam: "Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas."

15. Então Jesus perguntou-lhes: "E vocês, quem dizem que eu sou?" 16. Simão Pedro respondeu: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo."

29. Então Jesus perguntou-lhes: "E vocês, quem dizem que eu sou?" Pedro respondeu: "Tu és o Messias."

17. Jesus disse: "Você é feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que lhe revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18. Por isso eu lhe digo: você é Pedro, e sobre essa pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. 19. Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu, e o que você desligar na terra será desligado no céu."

Nihil.

20. Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias.

30. Então Jesus proibiu severamente que eles falassem a alguém a respeito dele.

         A narrativa de Lucas (9,18-21) é bem semelhante à de Marcos; portanto, não há nenhuma necessidade de se colocarem aqui as duas, ficaremos somente com a dele, mas que você, leitor, não se esqueça disso.

         Fica evidente a interpolação dos versículos 17 a 19 no texto de Mateus 16, cujo conteúdo não consta dos outros dois Evangelhos, exatamente daquilo de que se servem para justificar a hierarquia papal. Certamente, algum papa “inspirado” resolveu fazer isso para assentar seu poder temporal sobre os homens. Isso está “tão na cara” que, em nenhum outro lugar da Bíblia, será encontrada a expressão “chaves do Reino do céu”. Entretanto, Jesus atribuiu, como a Pedro (Mt 16,19), também aos outros discípulos a possibilidade de: “... tudo o que vocês ligarem na terra, será ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra, será desligado no céu”. (Mt 18,18), ou seja, não era uma atribuição exclusiva dele, mas de todos os discípulos e de todos nós, pois todo bem ou mal que fizermos fica registrado (ligado) no que os orientais chamam de arquivo akáshico. E não seria esse arquivo o livro da vida a que se refere o Apocalipse? Para corroborar a nossa conclusão, apresentamos, a você, leitor, a opinião do professor da Universidade de Oxford, o teólogo Geza Vermes (1924- ):

O episódio da confissão feita por Pedro de que Jesus é o Cristo está contido nos três Evangelhos Sinópticos, mas sua indicação para ser a pedra não figura nem em Marcos nem em Lucas. O silêncio sobre algo de tamanha importância, como a nomeação de Pedro como chefe da ekklesía, sugere vigorosamente que Mateus 16,17-19 deva ser um acréscimo secundário. A inexistência de qualquer menção à igreja nos outros Evangelhos, inclusive em João, também aponta nessa direção. Em suma, as palavras sobre a designação de Pedro não devem ser creditadas a Jesus, mas a Mateus ou a seu editor em 80 d.C. ou mais tarde. (VERMES, 2006, p. 410). (Grifo nosso).

         Por outro lado, se João era, segundo Paulo, um dos notáveis (Gl 2,9), e como ele, no seu Evangelho, não fala absolutamente nada sobre essa suposta nomeação de Pedro para ser o primeiro papa, isso é muito curioso.

         O escritor Pinheiro Martins (1967- ) elucida:

Papias, bispo de Hierápolis (c. 60 – c. 135 d.C.), teria afirmado que João Marcos, sobrinho de Barnabé, servia de intérprete ao apóstolo Pedro, quando este pregava aos gentios, pois o humilde pescador da Galiléia não sabia falar outro idioma senão o aramaico. Marcos traduzia, então, a pregação de Pedro do aramaico para o grego. De tanto ouvir e repetir a pregação do mestre e amigo, que relatava fatos da vida de Cristo, Marcos tornou-se uma das pessoas mais indicadas para escrever a respeito. E o fez.

O evangelho atribuído a Marcos é a mais antiga narrativa sobre a vida de Jesus que conhecemos. Curiosamente, inicia-se com a pregação de João Batista e o batismo de Jesus: Marcos nada informa sobre a concepção, o nascimento e a infância do Cristo – como se tivessem sido normais, nada tendo de diferentes aos de outros seres humanos, não merecendo, por isso, maiores atenções. Trata Maria, sua mãe, como uma mulher comum (exceto, claro, pelo fato de ter dado à luz um Messias) que se faz acompanhar de seus outros filhos. Também nada deixou registrado sobre o episódio em que Jesus teria delegado poderes a Pedro, fazendo dele alicerce da igreja e portador das chaves do Reino dos Céus; o que é estranho, já que, estando Marcos tão próximo de Pedro, dificilmente teria deixado de conhecer e registrar tal fato, dando-lhe destaque. (MARTINS, 1993, pp. 15-16). (Grifo nosso).

         Carlos A. Pastorino (1910-1980), ex-sacerdote católico, filósofo e teólogo, analisando essa passagem disse:

Em Mateus, porém, prossegue a cena com três versículos que suscitaram acres e largas controvérsias desde épocas remotíssimas, chegando alguns comentaristas até a supor tratar-se de interpolação. Em vista da importância do assunto, daremos especial atenção a eles, apresentando, resumidas, as opiniões dos dois campos que se digladiam.

Os católicos-romanos aceitam esses três versículos como autênticos, vendo neles:

a) a instituição de uma "igreja", organização com poderes discricionários espirituais, que resolve na Terra com a garantia de ser cegamente obedecida por Deus no "céu";

b) a instituição do papado, representação máxima e chefia indiscutível e infalível de todos os cristãos, passando esse poder monárquico, por direito hereditário-espiritual, aos bispos de Roma, sucessores legítimos de Pedro, que recebeu pessoalmente de Jesus a investidura real, fato atestado exatamente com esses três versículos.

Essa opinião foi combatida com veemência desde suas tentativas iniciais de implantação, nos primeiros séculos, só se concretizando a partir dos séculos IV e V por força da espada dos imperadores romanos e dos decretos (de que um dos primeiros foi o de Graciano e Valentiniano, que em 369 estabeleceu Dâmaso, bispo de Roma, como juiz soberano de todos os bispos, mas cujo decreto só foi posto em prática, por solicitação do mesmo Dâmaso, em 378). O diácono Ursino foi eleito bispo de Roma na Basílica de São Júlio, ao mesmo tempo em que Dâmaso era eleito para o mesmo cargo na Basílica de São Lourenço. Os partidários deste, com o apoio de Vivêncio, prefeito de Roma, atacaram os sacerdotes que haviam eleito Ursino e que estavam ainda na Basílica e aí mesmo mataram 160 deles; a seguir, tendo-se Ursino refugiado em outras igrejas, foi perseguido violentamente, durando a luta até a vitória total do "bando contrário". Ursino, a seguir, foi exilado pelo imperador, e Dâmaso dominou sozinho o campo conquistado com as armas. Mas toda a cristandade apresentou reações a essa pretensão romana, bastando citar, como exemplo, uma frase de Jerônimo: "Examinando-se do ponto de vista da autoridade, o universo é maior que Roma (orbis maior est Urbe), e todos os bispos, sejam de Roma ou de Engúbio, de Constantinopla ou de Régio, de Alexandria ou de Tânis, têm a mesma dignidade e o mesmo sacerdócio" (Epistula 146, 1).

Alguns críticos (entre eles Grill e Resch na Alemanha e Monnier e Nicolardot na França, além de outros reformados) julgam que esses três versículos tenham sido interpolados, em virtude do interesse da comunidade de Roma de provar a supremacia de Pedro e, portanto, do bispado dessa cidade sobre todo o orbe, mas, sobretudo, para provar que era Pedro, e não Paulo, o chefe da igreja cristã.

Essa questão surgiu quando Marcion, logo nos primeiros anos do 2º século, revolucionou os meios cristãos romanos com sua teoria de que Paulo foi o único verdadeiro apóstolo de Jesus, e, portanto, o chefe inconteste da Igreja.

Baseava-se ele nos seguintes textos do próprio Paulo: "Não recebi (o Evangelho) nem o aprendi de homem algum, mas sim mediante a revelação de Jesus Cristo" (Gál. 1:12); e mais: "Deus ... que me separou desde o ventre materno, chamando-me por sua graça para revelar seu Filho em mim, para pregá-lo entre os gentios, imediatamente não consultei carne nem sangue, nem fui a Jerusalém aos que eram apóstolos antes de mim" (Gál.15:15-17). E ainda em Gál. 2:11-13, diz que "resistiu na cara de Pedro, porque era condenado". E na 2ª Cor. 11:28 afirma: "sobre mim pesa o cuidado de todas as igrejas", após ter dito, com certa ironia, não ser "em nada inferior aos maiores entre os apóstolos" (2ª Cor. 11:5) acrescentando que "esses homens são falsos apóstolos, trabalhadores dolosos, transformando-se em apóstolos de Cristo; não é de admirar, pois o próprio satanás se transforma em anjo de luz" (2ª Cor. 11:13-14). Este último trecho, embora se refira a outras criaturas, era aplicado por Marcion (o mesmo do "corpo fluídico" ou "fantasmático") aos verdadeiros apóstolos. Em tudo isso, baseava-se Marcion, e mais na tradição de que Paulo fora bispo de Roma, juntamente com Pedro. Realmente as listas fornecidas pelos primeiros escritores, dos bispos de Roma, dizem:

a) Irineu (bispo entre 180-190): "Quando firmaram e estabeleceram a igreja de Roma, os bem aventurados apóstolos Pedro e Paulo confiaram a administração dela a Lino, de quem Paulo fala na epístola a Timóteo. Sucedeu-lhe depois Anacleto e depois deste Clemente obteve o episcopado, em terceiro lugar depois dos apóstolos, etc." (Epíst. ad Victorem, 3, 3, 3; cfr. Eusébio, His. Eccles., 5,24,14).

b) Epifânio (315-403) escreve: "Porque os apóstolos Pedro e Paulo foram, os dois juntos, os primeiros bispos de Roma" (Panarion, 27, 6).

Ora, dizem esses críticos, a frase do vers. 17 "não foi a carne nem o sangue que to revelaram, mas meu Pai que está nos céus", responde, até com as mesmas palavras, a Gálatas 1:12 e 16.

Para organizar nosso estudo, analisemos frase por frase.

VERS. 18 a - "Também te digo que tu és Pedro e sobre essa pedra construir-me-ei a "ekklêsia") (oi kodomêsô moi tên ekklêsían).

O jogo de palavras corre melhor no aramaico, em que o vocábulo kêphâ (masculino) não varia. Mas no grego (e latim) o masculino Petros (Petrus, Pedro) é uma criação ad hoc, um neologismo, pois esse nome jamais aparece em nenhum outro documento anterior. Mas como a um homem não caberia o feminino "pedra", foi criado o neologismo. Além de João (1:42), Paulo prefere o aramaico Kêphá (latim Cephas) em 1 Cor. 1:12; 3:22; 9:5; 15:5 e Gál. 2:14.

Quanto ao vocábulo ekklêsía, que foi transliterado em latim ecclésia (passando para o português "igreja"), temos que apurar o sentido: A - etimológico; B - histórico; C - usual; D - seu emprego no Antigo Testamento; e E - no Novo Testamento.

A - Etimologicamente ekklêsía é o verbo Kaléô, "chamar, convocar", com o preverbo ek, designativo de ponto de partida. Tem pois o sentido de "convocação, chamada geral".

B - Historicamente, o termo era usado em Atenas desde o 6.º século A.C.; ao lado da Boulê ("concílio", em Roma: Senado; em Jerusalém: Sinédrio), ao lado da Boulê que redigia as leis, por ser constituída de homens cultos e aptos a esse mister, havia a ekklêsía (em Roma: Comitium; em Jerusalém: Synagogê), reunião ou assembléia geral do povo livre, que ratificava ou não as decisões da autoridade. No 5.º séc. A.C., sob Clístenes, a ekklésía chegou a ser soberana; durante todo o apogeu de Atenas, as reuniões eram realizadas no Pnyx, mas aos poucos foi se fixando no Teatro, como local especial. Ao tornar-se "cidade livre" sob a proteção romana, Atenas viu a ekklêsía perder toda autoridade.

C - Na época do início do cristianismo, ekklêsía corresponde a sinagoga: "assembléia regular de pessoas com pensamento homogêneo"; e tanto designava o grupo dos que se reuniam, como o local das reuniões. Em contraposição a ekklésía e synagogê, o grego possuía syllogos, que era um ajuntamento acidental de pessoas de idéias heterogêneas, um agrupamento qualquer. Como sinônimo das duas, havia synáxis, comunidade religiosa, mas que, para os cristãos, só foi atribuída mais tarde (cfr. Orígenes, Patrol. Graeca, vol. 2 col. 2013; Greg. Naz., Patrol Graeca vol. 1 col. 876; e João Crisóst., Patrol.Graeca, vol. 7 col. 22). Como "sinagoga" era termo típico do judaísmo, foi preferido "ecclésia" para caracterizar a reunião dos cristãos.

D - No Antigo Testamento (LXX), a palavra é usada com o sentido de reunião, assembléia, comunidade, congregação, grupo, seja dos israelitas fiéis, seja dos maus, e até dos espíritos dos justos no mundo espiritual (Núm. 19, 20; 20:4; Deut. 23:1, 2, 3, 8; Juizes 20:2; 1.º Sam. 17:47; 1.º Reis 8:14,22; 1.º Crôn. 29:1, 20; 2.º Crôn. 1:5; 7:8; Neem. 8:17; 13:1; Judit 7:18; 8:21; Salmos 22:22, 25; 26:5; 35:18; 40:10; 89:7; 107:32; 149:1; Prov. 5:14; Eccli, 3:1; 15:5; 21:20; 24:2; 25:34; 31:11; 33:19; 38:37; 39:14; 44:15; Lam. 1:10; Joel 2:16; 1.º Mac. 2:50;3:13; 4:59; 5:16 e 14:19).

E - No Novo Testamento podemos encontrar a palavra com vários sentidos:

1) uma aglomeração heterogênea do povo: At. 7:38; 19:32, 39, 41 e Heb. 12:23.

2) uma assembléia ou comunidade local, de fiéis com idéias homogêneas, uma reunião organizada em sociedade, em que distinguimos:

a) a comunidade em si, independente de local de reunião: Mat. 18: 17 (2 vezes); At. 11:22; 12:5; 14:22; 15:41 e 16:5; 1ª Cor. 4:17; 6:4; 7:17; 11:16, 18,22; 14:4,5,12,19,23,28, 33,34,35; 2.a Cor. 8:18, 19,23,24; 11:8,28; 12:13; Filp. 4:15; 2.a Tess. 1:4; 1ª Tim. 3:5, 15; 5:6; Tiago 5:15; 3.a Jo. 6; Apoc. 2:23 e 22:16.

b) a comunidade estabelecida num local determinado, uma sociedade local: Antióquia, At. 11:26; 13:1; 14:27; 15:3; Asiáticas, 1ª Cor. 16:19; Apoc. 1:4, 11, 20 (2 vezes); 2:7, 11, 17, 29; 3:6, 13, 22; Babilônia, 1 Pe. 5:13; Cencréia, Rom. 16.1; Corinto, 1 Cor. 1:2; 2 Cor. 1:1; Êfeso, At. 20:17; Apoc. 2:1; Esmirna, Apoç. 2:8; Filadélfia, Apoc. 3:7; Galácia, 1 Cor. 16.1; Gál. 1:2; dos Gentios, Rom. 16:4; Jerusalém, At. 5:11; 8:1,3; 12:1; 15:4,22: 18:22; Judéia, At. 9:31; 1 Tess. 2:14; Gál. 1:22; Laodicéia, Col. 4:16; Apoc. 3:14; Macedônia, 2 Cor. 8:1; Pérgamo, Apoc. 2:12; Roma, Rom. 16:16; Sardes, Apoc. 3:1; Tessalônica, 1ª Tess. 1:1; 2ª Tess. 1:1; Tiatira, Apoc. 2: 18.

c) a comunidade particular ou "centro" que se reúne em casa de família: Rom. 16:5, 23; 1 Cor. 16:19; Col. 4:15; Film. 2; 3 Jo. 9, 10.

3) A congregação ou assembléia de todos os que aceitam o Cristo como Enviado do Pai: Mat. 16:18; At. 20:28; 1ª Cor. 10:32; 12:28; 15:9; Gál.1:13; Ef. 1:22; 3:10,21: 5:23,24,25,27,29,32; Filp. 3:6; Col. 1:18,24; Heb. 2:12 (citação do Salmo 22:22).

Anotemos, ainda, que em Tiago 2:2, a comunidade cristã é classificada de "sinagoga".

Concluímos desse estudo minucioso, que a palavra "igreja" não pode ser, hoje, a tradução do vocábulo ekklêsía; com efeito, esse termo exprime na atualidade:

1) a igreja católica-romana, com sua tríplice divisão bem nítida de a) militante (na Terra) ; b) sofredora (no "Purgatório") e c) triunfante (no "céu");

2) os templos em que se reúnem os fiéis católicos, com suas "imagens" e seu estilo arquitetônico especial.

Ora, na época de Jesus e dos primeiros cristãos, ekklêsía não possuía nenhum desses dois sentidos. O segundo, porque os cristãos ainda não haviam herdado os templos romanos pagãos, nem dispunham de meios financeiros para construí-los. E o primeiro porque só se conheciam, nessa época, as palestras de Jesus nas sinagogas judaicas, nos campos, nas montanhas, à beira-mar, ou então as reuniões informais nas casas de Pedro em Cafarnaum, de Simão o leproso em Betânia, de Levi, de Zaqueu em Jerusalém, e de outros afortunados que lhe deram hospedagem por amizade e admiração.

Após a crucificação de Jesus, Seus discípulos se reuniam nas casas particulares deles e de outros amigos, organizando em cada uma centros ou grupos de oração e de estudo, comunidades, pequenas algumas outras maiores, mas tudo sem pompa, sem rituais: sentados todos em torno da mesa das refeições, ali faziam em comum a ceia amorosa (agápê) com pão, vinho, frutas e mel, "em memória do Cristo e em ação de graças (eucaristia)" enquanto conversavam e trocavam idéias, recebendo os espíritos (profetizando), cada qual trazendo as recordações dos fatos presenciados, dos discursos ouvidos, dos ensinamentos decorados com amor, dos sublimes exemplos legados à posteridade.

Essas comunidades eram visitadas pelos "apóstolos" itinerantes, verdadeiros emissários do amor do Mestre. Presidiam a essas assembléias "os mais velhos" (presbíteros). E, para manter a "unidade de crença" e evitar desvios, falsificações e personalismos no ensino legado (não havia imprensa!) eram eleitos "inspetores" (epíscopoi) que vigiavam a pureza dos ensinamentos. Essas eleições recaíam sobre criaturas de vida irrepreensível, firmeza de convicções e comprovado conhecimento dos preceitos de Jesus.

Por tudo isso, ressalta claro que não é possível aplicar a essa simplicidade despretensiosa dessas comunidades ou centros de fé a denominação de "igrejas", palavra que variou totalmente na semântica. Daí termos mantido, neste trecho do evangelho, a palavra original grega "ekklêsía", já que mesmo sua tradução por "assembléia" não dá idéia perfeita e exata do significado da palavra ekklêsía daquela época. Não encontramos outro termo para usar, embora a farta sinonímia à disposição: associação, comunidade, congregação, agremiação, reunião, instituição, instituto, organização, grei, aprisco (aulê), sinaxe, etc. A dificuldade consiste em dar o sentido de "agrupamento de todos os fiéis a Cristo" numa só palavra. Fomos tentados a empregar "aprisco", empregado por Jesus mesmo com esse sentido (cfr. João 10:1 e 16), mas sentimos que não ficava bem a frase "construirei meu aprisco".

Todavia, quando ekklêsía se refere a uma organização local de país, cidade ou mesmo de casa de família, utilizaremos a palavra "comunidade", como tradução de ekklêsía, porque a correspondência é perfeita.

VERS. 18 b - "As portas do hades (pylai hádou) não prevalecerão contra ela".

O hades (em hebraico sheol) designava o hábitat dos desencarnados comuns, o "astral inferior" ("umbral", na linguagem espirítica) a que os latinos denominavam "lugar baixo": ínferus ou infernus. Diga-se, porém, que esse infernus (derivado da preposição infra) nada tem que ver com o sentido atual da palavra "inferno". Bastaria citar um exemplo em Virgílio (En. 6, 106), onde o poeta narra ter Enéias penetrado exatamente as "portas do hades", inferni janua, encontrando aí (astral ou umbral) os romanos desencarnados que aguardavam a reencarnação (Na revista anual SPIRITVS - edição de 1964, n.º 1 -, nas páginas 16 a 19, há minucioso estudo a respeito de sheol ou hades. Edições Sabedoria).

O sentido das palavras citadas por Mateus é que os espíritos desencarnados do astral inferior não terão capacidade nem poder, por mais que se esforcem, para destruir a organização instituída por Cristo.

A metáfora "portas do hades" constitui uma sinédoque, isto é, a representação do todo pela parte.

VERS. 19 a - "Dar-te-ei as chaves do reino dos céus".

As chaves constituíam o símbolo da autoridade, representando a investidura num cargo de confiança. Quando Isaías (22:22) fala da designação de Eliaquim, filho de Hilquia, para prefeito do palácio, ele diz : "porei sobre seu ombro a chave da casa de David; ele abrirá e ninguém fechará, fechará e ninguém abrirá". O Apocalipse (3:7) aplica ao Cristo essa prerrogativa: "isto diz o Santo, o Verdadeiro, o que tem a chave de David, o que abre e ninguém fechará, o que fecha e ninguém abrirá". Em Lucas (11:52) aparece uma alusão do próprio Jesus a essa mesma figura: "ai de vós doutores da lei, porque tirastes as chaves da ciência: vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam".

VERS. 19 b - "O que ligares na Terra será ligado nos céus, e o que desligares na Terra será desligado nos céus".

Após a metáfora das chaves, o que se podia esperar, como complemento, era abrir e fechar (tal como em Isaías, texto que devia ser bem conhecido de Jesus), e nunca "ligar" e desligar", que surgem absolutamente fora de qualquer seqüência lógica. Aliás, é como esperávamos que as palavras foram colocadas nos lábios de Clemente Romano (bispo entre 100 e 130, em Roma): "Senhor Jesus Cristo, que deste as chaves do reino dos céus a teu emissário Pedro, meu mestre, e disseste: "o que abrires, fica aberto e o que fechares fica fechado" manda que se abram os ouvidos e olhos deste homem" - haper àn anoíxéis énéôitai, kaì haper àn kleíséis, kéklestai - (Martírio de Clemente, 9,1 - obra do 3.º ou 4.º século). Por que aí não teriam sido citadas as palavras que aparecem em Mateus: hò eàn dêséis... éstai dedeménon... kaí hò eàn lêsêis...éstai lelyménon?

Observemos, no entanto, que no local original dessa frase (Mat. 18:18), a expressão "ligar" e "desligar" se encaixa perfeitamente no contexto: aí se fala no perdão a quem erra, dando autoridade à comunidade para perdoar o culpado (e mantê-lo ligado ao aprisco) ou a solicitar-lhe a retirada (desligando-o da comunidade) no caso de rebeldia. Então, acrescenta: "tudo o que ligardes na Terra, será ligado nos céus, e tudo o que desligardes na Terra, será desligado nos céus". E logo a seguir vem a lição de "perdoar setenta vezes sete”. E entendemos: se perdoarmos, nós desligamos de nós o adversário, livramo-nos dele; se não perdoarmos, nós o manteremos ligado a nós pelos laços do ódio e da vingança. E o que ligarmos ou desligarmos na Terra (como encarnados, "no caminho com ele", cfr. Mat. 5.25), será ratificado na vida espiritual.

Daí a nítida impressão de que esse versículo foi realmente transportado, já pronto (apenas colocados os verbos no singular), do capítulo 18 para o 16 (em ambos os capítulos, o número do versículo é o mesmo: 18).

A hipótese de que esse versículo (como os dois anteriores) foi interpolado, é baseada no fato de que não figura em Marcos nem em Lucas, embora se trate claramente do mesmo episódio, e apesar de que esses dois evangelistas escreveram depois de Mateus, por conseguinte, já conheciam a redação desse apóstolo que conviveu com Jesus (Marcos e Lucas não conviveram). Acresce a circunstância de que Marcos ouviu o Evangelho pregado por Pedro (de quem parece que era sobrinho carnal, e a quem acompanhou depois de haver abandonado Paulo após sua primeira viagem apostólica). Marcos não podia ignorar uma passagem tão importante em relação a seu mestre e talvez tio. Desde Eusécio, aparece como razão do silêncio de Marcos a humildade de Pedro, que em suas pregações não citava fatos que o engrandecessem. Mas não é admissível que Marcos ignorasse a cena; além disso, ele escreveu seu Evangelho após a desencarnação de Pedro: em que lhe ofenderia a modéstia, se dissesse a verdade total? Mais ainda: seu Evangelho foi escrito para a comunidade de Roma; como silenciar um trecho de importância tão vital para os cristãos dessa metrópole? Não esqueçamos o testemunho de Papias (2,15), discípulo pessoal do João, o Evangelista, e, portanto, contemporâneo de Marcos, que escreveu: "Marcos numa coisa só teve cuidado: não omitir nada do que tinha ouvido e não mentir absolutamente" (Eusébio, Hist. Eccles. 3,39).

E qual teria sido a razão do silêncio de Lucas? E por que motivo todo esse trecho não aparece citado em nenhum outro documento anterior a Marcion (meados do 2º século)?

Percorramos os primeiros escritos cristãos, verificando que a primeira citação é feita por Justino, que aparece como tendo vivido exatamente em 150 A.D.

1. DIDACHE (15,1) manda que os cristãos elejam seus inspetores (bispos) e ministros (diáconos). Nenhum aceno a uma hierarquia constituída por Jesus, e nenhuma palavra a respeito dos "mais velhos" (presbíteros).

2. CLEMENTE ROMANO (bispo de Roma no fim do 1º e início do 2º século), discípulo pessoal de Pedro e de Paulo (parece até que foi citado em Filip. 4:3) e terceiro sucessor de ambos no cargo de inspetor da comunidade de Roma. Em sua primeira epístola aos coríntios, quando fala da hierarquia da comunidade, diz que "Cristo vem da parte de Deus e os emissários (apóstolos) da parte de Cristo" (1ª Clem. 42,2). Apesar das numerosíssimas citações escriturísticas, Clemente não aproveita aqui a passagem de Mateus que estamos analisando, e que traria excelente apoio a suas palavras.

3. PAPIAS (que viveu entre o 1º e o 2º século) também nada tem em seus fragmentos.

4. INÁCIO (bispo entre 70 e 107), em sua Epístola aos Tralianos (3,1) fala da indispensável hierarquia eclesiástica, mas não cita o trecho que viria a calhar.

5. CARTA A DIOGNETO, aliás, comprovadamente a "Apologia de Quadrado dirigida ao Imperador Adriano", portanto do ano de 125/126 (cfr. Eusébio, Hist. Eccles. 4,3 ), nada fala.

6. EPÍSTOLA DE BARNABÉ (entre os anos 96 e 130), embora apócrifa, nada diz a respeito.

7. POLICARPO (69-155) nada tem em sua Epístola aos Filipenses.

8. O PASTOR, de Hermas, irmão de Pio, bispo de Roma, entre 141 e 155, e citado por Paulo (Rom. 16:14). Em suas visões a igreja ocupa lugar de destaque. Na visão 3ª, a torre, símbolo da igreja, é construída sobre as águas, mas diz o Pastor a Hermas: "o fundamento sobre que assenta a torre é a palavra do Nome onipotente e glorioso". Na Parábola 9,31, lemos que foi dada ordem de "edificar a torre sobre a Rocha e a Porta". E o trecho se estende sem a menor alusão ao texto que comentamos.

9. JUSTINO (+ ou - ano 150) cita, pela vez primeira, esse texto (Diálogus, 100,4), mas com ele só se preocupa em provar a filiação divina do Cristo.

10. IRINEU (bispo entre 180-190), em sua obra cita as mesmas palavras de Justino, deduzindo delas a filiação divina do Cristo (3, 18, 4).

11. ORÍGENES (184-254) é, historicamente, o primeiro que afirma que Pedro é a pedra fundamental da igreja (Hom. 5,4), embora mais tarde diga que Jesus "fundou a igreja sobre os doze apóstolos, representados por Pedro" (In Matt. 12,10-14). Só damos o resumo, porque o trecho é bastante longo.

12. TERTULIANO (160-220) escreve (Scorpiae, 10) que Jesus deu as chaves a Pedro e, por seu intermédio, à igreja (Petro et per eum Ecclesiae): a igreja é a depositária, Pedro é o Símbolo.

13. CIPRIANO (cerca 200-258) afirma (Epíst. 33,1) que Jesus, com essas palavras, estabeleceu a igreja fundamentada nos bispos.

14. HILÁRIO (cerca 310-368) escreve (De Trinit. 3,36-37) que a igreja está fundamentada na profissão de fé na divindade de Cristo (super hanc igitur confessionis petram) e que essa fé tem as chaves do reino dos céus (haec fides Ecclesiae fundamentum est...haec fides regni caelestis habet claves).

15. AMBRÓSIO (337-397) escreve: "Pedro exerceu o primado da profissão de fé e não da honra (prirnaturn confessionis útique, non honóris), o primado da fé, não da hierarquia (primatum fídei, non órdinis)"; e logo a seguir: "é pois a fé que é o fundamento da igreja, porque não é da carne de Pedro, mas de sua fé que foi dito que as portas da morte não prevalecerão contra ela" (De Incarnationis Dorninicae Sacramento, 32 e 34). No entanto, no De Fide, 4,56 e no De Virginitate, 105 – lemos que Pedro, ao receber esse nome, foi designado pelo Cristo como fundamento da igreja.

16. JOÃO CRISÓSTOMO (c. 345-407) explica que Pedro não deve seu nome a seus milagres, mas à sua profissão de fé (Hom. 2, In Inscriptionem Actorum, 6; Patrol. Graeca vol. 51, col. 86). E na Hom. 54,2 escreve que Cristo declara que construirá sua igreja "sobre essa pedra", e acrescenta "sobre essa profissão de fé".

17. JERÔNIMO (348-420) também apresenta duas opiniões. Ao escrever a Dâmaso (Epist. 15) deseja captar-lhe a proteção e diz que a igreja "está construída sobre a cátedra de Pedro". Mas no Comm. in Matt. (in loco) explica que a pedra é Cristo" (in petram Christum); cfr. 1ª Cor 10:4 "e essa pedra é Cristo".

18. AGOSTINHO (354-430) escreve: "eu disse alhures, falando de Pedro, que a igreja foi construída sobre ele como sobre uma pedra: ... mas vejo que muitas vezes depois (postea saepíssime) apliquei o super petram ao Cristo, em quem Pedro confirmou sua fé; como se Pedro - assim o chamou a Pedra" - representasse a igreja construída sobre a Pedra; ... com efeito, não lhe foi dito "tu es Petra", mas "tu es Petrus". É o Cristo que é a Pedra. Simão, por havê-lo confessado como o faz toda a igreja, foi chamado Pedro. O leitor escolha qual dos dois sentidos é mais provável" (Retractationes 1, 21, 1).

Entretanto, Agostinho identifica Pedro com a pedra no