REENCARNAÇÃO:
O "ELO
ESQUECIDO" DO CRISTIANISMO
Jerri Roberto S. de Almeida
Centro Espírita Luz Eterna – CELE
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Preâmbulo
Há muito tempo atrás os cristãos acreditavam na
reencarnação. Essa é a conclusão da escritora americana Elizabeth Clare Prophet, em seu livro
"Reencarnação: o elo perdido do cristianismo". A obra é uma análise
histórica da reencarnação, especialmente, a partir do cristianismo até os
concílios da Igreja e a perseguição aos hereges. A autora, embora utilizando
uma fonte bibliográfica extremamente rica e usando uma terminologia
eminentemente espírita (reencarnação, mundo espiritual...) não faz nenhuma referência
ao Espiritismo. De qualquer forma, iremos refletir, dentro dessa breve
historiografia de idéias sobre a reencarnação, a proposta espírita,
oportunizando, na atualidade, a continuação dos ensinos de Jesus sobre as vidas
sucessivas.
O Novo Testamento
O principal alvo de debates sobre a reencarnação no Novo
Testamento está centralizado nas passagens que se referem a João Batista como
sendo a reencarnação do profeta Elias. O tema é abordado três vezes nos
Evangelhos. Vejamos.
A primeira, quando João está pregando no deserto e os
sacerdotes e levitas chegam para interrogá-lo. Ele então nega ser Elias. Mas
identifica-se como ' a voz do que clama no
deserto...'" (E.S.E.
cap. XV). No entanto, para os judeus essa "voz"
havia sido prevista pelo profeta Malaquias como sendo
a "voz" do precursor do Messias,
identificado como Elias.
Segundo Elizabeth, João, por certo, teve um bom motivo para
responder dessa forma. Negou ser Elias para evitar reações das autoridades
políticas e religiosas, que mais tarde o decapitaram, mas, ao mesmo tempo,
confirmou "veladamente" a sua
reencarnação para tranqüilizar seus seguidores.
Jesus afirmou que João
Batista era a Reencarnação de Elias.
Observemos que, nas outras duas vezes em que a questão sobre
Elias aparece, é o próprio Jesus a declara que João era Elias que
"retornara". A primeira vez é quando João está na prisão e Jesus
publicamente faz essa referência: "Porque todos
os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o
Elias que havia de vir". (E.S.E. cap. XV, 8 a 10)
Após a morte de João Batista, vamos encontrar a cena da
transfiguração de Jesus no monte Tabor. Quando Jesus
se transfigura, então Elias e Moisés aparecem e falam com Jesus. Quando descem
do monte, os discípulos perguntam-lhe: "Porque
dizem os escribas que é necessário que Elias venha
primeiro?". em outras palavras: Se Elias deveria vir primeiro, como
profeta, para preparar o caminho para a sua vinda, então por que ele aparece em
seu corpo espiritual?
"O que está fazendo no 'céu' se
ainda não o vimos na Terra?" Segundo a narrativa de Marcos, Jesus responde: "(...) Digo-vos, porém, que Elias já veio, e
fizeram-lhe tudo o que quiseram, como dele está escrito". Mateus
apresenta a mesma história, acrescentando a seguinte frase: "Então entenderam os discípulos que lhes falara de
João Batista."
De acordo com Elizabeth, "os discípulos provavelmente entenderam que a
declaração de Jesus ' fizeram-lhe tudo o que quiseram' referia-se à
decapitação de João, por ordem do rei Herodes Antipas.
Observando-se apenas esses três relatos, é razoável
concluir-se que o princípio da reencarnação fazia parte dos ensinos de Jesus,
como um mecanismo natural da lei do progresso e da evolução.
Muitos estudiosos, contrários à
idéias da pluralidade das existências, acreditam que a questão da reencarnação
de Elias em João, e sua referência por Jesus, na verdade, teria sido
acrescentada pelos autores dos Evangelho, ou mesmo, pelos tradutores. Se
analisarmos essa questão do ponto de vista meramente histórico, realmente
tornar-se-ia difícil chegar a uma conclusão absoluta e irretoquível.
Primeiro, porque as fontes primárias não foram conservadas, e segundo, porque
os autores dos Evangelhos não eram historiadores, mas pessoas com limitações naturais
de conhecimento e que puderam conservar pela memória, e/ou
pelas tradições orais, os ensinamentos que Jesus lhes havia ministrado. As
palavras do Cristo, disseminadas ao longo do tempo, foram transmitidas de boca
em boca, e, posteriormente, transcritas em diferentes épocas, muito tempo
depois de sua morte.
Não obstante a contribuição da Doutrina Espírita, nessa e em
outras tantas questões, é realmente notável. Allan Kardec,
em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", no cap.
IV, após analisar as informações dos espíritos superiores encarregados de
orientar a codificação do Espiritismo, reafirma:
"A idéia de que João Batista era Elias e de
que os profetas podiam reviver na Terra se nos depara em muitas passagens dos
Evangelhos(...). Se fosse errônea essa crença, Jesus
não houvera deixado de a combater, como combateu tantas outras e a põe por
princípio e como condição necessária, quando diz: "Ninguém pode ver
o reino de Deus se não nascer de novo.' E insiste, acrescentando: Não te
admires de que eu te haja dito ser preciso nasças de novo".
Em "O Livro dos Espíritos", questão 222,
novamente afirmou: "Muitos repelem a idéia da
reencarnação pelo só motivo de ela não lhes convir.(...) De alguns sabemos que
saltam em fúria só com o pensarem que tenham de voltar à
Terra.".
Os Alexandrinos
Retornando a nossa análise história, encontraremos Filon de Alexandria (20 a.C. - 50d.C.), filósofo judeu e
contemporâneo de Jesus, cujas idéias a respeito do objetivo da vida situava-se
na própria integração com Deus através de sucessivas existências; teve um papel
muito importante na combinação dos pensamentos grego e judaico. Filon e sua escola de pensamento davam uma interpretação
alegórica do Antigo Testamento, conferindo-lhe um significado simbólico. A
reencarnação fazia parte de sua visão filosófica sobre a vida: "As (almas) que se deixam influenciar pelo desejo de
uma vida mortal(...) retornam a ela" -
escreveu ele. Filon viveu na cidade de Alexandria,
próximo do delta do Nilo, famosa por sua biblioteca e por ser um grande centro
intelectual da época. Suas idéias influenciaram profundamente alguns patriarcas
da igreja romana: Clemente de Alexandria, Orígenes e Ambrório.
Filon era um erudito que acreditava e ensinava que o
ser humano pode chegar a Deus pela sabedoria e pela transcendência.
Segundo Elizabeth, Orígenes (185 a 254 d.C.), que viveu em
Alexandria, ao estudar os textos de Filon, em
conjunto com os clássicos gregos de Platão e Pitágoras, passou a associar a
idéia da justiça divina com a idéia das vidas sucessivas, fazendo a seguinte
indagação: "se as almas não existiam
previamente, por que encontramos cegos de nascença que nunca pecaram, enquanto
outros nascem sãos?". Logicamente, chegava a
conclusão de que a situação atual da criatura humana é oriunda, também, de suas
ações pretéritas de outras vidas:
"Se o nosso destino atual não fosse
determinado pelas obras de nossas passadas existências, como poderia Deus ser
justo, permitindo que o primogênito servisse o mais moço e fosse odiado, antes
de haver praticado atos que merecessem a servidão e o ódio? Só as vidas
anteriores podem explicar a luta de Esáu e Jacó,
(...) e outros tantos fatos que seriam o opróbrio da justiça divina, se não
fosse justificados pelas ações boas ou más praticadas em anteriores
existências".
A partir do século IV, no entanto, a idéia das vidas
sucessivas, que era naturalmente difundida, mexeria profundamente com as
estruturas de interesse da igreja romana. Um padre chamado Ário,
que viveu de 250 d.C. - 336 d.C., nascido no Líbano, ensinava que Jesus era
filho de Deus; logo, Jesus teve um princípio. A proposta de Jesus seria nos
ensinar como chegar a Ele. Ário defendia que isso
seria possível através de sucessivas existências físicas. As idéias arianistas ensejaram o concílio de Nicéia, uma cidade a
beira de um lago a sudeste de Constantinopla, em junho de 325. O ponto central
dos debates era se Jesus havia sido criado ou não. Se houvera sido criado,
conforme entendiam os arianistas, então o progresso
poderia ser alcançado por nós se seguíssemos simples e tão somente, os seus
ensinamentos. Mas se ele não houvesse sido criado, sendo portanto igual a Deus,
como desejavam os ortodoxos, seria totalmente distinto da criação.
Nesse caso, a criatura humana para atingir a "salvação" dependeria exclusivamente da
subserviência aos princípios da igreja romana. É claro que o concílio rejeitou
a primeira idéia e aprovou a segunda. Com isso as idéias de Ário
tornaram-se heréticas e suas obras proibidas.
Anatematizando a
Reencarnação
Orígenes, que havia concordado com Ário
que o objetivo de Jesus era ensinar os seres humanos como atingir a divindade,
discrepando dos ortodoxos literaristas, seria
sistematicamente condenado em suas idéias entre os séculos V e VI. Justiniano
(527-565 d.C.), imperador romano, por volta da primeira metade do século VI,
tomou o partido dos antiorigenistas, promulgando um
édito onde condenou dez princípios ensinados por Orígenes, inclusive a
pluralidade das existências. No entanto, somente no ano 553, ao convocar o
Quinto Concílio Geral da Igreja, o princípio da reencarnação seria
definitivamente abolido. Esse concílio incluía efetivamente o origenismo na lista dos movimentos heréticos: "se alguém afirmar a fictícia preexistência das
almas, afirmará a monstruosa restauração que dela decorre que seja
anatematizado" (Restauração" significa
o retorno da alma à união com Deus).
A princípio, Agostinho lutou contra a permanência do
conceito de reencarnação na doutrina da Igreja.
Naturalmente a visão reencarnacionista
ensejava, desde os seus primórdios, a concepção do ser humano ser autor de seu
próprio destino e, portanto, dependeria somente do indivíduo e seu
livre-arbítrio, lograr o progresso ou a "salvação",
e de mais ninguém. Evidentemente essa proposta desarticulava os interesses de
supremacia político-religiosos da época. Tanto é
verdade que Agostinho (354-430 d.C.) chegou a escrever uma carta ao Papa
Inocêncio I, advertindo-o sobre a necessidade de condenar-se as
idéias sobre as vidas sucessivas, sob pena de a Igreja perder a sua própria
autoridade. Logo, o princípio do esforço pessoal e não simplesmente a aceitação
de regras impostas colidia diretamente com o "fora
da igreja não há salvação". Com a rejeição da reencarnação, a
igreja teve que encontrar uma outra explicação para a ocorrência de fatos
negativos a pessoas boas. Sem as ações passadas para explicar as diferenças
entre os destinos, restou à igreja aceitar a doutrina do pecado
original elaborada por Agostinho, que se tornou o mais influente teólogo
da igreja. Assim se expressa Elizabeth: "O
pecado original também era um conceito atraente para os governantes seculares.
Como a doutrina firmava que o homem era naturalmente mau, ele seria,
obviamente, incapaz de governar a si próprio. Assim, deveria obedecer
os seus governantes(...) Certamente foi uma ideologia que servia às
necessidades das classes dominantes da sociedade romana".
Agostinho, o retorno à
reencarnação
Agostinho passou nove anos adepto do maniqueísmo, que
combinava idéias cristãs, gnósticas e budistas, antes
de voltar-se para o cristianismo. Certamente, nesse período, manteve contato
com as idéias reencarnacionistas, uma vez que esse
princípio fazia parte dos ensinamentos do profeta Mani.
Todavia, com a elaboração de sua teologia a posteriori,
deixou-se envolver pelos conflitos pessoais e negativistas que somente a obra
do tempo poderia retificar. Foi assim que, com o passar dos séculos, Agostinho
aprimorando seus paradigmas sobre os mecanismos pelos quais a justiça divina se
manifesta, retornaria ao cenário do mundo, na segunda metade do século XIX, na
tarefa de "reascender" na Terra o
elo, não "perdido", mas "esquecido" do cristianismo: a
reencarnação. Ao compor a plêiade de espíritos superiores que orientaram o
trabalho de Allan Kardec na codificação do
Espiritismo, Agostinho tem oportunidade de afirmar: "Como
é bela essa missão! Assim, com que alegria vimos a vós para vos dar a conhecer
os desígnios divinos! Para vos revelar as maravilhas do além-túmulo! Mas vós, que já sois iniciados nessas sublimes verdades, espalhai
a semente em vosso derredor e a recompensa será bela".
A Reencarnação dignifica
a Vida
Consubstanciando a Lei do Progresso, a reencarnação propicia
sentido à existência humana. O seu princípio está na natureza, e, como tal, não
pode ser excluído pelo ser humano. Variando-se as culturas e o tempo, a idéia reencarnacionista sempre acompanhou e acompanhará o
pensamento humano ao longo de sua historiografia. Cabe ressaltar que a Doutrina
Espírita, representando a síntese do conhecimento humano, em suas expressões
científica, filosófica e religiosa, oportuniza uma cosmovisão
da vida e, pelo apelo que faz à razão e ao bom-senso, estimula o ser humano à
ação do bem: "Fora da Caridade não há
salvação", isto é, o Espiritismo não diz que fora dele não há
salvação, mas apresenta-nos a caridade, como normativa
natural de libertação dos ciclos reencarnatórios em
desajustes, convidando-nos à plenitude e, portanto, ao aproveitamento máximo de
nossa atual existência.
Autor: Jerri Roberto S. de Almeida - Professor de História e
dirigente Espírita)
( Revista "A
Reencarnação", nº 421)