TEOLOGIA DE SANGUE
São
muitos e polêmicos os comentários sobre o filme “A
Paixão de Cristo”,
de Mel Gipson, um católico conservador e seguidor do arcebispo Lefrève, que não aceitou
todas as reformas feitas na Igreja pelo Concílio Vaticano 2º, em 1963.
Mas, apesar de conservador, Mel
Gibson chocou o mundo com o realismo
de seu filme. Seriam mesmo necessário tanto sangue e tanta dor, assim, para o meigo Nazareno? Os
cristãos detestam a morte de Jesus na cruz, mas, ao mesmo tempo, parece que gostam
desse fato! A Semana Santa, que respeito muito, mostra isso. Ela
culmina com o lado alegre e festivo da Páscoa. Mas o que mais toca os
fiéis é a sangrenta Sexta-Feira Santa! E não seria justamente o conservadorismo
religioso de Mel Gibson o fator principal que o levou a dar tanta ênfase
à teologia de sangue tão bem focalizada pelo realismo de seu filme? Os
cristãos estão abalados, e os teólogos se acautelam ao falarem no assunto! Paira
no ar uma mistura de crença e dúvida.
E, com razão, os judeus
consideram os romanos também culpados pela morte de Jesus. Não aceitam arcar
sozinhos com o peso da barbárie contra o Nazareno.
A teologia de sangue ou de
sacrifícios coloca na cabeça de nós
cristãos (com exceção de algumas correntes
cristãs, entre elas os
espíritas) uma idéia de que foi muito boa, e até
necessária para a humanidade,
a morte de Jesus na cruz, já que seria ela que salva a humanidade. E pasmem! Ela teria sido
exigida por Deus nosso Pai bondoso, para que Ele pudesse perdoar às
nossas faltas, Ele que, na verdade, não perdoa ninguém, pois só
pode perdoar quem é ofendido, e Deus, um ser infinito, em nenhuma hipótese,
poderia ser ofendido por nós seres finitos!
Confundiram, pois, os
teólogos e confundem ainda hoje, ou dão a entender que confundem, a transgressão das
Leis de Deus com ofensas a Deus. Mas o ensino do Nazareno é diferente da
teologia de sangue: “A cada um será dado segundo suas obras” e “Ninguém
deixará de pagar até o último centavo”. E ela
é repudiada pelo
próprio Jesus: “Basta de sacrifícios, eu quero
justiça e misericórdia”
e “Porventura não convinha que o Cristo padecesse e entrasse em sua glória?” (Lc 24, 6). Esse
último texto não fala em remissão de nossos pecados pelo sangue, mas de como sendo
beneficiado o próprio Jesus. Outra versão diz: “Por acaso eu
não teria que sofrer, para eu me glorificar diante de meu Pai?” Também os nossos
irmãos muçulmanos, cujo Alcorão tem muitas coisas da Bíblia, e, obviamente,
os nossos irmãos judeus, não aceitam a teologia de sangue salvífica.
Parabéns, pois, ao Mel Gibson, que, com o realismo de seu filme, desperta os
cristãos duma espécie de letargia e fá-los refletir melhor sobre a
estranha teologia de sangue, mesmo que, talvez, esse não tenha sido o
seu propósito!
Autor de “A Face Oculta das
Religiões (Ed. Martin Claret). E-mail:
escritorchaves@ig.com.br