Toda Escritura é mesmo inspirada?
“Não é porque uma coisa está escrita que ela é verdadeira”. (RENAN, 2004).
“As coisas estão num ponto tal que os homens não admitem mais ser corrigidos a esse respeito, defendendo obstinadamente aquilo a que se agarram como se fosse a religião”. (ESPINOSA, 2003).
“A crítica não conhece textos infalíveis; seu primeiro princípio é admitir a possibilidade de um erro no texto que estuda”. (RENAN, 2004).
Introdução
Sempre nos aparecem pessoas defendendo a origem divina da Bíblia, usando, para sustentar essa posição, a seguinte passagem:
“Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, preparado para toda boa obra”. (2Tm 3,16-17).
Ora, como foram os homens que a escreveram, retirar, dela mesma, algo para provar sua veracidade não seria agir com bom senso. Seria como aceitar o argumento de um falsário de que aquilo que ele fez é verdadeiro. Como já dissemos, em outras oportunidades, usar desse tipo de argumentação, é ficar rodando em círculo. Aliás, os que fazem isso são, normalmente, aqueles que dificilmente lêem alguma coisa fora do meio religioso em que vivem. Aí vale a frase: “Quem ouve um sino só escuta um som, não podendo, portanto, saber se está afinado” (LETERRE, 2004).
Essa forma de argumentação é, segundo Rodrigo Farias, do tipo “Raciocínio circular ou Petição de Princípio”, que assim explica:
Esse é um erro comuníssimo em debates ou pregações religiosas. Trata-se simplesmente de afirmar a mesma coisa com outras palavras. Alguns exemplos:
1. "Por que a Bíblia é a Palavra de Deus? Ora, porque ela foi inspirada pelo próprio Criador."
ou, ainda, no que eu chamaria de "variação Tostines":
2. "A Bíblia é perfeita porque é a Palavra de Deus. E como sabemos que ela é a Palavra de Deus? Pela sua perfeição."
Esse exemplo é fácil de encontrar, especialmente nos meios evangélicos mais conservadores. É importante ressaltar que ele foi posto aqui apenas para ilustrar um tipo de raciocínio falacioso muito freqüente, não para desmerecer a Bíblia ou a crença de quem quer que seja.
Um exemplo laico agora:
3. "Eu acho que alpinismo é um esporte perigoso porque é inseguro e arriscado."
Dizer que algo é "inseguro e arriscado" não é o mesmo que dizer que ele é "perigoso"? Ora, o que essa "explicação" acrescentou que justificasse a idéia de que alpinismo é perigoso? Nada. Simplesmente, repetiu-se a primeira afirmação com outras palavras.
4. "Por que eu sou a pessoa mais indicada para o trabalho? Porque eu descobri que, dentre todos os outros candidatos, e considerando minhas qualificações, eu sou a melhor pessoa para o trabalho."
Valem as mesmas observações. Porém prestemos atenção num detalhe: às vezes, quando a "justificativa" é muito longa, podemos nos perder e não notarmos que a pessoa acabou não dando evidências para aquilo que disse. Um exemplo trágico poderia ser a frase de Goebbels, propagandista do regime nazista alemão: "Uma mentira, repetida muitas vezes, acaba se tornando uma verdade." Afirmações muito repetidas podem ganhar um status tal que as pessoas podem nunca ter parado para pensar realmente no porquê de acreditarem nelas. Crenças inculcadas desde a infância ou em períodos de fragilidade emocional são casos típicos. Por isso, tenhamos a máxima prudência com aquilo que nos chega aos ouvidos e com a maneira como abordaremos certas crenças arraigadas num debate; antes de questionar os outros, convém darmos uma olhada na nossa própria fé em certas premissas, que talvez nunca tenhamos analisado criticamente. (FARIA, 2007).
O filósofo Baruch de Espinosa (1632-1677), em seu livro Tratado Teológico-Político, fez uma interessante observação; vejamo-la:
Toda a gente diz que a Sagrada Escritura é a palavra de Deus que ensina aos homens a verdadeira beatitude ou caminho da salvação: na prática, porém, o que se verifica é completamente diferente. Não há, com efeito, nada com que o vulgo pareça estar menos preocupado do que em viver segundo os ensinamentos da Sagrada Escritura. É ver como andam quase todos fazendo passar por palavra de Deus as suas próprias invenções e não procuram outra coisa que não seja, a pretexto da religião, coagir os outros para que pensem como eles. Boa parte, inclusive, dos teólogos está preocupada é em saber como extorquir dos Livros Sagrados as suas próprias fantasias e arbitrariedades, corroborando-as com a autoridade divina. (ESPINOSA, 2003, p. 114).
Espinosa, falando a respeito das interpretações bíblicas, apresenta um argumento desconcertante, qual seja:
Os comentadores, porém, na tentativa de conciliar essas contradições manifestas, inventa cada um aquilo que pode e o engenho lhe deixa, e, enquanto estão assim adorando as letras e as palavras da Escritura, mais não fazem, como já o dissemos, que expor os autores da Bíblia ao ridículo, a ponto de parecer até que eles não sabiam falar nem expor com nexo aquilo que tinham para dizer. (ESPINOSA, 2003, p. 181).
E, ainda, sobre os que crêem cegamente em tudo que consta da Bíblia, não deixou, também, de fazer suas considerações, com o seguinte teor:
Julgam que é piedoso não se fiar na razão e no próprio juízo e que é ímpio duvidar daqueles que nos transmitiram os livros sagrados: mas isso não é piedade, é pura demência! Afinal, pergunto eu, o que é que os preocupa? O que é que receiam? Porventura a religião e a fé só podem ser mantidas se os homens forem totalmente ignorantes e despedirem definitivamente a razão? Se é isso o que pensam, então é porque a Escritura lhes inspira mais medo que confiança. (ESPINOSA, 2003, pp. 225-226).
Sempre estamos recorrendo a esse renomado filósofo, porquanto, vemos tudo aquilo que fala como coisas bem atuais, que, se não citássemos a sua origem, certamente, elas seriam tomadas como sendo de um autor hodierno.
Não vamos, neste presente estudo, relacionar textos bíblicos para provar que eles não são inspirados, porquanto, já o fizemos isso em várias outras ocasiões. A nossa proposta aqui será apenas a análise dessa frase com a qual abrimos esse estudo. Entretanto, para uma visão geral, traremos a seguinte informação resultante do grupo The Jesus Seminar (Seminário de Jesus), que contou, entre exegetas e teólogos, com cerca de duzentos acadêmicos, que se debruçaram, por sete anos, no exame dos Evangelhos.
Em última análise, esses acadêmicos chegaram à conclusão de que Jesus jamais disse 82% do que os evangelhos atribuem a ele. A maior parte dos 18% restantes foram considerados duvidosos, sobrando apenas 2% de dizeres incontestavelmente autênticos. (STROBEL, 2001, citando Gregory A. BOYDE, Jesus under siege, Wheaton, Victor, 1995, p. 88).
Vê-se, portanto, que a coisa é muito mais séria do que, inicialmente, poder-se-á supor. Uma outra opinião, que reputamos de grande valor, é a do ex-evangélico Bart D. Ehrman, porquanto ele é considerado a maior autoridade em Bíblia do mundo. Ehrman é Ph.D. em Teologia pela Princeton University e dirige o Departamento de Estudos Religiosos da University of North Carolina, Chapel Hill. É especialista em Novo Testamento, igreja primitiva, ortodoxia e heresia, manuscritos antigos e na vida de Jesus.
Gravou uma série de conferências, muito populares nos Estados Unidos, para a Teaching Company, além de ser prefaciador do livro Evangelho de Judas. Leiamos o que ele afirma em seu livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse?:
[...] Eu sempre voltava a meu questionamento básico: de que nos vale dizer que a Bíblia é a palavra infalível de Deus se, de fato, não temos as palavras que Deus inspirou de modo infalível, mas apenas as palavras copiadas pelos copistas – algumas vezes corretamente, mas outras (muitas outras!) incorretamente? De que vale dizer que os autógrafos (isto é, os originais) foram inspirados? Nós não temos os originais! O que temos são cópias eivadas de erros, e a vasta maioria delas são centúrias retiradas dos originais e diferentes deles, evidentemente, em milhares de modos. (EHRMAN, 2006, p. 17). (grifo nosso).
[...] Uma coisa é dizer que os originais foram inspirados, mas a verdade é que não temos os originais. Então, dizer que eles foram inspirados não me serve de grande coisa, a não ser que eu possa reconstruir os originais. E além disso, a vasta maioria dos cristãos, em toda a história da Igreja, não teve acesso aos originais, fazendo de sua inspiração um objeto de controvérsia. Nós não apenas não temos os originais, como não temos as primeiras cópias dos originais. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou as cópias das cópias das cópias dos originais. O que temos são cópias feitas mais tarde, muito mais tarde. Na maioria das vezes, trata-se de cópias feitas séculos depois. E todas elas diferem umas das outras em milhares de passagens. (EHRMAN, 2006, p. 20). (grifo nosso).
Em suma, meus estudos do Novo Testamento grego e minhas pesquisas dos manuscritos que o contêm me levaram a repensar radicalmente o meu entendimento do que é a Bíblia. Antes disso – a começar de minha experiência de novo nascimento no ensino fundamental, passando por meu período fundamentalista no Moody, até chegar aos meus tempos de evangélico em Wheaton -, minha fé baseava-se completamente em uma certa visão da Bíblia como palavra infalível de Deus, integralmente inspirada. Agora, deixei de ver a Bíblia desse modo. A Bíblia passou a ser para mim um livro completamente humano. Do mesmo modo como os copistas humanos copiaram, e alteraram, os textos das Escrituras, outros autores humanos escreveram os originais dos textos das Escrituras. Ela é um livro humano do começo ao fim. E foi escrita por diferentes autores humanos, em diferentes épocas e em diversos lugares para atender a diferentes necessidades. Muitos desses autores sem dúvida se sentiam inspirados por Deus para dizer o que disseram, mas tinham suas próprias perspectivas, suas próprias crenças, seus próprios pontos de vista, suas próprias necessidades, seus próprios desejos, suas próprias compreensões, suas próprias teologias. Tais perspectivas, crenças, pontos de vista, necessidades, desejos, compreensões e teologias deram forma a tudo o que eles disseram. Por todas essas razões é que esses escritores diferem um do outro. Entre outras coisas, isto significava que Marcos não disse a mesma coisa que Lucas porque não quis dar a entender o mesmo que Lucas. João é diferente de Mateus – eles não são os mesmos. Paulo é diferente dos de Atos dos Apóstolos. E Tiago é diferente de Paulo. Cada autor é um autor humano e precisa ser lido por aquilo que ele (supondo que se trate sempre de autores homens) tem a dizer. A Bíblia, feitas todas as contas, é um livro inteiramente humano.
Essa era uma perspectiva inédita para mim, obviamente em tudo distinta da visão que eu tinha quando era um cristão evangélico – e que não é a visão da maioria dos evangélicos de hoje. (ERMAN, 2006, pp. 21-22). (grifo nosso).
Mas será que Ehrman não estaria sendo radical? É o que veremos no decurso deste estudo.
A origem do texto
Essa passagem foi retirada da segunda carta a Timóteo, cuja autoria alguns exegetas ainda atribuem a Paulo. A nossa pesquisa, entretanto, nos remete a uma outra hipótese. O que julgamos importante dela é que constatamos que não foi só um crítico quem colocou, sob sérias dúvidas, essa suposta autoria de Paulo. É o que passaremos a ver a partir de agora.
O primeiro da lista é Ernest Renan (1823-1892), filósofo e historiador, que, na sua obra sobre a vida apostólica de Paulo, disse:
[...] Imperfeitas e pesadas são as Epístolas apócrifas do Novo Testamento, por exemplo as escritas a Tito e a Timóteo; [...]
[...] Cabe destacar ainda que Márcion, que em geral também se inspirou na crítica dos textos de Paulo e que repudiava com convicção as Epístolas a Tito e a Timóteo, admitira sem contestar, na sua compilação, as duas Epístolas citadas. [Colossenses e Efésios]. (RENAN, Paulo 13º Apóstolo, 2004, p. 17) (grifo nosso).
Sobram as duas Epístolas a Timóteo e a Epístola a Tito. Grandes obstáculos oferece a autenticidade destas três epístolas. Eu as considero como peças apócrifas. Para o provar, poderia demonstrar que a linguagem destes três textos não é a de Paulo; poderia destacar uma quantidade de períodos e de expressões ou exclusivamente próprias ou particularmente utilizadas pelo autor que, sendo características, deveriam encontrar-se em proporção análoga nas outras epístolas de Paulo, o que não acontece. Além disso, faltam-lhes outras expressões, que são como a assinatura de Paulo. Poderia principalmente mostrar que estas epístolas contêm um elevado número de detalhes que não se apropriam ao autor suposto, nem aos supostos destinatários. 36. A habitual característica das cartas elaborada com uma intenção doutrinária é a de que o falsário vê o público sobre a cabeça do destinatário e escreve a este coisas muito conhecidas, muito familiares, mas que o falsário pretende fazer conhecidas do público. As três epístolas que discutimos têm, num grau elevado, esta característica. 37 Paulo, cujas cartas autênticas são tão especiais, tão precisas, Paulo que, acreditando num fim do mundo próximo, nunca supõe que virá a ser lido através dos séculos, teria sido aqui um pregador geral, despreocupado com o seu correspondente para lhe fazer sermões que não tinham nenhuma relação com ele e dirigir-lhe um pequeno código de disciplina eclesiástica, considerando o futuro. 38 Mas estes argumentos, que por si só seriam decisivos, posso perfeitamente dispensá-los. Para provar a minha tese, utilizarei apenas argumentos que o sejam por assim dizer materiais; procurarei demonstrar que não existe maneira desta epístolas encaixarem-se nem no quadro conhecido nem no quadro provável da vida de Paulo. Inicialmente muito importante é a semelhança perfeita destas três epístolas entre si, semelhança que nos impede a admiti-las como autênticas ou a repeli-las como apócrifas. As particularidades que as distinguem profundamente das outras epístolas de Paulo são as mesmas. As expressões pouco usuais ao estilo de Paulo, encontram-se por igual em todas as três. As imperfeições, que tornam a sua linguagem indigna de Paulo, são idênticas. É esquisito que cada vez que Paulo escreve aos seus discípulos, se esqueça da sua maneira corriqueira, caindo nas mesmas divagações, nas mesmas bobagens. As próprias idéias dão lugar a uma observação análoga.
As três epístolas estão repletas de conselhos vagos, exortações morais de que Timóteo e Tito, familiarizados por um comércio cotidiano com as idéias do apóstolo, não tinham nenhuma necessidade. Uma espécie de gnosticismo são os erros que nelas se combatem. Nas três epístolas a preocupação do autor não muda; reconhece-se a idéia obsidiante e incansável de uma ortodoxia já formada e de uma hierarquia já desenvolvida. Muitas vezes os três escritos repetem-se entre si 39 e copiam as outras epístolas de Paulo. 40 Sem dúvida que, se estas três epístolas foram ditadas por Paulo, todas são de um determinado período da sua vida, 41 distante em muitos anos do tempo em que redigiu as outras epístolas. Qualquer hipótese que coloque entre estas três epístolas um intervalo de três ou quatro anos, por exemplo, ou que coloque entre elas algumas das outras epístolas, deve ser repudiada inteiramente. Existe apenas uma única hipótese para explicar a semelhança das três epístolas entre si e a sua dessemelhança com as outras, ou seja, que é a de que foram escritas num espaço de tempo muito curto e muito tempo após as outras, numa época em que todas as circunstâncias que rodeavam o apóstolo tinham mudado, tendo ele envelhecido e alterado as suas idéias e o seu estilo. A possibilidade de provar essa hipótese, não significa que se resolva a questão. O estilo de um homem pode mudar; mas de um estilo o mais impressionante e inimitável que nunca existiu, não se passa para um estilo prolixo e sem vigor. 42 Além disso, tal hipótese é formalmente destruída pelo que nós conhecemos, com segurança, da vida de Paulo. A seguir, isso será demonstrado.
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36 Por exemplo, as direções solenes (confronte-se com Filém., 1; e contudo Paulo era menos amigo de Filémon do que de Tito e Timóteo); as longas dissertações que Paulo faz sobre o seu apostolado (I Tim., I, 11 e seg.; II, 7), dissertações que, sendo dirigidas a um discípulo, são completamente inúteis; a enumeração das suas virtudes (II Tim., 10,11); a sua convicção na salvação final (II Tim. IV, 8; cf. I Cor., IV, 3-4; IX, 27) I Tim., I, 13, é bem do estilo de um discípulo de Paulo. I Tim., II, 2, não pode explicar-se nos últimos anos de Nero; devia ser escrito depois da proclamação de Vespasiano. Ibid. V, 18, encontra-se aí citada com graphé uma passagem de Lucas, X,7: ora o Evangelho de Lucas não existia, pelo menos como graphé, antes da morte de Paulo. Por fim a organização das igrejas, a hierarquia, o poder presbiterial e episcopal são, nessas epístolas, muito mais desenvolvidos do que seria natural supor nos últimos anos da vida de Paulo (ver. Tit. I,5 e seg. etc.; Timóteo recebeu as insígnias espirituais pela imposição das mãos do colégio dos padres de Listres: I Tim., IV,14). A doutrina sobre o casamento I Tim., II, 15; IV,3: V,14 (cf. III, 4,12; V,10) é também de uma época mais atual e está em contradição com I Cor., VII, 8 e seg., 25 e seg. O destinatário das Epístolas a Timóteo supõe-se em Éfeso; por que não se encontra nestas epístolas nenhuma comissão, nenhuma saudação específica para os efésios?
37 Observe-se, por exemplo, II Tim., III,10-11, ou melhor, I Tim., I,3 e seg., 20; Tit., I,5 e seg., e a menção de Pôncio Pilatos, I Tim., VI, 13 etc.
38 Destaca-se a insignificância da passagem I Tim., III, 114-115, que procura mostrar razão destas inúteis ampliações.
39 Compare-se I Tim., I,4; IV,7; II Tim., II,23; Tit., III,9; I Tim. III, 2; Tit., I,7; I Tim., IV,1 e seg., II Tim., III, 1 e seg.; I Tim., II,7; II Tim., I,11. Observe-se a analogia na maneira de introduzir no assunto. I Tim., 1,3, e Tit. I, 5.
40 II Tim., I,3 (Rom.,l,9), 7 (Rom., VIII,15); II,20 (Rom., IX, 21); IV, 6 (Fil., I,30; II,17; III, 12 e seg.).
41 Nas duas epístolas que lhe são dirigidas observe-se que Timóteo figura como um homem ainda jovem: I Tim., IV,12; II Tim., II,22.
42 Apesar de Lamennais ter mudado muito, o seu estilo manteve sempre a mais perfeita unidade.
(RENAN, Paulo - o 13º apóstolo, 2004, pp. 24-26). (grifo nosso).
Na seqüência, Renan faz considerações sobre estas epístolas de Paulo, demonstrando que, pelas características e pelo conteúdo, não podem ser mesmo desse autor bíblico.
Vejamos também o que o escritor e professor de História Antiga, Robin Lane Fox, disse:
[...] as duas epístolas a Timóteo são postas sob suspeita pelo estilo, e são por fim desautorizadas por seu conteúdo e por sua localização (um bispo único; a falta de conhecimento de Timóteo e sua descrição descabida dos acontecimentos que o cercavam). Seus autores foram muito ousados em sua falsificação. “Pedro, apóstolo de Cristo”, “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus”, é como se dizem chamar. Talvez estivessem escrevendo o que achavam que Pedro e Paulo “devessem” ter escrito, mas ainda assim mentiram para seus leitores. Se a Primeira Epístola a Timóteo é obra do século II, bem podia estar levando em conta o terceiro Evangelho quando cita o texto sobre “o salário do trabalhador”. Também atribuída a Paulo um texto enfático contra a ordenação das mulheres: “Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio” (I Timóteo 2:12).
É a Segunda Epístola a Timóteo que contém o texto que os fundamentalistas tanto idealizam: “Toda escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir” (II Timóteo 3:16). A tradução é discutível, bem como a autoridade do texto. Isto dá uma boa idéia das complexidades envolvidas na veracidade da Bíblia: o texto que foi indevidamente empregado em apoio de uma visão literal da inspiração divina de toda a Bíblia é, ele próprio, obra de um autor que mentiu sobre sua identidade. (FOX, R. L. Bíblia: Verdade e ficção, São Paulo: Cia das Letras, 1996, pp. 125-125).(grifo nosso).
Agora iremos ver, para ampliar a abrangência de nossa pesquisa, o que dizem alguns tradutores bíblicos, pessoas com inegáveis conhecimentos sobre a Bíblia, cujos pensamentos destacamos:
As cartas a Timóteo e a Tito são dirigidas a dois dos mais fiéis discípulos de Paulo (At 16,14; 2Cor 2,13). Elas dão diretivas para a organização e conduta das comunidades confiadas a eles. É por isso que se tornou costumeiro, desde o século XVIII, chamá-las “pastorais”. Essas cartas divergem de maneira significava de outras cartas paulinas. Há considerável diferença de vocabulário. Muitas das palavras comuns em outras epístolas desapareceram, e há também uma proporção muito maior de palavras não usadas em outro lugar por Paulo. O estilo não é mais apaixonado e entusiasta, mas mitigado e burocrático. O modo de resolver problemas mudou. Paulo simplesmente condena falso ensinamento em lugar de argumentar persuasivamente contra ele. Finalmente, é difícil situar essas cartas na vida de Paulo, assim como é conhecida dos Atos dos apóstolos. É compreensível, portanto, que a autenticidade das pastorais seja disputada.
Muitos explicam as diferenças postulando um Paulo mais velho, que deve ter dado muito mais espaço a um secretário (possivelmente Lucas, 2Tm 4,11) e levando em conta que nada conhecemos da vida de Paulo subseqüente à sua libertação da prisão em Roma. Igual número de estudiosos rejeitam tais argumentos como subjetivos demais, e sustenta que as pastorais foram compostas por um discípulo de Paulo no fim do século I para tratar de problemas de uma igreja muito diferente. Embora não impossível em si mesma, esta hipótese não é sustentada por qualquer evidência de que cartas pseudo-epigráficas fossem comuns e aceitáveis. 2Ts 2,2 e Ap 22,18 mostram que os primeiros cristãos viam a necessidade de distinguir entre escritos autênticos e forjados. Uma posição intermediária entre esses dois extremos defende-a por uma minoria que acredita que um leal seguidor de Paulo herdou três cartas que Timóteo e Tito conservaram até sua morte. Ele então expandi essas cartas, acrescentando o que pensava que seria dito por Paulo diante das circunstâncias mudadas da igreja. As pastorais então não são do Apóstolo, mas contêm fragmentos paulinos autênticos (p.e., 2Tm 1,15-18; 4,9-15; Tt 3,12-14). A falta de concordância sobre a extensão e número dos fragmentos é uma séria fraqueza dessa hipótese, que também falha em prover qualquer evidência contemporânea desta pratica editorial postulada.
A natureza insatisfatória de todas as hipóteses correntes sugere que poderia ter sido um engano tratar as pastorais como um bloco unificado. Nessa aproximação, observações e afirmações são confusas. O que é visto como verdadeiro para uma carta é afirmado como válido para as outras duas. O exame minucioso, porém, revela que 1Tm e Tt são mais próximas um da outra do que ambas a 2Tm. Se a última é considerada separadamente, não há objeções convincentes de elas terem sido escritas por Paulo. Dirigidas a indivíduo, sua divergência em relação a epístolas dirigidas a igrejas tem seu paralelo nas diferenças entre as cartas de Inácio à igreja de Esmirna e ao seu bispo, Policarpo. Uma vez que se reconheça que 2Tm 4,6 não é referência à morte próxima, 2Tm se coloca naturalmente dentro do último período da prisão de Paulo em Roma (At 28,16s), quando olhava para a liberdade.
Se 2Tm é aceita como autêntica, o isolamento de 1Tm e Tt no corpus paulino torna-se cada vez mais marcante. Em particular elas desenvolvem uma visão do ministério que contrasta vividamente com o ethos missionário dinâmico de Paulo (1Ts 1,6-8; Fl 2,13-16. Predomina um conceito bur guês pela respeitabilidade e aceitação, 1Tm 2,1-2; 6,2; Tt 3,1-2), e as qualidades dos ministros são as requeridas de todos os burocratas (1Tm 3,1-13; Tt 1,5-9). Deste modo houve uma evolução definida nas igrejas paulinas. Uma igreja entusiástica radiante com o Espírito tornou-se um cômodo lar. Todavia, embora a liderança carismática tenha dado caminho á direção institucional, não há evidência do tipo do episcopado monárquico atestado por Inácio de Antioquia. A autoridade na igreja é colegial, e os “bispos” (1Tm 3,22-5), têm as mesmas funções que os “anciãos” (1Tm 5,17). Cada “ancião” precisa ter as qualidades de “bispo” (Tt 1,6-9). Assim, 1Tm e Tt não deveriam ser datadas muito tardiamente no primeiro século. (Bíblia de Jerusalém, Introdução às Epístolas de Paulo, pp. 1963-1964).
“Epístolas pastorais” é o nome dado aos escritos dirigidos a Timóteo e a Tito, companheiros de missão de Paulo. A expressão caracteriza bem a natureza destas cartas, desde o II século atribuídas a Paulo. Elas contêm instruções e exortações sobre o reto desempenho do ministério pastoral nas comunidades, sobre a organização da Igreja e a luta contra as heresias. As três epístolas foram escritas na mesma época e pelo mesmo autor.
[...]
É difícil enquadrar estes dados na vida de Paulo como nós é conhecida dos Atos e de suas epístolas autênticas. Agora Paulo está algemado (2,9), enquanto na primeira prisão em Roma vivia em prisão domiciliar (At 28,16). Clemente Romano e o Cânon de Muratori admitem que Paulo, depois da primeira prisão romana, pregou na Espanha por certo tempo, foi novamente preso e por fim martirizado em Roma. Ora, as epístolas pastorais supõem viagens de Paulo no Oriente após a prisão romana (61-63). Este quadro histórico depõe contra a autenticidade das Pastorais. Além do mais, a teologia, a linguagem e o estilo, a organização da Igreja e a luta contra as heresias dificilmente se coadunam com o que sabemos de Paulo a seu tempo. A hipótese de um secretário ter redigido as epístolas enquanto Paulo estava preso a segunda vez em Roma, ou de que nestas epístolas temos fragmentos autênticos, são insuficientes para afastar as sérias objeções da crítica contra a autenticidade das Pastorais.
O mais provável é que o seu autor não seja um discípulo imediato de Paulo, mas um admirador da segunda ou da terceira geração cristã. Segundo o costume da literatura helenística e judaica da época, produziu estas cartas pseudônimas, atribuindo-as a Paulo a quem considerava o maior dos apóstolos. O motivo que o levou a escrever foi o desejo de ser fiel ao evangelho pregado pelo grande apóstolo, diante da ameaça das heresias e da necessidade de organizar bem as comunidades a fim de esconjurar os perigos para a fé apostólica. Neste sentido a 1Tm e Tt podem ser vistas como a primeira constituição eclesiástica, e a 2Tm como o discurso de despedida, ou o testamento espiritual de Paulo às vésperas de seu martírio. A data de composição pode ser colocada pelo ano 100. (Bíblia Sagrada Editora Vozes, As Epístolas Pastorais, p. 1407). (grifo nosso).
Introdução
[...]
Supôs-se que as cartas fossem de Paulo, e acreditou-se nisso durante séculos. Porém surgiu a crítica dos estudiosos e, com ela, a dúvida, como indicam as passagens em que Paulo fala de si na primeira pessoa (p. ex. 1Tm 1,11.12-16; 2Tm 4,6-8.16-18 etc.)
Autenticidade
As razões contra a autenticidade são fortes; referem-se à linguagem, à mentalidade, à situação proposta, e afetam as três cartas como corpo.
a) O vocabulário. Segundo um cálculo cuidadoso, de 848 palavras que as três cartas usam, 306 não aparecem no resto do chamado corpo paulino, 175 não constam no resto do NT; faltam palavras típicas do vocabulário paulino, outras freqüentes escasseiam, algumas mudam de significado; díkaios significa honrado, pístis é um corpo de doutrina. Estilo: apararam-se a vivacidade, a paixão e o movimento; não argumenta para provar seu ensinamento; predomina uma tonalidade pacata e suave. A língua grega é mais depurada, mais próxima do grego helenístico.
b) Mentalidade. A preocupação central das três cartas é garantir as igrejas como instituição, conservar o ensinamento tradicional e defender-se das ameaças de desvio doutrinal. Para isso é preciso nomear chefes competentes e confiáveis, manter a ordem e a concórdia, regular o culto. O autor repete o adjetivo “são/sã” para referir-se à ortodoxia, fala da “verdade”, repete que “alguns se afastaram de...” Ao ímpeto de evangelizar sucede aqui o esforço por manter.
c) O quadro em que as cartas se inserem não combina com o que sabemos por outras informações de Paulo. Se o apóstolo vai morrer em breve (2Tm 4,5-8), como pode chamar Timóteo de jovem (1Tm 4,11)? O ancião deverá ter saído da sua prisão romana para retomar sua atividade no Mediterrâneo oriental.
Essas razões somadas são mais fortes, mas não determinantes. Os defensores da autenticidade as rebatem, principalmente com evasivas; que com os anos o vigor e a combatividade de Paulo amainaram; que um tema diferente exigia uma linguagem nova; que se valia de um secretário redator; que seu pensamento tinha evoluído. E que em nossa informação sobre a atividade de Paulo há importantes lacunas, e aí as cartas poderiam encaixar-se. As réplicas são fracas: um ancião muda radicalmente de vocabulário? Esquece seus temas preferidos?
Teorias sobre o autor
Aceitando como mais provável a não autenticidade das três cartas, pensa-se que é um discípulo imediato ou mediato, da geração seguinte. Recorre à pseudonímia, procedimento corrente naquela época. Dá às suas instruções a forma de carta, escolhendo como destinatários dois insignes personagens do círculo paulino. Aceitamos que pôde utilizar material original do apóstolo. Provavelmente sentia-se herdeiro legítimo de Paulo; talvez os rivais citassem Paulo, deformando seu ensinamento.
Não faltou a teoria de um compilador que teria composto e dado forma às três cartas com fragmentos autênticos do apóstolo.
Nada do que foi dito diminui o valor canônico das Pastorais. São parte integrante do NT, reconhecida sempre por todas as confissões religiosas. [...]
A data de composição seria o final do séc. I ou começo do séc. II. (Bíblia do Peregrino, Introdução - Primeira e segunda carta a Timóteo e carta a Tito, pp. 2847-2848). (grifo nosso)
Assim, por mais três fontes diferentes, chegamos à mesma conclusão de que a Epístola, em que se encontra o passo citado, visando tornar evidente a inspiração bíblica como sendo divina, não é de Paulo. À guisa de informação, detalhamos: Bíblia do Peregrino versão do Pe. Luís Alonso Schökel, contou com uma equipe de quatorze colaboradores; Bíblia Sagrada Ed. Vozes, coordenação geral Ludovico Garmus, junto com mais onze pessoas, entre tradutores e revisores, e a Bíblia de Jerusalém, em cujo corpo, composto de católicos e protestantes, havia três coordenadores e um número de dezoito tradutores/revisores. Como se vê é uma quantidade respeitável de pessoas envolvidas, cuja competência não poder-se-á ser colocada em dúvida.
Análise do texto
Em nosso estudo, deparamos com essa frase escrita de duas maneiras diferentes, as quais transcrevemos apenas o início, porquanto, é ele o que nos interessa neste momento:
“Toda Escritura é inspirada por Deus é útil para instruir,...”
“Toda Escritura divinamente inspirada, é útil para ensinar,...”
A primeira frase é encontrada nas Bíblias pelas versões Mundo Cristão, Traduções Novo Mundo, Santuário, Vozes, Ave Maria e Paulus: de Jerusalém, do Peregrino e Pastoral e a segunda pelas versões Barsa, Loyola, Paulinas, SBB.
A equipe de tradutores da Bíblia de Jerusalém, que sabemos ter sido composta de exegetas católicos e protestantes, informa-nos (p. 2077) que, na Vulgata, ela se encontra dessa forma:
“Toda Escritura, inspirada por Deus, é útil.”
É interessante observar a mudança na redação dessa frase, porquanto dizer que “Toda Escritura é inspirada por Deus” é uma coisa bem diferente daquilo que se quer afirmar dizendo “Toda Escritura divinamente inspirada”. A idéia que se passa por essa última frase é que existem outras Escrituras, porém não inspiradas. Ora, isto vai ao encontro da afirmação de Paulo (e da conclusão apresentada pelos vários biblicistas citados), viabilizando-a como de maior chance de ser a mais próxima do original. Isso agora compromete os próprios tradutores bíblicos, deixando-nos a crer na possibilidade de que mais lhes preocupavam eram suas idéias do que a dos autores aos quais traduziam.
A afirmação pela frase de que “Toda Escritura é inspirada por Deus”, aproxima-se daquilo que Faria, denominou de “raciocínio do '8 ou 80'”, no caso, por conta do significado da palavra “toda” nesta frase.
Conclusão
O que se percebe dos que se apressam em apontar textos da Bíblia, para justificar sua origem divina, é que não se dão ao trabalho de pesquisa, não analisam nada. E questionar? Nem pensar! Já que, para eles, tudo que lá se encontra é absolutamente verdadeiro. É claro que, diante dessa premissa, certamente não verão nenhum erro ou contradição, por mais óbvios que sejam.
Apenas cabe-nos apresentar alguma coisa visando a corroborar tudo quanto foi colocado anteriormente, já que, pela consistência e coerência, inclusive, quanto ao número significativo de exegetas envolvidos nas traduções, revisões e estudos bíblicos aqui citados, nos alinhamos com as opiniões mostradas neste estudo
Começaremos por um questionamento bem simples: será que o termo “Escritura”, dito por Paulo, se refere à Bíblia como um todo? A resposta iremos encontrar na explicação ao passo 2Tm 3,15-16: “Neste tempo, o NT estava ainda em período de gestação. Por isso, o termo 'Escrituras' refere-se, em concreto aos livros do AT”. (Bíblia Sagrada Edição Santuário, p. 1768). Isso é um golpe mortal naquilo que se apresenta como forte indício da inspiração divina ser “capa a capa”. Mas estaria essa informação coerente com os textos bíblicos? Sim, pois Paulo foi, acima de tudo, um ferrenho defensor do Evangelho e que, ao mesmo tempo, combatia a Lei.
Pode-se, por exemplo, vê-lo, num corpo a corpo, contra a circuncisão, ritual judaico, contido no Antigo Testamento (Lv 12,3) que determinava que todos os meninos deveriam ser circuncidados, aos oito dias de nascido. Isso era aplicado, talvez por analogia, aos convertidos não procedentes do judaísmo. Assim é que, nos primórdios do cristianismo, queriam aplicar essa lei aos que se convertiam a essa nova crença que ainda não haviam sido circuncidados. A atitude de Paulo, quanto a isso, foi radical: “De resto, cada um continue vivendo na condição em que o Senhor o colocou, tal como vivia quando foi chamado. É o que ordeno em todas as igrejas. Alguém foi chamado à fé quando já era circuncidado? Não procure disfarçar a sua circuncisão. Alguém não era circuncidado quando foi chamado à fé? Não se faça circuncidar. Não tem nenhuma importância estar ou não estar circuncidado. O que importa é observar os mandamentos de Deus” (1Cor 7,17-19).
Seu combate à legislação mosaica ainda poderá ser visto em:
Rm 7,4-6: “Meus irmãos, o mesmo acontece com vocês: pelo corpo de Cristo, vocês morreram para a Lei, a fim de pertencerem a outro, que ressuscitou dos mortos, e assim produzirem frutos para Deus. De fato, quando vivíamos submetidos a instintos egoístas, as paixões pecaminosas serviam-se da Lei para agir em nossos membros, a fim de que produzíssemos frutos para a morte. Mas agora, morrendo para aquilo que nos aprisionava, fomos libertos da Lei, a fim de servirmos sob o regime novo do Espírito, e não mais sob o velho regime da letra”.
Gl 2,21: “Portanto, não torno inútil a graça de Deus, porque, se a justiça vem através da Lei, então Cristo morreu em vão”.
E o próprio Jesus, também estabelece essa divisão, entre a nova lei e a lei mosaica, quando disse que “a Lei e Profetas vigoraram até João” (Lc 16,16), ou seja, esse foi o período – de Moisés a João Batista -, no qual ela teve valor como regra religiosa, depois, só aquilo que estiver relacionado à missão de Jesus que foi a de implantar o Evangelho. Esse sim, foi a grande preocupação de Paulo, conforme, para exemplo, podemos ver nessas passagens:
Rm 1,1: “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo e escolhido para anunciar o Evangelho de Deus,”
Rm 1,16: “Não me envergonho do Evangelho, pois ele é força de Deus para a salvação de todo aquele que acredita, do judeu em primeiro lugar, mas também do grego”.
Rm 10,16: “Mas, nem todos obedeceram ao Evangelho. Isaías diz: 'Senhor, quem acreditou em nossa pregação?'"
Rm 15,16: “Sou ministro de Jesus Cristo entre os pagãos, e a minha função sagrada é anunciar o Evangelho de Deus, a fim de que os pagãos se tornem oferta aceita e santificada pelo Espírito Santo”.
1Cor 1,17: “De fato, Cristo não me enviou para batizar, mas para anunciar o Evangelho, sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo”.
1Cor 9,16: “Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim; pelo contrário, é uma necessidade que me foi imposta. Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!”.
1Cor 15,2: “É pelo Evangelho que vocês serão salvos, contanto que o guardem do modo como eu lhes anunciei; do contrário, vocês terão acreditado em vão”.
Ef 1,13: “Em Cristo, também vocês ouviram a Palavra da verdade, o Evangelho que os salva...”
2Ts 1,6-8: “Deus fará o que é justo: vai mandar tribulações para aqueles que os oprimem, e a vocês, que são agora oprimidos, como também a nós, ele dará descanso, quando o Senhor Jesus se manifestar. Ele virá do céu com seus anjos poderosos, em meio a uma chama ardente. Virá para vingar-se daqueles que não conhecem a Deus e não obedecem ao Evangelho do Senhor Jesus”.
2Tm 1,9-11: Ele nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não por causa de nossas obras, mas conforme seu próprio projeto e graça. Esta graça nos foi concedida em Jesus Cristo desde a eternidade, mas somente agora foi revelada pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo. Ele não só venceu a morte, mas também fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho, do qual eu fui constituído anunciador, apóstolo e mestre.
Deixaremos aos que, porventura, ainda queiram alegar que Paulo pregava a validade das “Escrituras”, como um todo, o ensejo de nos apresentarem as passagens em que ele estaria dando essa orientação. Nem mesmo a podemos considerar como toda a revelação divina, pois Cristo não deixou dúvida quanto a isso ao afirmar: “Tenho ainda muito que vos dizer, mas não podeis agora suportar” (Jo 16,12), reservando, portanto, para o futuro outras revelações, quando passariam a ter melhores condições de assimilá-las.
E, para finalizar, vemos que todas as opiniões, que citamos neste estudo, a respeito de serem outros os autores das epístolas mencionadas, são, de fato, coerentes, o que poderemos confirmar com o próprio Paulo que reclamara sobre isso; vejamos:
2Ts 2,1-3: Agora, irmãos, quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e ao nosso encontro com ele, pedimos a vocês o seguinte: não se deixem perturbar tão facilmente! Nem se assustem, como se o Dia do Senhor estivesse para chegar logo, mesmo que isso esteja sendo veiculado por alguma suposta inspiração, palavra, ou carta atribuída a nós. Não se deixem enganar de nenhum modo!
Assim, não há alternativa mais coerente, senão aquela de aceitar a hipótese levantada por Renan de que as três cartas pastorais (as duas a Timóteo e uma a Tito) são, sem dúvida alguma, apócrifas. A conseqüência disso é que, por tabela, a pessoa encarregada de escolher os livros para comporem a “Vulgata”, S. Jerônimo, fatalmente, também, ele não estava “totalmente” inspirado pelo Espírito Santo, segundo afirmou Clemente VIII (papa de 1592 a 1605), derrubando todo o alicerce dos que advogam tal coisa.
O biblicista José Reis Chaves trata deste assunto em seu livro A Face Oculta das Religiões, ele, pessoalmente, nos resumiu da seguinte forma:
É óbvio que se existisse a tal de inspiração tal qual dizem, São Jerônimo teria que ser o mais inspirado, pois foi ele que escolheu os livros tidos como canônicos (legais), verdadeiros, o que não aconteceu com os apócrifos (ocultos, desconhecidos), para formar a Vulgata. Lembremo-nos de que a Vulgata já existia, mas foi a de São Jerônimo que se tornou oficial e aprovada pelo Papa Dâmaso e passou a ser a Bíblia do cristianismo, com seu Velho e Novo Testamentos.
Por tudo isso, e, especialmente, por vários outros textos, nos quais estudamos inúmeras outras passagens bíblicas, acabam derrubando, inevitavelmente, e a contragosto de muitos bibliólatras, a crença literal de que é a palavra de Deus e de que ela é toda inspirada por Deus, colocando a Bíblia, como um livro de cunho eminentemente humano. Certamente, que nossa opinião, reconhecemos, não tem mesmo um grande valor, mas, pelo menos, ela vai ao encontro da conclusão pessoal a que também chegou Ehrman, considerado por muitos estudiosos como sendo a maior autoridade em Bíblia do mundo. Nosso conhecimento, pois, nem de longe se pode comparar com o dele.
Antes de finalizar esse estudo, voltemos, mais uma vez, ao eminente filósofo holandês:
[...] Não quero, no entanto, acusar de impiedade os adeptos das várias seitas por adaptarem às suas opiniões as palavras da Escritura. [...] Acuso-os de não querer reconhecer aos outros a mesma liberdade e perseguir como inimigos de Deus todos os que não pensam como eles, por mais honestos e praticantes da verdadeira virtude que sejam, ao mesmo tempo que estimam como eleitos de Deus os que os seguem em tudo, ainda quando se trata de pessoas moralmente incapazes. (ESPINOSA, 2003, p. 215).
[...] A fé, portanto, concede a cada um a máxima liberdade de filosofar, de tal modo que se pode, sem cometer nenhum crime, pensar o que se quiser sobre todas as coisas. As únicas pessoas que ela condena como heréticas e cismáticas são as que ensinam opiniões que incitem à insubmissão, ao ódio, às dissensões e à cólera; em contrapartida, só considera fiéis aqueles que, tanto quanto a sua razão e as suas capacidades lhes permitem, espalham a justiça e a caridade. (ESPINIOSA, 2003, p. 222).
Ao encerrar este estudo, convém deixar bem explícito que o nosso objetivo, desde o início, é somente a busca da verdade, aliás, essa deveria ser a meta de todos nós. Plena razão tem o teólogo alemão Kersten, quando disse:
Uma pessoa que freqüenta uma igreja cristã não pode deixar de assumir uma postura crítica, frente à proliferação de obscuros artigos de fé, e dos deveres e obrigações que a envolvem. Sem termos tido outros conhecimentos, e por termos crescido sob a única e exclusiva influência do estabelecido, somos levados a acreditar que, por subsistirem há tanto tempo, devem, necessariamente, ser verdade. (KERSTEN, 1988, pp. 12-13)
Em hipótese alguma deveremos deixar de procurar a verdade, porquanto, é através disso que estaremos indo ao encontro dessas palavras de Jesus: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).
Descobrimos um pensamento de Paulo, do qual temos, freqüentemente, nos utilizado, e que é: “...o Senhor é o Espírito; e onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade” (2Cor 3,17). Isso que nos leva à conclusão de que, onde não existe liberdade, o Espírito do Senhor não se encontra. Mas o que isso tem a ver com o assunto em pauta? Poderá alguém nos perguntar. Em princípio nada, mas quando ficamos sabendo o que ocorre “por detrás dos bastidores”, vemos sua aplicação prática. Leiamos o seguinte relato:
Bruce me convenceu a tentar me tornar um cristão “sério” e a me dedicar por inteiro à fé cristã. Isso significava estudar Escrituras em período integral no Moody Bible Institute, o que, entre outras coisas, implicaria uma drástica mudança de estilo de vida. ...matriculei-me no Moody, entrei e lá permaneci até o segundo semestre de 1973.
A experiência no Moody foi intensa. Decidi me formar em teologia bíblica, o que significava encarar muito estudo bíblico e vários cursos de teologia sistemática. Ensinava-se uma só perspectiva em todos esses cursos, subscrita por todos os professores (eles todos assinavam um termo de compromisso) e por todos os estudantes (nós também o assinávamos): a Bíblia é a palavra infalível de Deus. Ela não contém erros. É completamente inspirada e é, em todos os seus termos, “inspiração verbal plena”. Todos os cursos que fiz pressupunham e ensinavam e ensinavam essa perspectiva; qualquer outra era considerada desviante e até mesmo herética. Acho que alguém pode chamar isso de lavagem cerebral. [...] (EHRMAN, 2006, p. 14) (grifo nosso).
Entendemos, assim, que, com esse modesto estudo vamos convencer a muitos, mas não aos doutos e críticos, já que estamos cientes de que a “técnica de lavagem cerebral” se aplica por ai a mancheias, o que resulta na validade do ditado popular: “o pior cego é aquele que não quer ver”.
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Jan/2007.
Referências bibliográficas
A Bíblia Anotada. 8ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.
Bíblia de Jerusalém, nova edição, revista e ampliada, São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia do Peregrino, edição brasileira, São Paulo: Paulus, 2002.
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Bíblia Sagrada, 37a. ed. São Paulo: Paulinas, 1980.
Bíblia Sagrada, 5ª edição, Aparecida – SP: Santuário, 1984.
Bíblia Sagrada, 8ª edição, Petrópolis – RJ: Vozes, 1989.
Bíblia Sagrada, Edição Barsa, s/ed. Rio de Janeiro: Catholic Press, 1965.
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, 43º impressão, São Paulo: Paulus, 2001.
Bíblia Sagrada, s/ed. Brasília – DF: Sociedade Bíblica do Brasil 1969.
Bíblia Sagrada. 68ª ed. São Paulo: Ave Maria, 1989.
Escrituras Sagradas, Tradução do Novo Mundo das. Cesário Lange, SP: STVBT, 1986.
CHAVES, J. R. A Face Oculta das Religiões: uma visão racional da Bíblia, Santo André – SP: EBM, 2006.
EHRMAN, B. D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê. São Paulo: Prestígio, 2006.
ESPINOSA, B. Tratado Teológico-Político, São Paulo: Martins Fontes, 2003.
FOX, R. L. Bíblia: Verdade e ficção, São Paulo: Cia das Letras, 1996
KERSTEN, H. Jesus viveu na Índia, São Paulo: Best Seller, 1988.
LETERRE, A. Jesus e sua doutrina: a distinção entre cristianismo e catolicismo: um estudo que remonta há mais de 8.600 anos, São Paulo: Madras, 2004.
RENAN, E. Paulo - o 13º apóstolo, São Paulo: Martin Claret, 2004.
RENAN, E. Vida de Jesus, São Paulo: Martin Claret, 2004.
STROBEL, L. Em defesa de Cristo: um jornalista ex-ateu investiga as provas da existência de Cristo, São Paulo: Vida, 2001.
FARIAS, R. Falácias e Erros de Raciocínio, consultado dia 20.01.2007, às 09:00 horas no site: http://www.geocities.com/Athens/Column/8413/falacias.html.
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