Contra-resposta a um adventista

Se todos possuem o pleno direito de pensar livremente, mesmo em matéria religiosa, não podendo sequer conceber-se alguém que renuncie a esse direito, então todos são igualmente possuidores do pleno direito e da plena autoridade de julgar em matéria religiosa e, conseqüentemente, de a explicarem e interpretarem para si próprios. (ESPINOSA, 2003).

“Acontece que a verdade é, às vezes, para todos nós seres humanos, o que menos queremos ouvir, principalmente com relação aos nossos princípios religiosos, pois o nosso ego aflora... ninguém quer ser humilde o bastante para reconhecer os seus erros”. (CHAVES, 2001).

Introdução

         As considerações que fizemos ao desafio do professor Azenilto, foram objeto de refutação de sua parte; o que era de se esperar, pois fundamentalista não deixa de rebater absolutamente nada, pouco lhe importando se tem razão ou não, inclusive, com a particularidade de querer sempre ser o último a falar, pensando, com isso, ter sido o ganhador.

         O nosso texto intitulado Saul conversou com o Samuel-espírito?”, disponível na net, pelo site do GAE é o que contém as nossas considerações anteriores.

         Há pessoas que conseguem se expressar tão bem, que seu pensamento atravessa os séculos como se fosse dito recentemente; é o caso, por exemplo, de Espinosa:

Toda a gente diz que a Sagrada Escritura é a palavra de Deus que ensina aos homens a verdadeira beatitude ou caminho da salvação: na prática, porém, o que se verifica é completamente diferente. Não há, com efeito, nada com que o vulgo pareça estar menos preocupado do que em viver segundo os ensinamentos da Sagrada Escritura. É ver como andam quase todos fazendo passar por palavra de Deus as suas próprias invenções e não procuram outra coisa que não seja, a pretexto da religião, coagir os outros para que pensem como eles. Boa parte, inclusive, dos teólogos está preocupada é em saber como extorquir dos Livros Sagrados as suas próprias fantasias e arbitrariedades, corroborando-as com a autoridade divina. (ESPINOSA, B. Tratado Teológico-Político, São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 114).  (grifo nosso)

         Exatamente como vemos as coisas acontecendo nos dias de hoje, mormente com aqueles que se apegam aos conceitos teológicos do passado, muitos dos quais, sabidamente, foram criados para sustentar dogmas e manter o domínio do medo sobre as massas, seu teor é de tão evidente contraste com a razão, que, em sua maioria, tiveram que ser impostos a ferro e fogo.

Análise do que foi dito pelo professor

RESPONDENDO A UM ESPÍRITA "PROFISSIONAL"

Amigos, sinceramente, temos que repensar bem a questão da “metodologia” neste debate. Afinal, se um professor dá uma tarefa de casa para um aluno, logicamente espera que esse aluno faça a tarefa, e não que encarregue um amigo, especialmente um “profissional” de certa área, a responder por ele.

O Maurício, alegando falta de tempo, recorreu aos préstimos de um “profissional” do espiritismo, um indivíduo com um cabedal enorme de artigos sobre temas espíritas e supostamente de respaldo bíblico, especializando-se em contestar os crentes na Bíblia como “Palavra de Deus”.

Eu simplesmente não tenho tempo de ficar enfrentando todo tipo de objetores que alguém resolva “convidar” a responder a nossos questionários, então vamos fazer isso PELA ÚLTIMA VEZ. Não mais aceitaremos matérias de outros, pelo menos não nesse estilo de respostas a questionários dirigidos a participantes do Fórum.

         Muito interessante a classificação que o professor faz de nós; possivelmente o faz dessa forma por estar no meio de pessoas que tratam tudo de forma profissional; há, inclusive os profissionais da fé, aqueles que vivem explorando a fé alheia, via lavagem cerebral, como é o caso de líderes religiosos que vivem da religião que dizem confessar.

         Os espíritas, caso não saiba, são, por princípio, pessoas que não vivem de sua religião; mas vivem para sua religião, o que é bem diferente! Por conta disso, não se encontrará, em nosso meio, “espírita profissional”, com ou sem aspas. Obviamente, a Doutrina não pode ser responsabilizada pelos atos daqueles que, embora se dizendo ser seus seguidores, não observam seus princípios, coisa que infelizmente acontece em qualquer uma das religiões institucionalizadas.

         Especificamente, nos consideramos um espírita pesquisador e estudioso da Bíblia, nada mais que isso.

         A título de informação, o Maurício faz parte do Grupo de Apologética Espírita como um de seus membros; o que ele fez foi apenas indicar o link para que acompanhássemos um debate num fórum adventista. Nós apenas antecipamos o desafio do professor, que certamente iria colocar o seus 10 pontos em seu site, exibindo-o como um troféu que os espíritas não conseguiram refutar.

         Realmente acertou em cheio quando diz que nos especializamos em contestar; entretanto errou feio quando fala que seria aos crentes, a quem queríamos atingir. Meu caro professor, esses não! Mas aos seus líderes religiosos isto sim, pois estes, para manter os fiéis sob seu domínio e poder usam exatamente do expediente de afirmar que a Bíblia é a palavra de Deus, porquanto, a esmagadora maioria de seus seguidores não tem a mínima coragem de contestá-la. Grande parte dos crentes, é de pobres coitados por se deixarem manipular pela liderança religiosa, a qual só se preocupa mesmo, conforme temos afirmado inúmeras vezes, com o seu próprio bolso.

         Está coberto de razão o teólogo Huberto Rohden, quando diz:

De resto, que espécie de Deus seria esse que se revelasse apenas a um povinho minúsculo, que, nesse tempo, não representava sequer 1% da humanidade, deixando na ignorância cerca de 99% do gênero humano? Como podiam essas centenas de milhões de homens, fora e longe de Israel – de cuja existência nem sabem até hoje -, como podiam eles chegar a conhecer Deus através da Bíblia?... E que fez Deus antes do início da Bíblia? - e depois do encerramento da mesma? A Bíblia, como livro escrito, começa uns 15 séculos antes de Cristo, e termina pelo ano 100 depois dele. Ora, poderíamos admitir que, no longuíssimo período anterior ao tempo de Abrão, Isaac e Jacó, Deus nada tenha tido a dizer à humanidade? E que, pelo ano 100 da era cristã, tenha “fechado o expediente”, à guisa de um funcionário público ou outro burocrata do século XX?... Quem admite semelhante Deus é ateu, porque um Deus tão imperfeito e limitado não é Deus nenhum. (ROHDEN, H. Lampejos Evangélicos, São Paulo: Martin Claret, 1995, p. 189)

         Quanto à sua colocação de que nossos textos são “supostamente de respaldo bíblico”, certamente fazemos o mesmo que você quanto a seus próprios textos; mas, em sua maneira de pensar, nós estamos errados e você é quem está certo. Isso é uma coisa que somente poderá ser decidida por pessoas sensatas que têm a mente aberta e que não estão encabrestadas por nenhum líder religioso.

         Queremos, logo de início, propor-lhe um desafio, que demonstrará até onde você acredita mesmo naquilo que afirma. Considerando que “a palavra de Deus” diz em Mc 16,17-18, que: Os sinais que acompanharão aqueles que acreditarem são estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; se pegarem cobras ou beberem algum veneno, não sofrerão nenhum mal; quando colocarem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados."; então, vamos marcar dia, hora e local para que você faça um teste de fidelidade, onde pegará em cobras e beberá algum veneno diante de câmaras de TV para todo o Brasil ver; topa?

         Bart D. Ehrman, considerado a maior autoridade em Bíblia do mundo, aborda a questão da inspiração divina em relação ao Novo Testamento, demonstrando taxativamente que:

De que nos vale dizer que a Bíblia é a palavra infalível de Deus se, de fato, não temos as palavras que Deus inspirou de modo infalível, mas apenas as palavras copiadas pelos copistas – algumas vezes corretamente, mas outra (muitas outras!) incorretamente? De que vale dizer que os autógrafos (isto é, os originais) foram inspirados? Nós não temos os originais! O que temos são cópias eivadas de erros, e a vasta maioria delas são centúrias retiradas dos originais e diferentes deles, evidentemente, em milhares de modos.

[...]

Descobertas desse tipo coincidiram com problemas que eu estava enfrentando em meus estudos mais aprofundados dos manuscritos gregos do Novo Testamento que haviam sobrevivido. Uma coisa é dizer que os originais foram inspirados, mas a verdade é que não temos os originais. Então, dizer que eles foram inspirados não me serve de grande coisa, a não ser que eu possa reconstruir os originais. E além disso, a vasta maioria dos cristãos, em toda a história da Igreja, não teve acesso aos originais, fazendo de sua inspiração um objeto de controvérsia. Nós não apenas não temos os originais, como não temos as primeiras cópias dos originais. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou as cópias das cópias das cópias dos originais. O que temos são cópias feitas mais tarde, muito mais tarde. Na maioria das vezes, trata-se de cópias feitas séculos depois. E todas elas diferem umas das outras em milhares de passagens. Veremos depois neste livro que essas cópias diferem umas das outras em tantas passagens que nem chegamos a saber quantas diferenças há. Talvez seja mais fácil falar comparativamente: há mais diferenças entre os nossos manuscritos que palavras no Novo Testamento.

Muitas dessas diferenças são absolutamente secundárias e insignificantes. Boa parte delas simplesmente nos mostra que os antigos copistas tinham tanta dificuldade em escrever quanto a maior parte das pessoas hoje (e eles nem tinham dicionários, sem falar em corretores ortográficos). Sendo assim, para que falar de todas essas diferenças? Se alguém insiste em afirmar que Deus inspirou cada uma das palavras das Escrituras, do que estaria falando se nós não temos todas as palavras das Escrituras? Em alguns trechos, como veremos, simplesmente não temos certeza de o texto original ter sido reconstruído com exatidão. É bem difícil saber o que as palavras da Bíblia querem dizer se não sabemos nem mesmo que palavras são essas!

Isso se tornou um grande problema para meu entendimento da inspiração, porque passei a compreender que teria sido tão difícil para Deus preservar as palavras das Escrituras quanto deveria ter sido, em primeiro lugar, inspirá-las. Se Ele quisesse que seu povo tivesse suas palavras, certamente as teria dado (e possivelmente até lhes tivesse dado as palavras em uma língua que pudessem entender, e não em grego e em hebraico). O fato de não termos as palavras deve seguramente demonstrar, pensei, que Ele não as preservou para nós. E se Ele não fez esse milagre, não haveria razão para pensar que teria feito o milagre anterior: inspirar essas palavras.

Em suma, meus estudos do Novo Testamento grego e minhas pesquisas dos manuscritos que o contêm me levaram a repensar radicalmente o meu entendimento do que é a Bíblia. Antes disso - a começar de minha experiência de novo nascimento no ensino fundamental, passando por meu período fundamentalista no Moody, até chegar aos meus tempos de evangélico em Wheaton -, minha fé baseava-se completamente em uma certa visão da Bíblia como palavra infalível de Deus, integralmente inspirada. Agora, deixei de ver a Bíblia desse modo. A Bíblia passou a ser para mim um livro completamente humano. Do mesmo modo como os copistas humanos copiaram, e alteraram, os textos das Escrituras, outros autores humanos escreveram os originais dos textos das Escrituras. Ela é um livro humano do começo ao fim. E foi escrita por diferentes autores humanos, em diferentes épocas e em diversos lugares para atender a diferentes necessidades. Muitos desses autores sem dúvida se sentiam inspirados por Deus para dizer o que disseram, mas tinham suas próprias perspectivas, suas próprias crenças, seus próprios pontos de vista, suas próprias necessidades, seus próprios desejos, suas próprias compreensões, suas próprias teologias. Tais perspectivas, crenças, pontos de vista, necessidades, desejos, compreensões e teologias deram forma a tudo o que eles disseram. Por todas essas razões é que esses escritores diferem um do outro. Entre outras coisas, isso significava que Marcos não disse a mesma coisa que Lucas porque não quis dar a entender o mesmo que Lucas. João é diferente de Mateus - eles não são os mesmos. Paulo é diferente dos Atos dos Apóstolos. E Tiago é diferente de Paulo. Cada autor é um autor humano e precisa ser lido por aquilo que ele (supondo que se trate sempre de autores homens) tem a dizer, sem pressupor que aquilo que ele diz é o mesmo - ou assimilável a - ou consistente com aquilo que qualquer outro autor tenha a dizer. A Bíblia, feitas todas as contas, é um livro inteiramente humano.

Essa era uma perspectiva inédita para mim, obviamente em tudo distinta da visão que eu tinha quando era um cristão evangélico - e que não é a visão da maioria dos evangélicos de hoje. (EHRMAN, B. D. O que Jesus disse?: O que Jesus não disse?, São Paulo: Prestígio, 2006, pp. 17-21) (grifo nosso).

         Para os que pesquisam, esse pensamento não é novo, pois, segundo Orígenes, o filósofo Celso (séc. II d.C.), já dizia: “Alguns fiéis, como pessoas embriagadas que se agridem a si mesmas, manipularam o texto original do evangelho três ou quatro vezes, ou até mais, e o alteraram para poderem opor negação às críticas” (Orígenes, Contra Celso, São Paulo: Paulus, 2004, p. 152).

Quanto ao material desse cavalheiro, é interessante que ele começa falando coisas que se aplicam EXATAMENTE a ele, como ao falar de uso da Bíblia coerente, criticar-nos pela insistência de “teor global das Escrituras”, e o que mais faz é selecionar textos “favoráveis” daqui e dacolá, desprezando os que não lhe convêm (e me atribui exatamente essa prática), e quando as coisas não correspondem a sua visão espírita preconcebida chama os autores bíblicos até de MENTIROSOS! Vejam uma sentença dele referente a certo relatório bíblico—“que mentira, que lorota boa”... Ora, pois o próprio grande apóstolo Paulo quase ganha dele tal rótulo, apenas amenizado ao dizer que estava “completamente equivocado”!

Quando o que o texto bíblico diz contraria diretamente suas premissas, então não serve, a Bíblia é interpretada literalmente por “fanáticos” e, enfim, ele é o único que tem a correta e precisa interpretação, claro que dentro da visão espírita.

         Nós temos plenas condições de provar que não pegamos textos isolados. Quando falamos sobre a morte de Saul, por exemplo, buscamos todos os textos bíblicos que a relata, enquanto que o professor só usou um. Em relação à comunicação com os mortos, levantamos tudo quanto pudemos identificar na Bíblia sobre isso, o que poderá ser comprovado também pelo nosso texto Comunicação com os mortos na Bíblia, contrário ao professor que cita apenas uma passagem, mas mesmo assim para contestá-la, visando manter seu ponto de vista. Deixaremos ao leitor o julgamento dessa questão.

         De duas uma: ou não entendeu ou tenta desvirtuar o que nós dissemos. Vejamos o que foi dito por nós:

Então, a causa da infidelidade de Saul nada tem a ver com a consulta aos mortos, conforme afirma o professor, se baseando no livro de Crônicas. Mas quem apela, a todo o momento, para o “teor geral das escrituras”, devia saber muito bem que a história narrada neste livro é pura mentira, porquanto Saul não morreu por conta disso, segundo o outro livro. Aliás, devia também ter conhecimento que há três versões sobre a morte de Saul; vejamos:

1ª) Suicidou-se: “Então Saul disse ao escudeiro: ‘Desembainhe a espada e me atravesse, antes que esses incircuncisos cheguem e caçoem de mim’. O escudeiro ficou apavorado e não quis obedecer. Então Saul pegou a espada e atirou-se sobre ela.” (1Sm 31,4).

2ª) Foi morto por um amalecita: “Eu estava casualmente no monte Gelboé e vi Saul apoiado em sua própria lança, enquanto os carros e cavalheiros se aproximavam. Saul virou-se, me viu, e me chamou. ...Então Saul me disse: ‘Aproxime-se e mata-me, pois estou agonizando e não acabo de morrer. Então eu me aproximei dele e o matei, porque eu sabia que ele não iria mesmo sobreviver depois de caído”. (2Sm 1,1-10).

3ª) Os filisteus o enforcaram: “Então Davi foi pedir os ossos de Saul e de seu filho Jônatas aos cidadãos de Jabes de Galaad, que os tinham levado da praça de Betsã, onde os filisteus os haviam enforcado, quando venceram Saul em Gelboé”. (2Sm 21,12).

No primeiro livro de Crônicas (10,1-12) é relatada a morte de Saul, exatamente como a narrada em 1 Samuel, capítulo 31, – versão do suicídio. Entretanto, nos versículos 13 e 14, citando como a causa da morte de Saul, foi colocado o seguinte: “Saul morreu por ter sido infiel a Javé: não seguiu a ordem de Javé e foi consultar uma mulher que invocava os mortos, em vez de consultar a Javé. Então Javé o entregou à morte e passou o reinado para Davi, filho de Jessé”; “que mentira, que lorota boa”... Os apressados talvez achem que a infidelidade, em não seguir a ordem de Deus, tenha sido a consulta aos mortos, quando o motivo real está em 1Sm 15,1-3, já citado um pouco atrás, que determinava que Saul matasse tudo quanto pudesse ter fôlego de vida entre os amalecitas, mas o “piedoso” Saul resolveu salvar o rei deles e o gado gordo e os cordeiros que possuíam.

         Numa boa lógica, não há como uma pessoa ter três tipos de mortes; assim, inevitável é que duas dessas versões não sejam verdadeiras e, dentro daquilo que entendemos, neste contexto, o que não é verdadeiro é falso; portanto, é mentiroso: Saul não morreu por ter sido infiel a Javé consultando uma mulher que invocava os mortos. Que nos prove o contrário, mas não queira desmoralizar o nosso pensamento com palavras jogadas ao vento.

         E aqui temos a prova de que levantamos todas as versões da morte de Saul, o que depõe contra sua afirmativa de que escolhemos textos a dedo.

         Em relação a Paulo, o que dissemos foi:

Se satanás pode realmente se transformar em “anjo de luz”, certamente poderá também estar dentro das igrejas se passando pelo Espírito Santo para enganar os incautos. Obviamente que Paulo estava completamente equivocado, pois se isso fosse verdade estaríamos perdidos, pois ele, o diabo, teria o mesmo poder que Deus para realizar milagres, o que tornaria impossível para nós, pobres mortais, identificar quais seriam os do diabo e quais seriam os de Deus.

         Se uma pessoa diz algo que contraria o que outra disse, certamente uma está equivocada; não há outra saída. Paulo afirma que satanás pode se transformar em “anjo de luz”, enquanto João afirma que “quem pratica o mal, tem ódio da luz, e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam desmascaradas” (Jo 3,20); assim, diante dessa afirmativa de João, é que Paulo se mostra equivocado, e equivocar, caro professor, não quer dizer mentir, conforme quer levar a crer com aquilo que entendeu do que nós dissemos.

         A quem acredita que satanás pode se transformar em “anjo de luz”, recomendamo-lhe muito cuidado, pois, se ele tem esse poder, então poderá também se fazer passar por “Espírito Santo” que se manifesta na igreja que freqüenta.

         Se a base dos princípios do Espiritismo fosse a Bíblia, seria bem provável que agiríamos igual aos fundamentalistas; entretanto, a nossa base são as leis naturais criadas por Deus. A Bíblia, para nós, embora mereça o nosso respeito, é um livro escrito por seres humanos; daí a vermos mais no seu sentido histórico.

         Só usamos a Bíblia para nos defender por conta dos fanáticos que, para denegrir o Espiritismo, buscam “provar”, de todas as formas, que aquilo que acreditamos (comunicação com os mortos e reencarnação) não está na Bíblia, como se ela fosse um repositório de tudo quanto existe e acontece no mundo. E, no entanto, se a usamos para nos defendermos, é porque ela não nega nem uma coisa, nem outra.

         Um exemplo claro disso é a passagem de 1Sm 28, onde está relatada a comunicação do espírito de Samuel com Saul. Nós não duvidamos da clareza do texto, enquanto o professor faz de tudo para negar o fato, deixando a Bíblia de ser para ele, nesse ponto, a palavra de Deus. Tão certo estava de que sua interpretação é a correta, que lançou o desafio de 10 pontos. Esses 10 pontos, a bem da verdade, deveriam ser chamados de “10 desculpas” já que passa longe e contesta a própria autoridade daquilo que seria para ele a palavra de Deus. Mas é incrível, ele ainda ter a coragem de tentar reverter a situação dizendo que somos nós que nos consideramos os donos da verdade.

Ademais, ele cita quase sempre versões católicas da Bíblia, o que parece muito suspeito, sobretudo porque sabemos que o catolicismo não passa de um “espiritismo melhorado”. Eu tive parentes espíritas e me contavam de padres e freiras que participavam de reuniões espíritas fazendo palestras em que contavam de suas próprias experiências como “paranormais”. E até vi anúncio de um vídeo de uma autoridade católica, se não me engano um bispo, sobre suas comunicações mediúnicas e outras coisas do gênero. E é bem sabido que os católicos que crêem nas teses espíritas de reencarnação, e até freqüentam sessões espíritas durante a semana, indo, porém, regularmente às missas, são "legião". Interessante que a ICAR se empenha numa grande campanha antiprotestante, mas não se vê o mesmo empenho contra o espiritismo da parte da liderança católica...

Assim, versões católicas da Bíblia têm essa inclinação, porque a crença na imortalidade da alma, tão pagã quanto tantas outras práticas do catolicismo, é um dos fundamentos da doutrina dessa Igreja. Só que, numa ocasião, ele até cita a Versão Novo Mundo (das “testemunhas de Jeová”) apenas num pequeno trecho que lhe pareceu conveniente, talvez ignorando que esses religiosos condenam totalmente o espiritismo e sua crença básica na imortalidade da alma.

         A suspeição não tem razão de ser, pois para um pesquisador sério o que interessa são as várias versões de um texto, para poder tirar delas a que mais se aproxima da verdade, no caso, mais próximo daquilo que acreditavam naquele tempo. Mas, como as Bíblias católicas, em seus textos e nos comentários dos tradutores, são favoráveis à imortalidade da alma, coisa que o professor não acredita, então, elas não lhe servem: quem disse algo a respeito de ser o dono da verdade?

         É certo que alguns líderes católicos acreditam na comunicação com os mortos; mas as Bíblias não foram traduzidas por eles. Aliás, elas têm mais valor para nós quando se coloca algo contrário ao que pensam, pois aí certamente não ajustaram a passagem a seus dogmas. Podemos até citar o Pe. François Brune, autor do livro Os mortos nos falam, que, pesquisando a comunicação dos mortos, via aparelhos eletrônicos - Transcomunicação Instrumental -, se rendeu à realidade dos fatos. E contra fatos não há argumentos.

         E se pesquisarmos bem esse episódio, veremos que não somente as Bíblias Católicas, mas também as protestantes, e enfim, em todas as traduções e em todos os idiomas todas elas são unânimes em afirmar peremptoriamente a real identidade do profeta morto, respondendo e repreendendo o rei Saul.

No atual estágio são poucos os que não “condenam” o Espiritismo; mas por que será que isso acontece? Certamente, porque os espíritas são adeptos do “dai de graça o que de graça recebestes”, o que vai de encontro aos interesses daqueles que adotam a religião como profissão; daí buscam na “palavra de Deus” algo para combatê-lo. Entretanto, observamos que a “palavra de Deus” só lhes serve quando “condena” o Espiritismo; aliás, em passagens isoladas escolhidas a dedo, como fazem sempre, apesar de sistematicamente negarem essa atitude.

         Se o professor, ou qualquer outra pessoa, nos provar que segue incondicionalmente tudo quanto está, capa a capa, na Bíblia, nesse dia nos tornaremos fervorosos adeptos da religião que segue. Ninguém, absolutamente ninguém, a segue no todo; mas apenas finge fazer isso; e mesmo assim, exige que os que não lhe seguem na crença a cumpram; seja coerente, pelo amor de Deus!

Como dissemos num artigo sobre o espiritismo,

Já se disse que um texto fora do contexto é mero pretexto. Se o estudioso do assunto examinar os ensinos de Cristo globalmente, em lugar de apanhar segmentos isolados que aparentemente lhe favoreçam a idéia, não encontrará harmonia de Seus ensinos com o que pregaram os mestres do passado a respeito da morte. Cristo fala em ressurreição, não reencarnação. A própria idéia de “novo nascimento” [em João 3] é tornada clara no verso 5 ao Jesus falar em “nascer da água”. Tendo por base um costume já existente entre os judeus de uma lavagem purificadora para indicar renovação espiritual, fica claro pelo contexto literário e histórico que a referência é ao batismo, simbolizando a morte para a vida pecaminosa, e um renascer para nova vida segundo o Espírito de Deus. O apóstolo Paulo tornou isto bem claro em Romanos, capítulo 6.

A evidência de que ressurreição não é o mesmo que reencarnação se acha nos relatos dos Evangelhos ao descreverem como Jesus miraculosamente trouxe de volta à vida pessoas que haviam exalado o último suspiro. Há o episódio da filha de Jairo, do filho da viúva de Naim, e, de modo destacado, a volta à vida de seu amigo Lázaro, que já estava sepultado há quatro dias e até “cheirava mal”, todos sobrenaturalmente trazidos de volta à vida por Jesus, com seus mesmos corpos (ver Lucas 8: 41-56; 7: 11-16; João, cap. 11). Portanto, por uma questão de coerência, uma vez que se recorra à Bíblia como documento comprobatório de uma tese, todo o seu contexto deve ser levado em conta para validar ou negar a idéia.

Jesus citava repetidamente o Antigo Testamento, que era a Escritura vigente em Seu tempo. Reconhecia sua autoridade como livro histórico e como um manual de instrução da vida prática, e fonte de doutrina religiosa. No Antigo Testamento fala-se sobre a ressurreição, não reencarnação, havendo uma detalhada descrição da ressurreição em Ezequiel 37. É por demais claro que a idéia da imortalidade da alma não encontra apoio ali (ver Ecles. 9:5, 10; Sal. 146:3, 4). Igualmente, a prática comum do espiritismo de consultar os mortos, muito difundida entre os povos antigos que circundavam Israel, é claramente condenada nas Escrituras (ver Êxodo 22:18 e Deuteronômio 18:11-14).

         Faremos como o professor; vamos recorrer ao que já dissemos em nosso texto Ressurreição, o significado Bíblico:

Vejamos agora o que ainda mais encontramos para desvendar qual era o conceito de ressurreição.

a) Voltar à vida no mesmo corpo

Elias, que ressuscitou um filho de uma viúva (1Rs 17,14),

Eliseu, que fez o mesmo com um filho de uma sunamita (2Rs 4,32-37),

Pedro, por ter ressuscitado a jovem chamada Tabita (At 9,36-40),

Paulo, que fez voltar à vida o menino Êutico, que havia morrido após ter caído de uma janela (At 20,9-12).

Jesus, a filha de Jairo (Mt 9,24), o filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17) e Lázaro (Jo 11,1-44).

Será que realmente houve propriamente uma morte? Devemos observar, que no caso da filha de Jairo, Jesus disse: “a menina não morreu, está dormindo” (Mt 9,24; Mc 5,39 e Lc 8,52). Em relação a Lázaro (Jo 11,1-44) a coisa é mais complicada, pois, apesar de Jesus ter afirmado que “esta doença não é para a morte”, e “nosso amigo Lázaro dorme”, o texto bíblico apresenta uma contradição a partir do versículo 13 a 16, dizendo que se trata de morte mesmo. Ora, isso, a nosso ver, para se justificar a tese da ressurreição corporal, fizeram um acréscimo ao texto original, cujo conteúdo se retirarmos da passagem não há solução de continuidade da narrativa.

Temos dito, em várias oportunidades, que os médicos de hoje, se tivessem vivido naquele tempo, seriam considerados “profetas”, pois, com certeza, com os atuais conhecimentos de medicina, iriam “ressuscitar” inúmeras pessoas. A grande questão é saber se Lázaro e a filha de Jairo, e o filho da viúva de Naim estavam realmente mortos, ou se passaram por uma EQM - Experiência de Quase Morte, que tem despertado o interesse de vários pesquisadores nos tempos atuais.

Esse conceito é o popular; mas, como já demonstramos pelo Dicionário Bíblico, ele não é exato.

b) Voltar à vida em outro corpo

Lc 9,7-9: “O tetrarca Herodes, porém, ouviu tudo o que se passava, e ficou muito perplexo por alguns dizerem: ‘É João que foi ressuscitado dos mortos’; e outros: ‘É Elias que reapareceu’; e outros ainda: ‘É um dos antigos profetas que ressuscitou”. Herodes, porém, disse: ‘A João eu mandei decapitar. Quem é esse, portanto, de quem ouço tais coisas?’ E queria vê-lo”. (ver Mt 14,1-2 e Mc 6,14-16).

Lc 9,18-19: “Um dia Jesus rezava num lugar retirado e seus discípulos estavam com ele. Ele lhes fez a seguinte pergunta; ‘Quem sou eu no dizer das turbas?’ Eles responderam: ‘Para uns, João Batista, para outros, Elias ou algum dos antigos profetas ressuscitado’”. (ver também Mt 16,13-19; Mc 8,27-28).

Por essas passagens podemos perfeitamente saber que o povo realmente acreditava que alguém que já havia morrido poderia voltar como outra pessoa; senão não teria sentido o que o povo pensava a respeito de Jesus. E se isso não fosse possível, com certeza, Jesus não teria feito essa pergunta; e, mais ainda: teria dito dessa impossibilidade. Assim, fica claro que o conceito de ressuscitar aqui nessas passagens pode muito bem ser entendido por reencarnar.

Somente devemos fazer uma ressalva quanto a João Batista, que não poderia se enquadrar nesse conceito; nós o estaremos explicando no item “d”.

c) Ressurgir em Espírito

Qual a ressurreição foi pregada por Jesus, a da carne ou a do Espírito?

Para responder essa questão é necessário lermos a resposta que Jesus deu aos saduceus, negadores da ressurreição, sobre uma mulher que, para cumprir a lei mosaica, teve que casar com os sete irmãos. A dúvida deles era, quando da ressurreição ela seria mulher de qual deles? A isso responde Jesus: “As pessoas deste mundo se casam. Contudo, as que são julgadas dignas de ter parte naquele mundo e na ressurreição dos mortos, lá não se casam. E já não podem morrer outra vez, porque são iguais aos anjos e filhos de Deus, sendo participantes da ressurreição”. (Lc 20,34-36). São iguais aos anjos; isso significa que serão seres espirituais; daí, não se justifica mais o casamento, que é coisa para os que possuem corpos materiais.

Jesus disse que “O espírito é que dá vida, a carne de nada serve” (Jo 6,63), o que vem reforçar a nossa natureza como sendo a espiritual. Por outro lado, partindo de que “Deus é Espírito” (Jo 4,24) e que somos a sua imagem e semelhança, é inevitável concluirmos que, na verdade, somos também Espíritos.

Seguindo a leitura de Lucas, temos: “E que os mortos ressuscitem, é Moisés quem dá a conhecer através do episódio da Sarça Ardente, quando chama ao Senhor: o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos; para ele, então, todos são vivos”. (Lc 20,37-38). Considerando que se afirma, na narrativa, que Abraão, Isaac e Jacó “todos são vivos” e que ainda não aconteceu o juízo final, para a esperada ressurreição dos corpos, se eles são vivos, são vivos, portanto, em Espírito. E, concluindo, pela comparação de Jesus, eles já ressuscitaram, ou seja, estão vivendo a vida do Espírito; por isso não morrem mais.

Assim, concluímos que, o que Jesus ensinou foi a ressurreição do Espírito, não a do corpo físico, dogma de igrejas tradicionais. O que também poderá ser confirmado em Paulo, quando diz: “a carne e o sangue não poderão herdar o reino de Deus” (1Cor 15,50).

d) Ressurgir em Espírito influenciando outra pessoa

Mt 14,1-2: “Naquele tempo, Herodes, o tetrarca, veio a conhecer a fama de Jesus e disse aos seus oficiais: ‘Certamente se trata de João Batista: ele foi ressuscitado dos mortos e é por isso que os poderes operam através dele!’”.

Essa passagem nós a estamos colocando para explicar a questão de João Batista. Ora, se acreditavam que Jesus estava fazendo prodígios porque “os poderes de João Batista operam através dele”, isso, num português bem claro, seria a possibilidade de um morto exercer algum tipo de influência sobre um vivo. Confirmando, pelo menos como uma hipótese muito provável, que aceitavam a interferência dos mortos sobre os vivos, ou seja, isso nada mais é do que a comunicação entre os dois planos da vida.

Assim, também, podemos dizer que ressurreição, neste caso, seria a volta de um morto à condição de espírito.

         E quanto a alegação de que, no diálogo com Nicodemos, Jesus estaria se referindo ao batismo, é pura interpretação de conveniência, já que a prática ritualística naquela época era a circuncisão e não o batismo. Mas sobre essa conversa leia o nosso texto Conversa de Jesus com Nicodemos e sobre o batismo o nosso outro texto O Ritual do Batismo, nos quais fazemos análise minuciosa das passagens bíblicas relacionadas a cada um desses assuntos.

         Em relação ao cumprimento das determinações bíblicas, especialmente quanto ao Deuteronômio, temos o texto Deuteronômio, lei divina ou mosaica?, de onde retiramos:

Entendemos que se esse livro, o Deuteronômio, fosse mesmo todo de origem divina, os que têm a Bíblia como fundamento de sua religião, não deixariam de segui-lo. Entretanto, não é o que observamos, já que, entre várias outras coisas, não cumprem:

Dt 21,15-16: Se um homem tiver duas mulheres, uma a quem ama e outra a quem aborrece, e uma e outra lhe derem filhos, e o primogênito for da aborrecida, no dia em que fizer herdar a seus filhos aquilo que possuir, não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da aborrecida, que é o primogênito.

Dt 21,18-21:Se alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedece à voz de seu pai e à de sua mãe, e, ainda castigado, não lhes dá ouvidos, pegarão nele seu pai e sua mãe e o levarão aos anciãos da cidade, à sua porta, e lhes dirão: Este nosso filho é rebelde e contumaz, não dá ouvidos à nossa voz: é dissoluto e beberrão. Então todos os homens da sua cidade o apedrejarão, até que morra; assim eliminarás o mal do meio de ti: todo o Israel ouvirá e temerá.

Dt 22,10: Não lavrarás com junta de boi e jumento.

Dt 22,23-24: Se houver moça virgem, desposada, e um homem a achar na cidade e se deitar com ela, então trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis, até que morram; a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porque humilhou a mulher do seu próximo; assim eliminarás o mal do meio de ti.

Dt 23,1: Aquele a quem forem trilhados os testículos, ou cortado o membro viril, não entrará na assembléia do Senhor.

Dt 23,2: Nenhum bastardo entrará na assembléia do Senhor; nem ainda a sua décima geração entrará nela.

Dt 23,13: Dentre as tuas armas terás um pau; e quando te abaixares fora, cavarás com ele, e, volvendo-te, cobrirás o que defecaste.

Dt 25,5: Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer, sem filhos, então a mulher do que morreu não se casará com outro estranho, fora da família; seu cunhado a tomará e a receberá por mulher, e exercerá para com ela a obrigação de cunhado.

Dt 25,11-12: Quando brigarem dois homens, um contra o outro, e a mulher de um chegar para livrar o marido da mão do que o fere, e ela estender a mão, e o pegar pelas suas vergonhas, cortar-lhe-ás a mão: não a olharás com piedade.

Diante do exposto, só mesmo por um fundamentalismo exacerbado pode-se atribuir tais passagens como fruto de inspiração divina.

         Então, só pediremos coerência aos que advogam que a Bíblia é a palavra de Deus, que a cumpram integralmente e provem, na prática, que isso é verdadeiro. Seria até curioso ver o que fariam para cumprir o Dt 23,1, se iriam exigir atestado médico ou fazer um exame in loco para ver se os machos da igreja estão com “tudo” no lugar.

O profeta Isaías, muitos séculos depois que as leis de Moisés foram proclamadas, exorta o povo de Israel a não contaminar-se com ritos religiosos dos povos pagãos que os rodeavam: “Se disserem: Consultai os encantadores e os adivinhos, que sussurram falando, responde: Não consultará o povo ao seu Deus? Consultará os mortos pelos vivos? À lei e ao testemunho! Se eles não falarem conforme a esta palavra, é porque não têm iluminação”. (Isaías 8:19, 20).

         Essa passagem é mais uma prova de que os mortos se comunicam, fato reconhecido por Isaías, mas que o professor nega sistematicamente, mesmo citando passagem onde isso é claro. Quem interpreta os textos à sua conveniência? Coerência é o que suplicamos.

Mas antes de entrarmos nos méritos das 10 perguntas que foram dirigidas inicialmente ao Maurício, segundo as tentativas de resposta por esse promotor “profissional” do espiritismo, vejamos alguns absurdos e contradições de seu arrazoado:

*Diz ele que se não fosse pela possibilidade de comunicação dos mortos com os vivos “não existiriam os profetas, que nada mais são do que os canais de comunicação através dos quais os mensageiros divinos transmitem as suas mensagens à dimensão física”.

De onde ele tirou idéia tão estapafúrdia?! Isso é puramente teoria EXTRABÍBLICA, e se temos que analisar as coisas biblicamente, segundo a COERÊNCIA do ensino bíblico (e creio que os nossos amigos se dispõem é exatamente a tentar provar essa coerência do ensino bíblico quanto à condição dos mortos e possibilidade de comunicação entre mortos e vivos, já que não recorreriam aceitavelmente a fontes extrabíblicas, como Allan Kardec, por exemplo), então essa afirmação é inteiramente contrária às Escrituras e não passa de uma INTERPRETAÇÃO PARTICULAR do espiritismo. Aliás, essa alegação dele não é acompanhada de nenhuma passagem bíblica que a respalde.

         Bom, meu caro professor, se você ainda está arraigado aos “coerentes” relatos bíblicos tomando-os à conta de verdade, realmente tudo que for contrário ao que está lá será mesmo “estapafúrdio”, como por exemplo: a Terra não ser o centro do Universo, que nosso planeta não tem apenas 6.000 anos, que não poderia haver dia e noite sem que antes tivesse sido criado o Sol, Adão e Eva não ser o primeiro casal humano, serpente não falar, dilúvio “universal” como algo estritamente local, Moisés não ter aberto o Mar Vermelho, Josué não ter parado o Sol, que o Sol não tenha voltado para que a sombra nos degraus da casa de Acaz retrocedesse, que a diversidade de línguas é por conta de fatores geográficos e não castigo de Deus, que não há como alguém ser arrebatado corporalmente ao céu, etc.

         Mas da mesma forma que nos acusa de ter uma interpretação particular, retribuimo-lhe a gentileza.

         Quanto aos profetas serem médiuns é só ler 1Sm 9,9, onde se afirma que: Em Israel, antigamente, quando alguém ia consultar a Deus, costumava dizer: 'Vamos ao vidente'. Porque, em lugar de 'profeta', como se diz hoje, dizia-se 'vidente'. Vidente é, dentro do conhecimento espírita, um médium, quer goste ou não. Para o Espiritismo todos os que mantiveram relações com seres espirituais (demônio, anjos, espíritos) são médiuns; isso é uma das coisas que estudamos e, com os conhecimentos atuais, podemos classificar os que aconteceram antigamente. Mas, os que não entendem desses fenômenos certamente dirão aquilo que seus conhecimentos antiquados lhes apontam.

         Oportuno dizer que a tendência humana é combater tudo aquilo de que tem medo; essa é a razão pela qual os detratores lançam seus dardos venenosos contra o Espiritismo, pois temem que as verdades espíritas acabem fazendo com que seus fiéis ou companheiros de igreja debandem para o nosso lado, secando, via dízimo, a sua fonte de recursos financeiros. Não se preocupe, pois não estamos atrás de ninguém.

*Ele vem explorar o episódio do monte da transfiguração, quando o que temos ali é um aparecimento de dois seres EM FORMA CORPÓREA, pois Elias foi assunto ao céu (e já tivemos boas discussões a respeito) e Moisés claramente ressuscitou, como também podemos demonstrar e temos demonstrado em artigos específicos. Vejam no seguinte endereço:

http://foroadventista.com/index.php/topic,163.45.html

         Uai, pensávamos que a ressurreição dos corpos só iria acontecer no final dos tempos; essa de Moisés ter ressuscitado é novidade... Aliás, em lugar algum da Bíblia encontramos essa afirmativa; e se o professor gosta de pegar as coisas ao pé da letra, não nos venha com interpretações calcadas no dogmatismo no qual vive e completamente EXTRABÍBLICO; estapafúrdio, usando de sua expressão.

         Também indicamos os nossos textos: O arrebatamento de Elias, A Carta comprometedora de Elias e Contestação ao texto: O arrebatamento de Elias.

*Também tenta explorar a parábola do rico e Lázaro, que sendo uma parábola simplesmente não serve como base de doutrinas. Talvez ele desconheça o princípio de que não se baseiam doutrinas sobre parábolas, textos simbólicos ou pouco claros e isolados. Isso também já foi amplamente discutido por nós nos seguintes endereços:

http://foroadventista.com/index.php/topic,163.30.html

http://foroadventista.com/index.php/topic,163.0.html

http://www.forumnow.com.br/vip/mensagens.asp?forum=88558&topico=2501653

         Obviamente que seria de se esperar que o professor fosse mesmo tentar sair do impasse em relação a essa passagem, apelando para o simbolismo do texto; mas logo ele que gosta de interpretar tudo de forma literal?! Vejamos o que dissemos a respeito dela:

Algumas considerações: a) que os mortos não ficam dormindo, é evidente; b) que, no outro lado da vida, os espíritos estão conscientes e podem dialogar uns com os outros; c) que, se o rico pediu a Abraão para mandar Lázaro avisar a seus irmãos, é porque se acreditava na comunicação com os mortos; d) que, no plano espiritual, os espíritos também ficam preocupados com aqueles que amam e se encontram ainda no plano físico; e) que a possibilidade dos mortos se comunicarem com os vivos é indubitável, já que Abraão não contestou isso, tendo, apenas, dito que seria muito difícil que dessem ouvidos aos mortos, uma vez que não deram ouvidos nem aos vivos, aqueles que falavam em nome de Deus.

         Esses são os argumentos aos quais o professor tenta sair pela tangente.

*Um exemplo claro de como toma textos que lhe favoreçam as idéias espíritas de um determinado livro ou autor bíblico, não só forçando o sentido para enquadrar-se ao seu molde espírita, como desconsiderando outras passagens do mesmo livro ou autor, se dá quando cita Jó 8:8-10. Bildade, o amigo de Jó, fala em consultar as antigas gerações, e o que diziam os antepassados. Ele logo salta à conclusão espírita de que isso se daria por prática de mediunidade, quando o contexto todo torna claro que o amigo de Jó está falando de pensamento tradicional, do que diriam os antepassados naquelas circunstâncias, enfim, a “tradição dos anciãos”, para usar um termo neotestamentário. Nosso amigo espírita mesmo lembra que naquele tempo os registros escritos seriam muito raros e também poucos sabiam ler. Pois é, a referência é ao que pensavam os antepassados cujo pensamento e idéias eram mantidas como sua “tradição” tribal. Deviam considerar os “ditos” dos antigos, apenas isso.

         Aí o professor quer fazer parecer outra coisa, pois em nosso texto, como sempre o fazemos, buscamos todas as passagens bíblicas que nos levam à conclusão sobre a comunicação com os mortos; essa é apenas uma delas, mas que ele quer fazer crer que somente a apresentamos, catando-a na Bíblia.

         Mas não há como negar que cada um analisa um texto de acordo com o seu conhecimento; quem, por exemplo, não acredita na comunicação com os mortos, nunca a verá em texto algum, pois sua mente está bloqueada a esse tipo de coisa.

         O que dissemos:

Tempos atrás deparamos com uma interessante passagem que nos leva também à conclusão dessa realidade, embora nela não haja nenhuma manifestação. Leiamo-la:

8. Consulte as gerações passadas e observe a experiência de nossos antepassados. 9. Nós nascemos ontem e não sabemos nada. Nossos dias são como sombra no chão. 10. Os nossos antepassados, no entanto, vão instruí-lo e falar a você com palavras tiradas da experiência deles. (Jó 8,8-10)

         O que tem isso a ver com comunicação com os mortos? “Elementar, meu caro Watson”: como, naquela época, não se tinha nada escrito, aliás de pouco adiantaria, já que o analfabetismo era dominante; assim, a única forma de se consultar as gerações passadas (observar que está no plural), para meditar sobre as palavras tiradas da experiência deles, seria consultando diretamente a seus espíritos, ou seja, comunicação com os mortos.

         Para quem não conhece o hebraico, por exemplo, os caracteres dessa língua não lhe representam nada, enquanto isso é diferente para um conhecedor desse idioma. É o mesmo que acontece em relação à comunicação com os mortos: quem tem conhecimento consegue perceber, quem não tem jamais verá isso; terá, portanto, uma verdade distorcida, ajustada somente àquilo em que acredita.

         Mas a discussão de Jó era sobre a causa do sofrimento; e se as gerações passadas podem esclarecer o porquê dele. Disso, também, poder-se-á concluir que sabiam da lei de causa e efeito (carma), no qual a expressão “somos de ontem e nada sabemos” se aplica muito bem, ou seja, nossos erros do passado são a causa de nossos sofrimentos do presente, apesar de não nos lembrarmos deles.

Agora, o próprio Jó dá é um golpe de morte sobre essa doutrina de origem pagã da imortalidade da alma em vários textos, como em 14:7-14, onde compara o homem na morte com um rio que seca, e um lago que se esgota. E em 19:25-27 onde fala de sua expectativa de encontrar o Redentor “que se levantará sobre a Terra”, e daí O veria, não quando ele morresse e seu espírito fosse libertado da “prisão” do corpo, e sim quando se desse a Ressurreição, pois é então que o Redentor Se levantará sobre a Terra.

         Vejamos o que o escritor Severino Celestino, autor do livro Analisando as Traduções Bíblicas, tem a dizer sobre algumas passagens do livro de Jó:

Texto Hebraico. Jó 14: 13 e 14

Texto hebraico transliterado

Mi iten bisheol tatspineni tastirenei ad-shuv apechá tashit li chôk vetizkreni. Im-iamut goével haichiêh kol-imei tsvaÍ aiachel 'ad-bô chalifati.

Tradução Literal

Mi=quem; iten=dera; bisheol=no sheol; tatspineni=meu abrigo; tastireni=me esconde; ad-shuv=até voltar, ou passar; apechá=a tua ira; tashit li= minha fraqueza; chôk=alvo; vetizkreni=e lembrar de mim. Im-iamut= se morre; goévél= deriva do verbo higvil=limitar; haichiêh=o renascimento, o reviver; kol-imei=todos os dias; tsvaÍ=militar; aiachel=esperarei. Incompleto da forma qal do verbo chicháh=esperar; 'ad-bô=até que venha ou chegue; chalifati=minha nova vida, minha substituição.

Tradução do Texto

"Oxalá me abrigasses no SHEOL e lá me escondesses até se passar a tua ira e me fixasses um dia para te lembrares de mim: pois se alguém morrer, tu limitas o renascimento ou reviver? Todos os dias de minha pena eu luto e espero, até que chegue minha troca (halifati)".

Há um questionamento da parte de Jó com relação ao fato de que se acreditava que os mortos impreterivelmente iriam para o Sheol e de lá não mais sairiam.

Chamamos primeiramente atenção para a pergunta que, segundo a tradução literal acima, demonstra um sentido reencarnacionista e a descrença no Sheol eterno. Primeiro ele mostra que Deus se lembraria dele. Veja a palavra (vetizkreni=lembrar de mim). Condicionada a esta lembrança está a libertação, na qual Jó acredita plenamente e prova com a pergunta: Se alguém morre, limitas o seu renascimento? Ou ainda; impedirás de reviver? Veja o verbo limitar (higvil) que dá o principal sentido da pergunta. Resumindo: Jó não acredita que Deus impedirá ou limitará o seu e o nosso renascer.

Todos os dias eu luto (tsavaí),= militar. É a luta diária, uma verdadeira luta militar por parte de quem busca vencer as imperfeições da matéria em busca de Deus. O sentido do texto é completado quando Jó afirma, com o verbo no futuro: "esperarei que chegue a minha nova vida, minha substituição ou troca (Reencarnação)".

A maioria traduz halifá como sendo alívio, mudança, soerguimento, revezamento e substituição. Observe quantos sinônimos para uma mesma palavra cujo sentido no texto é Reencarnação. Não é curioso? Os tradutores sempre procuram mascarar, com os mais diversos sinônimos, toda citação bíblica que significa Reencarnação.

Nestes versículos, Jó eleva seu coração a Deus, e a pergunta que lhe dirige é a expressão da esperança que ele acalenta no fundo da alma. Acredita e pressente a Reencarnação, a troca, a substituição. Esse pressentimento dá-lhe forças para suportar resignado as dificuldades da vida presente, esperando que chegue a sua troca, ou substituição: outra vida feliz, como resultado da expiação que sofre, ou da provação à qual se acha submetido.

Texto Hebraico. Jó 19: 25 e 26

Texto hebraico transliterado

Vaani iadá'ti goali chai veacharon 'al-'afar iakum. Veachar 'ori nikfu-zôt umibessari echézeh elohá.

Tradução Literal

Vaani= e eu; iadá 'ti=soube, completo do qal do verbo iadá'= saber; goali= meu redentor, meu salvador; chai=vive; veacharon=e no final, e depois; 'al-'afar=da poeira, da terra; iakum=me levantarei, incompleto do verbo kam-Ievantar- forma qal; veachar=e depois; 'ori= minha pele; nikfu-zôt=esta será circulada, cercada, envolvida, do verbo linekôf=circular, cercar, rodear, dar voltas; umibessari=e em minha carne; echezéh=imaginarei, pensarei incompleto do verbo leehoz, imaginar, pensar; elohá=Deus.

"E soube que vive o meu redentor, e que no último dia hei de ressurgir do pó e de novo serei envolvido com a minha pele e em minha carne imaginarei ou pensarei em Deus".

Compare a tradução da Bíblia de Jerusalém

"Eu sei que meu Defensor está vivo e que no fim se levantará sobre o pó: depois do meu despertar, levantar-me-á junto dele e em minha carne verei a Deus"(Bíblia de Jerusalém) (tradução incorreta).

Observe que embora a tradução da Bíblia de Jerusalém seja uma das melhores, deixa, em determinadas passagens, dúvidas sobre o verdadeiro sentido do texto. Observe como Jó afirma "eu soube que vive o meu salvador". Com o verbo colocado no passado, parece que ele teve uma revelação recente, eu soube.

Observamos um forte sentido de certeza no retorno à matéria, demonstrado nesses versículos. Observe a tradução literal e acompanhe: "eu soube, meu salvador vive" - goali chai. No final da vida me levantarei (iakum) e em minha pele ('ori) e em minha carne (umibessari) pensarei em Deus. Aqui se completa o sentido da revelação recente.

O pressentimento da Reencarnação se converteu em certeza, quase em evidência, no ânimo de Jó. Ele já sabe que ressurgirá de novo na terra, envolto na sua pele e com um corpo carnal, no qual verá a misericórdia do seu Deus, concedendo-lhe outra vida de prova para conquistar, pelos seus merecimentos, um grau mais elevado de felicidade e perfeição. Isto será realizado, quando agarrados aos ensinamentos divinos, pudermos caminhar em seus preceitos.

Texto Hebraico. Jó 21: 17

Texto hebraico transliterado

Camáh nêr-resha'im id'ách veiavô 'aleimô eidam.

Tradução Literal

Camá=quanto; nêr=candeia, vela; resha'im= dos perversos, dos maldosos; id'ách=seu conhecimento; veiavô= e virá, incompleto da forma qal do verbo = vir; 'aleimô= sobre eles; eidam= desgraça, calamidade.

Tradução do Texto

"Quantas vezes se apagará a candeia dos perversos e lhes sobrevirá a calamidade ou colheita do mal ou infelicidade?"

A Bíblia de Estudo Pentecostal14, revista e corrigida, edição de 1995, traz a seguinte tradução para Jó 21: 17: "Quantas vezes sucede que se apaga a candeia dos ímpios, e se lhes sobrevém a destruição? E Deus, na sua ira, lhes reparte dores!" (Tradução incorreta).

Análise a tradução do texto acima e observe que a palavra destruição está muito forte na tradução do versículo, pois Deus não destrói ninguém. Por isso, com a certeza da chance de um recomeço, a palavra melhor para o texto é colheita do mal, ou infelicidade.

Os ímpios, perversos ou maldosos, que permanecem no erro, verão apagada, repetidas vezes, a vela, candeia ou chama (nêr em hebraico) da sua vida de erros, até que se arrependam e procurem o caminho de Deus. Através de conhecimentos (id'ách) que lhes tragam uma nova verdade, voltarão ao mundo espiritual, freqüentemente, para expiarem, pelo remorso, as obras do seu iníquo coração e depois renascerem na vida corporal para repararem os males cometidos em suas anteriores existências. Morrerão e renascerão, inúmeras vezes, até que tenham sufocado em sua alma a iniqüidade e o desejo de infringir a lei da consciência e do dever.

Para concluir o livro de Jó, apresentamos uma completa notícia da Reencarnação encontrada no capítulo 33: 21-30 do seu livro: "Consome-se sua carne, desaparecendo da vista, expondo os ossos que antes não se viam. Sua alma aproxima-se da sepultura, e sua vida do jazigo dos mortos, a não ser que encontre um Anjo favorável, um Mediador entre mil, que dê testemunho de sua retidão, que tenha compaixão dele e diga: Livra-o de baixar à sepultura, que encontrei resgate para sua vida; e sua carne reencontrará a força juvenil e voltará aos dias de sua juventude. Suplicará a Deus e será atendido, contemplará com alegria sua face. Anunciará aos homens sua justificação, cantará diante deles e dirá: Pequei e violei a justiça: e Deus não me tratou de acordo com a minha culpa. Salvou minha alma da sepultura. e minha vida se inunda de luz. Tudo isso faz Deus duas ou três vezes ao homem. para tirar sua alma da sepultura e iluminá-lo com a luz da vida"

Observe que todo este trecho refere-se à misericórdia divina dando uma nova chance àquele que errou. O último versículo grifado confirma, ainda, que Deus salva nossa alma da sepultura, duas ou três vezes, inundando-a de luz. "Duas ou três vezes" é um número simbólico que significa quantas vezes seja necessário até a nossa completa evolução.

O ZÔHAR esclarece o versículo 28, “Ele libertou a sua alma e ela não desce à cova”, afirmando que se a alma está manchada de pecados e erros. Ele recusará designar-lhe o mesmo corpo utilizado anteriormente, do qual para sempre ela fica privada, a menos que o seu Senhor lhe conceda a sua graça e reconduza ao corpo (por transmigração ou Reencarnação), pois “Ele permitirá que seja liberta”. (DA SILVA, S. C. Analisando as traduções bíblicas, João Pessoa: Idéia, 2001, pp. 174-180). (grifos do original).

É deveras interessante a “coerência” do professor ao dizer que a imortalidade da alma é doutrina de origem pagã, porquanto, existem muitas outras coisas na Bíblia que também são de origem pagã, mas que você faz vista grossa, já que não contrariam o seu dogma. Vejamos algumas:

a) criação do mundo/dilúvio

[...] Ao contrário, hoje nenhum exegeta se recusa mais em reconhecer, por exemplo, que a narrativa bíblica do dilúvio coincide com a que aparece no poema de Gilgamesh, muitos séculos mais antigo; ou que o relato genesíaco da criação não é alheio ao imaginário mitológico do Enuma Elish, igualmente anterior. (QUEIRUGA, A. T. Repensar a Ressurreição, São Paulo: Paulinas, 2004, p. 72). (grifo nosso).

b) paraíso

[...] Um velho termo, paraíso, que o hebreu, como todas as línguas do Oriente, havia tomado emprestado da Pérsia, e que designava primeiramente os parques dos reis arquemênidas, resumia o sonho de todos: um jardim delicioso onde haveria para sempre a vida encantadora quenão se levava cá embaixo.46 (RENAN, E. Vida e Obra de Jesus, São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 223). (grifo nosso);

d) satã

A primeira menção de Satã na qualidade de acusador oficial num tribunal aparece, portanto, em Zacarias 3,1-5, datada de 520-518. Esse texto, escrito sem dúvida pouco após a volta dos hebreus exilados da Babilônia a Jerusalém, mostra a influência que os babilônios tiveram sobre os autores judeus. (CRETÉ, L. Satã, o anjo caído, História Viva – Grandes Temas – nº 12, São Paulo; Duetto, s/d, p. 13). (grifo nosso).

Sob a influência das doutrinas de Zaratustra, os judeus começaram a crer na existência dum espírito que procurava desfazer a obra de Jeová. E a esse adversário deram o nome de Satã.

Passaram a odiá-lo e temê-lo, e no ano 331 convenceram-se de que Satã andava pela terra. (VAN LOON, H. W., A História da Bíblia, São Paulo: Cultrix, 1951, p. 122). (grifo nosso).

e) fim dos tempos, terra um novo mundo, prisão de satã

[...] A Pérsia, desde uma época remota, concebeu a história do mundo como uma série de evoluções, cada uma delas presidida por um profeta. Cada profeta tem seu hazar, ou reino de mil anos (quiliasmo), e dessas idades sucessivas, análogas aos milhões de séculos decorridos de cada buda da Índia, se compõe a trama dos acontecimentos que preparam o reino de Ormuz. No final dos tempos, quando o círculo de quiliasmos se houver cumprido, virá o paraíso definitivo. Então os homens viverão felizes. A terra será como uma planície; haverá uma só língua, uma única lei e um único governo para todos os homens. Entretanto, Esse acontecimento será precedido por terríveis calamidades.

Dahak (o satã da Pérsia) romperá os grilhões que o acorrentam e se abaterá sobre o mundo. (RENAN, E. Vida e Obra de Jesus, São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 119). (grifo nosso).

f) precursores do messias

[...] Essa idéia de dois antigos profetas ressuscitando para servir de precursores do Messias é encontrada de forma tão marcante na doutrina dos parses, que se é levado a crer que ela se originou na Pérsia. (RENAN, E. Vida e Obra de Jesus, São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 228). (grifo nosso).

g) nascimento sobrenatural do messias

[...] Acrescentamos que, durante os três primeiros séculos, frações consideráveis do cristianismo negaram obstinadamente a descendência real de Jesus e a autenticidade das genealogias. Dessa forma, sua lenda foi o fruto de uma grande e espontânea conspiração e se construiu em volta dele enquanto vivo. Nenhum grande acontecimento da história se passou sem que desse motivo para um ciclo de fábulas. Jesus não pode, mesmo querendo, interromper essas criações populares. Talvez um olhar sagaz teria sabido reconhecer desde então a origem dos relatos que deviam lhe atribuir um nascimento sobrenatural, seja por causa dessa idéia, bastante difundida na Antiguidade, de que o homem fora do comum não pode ter nascido de relações comuns entre dois sexos, seja para responder a um capítulo mal entendido de Isaías, onde se pensava ler que o Messias nasceria de uma virgem, seja, enfim, em conseqüência da idéia de que o “sopro de Deus”, instituído em substância divina, é um princípio de fecundidade. (RENAN, E. Vida e Obra de Jesus, São Paulo: Martin Claret, 2004, pp. 258-259). (grifo nosso).

h) ressurreição da carne

Os egípcios acreditavam que o corpo ressuscitaria magicamente do outro lado da vida por meio de um ritual chamado de ‘abertura da boca’. O sacerdote ou alguém da família tocava a boca do morto com um instrumento de metal para que ele pudesse ter uma boa passagem para o outro mundo e conseguisse pronunciar as palavras necessárias na hora do julgamento. (FELIPPE, C., O Egito que revivia os mortos, Revista das Religiões, São Paulo, Ed. 2, ago. 2003, pp. 40-45). (grifo nosso)

(...) Mas, para os egípcios, havia algo de maior significado que se expressava na preservação de bens valiosos dos mortos e construções de obras de estrutura física, que poderiam garantir uma outra vida além da morte, de muita fortuna. Para eles, após o falecimento do corpo, o morto de qualquer classe social teria uma existência semelhante à da Terra, mas sem os problemas e as necessidades desta.

A morte, para os egípcios, tinha um especial interesse. Havia entre eles uma crença absoluta no renascer dos mortos. Por isso, a preocupação em preservar o cadáver e o desenvolvimento da técnica de mumificação. De acordo com sua religião, a alma precisava de um corpo para morar por toda a eternidade.

Se a vida poderia durar eternamente, desde que a alma encontrasse no túmulo o corpo destinado a servir-lhe de morada, era preciso, portanto, preservar suas características físicas. Essa necessidade religiosa fez com que os egípcios desenvolvessem a técnica de mumificação. (OS EGÍPIOS e os rituais de morte, A Magia do Egito, nº 01, São Paulo, pp. 46-50, s/d). (grifo nosso).

i) juízo final/paraíso/segunda morte

No mundo dos mortos, os egípcios eram julgados pelo deus Osíris e seus 42 assessores. Diante de cada juiz, o defunto declarava não ter passado por determinada infração. Seu coração era pesado numa balança. ‘Se pesasse mais que a pluma da justiça de Maat, a deusa da ordem universal, o morto seria engolido por um monstro em forma de crocodilo, leão e hipopótamo e teria, assim, uma morte definitiva, deixando por completo de existir’. (...) (FELIPPE, C., O Egito que revivia os mortos, Revista das Religiões, São Paulo, Ed. 2, ago. 2003, pp. 40-45). (grifo nosso).

Tão logo falecia, a pessoa tinha de ser submetida a um julgamento pelo chamado Tribunal dos Deuses, uma espécie de justiça divina, presidido pelo deus Osíris.

Segundo o ritual, o morto prostrava-se diante das autoridades celestiais e fazia uma espécie de confissão, na qual declarava que não cometera más ações durante sua vida.

No centro, aparece o deus Anúbis, com cabeça de chacal, que faz a pesagem na balança – no prato, à direita, aparece o coração do morto, sede da consciência e onde estavam registradas suas ações na terra; no prato esquerdo, há uma pena, símbolo de Maat, a deusa da verdade: á direita, encontra-se Toth, que anota num papiro os resultados das pesagens.

Se a pesagem constatar que o coração teve peso mais leve que a verdade, isso significava que o espírito não estava proferindo uma mentira quando afirmou que levou uma vida justa e respeitosa. Por isso, o tribunal posicionava-se que o mesmo estava apto a conquistar a vida eterna no paraíso. (A Cultura Egípcia Antiga, A Magia do Egito, nº 01, São Paulo: Escala, s/d, pp. 46-50). (Grifo nosso).

O julgamento final era a prova de fogo para que a pessoa morta alcançasse, finalmente, a vida eterna.

No julgamento final, o morto deveria provar que foi verdadeiro e justo durante a vida, sem ter faltado com a verdade.

Se a pessoa não passasse pelo julgamento final, estaria condenada a uma espécie de coma perpétuo, ou seja, teria então uma segunda morte porque, agora, o acesso à eternidade estaria vedado. (A Cultura Egípcia, Antiga, A Magia do Egito, nº 01, São Paulo: Escala, s/d, pp. 6-17).

h) Trindade

Os deuses [Egípcios] costumavam ser divididos em grupos, geralmente em tríades compostas por duas divindades adultas e uma jovem. Assim, por exemplo, existe a tríade de Tebas, que compreende Amon-Rá, Mut e Khons, divindades dos três principais templos de Karnak. (A Cultura Egípcia Antiga, A Magia do Egito, nº 5, São Paulo: Escala, s/d, pp. 14-21).

Muitas coisas mais poderiam ser listadas, mas para o que pretendemos essas bastam. Qualquer semelhança entre algumas coisas aqui colocadas com aquilo que o professor crê, não é mera coincidência, é doutrina de origem pagã mesmo.

Entretanto, muito pior que isso, são fatos que não correspondem à realidade, narrados por conta da ficção literária do autor, o que compromete sobremaneira a tese de que a Bíblia é a palavra de Deus, e você certamente acredita, como, por exemplo, a conquista de Jericó. Vejamos:

Js 6,1-5: Jericó estava rigorosamente fechada por causa dos israelitas. Ninguém saía e ninguém entrava. Quando derem um toque prolongado, quando ouvirdes o som da trombeta, todo o povo lançará um grande grito; o muro da cidade virá abaixo, e o povo subirá, cada um à sua frente.

         Explicações para o fato:

6.1: O relato da tomada de Jericó é uma espécie de modelo da estratégia usada na conquista das cidades-estado de Canaã. Na ocasião da conquista, Jericó não tinha muralhas, e talvez já nem fosse habitada, pois tinha sido destruída fazia dois séculos. Provavelmente, foi nesse lugar que começou a ser celebrada a representação ritual de uma guerra santa com pormenores litúrgicos (arca, procissão, sacerdotes, sete dias, toque de trombeta) e guerreiros (arca, guerreiros, grito de guerra, toque de trombeta). (Bíblia Sagrada Paulinas, p. 247).

6,1: Por ocasião da conquista, Jericó não tinha muralhas e talvez nem fosse habitada, pois já fora destruída há dois séculos. Temos aqui uma comemoração festiva de caráter litúrgico (arca, procissão, sacerdotes, 7 dias, grito, toque de trombeta) e guerreiro (arca, tropas de guerra, grito, toque de trombeta, talvez a representação ritual de uma guerra santa. O tema central é a conquista maravilhosa da cidade: Deus venceu o inimigo para dar a Terra ao seu povo. (Bíblia Sagrada Vozes, p. 241).

Teria ela [Jericó] caído vítima de quaisquer conquistadores, posteriormente integrados ao reservatório humano chamado “Israel” e cujas conquistas acabaram por passar para a Bíblia, conforme o relato bíblico da “tomada da terra”? Se, de fato, somente na época da “tomada da terra”, ou seja, em meados ou fins do século XIII a.C., os israelitas alcançam Jericó, então nem precisavam conquistá-la, pois ela já havia sido abandonada por seus habitantes! (KELLER, W. ... e a Bíblia tinha razão. São Paulo: Melhoramentos, 2000, p.180)

Jericó estava entre as mais importantes. Como já observamos, as cidades de Canaã não eram fortificadas, e não existiam muralhas que pudessem desmoronar. No caso de Jericó, não havia traços de nenhum povoamento no século XIII a.C., e o antigo povoado, da Idade do Bronze anterior, datando do século XIV a.C., era pequeno e modesto, quase insignificante, e não fortificado. Também não havia nenhum sinal de destruição. Assim, a famosa cena das forças israelitas marchando ao redor da cidade murada com a Arca da Aliança, provocando o desmoronamento das poderosas muralhas pelo clangor estarrecedor de suas trombetas de guerra, era para simplificar, uma miragem romântica. (FINKELSTEIN I e SILBERMAN, N. A. A Bíblia não tinha razão, São Paulo: Girafa, 2003, p. 119)

Apesar de tudo isso, nós ainda encontramos fundamentalistas que continuam advogando a realidade dessa conquista, buscando uma causa milagrosa: “A queda dos muros de Jericó não se deveu nem ao grito de guerra, nem ao som das trombetas, e não se pode explicar senão como um milagre. Portanto, toda outra interpretação deve ser rejeitada como falsa e arbitrária (Hebr. 11,30). O autor quer fazer ressaltar a intervenção divina”. (Bíblia Sagrada Paulinas, p. 225). Eh! realmente, as pessoas acreditam naquilo que querem.

Aliás, é bom transcrevermos um pensamento fantástico de Renan, visto que o assinaríamos embaixo:

Eu escrevo para propor minhas idéias aos que buscam a verdade. Quanto às pessoas que necessitam, no interesse de sua crença, que eu seja um ignorante, um espírito falso ou um homem de má-fé, não tenho a pretensão de modificar seus julgamentos. Se essa opinião é necessária ao sossego de algumas pessoas piedosas, terei o maior escrúpulo em desiludi-las. (RENAN, E. Vida e Obra de Jesus, São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 18).