Ciência e
Espiritismo:
Um Alerta de
Allan Kardec e André Luiz
Alexandre Fontes da
Fonseca
afonseca@rutchem.rutgers.edu
http://www.terraespiritual.locaweb.com.br/espiritismo/artigo89.html
Tanto Allan Kardec quanto André Luiz reconhecem o caráter complementar
entre a Ciência e o Espiritismo. Porém eles orientam quanto aos cuidados e
precauções na pesquisa espírita ligada à Ciência.
“O Espiritismo e a
Ciência se complementam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha
na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao
Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação”[1].
Por essas palavras de Kardec
no ítem 16 do Cap. I, em A
Gênese, muitas pessoas podem imaginar que o Espiritismo necessita da
Ciência para ser comprovada. Porém uma análise mais profunda[2-4]
mostra que o Espiritismo é uma Ciência legítima cujo valor não necessita do
aval das outras ciências. Além disso, uma explicação para essa afirmativa de Kardec aparece em seguida à frase acima, no mesmo ítem do Cap. I de A Gênese[1]:
“O estudo
das leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade, porque a matéria é
que primeiro fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das
descobertas científicas, teria abortado, como tudo quanto surge antes do
tempo.” Kardec, assim, explica a dependência que o Espiritismo teve
com o desenvolvimento das ciências materiais. Elas deveriam vir antes de
modo que as idéias pudessem ser preparadas para o advento do Espiritismo.
No ítem 18 do Cap. I do mesmo livro[1], Kardec
afirma: “O
Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos elementos constitutivos do
Universo, toca forçosamente na maior parte das ciências; só podia, portanto,
vir depois da elaboração delas; nasceu pela força mesma das coisas, pela
impossibilidade de tudo se explicar com o auxílio apenas das leis da matéria.”.
Desta forma fica claro que não são os conceitos
da Física, Química e Biologia que devem confirmar ou comprovar os princípios
básicos do Espiritismo. Isso está presente nas seguintes palavras de Kardec no ítem VII da Introdução
de O Livro dos Espíritos[5]: “A Ciência, propriamente
dita, é, pois, como ciência, incompetente para se pronunciar na questão do
Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que seja o seu
julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter.”
No entanto, mesmo conhecendo essas afirmativas,
ao nosso ver, muito claras de Kardec, vários irmãos
nossos têm conferido enorme valor a resultados de pesquisas científicas,
mormente na área de Física, como sendo resultados que comprovam os
princípios espíritas quando, uma análise mais séria e profissional nos mostra que
isso não é verdade. Existe, não só no meio espírita, uma excessiva valorização
da Física Quântica como sendo a teoria científica que vai confirmar a
existência de Deus e/ou do Espírito. Confrades
valorosos, entusiasmados com as perplexidades que a Física Moderna apresenta,
agem, sem o saberem, de forma imprudente ao supervalorizarem algumas teorias da
Física como favoráveis ao Espiritismo. Um exemplo é a afirmativa de que “A
Física Quântica está em busca da partícula divina”. Cita-se
mesmo cientistas premiados com o Nobel, como o Dr. Leon Lederman
que afirma que a ciência está “procurando a partícula divina” a partir
da qual todas as outras seriam constituídas. O que não se percebe é que estes
cientistas não estão procurando Deus mas sim estão querendo encontrar a
partícula que seja a “causa primária” de todas as
outras o que eliminaria, por sua vez, a idéia da necessidade de um
Criador Divino.
Recentemente, no IV Congresso Nacional da
Associação Médico Espírita do Brasil, ocorrido em São Paulo, entre os dias 19 e
20 de junho de 2003, um conferencista internacional, Prof. Dr. Amit Goswami, foi convidado para
proferir palestra sobre a Física Quântica. Apesar de ser muito importante
conhecer as pesquisas de cientistas internacionais, o movimento espírita deve
receber as propostas do Prof. Goswami
com cautela, antes de considerar suas idéias como sendo espíritas. Em
seu recente livro intitulado O Universo Autoconsciente[6], o Prof. Goswami propõe a
existência de uma consciência maior como solução para os paradoxos que os
fenômenos quânticos apresentam. Uma característica dessa consciência é ser de
caráter coletivo. É importante frisar que as propostas do Prof.
Goswami ainda não foram aceitas pela comunidade
científica. Porém ele tem recebido apoio dos grupos espiritualistas em geral.
Mesmo sendo uma proposta embasada de forma mais séria nos conhecimentos
científicos, a interpretação do Prof. Goswami não considera a existência da nossa consciência
individual. A Doutrina Espírita é clara a esse respeito: “Os Espíritos são a
individualização do princípio inteligente...”(questão 79 de O Livro dos
Espíritos[5]). É preciso estudar e analisar como o espírito se
caracterizaria perante essa consciência maior e se as propostas dele estão em
desacordo com outros princípios espíritas. Esse estudo necessita ser feito antes
de afirmarmos que a proposta dele “prova” alguma idéia espírita.
O problema dessas propostas e das teorias da
Física Moderna como a Teoria das Supercordas e o
Modelo Padrão é o alto nível de teoricidade desses
modelos. É muito difícil, para não dizer quase impossível, verificar-se
experimentalmente os resultados destas teorias. Existe uma expectativa de se
encontrar uma “Teoria Final” ou “Teoria de Tudo” que fosse
absoluta no sentido de ser a base da existência de
tudo no universo. Num recente artigo[7] publicado na
Revista Brasileira de Ensino de Física, uma pesquisa foi realizada com a
comunidade de físicos brasileiros sobre o que eles pensam a respeito dessas
teorias “Final” e “de Tudo”. Os resultados mostraram que a
maioria dos físicos brasileiros não concorda com a existência de uma teoria
absoluta para tudo. Se os físicos, que são os profissionais no assunto, não
aceitam ainda essas teorias de forma absoluta, como é que nós espíritas podemos
dar crédito a elas? Se essas teorias ainda são de difícil comprovação
experimental, como nós espíritas podemos nos basear nelas para afirmar, por
exemplo, que “o espaço -tempo negativo corresponde ao mundo espiritual”?
Isso tudo, sem contar que essas teorias modernas em Física estão constantemente
sendo renovadas e alteradas enquanto que não procuramos sequer saber sobre por
que o Espiritismo permanece intacto ao longo dos seus quase 150 anos[8].

Citamos, mais uma vez Kardec
no ítem 14 do Cap. I de A
Gênese[1]: “Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma
forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental.(...) É, pois,
rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e
não produto da imaginação. As ciências só fizeram progressos importantes
depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então,
acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que
o é também às coisas metafísicas.”(grifos nossos).
E ainda no ítem VII da
Introdução de O Livro dos Espíritos[5]: “Desde que a Ciência sai
da observação material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar,
o campo está aberto às conjeturas. Cada um arquiteta o seu sistemazinho, disposto a sustentá-lo com fervor, para
fazê-lo prevalecer. Não vemos todos os dias as mais opostas opiniões serem
alternativamente preconizadas e rejeitadas, ora repelidas como erros absurdos,
para logo depois aparecerem proclamadas como verdades incontestáveis? Os
fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos juízos, o argumento sem réplica.
Na ausência dos fatos, a dúvida se justifica no homem ponderado.” (grifos nossos)
Essas duas citações mostram claramente que Kardec sempre priorizou o método experimental como
reveladora da verdade. Teorias, por mais bonitas e engenhosas, serão sempre
teorias se não puderem explicar e prever os fatos. Utilizar-se de teorias
físicas ainda muito teóricas para confirmar o Espiritismo é agir de forma
precipitada e contrária ao que ensinou Allan Kardec.
Acredito que muitos irmãos nossos no movimento
espírita se motivaram a procurar relações entre o Espiritismo e essas teorias
devido, também, ao trabalho de André Luiz. O que não se percebeu, foi que André
Luiz foi muito cauteloso em apresentar suas idéias. Estamos falando a respeito
do livro Mecanismos da Mediunidade[10]. Neste
livro, André Luiz propõe a explicação para os mecanismos dos processos
mediúnicos utilizando-se os conceitos mais modernos de Física, à época da 1a.
edição do livro. O que acreditamos ter escapado à análise da maioria das
pessoas, foram os cuidados que André Luiz deixou claro no prefácio escrito por
ele, intitulado “Ante a Mediunidade”. No oitavo parágrafo, André Luiz
afirma: “(...)
Aliás, quanto aos apontamentos científicos humanos, é preciso reconhecer-lhes o
caráter passageiro, no que se refere à definição e nomenclatura, atentos
à circunstância de que a experimentação constante induz os cientistas de um
século a considerar, muitas vezes, como superado o trabalho dos
cientistas que os precederam.”(grifos nossos).
E acrescenta no parágrafo seguinte que: “Assim, as notas dessa
natureza, neste volume, tomadas naturalmente ao acervo de informações e
deduções dos estudiosos da atualidade terrestre, valem aqui por vestimenta necessária,
mas transitória, da explicação espírita da mediunidade, que é, no
presente livro, o corpo de idéias a ser apresentado.”(grifos nossos).
Percebe-se claramente que André Luiz não afirma
que os conhecimentos científicos atuais sejam a solução definitiva para os
mecanismos da mediunidade. Muito menos, André Luiz os considera como prova
científica da mediunidade. Ele utiliza os conhecimentos científicos como forma
didática para melhor explicar os mecanismos dos processos mediúnicos. Nesse
aspecto, essa utilização foi necessária. Mas deixou claro que, no
futuro, com o desenvolvimento da Ciência, novas formas de entendimento da
mediunidade poderão surgir. Nesse aspecto, essa utilização é transitória.
Assim, percebemos que André Luiz foi muito
cauteloso nesse trabalho de utilizar-se dos conceitos científicos na explicação
de um fenômeno espírita. É importantíssimo que esse exemplo de cuidado seja
tomado por todos nós espíritas na divulgação dos estudos e pesquisas que
envolvam o conhecimento científico.
A humanidade realmente carece dos conhecimentos
espirituais e todo esforço é nobre no sentido de mostrar que esses
conhecimentos são verdadeiros. Por isso, não desejamos desestimular o estudo e
pesquisa em tópicos espíritas relacionados a tópicos científicos. Enfatisamos que é preciso redobrar os cuidados no nosso
trabalho de divulgação destas pesquisas que levarão o adjetivo de espíritas.
É necessário que exista conhecimento profissional no tema que se deseja
trabalhar. Isto pois, justamente os profissionais de cada área é que saberão
avaliar se a pesquisa está sendo realizada com o mesmo rigor que um tema
puramente material teria. Por outro lado, se algo é uma opinião, ele deve ser
divulgado como opinião e não como verdade científica. Além disso, toda idéia deve
ser divulgada com a sua devida explicação para que os leitores apreciem o seu
valor. O fato de uma idéia se relacionar com um assunto científico não
significa que ela seja uma verdade científica. O fato de uma pessoa ser
cientista não significa que suas idéias serão verdades científicas. André Luiz
teve esse cuidado ao dizer que se utilizará dos
conhecimentos científicos como “vestimenta necessária, mas transitória”
na explicação dos mecanismos da mediunidade. Por fim, não se esqueça o leitor
que os olhos da crítica são altamente especializados.
O movimento espírita sofre quando idéias
prematuras, ingênuas, pseudo-científicas são
divulgadas como verdades e que, ainda, são ditas comprovar o Espiritismo.
Portanto, vamos tomar mais cuidado com relação aos tópicos ligados não só à
Física mas à Ciência como um todo.
Aproveitamos para sugerir às editoras espíritas
a criação de mecanismos que permitam a análise de todo o conteúdo daquilo que
for submetido para publicação em livro ou revista. Que não seja só o ponto de
vista doutrinário a ser analisado, mas também o ponto de vista técnico e
científico de acordo com cada caso. Não se trata de censura e, sim, de zelo por
aquilo que receberá o adjetivo de espírita. Mais uma vez, nas palavras
de Kardec[11]: “(sobre
comunicações mediúnicas): Em grande número encontramo-las notoriamente más, no fundo e na
forma, evidente produto de Espíritos ignorantes, obsessores
ou mistificadores(...). Publicá-las teria sido dar armas à crítica.
(...) O que dizemos não é para desencorajar de fazer publicações. Longe disso.
Mas para mostrar a necessidade de escolha sine qua non do sucesso. (...)
Todas as precauções são poucas para evitar as publicações lamentáveis. Em tais
casos, mais vale pecar por excesso de prudência, no interesse da causa.”(Grifos nossos).
Uma sugestão seria fazer o que todas as
revistas científicas internacionais fazem: cada artigo submetido para
publicação é enviado a, pelo menos, um assessor anônimo,
especialista no assunto que o artigo trata, para fazer uma análise.
Acreditamos ser esse um passo extremamente necessário e útil para que a evolução e divulgação das idéias espíritas possa ocorrer
dentro de maiores padrões de qualidade. Chamo Kardec
para concluir esta matéria: “é preferível rejeitar 10 verdades do que aceitar uma só
mentira.”(*)[12].
O autor é Doutor em Física pela UNICAMP e “Post-Doc”
no Intituto de Física da USP. Atualmente, o autor
está trabalhando como “Short -term Post-Doc” no Departamento de Química de Rutgers,
The State University of New Jersey, EUA.
Nota:
(*) Esta
frase é de Erasto, in O Livro dos Médiuns, cap. XX, item 230. (Nota de A ERA DO ESPÍRITO)
Referências
[1] A. Kardec, A Gênese, Editora FEB, 36a. Edição, (1995).
[2] S. S. Chibeni, Reformador, Dezembro, p.373 (1988).
[3] S. S. Chibeni, Revista Internacional de Espiritismo, Março,
p.45 (1991).
[4] S. S. Chibeni, Reformador, Junho, p.176 (1994).
[5] A. Kardec, O Livro dos Espíritos,
Editora FEB, 76a. Edição, (1995).
[6] A. Goswami, O Universo Autoconsciente,
Editora Rosa dos Tempos, 4a. Edição (2001).
[7] A. Zylbersztajn, Revista Brasileira de Ensino de Física, Vol. 25,
p. 1 (2003). Essa revista é acessível via internet
através do site: http://www.sbf.if.usp.br/rbef
[8]
Recentemente, no artigo da referência [9], tivemos a oportunidade de comentar
sobre a fragilidade do Modelo Padrão diante da descoberta de que o “neutrino”
tem massa, discutindo as razões da solidez d a Doutrina Espírita.
[9] A. F. da
Fonseca, Revista Internacional de Espiritismo, março, p. 93 (2003).
[10] A. Luiz,
Psicografia de F. C. Xavier, Mecanismos da Mediunidade, Editora FEB,
11a. Edição (1990).
[11] A. Kardec, Revista Espírita 5, p. 153, (1863).
[12] A. Kardec, Revista Espírita 8, p. 257, (1861).
REVISTA INTERNACIONAL DE ESPIRITISMO, ANO LXXVIII, N. 9 (Outubro), p. 476,
(2003).
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