1. COMPROVAÇÃO CIENTÍFICA VERSUS CARACTERÍSTICA CIENTÍFICA
Quando a questão é avaliar o valor científico de um
determinado assunto, muitas pessoas imaginam que é suficiente que ele envolva
conceitos ou expressões de algumas ciências para que seu valor seja científico.
Isso, porém, reflete o desconhecimento sobre como a Ciência se desenvolve e
sobre como os cientistas trabalham.
Existem duas questões parecidas, mas de consequências
diferentes, que precisam ser esclarecidas no momento atual em que o Movimento
Espírita está super-valorizando os estudos de caráter científico. Uma delas é a
seguinte: por quê o Espiritismo pode ser considerado uma disciplina
científica? A outra é: o que torna uma pesquisa qualquer válida
cientificamente perante a sociedade, nos dias de hoje? Pode parecer que
ambas as questões estão intimamente ligadas mas, conforme veremos adiante, uma
coisa, não necessariamente, leva à outra, isto é, não é o fato de reconhecermos
o Espiritismo como possuindo características científicas que o torna aceito
como tal pela sociedade.
Nas aulas 1 e 2 (Boletins 483 e 484), discutimos as
características gerais de uma disciplina científica, de acordo com a Filosofia
da Ciência. O Prof. Chibeni [1,2]
demonstrou que o Espiritismo possui todos requisitos necessários para ser
considerado uma disciplina científica. Em resumo, isso significa que ela possui
um núcleo central, um cinturão de tópicos de estudo que faz a conexão entre o
núcleo e a realidade, e regras de desenvolvimento da disciplina científica.¹
Além disso, o Movimento Espírita conta com uma “comunidade” de estudiosos e
pesquisadores que trabalham no desenvolvimento e esclarecimento da Doutrina
Espírita.
Portanto, o reconhecimento, hoje, de que a Doutrina Espírita possui um aspecto
científico não decorre somente do fato de Kardec ter afirmado isso, mas porque
ela satisfaz todas as exigências de uma disciplina científica, de acordo com os
conceitos mais amplos em Filosofia da Ciência.
Vamos agora analisar a outra questão. O que confere
valor científico a um determinado trabalho de pesquisa, perante a sociedade?
O paradigma de cada disciplina científica,
representado por seu núcleo central, define os padrões de rigor e as
metodologias que devem ser seguidas para validar ou confirmar um trabalho de
pesquisa. Isso é estudado e aprendido no processo de formação do cientista que,
nos dias de hoje, ocorre em sua grande maioria nos chamados cursos de mestrado
e doutorado, sendo este último de maior valor.²
Após a conclusão do trabalho de pesquisa é preciso divulgá-lo para a comunidade
científica ou de pesquisadores da área em questão. A forma mais comum de
divulgar o resultado ou produto final de um trabalho de pesquisa é a publicação
de um ou mais artigos científicos em revistas científicas de circulação
nacional ou internacional (nas aulas 3 e 4, Boletins 485 e 486,
respectivamente, falamos sobre a divulgação das pesquisas científicas e sobre o
método de análise por pares). Outras formas de avaliação e divulgação do
produto final de uma pesquisa são a criação de novas tecnologias e patentes.
Uma característica das publicações científicas que
algumas pessoas consideram uma desvantagem, é o caráter elitista das mesmas.
Somente os cientistas de cada área tem capacidade de ler e entender um artigo
científico escrito em linguagem bastante técnica ou matemática. Devido a essa
dificuldade, existem os periódicos e livros de divulgação científica que, como
dito na aula 6 (Boletim
488), de um lado apresentam os resultados das pesquisas científicas em
linguagem mais acessível ao público leigo, mas por outro, perde em precisão nos
conceitos divulgados.
Porém, as vantagens deste tipo de publicação são
muitas. Uma delas é a seguinte. Imagine que algum cientista, por intuição ou
genialidade própria, visualize um novo tipo de remédio para uma determinada
doença. Por mais que ele realize todos os testes e experimentos exigidos pela
área médica, jamais esse novo remédio receberá da comunidade científica o apoio
para ser utilizado no tratamento da doença, se ela não tomar conhecimento deste
trabalho de pesquisa. Somente um grupo de médicos especialistas no assunto da
pesquisa podem avaliar se a pesquisa foi feita de modo correto e completo. Para
isso, eles precisam conhecer os detalhes técnicos do trabalho e somente a
revista científica fornece esse espaço para esse tipo de divulgação de teor
técnico. Assim, os trabalhos de pesquisa devem ser publicados em revistas
internacionais de cada área para que possam ser analisados, avaliados e
reproduzidos.
Isso não se trata de capricho individual. Essa é a forma pela qual a comunidade
científica desenvolveu o processo de divulgação dos trabalhos científicos.
Podemos, agora, analisar o seguinte questionamento que
consideramos muito justo: será que o valor científico de um determinado assunto
só existirá se o mesmo for publicado em uma revista científica? Isso não seria
elitismo ou preconceito; ou ainda, não seria isso uma forma de limitar os
tópicos de pesquisa considerados como válidos pela sociedade?
A resposta que, particularmente, considero mais justa
é primeiro considerar que no ponto de vista filosófico mais amplo, muitas
coisas podem ser consideradas como “científicas” ou possuindo um valor
científico. Por exemplo, o filósofo norte americano Ken Wilber, em seu livro
entitulado Quantum Questions [4]
analisa, sob um certo ponto de vista menos rigoroso filosoficamente, o problema
sobre a validade científica de uma área do conhecimento diferente como a
religião. Ele propõe que o problema se situa na distinção entre “ser dogmático”
ou não “ser dogmático”, isto é, se o conhecimento é acessível a terceiros
através de um “treinamento” e “estudo”, ou se ele é imposto como válido. Nesse
aspecto, Wilber defende que temas religiosos como o Budismo possuem valor
científico. O Espiritismo possui essa característica de não impor os
seus conceitos a ninguém e suas práticas são acessíveis a todos que desejam
estudá-lo.
Porém, não podemos simplesmente condenar a sociedade
ou a comunidade científica por adotar um critério de valores científicos para a
forma de divulgação das pesquisas científicas. Mesmo sabendo que existe ainda
muito preconceito, precisamos lembrar das seguintes palavras de Jesus (Cap.
XXII do evangelho de São Mateus, dentre os versículos 15 e 22): “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de
Deus.”; e dos seguintes comentários de Kardec, presentes no ítem 7 do
Cap. XI de O Evangelho Segundo o Espiritismo [3],
sobre a expressão “Dai a César o que é de César”, que, entre outras coisas, “Prescreve o respeito aos direitos de cada um, como cada um
deseja que se respeitem os seus. Estende-se mesmo aos deveres contraídos para
com a família, a sociedade, a autoridade, tanto quanto para com os indivíduos
em geral. ”.
Assim, se por um lado não temos dúvida de que o
Espiritismo possui valor científico, de outro não podemos exigir que a
sociedade reconheça e aceite da mesma forma. Além disso, quando Kardec afirmou,
no ítem 55 do capítulo 1 de A Gênese [5]
que: “Caminhando de par com o progresso, o
Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem
estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto.
Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”, Kardec deixou claro o
respeito que tinha pela Ciência e pelo trabalho intelectual da Humanidade e,
por isso, não podemos cair no extremo de desdenhar os métodos que a Ciência
desenvolveu para validar seus trabalhos.
Cabe aqui, também, um outro comentário muito
importante sobre valores científicos. Quando um cientista prestigiado pela
sociedade por inúmeras contribuições ao progresso do conhecimento, expõe uma
opinião contrária aos ensinamentos espíritas, vê-se rapidamente a manifestação
dos companheiros espíritas em esclarecer o Movimento Espírita sobre o caráter
pessoal e preconceituoso de tal opinião. Isso é muito válido pois ajuda a
esclarecer as pessoas menos avisadas e pode até evitar males maiores
decorrentes de idéias materialistas. No entanto, quando um cientista qualquer
vem a público comentar suas crenças e idéias sobre assuntos espiritualistas,
surge um entusiasmo significativo no meio espírita chegando ao ponto de se
dizer que o Espiritismo está sendo confirmado ou provado por importantes
cientístas. Infelizmente, a opinião a favor de qualquer conceito espírita tem o
mesmo valor científico que as opiniões contrárias. Os críticos podem, da mesma
forma, alegar que essa opinião tem caráter pessoal onde predominam as crenças
de quem a emitiu. Portanto, uma opinião, por mais interessante e sugestiva que
seja, não tem valor científico. Pode servir de inspiração, de intuição, de
idéia, de motivação, etc., mas não tem valor de comprovação científica. Nesse
aspecto, particularmente, o que consideramos uma das mais valiosas regras
espíritas, é a recomendação de Kardec e dos espíritos superiores para que não
acreditemos na opinião individual dos espíritos, mas que analisássemos tudo o
que provém do mundo espiritual. Acrescentamos que essa regra de ouro deveria
também ter valor para com as opiniões individuais dos encarnados, já que cada
um de nós é um espírito em evolução e nossas opiniões precisam ser analisadas.
Toda essa discussão serve, agora, para justificar
porque não consideramos, ainda, as pesquisas do Dr. Masaru Emoto como
científicas (ver aula 9, Boletim 491). Somente
os espiritualistas conhecem suas pesquisas. Dr. Emoto ainda não publicou nenhum
artigo científico, sequer sobre os métodos que utiliza para obter os cristais
da água. No entanto, existem diversas referências ao seu trabalho como
representando a comprovação científica do fenômeno de absorção de fluidos
espirituais pela água. Como dissemos em outra ocasião, respeitamos as nobres
intenções do Dr. Emoto, mas não é prudente construir nada sobre um terreno que
ainda é desconhecido. Ninguém constrói uma casa sobre a areia. O Movimento
Espírita, em minha opinião, deve aguardar que as pesquisas do Dr. Emoto sejam
reproduzidas e confirmadas por outros grupos de pesquisa, e publicadas nos
devidos periódicos científicos especializados para que os próprios cientistas
possam dar o crédito final.
De modo a percebermos que existem pessoas com
experiência científica profissional e que, ao mesmo tempo, pretendem trabalhar
na pesquisa em tópicos espiritualistas, citamos o Prof. Konstantin Korotkov, da
Universidade Técnica de Tecnologias Informacionais, Mecânica e Óptica de Saint
Petersburg, Rússia. O Prof. Korotkov tem trabalhado com um método de análise de
descargas elétricas [6,7]
sobre pequenas gotas de diversos materiais líquidos. Korotkov foi palestrante
convidado na 1st. Istanbul Parapsychology Conference [8],
ocorrida entre os dias 14 e 15 de maio deste ano, onde ele iria discutir novas
formas de pesquisa na área de Bioeletrografia (denominação recentemente adotada
para a fotografia Kirlian). O fato do Prof. Korotkov trabalhar cientificamente
com o método de descargas elétricas em líquidos, nos sugere que ele possui
muito mais respaldo científico em suas propostas espiritualistas do que o
trabalho do Dr. Emoto. Esperamos que o Prof. Korotkov consiga realizar muitos
progressos nessa área seja para aprimorar aplicações na área médica, seja para
introduzir a comunidade científica em conceitos de valor espiritualista.
Na próxima aula, retornaremos a analisar questões ligadas à Física e ao
Espiritismo.
¹ Ver regras “positivas” e “negativas” na aula 1 (Boletim 483).
² As excessões ficam por conta dos centros de pesquisa que as empresas privadas financiam onde, algumas vezes, profissionais sem formação acadêmica atuam de acordo com determinações da empresa. Mas mesmo nesses locais, nos dias de hoje, profissionais com mestrado ou doutorado tem sido mais requisitados.
[1] S. S. Chibeni, Ciência Espírita
(1991), Revista Internacional de Espiritismo Março, pp.45-52.
[2] S. S. Chibeni, O Espiritismo em seu tríplice aspecto
Parte II (2003), Reformador Setembro, pp. 38-41.
[3] A. Kardec, O Evangelho
Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112a Edição, Rio de Janeiro
(1996). A. Kardec, A
Gênese, Editora FEB, 36ª Edição (1995).
[4] K. Wilber, Quantum
Questions, Mystical Writings of the World’s Greatest Physicists, Shamballa
Publications, 2nd. Edition
(2001).
[5] A. Kardec, A Gênese,
Editora FEB, 36a Edição,Rio de Janeiro (1995).[
[6] K. G. Korotkov, D. A. Korotkin, Concentration dependence of gas
discharge around drops of inorganic electrolytes (2001), Journal of Applied
Physics, 89, pp. 4732-4736.
[7] K. Korotkov, E.
Krizhanovsky, M. Borisova, D. Korotkin, M. Hayes, P. Matravers, K. S. Momoh, P.
Peterson, K. Shiozawa, A. Vainshelboim, Time dynamics of the gas discharge
around drops of liquids (2004), Journal of Applied Physics, 95,
pp. 3334-3338.
[8] http://www.ipc-istanbul.org
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 493)