O Espiritismo é a única doutrina espiritualista que não foi desenvolvida
unicamente a partir dos esforços intelectuais de uma única pessoa ou único
grupo de pessoas. Ele representa o ensinamento dos Espíritos, seres humanos
despojados do corpo físico, que além de descortinarem um mundo espiritual além
dos limites da matéria, eles próprios apresentaram as leis que o regem. O
Espiritismo não representa o mérito de um único Espírito pois por mais
inteligente e evoluído que fosse, jamais forneceria as experiências que o
conjunto de Espíritos, com maior ou menor grau evolutivo, poderia dar. Essa é
uma característica muito especial pois se porventura todos os livros espíritas
fossem destruídos, os Espíritos poderiam se comunicar novamente transmitindo
suas mensagens aos homens.
Mesmo sabendo que a autoria do Espiritismo pertence aos Espíritos, sabemos que
eles não poderiam tê-la materializado sozinhos. Eles
precisaram da uma mente sensata para o trabalho de codificação do Espiritismo.
Coube ao nosso irmão Allan Kardec, de reconhecida altura moral e intelectual, o
trabalho de receber as informações dos Espíritos, analisá-las e deduzir as leis
que regem o mundo espiritual, construindo a Doutrina Espírita que é o nosso
porto seguro no estudo das verdades espirituais. A formação de Kardec como
educador levou-o a escrever a Doutrina Espírita de modo bastante didático,
facilitando o estudo de cada pessoa interessada independente do grau de
instrução.
Curiosamente, os Espíritos superiores não desejaram aproveitar o prestígio que
o sobrenome Rivail detinha como educador e cientista, junto às academias
de Ciência da sua época. Eles sugeriram que Rivail se utilizasse
de um nome usado por ele em outra encarnação, para então assinar as
obras da codificação: Allan Kardec. Esse fato é muito importante pois revela
que os Espíritos superiores não tiveram a intenção do Espiritismo nascer como
uma disciplina científica, no interior das cátedras, com o brilho e o respeito
análogos aos das teorias modernas da época. Quiseram os Espíritos que o
Espiritismo nascesse como uma humilde porém verdadeira doutrina destinada a
todas as pessoas sem distinção, que não estivesse circunscrita a um meio social
em especial e que não fosse privilégio de alguns poucos iniciados no
campo da Ciência e da Filosofia. Os Espíritos desejaram (e desejam ainda) que
as pessoas busquem conhecer o Espiritismo não pelo prestígio pessoal de Rivail,
mas pelo simples e sincero interesse pelo assunto.
Estamos dizendo isso pois o Movimento Espírita já a mais de 10 anos [1] vém
discutindo as possíveis relações entre o Espiritismo e a instituição conhecida
como Universidade. Alguns companheiros defendem a inserção do Espiritismo na
Universidade como disciplina científica e tópico de
pesquisa chegando ao ponto de acreditarem ser esse o único caminho para o
progresso do Espiritismo [2], enquanto que outros, sem discordarem de modo
absoluto, levantam questionamentos e analisam algumas consequências dessa idéia
[1].
Nesta aula, analisaremos a necessidade do Espiritismo se inserir nos meios
acadêmicos como condição de sobrevivência e, em seguida, comentaremos a
respeito de algumas características ideais que uma Universidade Espírita deve
satisfazer, ao nosso ver, para cumprir de modo eficiente o papel que a
sociedade espera de uma instituição desse porte. Os comentários a seguir foram
tirados de alguns trabalhos de nossa autoria sobre o assunto, publicados na
literatura espírita [3-7].
A sobrevivência do Espiritismo e do Movimento Espírita não depende da
Universidade abrigá-lo como teoria acadêmica ou tópico de
pesquisa. A sobrevivência do Espiritismo depende exclusivamente do
Movimento Espírita, de como ele trabalha a divulgação e a prática dos conceitos
e ensinamentos doutrinários (vide o Editorial deste Boletim). Aliás, assim se
expressou Leon Denis na introdução do livro No Invisível: “O Espiritismo será o que o fizerem dele os homens”.
Individualmente, a sobrevivência do Espiritismo depende de nosso esforço no
estudo e na prática da Doutrina Espírita em pleno acordo com os ensinamentos
cristãos. Podemos acrescentar ainda que a sobrevivência do Espiritismo depende
da recomendação do Espírito de Verdade presente no ítem 5 do Cap.
VI de O Evangelho Segundo o Espiritismo: “Espíritas!
amai-vos, este o primeiro mandamento; instruí-vos, este o segundo”. Se
soubermos nos amar uns aos outros (respeitando nossas diferenças e limitações)
e nos mantermos sempre estudando (Jesus: “conhecereis a verdade e ela vos
libertará” JO 8,32), toda atividade que iniciarmos em nome do Espiritismo
progridirá tendo o apoio dos bons Espíritos.
Se a inserção do Espiritismo na Universidade não é condição necessária para sua
sobrevivência, isso não significa que não pode haver benefícios decorrentes
dessa inserção. Entretanto, qualquer projeto de inserção do Espiritismo na
Universidade não poderá prescindir das recomendações do Espírito de Verdade de
modo que o projeto esteja completo sem o risco de desvirtuar-se em seus
objetivos mais nobres. Assim, antes de querermos ver tópicos espíritas
divulgados nas paredes e corredores dos institutos e faculdades, devemos nos
preocupar com nossa postura cristã perante nós mesmos e os colegas de trabalho.
Sendo o meio acadêmico um local em que o orgulho encontra terra fértil para se
desenvolver, como nós espíritas que estudamos ou trabalhamos em uma
Universidade estamos nos portando com relação aos outros? Como nos sentimos
quando nossos colegas obtém sucesso, destaque e
prêmiações enquanto nosso trabalho caminha sem muita valorização? Como agimos
perante os servidores de funções mais simples dentro da instituição que nos
emprega? É certo que nos sentimos honrados ao sabermos da existência de mais
uma tese espírita bem sucedida. Porém, tão importante ou mais, é ter a certeza
de que o recém formado mestre ou doutor se esforçou por pautar seus atos pelos
ensinamentos cristãos iluminados pelo Espiritismo. É certo que sentimos muita
satisfação ao ter notícias sobre a publicação de artigos espíritas em revistas
científicas, mas não devemos nos esquecer da alegria de nos sentirmos em
esforço por nossa reforma íntima, muito mais necessária ao nosso aprimoramento
do que o artigo científico. Não achamos que é errado buscar alargar os limites
de divulgação do Espiritismo para além dos livros e periódicos espíritas. Mas a
inserção do Espiritismo na Universidade, assim como qualquer projeto espírita
perante a sociedade, deve ser completa e não ocorrer apenas sob o aspecto intelectual.
Aqui vale um importante comentário. O jovem espírita, estudante universitário,
que deseja iniciar os estudos de pós-graduação, não deve, ao nosso ver, se
sentir pressionado a realizar um projeto de pesquisa espírita. Sabemos do
sucesso de alguns companheiros espíritas com teses ligadas ao Espiritismo, como
a tese de Doutoramento na área de Educação da Dra. Dora Incontri [8]; na área
de Psiquiatria do Dr. Alexander de Almeida [9] e de mestrado na área de
Literatura de Alexandre Caroli Rocha [10] (ver Ref. [11] para conhecer uma
lista de teses espíritas já realizadas). No entanto, isso não justifica nenhuma
ansiedade ou precipitação em tentar realizar projetos de mestrado ou doutorado
sem o apoio de um bom orientador, sem a preparação de um bom projeto em que as
motivações, o cronograma de atividades e os objetivos previstos sejam bem
analisados e descritos. Se um estudante espírita encontrar essas condições para
a realização de seu curso de pós-graduação e tiver vontade de fazê-lo,
certamente que ele terá o apoio não somente do Movimento Espírita mas também
dos bons Espíritos. Mas se alguma dessas condições não puder ser satisfeita, é
preferível adiar o ideal e realizar um bom mestrado ou doutorado em um assunto
acadêmico usual, do que arriscar-se num projeto mal
preparado e perder a chance de se formar de modo satisfatório. Ninguém deve
achar que é falta de coragem moral realizar projetos de mestrado ou doutorado
em outros assuntos que não envolvem o Espiritismo. O fato de uma tese ser
espírita não torna os seus autores pessoas especiais e melhores que os
outros assim como o fato de um projeto não ser espírita não torna o seu
autor menos especial do que ninguém. Muitas vezes, uma boa tese em assunto
não-espírita pode levar o seu autor(a) a conquistar
oportunidades profissionais em posições de grande destaque acadêmico onde, como
espírita, ele ou ela poderá fazer muito pela divulgação do Espiritismo.
Se a inserção do Espiritismo na Universidade é assunto que merece ainda muita
discussão, a idéia de uma Universidade com adjetivo espírita é algo
ainda mais delicado. Por exemplo, o que diríamos de um Hospital Espírita que
oferecesse apenas água fluidificada e passes no tratamento aos necessitados,
doentes e acidentados? Diríamos não se tratar de um Hospital e que no máximo
seria uma Casa Espírita. Para que uma instituição seja um Hospital, é
necessário que ela tenha tudo o que a sociedade prevê em suas leis para a
existência e funcionamento de um Hospital, como médicos, enfermeiros, prédios
adequados, equipamentos variados, etc. Da mesma forma, o que diríamos de uma
Universidade Espírita que não satisfazesse tudo o que a sociedade espera de uma
Universidade? A sociedade já conta com algumas instituições de ensino superior
espíritas. Nossos comentários não se baseiam nas características dessas
instituições e, portanto, não se referem a nenhuma delas. A nossa contribuição,
aqui, se resume na discussão de algumas características que, ao nosso ver, são
ideais para uma Universidade Espírita cumprir tudo o que a sociedade e o
Espiritismo esperam dela.
Primeiramente, por ser espírita, deverá a Universidade Espírita, como um todo
(instituição e servidores), pautar seu regulamento e comportamento pelos
princípios da Doutrina Espírita. Sem exigir que ninguém se torne espírita (a
lei garante a liberdade de crença religiosa), todas as atividades realizadas na
Universidade Espírita e em nome dela deverão estar de acordo com os
ensinamentos doutrinários e cristãos. Sendo uma instituição social com adjetivo
espírita, a Universidade Espírita deverá ser um verdadeiro exemplo da
máxima “Dai a César o que é de César e a Deus o que é Deus”, seguindo fielmente
as leis civis sem faltar com as leis morais.
As pessoas olham a Universidade como um local de progresso, de geração de
riquezas, de oportunidade e estudo. Alguns a vêem como porta de entrada para
uma carreira promissora e outros como o local onde a cura de determinadas
doenças surgirá. O que as pessoas desconhecem é que para ter esse status
a Universidade precisa realizar e manter uma série de atividades muito
específicas executadas por pessoas com uma determinada formação e competência.
Uma Universidade se caracteriza pela união de diversas faculdades e institutos
responsáveis, cada um, por uma área do conhecimento. Uma Universidade tem dois
objetivos básicos: ensino e pesquisa. Como ensino, ela oferece cursos
básicos de nível superior que preparam os indivíduos para a exerção de cargos e
funções junto à sociedade. Oferece, ainda, como extensão, cursos específicos
voltados para o interesse de determinados setores da sociedade como a
comunidade e indústrias. Como pesquisa, a Universidade realiza trabalhos
de teor básico e aplicado, sob o rigor científico de cada área
específica. O produto de toda pesquisa, mesmo a pesquisa básica, contribui para
o desenvolvimento da sociedade e do país através de novos conhecimentos que
ajudam no desenvolvimento de novas tecnologias, no aprimoramento da saúde e no
desenvolvimento social. A sociedade esperará que os profissionais que atuem na
Universidade Espírita tenham formação e experiência científica e acadêmica
necessárias para a execução das atividades universitárias de ensino e pesquisa.
Qualquer instituição que tenha como objetivo se tornar uma Universidade
Espírita deve buscar a excelência tanto no ensino quanto na pesquisa.
Não podemos nos furtar da análise de questionamentos sérios no tocante à ideia de um projeto de uma Universidade Espírita. Por
exemplo, deve-se exigir que os funcionários, docentes e pesquisadores de uma
Universidade Espírita sejam espíritas? Como o nosso país garante por lei a
liberdade de opção religiosa, acreditamos que essa exigência não cabe. No
entanto, a Universidade Espírita pode ter um regulamento próprio que busque
orientar estudantes e funcionários para o bom comportamento dentro da
Universidade de acordo com os princípios doutrinários.
Que tipo de pesquisas a Universidade Espírita pode realizar? Em princípio,
qualquer assunto é passível de ser estudado na Universidade Espírita, desde que
não tenha objetivos menos dignos. Deve ela só realizar pesquisas de interesse
espírita? Para ter respaldo científico a Universidade Espírita deve se dedicar,
também, a pesquisas usuais. Na medida que a Universidade Espírita produzir
pesquisa de boa qualidade sobre assuntos acadêmicos normais (não-espíritas),
ela fortalece os seus docentes/pesquisadores para as atividades de ensino e
pesquisa; se habilita a receber, através de seus
pesquisadores, financiamento de instiuições públicas e privadas de fomento à
pesquisa; e desenvolve uma imagem muito positiva junto à sociedade mostrando
que ser espírita é ser e trabalhar de modo tão sério e responsável
quanto qualquer outro setor da sociedade. Isso favoreceria, indiretamente, a
realização de trabalhos de pesquisa de interesse espírita já que a Universidade
Espírita poderia, então, destinar uma maior parte de sua renda para o
financiamento dessas pesquisas que, infelizmente, não são reconhecidas como
assuntos de interesse pelos cientistas em geral.
Os cursos profissionais de graduação e pós-graduação, cujos diplomas são
reconhecidos pelos órgãos governamentais competentes, que formam os indivíduos
para o mercado de trabalho, possuem custo relativamente elevado e que
infelizmente não podem ser gratuitos. A Universidade Espírita primará pela
honestidade jamais cobrando valores incompatíveis com os custos, definindo
claramente a destinação ou o emprego dos lucros que obtiver. Deve a
Universidade, então, possuir cursos sobre Espiritismo? Deve-se cobrar por esses
cursos? Em nossa opinião, desde que sejam cursos livres, gratuitos e
não-obrigatórios, não vemos nenhum problema. Livres no sentido de que
qualquer pessoa pode ter acesso aos mesmos; gratuitos para que todos
possam ter acesso ao conhecimento espírita; e não-obrigatórios no
sentido de que não se deve obrigar ninguém, nem alunos e funcionários, a
aceitar o Espiritismo, em respeito ao direito pessoal de opção pela crença
religiosa. Além disso, o Espiritismo não deve, ao nosso ver, se tornar um
estudo passível de recebimento de diploma, notas, etc., pois isso criaria um
sistema de hierarquias prejudicial ao Movimento Espírita. Por exemplo, um doutor
em Espiritismo seria alguém que sabe mais do que outros espíritas? Um diploma
em curso de Espiritismo permitiria que o indivíduo tivesse uma melhor colocação
no mercado de trabalho? Essas questões são muito importantes e precisam ser
debatidas no Movimento Espírita pois a Doutrina Espírita, desde sua origem, não
surgiu para ficar circunscrita a determinado meio ou grupo social e deve ser
divulgada de modo gratuito, no caso de palestras e cursos, e de modo mais
barato possível no caso de livros e revistas.
Para
finalizar, apresentaremos um questionamento que parecerá contraditório, mas que
precisa ser analisado por todos os interessados. Será realmente necessária a
existência de uma Universidade Espírita? Se ela deve oferecer cursos usuais
(não-espíritas); se ela deve realizar pesquisa usual (não-espírita); se ela não
pode exigir que todos os seus funcionários e alunos sejam espíritas; se ela,
por fim, oferecerá serviços tão bons quanto os de qualquer outra universidade;
será que é necessário criar uma em especial que tenha o adjetivo espírita?
Não pretendemos responder a essa questão pois o assunto não encerra aqui. Como
mencionado anteriormente, já existem algumas instituições de ensino superior
espíritas e desejamos que elas progridam cada vez mais, cumprindo de modo
eficiente o seu papel na sociedade. Nossa intenção é trazer à tona questões
necessárias para que as pessoas interessadas no assunto meditem na melhor forma
de empregar seus esforços nesse ideal que, no fundo, está contido em um ideal
maior que todos temos que é o de divulgar a Doutrina Espírita para toda a
Humanidade. Todos os comentários, críticas e sugestões
são e serão sempre muito bem vindos.
[1] A. P. Chagas, O Espiritismo na
Academia? (1994), Revista Internacional de Espiritismo, Fevereiro
p. 20; Março p. 41.
[2] D. Incontri, O
Espiritismo na Universidade (2003) Boletim do GEAE 467.
[3] A. F. da Fonseca, O Espiritismo na Universidade:
condições necessárias mas não suficientes (2004), Jornal
Alavanca 490, p. 3.
A. Kardec, Revista Espírita 8, p.257, (1861).
[4] A.
F. da Fonseca, Universidade Espírita: Função e Componentes (2004), Jornal
Alavanca 492, p. 3.
[5] A. F. da Fonseca, Universidade Espírita: Docentes
Espíritas (2004), Jornal Alavanca 493, p. 3.
[6] A. F. da Fonseca, Pesquisa Espírita e Espiritualista (2005), Jornal
Alavanca 494, p. 3.
[7] Uma cópia dos artigos [3-6] pode ser encontrada
em: www.ieja.org .
[8] www.uniespirito.com.br/teses/pedagogia_espirita.pdf
[9] http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5142/tde-12042005-160501/
[10] www.universoespirita.org.br/contato/teseacrocha.pdf
[11] http://www.feparana.com.br/banco_teses/banco_teses.htm
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 495)