Nesta
aula, abordaremos um assunto que muito pode auxiliar os estudiosos da
Doutrina Espírita na organização e sistematização de um trabalho de pesquisa
direcionado ao desenvolvimento dos conhecimentos espíritas. Vamos descrever e
analisar as características básicas de um projeto de pesquisa.
Pela
expressão “projeto de pesquisa” entende-se, basicamente, duas coisas.
Uma delas é, em linguagem simplificada, o projeto em si, ou seja, tudo o
que será realizado para atingir o objetivo do trabalho de pesquisa. O outro
significado dessa expressão é o “texto” preparado para o esclarecimento do
projeto de pesquisa, com a explicação dos detalhes necessários para sua
realização. Esse “texto” é útil não somente aos autores do projeto que o terão
como roteiro organizado das atividades a serem seguidas mas, também, a
patrocinadores e outros interessados que precisam avaliar os méritos do
projeto.
Um
bom projeto de pesquisa deve responder a determinadas perguntas como: por quê
?, para quê?, como?, com o quê?, quem?, quanto?, etc. Para isso, ele é
subdividido em determinadas partes que explicaremos a seguir. Os projetos de
pesquisa não são todos idênticos e os ítens a seguir
podem variar na sua disposição ao longo do “texto” do projeto. Apresentaremos,
a seguir, os principais ítens e conceitos presentes
nos projetos de pesquisa.
1.
Título e Resumo: O
título é o “cartão de visitas” do projeto. Ele deve ser conciso porém claro o
bastante para sugerir ao leitor do que se trata o projeto. O resumo deve conter
uma breve exposição do assunto a ser estudado, as ferramentas
(teóricas ou experimentais) que se pretende utilizar e os resultados que se
pretende obter. Pode-se destacar a importância da contribuição desse
projeto de pesquisa para a área do conhecimento. O objetivo do resumo é
fornecer uma idéia bem geral sobre o projeto antes que o leitor o leia.
2. A Equipe: Aqui responder-se-á à seguinte pergunta “Quem?”. A resposta para essa pergunta envolve não apenas os autores do projeto mas, também, os possíveis auxiliares e estudantes que participarão direta ou indiretamente do mesmo.
Os
pesquisadores que tiveram a iniciativa do projeto de pesquisa (os autores do
mesmo) são denominados pesquisadores principais e são os responsáveis
pelo mesmo. Além de participarem na realização do trabalho de pesquisa, eles
são responsáveis por administrar diversas providências relacionadas ao projeto
como, por exemplo, a aplicação dos recursos, prestação de contas, orientação
dos outros membros participantes, etc. Eles devem, também, orientar e
supervisionar a atividade de pesquisa dos demais membros.
Não
existe uma regra sobre o número de membros da equipe que participará de um
projeto de pesquisa. Uma pessoa sozinha pode preparar e levar adiante até mais
de um projeto de pesquisa. Porém, a grande diversidade de assuntos dentro,
mesmo, de um único tópico de pesquisa, tem levado os pesquisadores a se unirem
para a realização de projetos de pesquisa maiores ou de maior complexidade. Existe casos em que grupos enormes se unem com um único
objetivo como, por exemplo, o que ocorre com o chamado Projeto Genoma que uniu
vários grupos de biólogos, químicos, matemáticos e cientistas da computação. Uma
exigência natural do processo é que os pesquisadores principais tenham
experiência em pesquisa e em participação de projetos de pesquisa.
Além
dos pesquisadores principais responsáveis pelo projeto de
pesquisa, a equipe é formada por: i) outros pesquisadores que em função
de compromissos particulares, não podem assumir o compromisso de serem
pesquisadores principais mas que colaboram com o projeto de acordo com sua
disponibilidade; ii) pesquisadores em diversos graus
de formação como recém-doutores e alunos de doutorado e mestrado; iii) colaboradores externos que podem auxiliar com
sua experiência particular na área de pesquisa do projeto. Além
de discutirem dúvidas e darem valiosas sugestões, eles podem participar do
projeto como qualquer membro dos ítens i) e ii). O nosso destaque aqui vale no sentido de sugerir ao
Movimento Espírita o aproveitamento desse tipo de idéia para o reforço dos
projetos de pesquisa. Quantas dúvidas poderiam ser desfeitas e quanta
informação poderia chegar até nós em tempo hábil se pudéssemos consultar, de
acordo com as possibilidades, alguns pesquisadores reconhecidos na área de
pesquisa dos mesmos! O GEAE tem se esforçado para auxiliar o Movimento Espírita
nesse papel de colaboração externa. Para isso basta escrever sua solicitação
para o endereço editor@geae.inf.br
3. Objetivos: Esta parte do projeto de pesquisa consiste na apresentação dos objetivos principais do projeto.
Nos
“objetivos”, os autores deverão explicitar quais os benefícios do presente
projeto de pesquisa. Além do benefício geral do progresso do conhecimento
dentro da sua área de pesquisa, o projeto consiste de diversos resultados
parciais que, individualmente, consistem de benefícios diferentes e
específicos. O projeto de pesquisa deve explicitar esses benefícios
particulares através do que chamaremos de subprojetos individuais,
ligados ao tema principal do projeto de pesquisa. Cada subprojeto terá um
objetivo de estudo ou pesquisa e consistirá na aplicação de determinado método
ou ferramenta. No ítem “objetivos” não se deve apresentar os detalhes sobre métodos e ferramentas, mas
apenas informá-los como sendo partes do objetivo maior do projeto.
Isso
é bastante útil pois mostra que dentro dos esforços em torno de um único
projeto, os resultados esperados são múltiplos o que, do ponto de vista de
financiamento e aproveitamento de recursos, é algo que se costuma levar
bastante em consideração. Isso não significa que as pesquisas
sobre assuntos muito específicos sejam menosprezados. Sugere-se que o
pesquisador agrupe diversas idéias aparentemene
esparsas em um único projeto maior que as englobe e dê força. Isso não só
fortalece cada idéia, como ajuda no amadurecimento do pesquisador com relação
aos seus projetos de pesquisa já que isso lhe dá uma visão mais
ampla de todo o conjunto favorecendo uma avaliação mais justa de cada
resultado (em comparação com os outros) e na criação de novas idéias.
4. Cronograma: Este ítem é algo simples porém muito importante na organização de um projeto de pesquisa. O cronograma não deve representar um roteiro rigoroso e mecânico das atividades que ocorrerão. Todo trabalho de pesquisa possue componentes imprevisíveis como dificuldades inesperadas e novas idéias que decorrem dos novos resultados. A definição de subprojetos permite certa flexibilidade na execução do projeto de pesquisa dentro dos prazos estabelecidos e de acordo com as dificuldades inerentes a um trabalho de pesquisa.
Um
projeto de pesquisa, como tantas coisas na vida, possui inicio, meio e fim.
Isso significa que ele possui um tempo durante o qual ele será alimentado tanto
pela atividade humana quanto com recursos de ordem financeira. Não existe uma
regra absoluta para o tempo que deve durar um projeto de pesquisa, porém
observamos que os órgãos de fomento à pesquisa sugerem períodos de tempo entre
2 e 4 anos, podendo haver uma prorrogação de acordo com as dificuldades e
resultados obtidos. Porém, dependendo do caso, projetos mais longos podem
ocorrer como, por exemplo, existe um projeto de pesquisa chamado “Projeto
2010”, iniciado em 2000, onde os genes da planta da mostarda serão estudados um
a um de modo a obter-se um mapa completo dos mesmos [1].
A
divisão do cronograma depende das particularidades de cada projeto e das etapas
mais importantes previstas no mesmo. Por exemplo, é importante definir as datas
para a compra de equipamentos ou de material permanente. Caso um pesquisador
externo seja convidado para uma visita de tempo curto para trabalhar com a
equipe, a época dessa visita e a duração da mesma deverá
constar do cronograma. A formação de alunos, como de doutoramento, pode
estar prevista dentro do cronograma de atividades referentes ao projeto de
pesquisa. Enfim, somente os passos mais importantes para o projeto de pesquisa ou
referentes ao mesmo devem ser colocados no cronograma. Isso é importante pois
eventuais dificuldades no projeto podem ser explicadas em termos de problemas
ocorridos no cumprimento do cronograma.
5.
Descrição dos trabalhos
anteriores: Toda idéia nova possui um contexto em que é percebida ou
obtida. Este ítem é destinado para a contextualização
das idéias pretendidas com o projeto de pesquisa. Esse ítem
também mostra o conhecimento de base dos pesquisadores principais para explorar
o tipo de problemas que se pretende resolver com o novo projeto de pesquisa.
Esse
item deve conter uma descrição suscinta dos trabalhos
de pesquisa já realizados pelos pesquisadores principais individualmente ou em
colaboração com outrem, sobre o assunto do atual projeto de pesquisa. Além de
permitir a análise do conhecimento de base dos proponentes do projeto de
pesquisa, isso permite a avaliação do assunto com relação ao interesse
científico. Trabalhos de pesquisa anteriores já publicados na literatura
científica sobre o tema, refletem o interesse pelo assunto o que é um indício
de sucessos futuros do projeto.
No
caso de tema inédito, os pesquisadores principais devem explicar as possíveis
aplicações do mesmo nas áreas do conhecimento tradicionais ou no
desenvolvimento de bens e valores para a sociedade.
6.
Descrição da infra-estrutura:
Esse ítem é algo fundamental. Em que condições os
pesquisadores principais e sua equipe trabalharão na realização do projeto de
pesquisa? Que recursos humanos existem à disposição? Que recursos técnicos e
equipamentos existem? Contam os estudantes e pesquisadores com uma biblioteca
bem aparelhada? Os estudantes possuem espaço físico para trabalharem? Existem
redes de computadores de alto desempenho e com acesso à internet?
Essas questões são típicas e a decisão quanto ao mérito de um projeto de
pesquisa pode depender da resposta a elas.
7.
Orçamento: Este ítem é importante para projetos que necessitam de materiais
de consumo ou permanentes. Os autores devem consultar os fornecedores com
relação a preços e orçamentos.
8.
Projeto de Pesquisa:
Este ítem corresponde ao projeto de pesquisa
propriamente dito. Todos os detalhes sobre o mesmo devem ser apresentados e
explicados aqui. De modo análogo a um trabalho de monografia (porém em menor
tamanho), este ítem deve conter introdução, descrição
de cada subprojeto e seus detalhes, os materiais e métodos a
serem utilizados, e as referências. Não existe uma regra absoluta
com relação aos subítens dentro do projeto de
pesquisa, mas os autores devem buscar a explicação clara do que se pretende
fazer. Não há um subítem do tipo conclusão
pois não há o que concluir. Porém, pode-se adiantar algo do que se expera como resultados.
Assim,
concluímos a apresentação das características principais de um projeto de
pesquisa. O conteúdo de cada um deles será fruto da criatividade humana. Dois
projetos sobre um mesmo assunto poderão ser bem diferentes sem que um seja pior
do que outro.
Alguns
cuidados na preparação do projeto de pesquisa são de extrema necessidade.
O
projeto de pesquisa deve ter consistência, relacionando os objetivos de
cada subprojeto ao objetivo principal do mesmo.
O
orçamento do projeto deve ser preparado cuidadosamente para não ficar acima ou
abaixo do que se espera para a realização do projeto de pesquisa. Certamente
que essa recomendação vale em dobro para qualquer trabalho de pesquisa espírita
não somente por causa da escassês de recursos, mas
porque como espíritos ainda endividados, faz parte do nosso aprendizado moral o uso correto (não abuso), consciente e adequado dos
recursos que porventura dispusermos.
Um
projeto de pesquisa não se escreve da noite para o dia. É necessário estudar a
bibliografia e a literatura específicas da área do conhecimento a qual se liga
o projeto de pesquisa, bem como os trabalhos recentes que outros pesquisadores
tem feito nessa área. Um projeto de pesquisa deve possuir uma importante
virtude: a simplicidade. Não há necessidade de incrementar o projeto com
atividades aparentemente grandiosas para justificá-lo. As seguintes palavras de
Willian Crookes, contidas na introdução do livro Fatos
Espíritas editado pela FEB, demonstram a simplicidade que caracteriza a
atividade científica:
“O espiritualista, diz Crookes, fala de corpos pesando 50 ou 100 libras, que se
elevam ao ar sem a intervenção de força conhecida; mas o químico está habituado
a fazer o uso de uma balança sensível a um peso tão pequeno que seriam
necessários 10000 deles para perfazer um grão. Ele tem base para pedir a esse
poder, que se diz guiado por uma inteligência que suspende ao teto um corpo
pesado, que faça mover, sob condições determinadas, a sua balança tão
delicadamente equilibrada.
O espiritualista fala de pancadas que se produzem nas diferentes
partes de um quarto, (...). O experimentador científico tem o direito de pedir
que essas pancadas se produzam sobre a membrana esticada de seu fonautógrafo.
O espiritualista fala de quartos e de casas sacudidas por um poder
sobre-humano, (...). O homem de ciência pede simplesmente que um pêndulo
colocado sob uma campânula de vidro e repousando em sólida alvenaria seja posto
em vibração.
(...)
O espiritualista fala das manifestações de uma força equivalente a
milhares de libras e que se produz sem causa conhecida. O homem de ciência,
(...), pede que as ditas manifestações se produzam no seu laboratório, onde ele
as poderá pesar, medir, e submeter seus próprios ensaios.”
Eis
o que consideramos o exemplo de modo simples de pensar quando desejamos
preparar um projeto de pesquisa espírita. Não há necessidade de preocuparmos
com “quantidade” mas apenas com a “qualidade” dos resultados que almejamos
encontrar com nossas pesquisas.
Na
próxima aula apresentaremos um modelo de projeto de pesquisa espírita com o
objetivo de ilustrar a presente aula.
[1]
T. Schlick, Molecular Modeling and Simulation,
[2] W. Crookes, traduzido por O. D’argonnel, Fatos Espíritas, Editora FEB, 7a Edição (1983).
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 496)