1. ESTUDO E ORIENTAÇÃO
Um
dos fatores importantíssimos no progresso da Ciência é aquilo que chamamos de
colaboração onde dois ou mais cientistas se juntam para estudar e resolver um
problema. Esse processo não envolve apenas cientistas já formados e
experientes. Ele envolve o processo de formação de novos pesquisadores onde os
mais experientes orientam os jovens estudantes no estudo e prática científicas.
O Movimento Espírita desenvolve seus estudos de várias formas. Muitos centros
espíritas possuem cursos introdutórios de Espiritismo e sobre a Mediunidade.
Esses cursos, em geral, objetivam esclarecer os iniciantes sobre os principais
conceitos da Doutrina Espírita e oferecem a oportunidade da realização de
atividades mediúnicas sob orientação dos companheiros mais experientes, e de
acordo com a Doutrina Espírita. Nesses cursos, os aspectos doutrinários
(filosófico, científico e religioso) são ensinados de modo que o iniciante
tenha uma visão mais ampla do Espiritismo. Muitas casas espíritas oferecem
diversos cursos adicionais de modo que o trabalhador espírita que já conhece os
conceitos básicos do Espiritismo, permaneça em constante aprendizado.
Outro veículo de divulgação e estudo é o livro espírita. A literatura espírita,
hoje, é muito extensa e os diversos gêneros de leitura oferecem aprendizado em
linguagem acessível a todas as pessoas.
Além disso, o Movimento Espírita conta com muitos periódicos (jornais, boletins
e revistas) que trazem aos leitores muitas informações espíritas, divulgam
eventos, apresentam estudos específicos a luz do
Espiritismo, e muito mais. O detalhe que desejamos ressaltar na aula de hoje é
que a grande maioria do que é divulgado nesses periódicos é assinado por um
único autor.
Como vamos falar de colaboração, gostaríamos de deixar claro que o conteúdo
desta aula deve ser entendido no sentido da realização da atividade de pesquisa
espírita, onde idéias e conhecimentos novos são obtidos como frutos do trabalho
de pesquisa. Portanto, não estamos falando das matérias espíritas tão
importantes quanto necessárias no processo de divulgação da Doutrina Espírita.
Também não estamos questionando a publicação de opiniões pessoais sobre
qualquer assunto espírita. Estamos falando da divulgação dos trabalhos de
pesquisa de interesse espírita que precisam satisfazer muitos critérios de
seriedade para que seus resultados possam ser usados com confiança em futuros estudos
e pesquisas.
Ao falar em colaboração, não estamos querendo dizer que uma pesquisa não pode
ser realizada por uma única pessoa. Esta aula objetiva orientar tantos os mais
experientes quanto os iniciantes em estudos espíritas, a canalizar o potencial
de ambos no desenvolvimento dos conhecimentos espíritas.
Ninguém inicia o aprendizado científico sem conhecer a disciplina básica com a
qual pretende trabalhar. Um pesquisador físico, por exemplo, precisa ter o
conhecimento básico da Física, enquanto um pesquisador médico precisa ter o
conhecimento básico da Medicina. Não é de se esperar, portanto, que o
pesquisador espírita precisa ter um bom conhecimento do Espiritismo e isso não
ocorre do dia para a noite. Isso requer não somente a participação em cursos
onde o indivíduo pode trocar idéias com outros companheiros, mas também a
leitura das obras básicas da codificação e de outras obras espíritas para além
de formar uma visão ampla do Espiritismo, ter boa noção do que já existe em
matéria de estudos espíritas.
Uma vez que uma pessoa já possui, com segurança, o conhecimento básico do
Espiritismo e tem vontade de trabalhar no desenvolvimento dos conhecimentos
espíritas, o momento é de escolha por algum tópico. A leitura de vários livros
espíritas tem um papel fundamental neste momento pois para escolher é preciso
conhecer as opções. Existem muitos tópicos de estudo e pesquisa de interesse
espírita. Existem assuntos multidisciplinares (aula 4, Boletim 486) em que
tópicos de interesse espírita são analisados sob a luz da Doutrina Espírita e
sob alguma outra ciência ou área do conhecimento. Existem também assuntos
puramente espíritas (aula 3, Boletim 485) onde usa-se
apenas o paradigma espírita no trabalho de pesquisa.
Após a escolha de um assunto de seu interesse, o jovem iniciante em trabalhos
de pesquisa tem, de uma forma geral, dois caminhos possíveis a seguir: 1)
realizar todo o trabalho sozinho ou 2) realizar o trabalho de pesquisa
sob orientação.
1) No primeiro caminho, o iniciante em atividades de pesquisa deve buscar
relacionar toda a bibliografia disponível sobre o assunto. Por exemplo, se o
assunto escolhido é Perispírito, todos (ou o máximo possível) os livros e
artigos espíritas sobre o perispírito devem ser reunidos para o inicio do
estudo. O iniciante, então, deve le-los de modo a ficar ciente do que já foi
feito e estudado (em Ciência jamais repete-se o
trabalho já feito para não prejudicar o progresso).
Várias idéias podem surgir com a leitura e, por isso, o iniciante deve ir
anotando todas elas de modo a analisá-las posteriormente. Pode acontecer da
leitura apresentar algum conceito ou afirmativa estranha,
diferente ou nova, sem a devida explicação. O iniciante pode, então,
desejar demonstrá-la a luz do Espiritismo e de acordo com o tópico científico
associado ao mesmo. O importante da leitura é não somente obter os
conhecimentos básicos sobre o assunto, mas também se certificar de que a idéia
que veio à mente não foi trabalhada em nenhum outro livro ou artigo e,
portanto, é algo inédito que trará alguma contribuição no progresso do
conhecimento. Se a idéia já foi abordada por outro(a)
pesquisador(a), o iniciante pode, se desejar, dar prosseguimento à idéia
inicial imaginando algum aspecto do assunto que ainda não foi analisado.
Uma vez escolhida a idéia (ou as idéias) que deseja trabalhar, é importante
escrever um projeto de pesquisa ou algo similar (aulas 14 e 15, Boletins 496 e 497,
respectivamente). Isso é importante para organizar as atividades que serão
realizadas, bem como fornecer uma visão global da idéia, das motivações ligadas
a ela, que benefícios o trabalho de pesquisa trará, etc. O projeto de pesquisa
também serve como referência das idéias imaginadas, métodos empregados e
objetivos propostos, para futuras consultas.
Esse caminho possui algumas desvantagens. Em geral, todo trabalho de pesquisa
possui critérios gerais e específicos que garantem que os resultados possam ser
considerados válidos. Se o iniciante na atividade de pesquisa espírita não
tiver experiência ou conhecimento sobre o processo de trabalho de pesquisa, ele
pode perder tempo realizando análises sem o rigor necessário. Nossas aulas sobre
Ciência e Espiritismo podem ajudar um pouco nesse esclarecimento, mas elas não
possuem todas as informações possíveis. Outra desvantagem é a falta de
experiência com relação a divulgação dos resultados de
pesquisa. Questões como “qual a linguagem deve ser
empregada?” e “em que periódico (ou livro) divulgar os resultados da pesquisa?”
são fundamentais e, nesse caso, o ítem 2) a seguir é de grande ajuda.
A vantagem principal desse caminho é o fato de não ter que depender da
disponibilidade de ninguém para desenvolver o projeto de pesquisa. Muitas
vezes, as pessoas que possuem experiência são geralmente muito ocupadas. Em
geral, pesquisadores mais experientes são mais capazes de realizar trabalhos de
modo mais independente. Porém, muitos possuem colaboração com outros
pesquisadores não somente porque duas ou mais cabeças sempre pensam melhor que
uma, mas também porque o conhecimento tem progredido tanto que se tornou
impossível a uma única pessoa ter base sólida em muitas áreas do conhecimento
ao mesmo tempo.
Através do e-mail: editor@geae.inf.br,
qualquer companheiro(a) pode pedir orientação sobre qualquer assunto. Os
Editores farão todo o esforço possível para encontrar o esclarecimento das
dúvidas.
2) No segundo caminho, através da leitura prévia dos livros espíritas
mencionada nos parágrafos anteriores, o iniciante deve juntar as idéias
que o interessam. Porém, aqui, ele pode procurar entrar em contato com algum
autor ou estudioso do tema escolhido para pedir sugestões e orientação.
Nesse caminho, o iniciante pode aproveitar a experiência do estudioso para
perguntar se as suas idéias são interessantes, se ele conhece outras
bibliografias que já trataram do assunto, se existem outras idéias, etc.
Da mesma forma, um projeto de pesquisa deve ser preparado. A ajuda do estudioso
será importante pois além da experiência no tópico de pesquisa, ele possui uma
visão mais ampla das relações entre o Espiritismo e o assunto a ser pesquisado.
A principal vantagem é aproveitar a experiência do estudioso para não perder
tempo com tópicos de menor interesse ou que já foram trabalhados
exaustivamente. O estudioso certamente ajudará o iniciante nos critérios a
serem seguidos para validar as suas pesquisas além de
orientar sobre as melhores formas de divulgação do trabalho.
Uma grande vantagem que existe nesse caminho é a orientação sobre a
confiabilidade das referências (livros ou artigos). Muitos autores escrevem
suas opiniões e pensamentos particulares sobre assuntos ainda pouco
desenvolvidos e se basear em opiniões é algo muito perigoso para a validade dos
resultados da pesquisa (ver aulas 6 e 7, Boletins 488 e 489, respectivamente).
É muito díficil para o iniciante em atividades de pesquisa discernir a validade
ou confiabilidade das fontes de pesquisa e a ajuda de um estudioso mais
experiente é muito importante.
A principal desvantagem é a disponibilidade de tempo do orientador para as
discussões sobre as atividades do projeto. Porém, essa desvantagem não é tão
importante tendo em mente que nós buscamos, antes de mais
nada, a qualidade do trabalho de pesquisa. Não importa se um estudo
demorar um tempo maior. O importante é que ele seja concluído de modo completo
e satisfatório.
Nesta aula, objetivamos ressaltar o valor do estudo e da orientação na
realização de trabalhos de pesquisa e na ajuda aos iniciantes. O estudo é
importante para nos informar tudo o que foi desenvolvido até o momento sobre
determinados assuntos. A orientação é importante pois permite a troca de experiência
e o aproveitamento do tempo tanto no trabalho de pesquisa qunto no
aprimoramento dos pesquisadores. Aqui vale lembrar a recomendação do Espírito
de Verdade no ítem 5 do capítulo VI de O Evangelho Segundo o Espiritismo: “Espíritas! Amai-vos, este o
primeiro ensinamento; instrui-vos, este o segundo”. A colaboração e
orientação no trabalho de pesquisa espírita satisfazem ao mesmo tempo as duas
recomendações acima.
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 498)