O Laboratório da
Pesquisa Espírita
Nas
últimas aulas falamos sobre as vantagens de se preparar um projeto de pesquisa
espírita e do papel do orientador no trabalho de pesquisa. Enfatizamos a
necessidade do estudo básico do Espiritismo e que o hábito regular na leitura
de livros e artigos espíritas é condição necessária para quem deseja contribuir
seus esforços na atividade de pesquisa espírita com seriedade. Nesta aula,
vamos comentar sobre a questão do local onde realizar um trabalho de pesquisa
espírita.
O ser
humano sempre quis descobrir e revelar os segredos da Natureza. A Filosofia,
nos primeiros tempos da cultura ocidental, significava a “busca pela verdade” [1]. Para isso, aprendemos a observar a Natureza de modo
especial obtendo e registrando informações. Com o desenvolvimento da Ciência, a
forma pela qual o conhecimento é obtido passou a envolver dois ingredientes
fundamentais: teoria e prática. Na primeira aula deste curso (Boletim 483), ao
introduzirmos o conceito de ciência, comentamos que em todo trabalho de
observação dos fatos é impossível fazê-lo “sem ter uma hipótese ou idéia
pré-concebida” [2]. Isso mostra o grau de ligação entre o conhecimento
teórico e o fenômeno que se pretende estudar.
Hoje em
dia, o volume de conhecimento é bastante elevado. Basta dizer que é impossível
alguém se tornar especialista em várias áreas do conhecimento ao mesmo tempo.
Mesmo dentro de uma mesma área, existem tantos tópicos de estudo que é muito
difícil uma pessoa conhecer bem a todos eles. Isso é algo tão real que mesmo
dentro de um mesmo tópico de uma mesma área de pesquisa existem pessoas que se
tornam especialistas em uma das seguintes frentes de trabalho fundamentais: 1)
teoria e 2) prática. Vamos rever alguns conceitos mais gerais sobre essas duas
frentes:
Em teoria,
os cientistas desenvolvem o formalismo e trabalham com os modelos que
representam a realidade. No casos das ciências exatas, eles usam as regras e
leis matemáticas para obter novos resultados e assim pesquisar as consequências
dos conceitos e definições já conhecidas. Busca-se, por exemplo, a previsão de
diversos fenômenos novos que serão objeto de interesse de outros cientistas que
trabalham com a prática. Aqui, os cientistas buscam aprimorar os modelos
criados por outros cientistas para que eles expliquem cada vez melhor o
conjunto de fenômenos de cada disciplina científica. Na aula 1 (Boletim 483)
comentamos a respeito das hipóteses auxiliares que tinham a função de “complementar
e fazer o contacto ou a conexão entre os dados experimentais ou fatos
observados e o núcleo teórico principal” [2]. Boa parte do trabalho teórico se situa nessa parte
das hipóteses auxiliares. Os cientistas se informam sobre os novos trabalhos
experimentais e buscam maneiras de ligá-los aos conceitos básicos da teoria que
compõe a disciplina científica em questão. Ou, imaginam novas aplicações e sugerem
aos experimentalistas novas idéias práticas.
Em prática,
os cientistas trabalham com os fenômenos. Os fenômenos significam a mensagem da
Natureza. Ao longo do tempo, os cientistas perceberam que os fenômenos naturais
ocorrem de acordo com determinadas regras ou seguem determinados mecanismos.
Para testar essas regras e mecanismos, os cientistas tentam reproduzir os
fenômenos naturais em locais onde eles podem controlá-los e isolá-los da
influência de outros fatores. Eles fazem isso para verificar as propriedades e
características do fenômeno que está sendo estudado. Isso permite que o
conhecimento a respeito do fenômeno se consolide e possa ser usado para
desenvolver novas aplicações. A Ciência confere ao experimento uma importância
bem grande. Em geral, é a prática que deve dar a última palavra sobre a
validade de determinada teoria. Apesar da Ciência possuir regras de “proteção”
às teorias básicas, a parte experimental é a única capaz de gerar a crise nas
teorias proporcionando o surgimento de novos paradigmas [2]. Kardec reconhecia o valor da prática, o que
pode ser verificado no ítem VII da Introdução do Livro dos Espíritos [3]: “Desde que a Ciência sai
da observação material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar,
o campo está aberto às conjeturas. Cada um arquiteta o seu sistemazinho, disposto
a sustentá-lo com fervor, para fazê-lo prevalecer. (...) Os fatos, eis o
verdadeiro critério dos nossos juízos, o argumento sem réplica. Na ausência dos
fatos, a dúvida se justifica no homem ponderado.” (grifos nossos).
O Prof.
Aécio P. Chagas em sua obra Introdução à Ciência Espírita [4] diz que a palavra laboratório significa
simplesmente “local de trabalho”. Entretanto, vamos usar a palavra laboratório
no sentido em que é mais empregada: o local onde um fenômeno é isolado do resto
do mundo para ser analisado e estudado de forma independente e por meio de
diversos aparelhos. Enfim, o laboratório é o lugar da realização da
pesquisa prática. Vamos diferenciar esse conceito da idéia comum de
“local de trabalho” com fins didáticos sobre a diferença entre o trabalho teórico
e prático.
O local
de trabalho de um cientista ou pesquisador teórico consiste do seu gabinete
ou escritório e de uma boa Biblioteca. Hoje em dia, com o avanço e o conforto
proporcionado pela internet, a Biblioteca tem se tornado algo virtual e
acessível do próprio escritório de trabalho. Não podemos deixar de lembrar da lanchonete
onde o momento do cafézinho tem se tornado comum pelo enorme ensejo de troca de
idéias entre os cientistas. Brincadeiras a parte, o local de trabalho de um
pesquisador em teoria é algo tão simples que, em alguns casos, pode ser
transferido para a casa do pesquisador.
O local
de trabalho de um cientista ou pesquisador prático ou experimental consiste
não somente do seu gabinete ou escritório, da Biblioteca e da lanchonete, mas
também de um recinto comumente conhecido como laboratório. O laboratório
consiste num local onde diversos aparelhos são utilizados para realizar-se
testes controlados e organizados sobre determinado fenômeno natural. Em alguns
casos, o laboratório pode ser algo não restrito a quatro paredes e tão extenso
quanto uma reserva ecológica [4]. Um observatório astronômico não é bem um local onde
se pode isolar os fenômenos que a Astronomia estuda, nem se pode isolá-los do
resto do mundo, mas é considerado o laboratório onde o astrônomo observa e estuda
o comportamento das estrelas. Para vermos a abrangência do assunto, podemos
dizer que o conjunto de escolas estaduais de uma determinada cidade pode ser
considerado um laboratório de pesquisas na área de Educação, enquanto que um
bairro pode ser um laboratório de pesquisas na área de ciências humanas e
sociais. O mais interessante em todos esses exemplos é que a idéia de laboratório
está ligada à idéia de prática ou de observação da realidade,
ou ainda, de observação dos fatos.
O local
do trabalho de pesquisa espírita depende, logicamente, do gênero de pesquisa
que está sendo feito. Se o trabalho de pesquisa for teórico, o
pesquisador vai precisar de um lugar tranquilo para ler e estudar a literatura
e um escritório para fazer anotações e escrever as idéias que surgirem. Um
exemplo de trabalho de pesquisa teórico é a obra de Ney S. Pinheiro, Prontuário
das obras de Allan Kardec [5].
Se o
trabalho de pesquisa for prático o local de trabalho depende do tópico
de pesquisa. Por exemplo, o trabalho de pesquisa realizado pelo Dr. Hernani G.
Andrade, divulgado na obra Reencarnação no Brasil [6], exigiu a visita do pesquisador a diversas
localizações para entrevistas e verificações das informações colhidas. Na obra Diálogo
Com as Sombras, Teoria e Prática da Doutrinação [7], o local de trabalho de pesquisa foi a casa espírita
e a sala de reunião mediúnica onde a reunião de desobsessão ocorria (deixamos
para o leitor a leitura dos livros acima para se inteirar dos detalhes).
O Prof.
Aécio P. Chagas afirma que “o laboratório da
ciência espírita é o centro espírita” [4]. Segundo ele o centro espírita é o local onde as pessoas
que conhecem a “teoria” (a Doutrina Espírita) realizam a “prática” que consiste
nos fenômenos que ocorrem sob controle e orientação doutrinária. O centro
espírita, além de possuir as pessoas que conhecem a “teoria”, conta com o apoio
dos bons espíritos. Se um projeto de pesquisa tiver objetivos nobres,
certamente os bons espíritos farão o que for possível do “lado” deles para que
o projeto tenha sucesso. A referência [7] é um exemplo bem sucedido desse tipo de trabalho de
pesquisa.
Seria a
Universidade um local apropriado para a realização de trabalhos de pesquisa
espírita? O Prof. Aécio acredita que dentro de uma ideologia positivista que
caracteriza as universidades ainda não é possível a realização de um trabalho
de pesquisa espírita [4]. Nós acreditamos que na medida que os espíritas
ocuparem naturalmente mais espaços no meio acadêmico, é possível reduzir o
preconceito iniciando a introduzir assuntos de interesse espírita dentro das
universidades. Na verdade isso já vem ocorrendo como mencionamos na aula 13
(ver Boletim 495) onde algumas teses de mestrado e doutorado envolvendo
temática espírita foram concluídas com o mesmo êxito das teses envolvendo
assunto não-espírita. Isso nos traz um sentimento de esperança no futuro.
Independente
do Espiritismo ocupar um maior espaço dentro da Universidade, é preciso que o
Movimento Espírita se organize para oferecer cada vez mais melhores condições
de realização e divulgação dos trabalhos de pesquisa espírita. Individualmente,
todos os que desejam contribuir para o progresso do conhecimento espírita devem
se conscientizar da importância do estudo constante tanto da base do
conhecimento espírita (a Doutrina Espírita) quanto das obras complementares.
Não devem se esquecer do esforço pela reforma íntima que caracteriza o
verdadeiro espírita. Além disso, é preciso estar constantemente lendo os
periódicos espíritas para estar ciente dos trabalhos de pesquisa atuais que vém
sendo realizado por outros pesquisadores, bem como ter conhecimento de quem
está trabalhando em determinados assuntos.
Aos
poucos as casas espíritas compreenderão que além de tudo de bom que já fazem
pela divulgação do Espiritismo e pelas pessoas em geral, elas poderão
contribuir com um tijolinho no processo de desenvolvimento dos
conhecimentos espíritas. Tudo o que temos de bom, hoje, na Humanidade, decorreu
de uma série de estudos e pesquisas pequenos, muitas vezes, realizadas em
diversos lugares e que juntos permitiram os bens do progresso. Acreditamos que
podemos aproveitar o melhor desse esquema para progredirmos em nossos
objetivos maiores de progresso moral da Humanidade.
Referências
[1] S. S. Chibeni, O Espiritismo em seu tríplice
aspecto Parte I 2003, Reformador Agosto, pp. 39-41.
[2] A. F. da Fonseca, Curso de Ciência &
Espiritismo, aula 1: Introdução e conceito de ciência, Boletim GEAE 483, (2005).
[3] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a Edição (1995).
[4] A. P. Chagas, Introdução à Ciência Espírita,
Publicações Lachâtre (2004).
[5] N. S. Pinheiro, Prontuário das obras de Allan Kardec, Editora Edicel, 2a.
Edição (1998).
[6] H. G. Andrade, Reencarnação no Brasil, Casa
Editora O Clarim, 2ª Edição (1998).
[7] H. C. Miranda, Diálogo Com as Sombras, Teoria
e Prática da Doutrinação, Editora FEB, 8a Edição, (1994).
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 499)