A Ciência Espírita e a divulgação dos
trabalhos científicos
1. CIÊNCIA ESPÍRITA
Nas aulas anteriores, falamos sobre os
conceitos básicos que definem uma ciência e sua forma de trabalho e
desenvolvimento. Vimos o que é e para que serve o método científico e
discutimos como ele deve ser considerado em pesquisas de caráter
multidisciplinar.
No entanto, é comum enxergar valor
científico apenas em textos que contém conceitos e análises oriundos de outras
ciências como a Física, a Química ou a Biologia, por exemplo. Imagina-se,
equivocadamente, que um trabalho só é científico se conter termos e conceitos
modernos, técnicos ou científicos e alguns pensam que para ressaltar o valor científico
e a atualidade da Doutrina dos Espíritos, é preciso fazer o mesmo. Com base nas
aulas anteriores, compreendemos que o Espiritismo é uma ciência legítima, não
necessitando do emprego de conceitos de outras disciplinas científicas.
Nesta aula, conversaremos sobre como produzir conhecimento de
valor científico trabalhando, apenas, dentro do paradigma espírita. Em O Livro
dos Espíritos [1], encontramos o núcleo teórico central do
Espiritismo [2]. Como diz Chibeni, “o estudo dessa obra
revela a adequação da teoria com os fatos, sua consistência e seu alto grau de coesão
e simplicidade, bem como a amplitude de seu escopo.” Retiramos do artigo da
referência [3] as seguintes sugestões de áreas de
investigação espíritas:
Esses ítens são exemplos de grandes temas de estudo que podem ser
analisados e pesquisados sem a necessidade de introduzirem-se conceitos e
teorias de outras ciências. O estudo teórico (análise das obras espíritas) e
prático (análise dos fenômenos espíritas), pode ser realizado sem a necessidade
de usarmos conceitos de Física, Química ou Biologia. Isso não significa que não
se pode estudar esses tópicos de forma
multidisciplinar, isto é, de forma conjunta com alguma outra ciência. Vamos
discutir esse lado multidisciplinar da pesquisa espírita nas próximas aulas.
Aqui, nossa ênfase será dizer que é possível fazer pesquisa científica de
qualidade sem apelar para métodos e terminologias de outras ciências.
Um importante exemplo de trabalho de
pesquisa espírita que merece o adjetivo científico, é a obra de Hermínio C.
Miranda, intitulada Diálogo Com as Sombras [4]. Nesta obra, o autor apresenta os
resultados de suas vivências e pesquisas em uma atividade genuinamente
espírita: o esclarecimento de espíritos em desequilíbrio.
Os estudos sobre a obsessão, o evangelho,
os efeitos das influências dos espíritos sobre nossas vidas, etc. são também
assuntos legítimos que são de enorme interesse para o Movimento Espírita. Como
exemplo recente, no boletim do GEAE n. 484, Jader Sampaio apresentou uma cópia
da assinatura de Leon Denis, para ser comparado com a psicografia de Divaldo P.
Franco feita por ocasião do 4º. Congresso
Internacional de Espiritismo em Paris, 2004. Esse tipo de trabalho de pesquisa
tem um valor científico muito grande pois contribui com um resultado positivo a
favor da realidade da existência e sobrevivência da alma. Chibeni [3] ressalta que além desses fenômenos
espíritas propriamente ditos, o Espiritismo se apoia em vários fenômenos
ordinários relacionados ao nosso cotidiano como, por exemplo, os nossos
sentimentos, os acontecimentos marcantes da vida, sonhos, efeitos
psicossomáticos, etc.
É digno de nota a
citação de alguns trabalhos que servem de referência para o pesquisador
espírita. São elas os prontuários das obras de Kardec [5] e de André Luiz [6], e outros menos conhecidos como um
trabalho intitulado O Indicador de João Gonçalves [7]. Alguns trabalhos de revisão, ou seja,
de análise de todos os estudos e pesquisas feitos até então sobre um assunto,
também merecem destaque onde temos como exemplos os livros Perispírito, do
Prof. Zalmino Zimmermann [8], O Passe, do Sr. Jacob Melo [9] e Darwin e Kardec, Um Diálogo Possível,
(multidisciplinar) da Profa. Hebe Laghi de Souza [10]. Recentemente, foi publicada a obra
Introdução à Ciência Espírita, do Prof. Aécio Chagas [11]. O leitor encontrará nessas obras um
importante material de pesquisa e referência bibliográfica. Certamente, outras
obras também merecem destaque mas a limitação de espaço não permite que citemos
todas.
Devido à grande ênfase que o movimento espírita
tem dado à pesquisa multidisciplinar envolvendo o Espiritismo, as próximas
aulas serão dedicadas à análise das condições para que os resultados
desses estudos e pesquisas tenham valor científico, sem deixarem de satisfazer
os critérios necessários para serem espíritas.
2. DIVULGAÇÃO DOS TRABALHOS CIENTÍFICOS
Nesta aula vamos, ainda, introduzir o
leitor à questão sobre a forma pela qual os trabalhos científicos são
divulgados. Isto ocorre, em sua granda maioria, através dos periódicos
científicos. Nesse aspecto, como em outros, Allan Kardec demonstrou estar bem à
frente de seu tempo. Numa época em que a ciência estava longe da organização
que possui hoje, além de agir de forma científica no trabalho de codificação,
Kardec propôs a criação da Revista Espírita que teve um grande papel na
propagação do Espiritismo, na unificação dos grupos espíritas e no
desenvolvimento do conhecimento espírita.
Os periódicos ditos científicos são destinados à publicação de
artigos científicos que além de possuírem um formato geral padronizado, seguem
um método de seleção para publicação que se constitui no coração da atividade
de divulgação científica profissional. Discutiremos, em detalhes, essa
metodologia de publicação e seus valores na próxima aula. Aqui, descreveremos
as partes que compõem um artigo científico: 1) Título; 2) Autores; 3) Endereço
ou afiliação dos autores; 4) Resumo; 5) Palavras chave; 6) Texto principal do
artigo subdividido em: a) Introdução; b) Seções descritivas e c) Discussões ou
Conclusões finais; d) Apêndice (quando necessário); 7) Bibliografia ou
Referências. Veja abaixo uma curta explicação de cada parte:
Na próxima aula, iniciaremos a falar sobre os vários tópicos
científicos que estão na fronteira com o Espiritismo e discutiremos o chamado
método de análise por pares utilizado para avaliar cada artigo científico
submetido para publicação.
Referências
[1] A. Kardec, O Livro dos
Espíritos, Editora FEB, 76a Edição (1995).
[2] S. S. Chibeni, O Espiritismo em seu tríplice
aspecto Parte II 2003, Reformador Setembro, pp. 38-41.
[3] S. S. Chibeni, Ciência Espírita 1991, Revista
Internacional de Espiritismo Março, pp. 45-52.
[4] H. C. Miranda, Diálogo Com as Sombras, Teoria
e Prática da Doutrinação, Editora FEB, 8a Edição, (1994).
[5] N. S. Pinheiro, Prontuário das obras de
Allan Kardec, Editora Edicel, 2a. Edição (1998).
[6] N. S. Pinheiro, Prontuário de André Luiz,
Editora IDE (1998).
[7] J. G. Filho, O Indicador, http://www.guia.heu.nom.br/joao_goncalves_filho.htm
[8] Z. Zimmermann, O Perispírito, Editora Allan
Kardec (2000).
[9] J. Melo, O Passe, Editora FEB, 2a Edição (1992).
[10] H. M. L. de Souza, Darwin e Kardec Um Diálogo Possível, Editora Allan Kardec (2002).
[11] A. P. Chagas, Introdução à Ciência Espírita,
Editora Publicações Lachâtre (2004).
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 485)