Tópicos de pesquisa multidisciplinar entre algumas
Ciências e o Espiritismo.
O método de análise por pares
1. TÓPICOS PERTENCENTES À ALGUMAS
CIÊNCIAS E O ESPIRITISMO
Nas aulas
anteriores, falamos sobre o caráter científico do Espiritismo e do campo de
trabalho puramente espírita. Aqui, vamos iniciar uma série de aulas onde
discutiremos o outro campo de trabalho que tem atraído e recebido muita atenção
do Movimento Espírita. Trata-se do estudo de tópicos de pesquisas
multidisciplinares: assuntos que pertencem ao escopo de alguma ciência
ordinária e ao Espiritismo. Não pretendemos apresentar em detalhes cada
pesquisa, mas sim divulgar sua existência e a referência para que o leitor
interessado busque maiores informações. Nesta aula, apresentaremos exemplos
gerais de pesquisas científicas na área de Medicina que estão contribuindo com
o Espiritismo.
MEDICINA: Hoje em dia, a disciplina
científica que nos parece ser a mais promissora para a introdução de assuntos
espíritas e espiritualistas em seus projetos de pesquisa acadêmicos é a
Medicina. E, na verdade, isso já vem acontecendo conforme os exemplos que
veremos a seguir.
Nosso
primeiro exemplo de pesquisa na área médica de interesse espírita é o resultado
de um trabalho de revisão sobre diversas experiências sobre os efeitos da prece
nos tratamentos de diversos tipos de pacientes [1]. Os autores
analisaram estatisticamente os diversos casos publicados na literatura
científica e concluíram que se por um lado não se pode confirmar, dentro dos
critérios científicos, os efeitos da prece sobre a recuperação de doentes, eles
reconhecem que um número significativo de casos positivos incentiva a
realização de mais pesquisas nessa área.
Em
Psiquiatria temos alguns trabalhos interessantes. Um dos maiores nomes na área
de pesquisa relacionada com conceitos espiritualistas é o Prof. Ian Stevenson.
Aqui no Brasil, o trabalho mais conhecido de Stevenson é o livro 20 casos
sugestivos de reencarnação [2]. É digno de
nota dizer que Stevenson não se limitou a escrever, somente, livros divulgando
o seu trabalho de pesquisa1.
Ele publicou vários artigos científicos em revistas internacionais levantando
dúvidas sobre casos “estranhos” que não podem ser explicados nem pela genética
nem pelas influências do ambiente [3]. Dentre esses
fatos “estranhos” estão as fobias observadas em crianças, marcas de nascimento
incomuns, diferenças entre gêmeos monozigóticos2,
brincadeiras e comportamento incomuns na infância, etc. No Brasil, o Dr.
Hernani G. Andrade repetiu algumas das experiências de Stevenson sobre casos
sugestivos de reencarnação [4]. O médico
psiquiatra Dr. Alexander de Almeida está trabalhando em um projeto de tese de
doutoramento, na Universidade de São Paulo, intitulado “Mediunidade:
uma experiência dissociativa num contexto religioso”, tendo já publicado alguns
artigos sobre o assunto [5-7].
Esses são
alguns exemplos que tem tido repercussão científica. O campo de pesquisa é
imenso dentro da medicina e aos poucos novos pesquisadores vão se interessando
por esses tópicos de estudo.
Na próxima aula comentaremos a respeito de uma interessante pesquisa em matemática cujos resultados levam a interpretações morais. Abaixo falaremos sobre o chamado método de análise por pares.
2. O MÉTODO
DE ANÁLISE POR PARES
Na aula
anterior, expomos o formato geral de um artigo científico. Aqui falaremos do
coração da atividade de divulgação científica: o método de análise por pares.
A palavra “pares” significa “semelhantes”. Cada área do conhecimento é formada
por conteúdo e terminologia próprias. O enorme progresso em todas as áreas
tornou muito difícil, para não dizer impossível, a uma única pessoa, conhecer
profudamente mais de um assunto. Mesmo dentro de uma área do conhecimento, as
especializações se desenvolveram a tal ponto que as pessoas levam anos para
dominarem um único tópico. Assim, apenas uma pessoa formada em uma área
específica pode analisar com segurança as atividades de outras pessoas na mesma
área. Somente um “semelhante” ou “par” pode verificar se outros trabalhos,
sobre determinado assunto, foram realizados com todo o rigor que se espera
nesse campo de estudo.
A
comunidade científica adotou, então, um método de análise de artigos onde os
“pares”, isto é, outros cientistas especialistas na mema área de que trata o
artigo, fazem a análise do mesmo. Isto ocorre, em geral, da seguinte maneira.
Cada
revista científica possui um conjunto de editores, geralmente cientistas
experientes, que são responsáveis por garantir que os artigos passem pelo
método de análise por pares de forma correta e idônea. Os editores, em geral,
fazem uma primeira leitura no artigo para verificar se o mesmo pertence ao
escopo da revista, isto é, à(s) área(s) de pesquisa para a(s) qual(is) a
revista foi criada. Se o artigo estiver dentro do escopo da revista os editores
escolhem um ou mais cientistas especialistas no tema do artigo e enviam-lhes
uma cópia para que façam uma análise crítica de acordo com o conjunto de
critérios da revista. Os autores nunca sabem quem faz a análise de seus
artigos. Mas, em alguns casos, aqueles que vão analisar o artigo sabem quem são
os autores do mesmo.
Os
cientistas convidados a analisarem um artigo, em geral, não possuem vínculo
formal com a revista. Isso ajuda a assegurar a imparcialidade no processo de
análise do artigo. Essas pessoas são chamadas de “árbitros” (“referees” em
inglês) e esse processo é também conhecido como processo de arbitragem.
Algumas revistas possuem, também, uma espécie de conselho editorial que
colabora na análise dos artigos e na escolha dos “árbitros”. Encontramos,
ainda, a denominação de “pareceristas” para os árbitros.
A grande
vantagem deste método é a maximazação da imparcialidade na análise dos artigos
já que aqueles que a farão não pertencem formalmente à revista ou a sua
editora. Revistas científicas de grande impacto costumam enviar os artigos para
duas ou mais pessoas de modo a evitar que pareceres desonestos baseados em
motivos pessoais (como, por exemplo, a concorrência em pesquisa) possam
ocorrer. Desta forma, os leitores terão mais garantia de que os artigos
publicados correspondem a resultados de pesquisa realizados de forma séria e
criteriosa.
Para ilustrar o processo, considere o seguinte exemplo. Vamos supor que o
cientista X escreveu um artigo sobre suas pesquisas com um novo remédio para o
combate ao cancer. O cientista X submete o seu artigo para publicação na
revista A. O editor da revista A, chamemo-lo EA, recebe o artigo e faz uma
leitura do mesmo. EA percebe que o artigo é muito interessante e seus
resultados são muito importantes. Mas o editor EA não entende nada de cancer e
não pode avaliar se o artigo está correto ou não. O editor EA, ao invés de
publicar um artigo somente por ser interessante, decide enviar o artigo do
cientista X para um outro cientista, chamemo-lo Y, fazer uma análise. O
cientista Y é escolhido por ser especialista em drogas contra o cancer. O
cientista Y inicia, então, a leitura e análise dos métodos empregados pelo
cientista X para obtenção dos resultados de sua pesquisa. Y verificará, por
exemplo, se nenhum experimento ou método de análise foi esquecido ou mal
realizado por X. Y verificará se não existem pesquisas já publicadas sobre o
assunto que não foram citadas por X no artigo. Y verificará se X fez todos os
testes cabíveis para assegurar que os efeitos e consequências da nova droga não
se devem a outros fatores possíveis. Enfim, o cientista Y verificará se o
artigo satisfaz todos os critérios científicos de pesquisa dentro de sua área.
Se o cientista Y verificar que os resultados das pesquisas do cientista X
seguiram todos ou quase todos os requisitos necessários, o cientista Y emitirá
um parecer positivo quanto à publicação do artigo. Certamente, o cientista Y
recomendará pequenas modificações no artigo mas ele será aceito. Nesse caso, o
editor EA agradecerá a ambos (cientistas X e Y) e emitirá o parecer final de aceitação
do artigo para publicação.
Se o cientista Y verificar que alguns requisitos importantes não foram
abordados ou realizados pelo cientista X, ele emitirá parecer negativo decisivo
ou parecer negativo condicional. O parecer negativo decisivo significa
que Y não recomenda a publicação do artigo, nem se forem feitas correções no
mesmo, porque ele não contém resultados confiáveis sobre o assunto. O parecer
negativo condicional significa que Y não recomenda a publicação do artigo como
ele está agora, mas sugere várias alterações e recomendações sobre vários passos
que precisam ser realizados pelo cientista X de modo a assegurar os resultados
apresentados. Em ambos os casos, o editor EA também agradece e expõe o parecer
final de recusa do artigo para publicação, apresentando todas as
explicações emitidas pelo parecerista (cientista Y) que foram usadas como base
para a decisão editorial. O processo de análise por pares não é perfeito
já que envolve a atuação de seres humanos que, como sabemos, somos falíveis.
Porém, não conhecemos nenhuma outra forma mais imparcial e produtiva de
analisar os artigos científicos submetidos para publicação. Na prática, esse
método tem se mostrado muito eficiente e a enorme quantidade e variedade de
periódicos científicos permitem que autores que se sintam injustiçados, tentem
publicar seus trabalhos em outras revistas já que elas enviarão os artigos para
análise de outros árbitros. Na próxima aula comentaremos sobre os periódicos
espíritas e a análise que seus editores podem realizar dos artigos e matérias
submetidos para a publicação.
[1] J. A. Austin, E. Harkness
e E. Ernest, The efficacy of “distant healing”: a systematic review of
randomized trials 2000, Annals of Internal Medicine 132, pp.
903-910.
[2]
[3] I. Stevenson, The
phenomenon of claimed memories of previous lives: possible interpretations and
importance 2000, Medical Hypotheses 54, pp. 652-659.
[4] H. G. Andrade, Reencarnação no Brasil (Oito
Casos que Sugerem Renascimento), Editora Casa Editora O Clarim (1980).
[5] A. M. de Almeida,
Cirurgia espiritual: uma investigação 2000, Revista Associação Medica
Brasileira 46 (3), pp. 194-200.
[6] A.
M. de Almeida, Diretrizes metodológicas para
investigar estados alterados de consciência e experiências anômalas 2003, Revista
de Psiquiatria Clínica 30 (1), http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/
vol30/n1/21.html
[7] A. M. de Almeida e F. L. Neto, A
mediunidade vista por alguns pioneiros da área mental 2004, Revista de
Psiquiatria Clínica 31 (3), pp. 132-141.
1 Em aula futura falaremos sobre a
diferença de valor científico entre livros e artigos.
2 Isto é, entre gêmeos que possuem o
mesmo genoma.
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 486)