Física e Espiritismo I: propriedades da matéria. A
diferença entre livros e artigos.
1. FÍSICA E ESPIRITISMO I: PROPRIEDADES
DA MATÉRIA
Nas aulas
anteriores, falamos sobre o conceito de Ciência, sobre pesquisas puramente
espíritas e pesquisas multidisciplinares, isto é, que envolvem conceitos de
alguma disciplina científica e o Espiritismo. Hoje, iniciaremos uma série de
aulas sobre as contribuições e problemas, acertos e equívocos no uso de
conceitos da Física na tentativa de explicar ou entender alguns conceitos
Espíritas. Na aula de hoje, falaremos sobre as afirmativas dos Espíritos
Superiores, contidas no Livro dos Espíritos [1], que só podem ser entendidas
com o intermédio da teoria conhecida como Mecânica Quântica.
Vejamos as seguintes
questões do Livro dos Espíritos [1]:
22. Define-se geralmente a matéria como sendo o que tem
extensão, o que é capaz de nos impressionar os sentidos, o que é impenetrável.
São exatas estas definições?
“Do vosso ponto de vista, elas o são, porque não falais senão do
que conheceis. Mas a matéria existe em estados que ignorais. Pode ser, por
exemplo, tão etérea e sutil que nenhuma impressão vos cause aos sentidos.
Contudo, é sempre matéria. Para vós, porém, não o seria.” (Grifos nossos).
Como exemplo do que está
grifado acima, sabemos hoje da existência de um tipo de partícula subatômica
chamada neutrino. Essa partícula foi descoberta quando se estudou o chamado decaimento1
de um neutron em um proton mais um elétron. Ela é tão leve e interage tão pouco
com a matéria densa que em um único segundo mais de 100 trilhões de neutrinos
vindos do sol atravessam nosso corpo sem percebermos. Portanto, como os
Espíritos disseram acima, a matéria pode ser tão sutil que nenhuma impressão
nos causa.
34. As moléculas têm forma determinada?
“Certamente, as moléculas têm uma forma, porém não sois capazes
de apreciá-la.”
a) - Essa forma é constante ou variável?
“Constante a das moléculas elementares primitivas; variável a das
moléculas secundárias, que mais não são do que aglomerações das primeiras
porque, o que chamais molécula longe ainda está da molécula elementar.” (Grifos nossos). A
questão sobre a forma de átomos e moléculas é, de fato, algo impossível de se
resolver com precisão. Portanto, mesmo com todo o avanço científico, somos
incapazes de apreciá-la. A ciência possui modelos para a estrutura e forma
dos átomos e moléculas (como o modelo do átomo de Rutherford, que é formado por
pequenas esferas (elétrons) que circulam em torno do núcleo, de forma similar a
um sistema solar), mas por razões que a teoria quântica apresenta, é impossível
determinar com precisão absoluta a forma, o tamanho ou as dimensões de um átomo
ou partícula.
A partícula que delimita a fronteira do átomo é o elétron. Segundo a teoria
quântica, é possível calcular a chamada densidade de probabilidade da posição
de um elétron em um átomo. Nos locais onde essa densidade
de probabilidade é maior, temos maior chance de encontrarmos um elétron.
Portanto, a região espacial onde essa densidade de probabilidade atinge seus
valores máximos pode ser usada como definição para os limites espaciais de um
átomo. Por exemplo, a região espacial onde há maior probabilidade de
encontrarmos o elétron quando ele está na chamada camada K (que representa o
estado quântico em que o elétron possui menor energia) possui a forma de uma casca
esférica. Na camada L, temos outro tipo de formato para essa região e assim
por diante. O conjunto de todas as regiões onde os elétrons
tem mais probabilidade de serem encontrados é chamado de nuvem
eletrônica de um átomo. Através dela podemos definir a forma espacial do
átomo. Notem que isso define apenas a forma mais provável pois, na
verdade, os elétrons em torno de um núcleo podem ocupar regiões diferentes do
espaço.
Quanto mais primitiva, ou melhor, mais simples é uma molécula, mais simples é a
função densidade de probabilidade associada à sua núvem eletrônica o que, por
sua vez, torna mais simples a sua forma de acordo com a definição apresentada.
Moléculas mais complexas como as proteínas, por exemplo, admitem muitos tipos
de formas, onde cada uma delas corresponde a algum tipo de função química ou biológica.
36. O vácuo absoluto existe em alguma parte no
Espaço universal?
“Não, não há o vácuo. O que te parece vazio está ocupado por
matéria que te escapa aos sentidos e aos instrumentos.”
(Grifos nossos).
O
neutrino que é produzido em reações nucleares dentro de uma estrela viaja por
enormes distâncias no Universo sem quase interagir com nenhum outro objeto
físico. Só isso já bastaria para confirmar o fato de que o que nos parece o
vazio (o espaço interestelar) está ocupado por matéria que escapa aos nossos
intrumentos.
Mas o
chamado Princípio de Incerteza de Heisenberg levou a uma descoberta ainda mais
fascinante: é possível a ocorrência de processos de criação e destruição de
partículas em um curto intervalo de tempo. Nas proximidades de um núcleo pesado,
partículas surgem e desaparecem literalmente do nada desde que esse processo
seja suficientemente rápido. Portanto, em regiões que deveriam estar vazias de
matéria, ocorre constantemente esse processo de criação e destruição de
partículas “enchendo” o vazio com partículas de matéria que, a rigor, escapa
aos nossos sentidos.
2. DIFERENÇA
CIENTÍFICA ENTRE LIVROS E ARTIGOS
No
Movimento Espírita, o livro possui um papel extremamente importante na difusão
dos conhecimentos espíritas. Obras mediúnicas psicografadas por Chico Xavier,
Divaldo P. Franco, Raul Teixeira e outros, se tornaram
leitura necessária a todo aquele que deseja não só estudar
aprofundadamente os conceitos espíritas, mas também trabalhar na seara espírita
de modo eficiente.
Já em
Ciência, o livro também possui um papel importante tanto na divulgação quanto
no ensino. No entanto, livros de divulgação e livros texto destinados aos
estudantes possuem status diferentes e se originam de forma diferente.
Livros de divulgação como, por exemplo, aqueles que o famoso físico Stephen
Hawking e outros cientistas escrevem, têm como objetivo esclarecer o público
leigo sobre um determinado assunto científico. Um livro texto é aquele que
resultou de muitos trabalhos de pesquisa em determinada área e que de tanto
serem confirmados, se tornaram básicos a ponto de fazerem parte da grade
curricular de um curso científico. O livro texto, apesar de possuir uma forma
didática de expor o conhecimento, não se dedica ao público leigo e quase sempre
requer do leitor (o estudante) algum conhecimento adquirido em determinados
métodos de análise. Por exemplo, os livros texto de Física requerem que o
estudante já tenha algum domínio em cálculo diferencial e integral. Mas o ponto
mais importante é que os livros texto sobre determinado assunto só surgem após
a publicação de inúmeros artigos científicos sobre um determinado assunto
demonstrando que o mesmo está bem estabelecido e possui muitas aplicações. O
livro texto não contém opiniões de seus autores pois deve refletir apenas o
conhecimento científico em sua forma mais simples e segura. Já o livro de
divulgação, se por um lado possui algumas informações científicas, por outro,
contém muitas opiniões, pensamentos próprios e toda uma série de reflexões
pertencentes ao autor e que não constituem resultados de algum trabalho de
pesquisa.
Portanto,
o valor de um livro de divulgação científica é muito menor do que o de um livro
texto no tocante ao conteúdo científico ou a validade do conteúdo científico.
Ao escrever um conceito científico em termos compreensíveis ao leitor leigo em
ciência, importantes partes do próprio conceito se perdem pelo simples fato de
que a linguagem técnica, muitas vezes, é a única que o representa de forma
precisa. As editoras, quase sempre, publicam esses livros com objetivo de obter
lucros e não estão preocupadas (nem são obrigadas a tal) com a veracidade
científica do que é publicado. Já para publicar um livro texto, há que
verificar se os autores seguiram a risca os resultados científicos confirmados
pela comunidade científica através de diversas publicações científicas.
Como exposto em aula anterior (aula 4, Boletim 486), os artigos
científicos passam por um processo de avaliação conhecido como análise por
pares. Nesse processo, cada artigo é submetido a um ou mais árbitros
anônimos para apreciação e emissão de um parecer positivo ou negativo quanto à
publicação do mesmo de acordo com critérios exclusivamente científicos. Isso
permite que os resultados dos artigos publicados tenham alguma validade dentro
de determinados limites científicos. Com o tempo, as pesquisas são confirmadas
ou refutadas através de novos artigos, de autoria de outros cientistas e isso
vai consolidando o conhecimento a respeito de determinada área ou assunto.
Em
contrapartida, existem os periódicos destinados a
publicação de artigos de divulgação científica, isto é, destinados ao público
leigo. Temos, por exemplo, a revista Scientific American [2], com sua
versão em português [3], a
seríssima revista Pesquisa FAPESP [4] e outras mais
antigas e conhecidas como a Super Interessante [5], etc. Apesar
da subjetividade referente às opiniões dos autores ser um pouco menor nesses
artigos de divulgação do que num livro de divulgação, as explicações dos
conceitos científicos são feitas, também, de forma “mastigada” o que as tornam
explicações incompletas. Portanto, artigos científicos têm muito mais valor
científico do que artigos de divulgação científica. Raramente artigos de
divulgação científica são citados em artigos científicos e, mesmo assim, isso
acontece apenas com algumas poucas revistas de divulgação como a prestigiada
Scientific American.
Portanto,
em Ciência, podemos hierarquizar as publicações de acordo com o seu valor
científico em: 1) livros texto; 2) artigos científicos; 3) artigos de
divulgação científica e; 4) livros de divulgação científica.
Na próxima aula, comentaremos as implicações dessas diferenças em trabalhos de pesquisa espírita.
1. Um decaimento é um tipo de processo ou reação em que
uma partícula se desfaz gerando outras.
[1]
A. Kardec, O Livro dos Espíritos,
Editora FEB, 76a Edição (1995).
[3] http://www2.uol.com.br/sciam
[4] http://revistapesquisa.fapesp.br
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 488)