Física e Espiritismo II: energia e matéria.
Referências científicas na pesquisa espírita.
1. FÍSICA E ESPIRITISMO II: ENERGIA E MATÉRIA
Na
aula anterior comentamos sobre como a teoria quântica da matéria confirma
algumas afirmativas feitas pelos espíritos sobre as propriedades da matéria, em
resposta a algumas questões do Livro dos Espíritos [1].
Aqui comentaremos sobre um conceito associado à matéria, frequentemente
lembrado em textos espíritas: a energia. Ao tempo de Kardec, energia e matéria
eram conceitos dissociados e somente no início do século passado, ambos os
conceitos foram conectados. Isso decorre da Teoria da Relatividade, ilustrada
pela célebre equação de Albert Einstein: E = mc². Essa equação demonstra a
equivalência em energia de determinada porção de matéria cuja massa vale m¹. Como c² é um número relativamente elevado (da ordem
de 10¹¹ km²s-² em unidades do Sistema Internacional), uma pequena quantidade de
massa contém uma grande quantidade de energia.
Ao tempo de Kardec, o conceito de energia era algo independente do conceito de
matéria. Isso pode ser verificado através dos teoremas ou leis de conservação,
em Física Clássica, para a energia total e para a quantidade de massa em um
sistema isolado. Energia e massa eram conservados de forma separada em cada fenômeno
físico. Contudo, com a Teoria da Relatividade, energia e matéria se tornaram
ligadas, e um novo teorema surgiu: a lei de conservação de massa-energia. Além
da energia associada ao movimento, a chamada energia de repouso de um
objeto tem que ser levada em consideração nos fenômenos em que a teoria
clássica não vale. Experimentos modernos constataram que tanto a matéria pode
ser transformada em energia quanto a energia pode se transformar em matéria.
Isso demonstra que a matéria não é, em sua essência, algo sólido e denso como
os nossos cinco sentidos nos fazem pensar. Ela tem que ser algo muito mais
sutil e dinâmico para que possa se transformar em algo que é, por natureza,
sutil e dinâmico.
É mais apropriado dizer, portanto, que energia e
matéria são dois “estados” de um mesmo elemento universal. O Espiritismo
fornece uma informação que se encaixa perfeitamente a isso ao dizer que toda a
matéria que conhecemos decorre de um elemento primitivo batizado de Fluido
Universal. Desde que matéria pode se transformar em energia e vice-versa,
concluímos diretamente que a energia também é algo que decorre de alguma
transformação do Fluido Universal.
Isso nos leva a uma interessante conclusão espírita:
se energia é algo de natureza material, a essência do Espírito (ou princípio
inteligente) não pode ser energética. Segundo os espíritos (questões 27 e 79 do
Livro dos Espíritos [1]),
existem dois princípios gerais no Universo: um elemento primitivo material
(Fluido Universal) do qual decorre tudo o que chamamos de matéria; e um
princípio inteligente do qual se individualizam os espíritos. Como o princípio
inteligente não pode estar sujeito às leis que regem o comportamento da
matéria, ele não pode ter natureza energética pois estaria suscetível às leis
que regem as diversas transformações de energia. Em outras palavras, se o
espírito fosse, em sua essência, uma outra forma de energia ele estaria sujeito
à processos que poderiam transformá-lo em outras formas de energia ou mesmo em
matéria já que, como vimos, energia pode ser transformada em matéria. Este
comentário serve de apoio para analisarmos uma afirmativa do nosso amigo Chico
Xavier: “espírito e energia são a mesma coisa” (ver página 25 da referência
[2]).
Como podemos verificar, perante conhecimentos atuais em Física, essa afirmativa
está em desacordo com a Doutrina Espírita e a recomendação de Emmanuel é
ficarmos com o Espiritismo.
Um ponto muito importante sobre a idéia de energia e
matéria é que a realidade material que os nossos sentidos nos fazem perceber à
nossa volta é verdadeiramente ilusória. A matéria possui uma estrutura cujas
partes possuem propriedades diferentes do que estamos acostumados a perceber.
Para nós espíritas, a matéria é uma transformação de uma dada porção de Fluido
Universal que, por natureza, é o elemento material mais sutil disseminado pelo
Universo. Para os cientistas, a matéria é algo misterioso. Levando-se em conta
o desenvolvimento da teoria quântica da matéria, os cientistas não podem mais
dizer com precisão o que é ou em que consiste aquilo que se chama matéria. O
que é um elétron ou um quark? Ninguém sabe por enquanto. Apenas sabemos que
eles existem, possuem determinadas propriedades físicas e obedecem a
determinadas leis. A visão científica do mundo material se alterou bastante
desde o tempo de Kardec e essa mudança é positiva pois a matéria, hoje, é vista
como algo mais dinâmico e sutil.
Nas próximas aulas, iniciaremos a discutir se os
fenômenos mediúnicos podem ou não ser chamados de quânticos.
2. REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS NA PESQUISA
ESPÍRITA
Na aula anterior comentamos sobre a diferença de valor
científico entre um livro texto, um artigo científico, um artigo de divulgação
e um livro de divulgação. A partir desta aula, iniciaremos a falar sobre o uso
dessas fontes de informação na pesquisa espírita.
Pretendemos analizar o valor científico² de um trabalho de pesquisa espírita que utiliza
conceitos de outras áreas do conhecimento. Em outras palavras, desejamos
desenvolver critérios que possam guiar os estudiosos e pesquisadores espíritas
em seus trabalhos. Não estamos considerando os trabalhos que apenas citam ou
retransmitam os resultados recentes de outras pesquisas. Muito menos, estamos
considerando aqui as idéias e especulações baseadas na opinião pessoal (mesmo a
de um cientista) ou com base em alguma intuição pessoal. Estamos considerando o
caso em que um trabalho de pesquisa resultará em conhecimento novo, mesmo que
simples, ou em uma nova análise de um assunto já conhecido. Em outras palavras,
estamos tratando de uma contribuição real ao conhecimento espírita, mesmo que
seja algo simples (a simplicidade é amiga da ciência). Além de estarem em
acordo com o Espiritismo e com as ciências básicas que foram utilizadas, as
idéias decorrentes de um trabalho de pesquisa espírita devem ser úteis para o
progresso da Humanidade, mesmo que, repetimos, se trate de algo simples.
Por essa razão, é extremamente importante saber se a
base que estamos estudando e usando para construir o conhecimento é sólida. Se
o assunto de estudo espírita envolver questões de ordem científica, as
diferenças de valor científico entre livros e artigos, apresentadas na aula
anterior (Boletim 488) pode determinar o grau de validade ou utilidade daquilo
que produzimos. Se, por exemplo, utilizarmos somente livros de divulgação como
base de nossas pesquisas, aumentamos a probabilidade de ter o valor dos nossos
resultados reduzido a mera especulação pois o conteúdo desses livros é bastante
mesclado de opiniões e pontos de vista de seus autores. Se, ao menos,
conhecermos profundamente a área científica relacionada com o(s) livro(s) de
divulgação utilizado(s), poderemos separar o que é opinião do autor dos
conceitos científicos presentes no(s) livro(s). Certamente, que isso
transparecerá no trabalho e precisamos estar seguros do nosso conhecimento para
não cometer equívocos de ordem científica.
Essa é, apenas, uma face do problema sobre conhecer a
fundo aquilo que pretendemos estudar. Muitas vezes nos interessamos em estudar
coisas que não são de nossa especialidade e apesar de termos capacidade de
aprender qualquer coisa, não será com fontes bibliográficas destinadas à
divulgação pública (livros e artigos de divulgação) que nos tornaremos
especialistas e conhecedores profundos de uma área qualquer do conhecimento.
Por isso recomendamos aos que pretendem escrever
artigos ou livros para o público espírita sobre temas ligados a tópicos
científicos que desconhecem, que procurem fontes básicas de reconhecido valor
científico (livros texto e artigos científicos) para embasar o seu estudo; ou
procure profissionais cientistas na área do assunto que se deseja estudar para
consulta, ajuda e orientação.
Vejamos o ponto de vista de Kardec:
Kardec, ao dizer que um cientista não tem autoridade
para ajuizar se a Doutrina Espírita é correta ou não, simplesmente, por ser um
cientista, sem querer nos fornece um valioso argumento com relação aos cuidados
com os trabalhos de ordem científica. No ítem VII da Introdução do Livro dos
Espíritos [1] Kardec diz: “Com relação
às coisas notórias, a opinião dos sábios é, com toda razão, fidedigna,
porquanto eles sabem mais e melhor do que o vulgo.” Mais adiante, nesse
mesmo parágrafo, ele diz: “Assim, pois,
consultarei, do melhor grado e com a maior confiança, um químico sobre uma
questão de análise, um físico sobre a potência elétrica, um mecânico sobre uma
força motriz.” Diante do grande desenvolvimento e da enorme complexidade
atingida em todas as áreas do conhecimento, é mais prudente que os
especialistas de cada área analisem como os conceitos de sua área se ligam (ou
não) com o Espiritismo.
Muitas vezes somos incapazes de ler e entender os
livros texto por causa da linguagem técnica e do emprego de notação
especializada. É mais fácil para nós lermos artigos ou livros de divulgação.
Certamente, há muitas informações úteis em livros e artigos de divulgação, que
podem servir de insight para algumas idéias espíritas. Mas o trabalho
científico requer algo mais do que apenas o primeiro insight. Além
disso, em face do volume do conhecimento adquirido e da enorme tendência
mundial para justificar atividades místicas de forma científica, a situação
pode ser comparada a um campo onde procuramos determinada erva sem conhecermos
quase nada sobre ela e sobre outras plantas. A chance de colhermos um joio
acreditando ser a erva é muito grande quando consultamos livros de divulgação
sem termos base mais aprofundada sobre o assunto. E, se não temos condições de
avaliar se algo é cientificamente correto ou não, a recomendação espírita é que
“mais vale repelir 10 verdades que admitir uma só mentira, uma só teoria
falsa” (Espírito de Erasto no ítem 230 da ref. [3],
e ref. [4]).
Notem que os comentários acima não sugerem que não se
deve ler essa ou aquela obra; esse ou aquele determinado tipo de publicação. A
recomendação que estamos fazendo aqui diz respeito ao significado da palavra
“discernir” presente na seguinte afirmativa de Paulo de Tarso “Discerni tudo e
ficai com o que é bom” (1 Ts 5,21). A dificuldade é que em matéria de
ciência, em geral, não temos base segura para “discernir tudo”.
Na próxima aula citaremos alguns exemplos de pesquisa
espírita ou de interesse espírita que possuem valor científico.
¹m aqui, se refere à massa de repouso da
partícula, isto é, a massa medida num referencial inercial que esteja em
repouso com relação a ela.
²Aliás, esse é um dos objetivos desse conjunto de aulas sobre Ciência e Espiritismo: fornecer subsídios diversos para o pesquisador espírita avaliar a qualidade de seu trabalho de pesquisa espírita.
Referências
[1] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a Edição
(1995).
[2] M. S. Maior, Por trás do véu de Isis. Uma investigação sobre a comunicação
entre vivos e mortos, Editora Planeta, (2004).
[3] A. Kardec, O Livro dos Médiuns, Editora FEB, 62ª Edição (1996).
[4] A. Kardec, Revista Espírita 8, p.257, (1861).
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 489)