Curso de Ciência e Espiritismo, Alexandre Fontes da
Fonseca, Brasil
Aula 18 - Conclusões Finais
(Curso iniciado no Boletim 483)
É com bastante satisfação que chegamos ao final
das aulas sobre Ciência & Espiritismo em coincidência com o 13º Aniversário
do Boletim do GEAE. O leitor pode verificar que iniciamos essas aulas
justamente no Boletim
de Aniversário de 12 anos, encerrando, então, um ano de estudos.
Estamos concluindo o conjunto de aulas sobre Ciência e Espiritismo mas jamais
consideraremos o assunto como estando encerrado. A Ciência tem uma
característica muito positiva que é o caráter progressivo. Ela evolui com o
progresso dos Homens e isso, naturalmente, se extende ao conteúdo que
intentamos introduzir com essas aulas. Vamos brevemente rever o que estudamos
ao longo desse ano.
Essas aulas sobre Ciência e Espiritismo tiveram dois objetivos fundamentais: 1)
introduzir os leitores às formas, objetos, métodos e rigores do trabalho de
pesquisa nos meios acadêmicos; e 2) exemplificar como utilizar isso no
desenvolvimento dos estudos e atividades de pesquisa espíritas. Não tivemos a
intenção de supervalorizar o aspecto científico do Espiritismo em detrimento
dos outros. É preciso lembrar (e repetir) que o Movimento Espírita não é um
movimento puramente científico ou acadêmico onde devemos apenas trabalhar de
acordo com os métodos científicos ou de acordo com os procedimentos acadêmicos.
Em seu Editorial do Boletim
número 491, Carlos Iglesia expõe de modo muito lúcido que “O Espiritismo
é muito mais que uma ciência, pois almeja além do saber, a interiorização do saber.
É mais que uma filosofia, pois além de questionar a vida, almeja transformar
para melhor a própria vida, é mais que uma religião, pois além de estabelecer
uma ligação do ser com o criador, almeja elevar o ser até o criador.”
Às vezes, ocorre que companheiros muito bem intencionados, motivados pelo
estudo e progresso da Ciência e dos meios de comunicação (como a internet), se
entusiasmam após a primeira leitura de trabalhos espíritas de valor científico
e desejam contribuir com a divulgação do Espiritismo aproveitando essas
ferramentas de progresso.
No entanto, precisamos ter a consciência de que cada ferramenta tem funções e
características bem definidas e o equilíbrio (mental e emocional) é necessário
para não deixarmos o nosso entusiasmo extrapolar as mesmas para situações onde,
a rigor, elas não se aplicam. A Ciência deve, portanto, ser vista como uma
valiosa ferramenta de progresso e como tal precisa ser conhecida e estudada por
aqueles que se interessam por ela. Estes deverão treinar o uso correto da mesma
para que a empreguem com sabedoria. Devemos estar vigilantes e atentos aos
convites ao menor esforço que, neste campo em particular, sugerem que a Ciência
está prejudicada, enferrujada, totalmente incapaz de ajudar o Homem em seu
caminho evolutivo. Muitas vezes nos esquecemos que é a criatura que externa
seus conflitos no uso inadequado das ferramentas que a bondade divina lhe
emprestou para progredir. Qualquer expressão de materialismo por parte dos
cientistas reflete pura e simplesmente o sentimento deles como espíritos em
trânsito para o progresso espiritual. Assim, lembrando das palavras de Jesus “Dai
a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21), busquemos
desenvolver maior responsabilidade em nossos propósitos de contribuir com o
progresso dos conhecimentos espíritas usando a ferramenta da Ciência.
Esses comentários objetivam a nossa concientização de que o Movimento Espírita
possui muitas atividades diferentes e que TODAS ELAS são de grande valor dentro
do objetivo maior de divulgação da Doutrina Espírita. Todos os aspectos
doutrinários (filosófico, científico e religioso) são de enorme valia no
progresso das pessoas e, convenhamos, se algum deles não fosse útil, os
Espíritos Superiores teriam orientado Kardec nesse ponto. As pessoas são muito
diferentes, com experiências e bagagens espirituais diferentes. Umas se
sensibilizam mais com o aspecto religioso e por isso esse aspecto as iniciará
no Movimento Espírita. Outros se afinizam pelo aspecto filosófico ou científico
e naturalmente se interessarão por esses aspectos dentro do Espiritismo. Nosso
cuidado deve ser em não transmitir valores em desacordo com a mensagem
espírita-cristã em nome de atrair, satisfazer e manter as pessoas que se
interessam por esse ou aquele aspecto doutrinário. Sabemos, por exemplo, que
não se deve adotar imagens de santos, ornamentos, estátuas e outros objetos com
intento de ressaltar o aspecto religioso do Espiritismo. Mas sabemos da enorme
importância da existência das reuniões de estudo do Evangelho Segundo o
Espiritismo que mostra que os ensinamentos da Doutrina Espírita revivem
justamente os ensinamentos cristãos.
Da mesma forma, com relação ao aspecto científico, nossa atitude deve ser
totalmente consistente tanto com o que conhecemos por Ciência quanto com a
mensagem espírita. Kardec, no período em que trabalhou na codificação,
demonstrou enorme senso científico, muito além do seu tempo. Ele buscou aliar
seus conhecimentos e experiências como educador e cientista à descoberta do
fenômeno espírita, jamais propondo idéias que ele não pudesse demonstrar
através dos fatos e agregar, dessa forma, o devido valor.
Nossa intenção foi trazer ao leitor amigo e interessado as idéias de rigor e
trabalho que ocorrem nos meios acadêmicos da atualidade de modo a mostrar a
necessidade e a importância do esforço no estudo para a aquisição do
conhecimento sólido que serve de base para o progresso. Talvez a palavra esforço
cause estranheza mas basta lembrarmos, por exemplo, das obras de André Luiz. A
palavra esforço é usada muitíssimas vezes para refletir a necessidade de
vigilância de cada individualidade na aquisição dos valores morais que o
levarão aos grandes vôos da imortalidade. Diversas narrativas de André Luiz
existem sobre as palestras ministradas por Espíritos já bastante elevados.
Segundo André Luiz, em tais eventos a oportunidade da pergunta não é dada a
todos os que assistem a palestra. Geralmente, somente aqueles que tem maior
experiência no assunto da palestra possuem o direito de interpelar os bondosos
instrutores da vida maior. Isso sugere a nós outros que a desencarnação não é
nem porta de acesso à felicidade absoluta nem torna os Espíritos conhecedores
de tudo. As palavras de Jesus “a cada um segundo a suas obras” (Mt
16,27) são batante claras: ninguém almejará colher um grão sequer sem o esforço
da plantação. Da mesma forma, o aspecto científico do Espiritismo exige o
esforço paciente e constante de todos nós que nos afinizamos com ele. Todos
sonhamos com o dia em que a sociedade reconhecerá o Espiritismo e alguns
companheiros valorosos, como Hermínio de Miranda, expõem a opinião de que “Temos
que reconhecer - não sem certa dose de humildade cristã - que não basta nossa
crença inabalável nos fenômenos demonstrados, para torná-los aceitáveis aos outros.
É preciso, para vencer a resistência da idéia preconcebida ou da mera preguiça
humana de pensar, não apenas a nossa convicção de mais de um século, mas o
pronunciamento oficial da Ciência, que, para muitos de nossos irmãos, será a
palavra final sobre o assunto” [1].
E podemos ter certeza de que não adianta apenas fazer afirmativas de que “a
Ciência está comprovando o Espiritismo” que vamos satisfazer aos critérios
que a crítica apresenta.
Não podíamos nos esquecer ainda de citar o Codificador sobre esta questão do
esforço e da paciência. No ítem XIII da Introdução de O Livro dos Espíritos,
Kardec diz:
“Anos são precisos para forma-se um médico medíocre e três
quartas partes da vida para chegar-se a ser um sábio. Como pretender-se
em algumas horas adquirir a Ciência do Infinito? Ninguém, pois, se iluda: o
estudo do Espiritismo é imenso; interessa a todas as questões da metafísica e
da ordem social; é um mundo que se abre diante de nós. Será de admirar que o
efetuá-lo demande tempo, muito tempo mesmo?” (Grifos nossos).
Iniciamos as aulas falando sobre as características que determinam se um capo
de estudo pode ou não ser chamado de científico à luz da Filosofia da Ciência.
Graças ao esforço do Prof. Silvio S. Chibeni, podemos dizer com toda a certeza
que o Espiritismo possui todos os ingredientes de qualquer disciplina
científica. Em seguida, iniciamos a falar da Ciência Espírita, propriamente
dita, onde os assuntos a serem pesquisados não envolvem nenhum conceito ou
fenômeno de outra ciência. Falamos sobre a divulgação dos trabalhos
científicos, a forma pela qual os artigos são feitos e avaliados e sua
importância no processo de desenvolvimento da disciplina em questão. Falamos
sobre os assuntos de interesse espírita que envolvem outras disciplinas
científicas como a Medicina, a Matemática e a Física. Neste último caso, nos
detivemos em analisar algumas afirmativas trazendo um exemplo de crítica que
normalmente ocorre na atividade cotidiana do cientista profissional. Vimos que
a Medicina é uma das Ciências que mais abrem espaço para introdução dos
conceitos espíritas e evangélicos. Vimos, também, através de alguns exemplos de
nossa autoria, que algumas áreas mais abstratas como a Matemática podem
contribuir com resultados de interesse ao espiritualista em geral. Discutimos a
diferença de valores científicos entre os diversos tipos de livros, os diversos
tipos de artigos e a diferença entre livros e artigos. Expusemos nosso ponto de
vista sobre a relação entre a Universidade e o Espiritismo bem como analisamos
a idéia de uma universidade espírita. Introduzimos o leitor à idéia de projeto
de pesquisa apresentando um exemplo espírita para futuras consultas.
Falamos da importância não só do estudo em qualquer trabalho de pesquisa, mas
também da orientação nesse processo, especialmente no caso de iniciantes.
Encerramos as aulas falando do local de trabalho do pesquisador espírita
figurando o laboratório de pesquisa de acordo com o gênero de pesquisa a
ser realizada.
Entretanto, teríamos ainda muito a dizer bem com ainda muito a ouvir de outros
irmãos espíritas que trabalham em outras áreas da ciência, e mesmo dos
espíritas que nada conhecem do meio acadêmico. Porém, podemos dizer que a
intenção de fomentar o diálogo aberto, franco e fraterno sobre o assunto, foi
atingido de forma satisfatória.
Uma idéia está subjacente ao nosso interesse com essas aulas sobre Ciência
& Espiritismo e que merece vir à tona. Não há necessidade de que uma
pessoa se torne cientista profissional para contribuir cientificamente com o
progresso do conhecimento espírita. Basta que aprendamos com as pessoas que
militam no meio acadêmico os ingredientes mínimos para a realização de um bom
trabalho de pesquisa. Podemos dizer que ao contrário do que se possa imaginar,
isso não requer de nós mais do que já temos. Basicamente, isso requer um pouco
do nosso esforço, de nossa capacidade de estudar, de nosso tempo disponível. E,
acima de tudo, isso requer de nós a paciência de seguir um passo após o outro,
e a humildade para recebermos, analisarmos e aceitarmos as críticas ao nosso
trabalho. Na medida em que as pessoas aprenderem como se realiza um trabalho
sério de pesquisa, mais e mais os Espíritos superiores encontrarão terreno
fértil para sugerir idéias que ajudarão o progresso do entendimento espírita.
As instituições, federações e órgãos de unificação espíritas devem, tanto
quanto possível, apoiar a iniciativa em atividades de pesquisa. Especial
atenção deve ser dada aos jovens e iniciantes na atividade de pesquisa
espírita. Em nossa opinião, o Movimento Espírita já está maduro para a
realização de trabalhos de pesquisa cada vez mais sérios e tão organizados
quanto os de outros setores da sociedade ou de outras disciplinas acadêmicas.
Eu gostaria finalizar manifestando meu agradecimento especial aos membros do
Conselho Editorial do GEAE pela idéia, oportunidade e apoio ao longo deste um
ano de estudos. Agradecemos também aos bons Espíritos por toda ajuda invisível
e pelas idéias inspiradas ao longo deste trabalho. Por fim, pedimos a Deus que
nos fortaleça e ilumine em nossos propósitos de evolução em todos os aspectos.
Que nos unamos cada vez mais para a realização de estudos e trabalhos que
divulguem a Doutrina Espírita e nos elevem um pouco mais para junto do Criador.
Referências
[1] H. C. Miranda, Sobrevivência e
Comunicabilidade dos Espíritos, Editora FEB, 3ª Edição (1975).
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 500)