Curso Ciência & Espiritismo, Alexandre Fontes da
Fonseca, Brasil
Em comemoração aos 12
anos do GEAE
TEXTO INTRODUTÓRIO
Ademir Xavier Jr. -
Editor GEAE
Seja
por constituir um objeto de grande interesse do público, seja pelo sua ampla
notoriedade frente aos novos desenvolvimentos da civilização, a Ciência
provocou, é certo, uma profunda revolução na história da humanidade. A história
diz que acontecimentos como a revolução industrial e as guerras recentes
tiveram como arcabouço o lento porém profundo desenvolvimento das disciplinas
científicas. O impacto das ciências com consequências tecnológicas foi decisivo
para a estrutura econômica contemporânea, criando uma fissura de origem
nitidamente técnica entre países ricos e pobres. "Países em desenvolvimento"
esforçam-se por se livrar de seu passado menos desenvolvido, buscando políticas
públicas de fomento à pesquisa e o desenvolvimento tecnológico.
Nesse panorama em que a Ciência substituiu a religião em muitos aspectos do
dia-a-dia moderno, existe alguma receita para se ter boa ciência? Como se dá o
processo de geração de conhecimento genuinamente científico? Como se distingue
uma disciplina em seus aspectos científicos, e quem é resposável por essa
distinção? A parte do interesse geral que respostas a essas questões podem ter,
surge também naturalmente dúvidas, na mente de muitos espíritas, sobre a
estruturação científica da Doutrina Espírita. Há um consenso geral de que o
Espiritismo deva se curvar (embora não implicando se modificar) frente a novas
descobertas e teorias da Ciência, embora não se saiba muito bem como isso deva
acontecer. Há muitos espíritas que apressadamente propõem uma
"revisão" dos fundamentos ou de partes secundárias da doutrina,
embasando-se em aparentes justificativas fundamentadas em novas teorias
científicas. Tal situação cria climas de conflitos sem justificativa, quando as
tensões aparecem por falta de conhecimento das sutilezas do processo de
desenvolvimento da ciência e de sua própria conceituação.
É para dirimir
essas dúvidas e esclarecer o aspectos verdadeiramente científicos do
Espiritismo que os textos do Alexandre foram escritos. Partindo da experiência
adquirida em seu treinamento em física, que é uma das ciências de maior
prestígio na atualidade e que maior influência teve sobre o desenvolvimento de
vários campos do conhecimento (inclusive sobre psicologia moderna), é feita uma
descrição do modo de operação e desenvolvimento dessa ciência. Uma definição
suficientemente ampla de ciência é difícil de ser concebida em poucas linhas,
mas podemos ter uma boa idéia do que é fazer ciência física genuinamente por
uma descrição detalhada do processo de pesquisa em física, o que é muito mais
simples. Parte-se, então, a partir de um paralelo com os estudos espíritas para
a conclusão nitidamente kardequiana de que o Espiritismo é uma ciência genuína,
embora o objeto de estudo dessa ciência não seja da mesma natureza que o de
outras ciências materiais. A distinção entre objetos de estudo é crucial para
se compreender bem que, longe de querer modificar o Espirismo ou de pretender
que ele dispute com a Física ou disciplinas correlacionadas um status de
igualdade, devemos compreendê-lo como o grande complemento a uma visão
unificada das coisas ao nosso redor, onde matéria e espírito são os grandes
constituintes. Desta forma, não é necessário que a Física desvende as últimas
dimensões da matéria e encontre o espírito para que o Espiritismo tenha
reconhecimento, pois esse valor, independentemente do reconhecimento, ele já o
tem. Muito menos precisa a Doutrina Espírita se torcer para incluir entre seus
postulados determinadas descobertas recentes, posto que tais descobertas são
feitas sobre objetos do munto material que não coincidem com os objetos de
estudo da Doutrina Espírita, além do caráter quase sempre transitório das
teorias construídas em torno dessas pesquisas. É prejudicial ao desenvolvimento
natural da Doutrina Espírita como ciência querer fundi-la com qualquer teoria
física justamente porque essas teorias físicas se alteram dia-a-dia, além de
versarem sobre objetos que tem pouca relação com o interesse principal da
pesquisa espírita.
Após ler os textos do Alexandre passamos a
compreender que todo espírita deve reconhecer nos progressos das ciências (não
importando a origem deles, seja em novas descobertas nucleares ou no
desvendamento do mecanismo dos genes) um avanço na direção oposta à ignorância.
Embora o desenvolvimento científico não se prenda, em princípio, à aplicações
eticamente corretas, devemos entender que todo desenvolvimento é assim para o
bem, uma vez que as sementes desses desenvolvimentos serão utilizadas no futuro
para facilitar ou amenizar nossas dificuldades materiais, além das
possibilidades sempre presente de se fazer o bem com tais descobertas. Os que
se impressionam com essas novas descobertas não tem razão assim para maiores
temores: assim como o Espiritismo, a Ciência caminha em direção à verdade,
fonte de toda libertação.
(Artigo extraído do GEAE - Boletim 483)