Considerações sobre

a Idéia da Reencarnação

Ontem e Hoje:

 

Uma Abordagem Científica, Histórica e Psicológica.

 

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 

 

Mente e Cérebro

 

Nos últimos anos, com o desenvolvimento e o reconhecimento crítico do papel da ciência como expressão cultural de uma época, particularmente como conjunto de teorias e sistemas conceituais coerentes com uma determinada visão de mundo (Kuhn, 1962; Prigogine & Stangers, 1993), o homem tem se lançado ao estudo de si mesmo com uma maior maturidade e maior equilíbrio quanto ao papel dos modelos e mapas teóricos e científicos sobre a realidade, sempre relativos. Em especial, a partir do movimento da contra-cultura dos anos sessenta, a visão de mundo acadêmica e tradicional, moldada nos rígidos parâmetros do positivismo, teve de se tornar mais flexível ante novos questionamentos e se abrir, pelo menos em parte, à idéias e pesquisas que, a rigor, não são, ou melhor, não eram bem aceitas pelo paradigma cartesiano de nossa ciência tecnicista, apoiada e financiada por uma sociedade industrialista e mecanicista e, portanto, ligada a uma visão de mundo igualmente mecanicista.

 

    Foi assim que surgiram movimentos em várias áreas da ciência que, ampliando as fronteiras clássicas, buscam expor pontos de vista que, pelo menos em parte, parecem revolucionários: na Física, desde os anos vinte de nosso século, a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica solaparam a crença de que o mundo descrito por Newton era uma foto precisa e inquestionável da realidade, passando a ser visto, desde então, apenas como um modelo aproximado e útil dentro de limites definidos na escala mediana dos fenômenos físicos, em eventos a velocidades muito inferiores à velocidade da luz; na biologia, a realidade dos vínculos ecológicos foi um pesado chamamento da consciência humana à responsabilidade de seus atos extremamente destrutivos ante aos outros seres vivos do qual depende a própria humanidade para sobreviver, em simbiose, questionando os valores cientificistas e pragmatistas que estimulam uma exploração desenfreada dos recursos naturais - muitos dos quais não renováveis -, apontando para as verdadeiras "razões" egoísticas e econômicas que levam o homem, principalmente à minoria do chamado Primeiro Mundo, ao gasto extraordinário de boa parte dos recursos naturais e energéticos do planeta, sem se importar com as conseqüências naturais e sociais desse desequilíbrio, principalmente para a grande massa humana que constitui o Terceiro Mundo (c.f. a Home Page Visão de Mundo, Paradigmas e Comportamento Humano); na Psicologia, a visão mecanicista do Behaviorismo e a pessimista e determinística visão hidráulica da Psicanálise clássica foram questionadas por Jung e pelas escolas humanísticas de Rogers, Maslow, Horney, Perls e outros; etc.

 

    Esta onda de questionamentos das "verdades" ditas científicas - ou melhor, das  verdades  cientificistas, pois tomam, a priori, uma visão da realidade baseada nos pressupostos mecanicistas,   das quais se atribuem uma força  auto-validante e  semi-dogmática entre  os  experts da  ciência  normal  (no  dizer de Kuhn) -,  permitiu um novo florescimento da filosofia e o estímulo à divulgação de estudos não convencionais, dentro dos padrões do paradigma cartesiano vigentes em ciência. Um dos maiores frutos desta onda foi dado na  Psicologia com o desenvolvimento de uma nova escola, ou melhor, uma nova Força, no dizer de Abraham Maslow, a Psicologia Transpessoal. A partir de então, passou-se a se entender que todas as teorias sobre o homem e a humanidade, em qualquer que seja a área, são nada mais nada menos que modelos e mapas conceituais que explicam partes mais ou menos definidas da realidade complexa que nos cerca, mas nunca a totalidade da  realidade em  si,  extremamente rica para ser reduzida perfeitamente dentro dos cânones do paradigma cartesiano.  As descrições da realidade atualmente aceitas têm muito em comum coma descrição do Ego humano feito pelos orientais: é uma sala bem ordenada e bem decorada dentro do que atualmente se julga útil e válido e onde a realidade mais ampla é vista através de pequenas janelas dispostas de um jeito mais ou menos adequando aos desejos de quem as constrói.

 

    Como nos fala com muita propriedade o Dr. Lívio Túlio Pincherle, psiquiatra e ex-professor da USP, "conceitos que pareciam representar dois extremos opostos, como MATERIALISMO e ESPIRITUALISMO, não podem ser mais aceitos perante os conhecimentos atuais da física moderna . Aquilo que nos parece a realidade física é apenas uma construção mental (...) ou, como Karl Pribam admite, uma espécie de holografia elaborada por outro holograma, que nós  chamamos  de  cérebro.  O  átomo indivisível de Leucipo, Demócrito e Newton há muito tempo deixou de ser aceito. A níveis subatômicos, conceitos excessivamente banais daquilo que é matéria devem ser considerados apenas simplórios". Da mesma forma, continua o professor Pincherle: "Pesquisas sobre o ALÉM DA VIDA não podem ser deixadas apenas às várias religiões (...) por mais respeitáveis que elas possam ser, mas muitas vezes conflitantes entre si. A psicologia da profundidade deve e  pode  tomar  consciência  de  uma  enorme  gama  de  fenômenos  relegados à  margem  da  ciência ( ... ) como a reencarnação. Enfrentar conceitos e preconceitos solidamente arraigados requer coragem, estudo e pesquisa, e  a decisão de não respeitar limites clássicos ou opiniões de  um  ou  outro famoso mestre.   O  conhecimento   evolui através de desafios, inovações e aprimoramentos perenes e sem fronteiras (...)" (Pincherle e col., 1991, p. 9-10).

 

    Em 1986, a UNICAMP, seguindo um interesse generalizado em busca de uma visão integrativa, orgânica e holística das várias vertentes da  ciência  em  relação  ao  conhecimento  humano,  promoveu  alguns  simpósios  sobre a  situação atual do dualismo cartesiano entre mente e matéria. Este dualismo, que faz parte de nossa história desde os gregos, particularmente em Platão, vem sendo considerado um estágio de entendimento mental que já está prestes a ser transcendido.   Atualmente  se  procura  um  meio  comum  para  a  aproximação  de  conceitos humanísticos-filosóficos a partir de uma visão mais científica, pois, como ainda nos fala Pincherle, não é mais possível ser, nos dias de hoje, meramente espiritualista e, muito menos, ligarmo-nos estritamente aos insuficientes e reducionistas conceitos da visão de mundo newtoniana-cartesiana, cuja aplicação perfeita de seus princípios só se dá em condições ideais ou  muito  específicas.  Mais ainda, certos fenômenos psicológicos e/ou de cunho espirituais simplesmente não tem uma explicação cabível ou convincente  dentro desta visão de mundo.

 

    O professor M. Covian expôs que "apesar dos avanços dos últimos anos, a natureza intrínseca da relação entre cérebro e mente permanece ainda um enigma. A tendência científica atual é a seguinte :

a) Os Estados Mentais são independentes dos eventos cerebrais (tese mais espiritualista.);

 

b) Busca-se fazer a mente acessível à ciência (o que significa, em grande parte, encaixar o fenômeno mental dentro dos parâmetros de pesquisa da ciência, encadeando-os dentro dos referenciais cartesianos convencionais ou, como no caso de pesquisadores como Kal Pribam, dentro de novos conceitos teóricos mais sofisticados);

 

c) Cérebro e Mente são idênticos (ou seja, a mente é um atributo material);

 

d) A Mente aparece como entidade emergente da atividade cerebral (ou seja, um produto biofisiológico do cérebro, um epifenômeno da matéria);

 

e) Não se pode esperar que um neurônio ou um conjunto de neurônios, ou uma área cortical, possa isoladamente perceber, sentir, experimentar ou pensar" (tomar como analogia os níveis de hardware e software, em ciência da Computação, que especificam dois níveis de complexificação diferentes. Nenhum dos dois níveis, tomados por si, pode explicar a complexidade de funcionamento de um computador, apenas a integração deste dois níveis permite isso. O professor Covian deve estar se referindo à teoria holística da mente, de Karl Pribam. (Confira a Home Page Holismo x Mecanicismo).

 

    Estas concepções um tanto quanto divergentes apontam para o seguinte fato: a ciência simplesmente não tem certeza do que está falando quando o assunto é a consciência humana, pois ela escapa aos métodos analíticos e objetivos convencionais. Apenas quando ousamos ir um pouco além dos limites do paradigma newtoniano-cartesiano é que podemos antever alguma luz nesta penumbra desconcertante, tal como ocorrera com os paradoxos onda-partícula no desenvolvimento da Física Moderna. É assim que o professor Waldir Alves Rodrigues Júnior expressa isso na seguinte declaração:

 

    "Alguns desenvolvimentos recentes da física teórica e experimental, bem como a compreensão mais profunda do significado e  da  validade das  teorias  físicas,  sugerem  um  rompimento com o dualismo  MENTE-MATÉRIA  que  acompanhou  o desenvolvimento da ciência, principalmente depois da revolução científica do século XVII. Discutimos o PRINCÍPIO ENTRÓPICO, e tudo isso implica necessariamente a participação ([ ecológica e holística ]) do universo (...)" (Pincherle e col, 1991, p. 14).

 

    Apesar de todo o desenvolvimento técnico e científico no estudo do sistema nervoso e do cérebro, em especial, com a compreensão sempre crescente dos papeis bioquímicos de enzimas ao nível do substrato orgânico neural, com hormônios e outras substâncias possuindo extraordinária importância nas sinápses (ligação e comunicação) entre os neurônios, base do funcionamento do sistema nervoso, cuja deficiência pode, sem dúvida, causar vários sintomas patológicos graves, ainda não se pode afirmar ou  provar que a mente e o cérebro sejam a mesma coisa ou que a primeira seja o produto da segunda, assim como se um programa de tv fosse o produto do funcionamento de um aparelho de televisão, ou que os defeitos na  imagem  de um  programa  são  epifenômenos  do aparelho  de  televisão defeituoso.   Além  do  mais,  é tremendamente difícil definir o que é causa e o que é efeito dentro da relação mente e cérebro, principalmente no que diz respeito ao comportamento humano e padrão bioquímico.

    A questão fica ainda mais melindrosa, em termos psicológicos, quando nos damos conta de que existem inúmeras teorias da personalidade e do comportamento humano, cada uma baseada em certas premissas básicas mais caras a cada teórico, com as psicoterapias conseqüentes. De um modo muito preciso, a velha fábula do elefante e dos três cegos parece se adequar maravilhosamente bem a esta situação. Ken Wilber deu um trato mais promissor a este fato ao propor que cada escola ou teoria psicológica seria mais adequada à explicação de uma série de comportamentos específicos dentro de um "espectro" de comportamentos possíveis  ao  desenvolvimento  humano.   Assim, teríamos desde um quadro mais mecanicista, dado, por exemplo, pelo behaviorismo radical, até os mais avançados, como o da Psicologia Transpessoal. Cada escola estando, dentro dos seu enquadramento teórico, relativamente certa, nestas condições.

     Em termos populares, a consciência normal, o sentido de EU, é dado pela consciência comum do estado de vigília,  que nos permite usar do raciocínio e da inteligência para lidarmos com as situações da vida diária. Ela é auxiliada em sua sensação de identidade por um "banco de dados"  acessível que constitui a nossa memória.   Um outro  "banco de dados" possui  um imenso arquivo sobre nossas experiências vivenciais, mas é mais difícil de ser acessado, mesmo que estes dados possam ser recuperados após  algum tempo. Este estaria no limiar entre o consciente e o inconsciente...   Alguns autores preferem chamar este limiar de subconsciente, mas não creio que este jogo de rótulos tenha muito a  acrescentar  enquanto compreensão  do fenômeno. Já um outro conjunto de dados ainda mais rico e profundo, talvez  o  mais rico de todos,  está totalmente imerso no inconsciente, sendo extremamente difícil de recuperar seus "arquivos" por via da "vontade" consciente do sujeito. Este último contém dados da vida da pessoa, da nossa vida presente, desde a infância (Sigmund Freud) e até mesmo da vida intra-uterina e de ao redor do nascimento (Otto Rank). Mas as atuais experiências e psicoterapias de regressão  nos mostra, ou pelo menos nos permite inferir, que este "banco de dados" possui informações referentes à pessoa que vão bem além deste período (Weil, 1979; Pincherle e al, 1985, 1991; Fadiman & Frager, 1986; Grof, 1988;), ou seja, anteriormente à concepção do individuo na presente vida.

    A chamada Terapia de Vida Passada, ou TVP, tal como vem se apresentando hoje em dia - e explorada de modo um tanto sensacionalista e superficial pela televisão - baseia-se em observações e pesquisas que vêm sendo realizadas já há mais de três décadas. O fenômeno em si não parece ser novidade. Desde  o século passado, quando a hipnose foi resgatada, ou melhor, passou a ser respeitada (em parte) pela ciência, a partir dos trabalhos de Jean Charcot e da primeira fase de estudos de Sigmund Freud, e mesmo antes, que se conhecia o fato de pessoas relatarem vivências e lembranças do que se pensava (elas mesmas o diziam) serem fatos de uma vida diferente da atual (Delane, Crookes, Bozzano, James e outros). Em nosso século, pesquisas como as realizadas por Ian Stevenson (Stevenson, 1966), David-Neel e por outros pesquisadores reconhecidos na comunidade científica, incluindo o professor Hernani Guimarães Andrade (Andrade, 1987, 1990), demonstram que histórias envolvendo a hipótese da reencarnação, principalmente envolvendo crianças, são consistentes e foram verificadas com exatidão em inúmeros casos, em diversas culturas (Fadiman & Frager, 1986). Além do mais, em psicoterapia - qualquer que seja a escola -, algumas lembranças vívidas tendem a surgir em determinadas pessoas quando estas se acercam da problemática capital que as afligem, durante o processo da psicoterapia, problema este constelado e imerso no inconsciente, e que dificilmente pode se enquadrar na história biográfica conhecida do cliente/paciente (Pincherle, 1991; Grof, 1988).
 
    Morris Netherton, ao formular, junto com outros psicoterapêutas, as bases da Past Life Therapy, tomou por base a pesquisa da consciência mais recente, bem como dos estudos em neurofisiologia mais atual, como, por exemplo, a da teoria holográfica da mente de Karl Pribam, e mesmo do universo holonômico do físico David Bohm. Também se espelham nos trabalhos fantásticos de teóricos e terapeutas não plenamente cartesianos, como Jung e Assagioli, e de autores como Maslow e Rogers (este, principalmente em sua última fase). Assim, a Terapia de Vida Passada, ou TVP , deve ser considerada uma forma psicoterapêutica enquadrada no universo da Psicologia Transpessoal, sendo tecnicamente orientada para problemas psicológicos específicos do trabalho com o inconsciente profundo. 

    A técnica básica da TVP já é bem conhecida: utiliza-se técnicas de relaxamento profundo - o que pode incluir ou não a hipnose -, possibilitando ao cliente/paciente uma sensação de tranqüilidade e confiança necessários ao afrouxamento das defesas psíquicas, o que permite o fluir das correntes de pensamento e das imagens mnemônicas mais profundas, advindas do inconsciente, que estejam ligadas ao problema - ordinariamente um trauma psicológico. Este estado permite ao terapeuta levar o cliente/paciente a níveis de regressão sem limite de tempo, pois, como já o havia dito Freud, tempo e espaço são conceitos que não fazem sentido para o inconsciente.

   Estas regressões podem atingir traumas que foram gerados em algum momento da história biográfica atual do indivíduo, ou em experiências do trauma do nascimento (experiências perinatais, muito bem estudadas por Stanislav Grof), ou podem ir mais além, naquilo que o paciente/cliente vividamente sente como sendo uma outra vida anterior à atual. Em casos extremos, esta mesma técnica pode levar à percepções extraordinárias de consciência, próprias do campo de estudo da Psicologia Transpessoal. Estas traumas geralmente envolvem outras pessoas da convivência do cliente/paciente, quer do meio familiar ou não. O fato mais importante é que geralmente as relações interpessoais do sujeito com estas pessoas, numa primeira etapa, podem ser problemáticas, devido ao trauma que é revivido e trabalhado nas sessões de regressão. Normalmente, a solução do conflito interno ao sujeito leva igualmente à melhoria das suas relações interpessoais com estas pessoas no agora. As objeções de que estas memórias são provindas do nível atávico-genético não se sustentam perante o fato de que alguns relatos envolvem outras culturas em épocas mais ou menos recentes (por exemplo, uma criança nascida no Brasil, de família descendente de portugueses há muito  migrados para o país, pode relatar a vivência de uma outra vida passada na Itália, durante a Segunda Guerra. Ver Andrade, 1990).

    Mesmo as mais recentes e profundas pesquisas em Psiquiatria apontam para o fenômeno de regressão espontânea da memória vinculado coma experiência de vidas passadas. O extraordinário psiquiatra e teórico Stanislav Grof nos descreve isto, em seus estudos com drogas psicodélicas e seus efeitos, nas seguinte palavras:

    "Outra observação interessante desse tipo [ emergência de conteúdos do inconsciente ] foi feita em conexão com experiências de encarnação anterior, em sessões psicodélicas. Alguns sujeitos do [ experimento clínico com ] LSD experimentaram, de vez em quando, seqüências vívidas e complexas de outras culturas e períodos históricos que têm todas as qualidades de memórias e são, de modo geral, interpretadas pelos próprios indivíduos como um reviver de episódios de vidas prévias. À medida que essas experiências se desenrolam, os sujeitos do LSD geralmente identificam certas pessoas de sua vida presente como protagonistas importantes dessas situações cármicas. Neste caso, tensões interpessoais e problemas e conflitos com essas pessoas são freqüentemente reconhecidos ou interpretados como derivados diretos de modelos cármicos destrutivos. O reviver e a solução dessas memórias cármicas são associados, de modo típico, com profundo alívio, libertação dos opressivos "vínculos cármicos", sentimentos de êxtase irresistível e realização por parte do sujeito (...). A sensibilidade, o comportamento, as atitudes de indivíduos identificados pelo sujeito do LSD como protagonistas na seqüência da encarnação anterior tendem a mudar, numa direção específica, em coerência básica com os eventos da sessão psicodélica (...) (Grof, 1988, p. 32).

Sendo assim:

    "Se o conhecimento de mecanismos {materiais} íntimos do funcionamento cerebral nos deu os primeiros remédios realmente eficazes para [o controle de] certas patologias psíquicas, a abertura maior das psicoterapias para [o contínuum] eternidade do espírito e a [consciência holográfica] cósmica [ou transpessoal] permite uma visão, pelo menos teórica, de uma enorme fenomenologia geralmente desprezada pela ciência 'oficial' "(Pincherle, 1991, p. 18, com adaptações). Tudo isso é necessário expor para apontar, como já o fizera esplendidamente Thomas Kuhn, Fritjof Capra, e outros, de que muitos dos cientistas modernos de renome se limitam em seus estudos pelas janelas de seus referenciais teóricos, concepções de mundo, paradigmas e visões de mundo, e negligenciam fenômenos que a medicina e a psicologia acadêmicas pouco levam em consideração, quando não chegam a usar plenamente o mecanismo de defesa da negação ao se depararem com tudo aquilo que não lhes é compreensível dentro do contexto newtoniano-cartesiano, mas que vêm recebendo especial atenção de vários pesquisadores de vanguarda da física quântica, como David Bohm, Niels Bohr, Fritjof Capra, Erwin Schrödinger, e muitos outros.

 

 

 

A Idéia da Reencarnação Através dos Tempos

 

    É plenamente conhecido que a idéia de reencarnação faz parte da cultura dos povos orientais, particularmente aos que adotam religiões e filosofias profundas como o Budismo e a Hinduismo, geralmente vistas como 'exóticas'. Menos reconhecido, porém é o fato de que esta idéia também está presente na herança intelectual do ocidente. Os gregos, por exemplo, a reconheciam como uma hipótese válida, e os órficos (ver a Home Page Orfeu e o Orfismo), que representavam a casta do sistema religioso mais avançado dos gregos (Reale & Antiseri, volume 1, 1993; Reale, volume I, 1994), expunham  sua concepção paligenésica (da reencarnação) numa roupagem filosoficamente avançada, que influenciou sobremaneira Sócrates e Platão , dentre outros. Platão, especialmente, nos legou fortemente sua crença na reencarnação, como podemos ver, entre outros diálogos escritos por ele, no Fédon. Antes dele, Pitágoras também a adotou como condição sine qua non para a evolução plena da alma. Posteriormente, Plotino e Orígenes, o Cristão, também a divulgariam. São Clemente de Alexandria (posteriormente cassado pela Igreja Católica) também a considerava uma doutrina de profundo sentido. Na Europa gaulesa e britânica, os druidas acreditavam na reencarnação em termos semelhantes aos gregos e budistas, e os hebreus, na fase helênica, não a desconheciam, sobretudo pelo intercâmbio com o mundo greco-romano, donde a idéia de ressurreição ter algo confuso da idéia da reencarnação (por isso as passagens em que se diz que Jesus ou João  Batista seriam a ressurreição de algum profeta antigo, como se pode ver em algumas passagens dos evangelhos, como em Mateus, 17, 11-13; Marcos, 9, 11-13; João, 3, 3-7 e Lucas 1, 17). Enfim, enquanto culturalmente em outras partes do mundo a idéia na reencarnação era discutida e endossada, pelo menos como uma proposta filosófica coerente, ela teve lugar no pensamento ocidental e como parte da doutrina cristã até o Conselho de Constantinopla de 533 DC, quando, por motivos políticos, foi formalmente repudiada pelo clero (Fadiman & Frager, 1986, p. 176).

    Mesmo assim, esta idéia persistiu entre as pessoas que tinham acesso aos filósofos clássicos e ao contato com as crenças antigas. Os Cátaros, no século XII, especialmente, tinham uma visão cristã original, onde a idéia da reencarnação era vista como verdade inquestionável. E foi este, entre outras coisas (ameaçando o poder ideológico e econômico da igreja de Roma, principalmente, devido à crescente popularidade que possuía, contestando a hegemonia imperialista típica da Igreja Romana) que levou à única cruzada em solo europeu da história,  objetivando a eliminação do pensamento cátaro com uma truculência assassina que parecia prever os posteriores misteres macabros da Inquisição, por parte das forças católicas, num requinte de perversidade aterrador. O movimento cátarista foi um dos muitos precursores da inevitável reforma protestante de Lutero e outros. Posteriormente aos cátaros, outros movimentos sentiram a mão de ferro da inquisição, que teve um de seus mais famosos  lumiares em Giordano Bruno, queimado em 1600, e que defendia idéias bastante fortes contra o sistema de crenças dogmáticas da Igreja de Roma, o que incluía a reencarnação.

    No século passado, o contato com as doutrinas orientais, particularmente a Budista, trouxe à tona novamente o estudo da paligênese, e com desenvolvimento do Espiritismo e de outras correntes de pensamento, estimulou-se um ressurgir do interesse sobre a reencarnação. As similiaridades entre o que diz o espiritismo moderno e a concepção budista da reencarnação, que também é evolucionista, não podem ser negligenciadas, ainda que alguns pseudo-intelectuais queiram passar a idéia de que expressem coisas opostas. 

    Hoje em dia, como vimos, a tese da reencarnação passou da esfera religiosa e filosófica para a área da pesquisa científica. Devemos ficar, pois, atentos ao progresso desta pesquisa, com as conseqüências sem dúvida de grande gravidade que elas poderão trazer à nossa visão de mundo e, conseqüentemente, à forma de como nos comportamos em relação a nós mesmo e a nossos semelhantes. E, como nos falam os Doutores James Fadiman e Robert Frager, "se há a possibilidade de aceitar o fenômeno, então a possível origem da personalidade e das características físicas pode incluir eventos ou experiências de encarnações anteriores. Tudo o que se pode afirmativamente dizer é que existe uma evidência factual que não pode ser facilmente descartada" (Fadiman & Frager, 1986, p. 176).

 

João Pessoa, Paraíba, 25 de junho de 1998. 
 

Bibliografia
Andrade, Hernani Guimarães,- Morte, Renascimento, Evolução, Ed. Pensamento, São Paulo, 1987.
Andrade, Hernani Guimarães. - Reencarnação no Brasil, Editora O Clarim, Matão, 1990.
Fadiman & Frager,- Teorias da Personalidade, Editora Harbra, São Paulo, 1986.
Grof, Stanislav, Além do Cérebro, MGraw-Hill; São Paulo, 1986.
Tendam, Hans, Panorama Sobre a Reencarnação, volumes I e II, Summus Editorial, São Paulo, 1994.
Pincherle e colaboradores, Terapia de Vida Passada, Summus Editorial, São Paulo, 1991.
Reale, G. & Antiseri, D.,   História da Filosofia, vol. I e II. Editora Paulus, São Paulo, 1993.
Reale, Giovani. História da Filosofia Antiga, Volumes I e IV.
Editora Loyola, São Paulo, 1994.
Stevenson, Ian, Twenty Cases Suggestive of Reincarnation. Proceedings of the American Society for Psychical Reseach, vol. 26.
New York.
Weil, Pierre,- Fronteiras da Evolução e da Morte. Ed. Vozes, Petrópolis, 1979.
Weil, Pierre.- A Morte da Morte, Ed. Gente, 1995.

 

 

[Ir para a página inicial - se estiver DENTRO DO SITE]

[Ir para a página inicial - se estiver FORA DO SITE]