Considerações sobre
a Idéia da Reencarnação
Ontem e Hoje:
Uma Abordagem Científica, Histórica e Psicológica.
Carlos Antonio Fragoso
Guimarães
Mente e
Cérebro
Nos últimos anos, com o desenvolvimento e
o reconhecimento crítico do papel da ciência como expressão cultural de uma
época, particularmente como conjunto de teorias e sistemas conceituais
coerentes com uma determinada visão de mundo (Kuhn, 1962; Prigogine
& Stangers, 1993), o homem tem se lançado ao estudo de si mesmo com uma maior maturidade e
maior equilíbrio quanto ao papel dos modelos e mapas teóricos e científicos
sobre a realidade, sempre relativos. Em especial, a partir do movimento da
contra-cultura dos anos sessenta, a visão de mundo acadêmica e tradicional,
moldada nos rígidos parâmetros do positivismo, teve de se tornar mais flexível
ante novos questionamentos e se abrir, pelo menos em parte, à idéias e
pesquisas que, a rigor, não são, ou melhor, não eram bem aceitas pelo paradigma
cartesiano de nossa ciência tecnicista, apoiada e financiada por
uma sociedade industrialista e mecanicista e, portanto, ligada a uma visão de
mundo igualmente mecanicista.
Foi assim que surgiram
movimentos em várias áreas da ciência que, ampliando as fronteiras clássicas,
buscam expor pontos de vista que, pelo menos em parte, parecem revolucionários:
na Física, desde os anos vinte de nosso século, a
Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica solaparam a crença de que o mundo
descrito por Newton era uma foto precisa e inquestionável da realidade,
passando a ser visto, desde então, apenas como um modelo aproximado e útil
dentro de limites definidos na escala mediana dos fenômenos físicos, em eventos
a velocidades muito inferiores à velocidade da luz; na biologia,
a realidade dos vínculos ecológicos foi um pesado chamamento da consciência
humana à responsabilidade de seus atos extremamente destrutivos ante aos outros
seres vivos do qual depende a própria humanidade para sobreviver, em simbiose,
questionando os valores cientificistas e pragmatistas
que estimulam uma exploração desenfreada dos recursos naturais - muitos dos
quais não renováveis -, apontando para as verdadeiras "razões"
egoísticas e econômicas que levam o homem, principalmente à
minoria do chamado Primeiro Mundo, ao gasto extraordinário de boa parte dos
recursos naturais e energéticos do planeta, sem se importar com as
conseqüências naturais e sociais desse desequilíbrio, principalmente para a
grande massa humana que constitui o Terceiro Mundo (c.f. a Home
Page Visão
de Mundo, Paradigmas e Comportamento Humano); na Psicologia, a visão
mecanicista do Behaviorismo e a pessimista e determinística
visão hidráulica da Psicanálise clássica foram questionadas por Jung
e pelas escolas
humanísticas de Rogers, Maslow,
Horney, Perls e outros;
etc.
Esta onda de
questionamentos das "verdades" ditas científicas - ou melhor,
das verdades cientificistas, pois tomam, a priori, uma visão da
realidade baseada nos pressupostos mecanicistas, das quais se
atribuem uma força auto-validante e
semi-dogmática entre os experts da
ciência normal (no dizer de Kuhn) -, permitiu um novo
florescimento da filosofia e o estímulo à divulgação de estudos não
convencionais, dentro dos padrões do paradigma cartesiano vigentes em ciência. Um dos maiores
frutos desta onda foi dado na Psicologia com o desenvolvimento de uma
nova escola, ou melhor, uma nova Força, no dizer de Abraham Maslow,
a Psicologia Transpessoal. A partir
de então, passou-se a se entender que todas as teorias sobre o homem e a
humanidade, em qualquer que seja a área, são nada mais nada menos que modelos e
mapas conceituais que
explicam partes mais ou menos definidas da realidade complexa que nos cerca,
mas nunca a totalidade da realidade em si, extremamente rica para ser
reduzida perfeitamente dentro dos cânones do paradigma cartesiano. As descrições da realidade atualmente aceitas têm muito em
comum coma descrição do Ego humano feito pelos orientais: é uma sala bem
ordenada e bem decorada dentro do que atualmente se julga útil e válido e onde
a realidade mais ampla é vista através de pequenas janelas dispostas de um
jeito mais ou menos adequando aos desejos de quem as constrói.
Como nos fala com
muita propriedade o Dr. Lívio Túlio Pincherle, psiquiatra e ex-professor da USP, "conceitos que pareciam representar
dois extremos opostos, como MATERIALISMO e ESPIRITUALISMO, não podem ser mais
aceitos perante os conhecimentos atuais da física moderna . Aquilo que nos parece a
realidade física é apenas uma construção mental (...) ou, como Karl Pribam admite,
uma espécie de holografia elaborada por outro holograma, que nós
chamamos de cérebro. O átomo indivisível de Leucipo, Demócrito e Newton há muito tempo deixou de ser
aceito. A níveis subatômicos, conceitos excessivamente banais daquilo que é
matéria devem ser considerados apenas simplórios". Da mesma forma,
continua o professor Pincherle: "Pesquisas sobre o
ALÉM DA VIDA não podem ser deixadas apenas às várias religiões (...) por mais
respeitáveis que elas possam ser, mas muitas vezes conflitantes entre si. A psicologia da profundidade deve
e pode tomar consciência de uma
enorme gama de fenômenos relegados à margem
da ciência ( ... ) como a reencarnação.
Enfrentar conceitos e preconceitos solidamente arraigados requer coragem,
estudo e pesquisa, e a decisão de não respeitar limites clássicos ou
opiniões de um ou outro famoso mestre. O
conhecimento evolui através de desafios, inovações e aprimoramentos
perenes e sem fronteiras (...)" (Pincherle e col., 1991, p. 9-10).
Em 1986, a UNICAMP,
seguindo um interesse generalizado em busca de uma visão
integrativa, orgânica e holística das várias vertentes da
ciência em relação ao conhecimento humano,
promoveu alguns simpósios sobre a situação atual do
dualismo cartesiano entre mente e matéria. Este dualismo, que faz parte de
nossa história desde os gregos, particularmente em Platão, vem sendo considerado
um estágio de entendimento mental que já está prestes
a ser transcendido. Atualmente se procura
um meio comum para a aproximação de
conceitos humanísticos-filosóficos a partir de uma
visão mais científica, pois, como ainda nos fala Pincherle,
não é mais possível ser,
nos dias de hoje, meramente espiritualista e, muito menos, ligarmo-nos
estritamente aos insuficientes e reducionistas conceitos da visão de mundo newtoniana-cartesiana, cuja aplicação perfeita de seus
princípios só se dá em condições ideais ou muito específicas. Mais ainda, certos fenômenos
psicológicos e/ou de cunho espirituais simplesmente
não tem uma explicação cabível ou convincente dentro desta visão de
mundo.
O professor M. Covian expôs que "apesar dos avanços
dos últimos anos, a natureza intrínseca da relação entre cérebro e mente
permanece ainda um enigma. A tendência científica atual é a seguinte :
a) Os Estados Mentais são
independentes dos eventos cerebrais (tese mais
espiritualista.);
b) Busca-se fazer a mente
acessível à ciência (o que significa, em grande parte, encaixar o fenômeno
mental dentro dos parâmetros de pesquisa da ciência, encadeando-os dentro dos
referenciais cartesianos convencionais ou, como no caso de pesquisadores como Kal Pribam, dentro de novos
conceitos teóricos mais sofisticados);
c) Cérebro e Mente são
idênticos (ou seja, a mente é um atributo material);
d) A Mente aparece como
entidade emergente da atividade cerebral (ou seja, um produto biofisiológico do cérebro, um epifenômeno
da matéria);
e) Não se pode esperar que
um neurônio ou um conjunto de neurônios, ou uma área cortical, possa
isoladamente perceber, sentir, experimentar ou pensar" (tomar
como analogia os níveis de hardware e software, em ciência da
Computação, que especificam dois níveis de complexificação
diferentes. Nenhum dos dois níveis, tomados por si, pode explicar a
complexidade de funcionamento de um computador, apenas a integração deste dois
níveis permite isso. O professor Covian deve estar se
referindo à teoria holística da mente, de Karl Pribam.
(Confira a Home Page Holismo x Mecanicismo).
Estas concepções um
tanto quanto divergentes apontam para o seguinte fato: a ciência simplesmente
não tem certeza do que está falando quando o assunto é a consciência humana,
pois ela escapa aos métodos analíticos e objetivos convencionais. Apenas quando
ousamos ir um pouco além dos limites do paradigma newtoniano-cartesiano é que
podemos antever alguma luz nesta penumbra desconcertante, tal como ocorrera com
os paradoxos onda-partícula no desenvolvimento da Física Moderna. É assim que o professor Waldir Alves
Rodrigues Júnior expressa isso na seguinte declaração:
"Alguns desenvolvimentos recentes da
física teórica e experimental, bem como a compreensão mais profunda do
significado e da validade das teorias físicas, sugerem
um rompimento com o dualismo MENTE-MATÉRIA que
acompanhou o desenvolvimento da ciência, principalmente depois da
revolução científica do século XVII. Discutimos o PRINCÍPIO ENTRÓPICO, e tudo
isso implica necessariamente a participação ([ ecológica e holística ]) do
universo (...)" (Pincherle e col, 1991, p. 14).
Apesar de todo o
desenvolvimento técnico e científico no estudo do sistema nervoso e do cérebro,
em especial, com a compreensão sempre crescente dos papeis bioquímicos de
enzimas ao nível do substrato orgânico neural, com hormônios e outras
substâncias possuindo extraordinária importância nas sinápses
(ligação e comunicação) entre os neurônios, base do funcionamento do sistema
nervoso, cuja deficiência pode, sem dúvida, causar vários sintomas patológicos
graves, ainda não se pode
afirmar ou provar que a mente e o cérebro sejam a mesma coisa ou que a primeira seja o produto da
segunda, assim como se um programa de tv fosse o produto do funcionamento de um
aparelho de televisão, ou que os defeitos na imagem de um
programa são epifenômenos do
aparelho de televisão defeituoso.
Além do mais, é tremendamente difícil definir o que é causa e
o que é efeito dentro da relação mente e cérebro, principalmente no que diz
respeito ao comportamento humano e padrão bioquímico.
A questão fica ainda mais melindrosa, em termos
psicológicos, quando nos damos conta de que existem inúmeras teorias da
personalidade e do comportamento humano, cada uma baseada em certas premissas básicas mais caras a cada
teórico, com as
psicoterapias conseqüentes. De um modo muito preciso, a velha fábula do
elefante e dos três cegos parece se adequar maravilhosamente bem a esta
situação. Ken Wilber deu um trato mais promissor a
este fato ao propor que cada escola ou teoria psicológica seria mais adequada à
explicação de uma série de comportamentos específicos dentro de um
"espectro" de comportamentos possíveis ao
desenvolvimento humano. Assim, teríamos desde um quadro mais
mecanicista, dado, por exemplo, pelo behaviorismo radical, até os mais
avançados, como o da Psicologia Transpessoal.
Cada escola estando, dentro dos seu enquadramento
teórico, relativamente certa, nestas condições.
Em termos populares, a consciência
normal, o sentido de EU, é dado pela consciência comum do estado de
vigília, que nos permite usar do raciocínio e da inteligência para
lidarmos com as situações da vida diária. Ela é auxiliada em sua sensação de
identidade por um "banco
de dados" acessível que constitui a nossa
memória. Um outro "banco de dados" possui um imenso arquivo sobre nossas
experiências vivenciais, mas é mais difícil de ser acessado, mesmo que
estes dados possam ser recuperados após algum tempo. Este estaria no
limiar entre o consciente e o inconsciente... Alguns autores
preferem chamar este limiar de subconsciente, mas não creio que este
jogo de rótulos tenha muito a acrescentar enquanto
compreensão do fenômeno. Já um outro conjunto de dados ainda mais rico e
profundo, talvez o mais rico de todos, está totalmente imerso
no inconsciente, sendo extremamente difícil de recuperar seus "arquivos" por via da "vontade" consciente do sujeito. Este último
contém dados da vida da pessoa, da nossa vida presente, desde a infância
(Sigmund Freud) e até mesmo da vida intra-uterina e de ao redor do nascimento
(Otto Rank). Mas as atuais experiências e
psicoterapias de regressão nos mostra, ou pelo menos nos permite inferir,
que este "banco de dados" possui informações referentes à pessoa que vão bem além deste período (Weil, 1979; Pincherle e al, 1985, 1991; Fadiman
& Frager, 1986; Grof,
1988;), ou seja, anteriormente à concepção do individuo na presente vida.
A chamada Terapia de Vida Passada, ou TVP, tal
como vem se apresentando hoje em dia - e explorada de modo um tanto
sensacionalista e superficial pela televisão - baseia-se em observações e
pesquisas que vêm sendo realizadas já há mais de três décadas. O fenômeno em si
não parece ser novidade. Desde o século passado, quando a hipnose foi
resgatada, ou melhor, passou a ser respeitada (em parte) pela ciência, a partir
dos trabalhos de Jean Charcot e da primeira fase de
estudos de Sigmund Freud, e mesmo antes, que se conhecia o fato de pessoas
relatarem vivências e lembranças do que se pensava (elas mesmas o diziam) serem
fatos de uma vida diferente da atual (Delane, Crookes, Bozzano, James e outros). Em nosso século,
pesquisas como as realizadas por Ian Stevenson (Stevenson, 1966), David-Neel e
por outros pesquisadores reconhecidos na comunidade científica, incluindo o
professor Hernani Guimarães Andrade (Andrade, 1987, 1990), demonstram que
histórias envolvendo a hipótese da reencarnação, principalmente envolvendo crianças,
são consistentes e foram verificadas com exatidão em inúmeros casos, em
diversas culturas (Fadiman & Frager,
1986). Além do mais, em psicoterapia - qualquer que seja a escola -, algumas
lembranças vívidas tendem a surgir em determinadas pessoas quando estas se
acercam da problemática capital que as afligem, durante o processo da
psicoterapia, problema este constelado e imerso no inconsciente, e que
dificilmente pode se enquadrar na história biográfica conhecida do cliente/paciente (Pincherle,
1991; Grof, 1988).
Morris Netherton,
ao formular, junto com outros psicoterapêutas, as
bases da Past Life Therapy, tomou por base a pesquisa da consciência mais
recente, bem como dos estudos em neurofisiologia mais atual, como, por exemplo,
a da teoria holográfica da mente de Karl Pribam, e
mesmo do universo holonômico do físico David Bohm. Também se espelham nos trabalhos fantásticos de
teóricos e terapeutas não plenamente cartesianos, como Jung e Assagioli, e de autores
como Maslow e Rogers (este, principalmente em
sua última fase). Assim, a Terapia de Vida Passada, ou TVP , deve ser
considerada uma forma psicoterapêutica enquadrada no
universo da Psicologia Transpessoal, sendo
tecnicamente orientada para problemas psicológicos específicos do trabalho com
o inconsciente profundo.
A técnica básica da TVP já é bem conhecida: utiliza-se técnicas de relaxamento profundo - o que pode
incluir ou não a hipnose -, possibilitando ao cliente/paciente
uma sensação de tranqüilidade e confiança necessários ao afrouxamento das
defesas psíquicas, o que permite o fluir das correntes de pensamento e das
imagens mnemônicas mais profundas, advindas do inconsciente, que estejam
ligadas ao problema - ordinariamente um trauma psicológico. Este estado permite
ao terapeuta levar o cliente/paciente a níveis de
regressão sem limite de tempo, pois, como já o havia dito Freud, tempo e espaço são conceitos que não fazem
sentido para o inconsciente.
Estas regressões podem atingir traumas que foram
gerados em algum momento da história biográfica atual do indivíduo, ou em
experiências do trauma do nascimento (experiências perinatais,
muito bem estudadas por Stanislav Grof),
ou podem ir mais além, naquilo que o paciente/cliente
vividamente sente como sendo uma outra vida anterior à atual. Em casos
extremos, esta mesma técnica pode levar à percepções extraordinárias de
consciência, próprias do campo de estudo da Psicologia Transpessoal. Estas traumas geralmente envolvem outras pessoas da
convivência do cliente/paciente, quer do meio
familiar ou não. O fato mais importante é que geralmente as relações interpessoais do sujeito com estas pessoas, numa primeira
etapa, podem ser problemáticas, devido ao trauma que é revivido e trabalhado
nas sessões de regressão. Normalmente, a solução do conflito interno ao sujeito
leva igualmente à melhoria das suas relações interpessoais
com estas pessoas no agora. As objeções de que estas memórias são provindas do
nível atávico-genético não se sustentam perante o fato de que alguns relatos
envolvem outras culturas em épocas mais ou menos recentes (por exemplo, uma
criança nascida no Brasil, de família descendente de portugueses há muito
migrados para o país, pode relatar a vivência de uma outra vida passada na
Itália, durante a Segunda Guerra. Ver Andrade, 1990).
Mesmo as mais recentes e profundas pesquisas em
Psiquiatria apontam para o fenômeno de regressão espontânea da memória
vinculado coma experiência de vidas passadas. O extraordinário psiquiatra e
teórico Stanislav Grof nos
descreve isto, em seus estudos com drogas psicodélicas e seus efeitos, nas seguinte palavras:
"Outra observação
interessante desse tipo [ emergência de conteúdos do
inconsciente ] foi feita em conexão com experiências de encarnação anterior, em
sessões psicodélicas. Alguns sujeitos do [ experimento clínico com ] LSD
experimentaram, de vez em quando, seqüências vívidas e complexas de outras
culturas e períodos históricos que têm todas as qualidades de memórias e são,
de modo geral, interpretadas pelos próprios indivíduos como um reviver de
episódios de vidas prévias. À medida que essas experiências se desenrolam, os
sujeitos do LSD geralmente identificam certas pessoas de sua vida presente como
protagonistas importantes dessas situações cármicas.
Neste caso, tensões interpessoais e problemas e
conflitos com essas pessoas são freqüentemente reconhecidos ou interpretados
como derivados diretos de modelos cármicos
destrutivos. O reviver e a solução dessas memórias cármicas
são associados, de modo típico, com profundo alívio, libertação dos opressivos
"vínculos cármicos", sentimentos de êxtase
irresistível e realização por parte do sujeito (...). A sensibilidade, o
comportamento, as atitudes de indivíduos identificados pelo sujeito do LSD como
protagonistas na seqüência da encarnação anterior tendem a mudar, numa direção
específica, em coerência básica com os eventos da sessão psicodélica (...) (Grof, 1988, p. 32).
Sendo assim:
"Se
o conhecimento de mecanismos {materiais} íntimos do funcionamento cerebral nos
deu os primeiros remédios realmente eficazes para [o controle de] certas
patologias psíquicas, a abertura maior das psicoterapias para [o contínuum] eternidade do espírito e a [consciência
holográfica] cósmica [ou transpessoal] permite uma
visão, pelo menos teórica, de uma enorme fenomenologia geralmente desprezada
pela ciência 'oficial' "(Pincherle, 1991, p. 18, com adaptações). Tudo isso é
necessário expor para apontar, como já o fizera esplendidamente Thomas Kuhn, Fritjof Capra, e outros, de que
muitos dos cientistas modernos de renome se limitam em seus estudos pelas
janelas de seus referenciais teóricos, concepções de mundo, paradigmas e visões
de mundo, e negligenciam fenômenos que a medicina e a psicologia acadêmicas
pouco levam em consideração, quando não chegam a usar plenamente o mecanismo de
defesa da negação ao se depararem com tudo aquilo que
não lhes é compreensível dentro do contexto newtoniano-cartesiano, mas que vêm
recebendo especial atenção de vários pesquisadores de vanguarda da física
quântica, como David Bohm, Niels
Bohr, Fritjof Capra, Erwin Schrödinger, e muitos
outros.
A Idéia da Reencarnação
Através dos Tempos
É plenamente conhecido que a idéia de reencarnação
faz parte da cultura dos povos orientais, particularmente aos que adotam
religiões e filosofias profundas como o Budismo e a Hinduismo, geralmente vistas como 'exóticas'.
Menos reconhecido, porém é o fato de que esta idéia também está presente na
herança intelectual do ocidente. Os gregos, por exemplo, a reconheciam como uma
hipótese válida, e os órficos (ver a Home Page Orfeu e o Orfismo), que
representavam a casta do sistema religioso mais avançado dos gregos (Reale & Antiseri, volume 1,
1993; Reale, volume I, 1994), expunham sua
concepção paligenésica (da reencarnação) numa
roupagem filosoficamente avançada, que influenciou sobremaneira Sócrates e Platão , dentre outros. Platão, especialmente, nos legou fortemente sua crença na
reencarnação, como podemos ver, entre outros diálogos escritos por ele, no Fédon. Antes dele, Pitágoras também a adotou como
condição sine qua
non para a evolução plena da alma.
Posteriormente, Plotino e Orígenes, o Cristão, também a divulgariam. São Clemente de Alexandria (posteriormente cassado pela
Igreja Católica) também a considerava uma doutrina de profundo sentido. Na
Europa gaulesa e britânica, os druidas acreditavam na reencarnação em termos semelhantes
aos gregos e budistas, e os hebreus, na fase helênica, não a desconheciam,
sobretudo pelo intercâmbio com o mundo greco-romano, donde a idéia de
ressurreição ter algo confuso da idéia da reencarnação (por isso as passagens
em que se diz que Jesus ou João Batista seriam a ressurreição de algum
profeta antigo, como se pode ver em algumas passagens dos evangelhos, como em
Mateus, 17, 11-13; Marcos, 9, 11-13; João, 3, 3-7 e Lucas 1, 17). Enfim,
enquanto culturalmente em outras partes do mundo a idéia na reencarnação era
discutida e endossada, pelo menos como uma proposta filosófica coerente, ela
teve lugar no pensamento ocidental e como parte da doutrina cristã até o
Conselho de Constantinopla de 533 DC, quando, por motivos políticos, foi
formalmente repudiada pelo clero (Fadiman & Frager, 1986, p. 176).
Mesmo assim, esta idéia persistiu entre as
pessoas que tinham acesso aos filósofos clássicos e ao contato com as crenças
antigas. Os Cátaros, no século XII,
especialmente, tinham uma visão cristã original, onde a idéia da reencarnação
era vista como verdade inquestionável. E foi este, entre outras coisas
(ameaçando o poder ideológico e econômico da igreja de Roma, principalmente,
devido à crescente popularidade que possuía, contestando a hegemonia
imperialista típica da Igreja Romana) que levou à única cruzada em solo europeu
da história, objetivando a eliminação do pensamento cátaro
com uma truculência assassina que parecia prever os posteriores misteres
macabros da Inquisição, por parte das forças católicas, num requinte de
perversidade aterrador. O movimento cátarista foi um
dos muitos precursores da inevitável reforma protestante de Lutero e outros.
Posteriormente aos cátaros, outros movimentos
sentiram a mão de ferro da inquisição, que teve um de seus mais famosos lumiares em Giordano Bruno, queimado em 1600, e que defendia idéias
bastante fortes contra o sistema de crenças dogmáticas da Igreja de Roma, o que
incluía a reencarnação.
No século passado, o contato com as doutrinas
orientais, particularmente a Budista, trouxe à tona novamente o estudo da paligênese, e com desenvolvimento do Espiritismo e de outras correntes de pensamento,
estimulou-se um ressurgir do interesse sobre a reencarnação. As similiaridades entre o que diz o espiritismo moderno e a
concepção budista da reencarnação, que também é evolucionista, não podem ser
negligenciadas, ainda que alguns pseudo-intelectuais queiram passar a idéia de
que expressem coisas opostas.
Hoje em dia, como
vimos, a tese da reencarnação passou da esfera religiosa e filosófica para a
área da pesquisa científica. Devemos ficar, pois, atentos ao progresso desta
pesquisa, com as conseqüências sem dúvida de grande gravidade que elas poderão
trazer à nossa visão de mundo e, conseqüentemente, à forma de como nos
comportamos em relação a nós mesmo e a nossos semelhantes. E, como nos falam os
Doutores James Fadiman e Robert Frager,
"se há a possibilidade
de aceitar o fenômeno, então a possível origem da personalidade e das
características físicas pode incluir eventos ou experiências de encarnações
anteriores. Tudo o que se pode afirmativamente dizer é que existe uma evidência
factual que não pode ser facilmente descartada" (Fadiman & Frager,
1986, p. 176).
João Pessoa, Paraíba, 25 de junho de
1998.
Bibliografia
Andrade, Hernani Guimarães,-
Morte, Renascimento, Evolução, Ed. Pensamento, São Paulo, 1987.
Andrade, Hernani Guimarães. - Reencarnação no Brasil, Editora O Clarim, Matão,
1990.
Fadiman & Frager,-
Teorias da Personalidade, Editora Harbra, São Paulo,
1986.
Grof, Stanislav, Além do
Cérebro, MGraw-Hill; São Paulo, 1986.
Tendam, Hans, Panorama Sobre a Reencarnação, volumes I e II, Summus Editorial, São Paulo, 1994.
Pincherle e colaboradores, Terapia de Vida Passada, Summus Editorial, São Paulo, 1991.
Reale, G. & Antiseri, D., História da Filosofia, vol. I e II. Editora Paulus, São Paulo, 1993.
Reale, Giovani. História da
Filosofia Antiga, Volumes I e IV. Editora
Loyola,
Stevenson, Ian, Twenty Cases Suggestive of Reincarnation. Proceedings
of the American Society for Psychical Reseach, vol.
26.
Weil, Pierre,- Fronteiras da Evolução e da
Morte. Ed. Vozes, Petrópolis, 1979.
Weil, Pierre.- A Morte da Morte, Ed. Gente, 1995.