O “insight”
pertence ao cérebro ou ao Espírito?
Alexandre
Fontes da Fonseca
Evidências científicas
demonstram que o sono estimula a criatividade. Aqui discutiremos essa questão
com base no Espiritismo.
Os dorminhocos devem estar dormindo um pouco mais tranquilos após a recente publicação na revista Nature [1,2], de fortes evidências que sugerem que dormir estimula a criatividade. Mas a alegria dos dorminhocos preguiçosos não vai muito longe porque, segundo essa mesma pesquisa, apenas dormir não é suficiente: é necessário haver esforços anteriores. Explicaremos essas questões ao longo do texto.
Até então, a idéia de que o sono estimulava o pensamento criativo era considerada
uma anedota popular [2] principalmente devido ao relato de alguns grandes cientistas
e artistas que disseram ter tido seus “insights” ou inspirações
durante ou após uma boa noite de sono. Mas, no artigo da referência [1], um
grupo de cientistas alemães descrevem uma série de experiências criadas e
realizadas por eles, que demonstram os efeitos positivos do sono no aumento
daquilo que chamamos de “insight”, isto é, da percepção consciente repentina de
leis ou regras não conhecidas previamente. Enfatizamos que tais experimentos
não apontam as causas do aumento na criatividade ou no nível de “insight”. Eles apenas mostram
a correlação entre dormir e ter “insights”. Assim, neste
artigo, pretendemos discutir uma possível alternativa para a origem dos “insights”
de acordo com o ensinamento dos Espíritos. Não podemos ainda demonstrar cientificamente,
através desses experimentos, que é o Espírito que está por trás do fenômeno.
Mas podemos verificar que os ensinamentos espíritas estão de acordo com eles.
Podemos ainda nos motivar a criar experimentos semelhantes para responder
outras questões de interesse como, por exemplo, se os médiuns ostensivos
apresentariam um maior rendimento em “insights” do que as pessoas sem
mediunidade ostensiva. Isso poderia sugerir que os “insights” podem ter como origem
as idéias provindas do plano espiritual já que médiuns ostensivos são mais
sensíveis a essa “captação”.
No experimento dos cientistas alemães, os participantes tinham que realizar um
tipo de tarefa mental onde a partir de um determinado grupo de números, eles
tinham que obter corretamente, uma outra sequência de números utilizando regras
pré-estabelecidas. A figura 1 abaixo mostra um exemplo do teste e apresenta as
regras. A resposta final para a tarefa ou teste é o último número da sequência
que eles tinham que descobrir. Uma das formas de se atingir esse objetivo final
era seguir-se as regras do teste, número por número, até o final. Também era
permitido aos participantes apresentarem a resposta final a qualquer momento. O
que os participantes não sabiam, era que os pesquisadores sempre apresentavam sequências
iniciais tais que após a obtenção do terceiro número da nova sequência, usando
as regras normais do teste, este sempre correspondia ao último número e,
portanto, à resposta desejada.
O teste, desta forma, podia verificar quando o participante tinha o “insight” de perceber que o terceiro número era a resposta exigida.
Para constatar a necessidade daquilo que os
cientistas batizaram de treino vários grupos de pessoas foram submetidas a um
mesmo número de testes em condições diferentes que descreveremos a seguir. Três
grupos de pessoas realizaram um treino antes de uma bateria de dez testes. Neste treino todos
os participantes fizeram o teste três vezes e, após um intervalo
de oito horas, voltaram a realizar o teste por mais dez vezes. Um outro grupo
realizou de forma direta os treze testes. Dos três grupos acima, um deles
permaneceu acordado durante o dia nas oito horas de intervalo entre o treino e
a bateria de dez testes; o outro permaneceu acordado durante a noite
nas oito horas de intervalo; e o grupo final dormiu nas oito horas de
intervalo. Os resultados foram bastante significativos. A percentagem dos que
tiveram o “insight” esperado no grupo que dormiu foi de 60%, mais que
o dobro da percentagem daqueles que não dormiram, de dia ou de noite,
entre o treino e a bateria de dez testes finais: 22%. Como não
houve diferença entre o grupo que ficou acordado de dia e o que ficou acordado de noite o aumento de “insights” no grupo que dormiu não se deve ao fator
descanso dos que dormiram. A proporção dos que tiveram o “insight” no grupo que não
treinou oito horas antes foi de 25%, portanto, praticamente a mesma dos que se
mantiveram acordados.
Como se pode ver essa experiência é bem significativa. Não apenas dormir é
necessário mas deve-se treinar antes na tarefa que foi designada. Isso
significa que ninguém deve esperar que vai se tornar gênio após uma boa noite
de sono! É necessário que exista esforço próprio para que, durante o sono, algo
se processe que culmine com a percepção melhor das soluções dos problemas.
É de se esperar que nossos irmãos cientistas busquem na matéria as hipóteses
para esse processamento mental durante o sono. Eles começam a imaginar que tipo
de circuitos neuronais seriam atividados e em qual fase do sono isso
aconteceria para que o “insight” ocorra [2]. Não estamos aqui para julgar e
sim para desejar-lhes que desvendem cada vez mais os segredos da máquina
humana. E pedimos a Deus que não tarde o dia em que a humanidade reconheça o
espírito imortal comandando-a.

Figura 1: Teste de Redução Numérica (TRN) ilustrado por um exemplo. Em cada teste uma sequência diferente de números é apresentada. Cada sequência é composta de três dígitos como ‘1’, ’5’ e ‘8’ no exemplo acima. Para cada sequência, os participantes tem que determinar o dígito definido como “Resposta final” (em vermelho). Isso pode ser realizado a partir do processamento dos dígitos de acordo com duas regras simples iniciando pelo dígito da esquerda e indo em direção ao da direita. A primeira é a regra do mesmo número que diz que o resultado de dois dígitos idênticos é o próprio dígito. Por exemplo, ‘1’ e ‘1’ resulta em ‘1’ como na resposta 1 na figura. A segunda é a regra do número diferente que diz que o resultado de dois dígitos diferentes é o terceiro dígito. Por exemplo, ‘1’ e ‘5’ resulta em ‘8’, como na resposta 2. Após a primeira resposta, as comparações são feitas entre o resultado anterior e próximo dígito da sequência inicial. A sétima resposta indica a solução final exigida, a ser confirmada pelo participante através de um botão diferente. As instruções dizem que apenas a solução final (a resposta final na figura) é que tem que ser determinada e que isso pode ser feito em qualquer momento.
Enquanto
isso, nós que tivemos a oportunidade de ter a luz dos ensinamentos dos
espíritos, podemos, sem perda de seriedade, analisar a questão sob o aspecto
doutrinário. No assunto em questão, o Livro dos Espíritos apresenta um capítulo
inteiro sobre a emancipação da alma (cap. VIII da parte segunda do Livro dos Espíritos [3], questões 400 a
455). Vamos comentar algumas dessas questões.
Na
extensa resposta dos espíritos à questão número 402, destacamos a frase: “Numa palavra: o sono
influi mais do que supondes na vossa vida”. Os cientistas acabaram de demonstrar
mais uma boa influência do sono. Mas os espíritos disseram também que “Graças ao sono, os
Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos”. Portanto uma
hipótese bastante plausível é que idéias para a resolução dos nossos problemas
cotidianos se originem dos amigos espirituais. Lembramos que isso não significa
que devemos cruzar os braços e dormir esperando a solução de todos os nossos
problemas. Se faz necessário a existência de um grande esforço de nossa parte
em resolvê-los de modo a criar em nossa mente as idéias e subsídios para que os
espíritos possam nos ajudar sem interferir no nosso livre arbítrio e mérito da
descoberta e da escolha. Como vimos, seja qual for o mecanismo psíquico por
trás dos “insights”, por ocasião do sono, ele depende do esforço
prévio.
Na
questão 417 do Livro dos Espíritos [3] Kardec pergunta se os espíritos
encarnados podem se reunir em assembléias durante o sono e os espíritos
respondem que sim e que “Ao despertar, guardamos intuição das idéias que haurimos nesses
colóquios...” Um pouco adiante, na questão 419, os espíritos confirmam que é
pela emancipação da alma através do sono, que várias pessoas de lugares bem
distantes podem ter idéias semelhantes ao mesmo tempo, sem nunca terem trocado
um telefonema que seja (ou um “e-mail” que está mais na moda hoje).
Além
disso, as questões 402, 410, 460 e 462 do Livro dos Espíritos [3] oferecem, com
precisão, uma proposta espírita para a questão sobre ter idéias ou “insights”.
Transcreveremos as seguintes palavras dos espíritos:
402. Como podemos julgar da liberdade do Espírito durante o sono?
“Pelos sonhos. Quando o corpo repousa, acredita-o, tem o Espírito mais faculdades do que no estado de vigília. Lembra-se do passado e algumas vezes prevê o futuro. Adquire maior potencialidade e pode por-se em comunicação com os demais Espíritos, quer deste mundo, quer do outro. (...).”
410. Dá-se também que, durante o sono, ou quando nos achamos apenas
ligeiramente adormecidos, acodem-nos idéias que nos parecem excelentes e que se
nos apagam da memória, apesar dos esforços que façamos para retê-las. Donde vêm
essas idéias?
“Provêm da liberdade do Espírito que se emancipa e que, emancipado, goza de suas faculdades com maior amplitude. Também são, freqüentemente, conselhos que outros Espíritos dão.”
460. De par com os pensamentos que nos são próprios, outros haverá que nos
sejam sugeridos?
“Vossa alma é um Espírito que pensa. Não ignorais que, freqüentemente, muitos pensamentos vos acodem a um tempo sobre o mesmo assunto, não raro, contrários uns dos outros. Pois bem! No conjunto deles, estão sempre de mistura os vossos com os nossos. Daí a incerteza em que vos vedes. É que tendes em vós duas idéias a se combaterem.”
462. É sempre de dentro de si mesmos que os homens inteligentes e de gênio
tiram suas idéias?
“Algumas vezes, elas lhes vêm do seu próprio Espírito, porém, de outras muitas, lhes são sugeridas por Espíritos que os julgam capazes de compreendê-las e dignos de vulgarizá-las. Quando tais homens não as acham em si mesmos, apelam para a inspiração. Fazem assim, sem o suspeitarem, uma verdadeira evocação.”(Grifos em negrito nossos).
Inferimos tanto pela forma das questões formuladas por Kardec quanto pelas
respostas dos espíritos que ter idéias ou “insights” não significa,
apenas, que elas tenham que ser provenientes de outros espíritos. Uma vez que
estamos um pouco mais libertos dos laços da matéria e que recobramos
parcialmente as faculdades mais elevadas do espírito, teremos uma visão mais
ampla dos problemas que estamos vivenciando e isso pode permitir que as
soluções pensadas e meditadas pelo espírito, durante o estado de emancipação da
alma, podem vir à tona em nossa consciência, quando estamos no estado de
vigília, gerando a sensação de “insight”.
Antes de
concluirmos, gostaríamos de citar, também, a seguinte questão do Livro dos Espíritos [3]:
24. Espírito é sinônimo de inteligência?
“A
inteligência é um atributo essencial do Espírito. Uma e outro, porém, se
confundem num princípio comum, de sorte que, para vós, são a mesma coisa.”
Sendo a inteligência um atributo essencial do espírito então não é o cérebro que
origina o
“insight”. Seja da forma que
for, o processo psíquico que culmina com o “insight” tem origem no
espírito e não no cérebro, respondendo à questão formulada no título deste
artigo. Em nossa análise, propomos que a origem dos “insights”, de acordo com a
Doutrina Espírita, advém do fenômeno de emancipação da alma através do sono. A
alma, gozando de mais amplas faculdades, seja através de uma melhor visão dos
seus problemas ou seja através dos contatos com os espíritos superiores, pode
obter as respostas para as questões que lhe interessam. Essa proposta, que não
constitui novidade alguma para os espíritas, não entra em conflito e constitui
uma perfeita explicação para as experiências dos cientistas alemães que
demonstraram que o sono estimula ou promove a criatividade ou o surgimento de “insights”.
REFERÊNCIAS
[1]
U. Wagner, S. Gals, H. Haider, R. Verleger e J. Born 2004, Sleep inspires
insight, Nature 427, pp. 352—355.
[2] P. Maquet e P. Ruby, 2004, Insight and the sleep committee, Nature 427, pp.
304—305.
[3] A. Kardec, O Livro dos
Espíritos, Editora FEB, 76a. Edição, Rio de Janeiro, 1995.
(ARTIGO PUBLICADO
ORIGINALMENTE NA REVISTA INTERNACIONAL DE ESPIRITISMO, DEZEMBRO DE 2004, PGS.
593-595 e reproduzido com
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