“Fundação Emmanuel”
Ao
tecermos estes comentários sobre o livro “Fundação Emmanuel”, não nos move
outro propósito além daquele de promover uma discussão sadia, a fim de que
possam ser esclarecidos pontos um tanto obscuros e outros que não nos pareceram
consentâneos com a Doutrina codificada por Kardec, deixando claro que
discutimos idéias e não pessoas.
Para maior
facilidade e fidelidade, transcreveremos os trechos em estudo em negrito,
seguindo-se os comentários em letra comum. Como os trechos já estão em negrito,
não os colocamos entre aspas, deixando-as para usar onde o Autor as usou.
—
Então, – indaguei –, existem demônios?
— Não,
na acepção da palavra... Deus é único e, no final, a Luz há de prevalecer
sempre. No entanto, devemos admitir que, do ponto de vista intelectual, em seu
aspecto avesso, existem espíritos que se confrontam com o Cristo quase em seu
nível.
— Quase
em seu nível?
—
Quase, Inácio... São espíritos tão altamente intelectualizados, que não temos
cabeça para conceber-lhes a existência.
— E
onde vivem? Nas adjacências do Planeta?...
— Estão
em toda parte, mas o seu habitat preferencial é o interior do Orbe;
enquanto o Senhor nos atrai para cima, eles nos atraem para
baixo... (26 - 27)
Sabe-se
que a evolução do Cristo está muitíssimo acima de qualquer outro Espírito que a
Terra conheceu, logo, esses Espíritos voltados ao mal – que estão próximos à
evolução intelectual do Cristo – devem estar muitíssimo acima de todas as
grandes inteligências que já se encarnaram no Planeta.
— É,
mas ele, Chico, não acreditava que fosse a reencarnação do Codificador... (31)
Qual a
utilidade de bater nessa tecla desgastada, da reencarnação de Kardec? Que
contribuição isso traz para o esclarecimento e melhoria das pessoas?
— Em
situações semelhantes, ele se viu muitas vezes, Odilon; as propostas que o
próprio Clero lhe fez ou lhe mandava fazer, para que regressasse às suas
origens, ou seja, ao seio da Santa Madre Igreja...
—
Inclusive, tentando-o com dinheiro...
— Com
muito dinheiro e prestígio, prometendo custear os seus estudos na faculdade em
que desejasse se matricular, em Belo Horizonte e, ainda, lhe auxiliar a
família. (35)
Em que
essa afirmativa contribui para a edificação do leitor? Onde os documentos ou
testemunhas que possam comprovar acusações tão graves? Por que essas acusações
contra a Igreja? Que benefício esse relato traz ao Movimento Espírita?
—
Aqueles sonetos perfeitos e de rara inspiração e beleza, “escritos” por um
rapazinho que calçou o seu primeiro par de botinas com quase 15 de idade...
— Doado
por um padre! – para mim, é o único senão da história. Ora bolas, será que em
Pedro Leopoldo não havia ninguém que pudesse doar um par de botinas a um menino
pobre? Tinha que ser um padre!... (36)
O Dr.
Inácio faz sempre questão de mostrar a sua aversão à Igreja e aos padres. Em
que essa “gracinha” contribui para a difusão da nobre mensagem espírita? Qual a
sua finalidade? Encher páginas de livro?
As
páginas mediúnicas em questão se inspiraram no espírito de Allan Kardec,
mas não foram evidentemente, inspiradas por ele.
— A
mediunidade – comentei – tem tantas nuances!...
—
Muitas, Inácio, muitas nuances que carecem ser levadas em consideração no
estudo do fenômeno. (38)
É um tanto
complicada essa questão de se inspirar no Espírito de Kardec. Parece vontade de
confundir as coisas. Se um Espírito se inspirou nos ensinamentos de Kardec e
fez com que a mensagem fosse atribuída a ele, trata-se de mistificação. Se o
médium se inspirou, e deu a público como se fosse Kardec, foi animismo. Não se
trata, portanto, de nuance mediúnica.
—
Exatamente. Os que correram os olhos mais detidamente sobre o livro “Paulo e
Estevão”...
— Uma
obra prima da literatura espiritualista!
— ...
perceberão, na excelente narrativa de Emmanuel, que Jesus, redivivo, toca diversas
vezes a cabeça do ex-doutor do Sinédrio, que, num átimo, se converte...
— A
súbita conversão de Paulo sempre intrigou! Ele não poderia se tornar um outro
homem, apenas pela visão ao Cristo Ressurecto... (39)
A
referência não confere com o que está no famoso livro de Emmanuel, que registra
o seguinte: “o Mestre tocou-lhe os ombros com infinita ternura, dizendo, com
inflexão paternal: — Não recalcitres contra os aguilhões!...”
Seria até
irrelevante o fato de haver equívoco na referência ao local do toque de Jesus,
não fosse o aspecto milagroso atribuído ao acontecimento: Jesus,
redivivo, toca diversas vezes a cabeça do ex-doutor do Sinédrio, que, num
átimo, se converte.
Diante do
relato, poder-se-ia concluir que a conversão de Saulo não se deu por decisão
própria, mas porque fora ‘tocado pela graça’, o que contraria frontalmente os
ensinamentos espíritas. Não se nega o efeito benfazejo da presença do Mestre,
mas a decisão coube a Saulo, mesmo porque, seria de se perguntar por que Jesus
não convertera os soldados que o crucificaram.
— Sem a
intervenção direta do Cristo, um espírito não logra cumprir a missão que Chico
Xavier cumpriu sobre a Terra.
– Ah! –
exclamei, com sinceridade –, como anelaria que Jesus me tocasse a cabeça com
suas Divinas Mãos... (40)
Será que o
Dr. Inácio está querendo dizer que Chico Xavier foi “agraciado” com uma
prerrogativa especial? Teria ele sido escolhido para a missão, não pelos seus
valores espirituais, mas pela possibilidade de receber a intervenção direta
do Cristo? O Autor parece não fazer distinção entre intervenção de ajuda,
de amparo e interveniência no livre-arbítrio de um Espírito. Se o Mestre
mudasse milagrosamente as pessoas, teria mudado Pedro, que não o teria negado.
Teria transformado também a Judas, mas, um Espírito, quanto mais evoluído,
tanto mais respeita o livre-arbítrio do próximo.
— O
personalismo campeia entre médiuns e dirigentes...
—
Necessitamos de rever a proposta de Unificação; o homem ainda não sabe ocupar
qualquer
condição
de liderança, sem que o cargo lhe suba à cabeça. (42)
Depois de
atacar espíritas e médiuns em outras obras, agora ataca a Unificação. Ataca
essa realização gigantesca, que não encontra similar no mundo. Unificação que
foi conseguida exatamente porque nela, o amor à causa superou as posições
pessoais, graças à compreensão dos abnegados espíritas que a ela se dedicaram e
se dedicam com denodo, por amor à Verdade. Esse Movimento sui generis causa
admiração a todo aquele que o observa, seja do ângulo teológico, seja do
sociológico, como um fato inusitado na História: Uma comunidade religiosa que
se une em torno de uma Doutrina, em âmbito nacional, sem que ninguém tenha
autoridade religiosa ou poder decisório sobre os demais. É a verdadeira
realização da religião ensinada e exemplificada pelo Cristo, que se concretiza
através do Espiritismo.
— Os
centros espíritas devem guardar a sua independência; cooperar, sim, e sempre
com toda iniciativa geral de caráter doutrinário, mas não se submeterem...
— A
situação é delicada, Inácio. Em seu processo de hierarquização, foi que o
Catolicismo começou a se perder. Em nosso meio, a liderança deve ser
espontânea. (42 - 43)
É de se
perguntar a que vem esse conselho extemporâneo aos centros espíritas, no
sentido de não se submeterem. Não se submeterem a que ou a quem? Novamente, a
confusão intencional entre esforço de unificação e processo de hierarquização.
Trata-se
de um plano ardilosamente preparado para desestruturar a Unificação do
Espiritismo, que vem sendo habilmente posto em prática, através de uma pregação
baseada em pressupostos falsos. Àquilo que os mal intencionados chamam processo
de hierarquização, os bem intencionados chamam de nobre esforço de trabalho
conjunto.
— Os
espíritos que integram a Fundação “Emmanuel” sempre se comunicam, usando o seu
nome?
—
Quando o médium lhes fornece abertura e se liberta de qualquer fixação mental,
no que tange à identidade do comunicante, se lhes amplia o leque de
possibilidades junto ao medianeiro.
— Quer
dizer que a questão da identidade do espírito comunicante...
— Está
mais afeta ao médium do que propriamente ao espírito, o qual, em última
análise, se preocupa com a transmissão de suas idéias. (85)
Realmente,
aprende-se com Kardec que não se deve valorizar uma mensagem pelo simples fato
de ter sido assinada por alguém de nome ilustre, mas sim pelo seu conteúdo.
Mas, ficar ao arbítrio do médium o uso do nome de um Espírito como Emmanuel...
— Por
aqui também, Doutor, eles se reproduzem...
— Os
gatos?! – indaguei, agradavelmente surpreso, olhando de soslaio para Odilon.
— Os
gatos, os pássaros, as flores...
— Esse
assunto de reprodução, depois da morte, é um dos que mais me interessam –
observei.
— Quer
dizer...
— ...
que a Vida, em qualquer dimensão em que se manifeste, prossegue inalterável,
sublimando-se sempre. (97)
É
interessante notar que o próprio Dr. Inácio, no livro “Na próxima Dimensão”
(214 - 215), relata que vira uma espécie de rouxinol chocando, e, nesse
momento, toma conhecimento do nascimento de crianças no Mundo Espiritual (sic).
Agora, neste livro, demonstra surpresa ante a reprodução de gatos... Se essa
reprodução fosse real, como o Dr. Inácio, depois de dezoito anos no Mundo
Espiritual, sendo diretor de um hospital, ainda não soubesse disso?
Confesso-lhes
que eu não conseguia tirar os olhos do ventre daquela menina que me passou a
inspirar enorme simpatia.
— O
senhor quer tocar-lhe o abdômen, Doutor? Érica não se importa e Gustavo não é
ciumento.
Eu
estava tão absorto e encantado, que mal pude atinar com a espirituosa
brincadeira de Ferdinando. Como se aquela garota, que mais me parecia uma
boneca falante de tão bela, fosse a filha que eu nunca pude ter, apalpei-lhe
carinhosamente o ventre e, pasmem, a criança deu sinal de vida sob a minha
mão... Os meus olhos se encheram de lágrimas e, notando minha forte emoção,
Érica, que conseguia ser menor do que eu, ficou na ponta dos pés e me osculou a
face.
— Você
está realmente grávida concluí e isso, minha filha, será um problema!
— Um
problema para nós, isto é, para mim e para o Gustavo?
— Não –
respondi –; para os nossos irmãos na Terra!... A turma por lá...
— Eu
sei, Doutor, é preconceituosa...
— Se
fosse só uma questão de preconceitos, a questão não seria tão grave assim. É
mais sério, porque se trata de ignorância mesmo! (98 - 99)
Quando André
Luiz começou a fazer aquelas revelações extraordinárias, principiando pelo
livro “Nosso Lar”, não se preocupou com a repercussão que a obra provocaria na
Terra: tinha a segurança própria dos que detêm a Verdade. O Dr. Inácio,
repetidamente, manifesta sua preocupação com o que os espíritas estão dizendo
ou irão dizer daquilo que ele revela... E tacha a todos aqueles que não aceitam
as suas “revelações” de preconceituosos e de ignorantes!
Quando,
através de Chico Xavier, André Luiz se referiu com palavras menos fraternas
àqueles que não aceitaram de imediato suas revelações?
— Para
quando será a criança, minha filha? – questionei.
—
Dentro de uma semana, completarei os cinco meses...
—
Faltam três, para oito...
— Não,
doutor, o nosso tempo de gestação é menor – se passar da data, não será muito.
— E de
onde vem esse menino? – criei coragem e formulei a pergunta que mais me
intrigava. Mas, antes que um dos dois, ou o próprio Ferdinando, me respondesse,
me virei para os amigos, que se mantinham em silêncio, e reclamei: — Vocês vão
me deixar sozinho nesta?... (100)
Será que o
Dr. Inácio não sabe que uma gestação normal dura nove e não oito meses? Através
de seus livros, pretende fazer revelações, mas será que essas novidades também
são novas na Colônia Espiritual onde estagia? Se isso fosse real, seria
possível que ele, diretor de hospital psiquiátrico, não soubesse – depois de
dezoito anos de desencarnado – de onde viriam os espíritos para essas encarnações
espirituais?
— É o
bisavô de Gustavo que está reencarnando – disse a jovem às vésperas de
ser mamãe. — Ele reside em Plano Espiritual mais elevado, e cremos que, talvez,
se não tivéssemos desencarnado, fosse estar conosco na Terra... Muitos
necessitam dele por aqui...
—
Acreditamos, Doutor, que seu próximo passo será mesmo voltar ao convívio de
nossos familiares no mundo – observou o futuro genitor.
— O
espírito, quando pretende se demorar em determinada dimensão espiritual,
inferior à que esteja presentemente habitando, necessita ganhar corpo –
elucidou Ferdinando, resumindo: — Para cima, ele tem que perder, para
baixo, ele tem que ganhar... (100 - 101)
Importa
notar que aqui fica claro que um Espírito superior, para permanecer nessa
colônia, deveria ganhar corpo, ou seja sofrer um processo
semelhante à reencarnação terrena. Logo, não passariam por esse processo
Espíritos inferiores.
—Quer
dizer, então, que aqui só nascem – ou renascem – espíritos de maior elevação?
— No
plano em que estagiamos, ainda não.
— Por
favor, Ferdinando, seja mais claro – solicitei.
— Não é
tão simples traduzir isto em palavras, porém vamos tentar. É que, além das
dimensões espirituais que se nos localizam acima e aquelas que se nos
posicionam abaixo...
— O
próprio Umbral, a Crosta, as Trevas, o Abismo...
— Sim,
além das mencionadas pelo senhor, existem as dimensões paralelas... (100 – 101)
Há uma
flagrante contradição nessa pretensa revelação de encarnações espirituais,
pois agora não fala mais em dimensões acima, mas paralelas...
Essa gravidez no Mundo Espiritual, já revelada na obra “Na
Próxima Dimensão” é tão absurda que nem merece mais comentários. Parece até que
o Dr. Inácio está querendo testar o nível de conhecimento doutrinário dos
espíritas, para não dizer o nível de bom-senso.
— Estou
aqui com um exemplar do “Resenha Espírita da Crosta”, nas mãos...
—
Como?! – interpelei, admirado.
— Um
periódico espírita com notícias da Terra e, em especial, do Movimento Espírita
no Brasil.
—
Impresso onde?
— Na
“Fundação”... Circula internamente.
— Um
jornal espírita no Além, com notícias do Aquém?...
— Do
Aquém, Doutor, e do Mais Além! (124)
Lê-se
exatamente o contrário dessa preocupação com o que ocorre na Terra, conforme o
diálogo entre André Luiz e Lísias:
“— Mas
não há recurso – indaguei – para recolher as emissões terrestres?
— Sem
dúvida que temos elementos para fazê-lo, em todos os Ministérios; entretanto,
no ambiente doméstico o problema da nossa atualidade é essencial. A programação
do serviço necessário, as notas da
Espiritualidade Superior e os ensinamentos elevados vivem, agora, para nós
outros, muito acima de qualquer cogitação terrestre.” (N. L., 127)
Em “Nosso
Lar” não há interesse nem em notícias familiares, mas na “Fundação” há até
jornais que veiculam falatórios terrestres...
— Dr.
Inácio, por favor, uma derradeira pergunta...
— Pois
não.
— É
verdade também o que o Resenha está dizendo?...
— A
menos que os jornais daqui também se equivoquem como os da Crosta costumam se
equivocar – respondi.
— “Aos
espíritas que me criticam...” – leu o rapaz, em voz alta.
— “...ofereço,
solenemente, uma banana!...” – não me esquivei de concluir, na alusão grotesca
ao gesto feito com a mão esquerda apoiar-se no braço direito, tendo o antebraço
voltado para cima com a mão fechada. (135)
O diálogo
acima se deu no encerramento de uma palestra que o Dr. Inácio teria proferido
na “Fundação Emmanuel”. No encerramento, o Dr. Odilon, ao lado de conceitos
elevados, não deixou de fazer uma defesa do Dr. Inácio, que logo depois foi
protagonista, diante de imensa platéia, da cena acima descrita, que dispensa
comentários...
—
Então...
— Mas –
justifiquei – essa história de eu oferecer banana aos espíritas é
antiga, tão antiga, meu filho, que, a estas alturas, já deve ter virado um
cacho inteiro delas!
É
evidente que, uma vez mais, o meu propósito era o de provocar a descontração
dos estagiários, que ficaram a gargalhar enquanto nos retirávamos. (136)
Será que o
nobre orientador de Chico Xavier, conhecido pela sua austeridade – não só pelas
suas páginas, mas também pelas informações do próprio médium – iria emprestar
seu nome a uma Fundação onde fosse permitida a circulação de jornais,
revistas e panfletos que veiculariam conteúdos inaceitáveis até mesmo em
instituições terrestres? Esse tipo de imprensa e o nível do comentário parecem
mais consentâneos com o Umbral...
Antes
que eu prossiga com detalhes do diálogo que travamos, apenas a título de
curiosidade, devo esclarecer que os quinze participantes do grupo revelavam,
inclusive, estreita semelhança fisionômica com Emmanuel.
— O
senhor deve estar imaginando – disse-me Orígenes com espontaneidade –, como se
o meu pensamento para ele se desnudasse: — Emmanuéis em série, não é, Doutor?
— É!...
– respondi, sem alternativa.
— O
senhor sabe, naturalmente, que é o pensamento que nos plasma a forma, não?
— Sim!
–— É, então, por esse motivo, Doutor – prosseguiu Orígenes –, que muitos
sensitivos, além de ‘psicografarem’ Emmanuel, chegam a vê-lo.
—
Estou...
— ...
bestificado!
— Se o
senhor parasse de ler os meus pensamentos e de se apropriar de minha terminologia...
— ...
eu agradeceria! – emendou, desculpando-se em seguida:
— Não
leve a mal; é involuntário... A Área em que nos especializamos nos deixa de
mente aguçada.
— Meu
Deus, quantos Emmanuéis! – exclamei.
— Estes
são os originais...
— Acaso
existem os falsos?!
— É
claro que sim, e em maior número. Por que o espanto, Doutor? O senhor, por
ventura, acha que, em breve – muito breve –, não haverão de aparecer outros
Inácios Ferreiras operando mediunicamente?
— Tão
falsos quanto o original! – respondi, ainda um tanto aparvalhado.
—
Segundo levantamento que fizemos, só no Brasil, existem, presentemente, mais de
cinqüenta médiuns ‘psicografando’ Emmanuel!...
—
Outros tantos Andrés Luizes, outros tantos Irmãos X, outros tantos Meimeis...
— Qual
o seu nome, meu filho? – continuei, aproximando-me de um jovem que, para mim,
era a cara de Emmanuel, o verdadeiro. O verdadeiro?! – perguntava, confuso, a
mim mesmo. Que garantia possuía , já que eu nunca estivera, face a face, com o
original?!...
—
Emmanuel! – respondeu-me o jovem de belos traços romanos, a me glosar.
— Eu
agora estou falando sério... Por favor, você me poupe.
— O meu
nome real não diria nada ao senhor e nem para os nossos irmãos médiuns que me
‘recebem’...
— Mesmo
assim, eu gostaria de saber e, se possível...
— ...
com carteira de identidade!
— Não!
Todos aqui lêem pensamentos?!
—
Doutor, o meu nome é Joaquim da Silva.
— Um
“Emmanuel” que é Joaquim!... E os demais, como se chamam?
Um a
um, foram se apresentando:
—
Carlos José! Francisco dos Santos! Luís Antônio! Marcus Vinicius! Pedro de
Souza! Hermógenes Pereira! Luciano Alvarenga!...
Os
outros nomes, tão comuns quanto os primeiros, poupar-me-ei de decliná-los, em
protesto por não encontrar, entre eles, nenhum Inácio.
— Mas,
– comecei a questionar – como entender-se, então...
— ... a
diferença de estilo, Doutor, do Emmanuel de “Chico Xavier”, dos “Emmanuéis” de
outros médiuns? – completou Orígenes. — O problema é que os mensageiros, como o
senhor está podendo constatar, estudam, já os médiuns, não.
— Ah, isso
é verdade! – apressei-me em concordar.
— De
resto, no entanto, o que vale é a essência do pensamento.
— Ainda
que, do ponto de vista do estilo, a mensagem deixe a desejar?
— A
autenticidade doutrinária, ou seja, o conteúdo é a característica mais importante.
Ressaltemos, porém, que os nossos mensageiros são todos instruídos no sentido
de que auxiliem o médium a se libertar e...
— ... a
independer do nome que assume a autoria do comunicado.
— O
senhor aprende depressa, Doutor: conseguiu ler o meu pensamento... Com um pouco
de treino, daria um ótimo “Emmanuel” (140 - 142)
Seria o
caso do Doutor Inácio, coerentemente com o que diz, não assinar seus livros.
Para que identidade? Para quem conhece um pouco da obra de Kardec e dos
Espíritos equilibrados que se comunicaram através de Francisco Cândido Xavier,
de Yvonne do Amaral Pereira, de Divaldo Pereira Franco, de José Raul Teixeira,
seria necessário algum comentário sobre tudo o que foi dito acima?
— (...)
Outra constatação digna de nota é o fato de que quase todos os artistas; em
todas as épocas da Humanidade, retratarem a Augusta Face do Senhor de maneira
praticamente idêntica! Não se sabe de ninguém que O tenha retratado ao seu
tempo... (180)
Pelo
contrário, é difícil encontrar-se alguém que tenha sido retratado de maneira
tão diversa quanto o Cristo!
“—
Inácio, meu amigo – dizia delicado cartão – , eu não me esqueci que amanhã, 15
de abril, seria o dia de comemorarmos o seu aniversário. Com o meu carinho e a
minha gratidão, Modesta”.
Logo
abaixo, estava escrito:
“– P.
S. – O nome dela é “Mimi”. Foi atropelada ontem, quase em frente à sua antiga
residência. Fiquei com muita pena dela e me lembrei de você. Só tem uma
particularidade e espero que você não se importe: “Mimi” está grávida!...”
— Não,
não é possível! – balbuciei, sentando-me na cama e acariciando o pêlo sedoso da
gata. (183)
Novamente,
a gravidez no Mundo Espiritual. Desta vez, com a agravante de não ter-se
iniciado lá, mas na Terra...
—
Desembuche, Manoel, antes que eu continue dizendo e escrevendo o que não
devo...
— Dr.
Inácio – esclareceu –, quatro padres estão à sua espera...
— Quatro?!...
Um só já seria muito! Que desejam? Me converter?
— Estão
pedindo permissão para uma visita ao Hospital, alegando que receberam graves
denúncias.
— Era o
que estava me faltando: os espíritas ortodoxos de um lado e os padres de outro!
Isto é um complô! Que denúncias?...
— De
que, contra a vontade deles, estamos mantendo católicos internados aqui...
— E louco
tem vontade, Manoel? Por que não se entendem com o Carmelita?...
—
Insistem em falar com o senhor. Disseram inclusive, com base nas informações
que receberam, que mantemos um arcebispo em regime de internação compulsória.
—
Certamente estão se referindo a A., que acolhemos por solicitação de sua genitora.
— Se o
senhor não os atender, ameaçam denunciar-nos aos órgãos competentes; voltarão
com um mandado judicial...
— Meu
Deus!, isto aqui está parecendo a Terra ... E eu, que tinha esperanças de que,
após a morte, tudo se modificasse radicalmente!
(...)
—
Queremos que o senhor nos dê permissão para apurar certas denúncias.
— Seja
mais preciso – solicitei.
—
Sabemos que o hospital dirigido pelo senhor mantém aqui, contra a sua
vontade...
(...)
—
Trata-se, especificamente, de um arcebispo da Igreja... Poupe-nos uma ação
judicial: é verdade que ele está internado neste nosocômio? (186 – 189)
Deixamos
de comentar os trechos acima, remetendo o leitor à obra de André Luiz e de
outros autores espirituais, que nos deram uma visão muito diferente dos Planos
Espirituais organizados no Bem.
Menino
e Stela vinham sendo tratados por nós há quase cinco anos e, quando foram
transferidos para o hospital sob nossa direção, o quadro que compunham não dá
para ser descrito, sem que nos arrisquemos a impressionar as mentes encarnadas
ainda um tanto despreparadas. A entidade feminina vivia, “literalmente”, no
estômago do seu algoz. (210)
Mais uma
vez, o Dr. Inácio se declara diretor do hospital...
Este é o
caso de um apaixonado que matou sua amada e devorou-lhe as vísceras. No Mundo
Espiritual, a infeliz ainda “vivia” dentro dele, sendo, mais tarde, necessário
que ele a vomitasse.
— É,
então, um minicomputador...
—
Funciona como se fosse e é capaz de apontar, com precisão absoluta,
desequilíbrios de risco para o organismo.
— Como,
por exemplo, a iminência de um colapso cardíaco, alteração da pressão
sangüínea?
— Taxas
de glicose, oscilação de temperatura, presença de um microorganismo
patogênico... (226)
Essas, as
possibilidades de um aparelho que a parturiente trazia no braço... Haveria
necessidade de comentários?
Como
aquele tripulante português – o senhor conhece esta? – que, tendo subido à
torre de observação da nau de Pedro Álvares Cabral, pôs-se a gritar em
desespero: — “Terra na vista! Terra na vista!...”
O Dr.
Hernani, que sempre apreciou uma boa anedota, gargalhou e perguntou:
— E
daí?...
—
Cabral lhe respondeu: — “Então, desça, infeliz, que o médico está no convés...”
— Dr.
Inácio, e no caso não havia jeito: o tripulante era português mesmo, não é?
Nem o
próprio Cairbar conseguiu conter o riso.
— Mas –
tomou Hernani a palavra –, o senhor sabe aquela do papagaio que era médium?...
— A do
papagaio português?
— Não,
este era baiano: morava num terreiro de macumba... Não sei se era papagaio
português reencarnado; o senhor sabe, a reencarnação torna tudo
possível...Quando a coisa começou, ou melhor, a sessão de terreiro teve início,
os médiuns incorporaram todos ao mesmo tempo e era só tamborete e tambor voando
para todos os lados... O papagaio, coitado, mal teve tempo de se abaixar, e um
tamborete quase lhe decepa o pescoço. — Currupaco! – disse ele no puleiro. —
Ainda bem que sou médium vidente, pois, no caso contrário, teria
desencarnado!... (241)
Depois de
lermos as obras edificantes de Emmanuel, temos de ler piadas de mau gosto num
livro que leva o seu nome... Onde localizar esse Espírito na “Escala Espírita”,
que Kardec mostra em “O Livro dos Espíritos”, a partir do item 100?
— Meu
caro Dr. Hernani – aparteou Odilon, aproveitando a deixa –, o senhor não
repare, se precisamos ir; temos ainda uma visita a ser feita hoje...
— Que
pena! – lamentou.
—
Voltaremos para uma nova sessão de piadas – enfatizei. — Tenho algumas para lhe
contar, mas só nós dois...
—
Picantes?
— Piada
espírita não tem graça, Hernani! (241)
Será, ainda,
necessário algum comentário?
— De
que se trata? – questionei Odilon.
— O
sangue em sua roupa é conseqüência do seu condicionamento mental: todo ferido
sangra... Além das fraturas, ele deve ter tido hemorragias internas e,
certamente, foi o que ocasionou o seu desenlace.
— E o
líquido avermelhado que continua a lhe escorrer da fronte?
—
Inácio, você não ignora que em nossas veias alguma coisa continua
circulando, não é? O sangue é uma transubstanciação do princípio vital. Para
nós, o perispírito é um envoltório quase tão grosseiro quanto o corpo feito de
carne...
— O
perispírito “sangra”? (256)
Esse
diálogo se dá ante a visão de um jovem que desencarnara em um desastre
automobilístico.
O que
causa admiração é o fato de, depois de dezoito anos no Mundo Espiritual, um
médico, diretor de um hospital, nada saber da anatomia do perispírito...
Esconjuro-vos,
ó adeptos da ortodoxia retrógrada de qualquer sistema religioso vigente no
Planeta!... Afastai-vos! Deixai “Mimi” parir em paz!... Que tendes contra o dom
divino da procriação em todas as dimensões? Por que somente vos supondes viris
o bastante para o ato de fecundar? O que vos leva a crer que sejamos, após a
morte, animais, dotados ou não de razão, anjos destituídos de orgasmo? Que
Bastet, a deusa egípcia dos gatos, à qual rendo culto em minha herança
idolátrica, se compadeça de vossas almas incrédulas e pecadoras!... Vós, que
sequer sabeis onde tendes o nariz, não queirais intrometer-vos no que não é da
alçada senão dos místicos e dos poetas. Se não vos considerais preparados para
a Grande Iniciação, estacai vossos passos no pórtico do templo da Verdade!
Retrocedei, ó vós que vos apegais à letra que mata –, mesmo que essa letra seja
a da Codificação Espírita – , e não ao espírito que vivifica. Deixai “Mimi”
parir em paz!... (270 –
271)
Como
enquadrar esse Espírito e suas comunicações em “O Livro dos Médiuns”? Em “O
Livro dos Espíritos” poder-se-ia classificá-lo nos itens 103 e 104, como
Espírito leviano e pseudo-sábio, respectivamente.
— Quem
se sente destituído de palavras, nesta hora, sou eu, o Chico que muitos de
vocês conheceram, e não o Allan Kardec,
o apagado Professor de outras eras, que nada mais fez do que compilar o ensino
dos Bons Espíritos, e, como médium, continuou a fazer o mesmo trabalho – o
trabalho de simples intermediário, de limitado intérprete do que os Espíritos
Amigos escreveram por minhas mãos... (296)
As
palavras acima teriam sido proferidas durante um pronunciamento de Chico Xavier
na Fundação Emmanuel. Na
sua infeliz tentativa de provar que Chico Xavier foi a reencarnação de Allan
Kardec, o Dr. Inácio, contando com o desconhecimento de muitos espíritas a
respeito da estatura intelectual do Codificador, coloca essas palavras absurdas
na boca do Chico, através das quais, exagerando a humildade dele, desmerece a
ambos, ao dizer que Allan Kardec foi um apagado professor. Nega, assim,
ao insigne Codificador a condição de brilhante educador, de autor de planos
educacionais que lhe valeram premiações do governo de França, de autor de mais
de uma dezenas de obras referentes aos mais diversos campos do saber; de homem
dotado de assombrosa inteligência e de cultura geral extraordinária,
colocando-o na condição de um simples escriba, que teria desempenhado um papel
inteiramente passivo, sem dar nenhuma contribuição intelectual nem moral à
codificação do Espiritismo. Seria de se perguntar por que Jesus teria escolhido
alguém com tal capacidade (vide “Cartas e Crônicas”, cap. 28), para ser um
simples compilador dos ensinamentos dos Espíritos Superiores.
— Quem
me dera encerrar em mim tanta sabedoria e grandeza! Tenho vindo assim, conforme
sabem alguns, desde os tempos da Hélade, quando, igualmente, na humilde
condição de discípulo, registrei imperfeitamente para a Humanidade as
inesquecíveis lições do mais sábio de todos os filósofos... Perdoem-me a
referência, que faço com o único propósito de que os amigos me vejam como
realmente sou, muito distante ainda da posição em que me colocam. Tanto como
Allan Kardec quanto como Chico Xavier, eu poderia ter feito mais, se a minha
condição humana o tivesse permitido! (296)
Prosseguindo
na sua tentativa de lançar a dúvida e a confusão no meio espírita, esse
Espírito ardiloso que se faz passar pelo Dr. Inácio Ferreira insinua que Chico
Xavier, além de ter sido Allan Kardec, foi também Platão, apequenando a figura
do eminente filósofo, colocando, também ele, na condição de simples anotador
dos ensinamentos de Sócrates. Além do mais, essa declaração: eu poderia ter
feito mais, se a minha condição humana o tivesse permitido! é inteiramente
absurda, diante do que se aprende na Doutrina Espírita, pois o Espírito
reencarna e vem dar seu testemunho no meio social que escolheu ou que lhe foi
destinado, o mesmo acontecendo com a vestimenta física de que dispõe. Será que
o Chico teria sonhado em desempenhar sua missão fora da condição humana?
—
Muitos não aceitam que você é Kardec...
— E
qual o problema? Já fui, não sou mais... Agrada-me ser Chico Xavier, a
responsabilidade de ser médium é grande, mas é menor... Não é verdade, Odilon?
— É
claro, Chico!
— Deus
me livre de continuar sendo o Allan Kardec que querem que eu seja! E mesmo do
Francisco que fui sobrou só o cisco!...
— Eu
prefiro você como Chico – atrevi-me a dizer. Com o Codificador da Doutrina, não
poderíamos ter uma conversa tão informal assim... Seria um despropósito e, para
muita gente, uma heresia.
— Foi
por esse motivo que eu pedi que ficassem para conversar comigo: vocês me
conheceram como eu gosto de ser e como eu não quero deixar de ser! (316)
O Dr. Inácio,
em quase todos os seus livros, faz questão de abordar esse assunto, embora
note, ele mesmo, que se trata de duas personalidades diferentes. É de se
perguntar, qual a relevância desse assunto, ainda que fosse verdade? Revelação
sem fundamento, de que nunca se ocuparam os Espíritos Superiores.
Pela
insistência com que é trazida à baila, verifica-se que tal abordagem tem o fim
exclusivo de causar confusão e de distrair os espíritas, encaminhando-os a
discussões estéreis, que só são úteis àqueles que desejam desmerecer a Doutrina
Espírita.
José
Passini
Juiz de
Fora MG
passinijose@yahoo.com.br
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