ANÁLISE
DA OBRA “NO LIMIAR DO ABISMO”
Esta é a nona
obra atribuída ao Espírito Dr. Inácio Ferreira, escrita através do médium
Carlos A. Baccelli.
Quem leu as
anteriores vai ter uma surpresa, por quase não encontrar mais aquela linguagem
rude, contundente, agressiva, orgulhosamente apresentada por ele, e justificada
pelo seu médium como sendo marca característica da sua maneira de ser quando
encarnado.
É estranho
que um Espírito que teria conservado, durante dezoito anos depois de
desencarnado, a mesma maneira rude de se expressar, tenha mudado de um ano para
outro...
Conforme
fizemos nas análises precedentes, transcreveremos em negrito os trechos
que nos chamaram a atenção na obra em estudo, e faremos nossos comentários em
tipo normal. As transcrições de outros livros serão feitas em negrito e itálico:
Raciocinando
nestes termos, eu não podia deixar de me comover ante o empenho dos médiuns,
principalmente daqueles que, quase em completo anonimato, continuavam se
superando, em todos os sentidos, para conservar desfraldada a bandeira da fé
raciocinada (...). Eu convivera, diariamente, com dezenas de sensitivos e
digo-lhes: só mesmo uma força de ordem superior, provinda do
Inconcebível, para dar-lhes sustentação, em meio a tantos obstáculos que se
interpunham entre eles e o Ideal. Os médiuns eram e continuam como seres
humanos, com necessidades idênticas às de qualquer um! Como é que conseguiam, e
conseguem, conciliar interesses tão opostos, quantos do espírito imortal e os
da vida material, pela qual se sentiam subjugados? A muitos, inclusive, eu
tivera oportunidade de socorrer com dinheiro, para que não passassem privações
com a família; alguns, pela sua simples condição de espírita, eram rotulados
desajustados e tinham a sua sanidade mental questionada, o que, não raro, fazia
com que perdessem o emprego ou não tivessem seus serviços profissionais
contratados. Eu não sei, mas alguma coisa que não posso definir existe
nos médiuns que perseveram, além de somente mediunidade; alguma coisa transcende
a teoria e a prática mediúnica em si; alguma coisa que possui à
semelhança dos primitivos cristãos, que enfrentavam o martírio e a morte nos
circos romanos, como se seus olhos estivessem vendo o que mais ninguém
conseguia enxergar... (13 –
14)
Como
poderemos conciliar o discurso acima, de louvor aos médiuns, com o que esse
Espírito escreveu no livro “Do Outro Lado do Espelho”? Vejamos o que ele
responde ao ser convidado a participar de uma reunião mediúnica no Sanatório de
Uberaba, onde, quando encarnado, fora diretor:
– Para
quê? Só se for para xingá-los... (Por favor sr. Médium e sr. Revisor, não me
queiram tolher a liberdade de dizer o que penso, da maneira que penso.) Aliás,
para que saibam que sou eu, basta mesmo que eu abra a boca ou... que acenda um
cigarro. Vou dizer a vocês o que penso: Os meus gatos, que ainda sobrevivem no
Sanatório, apesar da vontade de alguns de expurgá-los, serão melhores
intérpretes meus do que os médiuns que andam por lá... (...) Os médiuns não
querem estudar, não querem disciplina... Ficam parados ao redor da mesa feito
uns robôs; nem pensar eles pensam; esvaziam a mente de idéias, esperando que os
espíritos façam tudo... Isto não é mediunidade, se o pobre do morto pudesse
fazer tudo sozinho, os médiuns seriam meras figuras decorativas. E, depois,
mentem: dizem que são inconscientes, que não se lembram de nada. (158 / 159)
E continua
seus ataques aos médiuns do grupo que dirigiu, no Sanatório:
– O
médium me acolhe, me agasalha, abre a boca e só deixa passar o que não conflita
com os seus pensamentos. Sendo assim, o que vou fazer lá? Passar raiva? Passar
raiva, eu passava na condição de doutrinador, de dirigente dos trabalhos
mediúnicos do Sanatório, que fui por mais de cinqüenta anos... (159 / 160)
Se o grupo
mediúnico era tão ruim, como pôde tolerá-lo durante cinqüenta anos? Note-se que
ele ainda não retornara àquele grupo depois de desencarnado, logo essas
impressões ele já as tinha antes de desencarnar:
– Nós,
os considerados mortos, em matéria de mediunidade temos que nos contentar com
percentagem: 30% nossos, 70% do médium... Quando, pelo menos, são 50% para cada
lado, vá lá... Raro o médium que nos permite o empate. Isso sem falarmos nos
médiuns que vivem colocando palavras inteiramente suas em nossos lábios: é um
tal de termos dito, sem termos dito nada... (...) Os médiuns hoje querem
improvisar... Quanta mistificação!.. (160)
Mas a crítica
aos médiuns não se restringe apenas àquele grupo. É generalizada:
– O
cenário vocês já conhecem, de uma reunião mediúnica: médiuns chegando em cima
da hora, com justificativas vazias: “estava com visita em casa”, “choveu na
hora de sair”, “desarranjo intestinal”, “o telefone tocou...
–
Apenas dois espíritos, dos muitos que estam no recinto, lograram dar o ar da
graça naquela noite, através da medianeira anônima: um que havia cometido o
suicídio, e eu, que, se pudesse, estrangularia alguém. (161)
(...)
Pretensão à infalibilidade, elitismo, personalismo; isso tudo, sem mencionarmos
o que se vem fazendo através da mediunidade – o canal que, na maioria dos
medianeiros, é ocupado por entidades contrárias ao movimento de libertação de
consciências que o Espiritismo propõe. Imperceptivelmente, os médiuns vêm sendo
hipnotizados por espíritos que os dominam e que lhes inoculam n´alma o virus da
ambição desmedida. Difícil nos depararmos com quem não esteja a serviço de si
mesmo na Causa que abraçamos!... (180)
Será que o
Dr. Inácio percebeu que suas críticas não foram bem acolhidas pelos médiuns,
decidindo-se a mudar sua opinião?
O que
posso fazer para me defender daqueles que têm rotulado as minhas obras de
antidoutrinárias? (15)
Não há
precedente, em toda a literatura mediúnica séria, de um Espírito tão preocupado
com as repercussões de suas obras. Essa postura é coerente com o que ele relata
no livro “Fundação Emmanuel”, quando se refere a um “jornal”, intitulado
“Resenha”, encarregado de fazer circular, naquela instituição, as notícias da
Terra, inclusive os comentários sobre obras mediúnicas.
Aqui, com
a permissão do médium de quem me sirvo, amigo que aprendi a estimar em longos
anos de convivência no mundo, abro pequeno parêntese, para que nossos
companheiros encarnados entendam parte das dificuldades que, juntos,
enfrentamos no serviço do intercâmbio mediúnico. Tendo levantado de madrugada,
ele e eu, para o compromisso que assumimos, minutos atrás, como é
compreensível, tive necessidade de interromper a minha narrativa, quebrando, de
certa forma, a seqüência das idéias.” (15 – 16)
Essa quebra
de seqüência das idéias mostra o grau de informalidade da mensagem que
estava sendo transmitida. Ao contrário do que se imagina num trabalho sério, em
que um Espírito que escreve algo a ser publicado como livro espírita, deve ser
o resultado de estudos maduramente avaliados no Mundo Espiritual e não algo
improvisado, como se fosse uma conversa banal, entre desocupados.
Além do mais,
causa estranheza o fato de um Espírito tecer elogios ao seu médium. Era assim
que Emmanuel, André Luiz e outros Espíritos agiam em relação ao Chico?
— É grave,
mas é real. Nós, os espíritas, Inácio, necessitamos de retomar a vivência dos
postulados que abraçamos: Menos vaidade, menos disputas, menos ambição...
— ...menos
mediunidade...
— ...e
mais caridade!
—
Tornou-se uma virtude piegas... Os espíritas se intelectualizaram muito: falam
diversos idiomas, desfrutam de certo status social, viajam com
freqüência ao Exterior... (43)
O ataque aos
espíritas é uma constante em suas obras. É interessante notar-se que quem fala
em menos mediunidade tem escrito quase dois livros por ano, além daqueles que o
seu médium psicografou de outros Espíritos, numa verdadeira corrida editorial,
sem precedentes.
Quanto à
caridade, entendemos que denota falta dessa virtude aquele que lança acusações
anônimas. Será “pecado” aprender outras línguas? Será erro viajar para o
Exterior, levando a mensagem espírita? Dupla condenação que receberia, do Dr.
Inácio, o Apóstolo dos Gentios, cuja missão foi a de propagar o Evangelho fora
dos arraiais judaicos, para o que necessitava do conhecimento de outros
idiomas...
Os médiuns
brasileiros que têm viajado para o Exterior são bem conhecidos no meio
espírita. Conquistaram o respeito geral pela sua fidelidade aos postulados
doutrinários, pela sobriedade de suas obras, e pela nobreza da linguagem em que
são redigidas. Alem do mais, impõem-se ao respeito também da sociedade
não-espírita pelo seu inquestionável exercício da caridade.
— O
Espiritismo vem enfrentando uma dificuldade para a qual os nossos companheiros
ainda não atinaram.
— Qual
seria, Odilon?
— A de
fazer novos adeptos.
— É um
péssimo sinal... (43 – 44)
É estranho
que o Dr. Inácio, tão informado a respeito da repercussão de suas obras aqui na
Terra, não saiba que o Espiritismo está conquistando adeptos em número até
preocupante. É só ver as reuniões públicas. Entretanto, os verdadeiros
espíritas nunca se preocupam com o proselitismo...
—
Interessante, Odilon: Chico Xavier desencarnou ainda há pouco, cumpriu 75 anos
de legítimo mandato mediúnico, e – não sei se estou exagerando – percebo já um
certo esquecimento de sua obra, que, principalmente para a nova geração, é
inédita... Há um trabalho das trevas nesse sentido?
O
Benfeitor, após ligeira pausa no diálogo que encetáramos, considerou:
— Até onde
sei, Inácio, posso confirmar, elucidou o companheiro, procurando ser cauteloso.
— Quer
dizer...
— ... que
faz parte de um plano das trevas sufocar a qualidade pela quantidade. (45 – 46)
É
interessante notar que o próprio Dr. Inácio publicou dez obras em seis anos...
Será que a qualidade das obras do Chico não estará sofrendo concorrência com a
quantidade das do Dr. Inácio? Isso sem contar as obras de outros autores, pelo
mesmo médium, que há pouco festejava o lançamento do seu 100º livro.
Entretanto, essa tentativa de sufocar a verdadeira literatura espírita não é privativa
nem desse médium, nem desse Espírito...
— Não
duvide, Inácio. Ao que estou informado, os espíritos interessados na estagnação
das idéias espíritas montaram uma espécie de central do livro...
— Central
do livro?... — perguntei, quase sem acreditar.
— Sim.
— Central
do livro espírita? ... — insisti.
— Do livro
mais ou menos espírita, que difunde, nas entrelinhas, teorias contraditórias. (48)
Será um mea
culpa? É impressionante que, depois de se referirem a Chico Xavier, tenham
coragem de continuar escrevendo isso que chamam de livro espírita. É fazer
pouco da lucidez dos espíritas.
— Talvez,
meu filho — ponderou Odilon —, você e o espírito que escreve por seu intermédio
ainda estejam naquela fase de estabelecer entre ambos uma melhor sintonia... (54)
O diálogo
acima teria ocorrido no Plano Espiritual, e esse que conversa com o Dr. Odilon
seria o “médium” de um outro espírito, que se diz ser um antigo habitante da
Atlântida...
Ultimamente,
falanges de monges beneditinos desencarnados estavam, e estão, se movimentando
para estabelecer confusão no Movimento; muitos deles fazendo-se passar por
espíritos comprometidos com a Doutrina, dominam médiuns – alguns, inclusive, de
renome –, mudam de identidade e, escrevendo ou falando, têm procurado estender
sua negativa influência, de maneira sutil, com o propósito de desfigurar o
Ideal que abraçamos. (60)
Esse trecho
parece um auto-retrato. Quais seriam os médiuns de renome aqui referidos?
(...) mas
o Movimento, que se elitiza e – pasmem – conta com medianeiros oficiais,
quais modernos hierofantes que se entronizam e estimam ser incensados está já
comprometido e exige rápida revisão, sob pena de se esfacelar de maneira
irremediável. (62)
Por que o Dr.
Inácio não fala claramente ao invés de ficar lançando acusações e provocações,
próprias de Espíritos interessados em disseminar confusão? Quem se propõe a
escrever um livro – seja encarnado ou desencarnado – deve ter a coragem de
dizer diretamente as coisas e não se esconder atrás de afirmativas falsamente
fraternas, que soam como cartas anônimas.
Que os
nossos irmãos, pois, permaneçam atentos e não se deixem ludibriar; não há sobre
a Terra, na atualidade, um único médium encarnado com suficiente autoridade
para penetrar nos enigmas pertinentes às anteriores experiências
reencarnatórias de quem quer que seja. O que revelam, nesse sentido, não passa
de mera suposição ou invencionice. (62)
O responsável
pelas revelações de qualquer natureza é o Espírito, e não o médium, que é mero
instrumento... Entretanto, por esse mesmo médium que o serve, na obra “Na
Próxima Dimensão”, o Dr. Inácio afirmou que André Luiz foi Carlos Chagas e que
Francisco Cândido Xavier foi Allan Kardec...
Entrementes,
diante de nós, Osório deu início a estranho processo de transfiguração. Recomendando-
me calma, Odilon permaneceu em expectativa, como se já soubesse o que estava
para acontecer.
O jovem
médium, inclusive do ponto de vista físico, se transformara quase por completo:
parecera ganhar altura e perder peso, como se outra pessoa se lhe sobrepusesse
à imagem; os seus olhos se mostraram mais penetrantes e a própria cor da pele
se alterara...
Com voz um
tanto soturna, a entidade que se lhe assenhoreara das faculdades indagou-nos
enigmática:
— O que
querem de mim? Por que me evocaram a presença?
— Quem é
você, meu irmão? – tomou Odilon a iniciativa do diálogo, enquanto eu procurava
emocionalmente me recompor.
— Lêmur. O
meu nome é Lêmur – respondeu com certa altivez.
— Em que
lugar você vive atualmente?
— Numa
dimensão desconhecida por vocês...
— Por que
não podemos vê-lo? (67 – 68)
Uma
comunicação mediúnica no Mundo Espiritual, com transfiguração do médium, levada
a efeito por um Espírito habitante de uma região da Lemúria, que teria sido
recriada pelo grupo de Espíritos a que pertencia. Estranhamente, essa
comunicação causou perturbação no Dr. Inácio, que já dialogara – segundo o
livro “Sob as Cinzas do Tempo” – com o Espírito Torquemada. Será que tinha mais
equilíbrio quando encarnado?
Além do mais,
por que não podiam ver o Espírito? Tratava-se de Espírito inferior, que já
estivera reencarnado à força, e fora monge beneditino, mas não aceitava Jesus.
Como um Espírito assim poderia furtar-se à visão de dois trabalhadores do Bem?
Eu nunca
entendi muito essa história de “ego” e “eu”... Em mim, coexistem dois Inácios?
Se um só já é demais...
— O “eu’,
Inácio, é a nossa consciência: é o ouro que se destaca da ganga, a pérola que
se liberta da concha, o lírio que desabrocha no pântano; o “eu” é tudo o que
restará de nós...
— É o “eu”
que argumenta com o “ego”? O que seria o “ego”?...
— O “ego”
é a imperfeição... O “eu” contraria o ego”, e o “ego” contraria o “eu”...
— Não dá
para os dois entrarem num acordo?...
— Os
interesses são diferentes.
— Meu
Deus, quanta complicação!... Como saber quando estou agindo através do eu” ou
através do “ego”?
— O “eu” é
amor, o “ego” é paixão; o “eu” é altruísmo, o “ego” é egoísmo; o “eu” é
renúncia, o “ego” é desejo... (84)
Aqui vemos um
fato realmente digno de nota: um psiquiatra que não conhece nada de Psicanálise,
recebendo informações de um dentista desencarnado...
— E a
questão do animismo?
— Animismo
é mediunidade.
— E a
mistificação?
— É
mediunidade também.
— Tudo,
então, é mediunidade?
— É
mediunidade onde prevalece o “ego” ou o “eu”, um se sobrepondo ao outro. (86)
Um médico
psiquiatra, diretor de um sanatório espírita por 50 anos, depois de
desencarnado se esquece de tudo, até mesmo do que é mediunidade?
Será que é
para testar a argúcia dos espíritas, para zombar deles, ou para produzir livros
que, pela quantidade, tentem se sobrepor à obra de Chico Xavier, como foi dito?
— O
espírita, equivocadamente, acredita que vai chegar iluminado às regiões do
Além, guindado à condição de Espírito Superior. (107)
Sempre, o
ataque generalizado aos espíritas... Afirmativa vazia, provocadora, própria de
Espíritos mistificadores.
— (...)
Agora, que me dá uma vontade tremenda de falar – de falar às claras sobre os
interesses que, na atualidade, imperam no Movimento Espírita, inclusive “dando
nome aos bois” –, isso me dá!
— É melhor
não, Inácio.
— Eu sei,
mas que a minha língua coça, coça; e não sei mesmo – digamos – se, mais tarde,
não venha a ser este o meu “canto do cisne”... A gente fica, vai ficando
cansado de tanta hipocrisia; aquilo que na Terra eu tinha – desativado
depois dos 80, mas tinha – e continuo a ter por aqui, já estourou.... (108)
Novamente, a
mesma cantilena contra os espíritas, finalizando com uma metáfora digna da mesa
de um bar.
— Estou
aqui por indicação de amigos; sei que o senhor é espírita, mas não venho
procurá-lo por isto... (109)
Um Espírito
que “marcou consulta” por indicação de amigos... Não é esse o Mundo Espiritual
descrito por André Luiz e por outros Benfeitores. Parece mais uma consulta
médica, marcada como na Terra, ainda mais com uma identificação de religiões
jamais vista em obra alguma, a não ser nas do Dr. Inácio.
Deixando-me
aos cuidados de Paulino, que me apoiava a cabeça, Odilon partiu a pedra que era
oca por dentro (sic) e represava em seu interior pequena quantidade de
linfa cristalina, que ele tratou rapidamente de magnetizar e servir-me aos
goles. (192)
O Dr. Inácio
estava passando mal porque havia comido um pedaço de churrasco de porco
espinho, oferecido por uns Espíritos habitantes do Umbral. E, para socorrê-lo,
o Dr. Odilon teria quebrado uma pedra que continha água no seu interior...
— Preciso
ir ao sanitário – disse-lhes, tentando me colocar de pé.
—
Sanitário, aqui?!... – reagiu, Paulino, tão surpreso quanto eu.
— Por
favor – solicitei, afrouxando a calça –, afastem-se...
E, ali
mesmo, sem qualquer escrúpulo, improvisei uma latrina. (192)
O que dizer
desse exemplo de literatura “realista”, de péssimo gosto? O que pensarão do
Espiritismo aqueles que dele tomam conhecimento através de uma obra dessas? E
esse Espírito toma ares de “revelador” de novas verdades...
Assim que
entramos, esgueirando, inicialmente, por estreitos e lúgubres corredores, tive
a nítida impressão de que recuara no tempo: cruzes e tochas embebidas em
resina, que penumbravam o ambiente, psiquicamente me retinham à época da
chamada Idade das Trevas, quando o próprio Sol parecia brilhar de modo mortiço
no firmamento.
Evitando
provocar o menor ruído, começamos a escutar um rumor de vozes que aumentava, à
medida que avançávamos. (208)
Na
obra“Libertação” (cap. IV, pág 62), o Benfeitor Gúbio conduz André Luiz e Elói
à “Cidade Estranha”, um local bem semelhante a esse relatado na obra em estudo.
André Luiz informa que tiveram de preparar-se durante algum tempo, adensando
seus perispíritos, a fim de serem vistos e poderem interagir com os Espíritos
que lá habitavam. Por que o Dr. Inácio e seus companheiros de jornada
precisariam se esconder, se a sua faixa vibratória era superior à dos Espíritos
que habitavam aquela caverna? Por que, na descrição, o Dr. Inácio, em vez de
fazer “gracinhas”, não dá ao leitor esses detalhes preciosos? Será que se
tivesse existido realmente essa excursão – ele que é tão prolixo – não as
detalharia para esclarecimento do leitor? É interessante se observe o volume de
informações contidas na obra de André Luiz, em que ele não se detém a relatar
pormenores escabrosos, limitando-se a mostrar – de negativo – apenas o
essencial necessário à transmissão de informações e ensinamentos novos. A obra
do Dr. Inácio prima por ressaltar aberrações, tanto no comportamento, quanto
nas formas das criaturas.
— Todavia,
Odilon, sejamos francos, é raro que nos deparemos com um espírita tendo
semelhante grandeza de alma... Na atualidade (reafirmo o que tenho dito nas
páginas que tenho tido oportunidade de escrever, transformando-as em livros), é
o império da desunião, da disputa velada, dos conflitos de opinião, de escusos
interesses em jogo... Muita gente interpreta que eu esteja a criticar o
Movimento, com o intuito de demoli-lo, ou a censurar os confrades, com o
intuito de desestimulá-los; a intenção que me move é completamente diferente, e
lamento os que me julgam interpretando as minhas palavras e colocações de
maneira literal... (216)
Sempre
atacando os espíritas. Como essa atitude tem sido criticada em análises de suas
obras, o Dr. Inácio nega que tenha procurado denegrir o Movimento, mostrando
que, embora desencarnado, sofre de amnésia, conforme se constata no trecho
abaixo, do livro “Fala, Dr. Inácio!”:
– O
senhor está fazendo graça, não é?
– Estou
provocando... (172)
–
Provocando a quem?
– Os
espíritas ortodoxos. Adoro fazer isto... (172)
– Para
quê?
– Para
que eles saibam que não podem me calar, que não são os donos do Movimento e nem
tampouco os espíritos missionários que se supõem; são, na verdade, um bando de
ingênuos... Tenho dito, me segurando para não dizer mais. (172)
E, na obra “A
Escada de Jacó”, volta à carga:
— O
personalismo campeia entre médiuns e dirigentes...
—
Necessitamos de rever a proposta de Unificação; o homem ainda não sabe ocupar
qualquer condição de liderança, sem que o cargo lhe suba à cabeça. (42)
Será uma
interpretação literal, ou um ataque real? Qual outra interpretação que se
poderia dar?
Aquela
cobra que, sem dúvida, seria capaz de nos devorar em um só bote, estrangulando-nos,
primeiro, entre as suas imensas mandíbulas, ergueu mais a cabeça, enquanto
Odilon, que a olhava fixamente nos olhos, se aproximava, cauteloso.
O meu
instinto de defesa, confesso, fez com que eu vasculhasse o terreno a ver se
encontrava uma pedra ou um porrete qualquer, caso houvesse necessidade de lutar
pela sobrevivência... Eu não estava disposto a morrer daquele jeito, nem
que fosse para morrer para cima, quanto mais para baixo, que, com
certeza, era o que me aconteceria em tais circunstâncias. (265)
Que preparo
espiritual tinha o Dr. Inácio para dirigir-se a zonas inferiores, pensando em
defender-se a pedradas ou porretadas... Além do mais, como pensar em lutar com
um animal que poderia abocanhar um homem? E o que dizer do risco de morrer?
— Em meu
primeiro livro escrito depois de morto, “Sob as Cinzas do Tempo”, eu me
refiro diversas vezes ao meu antigo hábito de fumar; pois bem: segundo soube,
houve alguém que teve o capricho e a paciência de contar o número de vezes que
fiz menção ao tabaco, para chegar à conclusão de que não sou um Espírito
Superior... (217)
Aqui, o Dr.
Inácio se esqueceu de que essa mesma queixa já fora feita pelo seu médium, no
livro “Fala, Dr. Inácio” (80): “— Outro chegou a contar o número de vezes
que, em “Sob as Cinzas do Tempo”, se refere ao cigarro...”
Em verdade,
nunca se viu na literatura mediúnica, até o advento das obras do Dr. Inácio, um
Espírito usar as páginas de seus livros para defender-se daquilo que chama de
acusações dos espíritas. Ele se preocupa e se insurge contra aqueles que, no
uso da sua liberdade de pensar, procuram seguir o sábio conselho de Erasto:
“Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só
teoria errônea.” (O Livro dos Médiuns, 230)
Ainda há muito o que comentar, mas para que não fique excessivamente
longa esta análise, finalizaremos apontando algumas das já costumeiras
acusações contra os espíritas:
— Com
raras exceções, não vejo mais o espírita interessado em perdoar – em perdoar ao
companheiro de fé!... Dentro de certos grupos espíritas, é uma intriga só... (43)
— Na minha
opinião, sim; vejamos que os espíritas já estão tomando gosto pelo poder... (139)
— O
espírita, via de regra, imagina que os seus privilégios começarão assim que
botar a ponta do nariz para fora do túmulo. (218)
— Essa
história de ter sido médium 40, 50 anos, de ter feito inúmeras palestras, de
ter escrito dezenas de livros ou artigos em jornais e revistas, de nunca ter
perdido a pose... (219)
José Passini
passinijose@yahoo.com.br
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