ALLAN KARDEC: "Le bon sens incarné"

PARTE I

COLÔNIAS ESPIRITUAIS: FANTASIAS ANÍMICAS DE CHICO XAVIER?

COMENTÁRIOS AO ARTIGO ERRATICIDADE E FANTASIAS ESPIRITUAIS DO

DRº ISO JORGE TEIXEIRA, PUBLICADA EM O PORTAL DO ESPÍRITO (www.espirito.org.br)

 

PROLEGÔMENOS

A POSSIBILIDADE DE AMPLIAÇÃO CONCEITUAL DO ESPIRITISMO

De quando em quando e de onde em onde, deparam-se alguns artigos veiculados pela internet, exarados, não raro, em defesa consciente ou inconsciente de um determinado purismo doutrinário. Assinale-se, ad argumentandum tantum, não existir nenhum antagonismo, pelo menos no presente arrazoado, à manifestação de respeito conceitual à Codificação Kardequiana, tampouco a qualquer pensamento da Doutrina Espírita ou de Allan Kardec.

Não obstante, à guisa de estudo dos princípios norteadores do Espiritismo, enquanto uma doutrina própria e particularíssima, não se podem trazer à baila certas ilações reducionistas e determinados raciocínios apriorísticos, sob pena de engessamento da dinâmica natural do ensino doutrinário, antevista racional e moderadamente pelo excelente Codificador, na Revista Espírita de fevereiro de 1865, em um artigo intitulado Da Perpetuidade do Espiritismo (§§ 9º e 10):

Mas, dir-se-á, ao lado destes fatos [referindo-se às manifestações espíritas] tendes uma teoria, uma doutrina; quem vos diz que essa teoria não sofrerá variações; que a de hoje será a mesma em alguns anos?

Sem dúvida, ele pode sofrer modificações em seus detalhes, em conseqüência de novas observações. Mas estando o princípio doravante adquirido, não pode variar e ainda menos ser anulado; aí está o essencial. Desde Copérnico e Galileu, calculou-se melhor o movimento da Terra e dos astros, mas o fato do movimento permaneceu com o princípio.

Kardec reportou-se à permanência do princípio, havendo-se baseado na existência intransponível do fato experimental, mas não encerrou a teoria e, portanto, a explicação doutrinária, na inflexibilidade epistemológica, porque ele mesmo reconheceu a dinâmica do conhecimento humano, em face do conhecimento espiritual. No aludido artigo, o Mestre lionês ainda pôde acrescentar (§ 13):

O Espiritismo não se afastará da verdade e nada terá a temer das opiniões contraditórias, enquanto sua teoria científica e sua doutrina moral forem uma dedução dos fatos escrupulosamente e conscientemente observados, sem preconceitos nem sistemas preconcebidos. Foi diante de uma observação mais completa que todas as teorias prematuras e arriscadas, eclodidas na origem dos fenômenos espíritas modernos, caíram e vieram fundir-se na imponente unidade que existe e contra a qual não se obstinam mais senão raras individualidades, que diminuem todos os dias. As lacunas que a teoria atual pode ainda encerrar se encherão do mesmo modo. O Espiritismo está longe de ter dito a última palavra, quanto às suas conseqüências, mas é inabalável em sua base, porque esta base se assenta sobre os fatos (grifo nosso).

Nenhuma dúvida assoma de que o Espiritismo se estriba na experiência, a ponto de haver-se Kardec sempre referido à natureza experimental da Doutrina. Logo, dos elementos experimentais, examinados à luz do bom senso e da razão mais sensata, extraíram-se e extraem-se as ilações, os raciocínios, as ponderações, os quais conferem sustentação ao corpo doutrinário, embora suscetíveis de adendos e de achegas. Dessa maneira, inúmeras vezes, em toda a obra espiritual, o Codificador comentou mensagens em notas específicas, havendo procurado esclarecê-las e trazê-las à compreensão geral. De outra vez, na Revista Espírita de dezembro de 1866, quando assinalou as faculdades curativas do Príncipe de Hohenlohe e examinou as objeções à teoria espírita como obra recente e moderna, o próprio Kardec confirmou o argumento de que "(...) em nenhuma parte se encontra o Espiritismo completo" (§5º).

O raciocínio sempre ponderado e consistente do Mestre lionês redunda evidenciado em toda a Codificação. Em O Livro dos Médiuns (1861), por exemplo, no capítulo VI, ao ter redigido o ensaio teórico sobre as aparições, asseverou ele no item 110:

Estamos longe de tornar a teoria, que apresentamos, como absoluta e como a última palavra: sem dúvida ela será completada ou ratificada mais tarde por novos estudos.

Decerto, a teoria espírita não pode e não deve flutuar sem base nos princípios estruturantes adotados por Kardec, sob orientação espiritual, para não se desvirtuar como doutrina organizada e como suporte moral à evolução dos seres humanos. As conseqüências teóricas, no entanto, não se limitam à teoria basilar, restringindo-se tão somente ao fato experimental e aos princípios estruturantes, assim considerados por Kardec como inamolgáveis. Por conseguinte, não se pode nem se deve reputar inflexível e misoneísta a Doutrina Espírita, sob o argumento de que "na obra de Kardec não há referências", pois tal conduta se equipara à da Igreja Católica e, não raro, à das igrejas ditas cristãs quando se prendem indefinidamente a dogmas e quejandos. Uma postura dogmática e dogmatizante exclui a percepção do ensino espiritual, geralmente espontâneo, e veda muitíssimas vezes a ampliação conceitual. Tudo quanto Allan Kardec colheu do ensinamento espiritual, posto freqüentemente assinalado em outras filosofias espiritualistas, passou-lhe pelo crivo racional, a ponto de ele comentar sobre a reencarnação, na questão 222 de O Livro dos Espíritos (antepenúltimo parágrafo):

Como já o dissemos, raciocinamos fazendo abstração de qualquer ensino que, para certas pessoas, carece de autoridade. Se, como tantos outros, adotamos o princípio da pluralidade das existências, não o fizemos porque viesse dos Espíritos, mas porque nos parece o mais lógico o único que parece resolver problemas até aqui insolúveis. Tivesse ele vindo de um simples mortal e o teríamos adotado do mesmo modo, não hesitando em renunciar às nossas próprias idéias. Desde que um erro é demonstrado, o amor-próprio terá mais a perder do que a ganhar se persistir numa idéia falsa. Nós o teríamos repelido, mesmo vindo dos Espíritos, se nos tivesse parecido contrário à razão, do mesmo modo que repelimos muitos outros, pois sabemos, por experiência, que não se deve aceitar cegamente tudo quanto vem dos Espíritos, do mesmo modo que não aceitamos tudo quanto vem dos homens (grifo nosso).

Logo, o pensamento kardequiano fia-se na análise dos fundamentos de cada hipótese, de cada tese, de cada teoria, sem concessões nem mesmo aos Espíritos instrutores e sem abismar-se no raciocínio lógico desprovido de respaldo experimental, tampouco em especulações racionais dissociadas da reflexão e do amadurecimento psicológico e emocional. Em A Gênese (1868), logo no capítulo I, intitulado Caráter da Revelação Espírita, Kardec assinalou no item 13:

Por sua natureza, a revelação espírita tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo de revelação divina e de revelação científica. Participa da primeira, porque foi providencial o seu aparecimento e não o resultado da iniciativa, nem de um desígnio premeditado do homem; porque os pontos fundamentais da doutrina provêm do ensino que deram os Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens acerca de certas coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhes importa conhecer, hoje que estão aptos a compreendê-las. Participa da segunda, por não ser esse ensino privilégio de indivíduo algum, mas ministrado a todos do mesmo modo, por não serem os que não o transmitem e os que o recebem seres passivos, dispensados do trabalho de observação e de pesquisa, por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-arbítrio, porque não lhes é interdito o exame, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega; porque foi deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os espíritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as ilações e aplicações (grifo nosso em negrito e grifo de Kardec em itálico).

Houve necessidade impositiva de que se revelassem ao homem os pontos fundamentais da doutrina, aos quais ele não haveria chegado por si mesmo, tendo-lhe aqueles vindo à razão no exato momento em que ele pudesse compreendê-los, exatamente para desdobrá-los de acordo com a lógica fenomênica. Em muitos instantes, os Espíritos comentaram a Kardec ser o conhecimento revelado sempre proporcional às condições evolutivas do planeta e, em conseqüência, da sociedade humana, daí resultando o fato de ser aquele relativo ao estado de compreensão e de progresso desta. Em tal direção, aduziu Kardec no referido capítulo I de A Gênese (1868), no item 54:

Nenhuma ciência existe que haja saído prontinha do cérebro de um homem. Todas, sem exceção de nenhuma, são fruto de observações sucessivas, apoiadas em observações precedentes, como em um ponto conhecido para chegar a um desconhecido. Foi assim que os Espíritos procederam, com relação ao Espiritismo. Daí o ser gradativo o ensino que ministram. Eles não enfrentam as questões, senão à medida que os princípios sobre que hajam de apoiar-se estejam suficientemente elaborados e amadurecida bastante a opinião para os assimilar. É mesmo de notar-se que,.de todas as vezes que os centros particulares têm querido tratar de questões prematuras, não obtiveram mais do que respostas contraditórias, nada concludentes. Quando, ao contrário, chega o momento oportuno, o ensino se generaliza e se unifica na quase universalidade dos centros (grifo nosso).

Quanto à própria responsabilidade humana no processo revelador, inumeráveis passagens da Codificação a chancelam. Kardec a examina, por exemplo, no item 50 do mesmo capítulo I de A Gênese (1968):

Os Espíritos não ensinam senão justamente o que é mister para guiá-lo [referindo-se ao homem] no caminho da verdade, mas abstêm-se de revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo (grifo de Kardec em itálico).

Desse modo, revela-se ao homem aquilo a que ele não pode chegar por si próprio, através das ciências, mas o processo revelador não se completou nem se exauriu, pois tal conclusão se oporia sistematicamente à natureza não dogmática e não estática da Doutrina. No item 52 do mesmo capítulo da referida obra, Kardec chegou à inferência de que:

Além disso, convém notar que em parte alguma o ensino espírita foi dado integralmente; ele diz respeito a tão grande número de observações, a assuntos tão diferentes, exigindo conhecimentos e aptidões mediúnicas especiais, que impossível era acharem-se reunidas num mesmo ponto todas as condições necessárias. Tendo o ensino que ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho [não só no espaço senão também no tempo], disseminando os assuntos de estudo e observação como, em algumas fábricas, a confecção de cada parte de um mesmo objeto é repartida por diversos operários.

A revelação faz-se assim parcialmente em diversos lugares e por uma multidão de intermediários e é dessa maneira que prossegue ainda, pois que nem tudo foi revelado (grifo nosso).

Outrossim, a revelação espírita, ao lado dos respectivos desdobramentos, obedece a uma didática e a uma pedagogia superiores, a fim de que a Verdade seja paulatinamente descerrada ao ser humano. No ensinamento espiritual, observam-se tanto uma metodologia educacional como uma metodologia experimental, as quais estão conjuntamente interligadas. Em A Gênese, no item 15 do capítulo I, aduziu Allan Kardec:

Passa-se no mundo dos Espíritos um fato muito singular, de que seguramente ninguém houvera suspeitado: o de haver Espíritos que se não consideram mortos. Pois bem, os Espíritos superiores, que conhecem perfeitamente esse fato, não vieram dizer antecipadamente: "Há Espíritos que julgam viver ainda a vida terrestre, que conservam seus gostos, costumes e instintos". Provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria, para que os observássemos. Tendo-se visto espíritos incertos quanto ao seu estado, aí afirmando ainda serem deste mundo, julgando-se aplicados às suas ocupações ordinárias, deduziu-se a regra (grifo nosso).

Conseguintemente, a revelação espírita exibe uma natureza dinâmica, incompossível com uma estrutura dogmática, de tal molde que nem tudo se revelou ou se pôde revelar na época da Codificação. Há muitas coisas por revelar, por identificar, por estudar, não se podendo admitir pronto e acabado o conhecimento do mundo espiritual e dos mecanismos de inter-relação dele com o mundo material. Afigurar-se-ia puerilidade dos espíritos encarnados a idéia supositícia de se haverem revelado todas as coisas, seja na própria Codificação, seja nos consectários dela. Ademais, a ciência desenvolve-se celeremente, a passos largos, exigindo um acompanhamento conceitual necessário à própria compreensão da Doutrina no contexto em que exarada e concebida. Ponderadamente, antecipou-se Kardec no item 55 do capítulo I de A Gênese (1868):

O Espiritismo, pois, não estabelece como princípio absoluto senão o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Entendendo com todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressistas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria. Deixando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará (grifo nosso em negrito e grifo de Kardec em itálico).

 

PREMISSAS DO DRº ISO JORGE TEIXEIRA

I DA REFUTAÇÃO AO SOFISMA DA AUSÊNCIA DE IMPLICITUDE

Os fatos espíritas, como leis da natureza, sempre estiveram presentes em todas as civilizações humanas, mormente nas manifestações religiosas, não obstante ser a interpretação espírita um paradigma recente e moderno, pois aquela adveio da observância direta e sistemática dos fatos experimentais. Kardec expende o mesmo raciocínio em comentário da Revista Espírita de dezembro de 1866 (§§4º e 5º):

Nenhuma grande verdade saiu de todas as peças do cérebro de um indivíduo; todas, sem exceções, tiveram precursores que as pressentiram ou delas entreviram algumas partes; o Espiritismo se honra, pois, de contar os seus por milhares e entre os homens o mais justamente considerado; pô-los à luz, e a mostrar o número infinito de pontos pelos quais se liga à história da humanidade.

Mas em nenhuma parte se encontra o Espiritismo completo; sua coordenação em corpo de doutrina, com todas as suas conseqüências e aplicações, a sua correlação com as ciências positivas, é uma obra essencialmente moderna, mas, por toda a parte, dela se encontram os elementos esparsos, misturados às crenças supersticiosas das quais é preciso fazer a triagem (grifo nosso).

Logo, hão de ser diferenciados o paradigma espírita (corpo doutrinário e interpretação dos fatos experimentais) e os fatos espíritas materialmente considerados, visto existirem estes fatos ab origine. Decerto, Kardec refere-se à necessidade imperativa de escoimar os fatos espíritas, de afastá-los da ingerência mítica, de examiná-los à luz da razão e da lógica, embora nem o mito nem o conteúdo mítico devam ser considerados essencialmente inverídicos. Segundo o notável mitólogo romeno Mircea Eliade (1907-1986), "o mito conta uma história sagrada; relata um acontecimento que teve lugar no tempo primordial, no tempo fabuloso das origens".

No Dicionário da Mitologia Grega e Romana, Pierre Grimal assinala, de acordo com a interpretação estruturalista de Claude Lévis-Strauss (1908), ser "possível distinguir no mito dois sentidos: o imediatamente perceptível a partir da narração e um outro sentido, escondido, que não é consciente", existindo no processo mítico uma linguagem em que a verdade se encontra embutida e conotada. Desse modo, muitas revelações espirituais, de conteúdo eminentemente denotativo, puderam ser convertidas em linguagem mítica ou assim interpretadas, porque não assimiladas transcendentemente pelo sensório. O sentido mítico-conotativo não exclui necessariamente o sentido mítico-denotativo, pois eles representam uma duplicidade ou ambivalência necessária à explicação e à justificativa da verdade revelada no mito.

Outrossim, a vida no mundo espiritual se encontra intrinsecamente referida, passim, em vastíssimas tradições religiosas, porquanto a maioria delas, se não todas, em maior ou menor grau, pôde aludir a regiões ou a estados a que chegavam as almas após o decesso orgânico. Não obstante os conceitos das religiões ortodoxas, houve-se mister examinar em que sentido se adotavam as noções de céu e de inferno. Os conceitos de vida celestial e de vida infernal adstringem-se à natureza da conduta humana, em um referencial mais ou menos ético-moral, porquanto, em todas as manifestações religiosas, o céu e o inferno se devem à aceitação ou inaceitação de uma determinada conduta examinada no contexto deste ou daquele movimento religioso, relativamente à fé, às obras ou à conversão de cada indivíduo.

Allan Kardec pôde averiguar o verdadeiro sentido espiritual das expressões céu e inferno, havendo-se reportado a situações íntimas, subjetivas, dos Espíritos, em relação à noção de felicidade. Antes de mais nada, assinale-se a natureza dos conceitos de vida celestial e de vida infernal normalmente adotados pelas religiões e referenciados na idéia de que a Terra seria o centro do Universo (geocentrismo de Eudóxio de Cnido, mais tarde transformado em conceito aristotélico-ptolomaico). Dessa maneira, admitiam-se um céu por cima e um inferno por baixo, sempre referenciados no pensamento geocentrista. Destarte, o notável contributo de Allan Kardec, sob inspiração espiritual, está em haver demonstrado os fatores determinantes de uma vida celestial ou infernal, sobretudo e muito principalmente como estados de espírito, transitórios nas provações e expiações, permanentes na verdadeira felicidade, pois os Espíritos não retrogradam, e inerentes a cada Espírito.

Conseqüentemente, o Mestre lionês desfez a antiga topologia de céu e de inferno das religiões, havendo procurado a evidência de que o céu e o inferno não possuem endereço fixo, como elas supunham existir, em uma visão superficial do problema, ou seja, o Codificador não situou espacialmente a vida celestial e a vida infernal, havendo abandonado o dualismo religioso e percebido os vários estágios intermédios por que todas as individualidades atravessam. Por outro lado, Kardec não rejeitou a idéia de que existem regiões específicas da vivência espiritual, havendo asseverado em O Céu e O Inferno, no capítulo III, intitulado O Céu:

O mundo espiritual tem esplendores por toda a parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, submetidos à influência da matéria, não entrevêem sequer, e que somente são acessíveis aos espíritos purificados (Grifo nosso em negrito e em itálico de Kardec).

Ora, outra inferência não se pode retirar da aludida passagem senão a de que existem esplendores, situações harmônicas e sensações acima da influência da matéria como observada. Dessa maneira, os Espíritos inferiores não têm acesso a tais esplendores nem podem entrevê-los, ou seja, vislumbrá-los, porque se encontram influenciados pela matéria, pelo mundo material. Não se poderia aqui supor haver referência a outro mundo material, mesmo distante, porquanto, situado no universo material denso, não deixaria de ser matéria barôntica, por mais esplendoroso que se apresentasse. De mais a mais, Kardec refere-se a mundo espiritual e não a mundo material. Quando trata da felicidade espiritual, Kardec enuncia no aludido capítulo III de O Céu e O Inferno:

A felicidade está na razão direta do progresso realizado, de sorte que, de dois espíritos, um pode não ser tão feliz quanto outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar cada qual em lugar distinto (...).

Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda a parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço (grifo nosso em negrito).

Ora, um brocardo jurídico assinala qui peut plus peut moins (quem pode mais pode menos). Ali se lê uma evidência de que a felicidade espiritual tem natureza subjetiva e íntima na origem, mas o Espírito feliz sente prazeres, delícias do estado em que se encontra, e tem vislumbres do ambiente em que se localiza. Um Espírito feliz pode naturalmente visitar um Espírito menos feliz e outro menos feliz ainda, pois, ao tempo que um pode movimentar-se descensionalmente, o outro não pode ascender na escala vibratório-evolutiva. Do contrário, não se poderia realizar o socorro espiritual às entidades sofredoras. Desse modo, quando o Espírito feliz se encontra com outro menos feliz, ambos coabitam, ao menos temporariamente, no momento-ambiente situacional do segundo. Daí, a felicidade compõe-se de uma qualidade íntima, subjetiva, inerente a um Espírito em uma certa faixa evolutiva, mas há regiões esplendorosas, harmônicas, sensitivamente diferenciadas, a que não têm acesso os Espíritos de ordem inferior.

Eis a magna e notável contribuição de Kardec no atinente ao verdadeiro sentido espiritual dos vocábulos céu e inferno: não constituem regiões fixas, pré-determinadas, estáticas e incomunicáveis, como presumem as religiões conservadoras, antes correspondem a estados de espírito, pois existe inter-relação dos Espíritos de vária ordem intelectual e moral. Destarte, não são as regiões celestial e infernal o que determina a natureza de felicidade ou de infelicidade dos Espíritos, mas a natureza deles as realiza e forma, cada uma em um nível dimensional específico. Aliás, vale examinar a comunicação da viúva Foulon, nascida em Wollis, no capítulo II de O Céu e O Inferno, intitulado Dos Espíritos Felizes, exatamente na resposta à segunda pergunta, na evocação de 8 de fevereiro de 1865:

Eu sofri, mas o Espírito sobrepujou o sofrimento material que o desprendimento em si lhe acordava. Depois do último alento, encontrei-me como que em desmaio, sem consciência do meu estado, não pensando em coisa alguma, numa vaga sonolência que não bem o sono do corpo nem o despertar da alma. Nesse estado fiquei longo tempo, e depois, como se saísse de prolongada síncope, lentamente despertei no meio de irmãos que não conhecia. Eles prodigalizavam-me cuidados e carícias, ao mesmo tempo que me mostravam no Espaço um ponto algo semelhante a uma estrela, dizendo: "É para ali que vais conosco, pois já não pertences mais à Terra". Então, recordei-me; e, apoiada sobre eles, formando um grupo gracioso que se lança para esferas desconhecidas, mas na certeza de aí achar a felicidade, subimos, subimos, à proporção que a estrela se engrandecia...

Era um mundo feliz, um centro superior no qual a vossa amiga vai repousar. Quando digo repouso, quero referir-me às fadigas corporais que amarguei, às contingências da vida terrestres, não à indolência do Espírito, pois que este tem na atividade uma fonte de gozos (grifo nosso em negrito e de Kardec em itálico).

A viúva Foulon declara ter visto no Espaço um ponto semelhante a uma estrela, para o qual se dirigiria, em companhia de Espíritos desconhecidos. Por óbvio, pode tratar-se de um orbe, de um planeta ou mesmo de uma estrela, dada a luminosidade. Todavia, seria mesmo o mundo feliz, a que o Espírito evocado se reporta, comparando-o a um centro superior, um mundo físico ou um astro qualquer? Repare-se em que a viúva Foulon não se utiliza da expressão mundo superior e sim da expressão centro superior. Ela simplesmente assinala tratar-se de um mundo feliz. Na Codificação, emprega-se o vocábulo mundo em variada acepção, a exemplo de mundo material e de mundo espiritual, ora na acepção de orbe, planeta, astro, ora na acepção de uma certa região do Espaço, como o mundo dos Espíritos. Mesmo havendo-se ela referido a um orbe ou a um astro qualquer, segundo entende o próprio Kardec na nota à passagem, não se trataria ali de um ambiente físico, orgânico, material, mas de um ambiente espiritual próprio à faixa evolutiva daquele Espírito e pertencente àquele mundo em específico. Ademais, a expressão esferas desconhecidas não se deve interpretar na monta de um orbe, de um planeta ou de um astro qualquer, antes qual uma dimensão ignorada, mais elevada, da própria realidade espírita. Logo em seguida, na referida obra, lê-se, na resposta à 7º pergunta formulada ao médico russo, uma alusão esclarecedora:

Tudo o que não seja planeta constitui o que chamais Espaço e é neste que permaneço. O homem não pode, contudo, calcular, fazer uma idéia, do número de gradações desta imensidade. Que infinidade de escalas nesta escada de Jacob que vai da Terra ao Céu, isto é, do aviltamento da encarnação em mundo inferior, como esse, até à depuração completa da alma! Ao lugar em que ora me encontro não se chega senão depois de uma série enorme de provas, ou, por outra, de encarnações (grifo nosso).

Tudo quanto não seja planeta deve ser Espaço, assertiva de que se depreende a inespecificidade do conceito, no qual se incluem o próprio espaço sideral e o espaço espiritual. Logo, quando, na evocação anterior, a viúva Foulon se referiu a Espaço, poderia ela ter-se reportado ao conceito genérico assinalado pelo médico russo e não propriamente a espaço sideral. Note-se a remissão às escalas da escada de Jacob, desde as encarnações inferiores até a completa depuração da alma, de tal sorte que tais níveis evolutivos não podem racional e logicamente ser apenas estádios experimentados entre planetas, pois, de tal maneira, o referencial da evolução seria o mundo material, em vez de ser o mundo espiritual.

A matéria, cujo conceito imediatista se utiliza em toda a Codificação, comporia o mundo das percepções ordinárias, nas quais o conceito de extensão adquire importância regular. Os Espíritos, porém, cônscios de que a percepção sensorial limita os horizontes das realidades visível e invisível, quando se lhes indagou se as noções de extensão, de impenetrabilidade e de impressionabilidade sensorial da matéria seriam definições exatas, puderam asseverar na questão 22 de O Livro dos Espíritos:

Do vosso ponto de vista, elas o são, porque não falais senão do que conheceis. Mas a matéria existe em estados que ignorais. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil, que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria. Para vós, porém, não o seria (grifo nosso).

Ora, se matéria se organiza em um nível tão inferior quanto aquele em que o Espírito reencarna, por que se não organizaria em nível mais sutil e etéreo, considerada a plasticidade com que se lhe apresenta no Espaço, sendo o princípio espiritual eminentemente organizador? Os Espíritos não a modelam, em nível sutilizado, e não constituem o perispírito a partir do fluido universal (semimaterial ou material em nível etéreo) de cada globo? Quais os obstáculos a que eles compusessem regiões aprazíveis, por eles organizadas e estruturadas, ou regiões geradas voluntária ou involuntariamente pelo sofrimento espiritual, visto estarem certos Espíritos sob extrema influência da matéria densa?

Certas referências à organização do mundo espírita podem não ser consideradas explícitas, mas, indubitavelmente, são bastante sugestivas. Em determinados excertos das comunicações encontráveis na Revista Espírita, existem mesmo alusões sobremaneira claras e convincentes ao ambiente extrafísico, como a de eminente pensador francês, intitulada Confissão de Voltaire e constante da edição de setembro de 1859, precisamente no §7º do terceiro comentário do diálogo com o cardeal Wolsey:

Como eu já disse, eu debochava de tudo, e foi lançando um desafio que abordei o mundo espírita. Inicialmente, fui levado para longe das moradas dos Espíritos e percorri o espaço incomensurável. Em seguida foi-me permitido lançar os olhos sobre as maravilhosas construções que serviam de habitação aos Espíritos e, com efeito, pareceram-me surpreendentes. Fui empurrado, aqui e ali, por uma força irresistível; era obrigado a ver, até que minha alma fosse saciada pelos esplendores e esmagada ante o poder que controlava tais maravilhas (grifo nosso).

Nem tudo se deve tomar ao pé da letra, sob pena de perder-se a acuidade espiritual, tampouco se pode negar eloqüente verdade a uma passagem de tal jaez. Se do excerto não constasse a expressão construções, poder-se-ia até considerar a alusão de Voltaire à habitação dos Espíritos qual uma conotação, porém aí estaria sobejando a referência. No parágrafo anterior da mesma comunicação, o ilustre filósofo pôde ainda sugerir:

Como viajava incessantemente, sem me conceder nenhum repouso, a fim de me convencer de que o mundo em que me encontrava bem podia ser um mundo material, minha alma lutava contra a verdade que me esmagava! (grifo nosso)

Isto é, a percepção daquele mundo era tão semelhante à da Terra, que ele se tentava convencer de que ali se tratava de "um mundo material". Outra não pode ser a conclusão, pois Voltaire disse haver lançado "os olhos", ou seja, prestado atenção à cena, a ela presenciado. Em outra excepcional comunicação, inserta na edição de maio de 1863 do aludido mensário, o Espírito Erasto, no capítulo Questões e Problemas, no segundo parágrafo da resposta à segunda pergunta, arremata uma exortação moral acerca dos materialistas:

Uma das condições de sua cegueira moral é de aprisionar mais violentamente nos laços da materialidade e, conseqüentemente, de os impedir que se afastem das regiões terrestres ou similares à Terra. E, assim, como a maioria dos desencarnados, cativos na carne, não pode perceber as formas vaporosas dos Espíritos que os cercam, também a opacidade do envoltório dos materialistas lhes impede a contemplação das entidades espirituais que se movem, tão belas e tão radiosas, nas altas esferas do império celeste (grifo nosso).

Se há Espíritos incapazes de afastar-se assim "das regiões terrestres" como das "similares à Terra", dúvida nenhuma resta de que, além das próprias regiões terrestres, também existem aquelas similares à Terra, ou seja, aquelas em que o ambiente extrafísico se assemelha ao do planeta materialmente considerado. Então, em rigor, que se poderia entrever em tais ambientes extrafísicos, propínquos à crosta, senão a arquitetura, os objetos, as edificações, em tudo similares aos do orbe? Não se estaria, a priori, escrevendo sobre dimensões superiores, extraordinariamente eterizadas, desmaterializadas, mas sobre o habitat de Espíritos vinculados à Terra, ainda submetidos às paixões humanas, às intempéries da conduta e a toda uma gama de expressões emocionais e sentimentais, muito embora não haja rigorosamente nenhum impeditivo à existência de planos superiores organizados de maneira ainda inacessível à compreensão meramente intelectiva, em nível da consciência encarnada. Em O Livro dos Espíritos, as Entidades venerandas da Codificação redargüiram à pergunta 18, quando se lhes questionou se "penetrará o homem um dia o mistério das coisas que lhe estão ocultas":

O véu se levanta a seus olhos, à medida que ele se depura, mas, para compreender certas coisas, são-lhe precisas faculdades que ainda não possui (grifo nosso).

Mais à frente, na resposta à questão 237 da mesma obra, as Entidades da Codificação endossaram, mutatis mutandis, o respondido na pergunta 18, quando se lhes indagou se "uma vez de volta ao mundo dos Espíritos, conserva a alma as percepções que tinha quando na Terra":

Sim, além de outras que aí não dispunha, porque o corpo, qual véu sobre elas lançado, as obscurecia. A inteligência é um atributo, que tanto mais livremente se manifesta no Espírito, quanto menos entraves tenha que vencer (grifo nosso).

Na pergunta 24, os mesmos Espíritos já assinalavam ser a inteligência "um atributo essencial do Espírito", mas não o único, conquanto uma e outro se venham confundir "em um princípio comum", sendo para os encarnados "a mesma coisa". De mais a mais, todo o Espaço se encontra povoado por seres inteligentes, de tal modo que "a vida e a inteligência estão por toda a parte, sobre os globos sólidos, no ar, nas entranhas da Terra e até nas profundezas etéreas", como se pode compulsar no último parágrafo do capítulo A Pluralidade dos Mundos Habitados, da edição da Revista Espírita de março de 1858. Dessa maneira, afigura-se completamente apriorística a negação de que não existem colônias espirituais, escamoteada em uma presuntiva questionabilidade antimística, a título de se defender um manicurto purismo doutrinário.

II DO PROBLEMA DO CONTROLE UNIVERSAL DO ENSINAMENTO

O problema do controle universal decerto se constitui um dos mais complexos de toda a Doutrina Espírita, visto ser princípio basilar de chancela das revelações espirituais, no que contenham de verdadeiro. Outrossim, o Mestre lionês, no §9º da segunda parte da Introdução a O Evangelho Segundo o Espiritismo, pôde inserir a problemática no exato grau de importância:

Uma só garantia existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares (grifo do Codificador).

Dessa maneira, o primeiro aspecto por examinar no controle universal denomina-se espontaneidade do ensinamento, pois aqui se trata de uma garantia de que a verdade revelada à humanidade vem no momento azado, no período histórico preciso. Em tal premissa reside o equívoco de alguns espíritas não acolherem as evocações como procedimento da mediunidade, porque terminam opondo a espontaneidade, que rege o ensino dos Espíritos, à evocação, que compõe metodologia experimental aplicável às comunicações mediúnicas dirigidas. Em segundo lugar, aparece a multiplicidade de médiuns, pois, vindo as informações por variegados medianeiros, pode estabelecer-se a coletividade do ensinamento, a fim de que a unicidade das idéias e a unidade da fonte seja confirmada pela diversidade dos canais. Em terceiro lugar, tem-se a diversidade dos lugares, dos centros de trabalho neles encontráveis, porque o mesmo ensinamento deve ser ministrado às sociedades receptivas em geral, bem como a todos os homens e mulheres passíveis de recebê-lo e de aceitá-lo. No parágrafo seguinte àquele retrocitado, o ínclito Codificador logrou ponderar:

Vê-se que não se trata aqui das comunicações referentes a interesses secundários, mas do que respeita aos princípios mesmos da doutrina. Prova a existência que, quando um princípio novo tem de ser enunciado, isso se dá espontaneamente em diversos pontos ao mesmo tempo e de modo idêntico, senão quanto à forma, quanto ao conteúdo (grifo nosso em negrito e de Kardec em itálico).

Necessário, antes de mais nada, conceituar princípio, dentro da acepção em que utilizado o termo no excerto. De acordo ao Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, no verbete PRINCÍPIO, pode-se consultar:

Aristóteles foi o primeiro a enumerar completamente seus significados. Tais significados são os seguintes: 1º ponto de partida de um movimento, p. ex., de uma linha ou de um caminho; 2º o melhor ponto de partida, como p. ex. o que facilita aprender alguma coisa; 3º ponto de partida efetiva de uma produção, como p. ex. a quilha de um navio ou os alicerces de uma casa; 4º causa externa de um processo ou de um movimento, como p. ex. um insulto que provoca uma briga; 5º o que, com a sua decisão, determina movimentos ou mudanças, como p. ex. o governo ou as magistraturas de uma cidade; 6º aquilo de que parte um processo de conhecimento, como p. ex. as premissas de uma demonstração. Aristóteles acrescenta a esta lista: "Causa" também tem os mesmos significados, pois todas as causas são princípios. O que todos os significados têm em comum é que, em todos, P. é ponto de partida do ser, do devir ou do conhecer (grifo nosso em negrito e em itálico do autor).

Parecem adequados à acepção contextual de princípio, no excerto de Kardec, o 2º, 5º e 6º significados, porém o último se traduz em maior completude. Dessa maneira, a existência das colônias espirituais afigura-se um princípio da Doutrina ou um consectário de um princípio dela? Outrossim, deve-se examinar o sentido aplicado à expressão ao mesmo tempo. Todas as comunicações, em que se vazaram os princípios doutrinários, provieram simultaneamente, em termos de horas, minutos e segundos, ou exsurgiram em um certo período histórico ou específico? Decerto, a simultaneidade assinalada por Kardec parece adstringir-se a um determinado momento, a um certo período, a um intervalo mais ou menos longo de tempo. Se do contrário se cogitar, devem-se observar todos os comentários, todas as comunicações mediúnicas, todos os estudos, sempre proficientes, da Revista Espírita, o grande laboratório do Mestre lionês. Quanto ali se coligiu acerca de elementos fundamentais do Espiritismo, dos seus próprios desdobramentos? Ela, porém, iniciou-se em 1858 e findou-se em 1869, em razão do trespasse do Codificador, isto é, ela sobreviveu 11 anos e 3 meses. Durante esse interstício por inteiro, não se exerceram os mecanismos do controle universal?

No concernente às incursões doutrinárias, ao conhecimento adventício, à própria evolução conceitual do Espiritismo, Kardec também já havia ponderado, no §16 da segunda parte da Introdução a O Evangelho Segundo o Espiritismo:

O princípio da concordância é também uma garantia contra as alterações que poderiam sujeitar o Espiritismo às seitas que se propusessem apoderar-se dele em proveito próprio e acomodá-lo à vontade. Quem quer que tentasse desviá-lo do seu providencial objetivo, malsucedido se veria, pela razão muito simples de que os Espíritos, em virtude da universalidade de seus ensinos, farão cair por terra qualquer modificação que se divorcie da verdade (grifo nosso).

O bom senso de Kardec sempre se mostrou um grande roteiro, havendo captado as mínimas nuances do problema do controle universal do ensinamento dos Espíritos. No excerto acima referido, o Codificador demonstra peremptoriamente o próprio controle do mundo espiritual sobre o divergente, sobre o excrescente, sobre o esdrúxulo, a ponto de o próprio ensinamento, pelo seu caráter de universalidade, fazer desabar as construções teóricas não alicerçadas na verdade e nos princípios doutrinários. Mais à frente, no §18, Kardec enunciou:

Também ressalta que as instruções dadas pelos Espíritos sobre os pontos ainda não elucidados da Doutrina não constituirão lei, enquanto essas instruções permanecerem insuladas; que elas não devem, por conseguinte, ser aceitas senão sob todas as reservas e a título de esclarecimento.

Por conseguinte, tudo quanto se ampare em pontos elucidados da Doutrina não merece as mesmas reservas. Certo, porém, existir um instante em que se devam elucidar os pontos doutrinários obscuros, não podendo a iluminação vir de outra fonte senão das próprias instruções espirituais, sob o rigoroso controle da universalidade. Ora, se os Espíritos não infirmaram uma informação por via de manifestação universal, como se depreende da expressão "farão cair por terra qualquer modificação que se divorcie da verdade", o melhor procedimento será aguardar o próprio controle positivo. Nesse mesmo contexto, Kardec aditou no §21 daquele mesmo texto:

Os Espíritos verdadeiramente ponderados, se não se sentem suficientemente esclarecidos sobre uma questão, nunca a resolvem de modo absoluto; declaram que apenas a tratam do seu ponto de vista e aconselham que se aguarde a confirmação.

Por grande, bela e justa que seja uma idéia, impossível é que desde o primeiro momento congregue todas as opiniões. Os conflitos que daí decorrem são conseqüência inevitável do movimento que se opera; eles são mesmo necessários para maior realce da verdade e convém se produzam desde logo, para que as idéias falsas prontamente sejam postas de lado (grifo nosso em negrito e de Kardec em itálico).

 

De tais asserções, pode-se retirar a conclusão de que as idéias embrionárias, assinaladas por um Espírito, podem ser a pouco e pouco negadas ou confirmadas pela manifestação de outros Espíritos, fato em que se desdiz a idéia de um controle simultâneo como normalmente se tem em mira esse termo. Em suma, existe simultaneidade de períodos mais ou menos longos, porque a intervenção dos Espíritos demanda a existência de médiuns mais ou menos habilitados a recepcionar-lhes as idéias e os ensinamentos. Dessa maneira, não parece lógico e racional supor a manifestação dos Espíritos em um determinado dia ou em uma determinada semana ou em um determinado mês, a fim de haver, apenas naquele instante, revelação de princípios doutrinários e de extensões conceituais destes. A revelação não ocorre de afogadilho, sem a semeadura das idéias e sem a maturação das opiniões acerca delas, de uma hora para outra, pois a natureza não dá saltos e age em seqüências muito bem pausadas. Na mesma esteira de conceitos, Kardec expôs na edição de março de 1864 da Revista Espírita, logo no primeiro artigo intitulado Da Perfeição dos Seres Criados (§9º):

Só a concordância pode dar-lhes [aos Espíritos] a consagração, pois aí está o único e verdadeiro controle do ensino dos Espíritos. Eis por que estamos longe de aceitar como verdades irrecusáveis tudo quanto ensinam individualmente; um princípio, seja qual for, para nós só adquire autenticidade pela universalidade do ensinamento, isto é, por instruções idênticas, dadas em todos os lugares, por médiuns estranhos entre si e que não sofram as mesmas influências, notoriamente isentos de obsessões e assistidos por Espíritos bons e esclarecidos.

Ora, já não houve comunicações por diferentes médiuns, estranhos entre si, mas não necessariamente desafetos, não subordinados às mesmas influências, relativamente à organização do mundo espiritual? Mister, outrossim, contextualizar as assertivas de Kardec, porquanto, àquela época, a inter-relação dos países não era culturalmente estreita como hoje, por conta das distâncias, tampouco a dos médiuns, assim como a centralidade de exame das comunicações mediúnicas não gravitava senão em torno do próprio Codificador, em atividade plena de edificação dos pilares doutrinários. Vale ter em comento o fato de Allan Kardec haver examinado centenas de comunicações mediúnicas, que às mãos lhe chegaram de centros espíritas por ele reputados austeros, submetendo-as a rígido crivo lógico, não havendo estado, porém, ubiquamente em todos os núcleos espíritas, a fim de lhes controlar os trabalhos. O reconhecimento de seriedade àqueles núcleos espíritas adveio do paulatino enfronhamento nas suas especificidades e do sazonamento de idéias, de pensamentos, de mensagens. Em artigo intitulado Controle do Ensino Espírita, constante da edição de janeiro de 1862 do aludido mensário, mais uma vez raciocinou o Codificador (§3º):

Em caso de divergência, o melhor critério é a conformidade dos ensinos por diferentes espíritos e transmitidos por médiuns completamente estranhos entre si. Quando o mesmo princípio for proclamado ou condenado pela maioria, é preciso dar-nos conta da evidência. Se há um meio de chegarmos à verdade, seguramente é pela concordância e pela racionalidade das comunicações, auxiliados pelos meios que temos à nossa disposição para constatar a superioridade ou a inferioridade dos Espíritos. Ao deixar de ser individual para se tornar coletiva, a opinião adquire um maior grau de autenticidade, já que não pode ser considerado como resultado de uma influência pessoal ou local. Os que ainda se acham em dúvida terão uma base para fixar as idéias, porque será irracional pensar que aquele que em seu ponto de vista está só, ou quase só, tenha razão contra todos (grifo nosso).

Conseguintemente, se uma idéia toma corpo e determinadas proporções por via mediúnica variada, mais provável ser verdadeira do que falsa, mais lógico ser principiológica do que hipotética, mais racional ser consistente do que movediça. Ora, médiuns houve e há em todos os tempos, em todas as épocas, posto nem sempre dispostos ao exercício moderado e educado, mas não os houve somente na época da Codificação, a fim de os Espíritos haverem revelado os princípios doutrinários à humanidade. Se os há na atualidade e houve da implantação do Espiritismo até hoje, necessário examinar-lhes sim as produções psicográficas, mas também imperativo encontrar o fundo, o contexto, a urdidura. Houve ou não houve obras mediúnicas variadas, recebidas por vários médiuns e nas quais está patente a referência à existência de colônias espirituais, à organização do mundo espírita, à diversidade da vida de ultratúmulo? Decerto, há comunicações e comunicações, boas e ruins, extensas e curtas, rigoristas e laxistas, mas, por outro lado, constitui absurdo incomensurável negar-lhes um conteúdo próprio ou refutar-lhes a origem mediúnica, sob o argumento de que foram melhores os médiuns usados por Kardec ou de que os bons médiuns só existiram no período da Codificação. Em tal sentido, Kardec mostrou-se taxativo, asseverando que "os que se acham em dúvida terão uma base para fixar as idéias, porque será irracional pensar que aquele que em seu ponto de vista está só, ou quase só, tenha razão contra todos". Alguma obra dita mediúnica, do início do século até agora, negou ou confutou a existência das organizações de certa espécie de Espíritos em colônias? Há confirmação delas em outras obras, além das psicografadas por Francisco Cândido Xavier? A resposta à última interrogação não parece negativa.

Não sendo assim, inexorável julgar postiços todos os médiuns sucedâneos e hodiernos, assim como todos os ditados autodenominados mediúnicos, pois não se adunam nem se coadunam com a verdade. Destarte, uma tal sentença condenatória, sem facultar-se o contraditório aos médiuns, vai de encontro ao senso mais rasteiro de lógica e de justiça. Todos os Espíritos, com que se manteve e mantém contato, através de médiuns posteriores a Kardec, seriam pseudo-sábios e estariam impiedosamente engabelando o mundo inteiro, sugerindo idéias falsas, traindo o Mestre lionês? Não há razoabilidade nenhuma em tais cogitações.

 

III DO ENDOSSO POR ALGUMAS OBRAS ESPÍRITAS NÃO MEDIÚNICAS

Se conceber a existência de colônias espirituais compõe grave equívoco, nele incorreram outros comentaristas da Codificação e coetâneos de Allan Kardec, como Leon Denis. Na Parte Quarta, intitulada Além-túmulo, item XXV, §12, da obra Depois da Morte, assinalou o notável filósofo do Espiritismo:

O Espírito, pelo poder da sua vontade, opera sobre os fluidos do espaço, os combina, dispondo-os a seu gosto, dá-lhes as cores e as formas que convém ao seu fim. É por meio desses fluidos que se executam obras que desafiam toda comparação e toda análise. Construções aéreas, de cores brilhantes, de zimbórios resplendentes: sítios imensos onde se reúnem em conselho os delegados do Universo; templos de vastas proporções de onde se elevam acordes de uma harmonia divina; quadros variados, luminosos: reproduções de vidas humanas, vidas de fé e de sacrifício, apostolados dolorosos, dramas do infinito. Como descrever magnificências que os próprios Espíritos se declaram impotentes para exprimir no vocabulário humano? (grifo nosso)

Tais possibilidades organizatórias espirituais têm supedâneo na própria natureza dos fluidos, examinada por Kardec no capítulo XIV, item 3, §§ 1 e 2, de A Gênese:

No estado de eterização, o fluido cósmico não é uniforme; sem deixar de ser etéreo, sofre modificações tão variadas em gênero e mais numerosas talvez do que no estado de matéria tangível. Essas modificações constituem fluidos distintos que, embora procedentes do mesmo princípio, são dotados de propriedades especiais e dão lugar aos fenômenos peculiares ao mundo invisível.

Dentro da relatividade de tudo, esses fluidos têm para os Espíritos, que também são fluídicos, uma aparência tão material quanto a dos objetos tangíveis para os encarnados e são, para eles, o que são para nós as substâncias do mundo terrestre. Eles os elaboram e combinam para produzirem determinados efeitos, como fazem os homens com seus matérias, ainda que por processos diferentes. (grifo nosso)

Nutrindo idéias muito similares, Gabriel Delanne, no capítulo III da Terceira Parte, subtítulo A Energia e os Fluidos, §13, de A Alma é Imortal, pôde entretecer as seguintes ponderações:

Há, envolvendo-nos, uma atmosfera fluídica incorporada na atmosfera gasosa, penetrando-a de todos os lados. São ininterruptas as suas ações: é todo um mundo tão variado, tão diverso em suas manifestações, quanto o é a natureza física, isto é, a matéria invisível e ponderável. Há fluidos grosseiros, como fluidos quintessenciados, uns e outros com propriedades inerentes ao respectivo estado vibratório e molecular, que os tornam substâncias tão distintas, quanto o podem ser, para nós, os corpos sólidos e gasosos (grifo nosso).

Conseguintemente, se os fluidos assumem para os Espíritos uma natureza semelhante à da matéria condensada, tão material e tangível quanto os objetos do mundo grosseiro, tão variada quanto as substâncias aqui existentes, não há por que não existir uma organização específica no mundo espírita, destinada à habitação dos Espíritos, consoante se pode ler em excertos da Revista Espírita. Do contrário, o mundo espírita estaria entregue a uma entropia sem finalidade e sem escopo, isto é, entregue a ninguém. Leon Denis, na Primeira Parte, subitem XII, §§1º e 2º, de O Problema do Ser, do Destino e da Dor, examinou novamente o problema:

Todo Espírito que deseja progredir, trabalhando na obra da solidariedade universal, recebe dos Espíritos mais elevados uma missão apropriada às suas aptidões e ao seu grau adiantamento.

Uns têm por tarefa receber os homens em seu regresso à vida espiritual, guiá-los, ajudá-los a se desembaraçarem dos fluidos espessos que os envolvem; outros são encarregados de consolar, de instruir as almas sofredoras e atrasadas. Espíritos químicos, físicos, naturalistas, astrônomos, prosseguem suas investigações, estudam os mundos, suas superfícies, suas profundezas ocultas, atuam em todos os lugares sobre a matéria sutil, que fazem passar por preparações, por modificações destinadas a obras que a imaginação humana teria dificuldades em conceber; outros se aplicam às artes, ao estudo do Belo sob todas as suas formas; Espíritos menos adiantados assistem os primeiros nas suas tarefas variadas e servem-lhes de auxiliares (grifo nosso).

Dessa maneira, pode-se conceber pelo pensamento a maneira como se organizam e estruturam os planos dimensionais e as diversas esferas de sobrevivência do Espírito imortal, não podendo ser a vida espírita uma vivência nefelíbata, vaporosa, nublada, enevoada, sem referenciais de percepção e de sensação. Assim fosse, aí sim poderia existir obscurantismo medieval, pois a vida espiritual estaria reduzida a um nada pior do que o da concepção materialista da vida. Outrossim, a Codificação aponta sim a existência de esplendores, de gozos, de delícias, de prazeres no mundo espírita, os quais não se guiam por aqueles do mundo material, havendo aí um referencial de percepção de alguma coisa, embora as dores, os padecimentos, os cilícios, os quais provêm da ingerência da matéria densa na natureza espiritual, assumam por base a vida mundana daqui. Daí surge o fato de que tais Espíritos padecentes se mantenham atrelados às vicissitudes, aos vícios, à concupiscência. Não obstante, a vida espiritual não pode ter por referencial a vida material, pois os mecanismos evolutivos tendem a fazer prevalecer o Espírito sobre a matéria, para que, a pouco e pouco, o Espírito ascenda aos páramos superiores.

 

PRIMEIRAS CONCLUSÕES

Não se pode, de maneira apodíctica, confirmar o argumento de que, relativamente à existência de colônias espirituais, "não é isso que está explícito e implícito na Doutrina dos Espíritos", obedecendo-se, portanto, a uma leitura reducionista do corpo doutrinário. O grau de explicitude ou de implicitude varia de acordo com a extensão conceitual atribuída às respostas de vários Espíritos.

Decerto, a humanidade terrena situa-se em um orbe de provas e de expiações, sendo, realmente, na sua maior expressão, composta de Espíritos inferiores, que, despojando-se dos organismos biológicos, irão constituir a humanidade invisível. Em O Livro dos Espíritos, na questão 224, as Entidades venerandas, interrogadas sobre o que seria a "alma no intervalo das encarnações", redargüiram ser ela "Espírito errante, que aspira a novo destino, que espera". Ora, o estado de errância espiritual diz respeito a uma situação temporária, em que se mantém o Espírito até reencarnar, pois, como ele aspira à felicidade lograda nos degraus da evolução, deve ele compulsoriamente retornar à vida material, para experimentar-se e aquistar valores novos. De mais a mais, na questão 226 da aludida obra, os Instrutores da Terceira Revelação asseveram não ser a erraticidade sinal de inferioridade dos Espíritos, "porquanto há Espíritos errantes de todos os graus". Ainda segundo os Luminares, na mesma resposta, "a encarnação é um estado transitório (...)", visto estar o "Espírito no seu estado normal, quando liberto da matéria".

Dessa maneira, a erraticidade contém assim uma natureza conceitual como uma natureza situacional, porque, sendo o Espírito alguma coisa, alguma coisa deve ser o mundo espiritual em que ele vive, sob pena de o mundo espiritual reduzir-se ao Espírito em si mesmo. Ora, se o Espírito existe como potência da natureza e existe em um mundo espírita, tal mundo necessita compor-se de algo, apresentar-se constituído de alguma coisa, exibir algum referencial. O mundo espírita não se compõe de fluidos os mais diversos, de todo gênero, os quais podem combinar-se de maneira variada, tanto quanto as substâncias do mundo material? Tais fluidos não parecem sólidos, densos, condensados, para os Espíritos capazes de moldá-los? No capítulo XIV, item 5, §3º, Allan Kardec logrou comentar de maneira antológica:

Não é rigorosamente exata a qualificação de fluidos espirituais, pois, em definitivo, eles são sempre matéria mais ou menos quintessenciada. De realmente espiritual, só a alma e o princípio inteligente. Dá-se-lhes essa denominação por comparação apenas e, sobretudo, pela afinidade que eles guardam com os Espíritos. Pode dizer-se que são a matéria do mundo espiritual, razão por que são chamados fluidos espirituais (grifo nosso em negrito e de Kardec em itálico).

Haveria comentário mais elucidativo no atinente ao fato de o mundo espiritual ser o ambiente diferenciado em que vivem e sobrevivem os Espíritos? Para Kardec, os fluidos espirituais são "a matéria do mundo espiritual", ou seja, constituem os elementos modeladores do mundo espírita. Não parece viável raciocinar de outra maneira, porquanto os fluidos não são ilusórios nem compõem alucinações espirituais, existindo de fato e de direito. Na questão 227 da obra primeira da Codificação, os Espíritos, interrogados sobre "de que modo se instruem os Espíritos errantes", asseveraram que aqueles "estudam e procuram os meios de elevar-se", "vêem e observam o que ocorre nos lugares aonde vão", "ouvem os discursos dos homens doutos e os conselhos dos Espíritos mais elevados", de tal maneira que "tudo isso lhes incute idéias que antes não tinham". Ora, quando se faz remissão a "lugares", não se pode afiançar, sem margem de celeuma, serem eles lugares no universo material, o que sinalizaria reducionismo materialista. Os Espíritos, a fim de progredir, vão a "lugares" escutar tanto "os discursos de homens doutos" como "os conselhos dos Espíritos mais elevados". Outrossim, onde se elide a existência de colônias espirituais em tais passagens?

Falha imensurável existe em considerar as colônias espirituais na monta de presídios ou de lugares instransponíveis, de onde um Espírito não possa evadir-se. Não obstante, não se pode nem se deve usar como argumento irreprochável a idéia de que, "nas obras de Kardec, não há a menor referência nem às colônias espirituais nem ao vale dos suicidas". Realmente, não poderia havê-las, pois os Espíritos não utilizaram tais expressões. Dessa maneira, passa a ser extremamente "questionável e de existência duvidosa" a afirmativa, tão espontânea quão gratuita, de que "não há a mínima referência", nem explícita nem implicitamente. Ora, se implícita a referência, não poderiam aparecer no texto as expressões colônias espirituais e vale dos suicidas. Destarte, considerando-se tudo quanto a humanidade necessita aprender por si mesma e tudo quanto haverá de ser trazido à baila pelos Espíritos, não se pode sem chus nem bus pôr em relevo uma supositícia "omissão da Espiritualidade Superior", pois, como já se demonstrou à saciedade, à exaustão, os Espíritos da Codificação não revelaram tudo nem adiantaram aquilo a que chegará a humanidade, na proporção do seu desenvolvimento e da maturação de opiniões e idéias. A Espiritualidade Superior também se afiguraria omissa em tal hipótese, por respeitar o tempo das idéias? Para tudo existe o seu próprio tempo.

Muito judicioso acreditar em uma vida "eminentemente espiritual", mas de que se compõe essa vida espiritual? Dir-se-á: de reflexão ou de reflexões. Mas a vida espiritual se compõe de reflexões em si mesmas, sem percepção de nada, sem o vislumbre da realidade espírita, sem o contato com outros Espíritos, sem o agrupamento de Espíritos por afinidades, sem objetivos no próprio mundo espírita, além de refletir, de pensar, de excogitar para reencarnar? Se não houvesse os mundos materiais, os Espíritos andariam por somente refletindo, pensando na vida, meditando sobre si mesmos, sem nada ver, ouvir ou sentir? Se os Espíritos existem no mundo espírita, se o mundo espírita se compõe de fluidos, se os fluidos não são propriamente espirituais, como assinalou Kardec, sendo eles "a matéria do mundo espiritual", como se pode assinalar não existir "nada de material" na preparação dos Espíritos? Uma coisa não exclui a outra, em absoluto.

Se alguns Espíritos não se libertaram da ingerência da matéria, prosseguem eles jugulados a ela, influenciados por fluidos grosseiros, atrelados aos vícios terrestres, à concupiscência, ao hedonismo, indo a lugares daqui e de lá tentar satisfazer as necessidades de quando estavam encarnados e sintonizando Espíritos afins em ambos os lados da vida, pergunta-se: onde se encontra uma negativa sequer de que os Espíritos não se reúnem em colônias espirituais ou de que não podem gerar, pela densidade perispirítica e pela agregação de fluidos grosseiros, certas regiões que lhes parecem do mundo terreno, como o vale dos suicidas? Os fluidos não parecem materiais para eles?

Dessa maneira, não quadra bem o argumento de que as colônias espirituais constituem "fantasias espirituais sem nenhuma sustentação científico-doutrinária" ou "elucubrações místicas de Espíritos apegados à matéria e de pessoas simplórias que não conseguem conceber o mundo espiritual sem materialidade". Que é materialidade, enfim, se os próprios fluidos espirituais compõem a matéria do mundo espírita, segundo chancelou o próprio Kardec? Kardec seria, então, simplório e místico, pois não logrou enxergar fluidos espirituais que não fossem materiais? Tal argumento redunda em um grande sofisma de quem não pôde entrever, aí sim, um mundo espiritual dissociado de um mundo material, independentes entre si, mas inter-reagentes, como se pode ler na questão 86 de O Livro dos Espíritos. S.M.J.

 

Parte II

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