
Todos os Espíritos andariam genericamente por aí, a expensas do mundo material, em reflexões contemplativas de um mundo fluídico irreal, desorganizado e errático?
PARTE II
COLÔNIAS ESPIRITUAIS: FANTASIAS ANÍMICAS DE CHICO XAVIER?
COMENTÁRIOS AO ARTIGO NOSSO LAR E A JERUSALÉM MESSIÂNICA DO APOCALIPSE DO
DRº ISO JORGE TEIXEIRA, PUBLICADA EM O PORTAL DO ESPÍRITO (
www.espirito.org.br)CIÊNCIA ESPÍRITA EM FACE DA RAZÃO E DO CONTROLE UNIVERSAL
Por vezes, adota-se um conceito absoluto de razão, do qual provém o qualificativo racional. No Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, o verbete razão apresenta inúmeras acepções e variadíssimo conteúdo semântico. Não obstante, logo na primeira entrada, tem-se por razão o "referencial de orientação do homem em todos os campos em que seja possível a indagação ou a investigação, de tal jeito que ela corresponde a "uma ‘faculdade’ própria do homem, que o distingue dos animais". Outrossim, da noção de razão derivam a de racional e a de razoável. Ora, o racional constitui aquilo proveniente da razão ou dela correlato, enquanto o razoável compõe aquilo capaz de gravitar em torno dela, sem, no entanto, perder o ponto de tangência.
Não há, portanto, absolutizar o conceito de razão, pois tudo quanto se afigure assimilável pela razão deve ser considerado racional, quando o objeto não discrepar ora do senso comum ora do bom senso. Desse modo, racional se torna aquilo admitido pela razoabilidade, embora a razão em si mesma não constitua a demonstração da verdade. Somente quando a razão, como faculdade, logra aproximar-se da percepção e da sensação, como realidade apresentada, pode-se interceptar de alguma forma a verdade. Ora, afigura-se importante ser razoável para ser racional e entrever a razão.
Decerto, as obras psicografadas por Francisco Cândido Xavier devem ser estudadas, assim como acuradamente cotejadas às da Codificação Espírita, porém, dentro das margens de razoabilidade. Não obstante, o articulista, cujas páginas mais parecem um reverbério à mediunidade de Francisco Cândido Xavier, está convicto de que existem nos livros atribuídos a André Luiz "situações ingênuas cientificamente" e devidas ao animismo do notável médium de Pedro Leopoldo. Por outro lado, de tão convicto o malsim e de tão verazes as ingenuidades, não as revela ou menciona sequer de relance, a fim de que as coteje o leitor. Houve também uma inadvertência do açodado articulista: se houve animismo daquele médium, houve-o também de Waldo Vieira, cuja personalidade não soía nem sói padecer "misticismo católico", muito menos agora. Em pelo menos três livros da série, ambos os médiuns laboraram em conjunto: Sexo e Destino, Evolução em Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade.
Para escapar ao argumento, o plumitivo deverá recorrer a duas hipóteses, muito ao gosto do consumidor, consoante diria o Padre Quevedo: I) houve fraude liberada e deliberada de Waldo Vieira, sob assédio do "misticismo católico" de Chico Xavier; II) houve manipulação dos textos pela FEB, sob o beneplácito dos médiuns. Sobre tal enfoque, Waldo Vieira nunca se manifestou, nem mesmo após haver-se tornado apóstata do Espiritismo. Como aplicar a ambos a hipótese do animismo por "misticismo católico"? Seria animismo duplo em personalidades assaz distintas?
Outrossim, o articulista, de muita cultura e de extenso lastro médico, por ser livre-docente de Psicopatologia e de Psiquiatria, como se pode notar em muitos e bons artigos em que trata conjuntamente da mediunidade e da própria especialidade, assinalou algo de suma importância à pesquisa científica:
Todo ESTUDO realmente CIENTÍFICO não deve partir para uma busca daquilo que "queremos" encontrar, senão, encontraremos exatamente aquilo que "desejamos"; ora, os nossos DESEJOS, os nossos AFETOS não devem contaminar um estudo científico. Todo estudo deve partir com AUSÊNCIA DE PRESSUPOSTOS, como recomendava o grande filósofo alemão KARL JASPERS, baseado no também filósofo EDMUND HUSSERL (grifo nosso em negrito e do autor em caixa alta e aspeado).
Há uma sentença mais verdadeira e mais adequada à problemática? Decerto, parte-se da noção de neutralidade científica, cuja verdadeira existência parece extremamente dubitável, da mesma forma como parece inexistir a decantada neutralidade axiológica. Ora, como examinar a ausência de pressupostos, se ela mesma se constitui em um pressuposto, usando-se aqui um raciocínio de Bertrand Russel? Se aqui se parte do pressuposto de que existem as colônias espirituais, o articulista partiu, a seu turno, da premissa de que elas não existem. Onde a ausência de pressupostos no exame do problema, sem usar-se aqui o método parenético de Antônio Vieira, o colendo orador barroco?
No atinente ao Controle Universal do Ensinamento, não se afigura idônea a tese de que se deve considerar simultâneo o que vem a propósito, em um mesmo instante, no contexto examinado por Kardec. O nobre articulista assinala deva ocorrer o controle "(...) simultaneamente em vários centros e sem que haja a mesma linha de pensamento entre eles, isto é, o ideal seria que o mesmo teor de uma mensagem ocorresse em vários países quase simultaneamente (...)". Há três argumentos por esclarecer: I) Há alguma outra linha de pensamento viável senão o espírita ou a do Espiritismo, ou seja, o Espiritismo exibe linhas de pensamento? II) Por que se mitigou repentinamente a simultaneidade usando-se um quase? III) Qual a extensão semântica do advérbio quase, segundos, horas, dias, meses, lustros ou décadas, em termos dos referenciais espirituais?
COLÔNIAS ESPIRITUAIS TÊM SUPORTE DOUTRINÁRIO SIM
Mais à frente, o inteligente articulista aborda o artigo Mobiliário do Além-Túmulo, referido por uma leitora dele e constante da Revista Espírita de agosto de 1859, no qual Allan Kardec brilhantemente examinou um fato, a ele relatado, de aparição de dois Espíritos, um, que usara um cachimbo e esfumara o ambiente, outro, ainda encarnado, que se apresentara com uma tabaqueira em mão. Em 24 de junho de 1859, Kardec evocou o Espírito São Luís, um Espírito de Superioridade irreprochável, a fim de que a Entidade Superior pudesse elucidar ambas as ocorrências:
No relato da Sra. R..., trata-se de uma criança que viu, perto do leito de sua mãe, um homem a fumar um grande cachimbo. Compreende-se que esse Espírito possa ter tomado a aparência de um homem que fumava, mas parece que fumava realmente, pois o menino via o quarto repleto de fumaça. O que era essa fumaça?
Resp. - Uma aparência, produzida para o garoto (grifo nosso em negrito).
O articulista, a par de referir-se a comentário de Kardec, inserto após a quarta resposta, não o transcreveu por inteiro, fato prejudicial à compreensão do contexto em que o próprio Mestre lionês se utilizou do vocábulo aparência, pois, ipsis litteris et verbis, o Codificador asseverou:
Observação – É evidente que a palavra aparência deve ser aqui tomada no sentido de aspecto, imitação. A caixa de rapé real não estava lá; a que o Espírito deixa ver era apenas uma reprodução daquela: era, pois, com relação ao original, uma simples aparência, embora formada de um princípio material.
Desse modo, a aparência, a que se reportou São Luís, era um resultado da própria interrogativa de Kardec, ou seja, era entendida como aspecto, imitação. Logo, para exemplificar-se a idéia, uma cópia de uma pintura de Matisse não se confunde com o original, sendo uma aparência, uma imitação, um aspecto, pois não tem originalidade, mas não deixa ela de existir por ser mera cópia. Por óbvio, "a caixa de rapé real não estava lá", porque o Espírito não a transportara nem levara consigo até o ambiente em que se mostrara. Ora, o Espírito produzira uma outra, "formada de um princípio material", a qual era, na aparência, na imitação, no aspecto, igual à original, mas não era a própria caixa original. Aquela exibida pelo Espírito não era uma alucinação, tampouco uma fantasia, era uma "reprodução" da original, segundo acentuado na própria nota. Outrossim, Kardec ainda aditou:
Ensina a experiência que nem sempre se deve dar significação literal a certas expressões usadas pelos Espíritos. Interpretando-as de acordo com as nossas idéias, expomo-nos a grandes equívocos. Daí a necessidade de aprofundar-se o sentido de suas palavras, toda vez que apresentem a menor ambigüidade. É essa observação que os Espíritos constantemente nos fazem. Sem a explicação que provocamos, o termo aparência, que de contínuo se reproduz nos casos análogos, poderia prestar-se a uma interpretação falsa
(grifo nosso).Tem-se aqui a impressão de que o articulista não atentou à advertência de Kardec e acabou por cair na armadilha da existência do pressuposto, por ele mesmo apontada, havendo usado uma "significação literal" do vocábulo aparência. De mais a mais, o Espírito São Luís dera finalmente o golpe de misericórdia na tese da ilusão de óptica, na resposta à pergunta 4:
Dizes que é uma aparência, mas uma aparência nada tem de real, é como uma ilusão de óptica. Desejaríamos saber se aquela tabaqueira era apenas uma imagem sem realidade, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho.
[O Sr. Sanson, um dos membros da Sociedade, faz observar que na imagem reproduzida num espelho há qualquer coisa de real; se ela não fica nele é que nada a fixa; mas, se fosse projetada sobre a chapa de daguerreótipo, deixaria uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e não simplesmente uma ilusão de óptica]
A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa. Teríeis a bondade de dizer-me se existe alguma analogia com a caixa de rapé, isto é, se nela havia alguma coisa de material?
Resp. - Certamente. É com auxílio deste princípio material que o perispírito toma a aparência de vestuários semelhantes aos que o Espírito usava quando encarnado (grifo nosso em negrito).
A analogia do Srº Sanson, porém, não se amolda completamente à idéia basilar de São Luís, pois, no exemplo do amigo de Kardec, o objeto tridimensional se reduz a uma impressão bidimensional com aspecto de profundidade, fato não evidenciado na hipótese da tabaqueira. Destarte, a cópia não deixa de ser algo em si, ainda mais quando constituída por um princípio material, ou seja, em outras palavras, de matéria em outro nível vibratório. Pode-se raciocinar através de um exemplo: se cá se tem um cálice de chumbo, pode-se acolá ter um outro de alumínio ou vidro, de mesmo tamanho e de mesma coloração, em imitação do original. Ora, usando-se a mesma forma (fôrma) do cálice de chumbo, pode-se moldar um outro de alumínio ou de vidro, de maneira que se confiram ao segundo as mesmas características estéticas do primeiro, sendo a cópia idêntica ao original na aparência. Por conseguinte, a cópia, embora imite o original, não será o cálice de chumbo, apresentando ela somente a aparência, mas não deixa de ser algo em si mesmo, por compor-se de matéria. Kardec, em A Gênese, capítulo XIV, parte I, terceiro subtítulo, item 14, último parágrafo, pôde comentar mais longamente a questão:
Por análogo efeito, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos que ele esteja habituado a usar. Um avarento manuseará ouro, um militar trará suas armas e seu uniforme, um fumante o seu cachimbo, um lavrador a sua charrua e seus bois, uma mulher velha a sua roca. Para o Espírito, que é, também ele, fluídico, esses objetos fluídicos são tão reais, como o eram, no estado material, para o homem vivo; mas, pela razão de serem criações do pensamento, a existência deles é tão fugitiva quanto a deste.
Desse modo, o Espírito, pela emanação do pensamento, "cria fluidicamente os objetos" e não gera, como o articulista faz crer, uma ilusão simplesmente, visto parecerem-lhes reais os objetos fluídicos, que não deixam de sê-lo por serem criações fluídicas do pensamento. O pensamento espiritual, quando os forma, torna-os reais e idênticos na aparência aos da Terra. Outrossim, seguindo-se o raciocínio do articulista, os Espíritos não seriam reais por serem parte da Criação Divina, a matéria densa não seria real por constituir-se em condensação da energia, uma partícula subatômica não seria real por desintegrar-se e converter-se em energia. Qual o conceito de realidade perfilhado pelo autor do artigo? A própria matéria, ao provir da condensação da energia, como faz pressupor a equação de Einstein, não seria real?
Toda a matéria densa, tal qual notada pelos sentidos físicos, compõe-se de um princípio único, energético-fluídico, cuja disposição no espaço-tempo produz as partículas elementares de que se compõem as substâncias, diferenciáveis, por conseguinte, de acordo com a tabela periódica de Mendeleev, pelo número atômico, ou seja, pela quantidade nucleônica de prótons. Ora, nenhum dos núcleons, nem os prótons nem os nêutrons, constitui-se por si mesmo em alguma coisa, originando-se de outras partículas ainda menores, como os quárks e as partículas M (teoricamente previstas). Ora, a matéria deixa assim de ser real para os sentidos por decompor-se em subpartículas progressivas, hádrons, bárions etc? Se, em uma hipótese, deixassem de existir as quatro forças conhecidas da natureza (gravitacional, eletromagnética, nuclear forte e nuclear fraca), a matéria não teria sido matéria e não teria sido real, porque se dissipasse? Aí se encontra o sofisma do nobre articulista quando não atenta ao conceito de aparência usado por Kardec e por São Luís, embora advirta devam ser todos "conscienciosos em relação ao entendimento do que nos dizem os Espíritos".
Na pergunta 5 do mesmo artigo retro-assinalado da Revista Espírita de agosto de 1859, São Luís logrou destrinçar o problema suscitado por Kardec acerca das contrapartes etéreas dos objetos, mais tarde referido pelo Mestre lionês no capítulo VIII de O Livro dos Médiuns:
Dar-se-á que a matéria inerte se desdobre? Ou que haja no mundo invisível uma matéria essencial, capaz de tomar a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, terão eles seu duplo etéreo no mundo invisível como os homens são nele representados pelos Espíritos?
Observação – Trata-se de uma teoria como qualquer outra e esse era o nosso pensamento; o Espírito, porém, não a levou em consideração, o que absolutamente não nos humilhou, porque a sua explicação nos pareceu muito lógica e sustentada num princípio mais geral, cuja aplicação muitas vezes encontramos.
Resp. – Não é assim que as coisas se passam. Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, concentrar à vontade esses elementos e dar-lhes a forma que corresponda à dos objetos materiais (grifo de Kardec)
Logo, os Espíritos logram manipular, através dos eflúvios do pensamento, a matéria disseminada pelo Espaço, comunicando propriedades aos fluidos. Ora, se eles têm um poder insuspeito sobre tal atmosfera fluídica, por que supor os objetos por eles conformados como irreais? Na questão seguinte, Kardec tencionou obter uma resposta categórica e obteve-a de São Luís:
Formulo novamente a questão, de modo categórico, a fim de evitar todo e qualquer equívoco: São alguma coisa as vestes de que os Espíritos se cobrem?
Resp. – Parece que a minha resposta precedente resolve a questão. Não sabes que o próprio perispírito é alguma coisa? (grifo nosso)
Conseguintemente, o corpo perispirítico, cuja plasticidade faculta ao Espírito modificá-lo e fazê-lo exibir vestes, as quais existem até o próprio Espírito tencionar desfazê-las, não se constitui ilusão. Em seguida, São Luís chancelara a tese da criação pelo pensamento:
Resulta, desta explicação, que os Espíritos fazem passar a matéria etérea pelas transformações que queiram e que, portanto, em relação à caixa de rapé, o Espírito não a encontrou completamente feita; fê-la ele próprio, no momento em que teve necessidade dela. E, do mesmo que a fez, pôde desfazê-la. Outro tanto naturalmente se dá com os demais objetos, como vestuários, jóias, etc. Será assim?
Resp. – Mas, evidentemente.
Ora, tal não se dá aqui, mutatis mutandis, quando um artista manipula uma substância moldável ou quando se produzem de polímero certos objetos? Os objetos de polímero termoplástico não podem ser novamente moldados e transformados em outros de menor ou maior utilidade? Outrossim, redunda perfeitamente demonstrada a habilidade dos Espíritos em manipular o fluido etéreo e moldá-lo de acordo à sua vontade. Em O Livro dos Médiuns, capítulo VIII, Laboratório do Mundo Invisível, o colendo Mestre de Lion, além de referir-se à tangibilidade momentânea de objetos fluídicos densificados pela volição dos Espíritos, pôde reportar-se à criação de objetos sólidos, permanentes, na dimensão dos encarnados:
Até então, não se tratara senão de imagens ou aparências [na acepção em que as entendem Kardec e São Luís]. Vimos perfeitamente bem que o perispírito pode atingir as propriedades da matéria e tornar-se, mas essa tangibilidade é apenas momentânea e o corpo sólido se desvanece qual sombra. Já é um fenômeno muito extraordinário; porém, o que o é ainda mais é produzir-se matéria sólida persistente, conforme o provam numerosos fatos autênticos, notadamente o da escrita direta (...) (grifo nosso).
Se pode matéria sólida, como um objeto qualquer, ser produzida de maneira permanente, tal persistência deve ser viável no mundo espírita, pois ali se contêm fluidos de extrema plasticidade, comandados pela vontade espiritual. Outrossim, Allan Kardec obteve de São Luís magnífica resposta acerca da possibilidade de que haja criação involuntária ou inconsciente de tais objetos fluídicos, como se pode compulsar no item 20 do mesmo artigo da Revista Espírita de agosto de 1859:
A produção dos objetos semimateriais resulta sempre de um ato da vontade do Espírito ou algumas vezes exerce ele esse poder, mau grado seu?
Resp. – Ele o exerce freqüentemente, mesmo sem o saber (grifo de Kardec).
Em A Gênese, capítulo XIV, terceiro subtítulo, item 14, §§ 1º e 2º, Allan Kardec voltou a refletir sobre a criação inconsciente de objetos fluídicos:
Os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, não manipulando-os como os homens manipulam os gases, mas empregando o pensamento e a vontade. Para os Espíritos, o pensamento e a vontade são o que é a mão para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem àqueles fluidos tal ou qual direção, os aglomeram, combinam ou dispersam, organizam com eles conjuntos que apresentam uma aparência, uma forma, um coloração determinadas; mudam-lhes as propriedades, como um químico muda a dos gases ou de outros corpos, combinando-os segundo certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.
Algumas vezes, essas transformações resultam de uma intenção; doutras são produto de um pensamento inconsciente. Basta que o Espírito pense alguma coisa, para que esta se produza, como basta que modele uma ária, para que esta repercuta na atmosfera.
Desse modo, o sofrimento, o suplício, as amarguras, os vícios de um conjunto de Espíritos, reunidos por afinidade, podem, sem a ingerência da vontade e da intenção, gerar ambientes fluídicos inteiros, tão reais para eles quanto os fluidos espiríticos de que se compõe o habitat, onde se engranzam na dor e na angústia moral. De maneira idêntica, a presença dos Espíritos felizes, por uma simples vontade benévola, mesmo inconsciente, pode criar regiões de indizível estética, de inefáveis belezas, de incomensurável agradabilidade plástica.
Ora, como não haveria suporte conceitual, na Codificação Espírita, à existência de Colônias Espirituais? Mais à frente, o articulista arrisca-se a confirmar o argumento de que "a materialidade dos Espíritos não é real, segundo afirmou Kardec na obra referida acima". Ora, onde Kardec afirmou isto ou algo parecido, se ele próprio contextualizou o conceito de aparência, havendo advertido sobre a literalidade do vocábulo? Ademais, onde Kardec comentou sobre a idéia de que os Espíritos têm materialidade? A priori, a materialidade deve pertencer aos fluidos e não aos Espíritos. Destarte, uma tal afirmativa de Kardec deve encontrar-se apenas na mente do articulista e não na Codificação, pois o Mestre lionês, no último parágrafo dos questionamentos a São Luís, pôde assinalar de modo ponderado:
A teoria acima pode ser resumida da seguinte maneira: o Espírito atua sobre a matéria; da matéria cósmica universal tira os elementos necessários para formar, a seu bel-prazer, objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. Pode igualmente, pela ação da sua vontade, operar na matéria elementar uma transformação íntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes o exerce de modo instintivo, quando necessário, sem disso se aperceber. Os objetos que o Espírito forma têm existência temporária, subordinada à sua vontade, ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode fazê-los e desfazê-los livremente. Em certos casos, esses objetos, aos olhos de pessoas vivas, podem apresentar todas as aparências da realidade, isto é, tornarem-se momentaneamente visíveis e até mesmo tangíveis. Há formação; porém, não criação, considerando que, do nada, o Espírito nada pode tirar.
Necessário impositivamente entender cada palavra no contexto próprio, a fim de não haver falsas interpretações. Quando o Mestre lionês usou o vocábulo realidade, estava referindo-se à realidade dos encarnados, nos campos da visibilidade física daqui, porque nenhum sentido haveria em que os objetos fluídicos se tornassem visíveis e tangíveis para aqueles que já podem vê-los e formá-los, isto é, os próprios Espíritos. Logo, deve-se compreender a advertência de Kardec sobre o verdadeiro sentido em que se tomara o vocábulo aparência. Em nenhuma das passagens, nem de Kardec nem de São Luís, pode ancorar-se a assertiva de que os objetos fluídicos não são reais, porquanto eles continuam reais para os Espíritos capazes de formá-los, mesmo sem torná-los visíveis e tangíveis para os encarnados.
Note-se como Allan Kardec se referiu à capacidade dos Espíritos de "fazê-los e desfazê-los livremente", podendo os objetos fluídicos "apresentar todas as aparências da realidade", isto é, "tornar-se momentaneamente visíveis e até mesmo tangíveis". Desse modo, o sentido de realidade usado por Kardec está preso às noções de visibilidade e de tangibilidade. Ademais, em se consentindo um raciocínio similar ao do articulista em comento, o mundo espírita também não se afiguraria real, por ser invisível ao comum dos encarnados. Os Espíritos de Superioridade indiscutível afirmam ou não a existência do Mundo Espírita?
ANDRÉ LUIZ E PURISMO DOUTRINÁRIO AUTOLEGITIMADO
O articulista, cuja opinião visa a desconstituir a tese do Espírito André Luiz ou, na óptica daquele, do animismo de Chico Xavier, formula a seguinte interrogação: "- Não temos condições científicas de afirmar, hoje, que Nosso Lar seria fictício, fantasioso?" Responde-se tranqüilamente: - Não, não se têm as condições, nem científicas nem metodológicas. Qual ciência já se pronunciou sobre a existência ou inexistência de colônias espirituais? Onde se comprovou ou se refutou metodologicamente a existência delas? Em lugar nenhum, eis a resposta exata à formulação. Muito se há utilizado o vocábulo ciência para legitimar determinadas assertivas, em pleno uso de sofismas, assim como um Padre Oscar González-Quevedo a utiliza para legitimar os tais milagres. Outrossim, o antiespírita sacerdote ainda itera e reitera o argumento de que a ciência provou e comprovou os fenômenos por ele denominados supranormais (leiam-se milagres). Onde a mínima prova, a mais rasteira evidência de que existem os milagres como intervenções de Deus no Universo?
Ao malsinar a psicografia das obras de André Luiz por Francisco Cândido Xavier, o articulista se atém ao argumento de que a visão contida em Nosso Lar arremeda a de outras obras geradas pela cristandade, escudando-se mormente no texto de um leitor seu. Desse modo, o nobre leitor do respeitável articulista refere-se à idéia de que o livro Nosso Lar se teria inspirado em obras anteriores, por uma espécie de arquétipo cristão, assentando a tese em descrições sitas em livros como A Vida Além do Véu, de Robert Dale Owen, como Summerland, de Andrew Jackson Davis e como Plano Astral, de Carlos Leadbeater. Aludindo a Emmanuel Swedenborg, o nobre leitor não se lhe refere a nenhuma obra, mas, para exemplificá-las, podem-se declinar Céu e Inferno, A Nova Jerusalém e Arcana Coelestia. De a mais a mais, são também da lavra de Andrew Jackson Davis as obras Revelações Divinas da Natureza, Filosofia Harmônica e A Vara Mágica.
Mas, em que consiste o argumento ora replicado? Responde-se: na precedência de obras em que se aludiu à vida no mundo espiritual, em cidades de além-túmulo. E daí? Kardec não se utilizou de princípios espirituais já assinalados em outras obras e por outros autores? Aliás, o Codificador, na sua magnânima honestidade, reconheceu a continência de vários princípios espíritas em obras anteriormente publicadas, como se pode ler no primeiro artigo da Revista Espírita de agosto de 1863, havendo-se reportado particularmente a Jean Reynaud:
(...) Na época em que a obra apareceu, cerca de 1840, ainda não se cogitava dos Espíritos [entenda-se aqui a expressão de Kardec: como o movimento espiritual resultante na construção do Espiritismo]. Entretanto, Jean Reynaud parece ter tido, como, aliás, muitos outros escritores modernos, a intuição e o pressentimento do Espiritismo, do qual foi um dos mais eloqüentes precursores. Como Charles Fourier, ele admite o progresso infinito da alma e, como conseqüência de tal progresso, a necessidade da pluralidade das existências, demonstrada pelos diversos estados do homem na Terra.
Jean Reynaud nada tinha visto; colhera tudo de sua profunda intuição. O Espiritismo viu o que o filósofo apenas pressentira; desse modo, acrescentou a sanção as experiência à teoria puramente especulativa e, naturalmente, a experiência o levou a descobrir detalhes que a só imaginação não podia entrever, mas que vêm completar e corroborar os pontos fundamentais. Como todas as grandes idéias que revolucionaram o mundo, o Espiritismo não despontou de súbito; germinou em mais de um cérebro, mostrou-se aqui e ali, pouco a pouco, como que para habituar os homens à idéia. Uma brusca aparição completa teria provocado uma resistência muito viva [aqui o argumento vale em desfavor do articulista replicado]: teria deslumbrado sem convencer. Aliás, cada coisa deve vir a seu tempo e toda planta deve germinar e crescer, antes de atingir seu completo desenvolvimento. Na política acontece a mesma coisa: não há revolução que não tenha sido demoradamente elaborada; e quem quer que, guiado pela experiência e pelo estudo do passado, siga atentamente essas preliminares, pode, quase infalivelmente e sem ser profeta, prever-lhe o desenlace. Foi assim que os princípios do Espiritismo moderno se mostraram parcialmente e em diversas faces, em todas as épocas: no século passado, com Swedenborg; no começo deste século, na doutrina dos teósofos, que admitiam claramente as comunicações entre o mundo visível e o invisível; com Charles Fourier, que admite o progresso da alma pela reencarnação; com Jean Reynaud, que aceita o mesmo princípio, com a Ciência à mão. Há cerca de doze anos, nas manifestações americanas, que tiveram tão grande repercussão e vieram provar as manifestações materiais entre mortos e vivos e, finalmente, na filosofia espírita que, reunindo esses diversos elementos em um corpo de doutrina, lhes deduziu as conseqüências morais. Quem diria, quando não se ocupavam das mesas girantes, que desse entretenimento sairia toda uma filosofia? Quando esta filosofia apareceu, quem teria dito que em poucos anos ela daria volta ao mundo e conquistaria milhões de aderentes? Hoje, quem poderia afirmar que ele deu a última palavra? Por certo não o disse, porquanto, embora as bases fundamentais já estejam estabelecidas, ainda há muitos detalhes a elucidar e que virão a seu tempo. Depois, quanto mais se avança, mais se vê quantos são múltiplos interesses que dizem respeito a todas as questões de ordem social. Assim, só o futuro pode desenvolver todas as suas conseqüências, ou, melhor dizendo, essas conseqüências se desenvolverão por si mesmas, pela força das coisas, porque no Espiritismo se encontra o que inutilmente se buscou alhures (...) (grifo nosso).
Se o ensinamento espiritual se ministrou a todas as civilizações e em diversas épocas, também se ministrou a verdade, a pouco e pouco, à humanidade, a fim de que se arasse e fertilizasse o terreno antes de nele se introduzir a semente. Pela própria noção de Controle Universal, retiradas as conveniências anímicas e mediúnicas, a idéia aqui e ali repetida propende a ser um fulcro de verdade, mais ainda quando, consoante assinala o nobre leitor do articulista, não se encontra ela somente no arquétipo cristão, senão também no arquétipo budista, no arquétipo muçulmano, no arquétipo hinduísta etc. Ora, a similitude dos arquétipos, dentro de uma racionalização necessária, não afirmaria uma idéia universalmente pressentida? Na divergência das filosofias espiritualistas estão o distanciamento da verdade e a ingerência dos homens, porém na convergência reside um fulcro de verdade, uma idéia central de que derivam as idéias periféricas. Pelo menos, há sido assim o ensinamento espiritual em todos os tempos.
Em certa altura, o leitor, cujo raciocínio, devido à concordância à idéia original, parece belíssimo ao articulista, envereda pelo seguinte argumento:
Se existem as tais colônias, não se explica como constroem tais cidades; se por processos iguais aos nossos (haverá desmatamento na erraticidade?) ou por mentalização, o que soa artificial, pois seria como admirar uma flor de plástico. O estranho é que não há explicações nestas obras mediúnicas. Percebemos apenas que tais descrições estão em afinidade com os costumes do médium.
Mais uma vez, aqui se enxerga outra leitura obscura do problema. O raciocínio, além de ser materialista e de usar como referencial o plano material, adota um quê de espirituosidade para escamotear a própria fraqueza. Por óbvio, não haveria desmatamento nas colônias espirituais nem em torno delas, pois as explicações estão muito bem desdobradas na própria Doutrina Espírita, demonstradas à exaustão, embora não hajam sido esgotadas. Agora, considerar artificial o que se gera ou forma por mentalização corresponde a mero ponto de vista, equivalendo a confirmar duas coisas: I) o que existe no mundo espírita é artificial, por composto de fluidos moldáveis pelo pensamento, pois, se os objetos fluídicos são artificiais, os elementos de que se compõem eles decerto o são também; II) a organização da vida somente existe no mundo dos encarnados, sendo tudo o mais simples cópia no mundo espírita. Ora, a dimensão da vida está no mundo espírita e não no mundo grosseiro e denso, naquele se encontram os princípios gestores da realidade vital. Perceba-se a interpretação materialista do problema quando o leitor expõe a idéia de que o real seria aqui e não lá, porque uma flor de lá se equipararia a uma flor de plástico (tamanha presunção). Por quê? Seria porque a única flor verdadeira seria a do mundo material? Ademais, onde se pode ler o argumento de que as estruturas das cidades espirituais, arquitetura, paredes, equipamentos, móveis etc seriam vivos, na acepção em que a compreende o missivista. São vivos aqui no mundo material?
Em seguida, o articulista pretende esmagar a crença na existência de Nosso Lar, respondendo ao nobre leitor:
Como "Nosso Lar" teria sido construída? No meu modo de entender, com o ANIMISMO e a mediunidade do CHICO XAVIER e com o seu religiosismo católico, cristão. Não consigo conceber o livro NOSSO LAR como REVELAÇÃO, porque faltam nesta obra os "CARACTERES DA REVELAÇÃO ESPÍRITA", muito bem explicados por KARDEC no Cap. I do livro A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO. Além dele (sic) não preencher o CUEE, não preenche o critério da RAZÃO.
Eis aí o apressado xeque-mate. Pergunta-se: como Nosso Lar estaria sendo destruída? Responde-se tranqüilamente: pelo materialismo imediatista infra-sensorial do articulista, que somente crê no visto, no ouvido, no tangido, no cheirado e no degustado, visto ser real para ele o que se contém no mundo material. Todo o resto se constitui pantomima, fantasia, misticismo, irrealidade, incluindo-se aqui, de cambulhada, todo o mundo espírita, cujos fluidos comandados pelo pensamento dos Espíritos somente se prestam à artificialidade, à formação de objetos inexistentes, em uma palavra, a puro fingimento. Ademais, continua-se atribuindo a Kardec tudo quanto o Mestre lionês nem escreveu nem disse, como na putativa referência do Codificador ao fato de "a materialidade dos Espíritos" não ser real. Perceba-se como somente o articulista vislumbra revelação em livros em que, de fato, não existe ela, pois ninguém jamais considerou Nosso Lar como revelação. A revelação já se houvera realizado.
Outrossim, tomando-se por base o raciocínio do articulista, não houve Controle Universal, mesmo em face de várias obras mediúnicas, em que se alude à organização do mundo espírita, porque os Espíritos não baixaram ao mesmo tempo para comprovar a idéia e os que o fizeram não se afiguram superiores, embora Kardec se haja referido às idéias nascituras e que vão tomando corpo paulatinamente. Os Espíritos Superiores não se manifestam mais e simplesmente abandonaram a humanidade? De mais a mais, onde, nas exposições do articulista, pode o critério da razão ser percebido, senão o critério da razão dele? Dessa maneira, exorta-se ao culto articulista, mutatis mutandis, o comentário de Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, parte II, Autoridade da Doutrina Espírita, subtítulo Controle Universal do Ensino dos Espíritos, último parágrafo:
Já se desenha o harmonioso conjunto. Este século não passará sem que ele resplandeça em todo o seu brilho, de modo a dissipar todas incertezas, porquanto daqui até lá potentes vozes terão recebido a missão de se fazerem ouvir, para congregar os homens sob a mesma bandeira, uma vez que o campo se ache suficientemente lavrado. Enquanto isso não se dá, aquele que flutue entre dois sistemas opostos pode observar em que sentido se forma a opinião geral; essa será a indicação certa do sentido em que se pronuncia a maioria dos Espíritos, nos diversos pontos em que se comunicam, e um sinal não menos certo de qual dos dois sistemas prevalecerá.
A FANTASIA, O VERDADEIRO FANTASISTA E RESPECTIVO MISTICISMO CIENTÍFICO
O articulista afaz-se à idéia de erraticidade para tentar fazer derruir a existência de colônias espirituais. Quando Kardec indagou dos Espíritos, na questão 224 de O Livro dos Espíritos, publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB) e traduzido por Guillon Ribeiro, o "que é alma no intervalo das encarnações", eles redargüiram ao Mestre lionês ser ela "um Espírito errante, que aspira a novo destino, que espera". Na tradução de Júlio de Abreu Filho, publicada pela Editora Pensamento, lê-se "Um Espírito errante que aspira e espera um novo destino". Não obstante serem respeitáveis as assinaladas versões, ambas as respostas contêm pecadilhos sintáticos, a que se atribui obscuridade interpretativa. Em língua francesa, obtém-se a resposta "Esprit errant qui aspire après sa nouvelle destinnée; il attend".
A versão de Guillon Ribeiro parece mais próxima à literalidade que a de Júlio de Abreu Filho. Na primeira, há um problema de anfibologia na seqüência das orações subordinadas adjetivas, pois a última adjetiva ("que espera") pode referir-se tanto a "Um Espírito errante" como a "a novo destino". Depreende-se da própria tradução ser melhor reputar a última adjetiva como subordinada à principal elíptica "Um Espírito errante" e não à primeira adjetiva, mas haver-se-ia resolvido a ambigüidade pela inserção de um simples conectivo (conjunção coordenativa aditiva e) antes da segunda oração adjetiva. Na segunda, nota-se um erro de regência verbal, pois o verbo aspirar, quando significa desejar, colimar, pretender, é transitivo indireto, conquanto o Dicionário Prático de Regência Verbal de Celso Pedro Luft, publicado pela Ática, abone a existência da construção moderna sem preposição. Em linha diversa, o Dicionário de Verbos e Regimes de Francisco Fernandes, publicado pela Globo, não admite a flexibilidade sintática. Logo, dever-se-ia ter grafado um Espírito errante que aspira a novo destino e que o espera ou espera por ele.
As versões, embora adaptadas à modulação da língua vernácula, alteram em parte o sentido original da resposta, ora por conterem equívocos de sintaxe, ora por não haverem dado importância ao termo après, da resposta original. Segundo o Dicionário Francês-Português-Português-Francês de Paulo Rónai, o advérbio après, na segunda entrada do verbete, pode significar atrás de, em busca de, de tal molde que ele confere um significado maior ao verbo aspirer. Desse modo, uma tradução mais exata seria Espírito errante que aspira a buscar a sua nova destinação; ele espera. Ademais, Allan Kardec perguntou em língua francesa "Que devient l’âme dans l’intervalle des incarnations?", isto é, numa tradução mais literal, "Que se torna a alma no intervalo das encarnações?" Ora, Kardec não perguntou para onde vai a alma nem onde estará a alma no intervalo das encarnações, pois a resposta seria óbvia e a pergunta, redundante. O desiderato de Kardec era conhecer em que situação íntima, subjetiva, permaneceria a alma, no intervalo das encarnações. Da mesma forma, poder-se-ia indagar: que se torna um Espírito quando reencarna? A resposta poderia ser: uma alma em evolução, que aspira a buscar uma nova destinação e que espera (oportunidades de serviço). Ora, onde se estaria negando a existência da organização do mundo real ou o ambiente em que vive a alma?
Por conseguinte, da expressão usada pelos Espíritos ("errante"), Kardec retirou o substantivo erraticidade, não com o significado de mundo espírita, antes com a acepção de período de permanência da alma naquela situação. Desse modo, o conceito de erraticidade concerne ao de interstício, ao de intervalo, ao de período mais ou menos longo, não tendo a ver com a noção de espaço, de lugar, de região, de ambiente extrafísico ou de mundo espírita. Na primeira subquestão, Kardec indagou dos Espíritos "qual pode ser a duração desses intervalos" e obteve-lhes a resposta:
Desde algumas horas até milhares de séculos. Propriamente falando, não há extremo limite estabelecido para o estado de erraticidade, que pode prolongar-se muitíssimo, mas que nunca é perpétuo. Cedo ou tarde, o Espírito terá que volver a uma existência apropriada a purificá-lo das máculas das suas existências precedentes (grifo nosso).
Note-se a referência do próprio Codificador à noção de "estado de erraticidade" como de natureza temporal e não espacial. Aliás, erraticidade vem de errático, do latim erraticus, a, um. Na subquestão posterior, Kardec indagou dos Espíritos se "essa duração está subordinada à vontade do Espírito ou pode ser imposta como expiação", havendo obtido a seguinte resposta:
É uma conseqüência do livre-arbítrio. Os Espíritos sabem perfeitamente o que eles fazem, mas existem daqueles para quem é uma punição infligida por Deus. Outros pedem o prolongá-la para seguir [freqüentar] estudos que não podem fazer-se com proveito senão em estado de Espírito.
Dessa maneira, por consectário do livre-arbítrio, a permanência do Espírito no estado de trânsito varia de acordo ao livre-alvedrio, em face do confronto entre as necessidades espirituais e o aproveitamento de aprendizagem no estado espiritual. Logo, parece ingênua a interrogação de por que André Luiz ainda não reencarnou para evoluir, se a encarnação se constitui a melhor maneira, pois a resposta se encontra cristalinamente exposta nas respostas à primeira e segunda subquestões do item 224. Ora, se estudos existem não aproveitáveis senão em Espírito, onde a Individualidade espiritual os encetaria? Pode ela assistir às aulas ministradas na Terra, mas também pode freqüentá-las no próprio mundo espiritual. Ou somente haveria interesse em conhecer as coisas daqui? Quando se lhes indagara, na questão 225 de O Livro dos Espíritos, se "a erraticidade é, por si mesma, um sinal de inferioridade entre os Espíritos", as Entidades venerandas redargüiram:
Não, porque há Espíritos errantes de todos os graus. A encarnação é um estado transitório, nós o dissemos: no seu estado normal, o Espírito é desembaraçado da matéria.
Quando os Espíritos se referiram ao desembaraço em relação à matéria, aludiram eles à matéria densa. Na questão 226, quando se lhes perguntara se "pode dizer-se que todos os Espíritos que não estão encarnados são errantes", assinalaram as Entidades venerandas:
Aqueles que devem reencarnar-se, sim. Mas os Espíritos Puros, que já chegaram à perfeição não são errantes: o seu estado é definitivo.
A erraticidade inere à necessidade reencarnatória, em maior ou menor grau do Espírito. Destarte, os Espíritos Puros não necessitam encarnar, havendo atingido um estado definitivo, isto é, não mais carecem de retornar à Terra por necessidade evolutiva, podendo somente reencarnar no orbe por missão, a exemplo de Jesus. Na questão 230 do mesmo título, Allan Kardec perguntou às Entidades venerandas se "na erraticidade o Espírito progride", havendo obtido a resposta de que ele "pode melhorar-se muito, tais sejam a vontade e o desejo de consegui-lo", de tal sorte que "na existência corporal é que põe em prática as idéias que adquiriu". Primeiramente, como entender o melhoramento do Espírito na erraticidade, se, na óptica do nobre articulista, a erraticidade se constitui um lugar somente de reflexão? Somente a reflexão em si mesma pode fazer progredir um Espírito, sem mais nada, ou existe atividade espiritual no mundo espírita, de assistência aos desafortunados, de consolo aos sofredores, de instrução e de estudos?
No concernente aos mundos transitórios, o Mestre de Lion indagou dos Espíritos, no primeiro subitem da questão 236, se "esses mundos são ao mesmo tempo habitados por seres corpóreos", havendo obtido o argumento de que não são habitados, pois "estéril é neles a superfície e os Espíritos, que neles habitam, de nada necessitam". Na pergunta anterior, todavia, Kardec questionou se, "enquanto permanecem nos mundos transitórios, os Espíritos progridem", havendo obtido a idéia de que "certamente, os que vão a tais mundos levam o objetivo de se instruírem e de poderem mais facilmente obter a permissão de passar a outros lugares melhores e de chegar à perfeição atingida pelos eleitos".
Ora, se os Espíritos se instruem em tais mundos transitórios, a fim de ingressarem em mundos mais avançados, não podem eles instruir-se com nenhum encarnado, não se podendo aplicar à situação a resposta da questão 227, pelo menos quanto aos homens doutos encarnados. Ademais, a instrução de que se nutrem os Espíritos são dadas somente por reflexões contemplativas ou por aprendizagem ministrada por Espíritos de mais elevado grau, em ambiente espiritual adequado ao melhoramento? Se assim não se raciocinar, qual a diferença de os Espíritos pousarem em tais orbes e neles estagiarem, sendo o estado de erraticidade essencialmente o mesmo, em meio de vapores, nuvens, fluidos irreais, como intenta o nobre articulista?
Desse modo, se em Chico Xavier se enxergou um "misticismo católico", pode-se no articulista vislumbrar um misticismo científico, pois o fundamento dos argumentos parece idêntico. No atinente ao problema da simultaneidade, já se demonstrou aqui o sofisma usado pelo brilhante articulista, para quem só existe revelação quando vários Espíritos baixam ao mesmo tempo e dão por encerrada uma questão. Ademais, onde se encontram as contradições entrevistas pelo douto articulista? Estariam na interpretação dele? Decerto, como assinalam os Espíritos, não há nos mundos transitórios belezas naturais, porque os Instrutores apenas firmaram, no terceiro subitem da questão 236 de O Livro dos Espíritos, a idéia de que "a Natureza reflete as belezas da imensidade que não são menos admiráveis do que aquilo a que chamais belezas naturais". Que ele entende por "imensidade"? De tão materialista o raciocínio, o articulista reputa ser imensidade somente o cosmos, o espaço sideral, talvez a matéria escura. Para arrematar-se o presente arrazoado, examine-se o comentário de Kardec após a questão 236:
Nada é inútil na natureza; tudo tem um fim, uma destinação. Em lugar algum há o vazio; tudo é habitado, há vida em toda parte. Assim, durante a dilatada sucessão dos séculos que passaram antes do aparecimento do homem na Terra, durante os lentos períodos de transição que as camadas geológicas atestam, antes mesmo da formação dos primeiros seres orgânicos, naquela massa informe, naquele árido caos, onde os elementos se achavam em confusão, não havia ausência de vida. Seres isentos das nossas necessidades, das nossas sensações físicas, lá encontravam refúgio. Quis Deus que, mesmo assim, ainda imperfeita, a Terra servisse para alguma coisa. Quem ousaria afirmar que, entre os milhares de mundos que giram na imensidade, um só, um dos menores, perdido no seio da multidão infinita deles, goza do privilégio exclusivo de ser povoado? Qual então a utilidade dos demais? Tê-las-ia Deus feito unicamente para nos recrearem a vista? Suposição absurda, incompatível com a sabedoria que esplende em todas as suas obras e inadmissível desde que ponderemos na existência de todos os que não podemos perceber. Ninguém contestará que, nesta idéia da existência de mundos ainda impróprios para a vida material e, não obstante, já povoados de seres vivos apropriados a tal meio, há qualquer coisa de grande e sublime, em que talvez se encontre a solução de mais de um problema (grifo nosso).
Aí se encontra a judiciosidade de Kardec. Em todo o espaço, encontra-se a vida, porquanto não existe o vazio ou o nada, nem no mundo material nem no mundo espírita. As harmonias do Infinito se espalham tanto em um como em outro, exibindo belezas indizíveis, paraísos invisíveis, estética transcendente. Nada deixa de fazer sentido. Não há somente um mundo fluídico de irrealidades, de reflexões ensimesmadas, de pensamentos referenciados no mundo grosseiro da matéria densa, como se os Espíritos deambulassem por aí, erráticos, aqui e ali, cá e acolá, vivendo em função do mundo dos encarnados, em reflexões puramente contemplativas. Ademais, aí reside a verdadeira fantasia. Bem pior do que o "misticismo católico", presumido em Chico Xavier, afigura-se ao leitor o misticismo científico ou, por mais aplicável à hipótese, um cientificismo místico, bem disfarçado pela ironia e transformado em tabula rasa. Ledo engano. S.M.J.
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