CRISTIANISMO E REENCARNAÇÃO
José Reis Chaves
(Resposta à matéria "Reencarnação", do Sr. Orlando Fedeli, na qual o autor apresenta 20 itens contrários à reencarnação. Cada uma das colocações do Sr. Fedeli é seguida da resposta nossa).
Introdução
Há vários argumentos usados pelos anti-reencarnacionistas contra a doutrina das vidas sucessivas. Vamos abordar, nesta matéria, 20 desses argumentos mais freqüentes e que constam do artigo do Sr. Orlando Fedeli, mas que não são só dele, pois já foram apresentados por outros adversários da reencarnação. Para a clareza dos assuntos, teremos um parágrafo para cada item. E, algumas vezes, o complemento de uma resposta deixa de aparecer num item, para aparecer em outro afim com aquele em que está inserido o questionamento do Sr. Orlando Fedeli.
Análise dos Argumentos
1. Se a alma humana se reencarna para pagar os pecados cometidos numa vida anterior, deve-se considerar a vida como uma punição, e não um bem em si. Ora, se a vida fosse um castigo, ansiaríamos por deixá-la, visto que todo homem quer que seu castigo acabe logo. Ninguém quer ficar em castigo longamente. Entretanto, ninguém deseja, em sã consciência, deixar de viver. Logo, a vida não é um castigo. Pelo contrário, a vida humana é o maior bem natural que possuímos.
Os adversários da reencarnação afirmam erradamente que os espíritos reencarnam apenas para pagar os pecados de uma vida anterior. Logo, a vida é uma punição. Mas, segundo eles, as pessoas gostam muito da vida. Destarte, a vida não pode ser uma punição, do que eles concluem, de um modo simplista, que a reencarnação é uma falsidade. Porém, a reencarnação não é só para a expiação de faltas, a qual, sem dúvida, nos faz evoluir, mas também, para que passemos por provas, as quais, igualmente, podem possibilitar a nossa evolução espiritual e moral. Ademais, como Deus é onisciente e infinitamente bom e perfeito, sua lei de causa e efeito permite que nós saldemos as nossas faltas amando a vida, apesar de todas as vicissitudes de expiações e provas pelas quais temos que nela passar. É como diz o adágio popular, "Deus escreve certo por linhas tortas!" Mas uma coisa é certa, a reencarnação é uma dádiva de Deus para todos nós, pois ela nos permite que possamos cumprir o que nos recomendou o Mestre Jesus: "Sede perfeitos como é perfeito vosso Pai celestial". E nós sabemos que, com uma vida só, apenas podemos mal, mal, dar os primeiros passos para essa nossa caminhada pela eternidade afora, em busca da perfeição do Pai, do que se infere que, de fato, a reencarnação é uma realidade, pois ela é imprescindível para aquela nossa evolução espiritual e moral ensinada pelo nosso Mestre Jesus.
2. Se a alma se reencarna para pagar os pecados de uma vida anterior, dever-se-ia perguntar quando se iniciou esta série de reencarnações. Onde estava o homem quando pecou pela primeira vez? Tinha ele então corpo? Ou era puro espírito? Se tinha corpo, então já estava sendo castigado. Onde pecara antes? Só poderia ter pecado quando ainda era puro espírito. Como foi esse pecado? Era então o homem parte da divindade? Como poderia ter havido pecado em Deus? Se não era parte da divindade, o que era então o homem antes de ter corpo? Era anjo? Mas o anjo não é uma alma humana sem corpo. O anjo é um ser de natureza diversa da humana. Que era o espírito humano quando teria pecado essa primeira vez?
Aqueles que acham que a reencarnação é só para pagar pecados de vida anterior, o que já vimos ser falso, querem saber como foi a primeira vida da série das reencarnações? A primeira vida de um espírito na matéria, na Terra ou em outro planeta, aconteceu porque Deus e o Plano Espiritual quiseram. Em outras palavras, é porque era bom para o espírito encarnante, pois de Deus e do Plano Espiritual sintonizado com Deus só emana o amor. Mas seria também o caso de se perguntar: por que, na metáfora da história de Adão e Eva, Deus quis que os dois começassem sua vida aqui no nosso Planeta Terra? Mas "os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos" (Isaias 55,8). E o espírito pode errar, sim, principalmente se ele for atrasado. Não existe a metáfora da rebelião dos anjos? Mas ignorarmos como se deu exatamente o princípio da vida do homem não prova nada contra a reencarnação, pois, reencarnação já significa a vinda do espírito à matéria justamente depois de que já aconteceu a primeira vinda. De uma coisa, porém, temos certeza, quando o espírito juntou-se à matéria (carne), pela primeira vez, ele tinha menos afinidade e compromisso com a matéria do que passou a ter da segunda vez em diante! É, pois, como disse Voltaire: "É menos surpreendente o espírito vir a Terra, outras vezes, do que quando veio à primeira vez!"
3. Se a reencarnação fosse verdadeira, com o passar dos séculos haveria necessariamente uma diminuição dos seres humanos, pois que, à medida que se aperfeiçoassem, deixariam de se reencarnar. No limite, a humanidade estaria caminhando para a extinção. Ora, tal não acontece. Pelo contrário, a humanidade está crescendo em número. Logo, não existe a reencarnação.
Alguns apresentam contra a reencarnação o seguinte: Se ela serve para a evolução do espírito, muitos espíritos já devem ter atingido a perfeição. E, assim, eles não reencarnariam mais, o que provocaria uma diminuição e até, um dia, a extinção da humanidade na Terra. Mas ocorre o contrário, a população está sempre crescendo. Por isso, segundo eles, a reencarnação é uma farsa! Acontece que o número de espíritos para reencarnar é sempre imensamente maior do que o número de crianças que nascem. E os espíritos vêm de outros mundos, como os terráqueos vão também para outros mundos. Ademais, Deus permite que espíritos novos continuem sendo criados. Aliás, isso é também aceito pelos próprios não reencarnacionistas, que acham que os espíritos são criados junto com corpo!
4. Respondem os espíritas que Deus estaria criando continuamente novos espíritos. Mas então, esse Deus criaria sempre novos espíritos em pecado, que precisariam sempre se reencarnar. Jamais cria ele espíritos perfeitos?
Alegam alguns teólogos contrários à reencarnação que os espíritos criados por Deus teriam que ser todos imperfeitos, para haver necessidade de reencarnação. E perguntam se Deus não poderia criar espíritos perfeitos? Se Deus criasse espíritos já perfeitos, é óbvio, não haveria necessidade de reencarnação. E Deus tem, sim, poder para criar espíritos já perfeitos. Mas Deus criou os espíritos humanos semelhantes a Ele. E, por isso, Ele dotou-os de inteligência e livre-arbítrio, para que eles mesmos, com esses atributos, tornem de fato uma realidade a sua semelhança com Deus, através da sua evolução. Se eles já fossem criados perfeitos, seriam autômatos. E, assim, onde ficaria a sua semelhança com Deus?
5. Se a reencarnação dos espíritos é um castigo para eles, o ter corpo seria um mal para o espírito humano. Ora, ter corpo é necessário para o homem, cuja alma só pode conhecer através do uso dos sentidos. Haveria então uma contradição na natureza humana, o que é um absurdo, porque Deus tudo fez com bondade e ordem.
Outro argumento errôneo dos teólogos, baseado no fato de que a reencarnação é um castigo, é que o espírito ter corpo seria um sofrimento constante para o espírito. Logo haveria uma contradição na criação do homem. E, com esses argumentos exóticos, eles querem dizer que a reencarnação seria contra a bondade e a ordem de Deus! O espírito necessita, sim, do corpo, através do qual se manifesta e evolui, como já foi dito. Mas, se é verdade que o espírito sofre com o corpo, ele tem também felicidade e prazer com o corpo, pois Deus sabe dosar as coisas, fazendo tudo com perfeição e equilíbrio. E Deus sabe tirar do mal o bem! É tão verdade isso, que nós nunca queremos sair do nosso corpo, prorrogando o mais possível o momento do desencarne do espírito!
6. Se a reencarnação fosse verdadeira, o nascer seria um mal, pois significaria cair num estado de punição, e todo nascimento deveria causar-nos tristeza Morrer, pelo contrário, significaria uma libertação, e deveria causar-nos alegria. Ora, todo nascimento de uma criança é causa de alegria, enquanto a morte causa-nos tristeza. Logo, a reencarnação não é verdadeira.
Os teólogos, como já vimos, gostam de afirmar que a reencarnação é uma questão de punição. Mas, segundo eles, sempre comemoramos o nascimento de uma criança. Destarte, ganhamos o corpo não é para sofrer, logo, com mais esse argumento simplista, concluem que a reencarnação não é verdadeira! Já vimos que tanto podemos sofrer, como podemos ser também felizes e ter muito prazer e felicidade com o nosso corpo e nossa vida. Aliás, tudo que Deus fez é bom, inclusa a reencarnação, que nos dá a oportunidade de outras vidas. Realmente, Deus é onisciente e infinitamente perfeito e bom!
7. Vimos que se a reencarnação fosse verdadeira, todo nascimento seria causa de tristeza. Mas, se tal fosse certo, o casamento - causador de novos nascimentos e reencarnações – seria mau. Ora, isto é um absurdo. Logo, a reencarnação é falsa.
Estamos já no sétimo parágrafo dos itens anti-reencarnacionistas que estamos contra-argumentando. Sempre com aquela visão pessimista de que a reencarnação é apenas uma punição, dizem alguns teólogos que o casamento, que é a causa dos nascimentos de crianças, isto é, de reencarnações de espíritos, deveria ser visto como um mal! Mas como o casamento é sempre visto e festejado como sendo um momento de felicidade dos nubentes, logo a reencarnação é falsa! Isso é um sofisma, pois a reencarnação é, principalmente, para a nossa evolução moral e espiritual. Reencarnados, nós temos condições de praticar o Evangelho de Jesus, e, destarte, de amenizar o nosso carma negativo. "Porque o amor cobre uma multidão de pecados" (1 Pedro 4,8).
8. Caso a reencarnação fosse uma realidade, as pessoas nasceriam de determinado casal somente em função de seus pecados em vida anterior. Tivessem sido outros os seus pecados, outros teriam sido seus pais. Portanto, a relação de um filho com seus pais seria apenas uma casualidade, e não teria importância maior. No fundo, os filhos nada teria a ver com seus pais, o que é um absurdo.
Argumentam os adversários da reencarnação que os filhos de um casal, sob a ótica dela, só reencarnam para pagarem seus pecados. E que, assim, se outros fossem seus pecados, outros seriam também seus pais. E concluem absurdamente que a relação entre os pais e os filhos é uma mera casualidade. Estamos diante de outro sofisma. Ora, se os pais são de acordo com o carma dos seus filhos ou dependem do tipo de pecados dos seus filhos cometidos em outra vida anterior, não há casualidade na relação entre os pais e seus filhos! Pelo contrário, há uma relação toda especial, pois que ela obedece justamente às circunstâncias de pecados dos filhos cometidos numa vida anterior. E é exatamente isso que acontece com a reencarnação. Só que, além do carma dos filhos, é levado também em consideração o carma dos próprios pais, irmãos, outros parentes e até amigos. Todos vão colaborar mutuamente, ajudando-se uns aos outros na sua evolução. Aliás, é por isso que estão juntos ou têm uma relação entre si durante uma determinada reencarnação. "Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho..." (Mateus 5,25).
9. A reencarnação causa uma destruição da caridade. Se uma pessoa nasce em certa situação de necessidade, doente, ou em situação social inferior ou nociva -- como escrava, por exemplo, ou pária – nada se deveria fazer para ajudá-la, porque propiciar-lhe qualquer auxílio seria, de fato, burlar a justiça divina que determinou que ela nascesse em tal situação como justo castigo de seus pecados numa vida anterior. É por isso que na Índia, país em que se crê normalmente na reencarnação, praticamente ninguém se preocupa em auxiliar os infelizes párias. A reencarnação destrói a caridade. Portanto, é falsa.
Os nossos sofrimentos têm a ver, sim, com as nossas falhas ou pecados cometidos anteriormente na própria vida ou numa anterior. O Nazareno deixou isso claro. Quando curava as pessoas, costumava dizer-lhes que não pecassem mais, dando a entender que elas teriam outras doenças (carmas) desagradáveis, se pecassem outra vez. Mas nós podemos fazer caridade, sim, ajudando a aliviar o sofrimento de nosso irmão, qualquer que seja esse seu sofrimento ou carma negativo. O próprio Jesus, como vimos, deixou-nos esse exemplo, curando os males de muitas pessoas.
10. A reencarnação causaria uma tendência à imoralidade e não um incentivo à virtude. Com efeito, se sabemos que temos só uma vida e que, ao fim dela, seremos julgados por Deus, procuramos converter-nos antes da morte. Pelo contrário, se imaginamos que teremos milhares de vidas e reencarnações, então não nos veríamos impelidos à conversão imediata. Como um aluno que tivesse a possibilidade de fazer milhares de provas de recuperação, para ser promovido, pouco se importaria em perder uma prova pois poderia facilmente recuperar essa perda em provas futuras - assim também, havendo milhares de reencarnações, o homem seria levado a desleixar seu aprimoramento moral, porque confiaria em recuperar-se no futuro. Diria alguém: "Esta vida atual, desta vez, quero aproveitá-la gozando à vontade. Em outra encarnação, recuperar-me-ei" . Portanto, a reencarnação impele mais à imoralidade do que à virtude.
A reencarnação dá-nos uma certeza de que nós somos espíritos imortais, pois ela conta hoje com o respaldo de vários segmentos da ciência. As outras doutrinas deixam-nos pouco crédulos, pois, muitas vezes, são fantasiosas e contraditórias. Como compatibilizar, por exemplo, a idéia de um inferno, que nunca termina, com o amor e a misericórdia infinitos de Deus? Como atribuir a Deus a criação e a sustentação do maior mal do Universo? Como uma falha temporal pode ter uma pena que não termina nunca? Na terra há pena perpétua para o corpo que é mortal, por isso, um dia, ela termina. Mas uma pena, que não termina enquanto o espírito exista, não termina nunca, pois o espírito é imortal. Logo, ela é um absurdo para Deus, pois é injusta. E não vale dizer que ela é justa porque ela causou um mal a um ser infinito, Deus, pois o pecado é contra as leis de Deus, mas não é Deus que sofre com o pecado, e sim, o nosso semelhante e, por conseqüência, quem cometeu o pecado. Se alguém der um prejuízo a uma pessoa de R$ 1.000,00, não é Deus que sofre com isso, mas a vítima e o autor do prejuízo. É verdade que alguém pode relaxar-se, dizendo que vai deixar para outra vida sua mudança de vida. Mas, pelo menos, ele tem a certeza de que é responsável pelo mau uso de seu livre-arbítrio, que é respeitado por Deus. E lembremo-nos aqui da Parábola do Filho Pródigo, a qual retrata bem a grandeza de nosso Pai, que, de fato, deixa totalmente livre seu filho, que volta para o Pai, somente quando ele "entra em si", como diz o Evangelho, ou seja, quando o filho quiser, como quiser e onde quiser! A mensagem que Jesus trouxe de Deus para nós é séria. Deus não é demagogo, isto é, aquele que ensina uma coisa e faz outra! E, se nós, imperfeitos como somos, devemos perdoar sempre, por que Deus, que é perfeito, condenaria alguém para sempre? Por isso e outras coisas, a reencarnação incentiva-nos, de fato, a vivência do Evangelho de Jesus, que é a prática do bem e da moral, pois ela não é uma doutrina fantasiosa e contraditória, como outras que nos deixam em dúvidas e até incrédulos. Ela nos mostra que se salva quem merece, mas que quem não se salva, tem, ainda, novas chances do nosso Pai amoroso, que nos ama com amor é infinito!
11. Ademais, por que esforçar-se, combatendo vícios e defeitos, se a recuperação é praticamente fatal, ao final de um processo de reencarnações infindas?
Estamos exatamente na metade dos vinte itens que estamos respondendo, pois vamos agora para a décima primeira questão. Realmente, a nossa regeneração é fatal, queiramos ou não, ela vai acontecer, pois o plano de Deus não pode falhar jamais, já que Ele é onisciente e onipotente (Mateus19,28, e Tito 2,5). Isso, porém, não justifica o argumento de que nós não precisamos nos esforçar para que a nossa salvação aconteça, pois, à medida que vamos evoluindo moralmente com a vivência do Evangelho de Cristo, nós já vamos sendo mais felizes. "Na casa do Pai há várias moradas", ou seja, vários níveis de evolução. Quanto mais próximos estivermos de descobrir a verdade, mais felizes vamos sendo. E a reencarnação é justamente para que, um dia, cheguemos de fato à verdade que nos libertará. "Conhecereis (no futuro) a verdade, e ela vos libertará."
12. Se assim fosse, então ninguém seria condenado a um inferno eterno, porque todos se salvariam ao cabo de um número infindável de reencarnações. Não haveria inferno. Se isso fosse assim, como se explicaria que Cristo Nosso Senhor afirmou que, no juízo final, Ele dirá aos maus: "Ide malditos para o fogo eterno"? (Mt. )
Ninguém é condenado a um castigo que não termina nunca. Já vimos que tal idéia é incompatível com os atributos divinos de amor e misericórdia infinitos. O inferno e o céu estão dentro de nós mesmos, pois estão ligados aos espíritos que somos. Não há, pois, um local geográfico para céu e inferno. Ademais, o fogo do inferno é figurado, metafísico ou esotérico e não exotérico ou igual ao fogo que conhecemos na nossa dimensão física. "Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo" (1Coríntios 3,15) Ademais, eterno vem do grego "amônios", que significa um tempo longo, mas não sem fim, como o entenderam ou fingiram que o entenderam os teólogos do passado! Deus é perfeição e amor. Por isso não condena ninguém e, muito menos, ao inferno dos teólogos do passado, e que ainda é defendido por líderes religiosos que, com o inferno, querem amedrontar e manipular as pessoas, principalmente para explorá-las, sugando seu dinheiro! E é por isso que combatem a grande verdade da reencarnação, pois o inferno dá-lhes mais lucro!
13. Se a reencarnação fosse verdadeira, o homem seria salvador de si mesmo, porque ele mesmo pagaria suficientemente suas faltas por meio de reencarnações sucessivas. Se fosse assim, Cristo não seria o Redentor do homem. O sacrifício do Calvário seria nulo e sem sentido. Cada um salvar-se-ia por si mesmo. O homem seria o redentor de si mesmo. Essa é uma tese fundamental da Gnose.
Jesus é Redentor nosso, no sentido de que Ele trouxe de Deus para nós as instruções necessárias para que nos salvemos. E, se o Mestre nos ensinou que ninguém deixará de pagar tudo até o último centavo, como poderia ser o sangue Dele derramado um fator salvífico nosso ou de remissão de nossos pecados? Colhemos o que tivermos plantado, ensinam isso as escrituras sagradas de todas as religiões. E, para pagarmos tudo até o último centavo, ou seja, para que nos libertemos do pecado, urge que nós nos reencarnemos muitas vezes, pois numa vida só, isso é impossível. E muito menos nós podemos chegar à nossa perfeição em apenas uma vida, perfeição essa que tem como meta (seta) a perfeição do Pai! Por isso a reencarnação é uma verdade inquestionável, teologicamente falando, embora ela prejudique os interesses dos teólogos! Daí eles combaterem-na. E combatem-na também seus seguidores incautos e inocentes úteis!
14. Em conseqüência, a Missa e todos os Sacramentos não teriam valor nenhum e seriam inúteis ou dispensáveis. O que é outro absurdo herético.
Ser herético é ser contra a Igreja, mas nem sempre significa ser contra Cristo. A Igreja cometeu erros no passado, principalmente erros de ordem teológica. Aliás, o Papa João Paulo 2º até pediu desculpas à humanidade por isso. E quem, conscientemente compactuou e compactua com os erros de qualquer igreja, está errado! O fundamental não é os rituais, mas o Mandamento: "Que vos ameis uns aos outros como eu vos eu amei." "Misericórdia quero e não sacrifícios!" (Mateus 9,13, e 12,7). Se não praticarmos suficientemente o Evangelho, vamos reencarnar, quantas vezes forem necessárias, para aprendermos a fazê-lo, pois Deus nos ama com amor infinito!
15. A doutrina da reencarnação conduz necessariamente à idéia gnóstica de que o homem é o redentor de si mesmo. Mas, se assim fosse, cairíamos num dilema:
a. Ou as ofensas feitas a Deus pelo homem não teriam gravidade infinita;
b. Ou o mérito do homem seria de si, infinito. Que a ofensa do homem a Deus tenha gravidade infinita decorre da própria infinitude de Deus. Logo, dever-se-ia concluir que, se homem é redentor de si mesmo, pagando com seus próprios méritos as ofensas feitas por ele a Deus infinito, é porque seus méritos pessoais são infinitos. Ora, só Deus pode ter méritos infinitos. Logo, o homem seria divino. O que é uma conclusão gnóstica ou panteísta. De qualquer modo, absurda. Logo, a reencarnação é uma falsidade.
Já vimos que não valem os argumentos teológicos que dizem que Deus sofre com os nossos pecados. Assim, os gnósticos estavam e estão certos, pois, de fato, jamais é Deus que sofre com os nossos pecados, mas sofre o nosso semelhante, contra quem fizemos um mal, e nós mesmos, os autores dos pecados, já que, pecando, criamos carma negativo para nós, de acordo com a Lei de Causa e Efeito, cujos exemplos bíblicos e de todas as outras escrituras sagradas nunca é demais repetirmos: "Colhemos o que tivermos plantado!" Por isso a reencarnação é uma verdade. É, realmente, através das vidas sucessivas, que nós vamos resgatando as nossas falhas, até o último centavo, como nos ensinou o nosso Mestre Jesus.
16. Se o homem fosse divino por sua natureza, como se explicaria ser ele capaz de pecado? A doutrina da reencarnação leva, então, à conclusão de que o mal moral provém da própria natureza divina. O que significa a aceitação do dualismo maniqueu e gnóstico. A reencarnação leva necessariamente à aceitação do dualismo metafísico, que é tese gnóstica que repugna à razão e é contra a Fé.
O homem, principalmente em sua essência espiritual, é divino, sim. O grande teólogo Tertuliano, do Cristianismo Primitivo, já dizia: "A alma humana é divina por sua própria natureza." Só que ela ou o espírito tem essa natureza em forma de semente. E, assim como a semente precisa de cuidados especiais nossos, também o espírito precisa de nossos cuidados. A semente tem que ser colocada na terra, para que germine, cresça, floresça e produza bons frutos. E nós mesmos temos que trabalhar também os nossos espíritos que somos. Ninguém pode fazer isso por nós, nem Jesus nem Deus, pois Eles respeitam o nosso livre-arbítrio. E, justamente para realizarmos esse nosso trabalho, Deus nos deu duas ferramentas muito importantes: inteligência e livre-arbítrio. Daí nós termos que reencarnar, muitas vezes, para que, por nós mesmos, nos tornemos divinos ou semelhantes a Deus de fato, pois uma vida só para realizarmos tal evolução, diante da imortalidade do espírito, é até uma piada! Parabéns, pois, aos gnósticos do Cristianismo Primitivo por, já naquela época, terem descoberto essa verdade de que nós somos divinos. Deus é sabedoria infinita, portanto, jamais poderia ter deixado de criar a reencarnação, sem a qual jamais poderíamos evoluir, tornando-nos, um dia, divinos ou semelhantes a Ele, de fato, mas por nós mesmos, pois não nos criou como autômatos!
17. É essa tendência dualista e gnóstica que leva os espíritas, defensores da reencarnação, a considerarem que o mal é algo substancial e metafísico, e não apenas moral. O que, de novo, é tese da Gnose.
Os gnósticos fizeram um movimento muito interessante a favor do Cristianismo, mas foram sufocados pela ala oficial da Igreja, que contava com o apoio do poder civil. Suas obras foram todas queimadas, e muitas coisas falsas foram ditas sobre eles. Sobre o seu dualismo, temos a dizer que enquanto o espírito está encarnado, ele e seu corpo formam uma unidade. Um se confunde com o outro, é verdade, estando um impregnado do outro, como se fossem ambos unha e carne. Mas, tão logo o corpo morre, e o espírito se afasta dele, espírito e corpo não podem mais se confundir um com o outro. Depois de desencarnado o espírito, ele e o corpo tornam-se duas realidades completamente diferentes uma da outra. "O pó volte para a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu" (Eclesiastes 12,7). E, para nos convencermos dessa grande verdade que acontece depois da morte do corpo, basta-nos lembrarmo-nos do que ocorre com ele, e de que o espírito vai para a dimensão espiritual ou o mundo espiritual. Por isso, os gnósticos tinham razão. E é por isso, também, que o Cristianismo nunca deixou de ter gnósticos, cujo número é enorme, hoje, entre os cristãos. Aliás, o dualismo é um princípio filosófico tão sólido, tão real e tão presente na Cultura Ocidental e Cristã, herdado que foi dos gregos pelo Cristianismo, que jamais ele nos deixará. E a dualidade apresentada, então, por um espírito e o seu corpo morto, é tão real quanto a dualidade apresentada pelo espírito e a matéria!
18. Se, reencarnando-se infinitamente, o homem tende à perfeição, não se compreende como, ao final desse processo, ele não se torne perfeito de modo absoluto, isto é, ele se torne Deus, já que ele tem em sua própria natureza essa capacidade de aperfeiçoamento infindo.
Quem disse que nós temos que ser perfeitos como é perfeito o nosso Pai celestial foi Jesus. Mas é claro que Jesus não quis dizer que seríamos iguais a Deus. Trata-se de uma força de expressão. Na verdade, como já foi dito antes, a perfeição de Deus é a nossa meta, ou mais precisamente, uma seta, na direção da qual temos que estar sempre caminhando. Mas nunca seremos iguais a Deus. O próprio Jesus disse: "O Pai é maior do que eu" (João 14,28)! Portanto, nenhum reencarnacionista pensa que ele, um dia, vai se tornar igual a Deus, nem por poder dele nem pelo poder do próprio Deus, pois Deus é infinito e não pode nos transformar de seres finitos que somos em outros seres infinitos como Ele, já que só pode haver um ser infinito, que é Ele e somente Ele!
19. A doutrina da reencarnação, admitindo várias mortes sucessivas para o homem, contraria diretamente o que Deus ensinou na Sagrada Escritura. Por exemplo, São Paulo escreveu:
"O homem só morre uma vez" ( Heb. IX, 27).
Também no Livro de Jó está escrito:
"Assim o homem, quando dormir, não ressuscitará, até que o céu seja consumido, não despertará, nem se levantará de seu sono" (Jó, XIV,12).
O homem vive e morre uma vez só. São Paulo (Hebreus 9,27) estava mais do que certo. Também no Velho Testamento, os judeus pensavam assim (Jó 14,12). O homem, no conceito semita, era o homem fenomênico (material). Daí que homem em Português vem da palavra latina "humus" (barro ou água com terra), que evoluiu depois para "homo". Quando Paulo falou que o homem morre uma vez só, ele quis dizer, com isso, que Jesus morreu também uma vez só. Ele, pois, nem pensou em reencarnação e muito menos em condená-la. E o apóstolo Paulo estava mais do que certo. O homem, de fato, morre uma vez e bem morrido. "Aquele que desce à sepultura, jamais se levantará" (Jó 7,9). Mas o espírito do homem não morre jamais, pois é imortal! E é ele que reencarna dando vida ao homem mortal. A citada frase de Jó mostra-nos, também, que não é o corpo que ressuscita, mas o espírito (1 Coríntios 15,44). Alguns teólogos cristãos querem dizer que nós não podemos separar o espírito do homem do corpo do homem. Mas, como vimos, isso só é uma verdade enquanto o espírito está encarnado no corpo. Aliás, diz o apóstolo Paulo que sangue e carne não podem herdar o reino dos céus (1 Coríntios 15,50). E, assim, realmente, depois da morte do corpo, a separação de espírito e corpo é uma verdade inconcussa. Quem dúvida disso, lembre-se de que o cadáver vai para sepultura, e de que o espírito vai para o mundo espiritual! "E o pó volte à terra, como o era, e o espírito retorne a Deus, que o deu" (Eclesiastes 12,7). Destarte, o espírito, imortal que é, está sempre voltando à Terra, até que se liberte do pecado, da morte e das reencarnações. E reencarnando o espírito imortal humano, seu novo corpo, o "húmus", o homem, tem que morrer mesmo, o qual, justamente por morrer bem morrido, como vimos, morre uma vez só ou de uma vez só por todas! Também o homem Jesus morreu uma vez só. Mas seu Espírito não morreu. "Pai em vossas mãos entrego o meu Espírito" (Lucas 23,46).
20. Finalmente, a doutrina da reencarnação vai frontalmente contra o ensinamento de Cristo no Evangelho. Com efeito, ao ensinar a parábola do rico e do pobre Lázaro, Cristo Nosso Senhor disse que, quando ambos morreram, foram imediatamente julgados por Deus, sendo o mau rico mandado para o castigo eterno, e Lázaro mandado para o seio de Abraão, isto é, para o céu. ( Cfr. Lucas XVI, 19-31) E, nessa mesma parábola Cristo nega que possa alguma alma voltar para ensinar algo aos vivos.
Comumente recorrem os adversários da reencarnação à Parábola do Mau Rico e do Pobre Lázaro (Lucas 16, 19 a 31), para atacarem-na. Mas trata-se de uma parábola, que, por isso mesmo, não pode ser interpretada ao pé da letra, que é o que eles, geralmente, fazem. Ela nos demonstra claramente a Lei de Causa e Efeito. O Epulão ou o rico avarento vivia no conforto e nos prazeres. Terminada a sua vida de fartura, mas mal vivida por ele, ele cai numa situação totalmente diferente ou de dor, enquanto que o pobre e sofredor Lázaro, após sua morte, vai para uma vida muito melhor do que a do rico avarento, que até precisa do pobre Lázaro, agora em situação melhor do que a dele, pois a justiça tem que ser feita na troca de vidas. Inverte-se a situação. É o que exatamente acontece. Essa é a lição que temos que tirar dessa parábola do Rico Avarento e do Pobre Lázaro. Atentemos para o fato de que Jesus não fala de castigo eterno. Fala do Hades, que, naquela época, eram as regiões infernais da Mitologia Grega ou o Tártaro romano e que, para o Cristianismo, passou a ser Inferno. Não se trata de um lugar geográfico. A própria Igreja faz questão de deixar isso, hoje, bem claro. É um estado de consciência do espírito, o qual pode estar em qualquer lugar em que estiver o espírito, encarnado ou desencarnado. Ao desencarnar, o espírito toma consciência de seu verdadeiro estado de moral, entrando, pois, em alegria ou tristeza, isto é, de conformidade com a vida que tiver tido na última encarnação. Abraão não permite que Lázaro se comunique com os parentes do Rico Avarento, para adverti-los do seu futuro de sofrimento, pois que também eles viviam uma vida semelhante à do Epulão. Se Abraão permitisse tal coisa, estaria fazendo acepção de pessoas, o que é contra o desejo de Deus. Ademais, como Abraão disse, eles já têm Moisés e os profetas que lhes ensinam como devem viver. E lembremo-nos de que os profetas podem ser médiuns que, justamente, incorporam espíritos que já falam da vida após a morte. Por fim, reiteremos que se trata de uma parábola de Jesus, e que, por isso mesmo, nunca dever ser tomada literalmente, mas pelo seu sentido figurado que, principalmente, retrata a Lei de Causa e Efeito ou do carma. "Colheremos o que tivermos plantado". "Quem com ferro fere, com ferro será ferido".
Conclusão
Concluindo, gostaríamos de dizer que não existem argumentos filosóficos, bíblicos, teológicos e científicos convincentes contra o fenômeno da reencarnação. E a ressurreição é do espírito (1 Coríntios 15,44 e Eclesiastes 12,7). Esse é também o ponto de vista de um dos maiores teólogos da atualidade, o espanhol Andrés Torres Queiruga, em seu livro: "Repensar a Ressurreição" publicado no Brasil pela Ed. Paulinas. E o espírito, ora, pois, ressuscita (ressurge) no mundo espiritual, ora ressuscita (ressurge) ou reencarna no corpo de uma criança concebida no ventre materno. E convém que nós nos lembremos aqui de que 2/3 da humanidade crêem hoje na reencarnação, segundo a pesquisa feita pela Universidade de Oxford, em 212 países, a pedido da Igreja Anglicana (Protestante) da Inglaterra, e com base no ano de 2.000. Dos 6.260.000.000 de pessoas, ou seja, a população da Terra naquele ano, mais de 4.000.000.000 criam na reencarnação. E agora, o fenômeno da reencarnação conta também com o respaldo de cientistas de vários segmentos da Ciência. Entre esses cientistas, temos os da TVP - Terapias de Vivências Passadas -, Psicólogos, Psiquiatras, Neurologistas, físicos, geneticistas e outros. Acontecerá com a reencarnação o que aconteceu com o Heliocentrismo (o giro da Terra em torno do Sol). A Igreja e os protestantes combateram-no ao extremo, mas, por fim, tiveram que abandonar o seu velho erro do Geocentrismo (o giro do Sol em redor da Terra), e abraçarem a verdade do Heliocentrismo. E, assim, depois de combaterem com unhas e dentes a reencarnação durante 15 séculos, ou seja, a partir do Concílio Ecumênico de Constantinopla (553), quando até, então, a Igreja Católica aceitava-a, ela, a Igreja Católica, e as demais igrejas cristãs não estão tendo mais fôlego para continuarem condenando a doutrina das vidas sucessivas, que é a doutrina mais antiga, mais universal e mais sintonizada com a Bíblia e a ciência. Muitos padres e pastores já a aceitam reservadamente, pois, se eles falarem nela, abertamente, vão ter complicações para a sua profissão, que, sem a reencarnação, dá mais dinheiro!
José Reis Chaves.
Belo Horizonte, MG, 19-1-2005.
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