
ALLAN KARDEC (1804-1869)
DIVALDO PEREIRA FRANCO EM ARRAZOADO
VÍTIMA DE UMA PERSEGUIÇÃO DESMESURADA?
DRº ISO JORGE TEIXEIRA: - NÃO KARDEC: - SIM
PARTE I

DIVALDO PEREIRA FRANCO
PROLEGÔMENOS
Todas as pessoas têm o direito de exteriorizar idéias e pensamentos, sem, porém, escapar à verdade e à ética. Dessa maneira, como se assegura o direito de expressão a todos os cidadãos, em face da Carta Política de 1988, no inciso IV do art. 5º, in verbis:
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
Em seqüência, a mesma Lex legum, no inciso V, vem assinalar outro direito subjetivo público de suma importância à liberdade expressional:
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
Destarte, resta aqui autorizada a referência nominal ao Drº Iso Jorge Teixeira, cuja pessoa acertadamente não se oculta no anonimato, assumindo, conseguintemente, a responsabilidade pública por tudo quanto ele há escrito e asseverado. Por óbvio, não se está aqui examinando o mérito em si das assertivas do aludido médico, professor de Psicopatologia e de Psiquiatria, portador de notável instrução e de expressiva cultura, consoante se há podido encontrar em variados artigos publicados na rede, mas não se devem afastar de uma análise axiológica apurada e desvelada certas ocorrências imputadas àquele que nem mesmo se há podido ouvir em defesa. Outrossim, o contraditório representa princípio basilar da justiça, por ser ele parte da própria natureza ôntica do justo.
Em alguns artigos aparentemente inócuos e insontes, o digníssimo profissional de saúde reporta-se à pessoa do médium Divaldo Pereira Franco, ora baseado em correspondência eletrônica de leitores, os quais aquele deve ter em boa quantidade, ora estribado em fatos de que tivera ele próprio notícia. Ademais, pode negar-se-nos a legitimidade ativa para arrazoar em nome do aludido médium, mas, feliz ou infelizmente, ele próprio não se disporia a encetar a empresa, motivado por convicções de consciência. Assinale-se não ser imprescindível a defesa de Divaldo Pereira Franco, pois o trabalho por ele realizado na Mansão do Caminho e em todo o mundo, na divulgação da Doutrina Espírita, carreia o facundo testemunho da nobreza de caráter e de conduta daquele médium.
Quando, porém, exsurge a assacadilha maliciosa e intempestiva, prenhe de motivações pessoais, porquanto o ilustrado médico sói translucidá-las, não se pode mais estagnar no silêncio e no comodismo, sob color de não envolvimento em nenhum litígio e sob pena de conivência tácita no acolhimento de meias verdades selecionadas em situações pitorescas e circunstanciais. Ademais, o Drº Iso Jorge Teixeira, a quem muito respeitamos como pessoa e como ser humano, embora pessoalmente não o conheçamos, saiu-se e sai-se com muitas referências a condutas do médium baiano, não raro em verrinário tom de achincalhação. Em razoável quantidade de artigos, o Drº Iso Jorge Teixeira aproveita a vez do comentário e nela deita referências a comportamentos, a palavras, a posições doutrinárias do médium Divaldo Pereira Franco, induzindo o leitor a enxergar antagonismo entre o médium e o excelente codificador Allan Kardec (1804-1869).
Logo, pretende-se aqui demonstrar o fato de que, se o colendo médico está em companhia da verdade, tal se encontra dentro dele próprio, em oceânico subjetivismo. Há 3 artigos, pelo menos, em que o Drº Iso Jorge Teixeira se digna (ou indigna) de aludir àquele médium:
I – DAI DE GRAÇA O QUE DE GRAÇA RECEBESTES – DANIEL DUNGLAS HOME: UM OCIOSO EXPLORADOR? – DIVALDO: - SIM KARDEC: -NÃO;
II – O MAIOR “CARISMA” DE CHICO XAVIER – NOVA ANÁLISE DA MEDIUNIDADE DE CHICO E DIVALDO SEM “FORMA VELADA” E SEM VELA;
III – REPERCUSSÃO SOBRE O CASO DIVALDO FRANCO X DABIEL DUNGLAS HOME – REFUTAÇÃO ESPÍRITA À APOLOGÉTICA DE CATÓLICOS E “ESPIRITÓLICOS” – MENTIRA E INFORMAÇÃO NO “ESPLENDOR DA VERDADE”.

D. D. HOME (1833-1886)
DIVALDO PEREIRA FRANCO E DANIEL DUNGLAS HOME
O facultativo em comento atém-se a comentário de Divaldo Pereira Franco sobre a vida, personalidade e caráter do grande médium escocês Daniel Dunglas Home, nascido em 1833, em uma aldeia chamada Currie, nas proximidades de Edimburgo, consoante assinala Doyle (sem data, p.169). Tal juízo de valor pode ser encontrado na “faixa 12 da Parte I do CD” intitulado Qualidade na Prática Mediúnica, segundo uma leitora do nobre médico, a qual lhe remetera cópia da mídia em exame. Nesse ínterim, Divaldo haveria dito ter Home sido “um ocioso explorador”, o qual “não aceitava dinheiro, só aceitava jóias, casacos de pele, hospedagem em hotéis de luxo e convívio com a nobreza”.
Diferentemente do comentário do ilustre facultativo, não houve de fato uma acusação, pois as referências a tal comportamento do médium de Edimburgo podem ser encontradas no livro Heyday of a Wizard, publicada, em 1948, por George G. Harrap, da autoria de Jean Burton (apud MIRANDA, 2002, p. 235), para quem D. D. Home “gostava de ser recebido como igual e que jamais alguém se lembrasse de oferecer-lhe dinheiro pelas suas sessões”, mas “aceitava jóias, de que muito gostou até o fim da vida, roupas, casacos de pele, temporadas em estações de águas e coisas desse teor; dinheiro não”.
Não obstante a recusa por Home de qualquer donativo em espécie, o recebimento voluntário de presentes, de cortesias e de quejandos, em toda a sua vida, devido ao contato com os nobres e com os monarcas, está muito bem sinalizado em Doyle (sem data, p. 172):
(...) Houve certos presentes da Realeza que não podiam ser recusados sem grosseria: anéis, alfinetes de gravatas e outros, que mais eram sinais de amizade do que recompensa, porque, antes de sua morte prematura, poucos eram os monarcas da Europa com os quais esse moço desconfiado de um subúrbio de Liverpool não estivesse em afetuosa intimidade. Napoleão III cuidou de sua única irmã; o Imperador da Rússia foi testemunha de seu casamento. Qual novelista que seria capaz de inventar uma tal carreira? (grifo nosso)
No excerto, o pai de Sherlock Holmes, também escocês, referira-se à recepção de presentes mais por amizade do que por recompensa, embora o mérito em si dos presentes não invalidasse a ocorrência de o médium havê-los de fato recebido. Outrossim, não se pode invalidar o argumento de que a fenomenologia paranormal e mediúnica, da qual ele fora portador, fê-lo aproximar-se das cortes européias, a pique de ele haver sido agraciado pelas benesses da nobreza. No atinente à personalidade de Home, conquanto nele se encontrassem virtudes apreciáveis, a exemplo da caridade, o próprio Doyle (sem data, p. 183) anotara o seguinte comentário:
Podem alguns acusá-lo de dirigir suas mensagens antes aos dirigentes da sociedade do que às massas trabalhadoras. É provável que, de fato, Home tivesse a fraqueza, assim como as graças de sua natureza artística, que o faziam sentir-se mais feliz numa atmosfera de elegância e de finura e uma repulsa visceral por tudo quanto fosse sórdido e desfavorecido. Se outras razões não existissem, o precário estado de saúde o tornava inapto para qualquer tarefa pesada; as contínuas hemorragias o levaram a preferir a agradável e refinada vida na Itália, na Suíça e na Riviera. Mas, em relação ao desenvolvimento de sua missão, de lado o auto-sacrifício pessoal, não há a menor dúvida de que a sua mensagem, levada ao laboratório de um Crookes ou à Corte (sic) de um Napoleão, foi mais útil do que se tivesse sido levada à multidão (...) (grifo nosso).
Ora, o caráter de mandrião, com ou sem culpa, não se encontra bem delineado pelos autores? Se Divaldo se referiu à condição de “ocioso e explorador” de D. D. Home, pode aí ter existido uma expressão muito contundente e hiperbólica, mas não se pode atribuir ao médium baiano a condição de acusador, pois, de resto, os fatos relatados tanto por Doyle (sem data, p. 169-186) como por Burton (apud MIRANDA, 2002, p. 235) apontam o ócio e uma determinada exploração de relações nobiliárquicas por parte do médium escocês, fosse por necessidade, fosse por amizade. Doyle (sem data, p. 173) registrara o seguinte acontecimento:
Por ocasião de sua primeira viagem à Inglaterra, hospedou-se no Cox’s Hotel, em Jermyn Street, e é provável que tenha escolhido essa hospedaria por ter sabido, através de Mrs. Hayden, que o seu proprietário era simpático à causa (grifo nosso).
Outrossim, o médium D. D. Home vivera ou não a expensas dos obséquios a ele promovidos por quem lhe simpatizava com a causa e comungava das exibições fenomenológicas?
Mais à frente, no mesmo primeiro artigo, Drº Iso Jorge Teixeira se arvora em comentarista espirituoso, referindo-se à suposta acusação de Divaldo Pereira Franco a D. D. Home. A idéia seria magna se não fosse diminuta, pois o digno médico menciona o nome de Joanna de Ângelis, pretendendo inseri-la como presumida autora do comentário de Divaldo, a qual, ainda conforme aduz o facultativo, não poderia verdadeiramente ser a comentarista por não haver no CD nenhuma revelação mediúnica. A referência do articulista à situação exibe uma puerícia realmente inabalável, de tal maneira que só pode tratar-se de ironia ou de eutrapelia. Divaldo jamais se negou a qualidade necessária de estudioso da Doutrina nem dependeu da ingerência dos Espíritos para ministrar conferências e seminários.
De mais a mais, essa idéia de que Divaldo se diplomou professor primário jamais significou, nem para ele nem para quem não valoriza como absoluta a formação acadêmica, tampouco os títulos, a existência de instrução primária ou cultura primária. Aliás, instrução, educação e cultura não se adquirem somente em Faculdade de Medicina, haja vista o exemplo de Francisco Cândido Xavier, cuja vivência mediúnica inelutavelmente lhe trouxera uma superlativa instrução e uma oralidade não encontradiça no comum das pessoas. Não obstante, nem em um caso nem em outro, nadificam-se as possibilidades mediúnicas.
Muito freqüentemente, o ínclito médico parece não se ater à cultura doutrinária de que ele se jacta, visto não admitir comunicações mediúnicas senão na hipótese de existirem revelações. Se não houver nenhuma revelação, por ele reputada autêntica, não poderá haver comunicação mediúnica, dado que os Espíritos, na opinião dele, somente se manifestam para revelar coisas aos homens, particularmente aos de ciência, a exemplo do próprio médico. Destarte, na versão do Drº Iso Jorge Teixeira, os Espíritos estão inexoravelmente impedidos de comentar o conhecimento humano, de aprofundá-lo quando lhes convier, de utilizá-lo para examinar os problemas espirituais da humanidade, de usá-lo como referencial de compreensão pela inteligência encarnada, de aplicá-lo ao lenimento das dores terrestres.
De mais a mais, a inobservância de outras funções da mediunidade, senão a de revelar conhecimento ao ser humano, redunda propositada e bem medida, visando à contradita à pessoa e às palavras do médium Divaldo Pereira Franco, fato inequivocamente demonstrativo de que existem outros motivos além da análise pura e simples da conduta do aludido tribuno. Logo, onde e quando o notável tribuno se autocognominou médium revelador ou considerou reveladores os livros por ele psicografados, mormente os atribuídos à entidade Joanna de Ângelis? No magistério de Kardec (2005, p. 62), contido no capítulo primeiro, Caráter da Revelação Espírita, de A Gênese, tem-se:
Sendo os Espíritos unicamente as almas dos homens, comunicando-nos com eles não saímos fora (sic) da humanidade, circunstância capital a considerar-se. Os homens de gênio, que foram fachos da humanidade, vieram do mondo dos Espíritos e para lá voltaram, ao deixarem a Terra. Dado que os Espíritos podem comunicar-se com os homens, esses mesmos gênios podem dar-lhes instruções sob a forma espiritual, como o fizeram sob a forma corpórea. Podem instruir-nos, depois de terem morrido, tal qual faziam quando vivos; apenas, são invisíveis, em vez de serem visíveis; essa a única diferença. Não devem ser menores do que eram a experiência e o saber que possuem e, se a palavra deles, como homens, tinha autoridade, não na pode ter menos por estarem no mundo dos Espíritos (grifo nosso em negrito e de Kardec em itálico).
Antes de mais nada, afigura-se impositivo examinar o conceito de revelação utilizado por Kardec, pois o substantivo em foco não contém, na Doutrina Espírita, a mesma significância adotada pela teologia. Nesse ínterim, deve considerar-se a gnosiologia tomista do período escolástico, como bem assinalaram Castagnola & Padovani (1994, p. 234):
Diversamente do agostinianismo, (sic) e em harmonia com o pensamento aristotélico, Tomás [de Aquino] considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética, para resolver o problema do mundo. Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia - não oposta – visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado, o da filosofia evidente e racional (grifo nosso em negrito e dos autores em itálico).
Logo, aquilo que se revela, à luz da Escolástica, constitui-se exatamente aquilo inalcançável pela razão e irracionalizável, porquanto o objeto da revelação não se pode demonstrar mediante argumentos intrínsecos e de evidência, mas por argumentos extrínsecos e circunstanciais. No Espiritismo, a noção de objeto revelado não presume a irracionalização necessária à fé teológica nem a inabordagem do objeto pela razão em si mesma, em face da natureza eminentemente racional da Doutrina. De acordo com Kardec (2005, p. 21), em A Gênese:
Definamos primeiro o sentido da palavra revelação. Revelar, do latim revelare, cuja raiz, velum, véu, significa literalmente sair de sob o véu – e, figuradamente, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar mais genérica, essa palavra se emprega a respeito de qualquer coisa ignota que é divulgada, de qualquer idéia nova que nos põe ao corrente do que não sabíamos.
Deste ponto de vista, todas as ciências que aos (sic) fazem conhecer os mistérios da Natureza são revelações e pode dizer-se que há para a humanidade uma revelação incessante. A Astronomia revelou o mundo astral, que não conhecíamos; a Geologia revelou a formação da Terra; a Química, a lei das afinidades; a Fisiologia, as funções do organismo, (sic) etc.; Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier foram reveladores (grifo nosso).
Na mesma obra, Kardec (2005, p.28) assinalara a preexistência do conhecimento revelado, embora, antes do Espiritismo, não se houvesse estatuído a revelação em bases experimentais inconcussas. Conseguintemente, a revelação em si mesma, em vez de constituir necessariamente algo de novo e de inaudito, diz respeito ao aprofundamento sistemático de um conjunto de idéias, assim como à natureza delas e aos elementos conceituais de que se constituem. Segundo Kardec (2005, p. 28):
Importante revelação se opera na época atual e mostra a possibilidade de nos comunicarmos com os seres do mundo espiritual. Não é novo, sem dúvida, esse conhecimento; mas ficara até aos nossos dias, de certo modo, como letra morta, isto é, sem proveito para a Humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações o abafara sob a superstição; o homem era incapaz de tirar daí qualquer dedução salutar; estava reservado à nossa época desembaraçá-lo dos acessórios ridículos, compreender-lhe o alcance e fazer surgir a luz destinada a clarear o caminho do futuro (grifo nosso).
O Espiritismo, dando-nos a conhecer o mundo invisível que nos cerca e no meio do qual vivíamos sem o suspeitarmos, assim como as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por conseguinte, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação, na acepção científica da palavra.
Na mesma esteira, prossegue Kardec (2005, p.28-29) aludindo à dupla natureza da revelação espírita, como divina, porque “foi providencial o seu aparecimento e não o resultado da iniciativa, nem de um desígnio premeditado do homem”, havendo resultado do ensinamento dos Espíritos, e como científica, por “não ser esse ensino privilégio de indivíduo algum, mas ministrado a todos do mesmo modo” nem “serem os que o transmitem e os que o recebem seres passivos, dispensados do trabalho da observação e da pesquisa (...)”, não deixando os receptores de submeter a revelação ao raciocínio e ao livre-arbítrio.
Logo, o nobre médico ou não compreende a verdadeira natureza da revelação, acolhendo-a em uma acepção escolástica e teológica, fato impassível de ser concebido em uma personalidade aparentemente infensa à religiosidade e à parte religiosa do Espiritismo, ou tenciona inafastavelmente guindar o mediúnico ao revelatório, convertendo o fenômeno medianímico em fenômeno oracular. Das duas, somente uma.
Quando Kardec (2005, p.51-52) se referira ao fato de os Espíritos não ensinarem “senão justamente o que é mister para guiá-lo no caminho da verdade”, abstendo-se de “revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, verificar e submeter tudo ao cadinho da razão” e, “muitas vezes, que adquira experiência à sua custa”, não tencionara ele referir-se propriamente ao conhecimento alcançável pela razão e pela racionalidade, pois tudo quanto revelem os Espíritos deverá ser eminentemente racional, mas ao fato de os Espíritos não realizarem a parte que compete ao homem, no processo revelatório.
O próprio Kardec (2005, p. 52) arrematara o presente raciocínio: “[os Espíritos] Fornecem-lhe o princípio, os materiais; cabe-lhe a ele [ao homem] aproveitá-los e pô-los em obra”. Ora, tudo quanto os Espíritos revelem ao homem está naturalmente ao alcance da razão, está em nível da compreensão humana de hoje e de amanhã, está suscetível de racionalização, visto não se anteciparem eles ao tempo exato das idéias, ou seja, tudo quanto os Espíritos trazem à baila vem no exato instante em que logra o homem compreendê-los. O ato revelador, porém, não dispensa o homem da parte que lhe assiste: analisar, examinar, racionalizar, filtrar, organizar, categorizar etc. Mais à frente, no mesmo texto introdutório de A Gênese, Kardec (2005, p. 60) lograra pontificar:
Os Espíritos não se manifestam para libertar do estudo e das pesquisas o homem, nem para lhe transmitirem, inteiramente pronta, nenhuma ciência. Com relação ao que o homem pode achar por si mesmo, eles o deixam entregue às suas próprias forças. Isso sabem-no hoje perfeitamente os espíritas. De há muito, a experiência há demonstrado ser errôneo atribuir-se aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria e supor-se que baste a quem quer que seja dirigir-se ao primeiro Espírito que se apresente para conhecer todas as coisas. Saídos da humanidade, eles constituem uma de suas faces. Assim como na Terra, no plano invisível também os há superiores e vulgares; muitos, pois, que, científica e filosoficamente, sabem menos do que certos homens; eles dizem o que sabem, nem mais, nem menos. Do mesmo modo que os homens, os Espíritos mais adiantados podem instruir-nos sobre maior porção de coisas, dar-nos opiniões mais judiciosas, do que os atrasados. Pedir o homem conselhos aos Espíritos não entrar em entendimento com potências sobrenaturais; é tratar com seus iguais, com aqueles mesmos a quem ele se dirigiria neste mundo; a seus parentes, seus amigos, ou a indivíduos mais esclarecidos do que ele. Disto é que importa se convençam todos e é o que ignoram os que, não tendo estudado o Espiritismo, fazem idéia completamente falsa da natureza do mundo dos Espíritos e das relações com o além-túmulo (grifo nosso).
Logo, não raro, aqui e ali, cá e acolá, constrói-se uma idéia inverídica “da natureza do mundo dos Espíritos e das relações com o além-túmulo”. Ipso facto, os Espíritos realmente “não se manifestam para libertar do estudo e das pesquisas o homem”, mas para conferir-lhe os princípios e os materiais de que se irá utilizar na confecção dos estudos e das pesquisas, assentados em bases estritamente experimentais. Nada, outrossim, logra vedar aos Espíritos a análise do conhecimento humano, terreno, para amoldá-lo à compreensão das consciências encarnadas, porquanto sentidos falecem aos encarnados para entender a natureza intrínseca de determinados conceitos, embora rigorosamente lógicos e racionais. Desse modo, Kardec (2005, p. 65) pudera elucidar:
Primeiramente, como já o declaramos, eles se abstêm de nos dar o que podemos adquirir pelo trabalho [isto é, não fazem a parte da alçada terrena e dos homens]; em segundo lugar, há coisas cuja revelação não lhes é permitida, porque o grau de nosso adiantamento não as comporta. Afora isto, as condições da nova existência em que se acham lhes dilatam o círculo das percepções: eles vêem o que não viam na Terra; libertos dos entraves da matéria, isentos dos cuidados da vida corpórea, apreciam as coisas de um ponto de vista mais elevado e, portanto, mais são; a perspicácia de que gozam abrange mais vasto horizonte; compreendem seus erros, retificam suas idéias e se desembaraçam dos prejuízos humanos (grifo nosso).
Ora, enquanto nada existe por revelar ao homem, os Espíritos permaneceriam no além-túmulo sem manter nenhuma relação com o plano dos encarnados, mormente os instrutores? A resposta parece desenganadoramente negativa, pois a intercomunicação dos mundos espiritual e material integra o âmbito das leis naturais. Ademais, o respeitável médico e professor de Psicopatologia e de Psiquiatria, a nosso juízo, está incurso em dois equívocos relativamente ao Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE):
a) Quanto ao objeto apriorístico do controle;
b) Quanto à noção de simultaneidade na Codificação.
Consoante asseverara Kardec (2005, p.31), em O Evangelho Segundo o Espiritismo:
Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares (grifo de Kardec).
Vê-se bem que não se trata aqui das comunicações referentes a interesses secundários, mas do que respeita aos princípios mesmos da doutrina. Prova a experiência que, quando um princípio novo tem de ser enunciado, isso se dá espontaneamente em diversos pontos ao mesmo tempo e de modo idêntico, senão quanto à forma, quanto ao fundo (grifo nosso em negrito e de Kardec em itálico).
Por consectário, não se pode conceber outro objeto a priori de controle senão aquele respeitante aos “princípios mesmos da Doutrina Espírita”, quando houver algum de ser enunciado pelos Espíritos, não obstante deverem as comunicações em geral submeter-se ao crivo racional e à lógica, independentemente de serem ou não principiológicas. Relativamente à noção de simultaneidade, Kardec (2005, p. 57), em A Gênese, pusera o conceito na exata dimensão:
Há, todavia, capital diferença entre a marcha do Espiritismo e das ciências; a de que estas não atingiram o ponto que alcançaram, senão após intervalos, ao passo que alguns anos bastaram ao Espiritismo, quando não a galgar um ponto culminante, pelos menos a recolher uma soma de observações bem grande para formar uma doutrina. Decorre esse fato de ser inumerável a multidão de Espíritos que, por vontade de Deus, se manifestaram simultaneamente, trazendo cada um o contingente de seus conhecimentos. Resultou daí que todas as partes da doutrina, em vez de serem elaboradas sucessivamente durante longos anos, o foram quase ao mesmo tempo, em alguns anos apenas, e que bastou reuni-las para que estruturassem um todo.
Note-se, pelo contexto em que o Mestre de Lion redigira o comentário, um conceito razoavelmente largo de simultaneidade, pois, entre o marco introdutório da Doutrina Espírita (18 de abril de 1857) e a data de publicação de A Gênese (6 de janeiro de 1868), mediaram quase 11 anos. Logo, a revelação espírita não se edificara de um para outro instante nem adviera, ex abrupto, de manifestações em que os Espíritos baixaram de uma só vez e imediatamente se recolheram para nada mais ser revelado. À luz de tais comentários do Mestre lionês, não se encaixam muito bem no contexto doutrinário, a nosso juízo, as noções de controle e de simultaneidade acolhidas e defendidas pelo nobilíssimo Drº Iso Jorge Teixeira.
Por óbvio, cada um pode interpretar à sua maneira o pensamento doutrinário, mas não pode ir de encontro ao texto, nele inserindo uma exegese pessoal e descontextualizada. Aliás, a análise doutrinária, como bem adverte o competente médico, deve ser assaz conscienciosa e conter uma interpretação sistêmica, a fim de bem se delinearem os conceitos em que se ancoram as idéias e os pensamentos do Mestre lionês.
A INSPIRAÇÃO DE DIVALDO PEREIRA FRANCO
E A TRANSPIRAÇÃO DO DR. ISO JORGE TEIXEIRA
A análise do fenômeno inspirativo deve provir do próprio contexto doutrinário e não de ilações puramente açodadas e mudadas em elementos probatórios. Consoante assinalara Kardec (2005, p. 258), em O Livro dos Médiuns:
Todo aquele que, tanto no estado normal, como no de êxtase, recebe, pelo pensamento, comunicações estranhas às suas idéias preconcebidas, podendo ser incluído na categoria dos médiuns inspirados. Estes, como se vê, formam uma variedade de mediunidade intuitiva, com a diferença de que a intervenção de uma força oculta é aí muito menos sensível, por isso que, ao inspirado, ainda é mais difícil distinguir o pensamento próprio do que lhe é sugerido. A espontaneidade é o que, sobretudo, caracteriza o pensamento deste último gênero (grifo nosso).
Desse modo, a idéia inspirada vem à mente do médium estranha às preconcebidas. Necessita-se, todavia, assinalar não ser a idéia necessariamente idêntica à informação de que aquela se reveste. No fenômeno inspirativo, há sobretudo uma sugestão ideal, à semelhança do que acontece à pictografia: as tintas pré-existem ao quadro, cuja estética e associação de cores aparecem na expressão final, posto que não seja impossível a transmissão das próprias tintas, como estabelecera Kardec (2005, p. 269), em O Livro dos Médiuns:
Também se podem incluir nesta categoria as pessoas que, sem serem dotadas de inteligência fora do comum e sem saírem do estado normal, têm relâmpagos de uma lucidez intelectual que lhes dá momentaneamente desabitual facilidade de concepção e de elocução e, em certos casos, o pressentimento de coisas futuras. Nesses momentos, que com acerto se chamam de inspiração, as idéias abundam, sob um impulso involuntário e quase febril. Parece que uma inteligência superior nos vem ajudar e que o nosso espírito se desembaraçou de um fardo (grifo nosso).
Outrossim, não há fenômeno mediúnico sem fenômeno anímico, pois o animismo se encontra na base do mediunismo. Dessa maneira, o fenômeno mediúnico tem uma natureza dialética, interativa, co-axial, pois, mormente quando se trata de manifestação intelectual, existe uma predominância da mente do Espírito comunicante sobre a do médium. Nos transes mais profundos, esta prevalência se intensifica, fazendo-se crer em um absoluto controle dos centros neuropsíquicos e psicossomáticos do medianeiro. Ademais, no capítulo XIX de O Livro dos Médiuns (2005, p. 322-327), o Espírito Erasto trouxera a exata dimensão do fenômeno, havendo examinado “o papel dos médiuns nas comunicações”. Tal mensagem, extremamente importante e imprescindível à perfeita compreensão do fenômeno, viera às claras, originariamente, na Revista Espírita de julho de 1861 (2005, p. 322):
Assim, quando encontramos em um médium o cérebro povoado de conhecimentos adquiridos na sua vida atual e o seu Espírito rico de conhecimentos latentes, obtidos em vidas anteriores, susceptíveis de nos facilitarem as comunicações, dele de preferência nos servimos, porque com ele o fenômeno das comunicações se nos torna muito fácil do que com um médium de inteligência limitada e de escassos conhecimentos anteriormente adquiridos (...) (grifo nosso).
Ora, se na inspiração se encontra autêntico fenômeno mediúnico, ela não escapa à regra geral, a que alude o Espírito Erasto, de superioridade incontestável. Ademais, no primeiro parágrafo do mesmo texto, Erasto gizara com ênfase:
Seja qual for a natureza dos médiuns escreventes, quer mecânicos ou semimecânicos, quer simplesmente intuitivos, não variam essencialmente os nossos processos de comunicação com eles. De fato, nós nos comunicamos com os Espíritos encarnados, da mesma forma que com os Espíritos propriamente ditos, tão-só pela irradiação do nosso pensamento (grifo nosso).
Destarte, onde se poderia aqui negar ao médium Divaldo Pereira Franco, de estrito acordo à Doutrina Espírita, a existência de verdadeira inspiração? Antes de mais nada, a nosso juízo, a inspiração provém de uma sugestão ideal em que se propõe ao médium o uso de uma informação preexistente ou não. Uma coisa e outra não se excluem reciprocamente. Vale sempre interrogar: onde e quando o médium baiano se irrogou inspiração constante e menoscabou o estudo pessoal? De acordo com Erasto, Espírito de inegável superioridade, uma comunicação se afigura tanto mais facilitada quanto mais instruído e culto o médium, porque nele encontra o Espírito comunicante maior quantidade de tintas para realizar o quadro.
O Drº Iso Jorge Teixeira, homem de inegável cultura, seria certamente um bom médium, se realmente não o for. Contudo, a pretexto de profligar a inspiração do médium baiano, ele sugere pressurosamente haver Divaldo colhido a referência ao notável médium escocês, D. D. Home, do livro Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos, da emérita pena de Hermínio Correia Miranda. Em excelente artigo do referido livro, Miranda (2002, p. 233-249) examinou algumas passagens da vida do médium de Edimburgo, havendo-se reportado à obra de Jean Burton, intitulada Heyday of a Wizard, publicada por George G. Harrap em 1948.
Ora, não poderia Divaldo havê-lo compulsado entre outras leituras, havendo retido mnemicamente as informações? Em que passagem do CD, Divaldo referiu-se à ocorrência de a idéia haver-lhe sido inspirada por Joanna de Ângelis? Antes de mais nada, afigura-se imprescindível a quem quer que seja o cuidado no uso das palavras, mormente quando por elas resta insinuada coisa muito grave. Onde estaria o “plagiato”, a que se refere o culto médico? O Drº Iso Jorge Teixeira sempre se reporta à bibliografia nas suas preleções, na exteriorização de todas as suas idéias? In nihilo temporibus? Onde e quando o médium baiano se jactou de haver produzido aquele comentário?
De mais a mais, a boa vontade do médico indu-lo a comentar a referência do médium baiano à “indústria dos presentes”, advertindo sobre a por ele chamada “indústria da filantropia”. Em direito, qualquer um sabe assistir o ônus da prova a quem alega (onus probandi in eo qui dicet). Logo, a imputação da “indústria dos presentes” está circunstancialmente assinalada por Doyle (2005, p. 169-186) e por Burton (apud MIRANDA, 2005, p. 233-249). Não obstante, se na análise do médico se insinua a existência da “indústria da filantropia”, sugerindo-se a putativa utilização do dinheiro da venda de livros em outro campo senão o da benemerência, pode o médico demonstrar o vício e proceder à delação. O Drº Iso Jorge Teixeira, de maneira caritativa, preocupou-se em saber se Divaldo Pereira Franco, já aposentado como servidor público estadual do IPASE e funcionário da CAPEMI, estaria, através da arrecadação pecuniária, sustentando-se a si e aos demais, como o Nílson de Souza Pereira, também aposentado como empregado público da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
Ora, as contas podem ser prestadas aos Ministérios Públicos Estadual e Federal a qualquer momento, pois a Mansão do Caminho se constitui uma instituição assistencial e beneficente reconhecida pelo Governo Federal e pelo Governo do Estado da Bahia, gozando, ipso facto, de imunidade fiscal, segundo estatui o art. 150, inciso VI, alínea c, da Constituição da República Federativa do Brasil. Outrossim, a imunidade também se estende às contribuições previdenciárias, de acordo com o art. 195, inciso IV, §7º da Lei Magna, posto que ali se consigne referência à isenção. Não obstante, tal isenção, em suma, assume o caráter de verdadeira imunidade, considerando-se o fato de que a doutrina majoritária considera de natureza tributária as aludidas contribuições sociais.
Quem sabe não possa o ilustrado médico e professor demonstrar a malversação e fazer subtrair da Obra Assistencial do Centro Espírita Caminho da Redenção a condição de imune à tributação ordinária e previdenciária. O ônus da prova impende a quem alega os presuntivos fatos, mas, em face de outro brocardo jurídico (alegare et non demonstrare est non alegare), a alegação se torna írrita, absolutamente nula, jure et de juris, sem o respaldo probatório. Talvez possa o notável médico demonstrar e provar alguma fraude de escrituração na representação ao Ministério Público, pois o art. 14 do CTN (Código Tributário Nacional) assinala ser necessário à instituição de assistência social sem fins lucrativos, para a mantença da imunidade, obedecer a 3 requisitos basilares, in verbis:
I – não distribuírem qualquer parcela de seu patrimônio ou de suas rendas, a título de lucro ou participação no seu resultado;
II – aplicaram integralmente, no País, os seus recursos na manutenção dos seus objetos institucionais;
III – manterem escrituração de suas receitas e despesas em livros revestidos de formalidades capazes de assegurar sua exatidão. (grifo nosso).
Por conseguinte, se há, segundo o ilustre facultativo, uma “indústria de filantropia” mascarada pela Mansão do Caminho, qual Obra Assistencial do Centro Espírita Caminho da Redenção, impende inexoravelmente àquele prodecer à representação às autoridades administrativas da Receita Federal, do INSS, da Secretaria da Fazenda Estadual e da Secretaria da Fazenda Municipal, assim como ao Ministério Público, a fim de que se realize uma auditoria contábil-fiscal na aludida instituição para, quiçá, demonstrar, em última análise, um possível crime contra a ordem tributária, de acordo com a Lei 8.137/90, por contrafação de documentos contábeis. Dessa maneira, se “muitos médiuns e até muitas seitas religiosas não recebem presentes ostensivamente, mas aceitam dinheiro, valores e vendem livros supostamente para obras meritórias, como já aconteceu e acontece com vários médiuns brasileiros e Instituições (grifo nosso)”, necessária se impõe a tomada imediata de providências, pois aqui o malsim necessita demonstrar a acusação, em toda a sua extensão probatória. Do contrário, as palavras não passam de uma pobre vindita e de simples desforço contra o médium Divaldo Pereira Franco.
ALLAN KARDEC, DANIEL DUNGLAS HOME E DIVALDO PEREIRA FRANCO
O nobre médico e professor de Psicopatologia e de Psiquiatria reporta-se aos encômios de Kardec às faculdades paranormológicas e mediúnicas de D. D. Home, os quais constam de uma seqüência de artigos publicados nas edições de fevereiro, de março e de abril de 1858, todos da Revista Espírita. No primeiro deles, assinalara Kardec (2005, p. 99-101):
Os fenômenos realizados pelo Sr. Home produziram tanta sensação como vieram confirmar os maravilhosos relatos chegados de além-mar, a cuja veracidade se ligava uma certa desconfiança. Mostrou-nos ele que, deixando de lado a mais larga margem possível devido ao exagero, ainda ficava bastante para atestar a realidade dos fatos que se cumpriam fora de todas as leis conhecidas.
Tem-se falado do Sr. Home e de várias maneiras confessamos que seria exigir demais que todo o mundo lhe fosse simpático, uns por espírito de sistema, outros por ignorância. Queremos até admitir, nestes últimos, uma opinião conscienciosa, visto que por si mesmos não puderam constatar os fatos; mas se, em tal caso, é permitida a dúvida, uma hostilidade sistemática e apaixonada é sempre inconveniente. Em toda a relação de causa, julgar o que não se conhece é falta de lógica, é difamar sem provas, é esquecer as conveniências(...).
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(...) Desde que nada pede, ninguém tem o direito de indagar como vive, sem cometer uma indiscrição. É mantido por pessoas poderosas? Isso não nos diz respeito; tudo quanto podemos dizer é que, nesta sociedade de escol, ele conquistou amizades reais e fez amigos devotados, ao passo que, com um prestidigitador, a gente paga, diverte-se e ponto final. Não vemos, pois, no Sr. Home, mais que uma coisa: um homem dotado de uma faculdade notável. O estudo dessa faculdade é tudo quanto nos interessa e tudo quanto deve interessar a quem quer que não seja movido pela curiosidade (grifo nosso).
Logo, o contexto em que Kardec (2005, p. 99-101) examinara o fenômeno D. D. Home não pode ser outro senão o estrito âmbito da experiência paranormal e mediúnica. Dessa maneira, o Mestre de Lion simplesmente se dispensara de um exame da vida particular do Sr. Home, pois somente interessavam ao Codificador os fenômenos em si próprios, para efeito de estudos. Decerto, em todos os artigos, não se poderia esperar de um homem da lhaneza de Allan Kardec uma crítica, uma exprobração sequer à pessoa de D. D. Home, embora a recíproca não haja sido verdadeira, como adiante se demonstrará. Os fenômenos produzidos por D. D. Home foram indubitável e inexoravelmente autênticos, fato reconhecido publicamente por Divaldo Pereira Franco, vindo o médium baiano a então roborar e corroborar a veracidade do médium de Edimburgo e, portanto, o pensamento kardequiano.
O talentoso articulista comenta outros excertos dos artigos de Kardec sobre D. D. Home, argumentando na mesma linha dos pensamentos anteriormente confutados, e pergunta-se a si, aos leitores e ao médium baiano: “SERIA O SR. HOME UM CONTRADITOR DE KARDEC? (a caixa alta é originária)”. A pergunta indubitavelmente se converte em um repto a Divaldo. Em seguida, o nobre facultativo comenta: “(...) Não me consta que o Sr. Home ‘combateu KARDEC’, até porque ele não se posicionava filosoficamente, e é esta a única crítica que KARDEC fazia ao livro do Sr. HOME, isto é, a falta de uma ‘conseqüência filosófico-moral’” (todas as referências integram o artigo DAI DE GRAÇA O QUE DE GRAÇA RECEBESTES – DANIEL DUNGLAS HOME: UM OCIOSO EXPLORADOR? – DIVALDO: - SIM KARDEC: - NÃO).
Ora, se a informação não consta do Dr. Iso Jorge Teixeira, consta ela, ao menos, do capítulo 16 (numeração originária em algarismos arábicos e não em romanos) do livro Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos, da clara verve de Miranda (2002, p. 250-262). Outrossim, não se pode saber se Divaldo lera na internet ou no próprio livro aqueles dados, mas pode inferir-se que o colendo médico decerto o fez na rede mundial de computadores, pois não atentou ao fato de ser o capítulo seguinte ao intitulado Um precursor esquecido: Daniel Dunglas Home, do qual ele retirou a própria argumentação, aquele em que poderia encontrar a resposta à sua interpelação.
O capítulo intitula-se Luzes e Sombras do Espiritualismo, equivalente à tradução em vernáculo do título em inglês Lights and Shadows of Spiritualism, título de uma obra de D. D. Home, publicada em 1876, portanto, 7 anos depois do trespasse de Allan Kardec. Dessa maneira, não haveria podido o Mestre de Lion refutar a obra, pois já se encontrava no além-túmulo. Outrossim, não se pode crer possível ao culto professor de Psicopatologia e de Psiquiatria desqualificar aprioristicamente a fonte, isto é, a obra do escritor Miranda (2002, p. 254), para quem:
O livro de Home é, pois, um testemunho valioso dessa época. Ele próprio, a despeito de suas notáveis faculdades – sua mediunidade era multiforme -, não compreendeu Kardec, nem aceitou a sua doutrina, que combateu energicamente (...).
O livro de Home apresenta um esboço histórico das antigas crenças da Humanidade, desde o tempo dos caldeus, babilônios e egípcios até gregos e romanos, passando pela índia e pela China e estudando, em algumas páginas breves, as crenças dos judeus e depois o Cristianismo. (...). As farpas de estilo ele as reserva para Kardec e sua doutrina, principalmente para a reencarnação, que combate tenazmente, com argumentos insustentáveis e até infantis (grifo nosso).
Destarte, sendo plenamente qualificada e gabaritada a fonte, pode afirmar-se com larga margem de segurança o fato de D. D. Home ter contraditado Allan Kardec, de tal molde que aquele se transformara em um contraditor deste. Miranda (2002, p.256) transcreve alusão do médium edimburguês à doutrina codificada por Kardec:
Classifico a doutrina de Allan Kardec, diz ele logo de início [interlocução de Miranda], entre as ilusões deste mundo e tenho boas razões para isso, como se verá. Conheci o iniciador, ou antes, o renovador dessa fase moderna do velho paganismo.
Uma série de paralogismos consta da obra de D. D. Home, na tentativa pouco exitosa de negar a reencarnação e, conseguintemente, de refutar a Doutrina Espírita, através de um dos princípios basais em que assentada por Kardec.
Desse modo, resta demonstrado o fato de que o médium baiano estivera, estava, está e estará muito bem informado, havendo lido até as páginas da Revista Espírita, nas quais Kardec homenageara as faculdades paranormais e mediúnicas de D. D. Home, embora, como demonstrado, a recíproca não se houvesse constatado. Ora, quem deve ter-se esquecido realmente de fazer a referência à obra do médium edimburguês pode ter sido o ilustrado médico, a quem não se deve imputar ausência de caridade evangélica, conforme se refere ao médium baiano, pois não lhe importam aparentemente as implicações evangélicas e religiosas do Espiritismo. Todavia, devem seguramente importar-lhe as implicações morais, por tratar-se de um digno profissional da saúde e do magistério. De mais a mais, não houve de fato olvido nem de Divaldo Pereira Franco nem de Joanna de Ângelis, mas do próprio médico, quando não se ateve à leitura do livro em si ou do capítulo seguinte àquele de que retirou a própria argumentação.
Pelo escrito e pelo visto, as insinuações maldosas e os ataques não foram os do médium baiano, porque ele demonstrou muita ciência do que acontecera ao médium edimburguês, havendo aludido a fatos bem descritos nas obras assinaladas e dos quais, antes de forcejar no apodo às palavras do tribuno, não se inteirou o respeitável médico e professor. Por outro lado, nem Divaldo Pereira Franco nem Joanna de Ângelis abalançaram-se, no decurso dos fatos aqui narrados, dissertados e descritos, a manifestar uma pseudo-superioridade e a transformar-se em boquirrotos.
Além do mais, incumbe ao Drº Iso Jorge Teixeira trazer a público, sem tergiversações, os nomes dos hotéis de alta categoria nos quais Divaldo e Nílson correntemente se hospedam, “em suas centenas de peregrinações espíritas em vários países”, visando à prova de que os aludidos peregrinos economizam as aposentadorias e passeiam a expensas do Espiritismo e dos anfitriões. Agora, se eles viajam para divulgar a Doutrina Espírita, de maneira cosmopolita, deveriam hospedar-se onde, no meio da rua, sentados na sarjeta? Mister expor ao público, leitor dos artigos do nobre facultativo, os hotéis 5 ou 6 estrelas a que Divaldo e Nílson hão comparecido. Pode ocorrer até hospedagem em suítes presidenciais. Quem sabe, quem sabe? Dessa maneira, a não tão “peregrina memória brilhante” do respeitoso médico e professor de Psicopatologia e de Psiquiatria poderia, quiçá, nominar os hotéis, pois, como quem possui telhado de vidro não tão resplandecente quanto o do médium baiano não se arreceia de que se lhe atirem pedras, deveria aquele, ex cathedra, ex professo, ex positis e talvez ex officio, pôr em pratos limpos, quantum satis ou quantum sufficit, a idiossincrasia atribuída a Divaldo Pereira Franco.
Dessa maneira, exorta-se aqui o nobilíssimo facultativo a retificar as informações por ele transmitidas à leitora dos seus artigos, por respeito à deferência que ela autêntica e muito judiciosamente lhe presta em missiva. Em arremate do artigo do Dr. Iso Jorge Teixeira, há referência ao putativo fato de que “as contradições do Sr. Divaldo são óbvias, públicas e notórias, não percebidas somente pelos fanáticos ou distorcidas por seus falsos amigos, fascinados, desencarnados e encarnados”. Não obstante, a obviedade, a publicidade e a notoriedade das contradições não pertencem, em suma, ao médium Divaldo Pereira Franco, como aqui se logrou evidenciar, até porque nem todos os amigos do aludido médium são falsos nem hipócritas nem interesseiros nem vampiros de popularidade, se é que pode havê-los desse jaez. Ademais, também não parece ter faltado o discernimento a Divaldo, não a ele, dos vários “dons mediúnicos”, se é que se pode reputar um dom a mediunidade. O que, de resto, lá se apresenta parece lana caprina.
Assim, a vaidade não existe somente na modalidade mediúnica, havendo-a também na modalidade acadêmica, entre títulos e diplomas, os quais, no mais das vezes, pouco significam ou traduzem a verdade. Se alguns idolatram Divaldo, ele próprio não se entroniza nem se alça à condição de infalível ou de indefectível, tampouco de único e verdadeiro exegeta da Doutrina Espírita.
Ao fim, pergunta-se: com quem se fica, Srs. Leitores? Por tudo quanto aqui se escreveu, fica-se com o médium baiano Divaldo Pereira Franco. Não se cogitará de acesso do Dr. Iso Jorge Teixeira ao presente artigo, pois certamente ele o lerá e terá em mão. Espera-se honestamente vê-lo em detida reflexão, em exame de consciência, a fim de que, sendo culto, instruído e educado como sói parecer, reconheça a indelicadeza e a injustiça de D. D. Home para com Kardec, assim como a indelicadeza e a injustiça para com o médium Divaldo Pereira Franco. Assim seja.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTAGNOLA, Luís & PADOVANI, Umberto. História da Filosofia. 16. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1994;
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CONSTITUIÇÃO FEDERAL, CÓDIGO CIVIL, CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. 5. ed. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2004;
CONSTITUIÇÃO FEDERAL, CÓDIGO PENAL, CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. 5. ed. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2004.
DOYLE, Arthur Conan. História do Espiritismo. 1 ed. São Paulo: Pensamento, sem data;
KARDEC, Allan. A Gênese. Os Milagres e As Predições Segundo o Espiritismo. 1. ed. especial. Brasília-DF: FEB, 2005;
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Princípios da Doutrina Espírita. 1. ed. especial. Brasília-DF: FEB, 2005;
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Guia dos Médiuns e dos Evocadores. 1. ed. especial. Brasília-DF: FEB, 2005;
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1. ed. especial. Brasília-DF: FEB, 2005;
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. Ano I (1858). 3. ed. Brasília-DF: FEB, 2005;
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. Ano IV (1861). 2. ed. Brasília-DF: FEB, 2005;
MIRANDA, Hermínio Correia. Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos. 4. ed. Brasília-DF: FEB, 2002.