Espiritismo, Ciência e Lógica
Chegou até nosso conhecimento um
texto intitulado
Espiritismo, Ciência e Lógica, do website Falhas do
Espiritismo, redigido em tom de crítica à doutrina e ao movimento espírita;
aliás com bastante inteligência e polidez, que não encontramos em todos os
opositores da causa espírita. Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecer ao
tom de cordialidade com que a doutrina e os espíritas são tratados e nos
esforçaremos aqui para manter o mesmo nível de argumentação, pedindo antecipadamente
desculpas se em algum momento nos desviarmos do caminho da moderação.
Reconhecemos que, quanto ao movimento espírita, temos ainda muito que evoluir e que, muitas vezes,
considerando o conjunto, tratamos de certas questões espíritas de maneira inconveniente,
de modo que acabamos por atrair justas críticas para o nosso movimento.
Como integrante do movimento espírita, temos também a nossa visão própria sobre como a doutrina deveria ser
praticada e propagada, e que pode ser mais ou menos justa. Acreditamos estar
acorde com pelo menos uma grande parte dos que estudam o Espiritismo seriamente
e tentaremos neste texto responder, justificar ou refutar os questionamentos e
críticas que nos são apresentados no texto em questão, sem a pretensão de
querer obter unanimidade de aceitação por parte de todo o movimento espírita,
ou menos ainda de julgar ter dado a última palavra sobre o assunto,
que certamente poderá render ainda muitas discussões.
Queremos apenas contribuir com a nossa pedra para o edifício.
Há que se diferenciar também a
crítica à doutrina espírita da crítica ao movimento espírita. Se a doutrina
espírita é completamente defensável aos ataques, em nossa opinião, o movimento
espírita nem sempre o é. O nosso interesse é defender somente o Espiritismo e o
seu método. Mas quanto ao movimento espírita, do qual também somos parte, o
defenderemos onde julgarmos que age corretamente em função dos princípios
doutrinários, deixando a ele, contudo, a responsabilidade de seus acertos e
erros.
Vamos então ao texto em questão,
que citamos integralmente na cor azul e comentamos ponto por ponto:
citação:
Espiritismo, Ciência e
Lógica
"Caminhando de par
com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque se novas
descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se
modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará"
(A Gênese).
O tempo passou. O
século XX foi pródigo em destruir paradigmas, a começar pela Física clássica.
Da constatação de que ela não explicava satisfatoriamente certos fenômenos
surgiram dois novos campos: a Relatividade de Einstein e a menos famosa ao
grande público, mas igualmente revolucionária, Mecânica Quântica. Os elétrons,
prótons e nêutrons não podem ser imaginados como pequenas coisas independentes
do mundo restante. O mundo quântico nada tem haver com essas coisas, que podem
ser apalpadas. Apenas permite aos cientistas relacionar diferentes observações
dos átomos entre si ou em matérias ainda menores, como procedimento para
harmonizar suas observações. O átomo se converteu num simples código para um
modelo matemático, não em parte da realidade. A Mecânica Quântica é aceita até
hoje devido ao seu pleno êxito, não por ser intuitiva e bela. Muito pelo
contrário: os paradoxos que seu sistema geraria no mundo macroscópico desafiam
o senso comum e intrigaram até seus criadores. Sua modelagem probabilística
acabou com o sonho de ser prever qualquer evento, desde que fossem dadas as
condições iniciais. O acaso entrou definitivamente na Ciência, pelo menos no
microcosmo. Muita gente não gosta disso. O próprio Einstein não gostava disso
exclamou: "Deus não joga dados". Mas parece que Ele joga, sim.
Até a Matemática que se achava acima das crises de paradigmas das demais
disciplinas também teve seu choque. Os matemáticos se empenhavam na busca de um
conjunto finito de axiomas do qual se pudesse deduzir toda a Matemática. O
banho de água fria veio quando o Gödel demonstrou que qualquer sistema lógico é
incompleto. Sempre haverá sentenças em que não se poderá decidir se elas são
verdadeiras ou falsas e a inclusão de mais axiomas apenas retarda o surgimento
dessa questão. Em suma, há verdades que nunca serão atingidas. Longe de ser
desesperador isto é bom. É sinal de que a Matemática nunca irá se esgotar.
Podemos criar álgebras e geometrias tão malucas quanto queiram nossa
imaginação; só uma coisa é exigida: coerência. A Lógica libertou-se totalmente
das amarras ao mundo real.
O olhar que as ciência
lançam sobre o homem também mudou. Não somos mais o produtos acabado da
evolução, não estamos à testa de uma fila indiana das espécies. Somos apenas um
ramo de uma árvore ramificada, que é constantemente podada pela tesoura da
extinção. Não somos os mais evoluídos; pois evolução não significa progresso,
mas adaptação. Uma ervinha é mais auto-suficiente que nós e toda nossa
inteligência não é garantia de vida eterna.
As causas primárias e finais voltaram. A busca por uma "teoria final"
que unifique em um só campo a Relatividade e a Mecânica Quântica prossegue.
Dela se espera poder se descobrir o que levou o Universo a ser do que jeito que
é e qual o seu destino.
E o Espiritismo nestas mudanças? O fosso entre as metodologias da "ciência
espírita" e as demais "ciências" do mundo material foi progressivamente
aumentando:
Após essa bela introdução, só
temos a dizer que o "fosso" entre a metodologia das demais ciências em relação à
ciência espírita só aumentou porque se tornou moda recentemente restringir o
significado de "ciência". Tornou-se moda dizer que só é realmente válido
cientificamente aquilo que pode ser colocado num "tubo de ensaio" e repetido à
vontade num laboratório. Infelizmente não levam em conta que há inúmeros
experimentos que não são reproduzíveis à nossa vontade, mesmo na ciência
material. Mas isso é um assunto que desenvolveremos mais detalhadamente abaixo,
no decorrer do texto. Por enquanto, sugerimos ao leitor o nosso texto
O Espiritismo é realmente uma ciência?
Vejamos, então, ponto a ponto, os
"fossos" que o nosso caro contraditor diz existir entre o Espiritismo e a
Ciência:
citação:
Ciência: Comum novas gerações de
cientistas refutarem trabalhos anteriores. Aversão à
critérios de "autoridade".
Espiritismo: Medo de se distanciar da ortodoxia kardequiana. Culto à autoridade contido no
espírito da Verdade ou Kardec. Há exceções, óbvio.
O que o nosso caro contraditor
pensaria de alguém que refutasse a Teoria Heliocêntrica? Ou que refutasse a
Teoria da esfericidade do nosso globo? Ou ainda que refutasse leis matemáticas
conhecidas e estabelecidas, como o simples 2+2=4? Pode-se tentar refutar isso à
vontade; o que não se pode é conseguir, senão há algo errado com o olho do observador.
Então, vemos que é preciso certo critério para se refutar teorias. Não somos
"metamorfoses ambulantes" e não saímos por aí refutando por refutar; mudando
por mudar. É preciso ter uma visão e uma oportunidade de mudança.
Hippolyte Léon Denizard Rivail, quando começou seus estudos
sobre o espiritismo, era um ilustre desconhecido fora do seu meio intelectual
em sua época. E mais desconhecido tornou-se ainda por ter usado o pseudônimo de
Allan Kardec. De onde, então, veio a autoridade de Kardec ou do Espírito de
Verdade, que não do conteúdo de suas obras, da sua lógica, que angariaram
simpatias? Pelo menos inicialmente não houve "critério de autoridade".
Embora não possamos responder por
todos os espíritas, o Espiritismo nos incentiva a questionar a doutrina,
submetê-la à prova e verificar se ela é capaz de resistir às críticas que lhe
sejam feitas. Que culpa temos se ainda nenhuma crítica foi capaz de arranhar a
sua imagem e justificar uma revisão fundamental? Que culpa temos se as nossas
convicções são confundidas com estagnação evolutiva perante a ciência? Que os
nossos opositores nos ajudem e nos mostrem os erros crassos para nossa
edificação e tomada de ações corretivas. Mas não se zanguem se o nosso olho não
for tão desenvolvido quanto o deles, de forma que não vejamos nada
significativo onde eles vêem a realidade, ou vice-versa. Se alguém diz "há um
erro", que nos mostre, pois temos a obrigação de avaliar, mas não
necessariamente de aceitar.
Mas o que é mais comum no cético
materialista não é o fato de apresentar pelo menos teorias substitutivas mas,
sim, a sua postura de normalmente dizer "Quem garante que o fato ocorreu
mesmo? Logo, não é preciso considerar.". Muito cômoda essa atitude, que não
precisa investigar e não se comprometer com nada, nem mesmo com uma opinião,
dizendo "é provável que tenha ocorrido assim, ou assado..." Pedem-nos provas,
do jeito que querem e na hora que querem, quando não temos o interesse de
convencê-los e quando essas provas somente a eles interessam, e não a nós. As provas
que temos nos satisfazem. Apresentamo-las. Se outros crerão, já não é nosso
problema.
citação:
Ciência: Obras de grandes mestres
(Principia Mathematica, Origem das Espécies, etc)
ainda lidas como referência, fontes de valor históricos e como uma forma de adentrar
no raciocínio do autor. Os estudantes, porém, usam bibliografia recente,
expandida e corrigida.
Espiritismo: Livros de Kardec ainda utilizados sem alterações, mesmo no que há de errado.
Notas de rodapé corrigem alguns erros.
É, no mínimo, uma demonstração de
ignorância dizer que os espíritas não procuram expandir a teoria espírita. Isso
se tornou até um problema para o movimento, dado o número de teorias ainda não
confirmadas; algumas esdrúxulas, que fazem considerável esforço para serem
chamadas de "espíritas".
Quanto à natureza, as obras e os
ensinamentos de Allan Kardec são divididos em duas partes: ensinamentos
hipotéticos ou não fundamentais e princípios estabelecidos e fundamentais. No
primeiro caso, nenhum erro identificado causa mudanças profundas na doutrina.
No segundo caso, um erro identificado inviabiliza o Espiritismo como
possibilidade de verdade. Temos absoluta convicção que erros não foram ainda
encontrados de maneira irrefutável nos princípios fundamentais. Mas erros
eventuais, como por exemplo, o número de luas de alguns planetas, já foram
identificados. Como bem anunciou o nosso caro contraditor, notas de rodapé
informam sobre esses erros. Contudo, uma correção não é possível de ser feita,
pois as obras de Allan Kardec, antes de serem livros espíritas, são documentos
históricos e patrimônio da humanidade. As notas de rodapé são as melhores
formas de se fazerem correções, em nossa opinião. O que não se pode fazer é a
correção no texto original.
Há ainda uma impropriedade na
comparação das obras espíritas com o Principia de Newton, ou a Origem
das Espécies de Darwin: ambas foram refutadas em seus princípios
fundamentais, o que não ocorreu ainda com as obras espíritas, mesmo após 150
anos. O Principia de Newton poderia ser considerado um sistema
doutrinário válido, e poder-se-ia aderir a ele como se adere hoje à doutrina
espírita. A razão disso não ocorrer é que o Principia está superado pela
Relatividade e por outras descobertas. Contudo, ele pode ser considerado uma
doutrina antiga, ou parte de uma doutrina antiga.
Também um outro erro é achar que o
Principia foi expandido e corrigido. O Principia é um só e não
admite correções. Se corrigirmos os erros da Física Clássica acrescentando, por
exemplo, as descobertas relativísticas, o novo conjunto formado mudaria de
nome, deixando de ser Física Clássica e se tornando Física Relativística.
Se, com o Espiritismo, futuramente
ocorrer o mesmo que ocorreu com o Principia, ou seja, for refutado em
algum princípio fundamental e se tornar obsoleto, terá igualmente que mudar de
nome para incorporar as mudanças, e os atuais adeptos do Espiritismo terão que
mudar para o novo sistema, assim como os adeptos da Física Clássica mudaram
suas crenças para a Física Relativística, que por sua vez também é uma crença
provisória, por se saber que a Relatividade possui furos e que outro sistema o
substituirá no futuro. Com relação ao Espiritismo, contudo, o dia da sua
obsolescência ainda não chegou...
citação:
Ciência: A lógica
é usada como ferramenta apenas. O raciocínio precisa estar corroborado
evidências.
Espiritismo: A lógica é utilizada como meio de prova ou refutação de hipóteses, não havendo
verificação de se a natureza pensa igual.
O nosso caro contraditor aqui faz
uma análise simplista da questão e subestima a lógica espírita. Não poderíamos
dizer qual seria o percentual de verdades absolutas que possuímos evidências
básicas do tipo "podemos ver, sentir, tocar e repetir à vontade", mas
imaginamos que seja muito pequeno em relação ao conjunto total de verdades absolutas
disponíveis no Universo. Logo, as evidências básicas apenas abrangem uma
parcela ínfima da realidade e, para esses casos, a lógica sequer precisa ser
utilizada, a não ser para se ajustar à realidade, pois a realidade não pode ser
ilógica.
A verdadeira ciência deve ser
capaz de fazer abstrações, de teorizar, ainda que com o risco de errar, para
que possa avançar. A relatividade e a mecânica quântica, apesar de conterem
erros ainda desconhecidos, são utilizadas na vida prática da ciência. A própria
física clássica o é, apesar de superada. Imagine se os cientistas as
rejeitassem porque não há provas de que elas correspondem à realidade e, pior
ainda, sabendo que elas não explicam corretamente a realidade... Imagine se
dissessem: "deixemos essas físicas de lado porque estão erradas..."
No caso do Espiritismo, a lógica é
usada da mesma forma que na ciência. Ela é usada para validar ou refutar
teorias que não temos condições de averiguar com nossos próprios olhos. Temos
também total consciência de que nem tudo que parece ter lógica é verdadeiro,
mas o exame lógico reduz as nossas possibilidades de erro, do mesmo modo que na
ciência.
O nosso caro contraditor diz ainda
que não verificamos se a natureza pensa igual ao nosso exame lógico. Mas
perguntamos, igualmente, se a nossa lógica, imperfeita, não nos pode conduzir a
verdades práticas, relativas, quando não nos puder conduzir a verdades
absolutas. A física clássica é novamente um belo exemplo de onde isso ocorre,
sendo ensinada nas universidades e aplicada na vida prática, mesmo sabendo-se
que é obsoleta. Será que a nossa lógica aplicada ao mundo espiritual não nos
pode trazer convicções, ainda que transitórias, que possam ser usadas na vida
prática da mesma forma que a convicção na mecânica quântica é aplicada na
construção dos semicondutores usados na confecção dos nossos computadores?
Pensamos que sim.
Portanto, não julgamos justa a
acusação de que usamos a lógica de forma diferente à usada pela ciência. A
lógica, para nós, é um primeiro cadinho de verificação. O outro é o controle
universal do ensino dos espíritos, que é discutido abaixo após nova citação do
texto.
citação:
Ciência: O
bom senso e a experiência usual nem sempre são seguidos (Relatividade e
Mecânica Quântica que o digam. Idem para a "ação à distância" de Newton).
Optam-se por soluções pragmáticas, ainda que esdrúxulas.
Espiritismo: O senso comum, ao lado da lógica, é superestimado.
O senso comum aqui citado nada
mais é do que o chamado controle universal do ensino que, no nosso caso, se
torna também controle universal do ensino dos espíritos (CUEE). Ele é usado,
juntamente com a lógica, seja para dar maior autoridade a esta, seja para
acusar um problema que o exame lógico não detectou.
Recapitulando: na busca pela
verdade, o Espiritismo prefere sempre a evidência objetiva, aquela que podemos
tocar com o dedo. A existência dos espíritos, por exemplo, é constatada pela
evidência. Na falta dela, assim como na ciência, o Espiritismo se permite
teorizar. E no caso espírita, diferentemente da ciência ordinária, recebem-se
teorias dos espíritos acerca de assuntos morais e coisas relacionadas ao mundo
espiritual. Então, a lógica é o primeiro cadinho que, como já dissemos, valida
ou refuta teorias, mas não estabelece verdades absolutas. Somente o que sobreviveu
ao exame lógico é submetido ao senso comum, ou ao controle universal do ensino
dos espíritos. Em alguns casos, esse controle universal apontou para outra
hipótese diferente da que o exame lógico sugeria. Então, a lógica foi revista,
erros encontrados e a teoria ajustada. Isso ocorreu com a reencarnação, por
exemplo.
Assim como a lógica, também
sabemos que o senso comum valida ou rejeita teorias, mas não estabelece
verdades absolutas; mas, sendo um auxiliar da lógica, ajuda a estreitar mais
ainda o leque de opções. Aplicamos o senso comum conhecendo as suas vantagens e
riscos, e não entendemos que superestimamos o seu valor. Sabemos que a verdade
nem sempre é democrática e que esse senso pode nos enganar. Mas, ainda assim,
preferimos o risco controlado do engano à estagnação cética, que nada examina,
que nada teoriza. Infelizmente, não nos apresentaram ferramentas melhores para
controlar os ensinos que não podemos observar diretamente. Ao mesmo tempo, nos
recusamos a trocar a possibilidade de errar pela certeza de errar, pois ignorar
ou rejeitar, a priori, teorias válidas é estagnar-se perante o progresso; e
isso é certeza de erro.
A ciência também pratica o senso
comum. A evolução darwiniana é ensinada nas escolas e universidades como se
fosse um fato, embora não haja consenso sobre muitos pontos; a teoria do
big-bang é ensinada com base no mesmo senso comum de alguns cientistas; e
assim, várias matérias referentes à medicina, à biologia, à economia, etc...
Tudo fruto do senso comum de um grupo de cientistas e professores que, por
razões diversas, justas ou nem tanto, resolveram ignorar as opiniões
divergentes no ensino e adotar as concordâncias. Se há abuso no uso do senso
comum, pensamos que ele não ocorre só do nosso lado.
Uma crítica que poderia ser feita
a esse pensamento e que já nos antecipamos em responder é: "Se o senso e a
lógica não estabelecem verdades, por que o Espiritismo considera certos
ensinamentos, que sobrevivem a estes exames, como princípios estabelecidos?"
A resposta é: "Porque de todas as teorias existentes, somente uma
possibilidade de verdade restou. Então ela é aceita mesmo sem ter sido
constatada diretamente." A reencarnação é um belo exemplo de onde isso ocorreu.
citação:
Ciência:
Há grande discussão em torno da filosofia da ciência quanto à questão da melhor
metodologia para o estabelecimento de novos conhecimentos (refutabilidade,
crise de paradigmas, etc).
Espiritismo:
O conhecimento espírita ainda é majoritariamente indutivo, baseado em moldes
científicos do século XIX (positivismo).
Mais ou menos. Em alguns casos a
falseabilidade é usada. Na afirmação "existem espíritos", concordamos que não
há como falsear. Mas na afirmação contrária "espíritos não existem", podemos
falsear, e já estamos num estágio em que podemos afirmar que isso já foi
vitoriosamente feito.
Contudo, devemos também ser
sinceros em admitir que nem todas as teses fundamentais espíritas são
falseáveis, senão em sentido reverso, como no exemplo acima, e que ainda não
foi possível fazê-lo de forma que não restem dúvidas aos mais céticos. Muitos
princípios enunciados pelo Espiritismo não são passíveis de observação. Esses
casos caem no processo acima, ou seja, a lei é enunciada, confronta-se com os
conhecimentos científicos já estabelecidos, aplica-se exame lógico e aplica-se
o controle universal. Não temos outra forma de fazê-lo. Uma vez obtidas as
conclusões possíveis, ou, no caso espírita, a conclusão possível, aceitá-la
torna-se uma questão de foro íntimo. Essa é uma das razões de o Espiritismo
ainda ser considerado crença e não uma verdade estabelecida. Não consideramos
isso uma desvantagem, mas uma característica.
O método indutivo também é, a
nosso ver, excessivamente criticado pelos céticos. Há certo exagero na
condenação do método indutivista e, embora ele não possa nos conduzir necessariamente
a verdades absolutas (embora também possa), ele pode nos conduzir a verdades
práticas. Física Clássica que o diga.
Então, não negamos que o método
indutivo seja pelo Espiritismo bastante utilizado. Mas não concordamos que esse
método seja assim tão ultrapassado quanto querem fazer crer.
citação:
Ciência:
Teorias inverificáveis, mas belas, são postas de lado.
Espiritismo:
Persiste a presença de hipóteses "ad hoc" inverificáveis para sustentar pontos
nebulosos da doutrina. (ex: vida "invisível" em outros planetas)
Espero que o nosso caro
contraditor, ao dizer "postas de lado", não tenha intencionado dizer
"descartadas", pois, caso contrário, teria cometido um erro crasso. Não se pode
simplesmente descartar o que não se pode verificar. As hipóteses válidas, mas
inverificáveis, são mantidas "em suspenso", até que se possa verificá-las ou
falseá-las.
Quanto às hipóteses chamadas "ad
hoc", elas incomodam tanto do lado de lá como do lado de cá. A Igreja, não
podendo negar as comunicações espirituais, pois isso seria negar o que ocorre
em seu próprio seio, diz que tudo o que acontece de "sobrenatural" fora da
Igreja é o demônio se manifestando e se disfarçando de "anjo de luz". Ao serem
apresentadas aos céticos, por exemplo, as razões porque Chico Xavier e William
Crookes não poderiam ser charlatães, hipóteses "ad hoc" ridículas
sugerem que eram charlatães, levantando dúvidas, a nosso ver, sem fundamento,
sobre suas respectivas honorabilidades. Não podemos provar, a não ser pelo
raciocínio, que essas últimas hipóteses não se sustentam. Mas a própria lógica
é posta em cheque. E o controle universal, então? Será que não haverá um meio
100% seguro de se chegar à verdade num caso específico? Pensamos que,
infelizmente, não. Usamos a lógica e o CUEE para tentar diminuir bastante
nossas chances de erro. Mas 100% seguro, todo o tempo, ninguém está.
Se os "ad hocs" são
possíveis, é porque a verdade ainda não foi encontrada. Logo, tenhamos
paciência e esperemos...
citação:
Ciência:
Apropriações entre ramos da ciência (malthusianismo no darwinismo, biologia na
sociologia – darwinismo social, eugenia) hoje são vistas com reservas.
Espiritismo:
Apropriações correntes são feitas sem garantia de que são válidas (ação e
reação, noções de mecânica quântica, etc.)
Isso depende do olho do
observador. Aos nossos olhos, analogias interdisciplinares são feitas com
prudência no Espiritismo, embora nem tanto pelos espíritas. A ação e reação
espírita, por exemplo, é uma lei moral e em nenhum momento é dito que se
comporta como a ação e reação newtoniana. Aliás, Kardec nunca citou Newton
quando escreveu sobre ação e reação. Já a Mecânica Quântica nem existia ao
tempo de Kardec.
Teríamos que analisar caso a caso
essas "apropriações" para formar juízos particularizados.
citação:
Ciência:
Ciências que não têm acesso direto ao seu objeto de estudo (astronomia,
história, etc.) lançam mão da análise indireta dos efeitos que chegam até nós.
(espectro de luz, documentos históricos).
Espiritismo:
Pede um lugar "especial" entre as ciências por não ter acesso direto ao seu
objeto de estudo (espíritos).
He he... Essa é boa!!! Então, nós também não
lançamos mão da análise indireta dos efeitos que chegam até nós? E as obras
psicografadas, que são as provas materiais mais fortes que existem sobre a
existência espiritual? E a análise dos testemunhos oculares? E as fotografias e
filmagens, algumas até disponíveis em artigos publicados em periódicos
científicos? Não precisamos ver os espíritos para neles crermos, pode estar
certo. Se não crêem nessas evidências, se precisam de mais, é um problema que
lhes cabe. Mas não podem dizer que não fornecemos material indireto de estudo e
pesquisa.
O Espiritismo não pede e não goza de nenhum
privilégio que não seja também concedido às ciências ordinárias.
citação:
Ciência:
Orações, Meditação e estados alterados de consciência são passíveis de estudo,
mas isto não significa que seja verdade aquilo que seus praticantes dizem.
Espiritismo:
Verdades podem ser extraídas de "estados alterados de consciência", vulga
mediunidade. Contudo, nenhuma proposta rigorosa para a separação do joio e do
trigo foi apresentada.
Será que nosso caro contraditor
nunca leu O Livro dos Médiuns? Mais uma vez é uma questão de aceitação
ou rejeição de metodologia. Se não aceita a metodologia de separação do joio do
trigo proposta em O Livro dos Médiuns, é um direito inalienável seu. Mas
não diga que não foi apresentada proposta, que nada mais é do que o confronto
com os dados positivos já adquiridos, a lógica e o CUEE, como já dito
anteriormente. Entendemos que esses métodos não estabelecem verdades absolutas,
mas estabelecem pelo menos hipóteses sólidas. Se nos apresentarem melhores
métodos, mas realmente melhores, aceitaremos alegremente.
Mas há que se fazer também certa
justiça à crítica, pois se vêem freqüentemente teorias esdrúxulas sendo aceitas
por espíritas que confiam quase que cegamente em supostos "guias".
citação:
Ciência:
Não faz afirmações morais. Descobertas podem, inclusive, entrar em choque com a
moral vigente.
Espiritismo:
Produz cartilhas de certo e errado. Eufemismo são usados para se alegar que
"não é bem assim..."
As afirmações morais são
conseqüências diretas da constatação da existência dos espíritos e de seus
diversos estados no mundo espiritual. Pela observação, descobriu-se que alguns
espíritos são felizes e outros são desgraçados. Também a observação permitiu
saber o que os levava a esses diversos estados. Ora, uma ciência que serve
somente para descobrir coisas, mas não procura tirar nenhum proveito, não é
ciência que se preze. Se não houvesse quem tirasse proveito dos conhecimentos
da mecânica quântica não existiriam os transistores e os computadores modernos.
Consegue imaginar um psicólogo que se limitasse a observar as patologias de
seus pacientes sem nada propor para corrigir as distorções?
Então, as "cartilhas morais", como
bem disse nosso caro contraditor, servem para orientar o modo de vida das
pessoas de forma que possam tirar o máximo proveito possível da atual
encarnação e progredir na escala evolutiva. As "cartilhas" não são impostas e,
quem achar que há coisa melhor, é livre para virar o rosto. Mas o Espiritismo,
como ciência, não pode continuar vendo as pessoas tropeçarem e não colocar ao
menos um aviso de "pedra de tropeço à frente", ou "siga por aqui que é mais
seguro". Isso seria omissão.
Como o autor não deixou ao menos
subentendido a que tipo de Eufemismo se referia (embora imaginemos do que se
trata), não nos sentimos obrigados a tentar refutar a afirmação, que, pelo
menos no contexto atual, é vazia.
citação:
Bem, vamos por partes.
Há espíritas importantes no movimento (ex.: Carlos Imbassahy) que já atentaram
para o risco de considerar Kardec infalível, um verdadeiro receio em se
distanciar da obra original. Ocorrem controvérsias mesmo em questões mais
simples como nomenclaturas inapropriadas: "fluidos", "vibrações" e "magnetismo"
são palavras cujo sentido se modificou tanto a ponto de o uso que é dados a
elas na codificação se encontrar totalmente defasado. Há quem proponha mudanças
por conta própria, outros preferem se apegar a uma espécie de tradição ou de
consagração pelo uso. É defendido que parte da "atualização" está sendo feita
por meio livros complementares, até como uma forma de não descaracterizar o
espiritismo. Muito questionável devido ao fato de a primeira leitura recomendada
continuar a ser o Pentateuco kardecista, e não as supostas correções e
complementações. "A Origem das Espécies", de Darwin, ainda é uma obra de
referência para estudantes de biologia, nem que seja para analisar o raciocínio
do autor a partir da base que ele tinha. Entretanto, a apresentação ao
darwinismo em seu estado original é apenas introdutória e logo eles
apresentados ao que há de mais atualizado no campo de pesquisa. Stephen Jay
Gould desenvolveu interpretações diferentes dos neodarwinistas de como se dava
o processo evolutivo. Era um grande fã de Darwin! Seus ensaios são permeados
por citações de seu mestre, mas Gould corria caminhos alternativos quando a
interpretação convencional não era suficiente para ele. Nem por isso foi menos
biólogo ou evolucionista de araque. Nem foi taxado de "gouldista". A
possibilidade de pensamentos dissidentes em um campo científico é algo que
falta ao espiritismo. Tudo bem que certas correntes trazem divergências bem
destoantes, como os ramatistas; mas não é isto que está em jogo: é o medo de
discordar do "mestre lionês" que faz dele uma espécie de Aristóteles moderno do
espiritismo.
Como já dissemos, concordamos com
o nosso caro contraditor quando diz que obras superadas devem ser apenas
utilizadas como referência histórica. Faremos o mesmo com as obras kardequianas
assim que elas se tornarem obsoletas.
Mesmo não sendo
proibido, consideramos um contra-senso alguém se declarar espírita e se
utilizar de práticas ou ensinos que contrariem os ensinamentos espíritas. Ter
essa opinião não nos parece uma demonstração de preconceito, mas um conceito
obtido através da comparação entre o que diz ou faz o adepto e o que diz a
doutrina;
Para os que
crêem ou se utilizam de coisas contrárias à moral espírita, como a magia-negra,
por exemplo, e ainda assim se auto-intitulam espíritas, classificaremos
necessariamente como "espíritas experimentadores" (aqueles para os quais a
moral espírita nada vale), "espíritas imperfeitos" (aqueles que compreendem mas
não praticam a moral espírita), ou ainda "espíritas exaltados" (aqueles cujo
excesso de credulidade os leva a ser enganados por mistificadores) (ver O Livro
dos Médiuns, cap.III, primeira parte – O Método, item 28);
Para os
adeptos que pratiquem ou ensinem coisas contrárias ao Espiritismo ou, ainda,
coisas que a doutrina não é a favor nem contra, diremos que são adeptos
praticando coisas não-espíritas. Isso parece uma qualificação pejorativa, mas
não é. É absolutamente normal alguns espíritas serem adeptos do vegetarianismo,
por exemplo, enquanto a doutrina não
aprova nem reprova tal atitude. Os espíritas não precisam ficar "bitolados" ao
Espiritismo;
As pessoas são
livres para se auto-intitularem espíritas. Mas desde que elas não o façam,
consideramos leviandade e má-fé da nossa oposição apontar para praticantes de
magia-negra, por exemplo, e dizer "são espíritas". Só podemos lamentar os que
têm esse tipo de atitude para tentar denegrir o Espiritismo e os espíritas, e o
que eles fazem serve mais de propaganda pró-espírita do que prejudica o
movimento;
O adepto,
enquanto espírita, é livre para investigar quaisquer outras teorias não-espíritas.
O adepto só não deve é chamar essas outras teorias de "espíritas", porque aí
falta com a verdade e é considerado um falso-irmão. As teorias não precisam do
aval do Espiritismo para se desenvolverem, não perdem nada em serem chamadas de
não-espíritas e a doutrina é, ao mesmo tempo, resguardada contra eventuais
erros. Só os orgulhosos e interesseiros não enxergam isso.
O adepto é
livre para questionar todos os preceitos espíritas e suas dúvidas devem ser
racionalmente respondidas pelo Espiritismo. Mas se não se satisfizer por
qualquer razão e concluir, por exemplo, que um princípio fundamental, como a
reencarnação, não existe, pensamos que o Espiritismo se torna imediatamente uma
crença inadequada para se professar, pois não existe Espiritismo sem reencarnação.
Não se pode proibir, entretanto.
Ser espírita
não é critério de salvação para ninguém. O Espiritismo diz que só a caridade
"salva". Se alguém tem discordâncias fortes com a doutrina espírita, julgamos
que devesse professar outra crença ou nenhuma crença específica, com maior
proveito do que se prender aos limites doutrinários. Ao Espiritismo interessam
adeptos que, pelo menos, aceitem seus princípios fundamentais, especialmente os
morais. Desapegando-se da doutrina, o ex-adepto é livre para professar outros
sistemas divergentes e ainda manter coerência ideológica consigo próprio, além
de passar a poder aproveitar parcialmente os princípios espíritas com que
concorda.
E, por fim,
todo adepto que se considera sério deve zelar pela integridade da doutrina,
ainda que não concorde com alguns de seus pontos. Quem não o faz dá
demonstrações de orgulho e egoísmo, porque não teme em comprometer os outros
irmãos pelos erros que possa cometer. O verdadeiro adepto é aquele que assume
os erros para si e os acertos para a causa espírita.
Com esses esclarecimentos,
esperamos ter respondido a acusação de que somos estagnados na teoria
kardequiana e não somos capazes de enxergar nada além.
Há também uma diferenciação a se
fazer entre a Doutrina Espírita e seu adepto. A doutrina espírita é aquela
contida nas obras kardequianas, e que se moldará com o tempo perante verdades
adquiridas, e não perante hipóteses, pois, se o fizesse, a doutrina se
suicidaria (A Gênese, cap. I, item 55). Gritem o quanto quiserem os inovadores,
mas, se não trouxerem novidades positivamente comprovadas e aceitas, elas não
farão parte da doutrina espírita. Isso vale para qualquer um, até mesmo para as
colônias espirituais de André Luiz e as Almas Gêmeas de Emmanuel.
Mas dirão que "esse consenso não
haverá nunca!!!". Discordamos, pois também um dia não foi consenso que a Terra
girava em torno do Sol, e hoje é; um dia não foi consenso que a Terra era
redonda e hoje é. À medida que o progresso científico for descortinando as
verdades, o que era controverso vai se tornando unânime. É um processo
demorado, concordamos, mas é assim que funciona com a ciência e é assim que
funcionará com o Espiritismo. O Espiritismo prefere errar com suas hipóteses
próprias a errar com as hipóteses alheias. Isso resolve a questão da doutrina.
Já o adepto, ou seja, aquela
pessoa que professa a sua crença no Espiritismo dizendo "sou espírita", não
precisa ficar restrita aos conhecimentos trazidos pela codificação. Se suas
convicções solicitarem, ele pode partir para outros campos investigativos, como
a apometria, o reiki, a cromoterapia, as transcomunicações e até aderir e
investigar outras correntes como a Umbanda, as crenças orientais, o candomblé e
até a magia-negra, se quiserem. Só temos algumas observações a fazer a
respeito:
citação:
Kardec
depositava fichas demais na lógica. Ela é importante sem dúvida e tê-la é um
requisito mínimo. Mas quem a estuda não demora a descobrir que ela não tanto
poder assim como dizem. Ela não pode ser usada para atestar a falsidade ou
verdade de um fato natural. A validade de uma proposição depende do sistema de
axiomas que se tem como ponto de partida. Assim, o que é falso num sistema pode
ser verdadeiro em outro. E você não sabe, a priori, quais são os axiomas
que a Natureza "adota" em determinado campo, sem falar nas proposições
indecidíveis que todo sistema axiomático fatalmente carrega (Teorema de Gödel).
Nas palavras do filósofo da ciência, Karl Popper:
Contudo,
há não muito tempo sustentava-se que a Lógica era uma Ciência que manipula os
processos mentais e suas Leis - as leis do nosso pensamento. Sob esse prisma,
não se podia encontrar outra justificação para a Lógica, a não ser na alegação
de que não nos é dado pensar de outra maneira. Uma inferência lógica parecia
justificar-se pelo fato de ser sentida como uma necessidade de pensamento, um
sentimento de que somos compelidos a pensar ao longo de certas linhas. No campo
da Lógica, talvez se possa dizer que essa espécie de psicologismo é, hoje,
coisa do passado. Ninguém sonharia em justificar a validade de uma inferência
lógica, ou defendê-la contra possíveis dúvidas, escrevendo ao lado, na margem,
a seguinte sentença: 'protocolo: revendo essa cadeia de inferências, no dia de
hoje, experimentei forte sensação de convicção'." (A Lógica da Pesquisa
Científica).
A lógica é uma
ferramenta, apenas. Com ela pode se dizer se um raciocínio foi bem encadeado e
um sistema é consistente ou não, isto é, se não se contradiz. Mesmo, que eles
passe por este teste, ainda não está garantido que a Natureza não se comporte
através de outro arranjo. Os gregos antigos fizeram inúmeras especulações acerca
de como o universo funcionava. A maioria, palpites errados.
Esse assunto já foi tratado mais
acima. Só reforçamos que a metodologia da lógica não é imperfeita, mas, como
bem disse o nosso caro contraditor, os axiomas usados como base é que podem não
ser absolutos. O erro não está na lógica. Nesse caso, estamos tão de mãos
atadas quanto a ciência. E assim como a ciência, que se apóia em axiomas
transitórios capazes de nos conduzir a verdades práticas, também assim o faz o
Espiritismo.
Só pedimos atenção para o fato de
que não estamos considerando os nossos axiomas transitórios, mas apenas
considerando que podem ser transitórios. Cremos que muitos de nossos axiomas,
que aqui dizemos poderem ser transitórios, são de fato absolutos, como aquele
que diz "Fora da Caridade não há Salvação". Consideramos muito difícil que esse
axioma seja um dia derrubado, assim como consideramos quase impossível que o
axioma "existe vida inteligente em outros mundos fora da Terra" não seja algum
dia confirmado.
Ainda aqui o Espiritismo está em
pé de igualdade com a ciência; com as mesmas dificuldades e com os mesmos tipos
de soluções.
citação:
Bom senso é, de certa forma, uma redundância, pois ter senso já é muito bom.
Situado em algum lugar entre um raciocínio linear e a intuição, ele também
esconde suas armadilhas. O senso comum de um povo pode diferir de outro, assim
como o juízo feito em determinada época se revelar equivocado na seguinte. Esta
subjetividade aliada às sutilezas que a Natureza fazem do "bom senso encarnado"
um contra-senso metodológico. Um exemplo:
A diversidade das raças corrobora, igualmente, esta opinião, O clima e os
costumes produzem, é certo, modificações no caráter físico; sabe-se, porém, até
onde pode ir a influência dessas causas. Entretanto, o exame fisiológico
demonstra haver, entre certas raças, diferenças constitucionais mais profundas
do que as que o clima é capaz de determinar. O cruzamento das raças dá origem
aos tipos intermediários. Ele tende a apagar os caracteres extremos, mas não os
cria; apenas produz variedades. Ora, para que tenha havido cruzamento de raças,
preciso era que houvesse raças distintas. Como, porém, se explicará a
existência delas, atribuindo-se-lhes uma origem comum e, sobretudo, tão pouco
afastada? Como se há de admitir que, em poucos séculos, alguns descendentes de
Noé se tenham transformado ao ponto de produzirem a raça etíope, por exemplo?
Tão pouco admissível é semelhante metamorfose, quanto a hipótese de uma origem
comum para o lobo e o cordeiro, para o elefante e o pulgão, para o pássaro e o
peixe. Ainda uma vez: nada pode prevalecer contra a evidência dos fatos.
(LE, cap III, ítem 59)
Há um acerto na questão que cronologia que realmente curta demais para permitir
variabilidades sensíveis entre as espécies. Porém, o encadeamento lógico
desanda quando generaliza para todo caso e qualquer intervalo de tempo. Kardec
usou o senso que tinha, mas a verdade subjacente à origem e diversidade das
espécies precisa das noções de evolução e mutações, que não são intuitivas.
Especulações à parte,o
espiritismo ainda possui problemas quantos à maneira de agregar o
"conhecimento" que colhe. Ele ainda está impregnado pelo modismo intelectual do
século XIX: o positivismo. Antes que se realce as características materialistas
deste sistema filosófico que pretendia reformar a sociedade e terminou por
querer criar a "religião da humanidade", deve-se lembrar de que ele também era
uma teoria da ciência, e foi esta a parte que inspirou a metodologia
kardecista. Em linhas gerais, pode-se dizer que o positivismo e suas escolas
derivadas (empirismo lógico, Círculo de Viena, etc) baseavam seus critérios na verificabilidade
de uma teoria. Um enunciado seria científico se pudesse ser sucessivamente
confirmado empiricamente. A não ocorrência do enunciado estabeleceria sua
falsidade. De fato, a noção de "Consenso Universal dos Espíritos" nada mais é
do que esta busca de contínua verificação. Quanto médiuns ao redor do mundo
dessem a mesma resposta a uma pergunta, maiores as chances de ela ser
verdadeira. Mas daí vêm alguns problemas- "o quanto de comunicações seria
necessário para se dizer 'é o bastante'?", "o que fazer com as respostas
destoantes?", "rejeitá-las, simplesmente?", "se podem haver influências do
médium na comunicação, não se deveria espalhar os questionários por diversos
locais distantes do globo – não apenas no universo europeu- para garantir que
não houve influência cultural ?".
As questões do senso comum e o
controle universal do ensino dos espíritos (CUEE) já foram tratados mais acima.
Não estabelecem verdades, mas diminuem as chances de erros. Quando não temos a
verdade absoluta podemos aderir aos sistemas que consideramos mais lógicos e
aceitos. Os nossos sistemas provieram através da observação e da revelação,
amparados pelo exame lógico e pelo consenso universal. Pelo menos aos nossos
próprios olhos, aderimos a um sistema (O Espiritismo) que não tem contradições
internas. É claro que já tentaram confrontar algumas declarações de Kardec a
respeito das raças, das guerras e das diferenças com o ensino moral proposto
pela doutrina, mas nenhuma dessas objeções ainda conseguiu evidenciar uma
contradição interna. Estamos esperando.
Temos absoluta convicção de que
muitos sistemas que, da mesma forma que o Espiritismo, também circulam por aí,
sem comprovação absoluta, não passam pelo critério da não contradição interna.
Nem mesmo o próprio materialismo, com todo o seu cientificismo, escapa à regra,
pois não consegue explicar (até onde sabemos) o livre-arbítrio e a metafísica,
que são fatos observáveis e que em princípio se contrapõem às leis do mundo
material.
Quando escolhemos o Espiritismo
como crença não foi porque ele continha todas as verdades absolutas, que
ninguém, aliás, tem, mas porque é considerado por nós o sistema mais lógico e
racional existente na Terra (dentro de tudo o que já observamos). Dizer isso
não é nenhuma demonstração de vaidade, orgulho ou presunção, pois, se
admitíssemos que o Espiritismo não é o mais lógico e racional, teríamos que
apontar qual então o era e estaríamos sendo incoerentes por não aderi-lo. Pode
ser demonstrado um erro futuramente no Espiritismo? Sim! Temos absoluta
convicção disso. Mas, ainda assim, preferimos aderir a um sistema com maiores
probabilidades de acertar do que aderir aos que estão certamente em erro ou que
têm menos probabilidades de acertar; ou ainda não aderir a nada, numa posição
cômoda de não comprometimento com a análise, como fazem os céticos.
citação:
Uma maneira simples de
questionar a verificabilidade seria indagar se, pelo fato de todos os cisnes de
um zoológico serem brancos, todos os membros da espécie também o são.
Poder-se-ia sair numa busca frenética atrás de todos os cisnes do mundo e cada
novo animal branco reforçaria a hipótese, tornando-a mais "verdadeira", mais
"provável". Simples engano, pois bastaria um único exemplar de cor diferente
para derrubar a teoria. Infelizmente, o suposto caçador de cisnes brancos se
desiludiria ao percorrer a Austrália, onde cisnes negros foram encontrados pela
primeira vez...
Já foi dito mais acima que observações parciais podem nos conduzir a verdades práticas, quando não absolutas.
citação:
Esta forma indutiva de
fazer ciência recebeu dura crítica do filósofo da ciência Karl Popper que,
divergindo dos neopositivistas dos quais fazia parte, propôs a falseabilidade
(ou refutabilidade empírica) como novo critério para a demarcação da
cientificidade de um enunciado. O que distingue uma ciência da pseudo-ciência é
a capacidade de a primeira ser refutada com base na experiência. Uma teoria é
válida quando resiste à refutação, podendo, então, ser confirmada. Esta mudança
de postura foi imensa e atividade científica passou a buscar não a confirmação
de suas próprias teorias, mas justamente o contrário: derrubá-las. Afinal, quem
merece mais crédito: um cidadão que testou mil vezes os postulados da mecânica
clássica ou um que lhes determinou um limite de validade? Lembra de Einstein?
Não concordamos absolutamente com
essa proposição que, como já dissemos, só se aplica à realidade observável e
praticamente extingue o processo de teorização, de abstração. Não podemos
falsear a hipótese de que existe vida em outros mundos, não podemos falsear a
teoria da reencarnação, mas elas não podem se tornar cientificamente inválidas
por causa disso, até porque são axiomas bastante prováveis, pelo que já foi
observado. Chamar essas teorias de pseudocientíficas é tão leviano como
aceitá-las cegamente e sem exame.
Vários ramos da ciência, como a
psicologia, a economia, a psiquiatria, a medicina e outras, dependem ainda do
método indutivo para avançarem. Um exemplo claro é quando os médicos disseram
que não haveria possibilidade de contágio da AIDS pela convivência, pelo aperto
de mãos, pelo beijo, pelo abraço, etc... E se houvesse uma variação não
observada no método de contágio; ou uma variação do vírus? É indutiva essa
informação e, no entanto, foi divulgada (a nosso ver acertadamente, pois se
evitou muito sofrimento por causa do risco de segregação). Então, existe um
limite prático, subjetivo, para a aplicação da falseabilidade e da repetibilidade
na ciência ou o descarte do indutivismo. Karl Popper é apenas mais um que
opinou em nome da ciência; as opiniões dele são válidas, mas não têm mais valor
que as outras e também têm o seus limites de aplicação.
Infelizmente alguns céticos não
enxergam isso e não avaliam muito bem antes de aceitar uma inovação ou rejeitar
métodos que consideram ultrapassados e retrógrados. Para derrubar um edifício é
sempre bom lembrar que é necessário construir outro que o substitua. Popper não
preenche as lacunas decorrentes da extinção do indutivismo.
As teorias espíritas são, em
grande parte, obtidas a partir do indutivismo, e não é por culpa do
Espiritismo; quisera ele poder usar os métodos popperianos, sempre. Mas não é
possível e, ao mesmo tempo, não podemos abrir mão de ensinamentos que são
praticamente óbvios e não contraditórios entre si. Então, preferimos correr o
risco de erro no uso da racionalidade e da lógica, provenientes da observação
amostral que temos acesso, do que não racionalizar em momento algum.
citação:
Nesta parte os
continuadores de Kardec deixam a desejar. Há um receio, ou talvez temor, em se
arrumar uma maneira de por à prova o que está escrito no Pentateuco. Enfoca-se
mais a parte filosófica-doutrinária, que se mantém quase sem arranhões justamente
por não ser passível de refutação, e se subestima os erros e equívocos que se
revelam por serem minoria dentro do corpo doutrinário. Mas são estes
"acessórios falhos" que englobam aquilo que nós seres materiais
podemos ter acesso e verificar por conta própria. São eles que lançam dúvidas
sobre as partes referentes ao "lado de lá". Por isto penso que o pior
lugar para se discutir o espiritismo é dentro de um centro espírita, o mesmo
vale para debates dentro de igrejas,partidos políticos e times de futebol.
Neste locais sempre se busca um consenso, nem que seja à força. Embates que
gerem novas idéias aparecem mais quando antagonistas se chocam. É irônico dizer
isto, mas os detratores do espiritismo, desde de cristãos radicais até
materialistas (e muitos me incluiriam neste bojo, também), lhe prestam um
grande favor. São eles que, por vias tortas, desempenham um papel que deveria
ser dos próprios espíritas. "Ciência também erra", diriam os
críticos. Concordo, os cientistas erram e uns vão atrás dos erros dos outros,
pois sabem que neles está a mola propulsionadora para o progresso. Uma atitude
perante ao erro melhor do que uma postura defensiva.
O centro espírita é um lugar de
estudos, principalmente, e não um lugar de embates ideológicos. Até seríamos a
favor que se abrisse um evento específico para isso, semanal, mensal,
bimestral, etc., dentro do centro; mas pensamos que os fóruns de discussão pela
Internet cumprem bem melhor esse papel e com vantagens. Depois, cada um, após
trocar as suas farpas em fóruns, leva a sua experiência para o seu centro
específico de estudos.
Como já foi dito, o centro é um local
de estudos e para tal deve haver um mínimo de consenso, sob o risco de as
atividades ficarem prejudicadas. Nas palestras, vamos para ouvir o ponto de
vista do palestrante e seria improdutivo ficar contestando-o o tempo todo. Nas
atividades normais também, como as mediúnicas, deve haver uma diretriz básica
de como as coisas funcionarão e contestações a toda hora perturbam os
trabalhos. Há o tempo e local somente de ouvir, o tempo e local de fazer e o
tempo e local de contestar.
Mas, se os antagonismos não
ocorrem dentro dos centros a toda hora, os antagonismos entre casas ocorrem.
Nos referimos aqui aos antagonismos salutares, aqueles resultantes da
divergência de opinião e não da maledicência recíproca. Se as pessoas pensam
muito diferentemente, são incentivadas a fundarem os seus próprios centros ou
grupos de estudo e lá desenvolverem suas atividades como julgarem conveniente.
Sobre isso Kardec escreveu:
A dificuldade, ainda grande, de reunir crescido número de elementos homogêneos deste ponto de vista, nos leva a dizer que, no interesse dos estudos e por bem da causa mesma, as reuniões espíritas devem tender antes à multiplicação de pequenos grupos, do que à constituição de grandes aglomerações. Esses grupos, correspondendo-se entre si, visitando-se, permutando observações, podem, desde já, formar o núcleo da grande família espírita, que um dia consorciará todas as opiniões e unirá os homens por um único sentimento: o da fraternidade, trazendo o cunho da caridade cristã. (grifos nossos) (O Livro dos Médiuns, cap. XXIX - DAS REUNIÕES E DAS SOCIEDADES ESPÍRITAS - Das Sociedades propriamente ditas)
Logicamente que Kardec não
recomendou a difusão de pequenos grupos porque esses grupos iriam todos pensar
da mesma forma. Nada contra os grupos grandes, mas é bem mais difícil conseguir
consenso em grupos maiores. Ele sabia que haveria dissensões e sugeria que
preferível era haver dissensões externas que internas, como foi dito acima. Se
alguém diz "queremos fazer diferente; não concordamos com a linha de pensamento
atual", então se recomenda que forme o próprio grupo, faça as experiências
conforme lhe convier e depois partilhe os resultados para que os outros grupos
possam aproveitar o seu sucesso ou insucesso. Dessa forma, todos os grupos
tenderão a resolver seus problemas de forma amistosa, com cada um respeitando o
direito de opinião do outro. Isso funciona bem para grupos que visam mais o bem
da causa que o próprio sucesso ou insucesso.
Na ciência também vemos o mesmo
acontecer. No século passado tínhamos o grupo de Edson e o grupo de Tesla.
Edson defendia o uso da corrente contínua; Tesla defendia o uso da corrente
alternada. Quem trabalhava com Edson supostamente se esforçava para fazer a
corrente contínua prevalecer em eficácia e eficiência. Quem trabalhava ao lado
de Tesla fazia o mesmo com a corrente alternada. Havia antagonismo externo, mas
consenso interno; e cada qual desenvolvia seus trabalhos da melhor forma possível,
sem distúrbios. Quando os trabalhos eram publicados, cada grupo aproveitava as
experiências do outro e quem ganhou no final das contas foi a Humanidade. É
claro que Edson se ressentiu quando sua proposta foi preterida, numa atitude
absolutamente infantil e antifraternal, mas isso não vem ao caso. Os grupos não
devem se ressentir quando outro obtém melhores resultados, usando métodos
antagônicos aos seus, mas aproveitar a experiência e corrigir a sua rota.
Infelizmente ainda não atingimos esse "estado da arte". Mas chegaremos lá.
Quanto ao que disse acima o nosso
caro contraditor, que nossos antagonistas nos prestam um grande favor,
concordamos em gênero, número e grau. Infelizmente muitos enxergam a crítica
num sentido depreciativo, mas os nossos críticos enxergam melhor os nossos
defeitos que nós mesmos e são grandes auxiliares no nosso progresso. Nosso
contraditor diz ainda que o papel de criticar o Espiritismo caberia aos
espíritas. Até concordamos, mas a principal função dos apologistas é defender a
idéia e não condená-la. A obrigação de condenar uma idéia é de quem não
concorda com ela. Os papéis, portanto, estão nos seus respectivos lugares. E
dessa luta entre os críticos e os apologistas, a vitória será da Humanidade,
que ficará com as teses que tiverem mais solidez.
A crítica ainda nos fornece a
oportunidade de colocar nossas convicções à prova, nos fazendo adquirir
experiência na tentativa de respondê-las. O que não apreciamos, contudo, são as
críticas caluniosas e as mentiras que muitos usam contra o Espiritismo na
intenção de denegri-lo. Infelizmente elas são muito comuns ainda hoje e temos
que lidar com isso.
Não concordamos que deixamos a
desejar no aspecto evolutivo da doutrina. Se não mudamos a teoria espírita
ainda é porque ainda não vimos motivos para mudanças. A nossa opinião a esse
respeito é totalmente consciente.
citação:
Há
críticas, porém, à aplicação da refutabilidade a ferro e fogo. Popper mesmo
admitiu a possibilidade de se utilizarem hipóteses auxiliares específicas para
se contornar uma dificuldade prática (ad hocs). Um exemplo tradicional
ocorreu na astronomia do século XIX: as observações da órbita do planeta Urano
não batiam com o previsto pela teoria da gravidade de Newton. Cogitou-se a
presença de um outro planeta ainda não descoberto estaria interferindo em sua
órbita e até se previu sua possível posição. Assim, Netuno foi descoberto e
confiança na Gravitação Universal restaurada. Baseado nesta e outras avaliações
históricas, Thomas Kuhn postulou que boa parte do tempo é gasta pelos
pesquisadores na avaliação das previsões de teorias e na reconciliação dos
dados discrepantes. Somente quando a quantidade de remendos chegasse a um nível
crítico, ocorreria a crise de paradigmas, na qual pressupostos antigos
são postos em cheque e novos são criados. Voltando às órbitas planetárias, pela
mesma época da descoberta de Netuno, tentou-se justificar as irregularidades na
órbita de Mercúrio pela presença de um planeta entre ele e o Sol, que foi
chamado Vulcano. Ninguém conseguiu encontrá-lo e o incômodo só foi resolvido
com a introdução da Relatividade Geral de Einstein, uma nova teoria de
gravitação que deu uma explicação satisfatória para este e outros fenômenos.
O problema da obra de
Kuhn é que não há uma definição precisa para "paradigma" (o cerne de
seu trabalho) e ele mesmo admitiu que perdeu controle do uso do termo. Mesmo
questionando Popper, de forma alguma defende o retorno ao indutivismo lógico
dos neopositivistas. E afinal, seria possível reconciliar o espiritismo com o
que diz a ciência por meio de hipóteses auxiliares?
Não entendemos que haja hoje
conflitos entre o que diz a ciência positiva e o Espiritismo. A ciência, embora
não concorde e não aceite muitas das teses espíritas, não conseguiu refutá-las
sequer com uma contra-teoria melhor e, ainda menos, com fatos.
É estranho também o fato de Kuhn
criticar Popper, não sugerir a volta ao indutivismo, nem também indicar um
método melhor que substitua ambos. Isso nos faz crer mais ainda que o
indutivismo não é tão ultrapassado quanto se apregoa e ainda tem a sua
utilidade na ciência moderna. Que nos indiquem métodos melhores de trabalharmos
nossas teorias e as abraçaremos com satisfação. Mas não eliminem uma
metodologia sem propor outra melhor, pois isso estagnaria o progresso. O indutivismo
ainda pode ser usado de forma delimitada e controlada, com bastante êxito nos
dias atuais. Essa é nossa opinião.
citação:
Bem, vale lembrar que
há critérios no uso de ad hocs. Eles também tem de ser passíveis de
corroboração. Um caso emblemático ocorreu com Galileu, quando ele verificou em
sua luneta que a superfície da Lua era irregular e cheia de crateras e
montanhas. Isto contrariava as idéias de Aristóteles ainda vigentes na época
segundo as quais a Lua seria perfeitamente esférica e lisa . Os neo-aristotelistas
partiram em defesa do antigo mestre e disseram que o espaço entre as montanhas
estava preenchido por uma substância invisível, que não podia ser detectável
aqui da Terra. Com isso garantiam qualquer chance de refutação seria
impossível. Galileu, muito inteligentemente, endossou a presença de tal
misteriosa substância, porém com uma diferença: ela se acumularia no topo das
montanhas, tornando a superfície do satélite ainda mais irregular. Que os
seguidores de Aristóteles provassem que ele estava errado! Ele mostrou que
suposições ad hoc são capazes de provar qualquer hipótese, até as
opostas. Este tipo de argumento pode ter até senso, mas pouco valor se não
houver nenhuma maneira de testá-lo. Do contrário haveria um verdadeiro jogo de
desonestidade intelectual: se der cara eu ganho, coroa você perde.
As hipóteses "ad hoc"
incomodam tanto a oposição quanto os apologistas de qualquer idéia.
Reconhecemos que às vezes encontramos coisas no nosso próprio meio que nos
parecem abusos. Mas infelizmente há muito pouco a se fazer, a não ser tentar
justificar o porquê de as hipóteses não serem possíveis ou pouco prováveis.
Essas hipóteses serão substituídas com o tempo pela verdade dos fatos, que a
ciência vai descortinando, ao mesmo tempo em que outras hipóteses "ad hoc"
surgirão para justificar outros pontos de vista que ainda não poderão ser
comprovados sob as novas condições do conhecimento.
Mas não é somente o movimento
espírita que eventualmente abusa dos "ad hoc". A postura cética também
não faz melhor. Ao serem confrontados os dados de Chico Xavier e William
Crookes, só para dar dois exemplos, onde se justifica o porquê de não poderem
ter sido charlatães, as hipóteses "ad hoc" mais esdrúxulas são criadas
para colocar em dúvida a moral de ambos. Se há critérios de uso dos "ad hoc"
do lado de cá, deve haver também do lado oposto.
citação:
Aí que reside o erro de
boa parte das defesas argumentativas do espiritismo: no abuso de ad hocs fracos.
Podem até dar uma aparente capa de racionalidade, mas estão próximos demais a
um comportamento pseudocientífico ou, no mínimo, de má-ciência. Um dos mais
problemáticos consiste na justificativa dada para explicar a ausência, até o
presente momento, de vida inteligente em outros planetas deste sistema solar,
mesmo após a investigação de sondas espaciais: os habitantes destes mundos
seriam feito de uma matéria "sutil" e invisível aos nossos
instrumentos. Não sei se há alguém brincando de esconde-esconde com os
robozinhos que pousaram em Marte, se estes aterrissaram em cima de desertos, ou
a civilização marciana se encontra no sub-solo. Enquanto nossos vizinhos não
mostrarem a cara, esta afirmação continuará digna de estar sobre o mesmo
pedestal de outras pérola do tipo: "a Terra tem apenas 6.000 anos, mas foi
feita para parecer que tem 4,5 bilhões" ou "objetos inanimados
possuem sentimentos, embora não sejam capazes de expressá-los".
Quanto à questão da vida
inteligente em nosso sistema solar, vamos tecer algumas considerações a
respeito: "Estamos
inserindo neste número da Revista, conforme havíamos anunciado, o desenho de
uma habitação de Júpiter, executado e gravado pelo Sr. Victorien Sardou como
médium, ao qual acrescentamos o artigo descritivo que teve a gentileza de
escrever a respeito. Seja qual for, sobre a autenticidade dessas descrições, a
opinião dos que nos poderiam acusar de nos ocuparmos do que acontece nos mundos
desconhecidos, quando há tanto o que fazer na Terra, rogamos aos nossos
leitores não perderem de vista que o nosso objetivo, como o indica o
subtítulo da revista é, antes de tudo, o estudo dos fenômenos, nada devendo,
portanto, ser negligenciado. Ora, como fato de manifestação, esses desenhos
são, incontestavelmente, os mais notáveis, se considerarmos que o autor não
sabe desenhar nem gravar, e que o desenho que oferecemos foi por ele gravado em
água forte, sem modelo nem ensaio prévio, em nove horas. Supondo que esse
desenho seja uma fantasia do Espírito que o traçou, o simples fato de sua
execução não seria um fenômeno menos digno de atenção e, a esse título, cabe à
nossa coletânea torná-lo conhecido, bem como a descrição que dele nos deram os
Espíritos, não para satisfazer a vã curiosidade das pessoas fúteis, mas como
objeto de estudo para quantos desejarem aprofundar-se em todos os mistérios da
ciência espírita. Incorreria em erro quem acreditasse que fazemos da
revelação de mundos desconhecidos o objeto capital da doutrina; para nós isso
não constituiria senão um acessório, que julgamos útil como complemento de
estudo. Para nós, o essencial será sempre o ensinamento moral, de sorte que
procuramos, nas comunicações do além-túmulo, sobretudo aquilo que possa
esclarecer a Humanidade e conduzi-la ao bem, único meio de lhe assegurar a
felicidade neste e noutro mundo..." (grifos nossos) (Revista Espírita,
ago/1858 - Observações a propósito dos Desenhos de Júpiter). Mais abaixo, no mesmo número da Revista, temos: "Se há um fato que gera perplexidade entre certas pessoas convencidas da existência
dos Espíritos – não nos ocuparemos aqui das outras – é seguramente a existência
de habitações em suas cidades, tal como ocorre entre nós. Não me pouparam de
críticas: "Casas de Espíritos em Júpiter!... Que gozação!..." – Que seja, nada
tenho a ver com isso. Se o leitor aqui não encontra, na verossimilhança das
explicações, uma prova suficiente de sua veracidade; se como nós, não se
surpreende com a perfeita concordância das revelações espíritas com os dados
mais positivos da ciência astronômica; numa palavra, se não vê senão uma hábil
mistificação nos detalhes que se seguem e no desenho que os acompanha, eu o
convido a pedir explicação aos Espíritos, de quem sou apenas o instrumento e o
eco fiel. Que ele evoque Palissy ou Mozart, ou outro habitante desse mundo
bem-aventurado; que sejam interrogados, que minhas afirmações sejam controladas
pelas suas; que, enfim, discutam com eles. Quanto a mim apenas apresento o
que me foi dado, repetindo somente o que me foi dito. E, por esse papel
absolutamente passivo, creio-me ao abrigo tanto da censura quanto do elogio."
(grifos nossos) (Revista Espírita, ago/1858 - As Habitações de Júpiter) Quanto aos outros "ad hoc"
supostamente utilizados, teríamos que comentar caso a caso, pois não dá para
fazer uma generalização e dizer que todos são abusos ou todos são legítimos.
Não entendemos, contudo, que os abusos são tão grandes como nosso caro
contraditor supõe. Já vimos muitos "ad hocs" ridículos para explicar
incoerências em obras subsidiárias, mas encontramos poucos relativos à própria
codificação espírita, que é a que nos interessa nessa discussão. citação: Ok. Já é um primeiro passo
reconhecer a existência do mundo espiritual, ainda que entenda que só falem
mentiras. citação: Acontece que: Quando se fala em "médiuns
insuspeitos", refere-se obviamente àqueles que nunca foram pegos em fraudes,
que não cobram por seus serviços, não trabalham com adivinhações baratas, que
não mostraram sinais de aberrações ou desequilíbrios no passado, ou que, em
caso tenham feito essas coisas, pelo menos se mostrem arrependidos, renunciando
o passado e que já há algum tempo considerado seguro tenham demonstrado sinais de
coerência doutrinária; enfim, aquele que se esforça por seguir os princípios
espíritas concernentes à parte moral. Isso não garante, contudo, que aquele que
até o presente momento se comportou bem vá continuar se comportando no futuro,
mas, pelo menos, é uma tentativa de se evitar os embusteiros. O médium
insuspeito não é necessariamente aquele que não se engana nas comunicações, mas
aquele que não tem intenção de enganar sobre suas comunicações. É subjetiva
essa escolha, como tudo o que concerne às ciências humanas. citação: Quanto às possibilidades de
comunicações que fizessem menção aos paradoxos quânticos ou rejeitassem as
teorias de superioridade racial, elas poderiam ser rejeitadas por dois motivos:
ou porque seriam realmente falsas ou porque o tempo para a reflexão desses
problemas ainda não teria chegado. Não adianta chegar uma nova teoria bela e
verdadeira, mas que ainda não estamos em condições de entender. Não adianta
querer ensinar equações diferenciais para quem ainda sequer aprendeu a derivar.
Elas seriam rejeitadas e viriam à tona num outro momento. Nenhum problema
nisso. O que não podemos é aceitar algo que parece ilógico, como verdadeiro,
sob o pretexto de que ainda não temos condições de entender. Isso seria uma
porta escancarada para a mistificação. 1o. Teríeis a bondade de dar-nos alguns esclarecimentos
sobre certas passagens de vosso último ditado, que nos parecem um pouco
obscuras? Nessa comunicação podemos subentender claramente as ondas
eletromagnéticas com o nome de "Eletricidade Espiritual", que mais tarde
possibilitariam as telecomunicações, que representariam "o pensamento do homem
transpondo o espaço" e que eliminaria o tempo que era necessário para nos
falarmos de um canto do mundo ao outro. Essa comunicação foi dada antes de
Maxwell descobrir as correntes de deslocamento, que é o que efetivamente
explica e equaciona as ondas eletromagnéticas. Talvez tenha sido sorte...
Fazendo um pouco mais de esforço interpretativo, poderíamos encontrar também a
idéia básica da teoria da relatividade quando o espírito diz que o tempo não
existe para eles. Durante a última doença que tivemos no mês de abril de 1866, estávamos
sob o império de uma sonolência e de um arrebatamento quase contínuos; nesses
momentos sonhávamos constantemente coisas insignificantes, às quais não
prestávamos a mínima atenção. Mas na
noite de 24 de abril a visão ofereceu um caráter tão particular que ficamos
vivamente impressionados. Essa comunicação foi dada 21 anos antes da invenção do
"pneu", por John Boyd Dunlop, que efetivamente revolucionou a locomoção. Claro
que "borracha enrolada sob a roda" não é um "pneu", mas poderia ser considerado
um seu precursor. ...Mas, os acontecimentos, mais fortes que as
maquinações em surdina, preparam no horizonte político um temporal bastante
violento e, quando a tempestade estalar, tratai de estar bem abrigados, de ser
bem fortes e muito desinteressados. Haverá ruínas, invasões, delimitações de
fronteiras e, desse naufrágio imenso, que virá da Europa, da Ásia, da América,
somente escaparão, ficai sabendo, as almas temperadas, os espíritos
esclarecidos, tudo o que for justiça, lealdade, honra, solidariedade. Aqui está claro que ele se refere aos acontecimentos que
abalaram o século XX, como as duas grandes guerras, mas não se referindo
somente a elas. Entre outras coisas não citadas, é quase profético
quando o espírito se refere aos "deserdados" russos, que ocorreu quando o
comunismo extinguiu a propriedade privada e confiscou tudo em nome da
revolução. Tudo segue a ordem
natural das coisas e as leis imutáveis de Deus não serão subvertidas. Não
vereis milagres, nem prodígios, nem fatos sobrenaturais, no sentido vulgarmente
dado a essas palavras. A comunicação acima também foi publicada na Revista
Espírita de outubro de 1866. Interessante ele dizer que o "vento" agitava os
Espíritos, pois o início da tempestade anunciada estava há aproximadamente mais
de 40 ou 50 anos à frente, e os seus causadores, em quase totalidade, não
haviam ainda nascido, estando, portanto, no mundo dos espíritos. Pergunta — A comunicação há
dias dada faz presumir, ao que parece, acontecimentos muito graves. Poderás
dar-nos algumas explicações a respeito? A comunicação acima dispensa maiores comentários após duas
grandes guerras mundiais. E, não!!! Não podemos fornecer evidências de que não
passam de coincidências circunstanciais ou de previsões "previsíveis". Cada um
que faça o próprio juízo. citação: Não é só a fala bonita que é analisada. É lógico que uma fala
bonita revela instrução e alguma inteligência, mas não é só isso que é levado
em conta. No nosso caso em particular, tendemos até a desconfiar de uma linguagem
muito empolada e do abuso de palavras como amor, caridade, paz, etc., porque já
vimos vários exemplos onde elas vêem acompanhadas de idéias esdrúxulas. Os exames
lógicos, o controle universal, a não contradição com os fatos científicos
positivos, são critérios que têm que ser igualmente atendidos. Isso não garante
a verdade, conforme já explicamos, mas diminui as chances de erro. E só mais
uma vez reforçando o que foi dito acima: um ensinamento só pode ser aceito como
verdade espírita se puder ser provado e entendido; caso contrário, deve ser
deixado fora da doutrina e não deve ser divulgado usando o nome "Espiritismo".
Os seus respectivos apologistas que usem seus próprios nomes para as inovações
que não podem ainda provar. citação: Obras de Pietro Ubaldi, Edgard Armond, por exemplo, não são
consideradas espíritas por não serem universalmente aceitas como verdades
adquiridas. Não é nenhum preconceito contra esses autores, apesar de termos a
nossa restrição às idéias expostas. Mas a doutrina espírita só incorpora
verdades ao seu corpo doutrinário, e não hipóteses, por mais lógicas e
racionais que pareçam. O Espiritismo caminha a passos seguros, e não sai
aceitando qualquer teoria que surja por aí. Uma verdade não precisa ser aceita
pelo Espiritismo ou pelos espíritas para ser verdade ou para se desenvolver.
Logo, temos absoluta convicção que o fato de não serem aceitas pelo Espiritismo
não interferirá em nada na sua pesquisa, no entendimento e na aceitação de tais
idéias por quem as ler e concordar. Elas não são espíritas, mas podem ser
investigadas por espíritas, pois o Espiritismo não proíbe ninguém de investigar
hipóteses não espíritas. Essa é uma medida criada por Kardec a fim de preservar
a doutrina de modificações indevidas, que mais tarde teria que se retratar, se
algum dia demonstradas falsas. A Federação Espírita Brasileira cometeu um
engano (em nosso entender, claro) ao aceitar o roustanguismo e agora tem
problemas para se livrar. Imagine se tivesse sido o Espiritismo quem o
aceitasse? citação: Provas documentais estão disponíveis às mancheias. Relatos
existem aos montes. Basta somente analisar, pois, ainda que mintam, acabam
revelando a verdade. Há também desenvolvimentos de métodos de transcomunicação
instrumental para atestar a existência dos espíritos. Qualquer um pode tentar,
no recanto do lar, manter comunicações com espíritos. É só preciso boa-vontade
para ir atrás das evidências materiais e asseguramos que quem o fizer
encontrará as provas de que precisa, se for com pensamento desprevenido, claro.
O Espiritismo, como ciência, não solicita e não goza de tratamento especial. citação: "(...) a descoberta
potencial pelos antropólogos de que o assassinato, o infanticídio, o genocídio
e a xenofobia podem ter caracterizado muitas sociedades humanas, podem ter
prosperado em muitas sociedades humanas e podem até ser benéficos para a
adaptação a determinados contextos não oferece nenhum apoio à pressuposição
moral de que devemos nos comportar dessa maneira". Isso já foi tratado mais acima. A finalidade do Espiritismo
é, principalmente, a moral. Mas a moral precisa se sustentar em fatos e,
portanto, as partes científica e filosófica existem para evidenciar esses
fatos. Ao constatar-se que espíritos existem, que alguns são felizes e outros
sofrem, e ao analisar-se o que aconteceu a cada um para vivenciar o estado que
vivencia, o Espiritismo seria uma ciência inútil se não tirasse conseqüências
(neste caso, morais) de tal estado de coisas, a fim de aconselhar os homens
sobre como devem se portar na vida terrena, objetivando merecerem a felicidade
e evitarem os sofrimentos. O Espiritismo seria omisso se não o fizesse. citação: As teses propostas na parte "Restauração de Dogmas" não são espíritas e não temos elementos
para afirmar se são ou não aceitas pela maioria dos espíritas, embora nós,
particularmente, não simpatizemos com elas. As teses lá propostas são de
espíritas, ou de espíritos, e não encontram apoio nem condenação na codificação.
Portanto, não vamos comentá-las. citação: Em primeiro lugar, está em erro quem diz que o Espiritismo
não possui os seus "dogmas", que alguns chamam de princípios ou postulados ou
axiomas, como queiram. O próprio Kardec e os espíritos usaram diversas vezes a
palavra "dogma" para se referir à reencarnação. É preciso desmistificar o uso
dessa palavra. Possuir dogmas não é a mesma coisa que ser dogmático. Ser
dogmático é rejeitar os fatos em função do dogma, e isso o Espiritismo não faz.
Para não haver dúvidas que Kardec considerava
essas explicações hipotéticas, seguem abaixo duas citações:
Outras afirmações especiais são um pouco mais sutis, dentro do cerne da metodologia.
Informações disparatadas são desculpadas não como fruto de uma comunicação
espiritual, mas do "psiquismo" do médium que colocaria idéias
próprias como sendo de "outrem". Kardec, supostamente, não soube
separar uma coisa de outras. Tal alegação apenas resolve os problemas das
comunicações presentes e futuras, mas nada pode dizer quantos às que foram
feitas no século XIX. Como se sabe onde houve contaminação da mente do médium
ou não? Parodiando Galileu, digo que as afirmações até agora não refutadas
foram feitas por cérebros encarnados, ao passo os erros pertencem apenas ao
mundo espiritual. Provem que estou errado!
E se houve contaminação da mente
do médium ou não, o que importa são as idéias e não o seu autor. Se as idéias
forem lógicas e justas, podemos aceitá-las igualmente, mesmo que tenhamos
dúvidas se houve ou não animismo. Mas há também a questão do controle universal
do ensino dos espíritos. A mente do médium pode interferir numa comunicação
aqui, mas não pode causar o mesmo tipo de interferência acolá. Há, portanto,
alguns meios de se identificar o animismo. Não é perfeito, contudo.
A separação do joio do
trigo nas comunicações, por sinal, ainda depende de uma metodologia precária,
que remonta a Kardec. Pode ser que se estude os efeito de "estados
alterados de consciência" sobre o cérebro com o mesmo aparato tecnológico
usado para se verificar os efeitos da oração ou meditação. Agora, o que se
extrairá disto só o futuro dirá. Dizer que alguém está tendo acesso a uma
verdade superior só de olhar uma tomografia pode ser ambicioso demais no
momento. Os critérios adotados são indiretos e foram assim catalogados por
Herculano Pires em quatro pontos principais:
"1) Escolha de colaboradores mediúnicos insuspeitos, tanto do ponto de vista
moral, quanto da pureza das faculdades e da assistência espiritual;
"2) Análise rigorosa das comunicações, do ponto de vista lógico, bem como do
seu confronto com as verdades científicas demonstradas, pondo-se de lado tudo
aquilo que não possa ser justificado;
"3) Controle dos Espíritos comunicantes, através da coerência de suas
comunicações e do teor de sua linguagem;
"4) Consenso universal, ou seja, concordância de várias comunicações, dadas por
médiuns diferentes, ao mesmo tempo e em vários lugares, sobre o mesmo assunto".
1)Há um elevado grau de
subjetividade aqui. Não há técnicas confiáveis para avaliar tais atributos em
encarnados, que dirá da "assistência espiritual";
2)Já foram ditas as
deficiências da lógica em garantir se algo é verdadeiro ou não. Quanto a
limitar o crédito apenas às mensagens que corroborem o conhecimento vigente,
está se perdendo uma bela oportunidade de se colocar comunicações sob teste. Um
conjunto de relatos em meados do século XIX que fizesse menção aos paradoxos
quânticos e relativísticos ou rejeitasse as teorias de superioridade racial
seria rejeitado segundo esse critério, uma oportunidade teria ido embora.
Preferiu-se ficar à sombra do que já era conhecido como uma forma de provar uma
mensagem, quando o mais interessante seria um conteúdo ainda desconhecido para
justamente pô-la à prova algum dia. Uma crítica muito freqüente é a falta de
descobertas científicas através de mediunidade. Nenhuma cura de doença, dedução
de um teorema difícil, sítio arqueológico relatado, ou mesmo uma literatura digna
de prêmio Nobel. Para isto existe mais um ad hoc: Os espíritos não
trazem nenhum conhecimento pronto porque isto tira o nosso mérito em progredir
pelo próprio esforço. Espere aí, não tire o corpo fora. Ninguém falou em seres
astrais super-protetores transformando a humanidade encarnada em um bando de
indolentes. Pede-se apenas que alguma jóias sejam oferecidas para que se tornem
"evidências extraordinárias para alegações extraordinárias". E é bom
que se diga que ao relatar civilizações extraterrenas, expor teorias da Lua,
defender abiogênese e afirmar que a medicina espiritual curaria doenças letais
da época, se trouxe, sim, informações que deveríamos descobrir por nós mesmos;
portanto essa desculpa é muito furada.
Aliás, os espíritas podem rejeitar
a nova teoria, mas isso não impede que seus apologistas mantenham a comunicação
que, se for verdadeira, pode receber a comprovação um dia. Nenhuma idéia
precisa do Espiritismo para se desenvolver.
Quanto ao que nosso caro
contraditor diz que "ficamos à sombra do conhecimento existente" e perdemos a
oportunidade de ter uma teoria comprovada no futuro, pedimos que espere o
futuro chegar. A finalidade do Espiritismo não é se ocupar de previsões, mas
cuidar de auxiliar o desenvolvimento moral do homem. Quando as previsões sérias
são dadas, elas têm uma razão mais forte do que simplesmente satisfazer a
curiosidade e a imaginação das pessoas. Mas, para não dizer que não temos nada,
cito abaixo algumas comunicações que foram dadas e que se constituíam em
previsões ou idéias precursoras que, em nosso entender, se verificaram:
Resp. – Farei o que me for possível no momento.
2o. Dizeis: a eletricidade, essa sutileza entre o
tempo e o que não é mais o tempo, entre o finito e o infinito, esta frase
não nos parece muito clara. Teríeis a bondade de expô-la mais detalhadamente?
Resp. – Explico-me assim, da maneira mais simples que posso. Para
vós o tempo existe, não é mesmo? Mas não existe para nós. Assim defini a
eletricidade: essa sutileza entre o tempo e o que não é mais o tempo, porque
esta parte do tempo do qual outrora devíeis servir para vos comunicardes de um
a outro extremo do mundo, esta porção do tempo, digo eu, não existe mais. Mais
tarde virá a eletricidade, que não será outra coisa senão o pensamento do
homem, transpondo o espaço. Com efeito, não é a imagem mais compreensível entre
o finito e o infinito, o pequeno meio e o grande meio? Quero dizer, em síntese,
que a eletricidade suprime o tempo.
3o. Mais adiante dizeis: Não conheceis ainda senão a
eletricidade material; mais tarde conhecereis também a eletricidade espiritual.
Por isto entendeis os meios de comunicação de homem a homem, por via
mediúnica?
Resp. – Sim, como progressos médios; outra coisa virá mais tarde.
Dai aspirações ao homem: a princípio ele adivinha; depois vê.
(Revista Espírita, ago/1860, Desdobramentos da comunicação anterior
(Sobre a Eletricidade Espiritual) (negrito nosso) (A Eletricidade Espiritual)).
Num lugar que nada lembrava à nossa memória e que se parecia com uma rua,
havia uma reunião de indivíduos que conversavam; nesse número só alguns nos
eram conhecidos em sonho, mas sem que os pudéssemos designar pelo nome. Considerávamos a multidão e procurávamos
captar o assunto da conversa quando, de repente, apareceu no canto de uma
muralha, uma inscrição em letras pequenas, brilhantes como fogo, e que nos
esforçamos por decifrar. Estava assim
concebida: "Descobrimos que a
borracha enrolada sob a roda faz uma légua em dez minutos, desde que a
estrada..." Enquanto procurávamos o
fim da frase, a inscrição apagou-se pouco a pouco e nós acordamos. Temendo esquecer estas palavras singulares,
apressamo-nos em as transcrever.
Qual podia ser o sentido dessa visão, que nada, absolutamente, em
nossos pensamentos e em nossas preocupações podia ter provocado? Não nos ocupando nem de invenções, nem de
pesquisas industriais, isto não podia ser um reflexo de nossas idéias. Depois, que podia significar essa borracha
que, enrolada sob uma roda, fazia uma légua em dez minutos? Era a revelação de alguma nova propriedade
dessa substância? Seria ela chamada a
representar um papel na locomoção? Queriam pôr-nos no caminho de uma descoberta? Mas, então, por que se dirigir a nós, e não a homens especiais,
em condições de fazer os estudos e as experiências necessárias? Contudo, o sonho era muito característico,
muito especial, para ser arrolado entre os sonhos de fantasia; devia ter um
objetivo; qual? É o que procurávamos
inutilmente.
(....)
No dia seguinte ele (Dr. Demeure) nos deu esta explicação:
"O que viste no sonho que me encarreguei de vos explicar não é uma
dessas imagens fantásticas, provocadas pela doença; é, realmente, uma
manifestação, não de Espíritos desencarnados, mas de Espíritos encarnados. Sabeis que no sono
podemos nos encontrar com pessoas conhecidas ou desconhecidas,
mortas ou vivas. Foi este último caso
que se deu naquela circunstância. Os
que vistes são encarnados que, de forma isolada e sem se conhecerem,
ocupam-se de invenções tendentes a aperfeiçoar os meios de locomoção, anulando,
tanto quanto possível, o excesso de despesa causada pelo desgaste dos materiais
hoje em uso. Uns pensaram na borracha,
outros em outros materiais; mas o que há de particular é que quiseram chamar
a vossa atenção, como assunto de estudo psicológico, sobre a reunião, num
mesmo local, de Espíritos de diversos homens, perseguindo o mesmo
objetivo. A descoberta não tem relação
com o Espiritismo; é apenas o conciliábulo dos inventores que vos quiseram
mostrar, e a inscrição não tinha outra finalidade senão especificar, aos vossos
olhos, o objetivo principal de sua preocupação, pois há alguns que procuram
outras aplicações para a borracha. Ficai persuadido de que assim o é muitas vezes, e que quando vários
homens descobrem ao mesmo tempo, quer uma nova lei, quer um novo corpo, em
diferentes pontos do globo, seus Espíritos estudaram a questão em conjunto,
durante o sono e, ao despertar, cada um trabalha por seu lado, tirando proveito
do fruto de suas observações."
"Notai bem que aí estão idéias de encarnados, e que nada
prejulgam quanto ao mérito da descoberta. Pode ser que de todos esses cérebros em ebulição saia algo de útil, como
é possível que só saiam quimeras. Desnecessário dizer que seria inútil interrogar os Espíritos a respeito;
sua missão, como dissestes em vossas obras, não é poupar ao homem o trabalho
das pesquisas, trazendo-lhe invenções acabadas, que seriam outros tantos
estímulos à preguiça e à ignorância. Nesse grande torneio da inteligência humana, cada um aí entra por conta
própria e a vitória é do mais hábil, do mais perseverante, do mais corajoso."
(Revista Espírita, junho/1866 – Um sonho Instrutivo).
(...)
Pouco importa que
o Sol não se esconda sobre as vossas conquistas (da Rússia), nem por isso
haverá menos deserdados, menos ranger de dentes, todo um inferno ameaçador e de
fauces escancaradas como a imensidade. (Obras Póstumas – Minha primeira
iniciação no Espiritismo – Precursores da Tempestade – 30/01/1866)
Não olheis para o
céu em busca dos sinais precursores, porquanto nenhum vereis, e os que vo-los
anunciarem estarão a enganar-vos. Olhai em torno de vós, entre os homens: aí é
que os descobrireis.
Não sentis que um
como vento sopra sobre a Terra e agita todos os Espíritos? O mundo se acha na
expectativa e como que presa de um vago pressentimento de que a tempestade se
aproxima. (Obras Póstumas – Minha primeira iniciação no Espiritismo –
Regeneração da Humanidade – 25/04/1866).
Resposta — Não podemos
precisar os fatos. O que podemos dizer é que haverá muitas ruínas e desolações,
pois são chegados os tempos preditos de uma renovação da Humanidade.
P. — Quem causará
essas ruínas? Será um cataclismo?
R. — Nenhum
cataclismo de ordem material haverá, como o entendeis, mas flagelos de toda
espécie assolarão as nações; a guerra dizimará os povos; as instituições
vetustas se abismarão em ondas de sangue. Faz-se mister que o velho mundo se
esboroe, para que uma nova era se abra ao progresso.
P. — A guerra não se
circunscreverá então a uma região?
R. — Não, abrangerá a
Terra.
(Obras Póstumas –
Minha primeira iniciação no Espiritismo – Acontecimentos – 07/05/1856).
3)Se falar bonito fosse
sinal de idoneidade, então os 171 da vida seriam os melhores mentores da
humanidade. Este critério é por demais ingênuo. Farsantes deste (e quem sabe do
outro) mundo usam palavreado florido e conceitos científicos pouco conhecidos
do grande público como uma forma de dar pretensa autoridade. Magnetismo e
mecânica quântica, então... isto me faz pensar se algum desse sábios
espirituais seria ao menos capaz de resolver uma equação diferencial que se
preze.
4)O "consenso
universal", além do problema de ser indutivista, se mostra cada vez mais
regional. Diferenças já apareciam no século XIX ( espiritismo inglês,
roustaignismo e até em diferenças entre a primeira e segunda edição do LE).
Isto aumentou no século XX com novos grupos Nova Era e espiritualistas
(não-kardecistas) com suas doutrinas e interpretações próprias. Uma resposta
dada a isto foi que estes relatos divergentes não são dados por espíritos que
fizeram parte da original "Falange do Espírito da Verdade"
(relativa), que auxiliou Kardec. Entretanto, é difícil definir - se é que isto
não seria arbitrário - quem pertence a esta casta de "autorizados" ou
não. As obras de Edgar Armond e Pietro Ubaldi, por exemplo, são controversas
ainda, existindo quem os considere como continuadores e complementares à
codificação, e aqueles que toleram estes autores apenas como fundadores de
outras vertentes espiritualistas. Só para citar, em um exemplar da revista
Visão Espírita (ano 2, número 20, pág. 20, Editora Seda) se encontra um anúncio
dos livros de Ubaldi. Como diz o velho ditado: "filho feio não tem
pai".
Quanto às outras doutrinas espiritualistas com interpretações
próprias, desejamos-lhes boa sorte em suas práticas e interpretações, muito
embora não lhes prestemos solidariedade ideológica. Se fizerem melhor do que
nós, só teremos a aplaudir e imitar-lhes um dia.
Alguém pode estar pensando que toda a preleção
feita acima se refere apenas às ciências experimentais, não tendo nenhuma
relação com outros campos. De que maneira poderia o um astrônomo analisar
astros tão distantes, um paleontólogo tratar como ratinho de laboratório um
animal morto a milhões de anos e um historiador voltar no tempo para assistir a
uma importante batalha. Elas não estão sujeitas aos testes popperrianos de
refutação.
Nada mais falso! Campos de
estudos que se valem de análise indiretos podem (e devem), sim, ter suas
teorias postas em xeque. Um astrônomo pode cogitar sobre os elementos que
compõem uma estrela e verificar se está certo analisando o espectro de luz
emitido por ela. A teoria da evolução pode ser refutada se se descobrir um ser
vivo cuja origem não pode explicada ou se encontrar um fóssil de humano moderno
ao lado do de um dinossauro, tudo que se imaginava acerca de um evento
histórico pode sofrer uma reviravolta com a revelação de um novo documento
apresentando nova versão dos fatos. Ciências não-experimentais baseiam-se no
controle criterioso de seus dados, na dúvida sistemática, na aplicação de
dedução, eliminação de de preconceitos baseados na autoridade ou no bom senso,
na busca de contra-provas que possam ser previstas a partir das hipóteses
formuladas. Em suma, tudo que já foi exposto acima e o espiritismo deixa a
desejar. O fato de espíritos (se existirem) não serem acessíveis diretamente
não dá ao espiritismo o direito de ter um tratamento especial.
Uma questão ainda pendente
é o da "ciência com conseqüências morais". Mesmo que o espiritismo
fosse ciência, seria muito arriscado fazer juízos morais baseados em noções
científicas. Nas palavras de Stephen J. Gould:
(Extraído de Pilares do Tempo, parte 2, Definição
e defesa dos ministério não interferentes).
Se alguns acham que o Espiritismo está errado na dedução
dessas conseqüências, que virem o rosto. O Espiritismo não promete nada a
ninguém, nem mesmo que esteja com a razão. Quem o aceita o faz por conta e
risco e, se errar na escolha, assumirá sozinho as conseqüências de seus erros.
O Espiritismo apenas externa suas conclusões e opiniões, cabendo a cada um
analisar, para aceitá-las ou rejeitá-las.
Certo que o espiritismo não chega a propor as
coisas do exemplo de Gould, mas há as conclusões quanto ao transplante de
órgãos citadas na parte "Restauração de Dogmas". Foram afirmações de
cunho moral muito duvidoso, tanto que nem são (creio eu com minha experiência
humilde no meio) aceitas pela maioria dos espíritas. Ficam como amostras do
tipo de equívoco que pode acontecer.
Há um último comentário a
ser feito que não se encontra na tabela do começo do tópico. Os espíritas se
colocam fora do conjunto das demais religiões tradicionais por possuírem
postulados, ao contrário das demais crenças cristãs que se baseiam em dogmas.
Bem, até que ponto isto é verdade vai depender da maneira como der nome aos
bois.
Dogmas e postulados
partilham entre si a qualidade de serem aceitos sem demonstração. Não vale a
regra que dogmas seriam os mistérios da fé mais esdrúxulos, ao passo que
postulados seguiriam mais a intuição. Ambos podem ser pontos de partida para
raciocínios lógico, ainda que de conclusões duvidosas.
"As definições são
dogmas; somente as conclusões retiradas delas podem proporcionar-nos nova
perspectiva"
K.Menger, citado por
Popper.
Então qual a diferença? A
principal distinção se dá através do uso de cada um. Campos de estudo continuam
existindo mesmo após uma profunda revisão de seus princípios. Por isso a
conseguiu fazer a mudança de seus paradigmas no começo do século XX, a biologia
continuou existindo após descrença do "princípio vital" como motor da
vida e a geometria alargou seus horizontes para muito além de Euclides. Já uma
doutrina, não. O catolicismo sofreria um baque sem a virgindade de Maria antes
e após o parto; o protestantismo, não. Ambas rejeitariam com veemência a
descoberta de um hipotético cadáver de Cristo, comprovando que ele não
ressuscitou, nem ascendeu aos céus. Elas perderiam a razão de ser sem este
dogma.
Bem, você pode pensar que
o espiritismo está livre desta porque a única maneira de refutá-lo é provar que
a mente não sobrevive à morte do corpo, não é? Não, não é. isto valeria para o
espiritualismo no sentido mais amplo da palavra. O espiritismo tem uma
quantidade maior de pressupostos, o que torna-o mais frágil. Uma prova da
sobrevivência da mente ao fim do corpo apenas prova isto: a vida após a morte;
não garante nada a respeito da existência de um deus ou regras de "ação e
reação" (karma). Deuses podem muito bem continuar não existindo ou não
dando a mínima para o que fazemos e até serem imperfeitos, que a vida após a
morte não seria um contra-senso. O budismo theravada vive muito bem sem um
deus. A reencarnação pode ser um fato como muitos se esmeram em provar, mas ela
tem mesmo de ser do jeito que Kardec diz? Poderia se dar por um processo
aleatório, independente de um karma; mais de uma essência (ou alma) poderia se
reunir em um mesmo ou uma mesma essência se dividir para corpos distintos,
possibilidade também aceita por vertentes budistas; novas almas poderiam ser
geradas junto com feto, sem nenhum karma passado. Deus, reencarnação,
espíritos, karma; espíritas acham que estes conceitos forma um bloco monolítico
e que a existência de um depende dos outros, o que não é verdade. Há mais
pressuposto que não foram ditos, mas apenas com estes eu pergunto: pode o
espiritismo mudar ou até excluir algum deles sem ter que mudar de nome? Se a
resposta for um estrondoso SIM, quem sabe exista ainda um modo de mudar a
atitude dos espíritas e dar-lhes mais rigor. Se a resposta possuir alguma
espécie de "se", então estamos diante de um religião ou, com boa
vontade, uma filosofia, nunca uma ciência. O espiritismo possui inspiração racionalista,
mas isto não basta para fazer dele um campo de pesquisa.
O dogma tem duas implicações num sistema doutrinário: deve
ser absolutamente imutável e deve ser fundamental para o sistema doutrinário.
Normalmente não se consideram dogmas as teses não fundamentais. Por exemplo:
são dogmas espíritas a reencarnação, a existência de Deus, a sobrevivência e
imortalidade da alma, e outros. No item VI da introdução de O Livro dos
Espíritos estão sumarizados todos os "dogmas" espíritas. E nosso caro
contraditor está certo quando diz que qualquer um deles que caia, leva a doutrina
espírita para o chão junto com ele, tornando-a inviável como possibilidade de
verdade. Mas, por exemplo, a existência de vida em Júpiter conforme foi
descrito na RE, não é um dogma espírita. O Espírito de Verdade ser Jesus não é
um dogma espírita. São teses mutáveis em função dos fatos e a doutrina não é
abalada por causa deles.
Um sistema doutrinário, possuidor de "dogmas", também pode
ser científico. Basta relembrar novamente o Principia de Newton com o
dogma do tempo absoluto. Mesmo esse dogma tendo sido refutado, o Principia
não se sustenta sem ele. Se tirarmos esse "dogma" da Física Clássica, esta
perde a sua identidade e deixa de ser Física Clássica. A Física Clássica é,
portanto, um sistema doutrinário, com dogmas, mas nem por isso menos científico.
O problema do dogma não é o dogma em si, mas o dogma falso.
Se o Espiritismo possui algum dogma falso, a doutrina vai cair, mais cedo ou mais
tarde. Basta esperar o tempo e a crítica executarem seus trabalhos. Mas se são
verdadeiros, não há nada que possa ir contra a doutrina espírita.
Se os dogmas espíritas tivessem sido escolhidos
aleatoriamente, eu concordaria que uma maior quantidade deles denotaria maior
fraqueza, probabilisticamente falando. Mas os dogmas foram escolhidos
racionalmente. Não é a quantidade de dogmas que tornaria a doutrina espírita
vulnerável, mas a eventual falta de solidez de algum deles. Ainda que o
Espiritismo tivesse 1000 dogmas estabelecidos, isso não seria um problema se os
mil fossem verdadeiros. Mas ainda não chegou o tempo que os dogmas espíritas
serão derrubados.
Quanto à questão de a reencarnação ser do "jeito que Kardec
diz", dizemos que não poderia ser concebida de outra forma. A reencarnação, em
existindo, precisa ser um processo controlado inteligentemente. Senão, haveria
problemas insolúveis:
Essas não são as únicas dificuldades e elas são imensas se não
consideramos um processo de controle inteligente na reencarnação. À crer nisso,
mais racional seria não crer na reencarnação de modo algum. E um processo
inteligente, para ser eficiente, precisa ser justo, pois "um reino dividido
contra si mesmo não subsistiria e seria destruído".
Rafael Gasparini Moreira
Paulínia/SP
Jan/2008
e-mail: rafael.gasparini@gmail.com
Bibliografia consultada:
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