ESPIRITISMO E -

Resposta ao bispo D. Boaventura Kloppenburg

"Deixemos nossas diferenças de lado e tentemos construir uma melhor relação para o futuro com as convicções que temos em comum". (João Paulo II)

“É tempo para tirarmos o Cristo e seu Evangelho da penumbra das igrejas e seitas, do meio das controvérsias teológicas, e lançá-las à luz meridiana do mundo e do universo. O Cristo não é telúrico, muito menos eclesiástico – ele é cósmico, universal”. (ROHDEN, H.)

Se a pobreza dos argumentos contra o Espiritismo é manifesta nas obras sérias, sua nulidade é absoluta nas diatribes e artigos difamatórios onde a raiva impotente se trai pela grosseria, pela injúria e pela calúnia”. (KARDEC).

Introdução

Temos em nossas mãos um livreto - livreto mesmo, pequeno no tamanho e pobre em conteúdo -, intitulado “Espiritismo e Fé”, de autoria de Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M, bispo emérito da Diocese de Nova Hamburgo, RS, cujo teor iremos comentar no decorrer deste estudo, pois a nós Espíritas a única coisa proibida é proibir, ou seja, podemos ler até o que nos é contrário. Sabemos pelas Escrituras que “... onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade” (2Cor 3,17), o que justifica proporcionar plena liberdade a todos. Diante disso, lemos tudo quanto acharmos conveniente sem qualquer tipo de "Index Librorum Proibitorum", já que é direito inalienável de cada um ler o que desejar, como é o nosso o de defender o Espiritismo.

Por outro lado, na mesma proporção, cada um de nós tem o dever de respeitar a opinião alheia sobre qualquer assunto, principalmente no campo religioso, cuja liberdade é consagrada pela Constituição Brasileira. Fôssemos um advogado a primeira coisa que faríamos seria escolher uma pessoa de destaque, como se diz popularmente, um peixe bem graúdo, que tenha desrespeitado esse direito de nós, os Espíritas, e entraríamos na Justiça só para vê-lo responder por seu erro.

Ficamos realmente indignados com atitudes como essa, e por esse motivo, já antecipadamente pediremos desculpas se nos tornarmos eventualmente ácidos em nossas considerações. Confessamos que nossa evolução espiritual não nos permite alcançar vôo mais alto, de modo a agir com tolerância e mansidão em todos os momentos.

Quando vemos líderes religiosos ou qualquer pessoa que tenha a coragem de se dizer cristã cometendo fatos lamentáveis como esses, ficamos querendo descobrir de quem é o exemplo que seguem. Temos nos esforçado para estudar o Evangelho a fim de encontrar ali alguma coisa em que essas pessoas possam tomar como base para o que fazem. Felizmente não encontramos, pois se encontrássemos colocaríamos Jesus agindo de igual modo, coisa incompatível com sua evolução espiritual.

Passemos agora às nossas argumentações e considerações sobre o livreto em questão.

Análise do texto

A PERPLEXIDADE DOS CATÓLICOS

Mil vezes me pediram para explicar por que a Igreja Católica não aceita o espiritismo.

É a mãe católica, aflita porque o filho ou a filha freqüentam sessões espíritas e que deseja saber como deve comportar-se.

É a esposa atribulada com o marido simpatizante da umbanda.

É o viúvo com saudades da falecida, que estaria baixando no centro.

É o doente que indaga se pode aceitar os passes do médium.

É a catequista desarmada diante das perguntas dos alunos.

É o agente de pastoral com um amigo espírita, homem excelente.

É o iludido, alegando que o terreiro tem até nome de santo.

É o tolerante que não se incomoda com a transgressão da lei divina que proíbe a evocação dos mortos.

É o simpatizante que não percebe incompatibilidade alguma entre a doutrina espírita e a fé cristã.

É o curioso que quer conhecer o espiritismo. É o crítico que quer saber melhor como são as coisas depois da morte.

É o cético para quem todas as religiões são boas. É o liberal achando que as questões religiosas não se discutem.

É o entusiasmado, encantado com um livro de Chico Xavier.

É o caridoso em visita à creche mantida pelo centro.

É o folclorista para quem o candomblé é uma beleza.

É o neurótico que se deixou persuadir de que deve desenvolver a sua mediunidade.

É o médium que pretende continuar católico e se sente realizado no exercício da caridade mediante o além.

É o oficial da cruzada dos militares espíritas, que se diz guiado por São Maurício.

É o chofer de táxi a meu lado, comentando que Allan Kardec é formidável.

É o sacristão que me explica com entusiasmo a cura de seu amigo que foi ao terreiro.

É a criança a reclamar contra papai que não a deixa ir ao centro.

É o telespectador diante da comovente novela espírita.

É o radiouvinte que escutou a mensagem mediúnica.

É o amigo a acreditar que o espiritismo é só ciência e filosofia, e não religião.

Foi pensando em todos estes meus consulentes que escrevi o presente opúsculo. É apenas um resumo. Informações mais amplas ou críticas mais aprofundadas se encontram na obra maior com o título Espiritismo. Orientação para os católicos, publicada pelas Edições Loyola.

Peço ao Divino Espírito Santo que ilumine os que lerem estas páginas, para que vejam e entendam as razões por que o católico não aceita o espiritismo. Redigi-as movido pela caridade pastoral, pela urgência do esclarecimento solicitado por tantos fiéis católicos e pelo desejo de ser ao mesmo tempo claro na exposição, rigoroso na argumentação, lógico na dedução e fiel à doutrina cristã. Seu gênero literário não é de diálogo com os espíritas, que merecem o meu respeito embora deles divirja, mas de orientação para os católicos.

É raro encontrar alguém que vá falar mal de alguma coisa sem buscar uma boa justificativa para isso, exatamente como acontece aqui com esse líder religioso. Vamos provar, no decorrer desse estudo, que infelizmente pelo nível de conhecimento, que acreditamos possuir, deveria ter estudado muito o Espiritismo, pois é inadmissível alguém de alta posição falar daquilo que não conhece. Justamente, por isso, é que percebemos sua má-fé. Para iniciar observem os termos usados no texto: “umbanda”, “baixando no centro”, “terreiro”, “candomblé”. Quem estuda o Espiritismo sabe perfeitamente que isso não tem nada a ver com suas práticas, como também sabe que isso é apenas argumento falacioso dos detratores que vêem nisso uma boa forma de “espantar” seus fiéis da busca do conhecimento Espírita. Dizemos busca do conhecimento, pois não ficamos atrás de ninguém para que se torne adepto do Espiritismo, já que, conforme já o dissemos, respeitamos o direito de cada um seguir aquilo que melhor lhe conviver. E quem se deu a trabalho de ler Kardec, mesmo que somente para combater o Espiritismo, fatalmente deve de lido também que:

O Espiritismo tem por fim combater a incredulidade e suas funestas conseqüências, fornecendo provas patentes da existência da alma e da vida futura; ele se dirige, pois àqueles que em nada crêem ou que de tudo dividam, e o número desses não é pequeno, como muito bem sabeis; os que têm fé religiosa e a quem esta fé satisfaz, dele não têm necessidade.

Àquele que diz: “Eu creio na autoridade da Igreja e não me afasto dos seus ensinos, sem nada buscar além dos seus limites”, o Espiritismo responde que não se impõe a pessoa alguma e que não vem forçar nenhuma convicção. (KARDEC, A. O que é o Espiritismo, p. 123).

Interessante é que cada vez mais nos convencemos que o Espiritismo é o caminho verdadeiro, caso contrário não se gastaria tanto tempo e dinheiro para combatê-lo, e só o combatem por medo de que venha a mostrar o povo a verdade que eles não pregam. Ninguém, em sã consciência, combate àquilo que acha insignificante, isso é certo.

Mas são hábeis na forma de agir, pois dificilmente um leigo irá perceber as suas verdadeiras intenções, a esse lhes parecerá que estão inclusive fazendo um bem, querendo esclarecer os outros, quando no fundo é um ataque proposital mesmo, embora sutilmente disfarçado como prédicas evangélicas, que se parecem doces como mel, mas no fundo são amargas como fel.

CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS

Há muitas coisas em comum entre catolicismo e espiritismo. Católicos e espíritas concordam em professar que o mundo não é só matéria; que Deus existe e é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom; que 'Deus criou o universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais; que os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo e os seres imateriais o mundo invisível dos espíritos; que os valores do espírito são superiores aos da matéria; que o ser humano não é só matéria; que temos uma alma de natureza espiritual; que esta alma não morre quando se separa do corpo no momento do desenlace; que depois da morte a nossa alma continua viva e consciente; que a vida depois da morte depende do modo como aproveitamos a vida agora no corpo.

Católicos e espíritas estão de acordo também em afirmar que os falecidos não rompem seus laços com os que ainda vivem nesta terra; que no mundo do além nem todos são iguais; que há espíritos perfeitos que vivem com Deus; que estes espíritos nos podem socorrer e ajudar; que há espíritos imperfeitos e até maus que assim se fizeram por próprio arbítrio; que estes nos podem perturbar e prejudicar.

Católicos e espíritas proclamam e reconhecem a extraordinária figura de Jesus Cristo; que Jesus nos ensinou o caminho do bem e da salvação; que as leis morais do Evangelho são excelentes; que Jesus insistiu principalmente na caridade; que fora da caridade não há salvação; que devemos fazer o bem e fugir do mal; que há pecados e vícios que devem ser evitados; que os pecados devem ser expiados; que a virtude será premiada depois da morte.

Católicos e espíritas aceitam outrossim que os espíritos do além podem manifestar-se ou comunicar-se perceptivelmente conosco. Ambos admitem dois tipos de manifestação dos espíritos: as espontâneas e as provocadas. Por manifestações espontâneas entendem as que têm a sua origem ou iniciativa no além, como foi, por exemplo, o caso que nos é narrado pelo Evangelho de São Lucas (1, 26-38): o anjo Gabriel foi enviado por Deus a Maria de Nazaré para comunicar-lhe que ela seria a mãe de Jesus. Por manifestações provocadas entendem as que têm a sua iniciativa no aquém, como foi, por exemplo, o caso que nos é relatado pelo primeiro livro de Samuel (28, 3-25): a pedido do rei Saul, a necromante de Endor evoca a alma do falecido Samuel, que então comunica ao rei os castigos divinos.

Mas é neste ponto que começa uma primeira divergência fundamental entre católicos e espíritas: os católicos admitem de bom grado as manifestações espontâneas que nos são oferecidas por iniciativa da bondade de Deus, mas consideram divinamente proibidas as manifestações provocadas pelo homem mediante o processo da evocação; e os espíritas transformam precisamente esta evocação dos falecidos em meio principal para as suas novas revelações do além.

O espiritismo se especifica, caracteriza e define por sua prática das manifestações provocadas das almas ou espíritos dos falecidos, para deles receber mensagens ou algum tipo de ajuda. A evocação dos falecidos constitui a essência do espiritismo. Sem a evocação não há espiritismo. E a evocação é a fonte principal de seus conhecimentos específicos ou da sua doutrina.

Há ainda uma segunda discordância fundamental entre católicos e espíritas: a questão da reencarnação. Os católicos crêem na unicidade da vida terrestre; e os espíritas anunciam a pluralidade das reencarnações. Este desacordo tem em si tantas conseqüências lógicas, sobretudo no modo de conceber a salvação eterna, que conduz de fato a dois corpos. doutrinários frontalmente discrepantes e opostos entre si de modo irreconciliável.

Em resumo: apesar das numerosas convergências entre católicos e espíritas, há duas palavras que marcam a separação e caracterizam o espiritismo: evocação e reencarnação.

Se parássemos por aqui, seria até digno de elogio essa parte da fala desse líder religioso, pois “apesar das numerosas convergências” e apenas duas divergências, pelo menos é o que está dizendo nesse ponto, não deixará de realçar como “fundamental” somente essas divergências em detrimento do maior número de convergências. Mais à frente cair-lhe-se-á a máscara, pois essas duas divergências passarão a ser, não duas, mas uma enorme lista delas. Todavia, no início não lhe convinha mostrar a que veio. Era melhor se cobrir de pele de ovelha.

É comum, e esse não será diferente, aos que vão combater o Espiritismo afirmarem que seus argumentos são lógicos, como se os que Kardec desenvolveu fossem balelas sem consistência. Inclusive alguns vêem no Codificador essa característica de homem racional e de argumentação exemplar, entretanto, as deles são superiores a de Kardec. Puro orgulho, de pseudo-sábios que não entendem mesmo daquilo a que se propõem a combater. Pois, após quase um século e meio do Espiritismo, ainda não apareceu alguém com capacidade de derrubar seus princípios, o que estamos vendo é o contrário, que a ciência pouco a pouco, embora tímida, vem confirmando aquilo que defendemos.

Agora se querem mesmo saber porque um católico não aceita o Espiritismo, diremos que é por puro interesse de seus líderes, pois temem à verdade, que lhes contraria os interesses, e daí é preciso proibir ou desanimar seus adeptos de ler, ir ou conhecer o Espiritismo, na fonte. Disse o apóstolo Paulo: “onde há liberdade aí existe o Espírito do Senhor” (2Cor 3,17), conseqüentemente o contrário também vale, ou seja, onde não existe liberdade não existe o Espírito do Senhor, o que não é o nosso caso, com certeza.

Em certo ponto, querendo ressaltar a discordância entre católicos e espíritas, cita a reencarnação, para ele uma heresia. Se assim for, então existem mais hereges no mundo do que católicos. Segundo os dados atuais, a crença na reencarnação estaria por volta de 70 a 80% da humanidade, bem se vê que os contrários são minoria.

COMO SURGIU O ESPIRITISMO

A prática da evocação dos falecidos para deles receber conhecimentos, chamada também "necromancia" (do grego nekrós=falecido e manteia=adivinhação), é antiga. Mas o seu aproveitamento sistemático, denominado "espiritismo", vem do século passado.

Surgiu primeiro nos Estados Unidos, em torno dos estranhos acontecimentos de Hydesville com as irmãs Margarida e Catarina Fox, a partir de 1848. Mas já um ano antes, em 1847, aparecia nos Estados Unidos uma obra mediúnica de Andrew Jackson Davis e outra na França, de Louis Alphonse Cahagnet, do grupo dos "magnetizadores" de Paris, que se serviam de "sonâmbulos" (assim eram então denominados os médiuns) para receber revelações do além-túmulo.Em 1856, o mesmo Cahagnet publicava em Paris Révélations d'outre-tombe, com mensagens ditadas, segundo pretendia, pelos falecidos Galileu, Hipócrates, Franklin e outros.

Foi neste ambiente interessado no "magnetismo animal" imaginado pelo médico austríaco Franz Anton Mesmer (1733-1815), instalado em Paris desde 1778, que nasceu o "espiritismo". Esta palavra foi proposta por Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), mais conhecido pelo seu pseudônimo de Allan Kardec, o codificador sistemático de um tipo especial de espiritismo conhecido também como "kardecismo".

Este é o espiritismo dominante no Brasil.

Allan Kardec (isto é, Denizard Rivail) era de família católica. Com a idade de 10 anos foi enviado a Yverdun, Suíça, ao Instituto de Educação dirigido pelo conhecido pedagogo Pestalozzi, protestante calvinista e liberal, que identificava religião com moralidade. Lá esteve o jovem Rivail até 1822, quando .foi a Paris, onde se dedicou então ao ensino e publicou vários livros pedagógicos e didáticos. De boa formação geral e cultural, era metódico, lógico e claro na exposição das suas idéias. Conhecia também o alemão e o inglês e trabalhava como tradutor. Bom matemático, atuou ainda como contabilista. Casou-se em 1826 com Amélie Gabrielle Boudet, nove anos mais velha do que ele e de boa situação financeira. Não teve filhos.

Mas Alan Kardec não era particularmente versado em religião e muito menos em teologia. Em maio de 1855, começou a interessar-se pelo fenômeno das "mesas girantes e falantes", nascido nos Estados Unidos, e aceitou a teoria da presença e atuação de "espíritos" ou almas dos falecidos nos movimentos de mesas, cestas e outros objetos usados pelos "sonâmbulos" dos "magnetizadores". E já dois anos depois, no dia 18 de abril de 1857, publicou O Livro dos Espíritos. Este dia 18 de abril de 1857 é considerado pelos espíritas como o dia da fundação do espiritismo.

O Livro dos Espíritos é a obra fundamental da codificação da doutrina espiritista, com o seguinte subtítulo: "Princípios da doutrina espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade - segundo os ensinos dados por espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns - recebidos e coordenados por Allan Kardec".

Outra obra básica de Allan Kardec para a prática do espiritismo foi publica da em 1861: O Livro dos Médiuns, com o subtítulo "Guia dos médiuns e dos evocadores". Note-se aqui a palavra "evocadores", indicando assim a função determinante da "evocação" para o espiritismo.

Além destes dois livros básicos, Allan Kardec ainda escreveu e publicou O Evangelho segundo o Espiritismo (em 1864), que é a sua obra mais difundida no Brasil, já com cerca de dois milhões de exemplares. Publicou também O Céu e o Inferno (em 1865) e A Gênese (em 1868). Depois da sua morte, em 1869, mais alguns textos inéditos foram publicados como Obras Póstumas. Em 1858, Allan Kardec começou a publicar a sua Revue Spirite ("revista espírita"), que deixou de aparecer com este título em 1976.

O espiritismo codificado por Allan Kardec foi introduzido no Brasil ainda em vida do codificador, a partir de 1865. Em 1884, foi fundada a Federação Espírita Brasileira (FEB), tendo desde então como órgão oficial a revista Reformador, palavra que revela um programa.

Leiamos as considerações preliminares de Kardec, na Introdução do arcabouço filosófico e doutrinário do Espiritismo, O Livro dos Espíritos:

Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras. Os vocábulos espiritual, espiritualista, espiritualismo têm acepção bem definida. Dar-lhes outra, para aplicá-los à doutrina dos Espíritos, fora multiplicar as causas já numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas.

Por aí deveria ter ficado claro que o Espiritismo é coisa nova e não coisa antiga como quer o articulista. Espiritismo não tem nada a ver com necromancia, isto é puro “conto do vigário”. Necromancia é a evocação dos mortos para fins de adivinhação, que fique bem clara essa definição, pela qual qualquer pessoa de bom senso perceberá a grande diferença entre as práticas Espíritas e as de adivinhação.

Querendo criar uma imagem distorcida da origem do Espiritismo o prelado diz que ele veio num ambiente interessado no “magnetismo animal”. Ora, como bom estudioso, deveria saber que o Espiritismo tem como fato de seu nascedouro os fenômenos de Hydesville, nos E.U., fato, inclusive, que cita. Entretanto, como se diz “não contou da missa a metade”, pois esses acontecimentos são importantes demais para provar que tais fenômenos não são proibidos por Deus, como a todo o momento quer destacar o sacerdote.

Resumindo: A família Fox, morando em Hydesville, estado de New York, numa casa de madeira, passou a ser incomodada por estranhas batidas, os “raps”. Ninguém mais conseguia dormir, os pais com suas duas filhas passaram dias difíceis com esses acontecimentos. Na noite de 31 de março de 1848, uma das crianças resolveu desafiar o que provocava tais fatos, bateu palmas pedindo para que se repetisse, o que de fato aconteceu.

Assim, muito rudemente, começa o intercâmbio com o causador dos fenômenos, que disse ser um espírito, que havia sido assassinado naquela casa por conta de 500 dólares, que seu cadáver estava escondido na adega. Passados 56 anos, foi descoberto um esqueleto no porão da casa onde residira a família Fox, comprovando a realidade daquilo que falou o espírito.

O que queremos chamar a atenção de você, leitor, é que aqui ninguém evocou espírito algum, fato que os detratores nem tocam. Foi o dito “de cujos” que veio, do além túmulo, donde vivem os “mortos”, incomodar aquela família. A pergunta crucial é: ele veio com ou sem a permissão de Deus? Se veio sem permissão, ele teria algum poder maior que Deus para contrariar sua vontade? Cremos que não, daí só pode ter vindo mesmo com a permissão de Deus, e assim cai por terra a decantada proibição divina de evocar os mortos, segundo algumas discutíveis traduções. Tal proibição visava combater o fim a que se destinavam as consultas, e não a comunicação em si. Mas sob o outro ponto de vista, mesmo que seja verdadeira essa proibição, a de nos comunicarmos, veremos que se por um lado ela não permite que os evoquemos, por outro não proíbe que eles venham até nós de iniciativa própria, já que foi exatamente isso que aconteceu e anda acontecendo até os dias de hoje.

Devemos, ainda, ressaltar que a família Fox era da Igreja Metodista. Que ironia! O Espiritismo tem origem no meio protestante e sua codificação aconteceu no meio católico, provando que Deus não faz mesmo acepção de pessoas.

Interessante que citando as qualidades de Kardec tenha dito “de boa formação geral e cultural, era metódico, lógico e claro na exposição das suas idéias”, mas apesar disso o articulista pressupõe aos seus argumentos mais lógica, conforme disse no início.

A sutileza da afirmação “Allan Kardec não era particularmente versado em religião e muito menos em teologia” é fantástica, pois só faltou acrescentar: somente aos padres da Igreja Católica se podem atribuir tais qualidades. Não são eles os escolhidos de Deus?

Há um fato não verdadeiro, Kardec não aceitou a teoria da presença e atuação dos “espíritos” ele deduziu dos fatos que se lhe apresentaram. “Todo efeito inteligente há de ter uma causa inteligente”, daí, por essa sua afirmativa, deduziu que como as mesas não possuíam cérebro para pensar, devia haver uma causa inteligente que produzia tais fenômenos. Essa causa inteligente é quem disse ser espírito.

A razão de publicar “Guia dos médiuns e dos evocadores”, diante dos estudos dos fenômenos mediúnicos que fizera, foi melhor prevenir aos médiuns ou evocadores dos inconvenientes e perigos da prática generalizada, feita por quem não possui o mínimo conhecimento do assunto. Kardec coloca tais fenômenos como de ordem natural, ou seja, dentro das leis da natureza, portanto, divinas.

A prática mediúnica, e não o Espiritismo, existiu desde quando houve espíritos para se comunicarem uns com os outros, ou será que não sabem que os encarnados são também espíritos? A Bíblia está repleta de fatos mediúnicos tomados à conta de poderes que somente pessoas especiais, os profetas, poderiam ter. Kardec demonstra que é uma faculdade inerente à criatura humana, nós todos a possuímos, o que varia é apenas o seu grau e moralidade. Paulo inclusive fala dela aos coríntios, na primeira carta aos coríntios nos capítulos 12 e 14, quando o apóstolo dos gentios regulamenta o uso dos dons, que é exatamente o que hoje denominamos de mediunidade.

Ela se processa sempre dentro do âmbito das leis naturais, e em se retirando o caráter sobrenatural da mediunidade, ele fere a interesses seculares da Igreja de Roma, que também aí busca manter o seu domínio. Ou seja, evocar santos pode, espíritos não. Parece brincadeira, pois o que são os santos senão espíritos?

O QUE PRETENDE O ESPIRITISMO

Nas Obras Póstumas de Allan Kardec encontramos também as suas Previsões concernentes ao Espiritismo (pp. 263-336 da 29ª edição da FEB, que é aqui citada). Nela, Allan Kardec descreve com simplicidade a sua própria iniciação no espiritismo e as "revelações" que foi recebendo, sempre "do além", acerca da sua missão pessoal e dos principais objetivos do movimento por ele suscitado.

No dia 15 de março de 1856, Allan Kardec recebeu a comunicação de ter como "guia espiritual" o próprio Espírito da Verdade, já prometido por Jesus aos Apóstolos no Evangelho segundo São João (16, 12-13): "Tenho ainda muito a vos dizer, mas não podeis agora compreender. Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena". Tal condução à verdade plena estaria começando então, em 1856, com Allan Kardec [1]. E no dia 12 de junho de 1856 o Espírito da Verdade lhe teria revelado a sua missão de reformador:

"Previno-te de que é rude a tua missão, porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro" (p. 282).

No dia 15 de abril de 1860, Allan Kardec julga ter recebido (sempre do além) esta mensagem, que define a própria missão do espiritismo como "a verdadeira religião, a religião natural":

"O Espiritismo é chamado a desempenhar imenso papel na Terra. Ele reformará a legislação ainda tão freqüentemente contrária às leis divinas; retificará os erros da História; restaurará a religião de Cristo, que se tomou nas mãos dos padres, objeto de comércio e de tráfico vil; instituirá a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus, sem se deter nas franjas de uma sotaina, ou nos degraus de um altar" (p. 299).

E pouco depois, no dia 30 de setembro de 1863, a comunicação do além pronuncia um veredito sobre a Igreja Católica:

"É chegada a hora em que a Igreja tem de prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira por que pratica os ensinos de Cristo, do uso que fez da sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que levou os espíritos. A hora é vinda em que ela tem de dar a César o que é de César e de assumir a responsabilidade. de todos os seus atos. Deus /á julgou, e a reconheceu inapta, daqui por diante, para a missão de progresso que incumbe a toda autoridade espiritual. Somente por meio de uma transformação absoluta lhe será possível viver; mas resignar-se-á ela a essa transformação? Não, pois que então já não seria a Igreja; para assimilar as verdades e as descobertas da Ciência [2], teria de renunciar aos dogmas que lhe servem de fundamentos; para volver à prática rigorosa dos preceitos do Evangelho, teria de renunciar ao poder, à dominação, de trocar o fausto e a púrpura pela simplicidade e a humildade apostólicas. Ela se acha nesta alternativa: ou se suicida, transformando-se; ou sucumbe nas garras do progresso, se permanecer estacionária" (p. 310 s.).

E assim o espiritismo se considera como sendo a "terceira revelação". A primeira, assim dizem, veio por Moisés; a segunda, por Jesus Cristo; e a terceira, através dos "espíritos", principalmente do Espírito da Verdade, o Consolador prometido por Jesus. Allan Kardec descreve tudo isso amplamente no capítulo primeiro de A Gênese, concluindo no n.º 42:

"O Espiritismo realiza todas as promessas de Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador".

No discurso pronunciado em 1.0 de novembro de 1863, Allan Kardec apresentou um resumo da doutrina espírita, terminando com estas palavras:

"Eis o Credo, a religião do espiritismo, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. Esse é o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, enquanto se espera que ele ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal".

Tal é também a convicção que anima o espiritismo no Brasil. A Federação Espírita Brasileira, por seu Conselho Nacional, em sua reunião de 5 de julho de 1952, declarou oficialmente e por unanimidade: "O Espiritismo é Religião sem ritos, sem liturgia e sem sacramentos". E em outra oportunidade fez saber:

"Os espíritas do Brasil, reunidos no II Congresso Espírita Internacional Panamericano, com expressões de maior respeito à liberdade de pensamento e de consciência, afirmam que, no Brasil, a Doutrina Espírita, sem prejuízo de seus aspectos científicos e filosóficos, é fundamentada no Evangelho de Cristo, certo de ser o Consolador Prometido de que nos falam aqueles mesmos Evangelhos. Por isso é que nós outros, que vivemos no Brasil, ligados à Doutrina Espírita, consideramo-la a Religião".

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[1] A verdade, porém, é que a promessa de Jesus acerca do Espírito da Verdade não foi tão vaga, para um futuro tão incerto e distante. Jesus se dirigia diretamente aos Apóstolos que estavam com Ele na última Ceia: Rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da verdade... O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, é que vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse (Jo 14, 16-17.26). E pouco antes de' sua ascensão mandou aos Apóstolos: Eis que eu vos enviarei o que meu Pai prometeu. Por isso permanecei na cidade até serdes revestidos da força do Alto (Lc 24, 49). E lhes disse ainda: O Espírito Santo descerá sobre vós e dele recebereis força (At 1, 8). Alguns dias depois, na festa de Pentecostes, quando estavam reunidos na sala de Jerusalém, de repente veio do céu um ruído semelhante ao de vento impetuoso e encheu toda a casa onde se achavam. E apareceram umas como línguas de fogo, que se distribuíram e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo (At 2, 1-4). Era a vinda do Espírito da Verdade, bem antes de Allan Kardec. Começou então a vida da Igreja. Ela terá a árdua tarefa de conservar e anunciar a todos os homens, até o fim dos tempos, o que Jesus ensinara em nome do Pai. Realiza-se assim a promessa de Jesus: Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28, 20). A Igreja cumprirá a sua missão, confortada certamente pela força do Alto e sempre assistida pelo Espírito da Verdade, o Consolador, mas em todo tempo mediante seres humanos, frágeis e limitados por sua natureza. A já bimilenar história da Igreja é rica na descrição destas vicissitudes humanas, de maior ou menor fidelidade, com aflições e dificuldades internas e externas, entre sombras porém com fidelidade substancial.

[2] O espiritismo nasceu, em meados do século passado, num ambiente de mentalidade cientificista que pretendia explicar todos os fenômenos espirituais por meio de "fluidos", "éter", "eletricidade", "magnetismo" etc. Considera-se, portanto, uma doutrina "científica". Tanto essa mentalidade, porém, quanto a terminologia estão hoje totalmente superadas, não encontrando mais aplicação nem na biologia nem na psicologia modernas.

Se o Espiritismo não for uma revelação não há com o que se preocupar. Caso contrário, repetimos a fala de Gamaliel, em defesa de Pedro e dos que o acompanhavam, perante o Sinédrio:

... um fariseu chamado Gamaliel... doutor da Lei,... disse: “Homens de Israel, vejam bem o que estão para fazer contra esses homens... Quanto ao que está acontecendo agora, dou-lhes um conselho: não se preocupem com esses homens, e os soltem. Porque, se o projeto ou atividade deles é de origem humana, será destruído; mas, se vem de Deus, vocês não conseguirão aniquilá-los. Cuidado para não se meterem contra Deus" (At 5,34-39)

Se o bispo tem o direito de achar que o papa é o representante de Cristo aqui na Terra, também temos o de achar que o Espírito da Verdade liderou toda a plêiade de Espíritos que trouxeram essa nova revelação aos homens. Como da vez anterior, por quem Jesus foi rejeitado? Pelo povo? Não! Não? Infelizmente foi rejeitado justamente por aqueles que tinham tudo para aceitá-lo, os líderes religiosos de sua época, que, entretanto, ao invés de vê-lo como o Messias, o enxergaram como alguém que estava contrariando seus interesses, daí tramaram sua morte de forma vergonhosa. E aí está o motivo da morte de Jesus, o que nada tem a ver, como apregoam por aí, que tenha morrido para nos salvar.

Mutatis mutandis, de igual modo acontece com o Espiritismo, ao ser perseguido por aqueles que tudo tinham para aceitá-lo, porquanto, vem justamente comprovar, de forma categórica, que a alma sobrevive à morte física,  que sofremos as conseqüências de nossos atos, por isso é melhor “amar ao próximo como a si mesmo” já que o amor é a base fundamental dos ensinamentos de Cristo, sendo esta a pedra de toque do verdadeiro cristão. Disse ele: “... amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (Jo 13,34-35)

Se o Espírito Santo baixou nos discípulos, por que a discriminação já é o que dizem acontecer em nosso meio? Não vemos nenhuma diferença, já que ambos são Espíritos, e os estudiosos sabem que esse Santo que aparece várias vezes na Bíblia é acréscimo, quando há essa ocorrência o significado é espírito puro ou espírito bom. Por outro lado, estamos diante de um grave problema: ele baixou duas vezes. A primeira vez no domingo seguinte à morte de Jesus (Jo 20,22) e a segunda na suposto dia do Pentecostes (At 2,2). Por que dissemos supostamente? Por que católicos disseram isso. Quando? Leiamos, em se referindo a Atos 2,1-13, temos:

O relato é simbólico. De fato, quanto o autor escreveu, as comunidades cristãs já se haviam espalhado por todas as regiões aqui mencionadas. Lucas quer mostrar o que está na base de qualquer comunidade cristã: o Espirito Santo faz lembrar, compreender e continuar o testemunho de Jesus (cf. Jo 14,26; 16,12-15). Pentecostes, celebrado cinqüenta dias depois da páscoa, comemorava a Aliança e o dom da Lei....” (Bíblia Sagrada Edição Pastoral, p. 1391).

Assim, o tal Pentecostes, segundo os próprios católicos, de fato não aconteceu, é apenas simbólico.

Por outro lado, se Jesus disse que não poderia dizer tudo aos discípulos, haja vista eles ainda não terem capacidade de entender (Jo 16,12), por que cinqüenta e poucos dias depois a teriam, sem que nenhum fato extraordinário tivesse acontecido, passaram a ter maior capacidade para receber esses novos ensinamentos?

Mas, observando detidamente a passagem, veremos que na própria Bíblia o fenômeno de Pentecostes é relacionado não ao comprimento do envio do Consolador, como afirma o bispo, mas a uma profecia de Joel (3,1-5), conforme poderá ser comprovado pela afirmação de Pedro em Atos 2,14-20. Ele teve oportunidade para dizer que se tratava do Consolador, mas não o fez. Assim, a tentativa de se relacionar a vinda do Espírito de Verdade para aquela época ficou frustrada pela apostasia predita que já se iniciava nos dias apostólicos, e por isso, essa promessa só pode mesmo ser concretizada, na íntegra, em tempo futuro.

Ao lermos as pinceladas que o bispo retirou de livros Espíritas para compor esse item, percebemos que realmente pode haver um medo tremendo por detrás de tudo isso. Pois se o Espiritismo vem resgatar os verdadeiros ensinos de Jesus, já que o que a Igreja prega é deturpação pura, virá a ser o elo que ligará todos os homens numa fraternidade universal, irá ferir o status de poder que a Igreja e sua liderança quer manter, e daí tremem pela hora em que sua Igreja irá prestar contas do depósito que lhe foi confiado, e como sabem que não foram bem guardados, pressentem as inevitáveis conseqüências.

Quanto à objeção de ser o Espiritismo considerado uma ciência ultrapassada, deixaremos Kardec falar:

A ciência espírita compreende duas partes: experimental uma, relativa às manifestações em geral, filosófica, outra, relativa às manifestações inteligentes. Aquele que apenas haja observado a primeira se acha na posição de quem não conhecesse a Física senão por experiências recreativas, sem haver penetrado no âmago da ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensino que os Espíritos deram, e os conhecimentos que esse ensino comporta são por demais profundos e extensos para serem adquiridos de qualquer modo, que não por um estudo perseverante, feito no silêncio e no recolhimento. Porque, só dentro desta condição se pode observar um número infinito de fatos e particularidades que passam despercebidos ao observador superficial, e firmar opinião. Não produzisse este livro outro resultado além do de mostrar o lado sério da questão e de provocar estudos neste sentido e rejubilaríamos por haver sido eleito para executar uma obra em que, aliás, nenhum mérito pessoal pretendemos ter, pois que os princípios nela exarados não são de criação nossa. O mérito que apresenta cabe todo aos Espíritos que a ditaram. Esperamos que dará outro resultado, o de guiar os homens que desejem esclarecer-se, mostrando-lhes, nestes estudos, um fim grande e sublime: o do progresso individual e social e o de lhes indicar o caminho que conduz a esse fim.

Concluamos, fazendo uma última consideração. Alguns astrônomos, sondando o espaço, encontraram, na distribuição dos corpos celestes, lacunas não justificadas e em desacordo com as leis do conjunto. Suspeitaram que essas lacunas deviam estar preenchidas por globos que lhes tinham escapado à observação. De outro lado, observaram certos efeitos, cuja causa lhes era desconhecida e disseram: Deve haver ali um mundo, porquanto esta lacuna não pode existir e estes efeitos hão de ter uma causa. Julgando então da causa pelo efeito, conseguiram calcular-lhe os elementos e mais tarde os fatos lhes vieram confirmar as previsões. Apliquemos este raciocínio a outra ordem de idéias. Se se observa a série dos seres, descobre-se que eles formam uma cadeia sem solução de continuidade, desde a matéria bruta até o homem mais inteligente. Porém, entre o homem e Deus, alfa e ômega de todas as coisas, que imensa lacuna! Será racional pensar-se que no homem terminam os anéis dessa cadeia e que ele transponha sem transição a distância que o separa do infinito? A razão nos diz que entre o homem e Deus outros elos necessariamente haverá, como disse aos astrônomos que, entre os mundos conhecidos, outros haveria, desconhecidos. Que filosofia já preencheu esta lacuna? O Espiritismo no-la mostra preenchida pelos seres de todas as ordens do mundo invisível e estes seres não são mais do que os Espíritos dos homens, nos diferentes graus que levam à perfeição. Tudo então se liga, tudo se encadeia, desde o alfa até o ômega. Vós, que negais a existência dos Espíritos, preenchei o vácuo que eles ocupam. E vós, que rides deles, ousai rir das obras de Deus e da Sua onipotência! (KARDEC, A, O Livro dos Espíritos, pp. 46-47).

Que faz a moderna ciência espírita? Reúne em corpo de doutrina o que estava esparso: explica, com os termos próprios, o que só era dito em linguagem alegórica; poda o que a superstição e a ignorância engendraram, para só deixar o que é real e positivo. Esse o seu papel! O de fundadora não lhe pertence. Mostra o que existe, coordena, porém não cria, por isso que suas bases são de todos os tempos e de todos os lugares. Quem, pois, ousaria considerar-se bastante forte para abafá-la com sarcasmos, ou, ainda, com perseguições? Se a proscreverem de um lado, renascerá noutras partes, no próprio terreno donde a tenham banido, porque ela está em a Natureza e ao homem não é dado aniquilar uma força da Natureza, nem opor veto aos decretos de Deus.

Que interesse, aos demais, haveria em obstar-se a propagação das idéias espíritas? É exato que elas se erguem contra os abusos que nascem do orgulho e do egoísmo. Mas, se é certo que desses abusos há quem aproveite, à coletividade humana eles prejudicam. A coletividade, portanto, será favorável a tais idéias, contando-se-lhes por adversários sérios apenas os interessados em manter aqueles abusos. As idéias espíritas, ao contrário, são um penhor de ordem e tranqüilidade, porque, pela sua influência, os homens se tornam melhores uns para com os outros, menos ávidos das coisas materiais e mais resignados aos decretos da Providência. (KARDEC, A. O Livro dos Espíritos, p. 486).

Talvez nos contestem a qualificação de ciência que damos ao Espiritismo. Ele não poderia, sem dúvida, em alguns casos, ter os caracteres de uma ciência exata, e está precisamente aí o erro daqueles que pretendem julgá-lo e experimentá-lo como uma análise química, como um problema matemático: já é muito que tenha o de uma ciência filosófica. Toda ciência deve estar baseada sobre fatos; mas só os fatos não constituem a ciência; a ciência nasce da coordenação e da dedução lógica dos fatos: é o conjunto de leis que os regem. O Espiritismo chegou ao estado de ciência? Se se trata de uma ciência perfeita, sem dúvida, seria prematuro responder afirmativamente; mas as observações são, desde hoje, bastante numerosas para se poder, pelo menos, deduzir os princípios gerais, e aí que começa a ciência. (KARDEC, A. Revista Espírita 1858, Araras-SP: IDE, 2001, p. 3).

Assim, o Espiritismo não deixará se ser ciência só porque o sr. bispo, em sua opinião, diz que não. Quem tem o direito de definir aquilo que é ou não foi quem o criou, ninguém mais. Ademais, reconhecemos ser esta uma necessidade capital dos religiosos, pois reconhecer no Espiritismo uma Ciência Verdadeira é o mesmo que admitir a própria derrocada, ou a falência de seus próprios dogmas.

A DOUTRINA ESPÍRITA E A MENSAGEM CRISTÃ

No Brasil, o movimento criado por Allan Kardec é mantido e divulgado pela Federação Espírita Brasileira, que o propõe sistematicamente não apenas como "a religião", mas também como "espiritismo cristão". Seu órgão oficial, Reformador, que começou em 1883, então como "órgão evolucionista", apresenta-se agora no subtítulo como "Revista do Espiritismo Cristão". No fascículo de março de 1981, em artigo sobre a missão do Consolador, chega a esta conclusão:

"É missão, pois, do Espiritismo devolver ao Cristianismo a sua pureza original, libertando-o dos dogmas e das idéias humanas nele introduzidos" (p. 85).

Para entender tão radical operação libertadora, é necessário comparar a doutrina espírita com a mensagem cristã: aos menos em seus elementos fundamentais.

Vejamos então as justificativas do sr. Bispo, cuja preocupação é trazer o Espiritismo como sendo algo contra a doutrina cristã. Obviamente lhe daremos um desconto por tão ardorosamente advogar em causa própria, pois até onde sabemos vivem ele e toda a liderança religiosa de sua Igreja às custas do dízimo dos fiéis. Não vivem, portanto, para a sua religião, mas de sua religião.

A prepotência que vemos nos líderes religiosos dos dias atuais é que julgam de sua exclusividade definir quem é e quem não é cristão. Entretanto, quem define se segue a doutrina cristã ou não será a própria pessoa, bem disse Paulo: “Se alguém está convencido de pertencer a Cristo, tome consciência, de uma vez por todas, de que assim como ele pertence a Cristo, também nós pertencemos a Cristo” (2Cor 10,7), fulminando de vez esse idéia exclusivista desses líderes.

Sobre estes, Jesus já advertia que “são cegos guiando cegos”, caso contrário teriam visto que o Mestre afirmou “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles”. (Mt 18,20) e mais claro ainda que isso, podemos ler: “João disse a Jesus: ‘Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue’. Jesus disse: ‘Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. Quem não está contra nós, está a nosso favor. Eu garanto a vocês: quem der para vocês um copo de água porque vocês são de Cristo, não ficará sem receber sua recompensa’”. (Mc 9,38-41). Daí, se nós dissermos que seguimos a Jesus é o suficiente. No entanto, o que muitos não suportam é termos os nossos próprios pensamentos sobre seus ensinamentos, pois acham que somos obrigados a vê-los com a mesma viseira com que os enxergam, fora as interpretações de conveniências, cujo objetivo é apenas manter domínio sobre seus fiéis.

A Revelação divina

Para a generalidade dos cristãos de todos os tempos, sejam eles católicos, ortodoxos ou protestantes, os livros da Sagrada Escritura são divinamente inspirados. É um princípio inconcusso ("dogma") dos cristãos.

No credo espírita de Allan Kardec não entra este ponto fundamental. Jamais o afirma em nenhuma de suas obras. Mas com freqüência se compraz em mostrar o que ele considera absurdos e contradições da Bíblia. No Reformador, janeiro de 1953, p. 23, encontramos bem definida a posição dos nossos espíritas perante a Bíblia:

"Do Velho Testamento já nos é recomendado somente o Decálogo e do Novo Testamento apenas a moral de Jesus; já consideramos de valor secundário, ou revogado e sem valor algum, mais de 90% do texto da Bíblia. Só vemos na Bíblia toda um livro respeitável pelo seu valor cultural, pela força que teve na formação cultural dos povos do Ocidente".

Aqui é batida a velha tecla, o mesmo surrado argumento, de que a Bíblia é a palavra de Deus, infalível, insuspeita, mas assim se diz apenas por puro interesse, pois caso contrário quem lhe seguiria cegamente? O povo, não dado ao questionamento, acredita piamente naquilo que lhe fala a sua liderança religiosa, daí, a mantê-la nesse status, dificilmente se encontrará um fiel que lhe venha contestar, mesmo que o que fale seja absurdo, como é o caso que estamos analisando, neste momento. É por isso que o bispo denomina de “precioso” dogma cristão, muito embora para prová-lo, deixe de ser tão “precioso”. Mas o que é o um dogma senão aquilo que a razão e a lógica não aceitam dada a sua aberração, no entanto, por ele, o dogma, se abre campo para o “creio ainda que absurdo”.

O que nunca falam é que Jesus sintetizou tudo todo quanto existe no Velho Testamento a apenas dois princípios, fundamentais à nossa evolução: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” (Mt 22,37-40). Por várias vezes disse “aprendeste o que foi dito, eu porém vos digo” (Mt 5), colocando seus ensinamentos como superiores aos de Moisés. A parábola da bodas de Caná tem exatamente esse sentido, ou seja, Jesus é o vinho melhor que foi servido depois. Numa outra passagem deixa-nos diante dessa verdade inexorável: “A Lei e os profetas chegaram até João; daí para a frente o Reino de Deus é anunciado, e cada um se esforça para nele entrar, com violência” (Lc 16,16), o que em outras palavras que dizer que o Antigo Testamento vigorou até João Batista, limitando, dessa forma, a sua aplicação até esse tempo, porque depois, conforme disse, deverão prevalecer os seus ensinamentos. Daí sua indisposição com os líderes de sua época, até que num dado momento disse-lhes: “não se coloca remendo de pano novo em pano velho ou vinho novo em odres velhos” (Mt 9,16-17), o que não entenderam, mas que significa deixe os ensinamentos de Moisés e observem o que lhes digo, entretanto a liderança de hoje finge não entender já que isso não lhe convém.

Existem inclusive passagens que deixam clara essa questão, quem quiser confirmar que leia: Rm 7,4-6, Hb 7,18; 10,9; 8,6-7.13 e 2Cor 3,6-14.

A doutrina sobre Deus

Alguns conceitos de Allan Kardec sobre a existência de Deus e seus atributos coincidem com a doutrina cristã. Várias vezes se refere em seus livros ao panteísmo [1] para rejeitá-lo. Outras vezes, porém, usa expressões de sabor panteísta. Assim quando diz que ignoramos se a inteligência é uma "emanação da Divindade"; quando descreve o "fluido universal" em termos panteístas; ou quando esclarece que os espíritos "se acham mergulhados no fluido divino", etc.

Já Leão Denis, outro patriarca do espiritismo, resvala para um evidente monismo panteísta. Segundo o seu modo de falar, "Deus é a grande alma universal, de que toda alma humana é uma centelha, uma irradiação. Cada um de nós possui, em estado latente, forças emanadas do divino Foco" (Cristianismo e Espiritismo, 5ª ed., p. 246). Fala com freqüência de Deus como "divino Foco", "supremo Foco do Bem e do Belo", "o grande Foco divino", etc.

Também em outra obra sua, Depois da Morte, 6ª ed., voltam expressões panteísticas: "Deus é infinito e não pode ser individualizado, isto é, separado do mundo, nem subsistir à parte" (p. 114); ou: "O Ser supremo não existe fora do mundo, porque este é a sua parte integrante e essencial" (p. 124). Em vez do "Deus fantástico da Bíblia", ele quer o "Deus imanente, sempre presente no seio das coisas" (p. 213): "O Universo não é mais essa criação, essa obra tirada do nada de que falam as religiões. É um organismo imenso animado de vida eterna" (p. 123); e em seguida explica que Deus está para o Universo como a alma para o corpo: "O eu do Universo é Deus" (p. 349).

[1] Sistema filosófico que nega a distinção entre o Criador e a criatura e afirma que "tudo é Deus" ou "Deus é tudo".

Não é a primeira vez, e acreditamos não será a última, em que sutilmente querem relacionar o Espiritismo com doutrina panteísta, quando Kardec nunca disse isso. Entretanto, podemos com segurança afirmar que até na Bíblia se encontra esse idéia panteísta, vejamos:

Sb 1,7: O espírito do Senhor enche o universo e ele, que mantém unidas todas as coisas, não ignora nenhum som”.

Sb 12,1: “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas”.

Sl 139,7-10: “Para onde irei, longe do teu sopro? Para onde fugirei, longe de tua presença? Se subo ao céu, tu aí estas. Se me deito no abismo, aí te encontro. Se levanto vôo para as margens da aurora, se emigro para os confins do mar, aí me alcançará tua esquerda, e tua direita me sustentará”.

Jr 23,24: Pode alguém esconder-se em algum lugar onde eu não possa vê-lo? - oráculo de Javé. Será que eu não ocupo o céu e a terra? - oráculo de Javé.

Jo 14,3: “Se alguém me ama, guarda a minha palavra, e meu Pai o amará. Eu e meu Pai viremos e faremos nele a nossa morada”.

At 17,27-28: Assim fez, para que buscassem a Deus e para ver se o descobririam, ainda que fosse às apalpadelas. Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dentre os poetas de vocês disseram: 'Somos da raça do próprio Deus'.

Ef 4,6: Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, que age por meio de todos e está presente em todos”.

Esse relacionamento do Espiritismo com o panteísmo só assusta aos néscios e aos que, encabrestados pela liderança religiosa, não ousam questionar o que lhes falam.

É deveras engraçado como certas pessoas não se dão conta do ridículo que cometem, infelizmente vamos ter que “ensinar o pai-nosso ao seu vigário”. Nomes próprios não se traduzem, assim o nome correto do autor citado pelo bispo é Léon Denis, Léon continuará sendo em qualquer língua, aí a insensatez, pois não podemos dizer ignorância, nessa atitude do prelado.

A Santíssima Trindade

Todos os cristãos - católicos, ortodoxos e protestantes - professam a sua fé na Santíssima Trindade. É o mistério central da fé e mensagem cristã, desde os primórdios do cristianismo. Mas o credo espírita proposto por Allan Kardec desconhece totalmente a Santíssima Trindade. A posição de Allan Kardec, no conjunto de suas obras, é de absoluto e sistemático silêncio com relação a esta doutrina cristã.

Seu silêncio era apenas oportunista. Na realidade, no seu sistema de pensamento não cabia este mistério cristão, não só porque para ele "absolutamente não há mistérios", mas porque não há lugar para uma intensa vida divina intratrinitária, dado que, segundo ele, um Deus que não criasse incessantemente, desde toda a eternidade, seria um Deus solitário e ocioso.

Já Leão Denis, em Cristianismo e Espiritismo, p. 74, abre a sua crítica aos nossos principais dogmas com estas palavras: "Começa com a estranha concepção do Ser divino, que se resolve no mistério da Trindade". Depois explica: "A noção da Trindade, colhida numa lenda hindu que era a expressão de um símbolo, veio obscurecer e desnaturar essa alta idéia de Deus. .. Essa concepção trinitária, tão incompreensível, oferecia, entretanto, grande vantagem às pretensões da Igreja. Permitia-lhe fazer de Jesus Cristo um Deus" (p. 75).

No Brasil, o espiritismo em peso ou desconhece ou nega a Santíssima Trindade.

E continuaremos irremediavelmente desse jeito, pois não é ensinamento de Jesus, e sim uma corruptela de conceitos pagãos que tinham três deuses. Também essa não era a idéia no cristianismo primitivo, essa questão motivou inúmeras controvérsias, após ser rejeitada por três concílios, dos quais o mais importante cita-se o de Antioquia (269) foi, em 325, proclamado pelo de Nicéia. Após a declaração de que Jesus era Deus, vem para encaixá-lo nada mais do que essa cópia da base fundamental de outras religiões, bem mais antigas que o Cristianismo. Podemos citar:

Brahma, Siva e Vischnu – dos hindus

Osíris, Isis e Orus – dos egípcios

Ea, Istar e Tamus – dos babilônios

Zeus, Demétrio e Dionísio – dos gregos

Orzmud, Arimam e Mitra – dos persas

Voltan, Friga e Dinas – dos celtas

Apesar de se afirmar peremptoriamente que Deus é um só (Rm 3,30: De fato, há um só Deus...; Gl 3,20: ...Deus é um só.; Tg 2,19: Você acredita que existe um só Deus? Muito bem! Só que os demônios também acreditam, e tremem!) vêem para sustentar essa idéia da trindade afirmar no tal de três em um, e como é difícil de aceitar um absurdo desse e de justificar esse tal de três em um, então esse absurdo passou a fazer parte dos dogmas da Igreja. Assim, podemos dizer que isso não é ensinamento de Jesus, é adulteração dele, isso sim, por parte daqueles que se dizem seu representante aqui na Terra.

O escritor Aderbal Pacheco, numa referência à trindade, cita-nos a opinião do Bispo James A. Pike, da Igreja Episcopal, Cal. U.S.A:

E que dizer daquela doutrina popular da Cristandade – a trindade? Já não nos deve surpreender agora que ela é também de origem pagã. A doutrina, além de implausível e irracional, é antibíblica. Nenhum texto ensina a trindade. Usa-se o texto de I Jo. 5:7, na versão Almeida, para apoiar a doutrina, mas essas palavras não aparecem nos manuscritos mais antigos e mais fidedignos das Escrituras gregas; por isso, a maioria das versões modernas deixa estas palavras inteiramente de fora. (PACHECO, A. Verdades e Mentiras sobre o homem chamado Jesus, São Paulo: DPL, 2003, p.77).

Isso vem corroborar o que dissemos sobre a origem da trindade estar no paganismo.

A doutrina sobre Jesus

Professam os cristãos que Jesus era verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. A afirmação da divindade de Jesus é fundamental para a fé cristã. Mas este Jesus não entra no credo espírita formulado por Allan Kardec. Ele nos deixou nas suas Obras Póstumas um estudo sobre a natureza de Jesus, de 41 páginas, todo ele orientado para provar que Jesus não era Deus.

Nos dias de Allan Kardec, surgiu um advogado de Bordéus chamado João Batista Roustaing, que teve o seu primeiro contacto com o espiritismo em 1861 e em 1865 publicou a sua obra: Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação, em três volumes. Sua tese central: o corpo de Jesus não era real, de carne e osso, mas aparente e meramente fluídico.

No Brasil, a Federação Espírita, desde a sua fundação, propaga a obra de Roustaing. Guillon Ribeiro, que foi presidente da Federação e tradutor das obras de Allan Kardec, compendiou a cristologia espírita no título que deu ao livro: Jesus nem Deus nem homem.

Os cristãos professavam que a Terra era o centro do Universo nem por isso tornou-se tal pensamento uma verdade. Da mesma forma podemos aplicar a essa questão da divindade de Jesus.

Jesus nasceu, viveu e morreu como judeu, e para um judeu até a pronuncia de nome de Deus era proibido, quanto mais falar que era o próprio Deus, seria apedrejamento na certa. Ninguém ainda conseguiu provar que Jesus tenha dito isso, o que encontramos nos relatos do evangelho é uma falsa acusação dos líderes religiosos de sua época, que colocaram palavras na boca de Jesus para terem um bom motivo de o matar, plano funesto que acabou por se realizar.

O sr. Bispo explora isso, o que nos convence de que realmente estudou o Espiritismo, por isso as suas colocações ficam mais graves. Só que mais uma vez “da missa não contou a metade”.

Em janeiro de 1868, data posterior ao lançamento da obra de Roustaing intitulada “Os Quatro Evangelhos”, quando Kardec publica o livro “A Gênese”, nele podemos ver que, num certo ponto, ele defende, sem nenhuma sombra de dúvida, que Jesus teve um corpo físico comum a todos nós. No capítulo XV – Os milagres do Evangelho, encontramos o seguinte parágrafo (item 2):

“Como homem, tinha a organização dos seres carnais; mas como Espírito puro, desligado da matéria, deveria viver a vida espiritual mais do que a vida corpórea, da qual não tinha as fraquezas. A superioridade de Jesus sobre os homens não se prendia às particularidades de seu corpo, mas às de seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e à de seu perispírito, haurida na parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres. (Cap. XIV, nº 9). Sua alma não devia prender-se ao corpo senão pelos laços estritamente indispensáveis; constantemente desligado, devia dar-lhe uma dupla vista não somente permanente, mas de uma penetração excepcional e bem de outro modo superior àquela que se vê entre os homens comuns. (...)” (Grifo do original)

Kardec não usa de meias palavras para expor seu pensamento de que Jesus, “como homem, tinha a organização dos seres carnais”. Ora, a tese levantada por Roustaing é que Jesus possuía não um corpo carnal, mas um corpo fluídico, o que fica inevitavelmente contra o que diz a Bíblia e o codificador do Espiritismo.

Mais à frente é que veremos Kardec detalhar melhor seu pensamento, conforme podemos constatar quando ele diz sobre o desaparecimento do corpo de Jesus.

Coloca Kardec (item 65 em diante), e tudo nos leva a crer que, pelo teor, essa colocação tem um destinatário certo, qual seja, a obra de Roustaing:

“Segundo uma outra opinião, Jesus não teria revestido um corpo carnal, mas somente um corpo fluídico; não fora, durante a sua vida, senão uma aparição tangível, em uma palavra, uma espécie de agênere. Seu nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida, não seria senão uma aparência. Foi assim, diz-se, que seu corpo, retornado ao estado fluídico, pôde desaparecer do sepulcro, e foi com esse mesmo corpo que ele se mostrou depois de sua morte”.

“Sem dúvida, semelhante fato não é radicalmente impossível, segundo o que se sabe hoje sobre as propriedades dos fluidos; mas seria ao menos inteiramente excepcional e em oposição formal ao caráter dos agêneres. (Cap. XIV, nº 36). A questão é, pois, saber se uma tal hipótese é admissível, se é confirmada ou contradita pelos fatos.

“A permanência de Jesus sobre a Terra apresenta dois períodos: a que a precede e aquela que se segue à sua morte. Na primeira, desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa, na mãe, como nas condições comuns da vida[1]. Desde o seu nascimento até a morte, tudo, em seus atos, em sua linguagem e nas diversas circunstâncias de sua vida, apresenta os caracteres inequívocos da corporeidade. Os fenômenos de ordem física que se produzem nele são acidentais, e nada têm de anormal, uma vez que se explicam pelas propriedades do perispírito, e se encontram em diferentes graus entre alguns indivíduos. Depois de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. A diferença entre os dois estados é de tal modo marcante que não é possível assimilá-los”.

“O corpo carnal tem as propriedades inerente à matéria propriamente dita, e que diferem essencialmente daquelas dos fluidos etéreos; a desorganização nela se opera pela ruptura da coesão molecular. Um instrumento cortante, penetrando no corpo material, divide-lhe os tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, seu funcionamento se detém, e a morte se segue, quer dizer, a morte do corpo. Essa coesão não existe nos corpos fluídicos, a vida não repousa mais sobre o funcionamento de órgãos especais, e neles não podem se produzir desordens análogas; um instrumento cortante, ou qualquer outro, aí penetra como num vapor, sem lhe ocasionar nenhuma lesão. Eis porque essas espécies de corpos não podem morrer, e porque os seres fluídicos designados sob o nome de agêneres não podem ser mortos”.

“Depois do suplício de Jesus, seu corpo ali, inerte e sem vida, foi enterrado como os corpos comuns, e cada um podia vê-lo e tocá-lo. Depois de sua ressurreição, quando quer deixar a Terra, não morre mais; seu corpo se eleva, se desvanece e desaparece, sem deixar nenhum traço, prova evidente de que o seu corpo era de outra natureza daquele que pereceu sobre a cruz; de onde é preciso concluir que se Jesus pôde morrer, foi porque tinha um corpo carnal”.

“Em conseqüência de suas propriedades materiais, o corpo carnal é a sede das sensações e das dores físicas que repercutem no centro sensitivo ou Espírito. Não é o corpo que sofre, é o Espírito que recebe o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo privado do Espírito, a sensação é absolutamente nula; pela mesma razão, o Espírito, que não tem corpo material, não pode sentir os sofrimentos que são o resultado da alteração da matéria, de onde é igualmente necessário concluir que se Jesus sofreu materialmente, como disso não se poderia duvidar, foi porque tinha um corpo material, de uma natureza semelhante àqueles de todo o mundo”.

_________

[1] Não falamos do mistério da encarnação, do qual não temos que nos ocupar aqui, e que será examinado ulteriormente

Continua, Kardec:

“Aos fatos materiais vêm se acrescentar considerações morais poderosíssimas”.

“Se Jesus estivesse, durante a sua vida, nas condições de seres fluídicos, não teria sentido nem a dor, nem nenhuma das necessidades do corpo; supor que assim não haja sido, é tirar-lhe todo o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolheu como exemplo de resignação. Se tudo nele não era senão aparência, todos os atos de sua vida, o anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para afastar o cálice de seus lábios, sua paixão, sua agonia, tudo, até a sua última exclamação no momento de entregar o seu Espírito, não teria sido senão um vão simulacro, para enganar sobre a sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, uma comédia indigna de um simples homem honesto, com mais forte razão de um ser tão superior; em uma palavra, ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e posteridade. Tais são as conseqüências lógicas desse sistema, conseqüências que não são admissíveis, porque o abaixam moralmente, em lugar de elevá-lo”.

E arremata categórico:

“Jesus teve, pois, como todos, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que atestam os fenômenos materiais e os fenômenos psíquicos que assinalaram a sua vida”.

Não dá, pois para conciliar a obra “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing, com o que Kardec desenvolve na codificação da Doutrina Espírita. E chamamos a atenção para o fato de que o Livro “A Gênese”, ter sido lançado depois da obra de Roustaing.

Entretanto, talvez a maioria dos espíritas nem saibam, mas Kardec fez uma análise dessa obra. Vamos encontrá-la na Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, relativa ao mês de junho de 1866, que vale a pena colocarmos neste estudo, para que tenhamos um esclarecimento mais aprofundado do assunto.

Passaremos, então, a palavra a Kardec, no texto intitulado “Os Evangelhos Explicados” – Pelo Sr. Roustaing, onde ele comenta, ao que tudo indica, os recém lançados livros:

“Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerado, e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, sobre nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada por O Livro dos Espíritos e o dos Médiuns. As partes correspondentes àquelas que tratamos em O Evangelho Segundo o Espiritismo  o são num sentido análogo. De resto, como nos limitamos às máximas morais que, quase sem exceção, são geralmente claras, elas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; também foram o assunto de controvérsias religiosas. Foi por esta razão que começamos por ali a fim de ser aceito sem contestação, esperando para o resto que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a idéia espírita”.

“O autor desta nova obra acreditou dever seguir um outro caminho; em lugar de proceder por graduação, quis alcançar o objetivo de um golpe. Tratou, por certas questões que não julgamos oportuno abordar ainda, e das quais, conseqüentemente, lhe deixamos a responsabilidade, assim como aos Espíritos que os comentaram. Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa caminhada sobre o desenvolvimento da opinião, não daremos, até nova ordem, às suas teorias, nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de sancioná-las ou de contradizê-las. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais aos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todos os casos, têm necessidade da sanção do controle universal, e até mais ampla confirmação não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita”.

“Quando tratarmos essas questões, o faremos sem cerimônia; mas é que, então, teremos recolhido os documentos bastante numerosos, nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos, para poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria; é assim que fazemos todas as vezes que se trata de formular um princípio capital. Nós os dissemos cem vezes, para nós a opinião de um Espírito, qualquer que seja o nome que traga, não tem senão o valor de uma opinião individual; nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma rigorosa lógica, para as coisas que não podemos controlar por nossos próprios olhos. De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como uma verdade absoluta, se, mais tarde, ela devesse ser combatida pela generalidade dos Espíritos?”.

“Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios de O Livro dos Espíritos e o dos Médiuns; nossas observações levam, pois, sobre aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em lugar de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, tendo todas as aparências da materialidade, e dele faz uma agênere. Aos olhos dos homens que não teriam podido compreender, então, sua natureza espiritual, teve que passar EM APARÊNCIA, essa palavra é incessantemente repetida em todo o curso da obra, para todas as vicissitudes da Humanidade. Assim se explicaria o mistério de seu nascimento: Maria não teria tido senão as aparências da gravidez. Este ponto, colocado por premissa e pedra angular, é a base sobre a qual se apóia para explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus”.

“Sem dúvida, não há aí nada de materialmente impossível para quem conhece as propriedades do envoltório perispiritual; sem nos pronunciar pró ou contra essa teoria diremos que ela é ao menos hipotética, e que, se um dia ela fosse reconhecida errada, a base sendo falsa, o edifício desmoronaria. Esperamos, pois os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão. Sem prejulgá-la, diremos que já foram feitas objeções sérias a essa teoria, e que, na nossa opinião, os fatos podem perfeitamente se explicar sem sair das condições da Humanidade corpórea”.

“Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, não diminui nada a importância dessa obra que, ao lado das coisas duvidosas do nosso ponto de vista, delas encerra, incontestavelmente, boas e verdadeiras, e será consultada proveitosamente pelos Espíritas sérios”.

“Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é de se desdenhar, e entra também por alguma coisa no sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito longamente, sem proveito para a clareza. Na nossa opinião, se, limitando-se ao estrito necessário, ter-se-ia podido reduzir a obra em dois, ou mesmo em um único volume, teria ganhado em popularidade”. (os grifos em negrito são nossos).

Podemos muito bem perceber que Kardec, embora não condene de toda a obra, deixa aberto para o futuro seu julgamento, uma vez que ele nunca pousou de “o dono da verdade”. Mas, quanto à questão do corpo fluídico, não deixa de dar sua opinião de que não sanciona essa hipótese. Não deixa também de falar que falta clareza e objetividade a essa obra.

Diz, de forma bastante clara, que a obra de Roustaing, por falta de uma confirmação mais ampla, não poderia ser considerada como parte integrante da Doutrina Espírita.

Daí, fica frustrada a tentativa do sr. bispo em levantar essa questão como ponto negativo contra a Doutrina, cuja intenção não vemos outra alternativa senão em vê-la como produto de má-fé.

A doutrina sobre a redenção

E pelo sangue de Jesus Cristo que temos a redenção, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça que ele derramou profusamente sobre nós, explicava o Apóstolo aos Efésios (1,7). A nossa redenção pela paixão, morte e ressurreição de Jesus é outra verdade fundamental da fé cristã. Nisso consiste propriamente a "boa nova" ou o "evangelho" .

Mas nem esta verdade tão central entra no credo espírita de Allan Kardec. Segundo ele, cada um deve ser o seu próprio redentor através do sistema das reencarnações. Por isso, no espiritismo a soteriologia (ou doutrina sobre a redenção ou salvação do homem) é deslocada da cristologia para a antropologia.

Leão Denis o enuncia cruamente quando escreve: "Não, a missão de Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da Humanidade. O sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém. Cada qual deve resgatar-se a si mesmo, resgatar-se da ignorância e do mal. É o que os espíritos, aos milhares, afirmam em todos os pontos do mundo" (Cristianismo e Espiritismo, p. 88).

Isso nunca foi doutrina do Cristo, pois ele deixou bem claro “a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27). A ignorância dos homens transferiu para Jesus o que os judeus tinham como práticas ritualísticas de expiação do pecado. Matava-se um boi, que era oferecido em holocausto como vítima dos pecados do povo. Essa de se arrumar um bode expiatório para nos nossos pecados é muito fácil, difícil é domar nossas fraquezas, nossos vícios para nos tornamos homens de bem. A manter essa idéia de que o sangue de Jesus redimiu nossos pecados teremos que resolver o seguinte impasse; ou todos estamos salvos ou então teremos que arrumar outro Cristo para pagar pelos nossos pecados. Entretanto, para a Igreja Católica Jesus não pagou nem o pecado de Adão e Eva já que todos nascem com eles, como pagaria pelos da humanidade toda? E, pior ainda, o sangue de Jesus, por lógica, só poderia ter redimido os pecados de sua morte para trás, daí, conforme já o dissemos, teremos que arrumar outro Cristo, para pagar pelos pecados cometidos pela humanidade daí para frente.

Será que esse pessoal nunca vai acordar para ver que absurdo é essa história da remissão dos pecados pelo sangue de Jesus.

O sacrifício de Jesus pela humanidade foi ter que se encarnar num planeta tão mesquinho igual ao nosso para levar uma mensagem que ninguém segue, ter consciência que seria morto pela liderança religiosa, enfim passar tudo que passou para, dois mil e poucos anos depois, a humanidade não seguir os seus ensinamentos. Também pudera, tão desvirtuados que foram seus ensinos pela liderança religiosa que a essência se perdeu em meio aos rituais e ao interesse financeiro.

Deixaremos para reflexão: “Eu digo: ‘Meu projeto se cumprirá; eu realizarei tudo o que desejo’" (Is 46,10) e “Ele quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4), alguém poderá contrariar essa vontade de Deus de que todos sejam salvos? Mas pela interpretação religiosa que encontramos só os adeptos de determinada corrente é que serão salvos, em flagrante contradição com: “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34).

A verdade do evangelho é uma só: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, fora disso é pura deturpação.

A doutrina sobre a Igreja

"Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica". E a profissão cristã. Nem esta profissão entra no credo espírita.

Com a negação da doutrina cristã sobre a redenção e santificação dos homens, contestam-se conseqüentemente também todos os meios instituídos por Jesus Cristo para a salvação e santificação.

A começar pelo Batismo. Jesus mandou aos Apóstolos ir pelo mundo inteiro, ensinar a todos tudo quanto Ele lhes ordenara, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28, 19-20), esclarecendo: Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado (Mc 16, 16). No Brasil, os espíritas, fiéis à doutrina codificada por Allan Kardec, já não batizam nem fazem batizar os seus filhos. Nem teria sentido. Pois é pelas reencarnações que os homens devem alcançar a perfeição.

Na última Ceia, Jesus instituiu a Eucaristia e ordenou aos Apóstolos: Fazei isto em minha memória (Lc 22, 19). Mas os espíritas não o fazem. Nem teria sentido. Pois, segundo eles, o mistério pascal não tem valor de sacrifício pelos pecados dos homens.

Jesus disse aos Apóstolos: Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados 00 20, 23). Mas os espíritas não procuram receber o perdão divino que lhes é generosamente oferecido. Nem teria sentido. Pois somente mediante as reencarnações se alcança o perdão.

Jesus disse a Pedro: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus e o que ligares na terra será ligado nos céus e o que desligares na terra será desligado nos céus (Mt 16, 18-19). Mas os espíritas não dão nenhuma importância nem a Pedro e seus sucessores, nem à Igreja que Jesus dizia ser "sua", nem ao poder das chaves que o Senhor Jesus entregou ao chefe do Colégio apostólico.

Jesus declarou aos Apóstolos: Quem vos ouve a mim me ouve, quem vos despreza a mim me despreza, e quem me despreza, despreza aquele que me enviou (Lc 10, 16). Para os espíritas, tudo isso já está superado. Pois eles vão receber as orientações dos espíritos