Kardec e a reencarnação
Muitas pessoas, querendo depreciar o
Espiritismo, dizem que a reencarnação foi tomada do hinduísmo ou de uma crença
popular qualquer, apelando para o tal de “paganismo”, como se isso fosse
derrubar a nossa convicção na reencarnação. Para que fique bem claro, vejamos o
que o próprio Kardec disse a esse respeito:
A doutrina da reencarnação, isto é, a que
consiste em admitir para o homem muitas existências sucessivas, é a única que
corresponde à idéia que fazemos da justiça de Deus, com respeito aos homens de
formação moral inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas
esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por
novas provações. A razão no-la indica e os Espíritos a ensinam. (KARDEC,
2006, p. 155). (grifo nosso).
O dogma da reencarnação,
dizem algumas pessoas, não é novo; foi ressuscitado de Pitágoras. Jamais
dissemos que a Doutrina Espírita fosse uma invenção moderna. Por constituir
uma lei da Natureza, o Espiritismo há de ter existido desde a origem dos tempos
e sempre nos esforçamos em provar que se encontram sinais dele na mais remota
Antigüidade. Pitágoras, como se sabe, não foi o autor do sistema da
metempsicose; ele o colheu dos filósofos indianos e dos egípcios, onde existia
desde tempos imemoriais. A idéia da transmigração das raças formava, pois,
uma crença vulgar, admitida pelos homens mais eminentes. De que maneira
chegou até eles? Por uma revelação, ou por intuição? Não o sabemos. Mas, seja
como for, uma idéia não atravessa os séculos e nem é aceita pelas inteligências
de escol, se não contiver algo de sério. Assim, a antigüidade dessa doutrina
seria mais uma prova a seu favor do que uma objeção. Todavia, entre a
metempsicose dos antigos e a moderna doutrina da reencarnação há, como também
se sabe, uma grande diferença: a de os Espíritos rejeitarem de maneira
absoluta a transmigração da alma do homem para os animais e vice-versa. (KARDEC, 2006, p.
177). (grifo nosso).
Vós estáveis, sem dúvida,
dizem também alguns contraditores, imbuídos dessas idéias, e eis porque os
Espíritos se aterraram à vossa maneira de ver. Aí está um erro que prova, uma
vez mais, o perigo dos julgamentos apressados e sem exame. Se essas pessoas
tivessem se dado ao trabalho de lerem o que escrevemos sobre o Espiritismo,
teriam se poupado apenas de uma objeção feita muito levianamente. Repetiremos,
pois, o que dissemos a esse respeito, saber que, quando a doutrina da
reencarnação nos foi ensinada pelos Espíritos, ela estava tão longe do
nosso pensamento, que tínhamos feito, sobre os antecedentes da alma um sistema
diferente, de resto, partilhado por muitas pessoas. A doutrina dos Espíritos,
sob esse assunto, portanto, nos surpreendeu; diremos mais, contrariou,
porque derrubou as nossas próprias idéias; ela estava longe, como se vê, de
ser-lhe o reflexo. Isso não é tudo; não cedemos ao primeiro choque; combatemos,
defendemos a nossa opinião, levantamos objeções, e não nos rendemos senão à
evidência, e quando vimos a insuficiência do nosso sistema para resolver todas
as questões que esse assunto levanta. (KARDEC, 2001, pp. 295-296) (grifo
nosso).
Temos, pois, como
se vê, muitos motivos para não aceitarmos, levianamente, todas as teorias dadas
pelos Espíritos. Quando uma nos surge, nos limitamos ao papel de observador;
fazemos abstração de sua origem espírita, sem nos deslumbrarmos pela imponência
de nomes pomposos; nós a examinamos como se ela emanasse de um simples mortal,
e vemos se é racional, se dá conta de tudo, se resolve todas as dificuldades. Foi
assim que procedemos com a doutrina da reencarnação que não adotamos, embora
vinda dos Espíritos, senão depois de reconhecer que só ela, mas só ela, podia resolver o
que nenhuma filosofia ainda não resolvera, e isso abstração feita das provas
materiais que dela são dadas, cada dia, a nós e a muitos outros. Pouco nos importa,
pois, os contraditores, fossem eles mesmo Espíritos; desde que ela é lógica,
conforme a justiça de Deus; que eles não podem substitui-la por algo mais
satisfatório, não nos inquietamos mais com eles do que com aqueles que afirmam
que a Terra não gira ao redor do Sol - porque há Espíritos dessa força e que se
dão por sábios - ou que pretendem que o homem tenha vindo inteiramente formado
de um outro mundo, carregado nas costas de um elefante alado. (KARDEC, 2000,
pp. 108-109). (grifo nosso).
O próprio princípio
da reencarnação que tinha, no primeiro momento, encontrado mais contraditores,
porque não era compreendido, hoje é aceito pela força da evidência, e porque
todo homem que pensa nele reconhece a única solução possível dos maiores
problemas da filosofia moral e religiosa. Sem a reencarnação, para-se a cada
passo, tudo é caos e confusão; com a reencarnação tudo se esclarece, tudo se
explica da maneira mais racional; se ela encontra ainda alguns adversários,
mais sistemáticos do que lógicos, o número deles é muito restrito; ora, quem a
inventou? Não foi, seguramente, nem vós e nem eu; ela nos foi ensinada, nós a
aceitamos, eis tudo o que fizemos. De todos os sistemas que surgiram no
princípio, bem poucos sobrevivem hoje, e pode-se dizer que os seus raros
partidários estão, sobretudo, entre as pessoas que julgam sob um primeiro
aspecto, e, freqüentemente, segundo idéias preconcebidas ou preconceitos; mas é
evidente agora que, quem se dá ao trabalho de aprofundar todas as questões e
julga friamente, sem prevenção, sem hostilidade sistemática, sobretudo, é
invencivelmente conduzido, pelo raciocínio quanto pelos fatos, à teoria
fundamental que prevalece hoje, pode-se dizer, em todos os países do mundo. (KARDEC,
1993, pp. 135-136). (grifo nosso).
Temos, então, acima, os motivos que levaram Kardec a aceitar a
reencarnação, o que indica, certamente, que não foi buscá-la no hinduísmo,
conforme querem fazer crer os que, na falta de bons argumentos, tentam levar as
coisas para o lado do paganismo, como se isso fosse resolver a questão. Por
outro lado, fica aí registrada mais uma prova concreta de que os que assim agem
nada sabem sobre o Espiritismo, fato lamentável para quem se propõe a criticar
os outros sem conhecimento de causa.
Como essas críticas já existiam em seu tempo, Kardec não deixou de
responder a essa acusação de que a reencarnação não seria senão uma renovação
da doutrina da metempsicose de Pitágoras. A isso rebateu dizendo:
A metempsicose dos antigos consistia na transmigração da alma do homem
nos animais, o que implicava uma degradação. Demais, essa doutrina não era o
que se vulgarmente se crê. A transmigração pelos corpos dos animais não era
considerada como condição inerente à natureza da alma humana, mas como punição
temporária; é assim que se admitia que as almas dos assassinos iam habitar os
corpos dos animais ferozes, para neles receberem castigos; as dos impudicos, os
porcos e javalis; as dos inconstantes e estouvados, as aves; as dos preguiçosos
e ignorantes, os animais aquáticos. Depois de alguns milhares de anos, mais ou
menos, conforme a culpabilidade, a alma, saindo dessa espécie de prisão,
voltava à humanidade. A encarnação animal não era, pois, uma condição absoluta;
ela, como se vê, aliava-se à encarnação humana, e a prova disso é que a punição
dos homens tímidos consistia em passar a corpos de mulheres, expostas ao
desprezo e às injúrias. Era uma espécie de espantalho para os simples, antes
que um artigo de fé para os filósofos. Assim como dizemos às crianças: "Se
fordes más, o lobo vos comerá", os antigos diziam aos criminosos:
"Vós vos tornareis em lobos", e hoje se diz: "O diabo vos
agarrará e vos levará para o inferno".
A pluralidade das existências, segundo o Espiritismo,
difere essencialmente da metempsicose, em não admitir aquele a encarnação da
alma humana nos corpos de animais, mesmo como castigo. Os Espíritos ensinam que
a alma não retrograda, mas progride sempre. Suas diferentes existências
corpóreas se cumprem na humanidade, sendo cada uma um passo que a alma dá na
senda do progresso intelectual e moral; o que é coisa muito diversa da
metempsicose.
Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em
uma só existência, muitas vezes abreviada por causas acidentais, Deus lhe
permite continuar, em uma nova encarnação, o que ela não pôde acabar em outra,
ou de recomeçar o que fez errado. A expiação na vida corporal consiste nas
tribulações que nela sofremos.
Quanto à questão de saber se a pluralidade das
existências da alma é ou não contrária a certos dogmas da Igreja, limito-me a
dizer o seguinte:
Ou a reencarnação existe, ou não; se existe, é uma lei
da Natureza. Para provar que ela não existe, seria necessário demonstrar que
vai de encontro, não aos dogmas, mas a essas leis, e que há outra mais clara e
logicamente melhor que ela, explicando as questões que só ela pode resolver.
Além disso, é fácil demonstrar que certos dogmas encontram nela sanção
racional, hoje aceitos por aqueles que os repeliam outrora, por falta de
compreensão. Não se trata, pois, de destruir, mas de interpretar; é o que pela
força das coisas será feito mais tarde.
Aqueles que não queiram aceitar a interpretação ficam
perfeitamente livres, como ainda hoje o são, de crer que é o Sol que gira ao
redor da Terra. A idéia da pluralidade das existências se vulgariza com pasmosa
rapidez, em razão de sua extrema lógica e conformidade com a justiça de Deus.
Quando ela for reconhecida como verdade natural e for aceita por todos, que
fará a Igreja?
Em resumo: a reencarnação
não é um sistema imaginado pelas necessidades de um ideal, nem uma opinião
pessoal; é ou não um fato. Se está demonstrado que certos efeitos existentes
são materialmente impossíveis sem a reencarnação, é preciso admitirmos que elas
são a conseqüência desta; logo, se
está em a Natureza, não pode ser anulada por uma opinião contrária. (KARDEC,
2001, pp. 142-143).
Com isso Kardec fecha a questão quanto à origem de sua crença na
reencarnação, evidenciando que, para sustentá-la, usou a razão e a lógica, não
a fé cega e dogmática, imposta por interesses dos dirigentes de determinados
ramos ditos cristãos. Além disso mesmo que fosse no hinduísmo que Kardec tivesse adquirido a sua convicção na
reencarnação, isso não seria, para ele e para nós, Espíritas, nenhum motivo de
vergonha ou depreciação da sua fonte. Caso fosse, não teríamos nenhuma reserva
em admitir isso, assim como admitimos que muitas das nossas idéias provêm do
Cristianismo (primitivo), pois estamos sempre dispostos a assimilar as idéias
progressistas, de onde quer que elas venham, desde que sejam lógicas, já que
não nos arvoramos em ser, como disse Kardec, os únicos distribuidores de luz
pelo mundo.
Paulo da Silva Neto
Sobrinho
ago/2007
Referências bibliográficas
KARDEC, A. O
Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: FEB, 2006.
KARDEC, A. Revista
Espírita 1858, Araras, SP: IDE, 2001.
KARDEC, A. Revista
Espírita 1860, Araras, SP: IDE, 2000.
KARDEC, A. Revista
Espírita 1861, Araras, SP: IDE, 1993.
KARDEC, A. O que é o
Espiritismo, Rio: FEB, 2001.
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