Merece crédito o Evangelho segundo o Espiritismo?

 

Já vimos os mais variados temas Espíritas sendo combatidos, entretanto, todos os que se aventuram a esse desiderato sempre demonstraram absoluta falta de conhecimento daquilo que se propõem a combater.

Kardec já dizia []:

"(...) Só com o tempo e o estudo se adquire o conhecimento de qualquer ciência. Ora, o Espiritismo, que entende com as mais graves questões de filosofia, com todos os ramos da ordem social, que abrange tanto o homem físico quanto o homem moral, é, em si mesmo, uma ciência, uma filosofia, que já não podem ser aprendidas em algumas horas, como nenhuma outra ciência.

"Tanta puerilidade haveria em se querer ver todo o Espiritismo numa mesa girante, como toda a física nalguns brinquedos de criança. A quem não se limite a ficar na superfície, são necessários, não algumas horas somente, mas meses e anos, para lhe sondar todos os arcanos. Por aí se pode apreciar o grau de saber e o valor da opinião dos que se atribuem o direito de julgar, porque viram uma ou duas experiências, as mais das vezes por distração ou divertimento. Dirão eles com certeza que não lhes sobram lazeres para consagrarem a tais estudos todo o tempo que reclamam. Está bem; nada a isso os constrange. Mas, quem não tem tempo de aprender uma coisa não se mete a discorrer sobre ela e, ainda menos, a julgá-la, se não quiser que o acoimem de leviano. Ora, quanto mais elevada seja a posição que ocupemos na ciência, tanto menos escusável é que digamos, levianamente, de um assunto que desconhecemos". (págs 32-33).

(...)

"O Espiritismo não pode considerar crítico sério, senão aquele que tudo tenha visto, estudado e aprofundado com a paciência e a perseverança de um observador consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto qualquer adepto instruído; que haja, por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não nos romances da ciência; aquele a quem não se possa opor fato algum que lhe seja desconhecido, nenhum argumento de que já não tenha cogitado e cuja refutação faça, não por mera negação, mas por meio de outros argumentos mais peremptórios; aquele, finalmente, que possa indicar, para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhes aponta o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer". (págs. 33-34).

"Toda ciência não se adquire senão com tempo e estudo; ora, o Espiritismo, que toca nas mais graves questões da filosofia, a todas as ramificações da ordem social, que abarca, ao mesmo tempo, o homem físico e o homem mora, é, ele próprio, toda uma ciência, toda uma filosofia que não pode ser apreendida em algumas horas, como todas as outras ciências; haveria tanta puerilidade em ver todo o Espiritismo em uma mesa girante, como em ver toda a física em certos jogos infantis. Para todo aquele que não quer se deter na superfície, não são preciso horas, mas meses e anos para sondar-lhe todos os arcanos. Que se julgue, por aí, o grau do saber e do valor da opinião daqueles que se arrogam o direito de julgar, porque viram um ou duas experiências, o mais freqüentemente, à guisa de distração e de passatempo. Eles dirão, sem dúvida, que não têm tempo disponível para dar todo o tempo necessário a esse estudo; seja, nada os constrange a isso; mas, então, quando não se tem tempo para aprender uma coisa, não se ocupe em falar sobre ela, menos ainda em julgá-la, se não quiser ser acusado de leviandade; ora, quanto mais se ocupa uma posição elevada na ciência, menos se é desculpável por tratar levianamente um assunto que não se conhece".

(...) "O Espiritismo não pode considerar como crítico sério senão aquele que tiver visto tudo, estudado tudo, aprofundado tudo, com paciência e a perseverança de um observador consciencioso; que soubesse sobre o assunto quanto o adepto mais esclarecido; que tivesse, por conseguinte, haurido seus conhecimentos em outro lugar do que nos romances de ciências; a quem não se pudesse opor nenhum fato do qual não tivesse conhecimento, nenhum argumento que não tivesse meditado; que refutasse, não por negação, mas outros argumentos mais peremptórios; que pudesse, enfim, assinalar uma causa mais lógica para os fatos averiguados. Esse crítico está ainda por se encontrar".

Não restando a nós dizer mais nada sobre isso, vamos, portanto, a um novo texto que nos chega, do qual faremos uma análise.

As Escrituras de Deus condenam o espiritismo, espiritualismo, bruxaria, kardecismo, mesa branca, umbanda, candomblé, macumba, xangô, quimbanda, vodu, bruxaria, magia, reencarnação, mediunidade, toda comunicação ou tipo de contato e relacionamento com mortos e entidades espirituais.

Merece crédito o "Evangelho segundo o Espiritismo Kardecista"?

Eis aí a prova de que quem nos combate não tem o mínimo conhecimento do que é o Espiritismo. Ao misturar Espiritismo com bruxaria, magia, macumba, xangô, quimbanda, vodu, etc realça que é um completo ignorante sobre a essência da Doutrina Espírita. Falar que as Escrituras condenam o espiritismo e kardecismo é algo tão ridículo como dizer que tartaruga é um pássaro porque bota ovos. Espiritismo não é kardecismo, e Espiritismo não são as práticas mediúnicas, coisa que o detrator não sabe, pois se soubesse não diria asneira.

Quanto a questão de "O Evangelho Segundo o Espiritismo" merecer ou não crédito, nós iremos, no desenrolar desse estudo, ver a quem assiste a razão.

Um Pequeno histórico

O Espiritismo remonta aos tempos mais antigos da Humanidade. Dele tomamos conhecimento através dos escritos da Bíblia, como advertência dos profetas de Deus para que não nos envolvamos com esta prática, pois ela esta em confronto com a Palavra de Deus. Os povos que adoravam a deuses estranhos e que não seguiam aos ensinos dados por Deus, eram usuários deste costume. Foi para que os adoradores do Verdadeiro Deus não se envolvessem com eles que Moisés falou:

"Quando entrares na terra que o SENHOR teu Deus te der, não aprenderás a fazer conforme as abominações daquelas nações. Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR teu Deus os lança fora de diante de ti." (Dt 18:9 a 12).

O espiritismo é uma das heresias que mais cresce no mundo de hoje e está enraizada em quase todas as religiões, principalmente naquelas relacionadas com a Nova Era. O espiritismo é o mais antigo engano religioso que já surgiu. Porém, em sua versão moderna, começou no século XIX, ou pouco antes. Houve um avivamento, um recrudescimento ou um ressurgimento, com um fato que aconteceu com certa família, na América do Norte, em Hydesville (Nova Iorque), em 1848.

Esta família se chamava Fox. O casal tinha duas filhas, Margarida (Margaret), de 14 anos, e Catarina (Kate), de onze, que foram protagonista de uma fatos que deram origem ao atual espiritismo.

Em meados de março de 1848, começaram a ouvir-se golpes nas portas e objetos que se moviam de um lugar para outro, sem auxílio de mãos, assustando as crianças. Às vezes, a vibração era tamanha que sacudia as camas. Finalmente, na noite de 21 de março de 1848, a jovem Kate desafiou o poder invisível e repetiu o barulho como um estalar de dedos. O desafio foi aceito e cada estalar de dedos era repetido, o que surpreendeu toda a família. Dessa forma se estabeleceu contato com o mundo invisível, e a notícia alastrou-se por outras partes, admitindo-se que tais espíritos eram dos mortos.

Partindo desse acontecimento, que recebeu ampla cobertura dos meios de comunicação da época, propagou-se o espiritismo por toda a América do Norte e na Inglaterra. Na época, outros países da Europa também foram visitados, com sucesso, pelos espíritas norte-americanos. As irmãs Fox passaram à História como as fundadoras do Espiritismo moderno.

Na França, o figura máxima que deu força ao espiritismo é conhecida pelo nome de Allan Kardec. Chamava-se Hippolyte Léon Denizard Rivail, nascido em Lyon, em 3 de outubro de 1804. Era formado em letras e ciências, doutorando-se em medicina. Estudou com Pestalozzi, de quem se tornou fiel discípulo e cujo sistema educacional ajudou a propagar.

Rivail tomou conhecimento de um algo extraordinário que acontecia no momento, e que causava um grande alvoroço na sociedade francesa: o fenômeno das mesas girantes e falantes, que afirmavam ser, um resultado da intervenção dos espíritos. A princípio ele não acreditou e rejeitou esta idéia, por considerá-la absurda. Porém, assistiu a uma reunião na casa da Sra. Plainemaison, onde presenciou fenômenos que o impressionaram profundamente, como ele próprio relatou depois.

Daí, foi um passo para manter contato com os espíritos que o orientaram a escrever e codificar seus ensinos. Dizia Kardec que havia recebido a missão de pregar uma nova religião, o que começou a fazer a 30 de abril de 1856. Um ano depois, publicou "O LIVRO DOS ESPÍRITOS", que contribuiu para propagação desta "doutrina". Dotado de inteligência e inigualável sagacidade escreveu outros livros que deram mais força ao espiritismo: O Evangelho Segundo o Espiritismo, A Gênese, O Céu e o Inferno, e, O Livro dos Médiuns. Foi ele o introdutor no espiritismo da idéia da reencarnação. Fundou "A Revista Espírita", periódico mensal editado em vários idiomas.

Rivail (Allan Kardec) morreu em 1869.

Para aqueles que desejarem conhecer um pouco mais sobre a história do espiritismo, indicamos a leitura dos livros que citamos no final.

Primeiramente, diremos que o Espiritismo não remonta aos tempos mais antigos da Humanidade, já que somente podemos considerá-lo como existente a partir do dia 18 de abril de 1857, data em que Kardec lança "O Livro dos Espíritos". Entretanto, quanto às manifestações espirituais e ao intercâmbio dos vivos com os mortos, esses sim, existem desde que Deus criou o ser humano, portanto, desde os primórdios da humanidade. Confundir parte como se fosse o todo é, a nosso ver, plena falta de conhecimento do que é realmente o Espiritismo, seria a mesma coisa que dizer que um braço ou uma perna é todo o corpo humano.

A completa ignorância desses fenômenos faziam-nos considerar de um lado, já que consideravam todos os seres espirituais como deuses, e por os utilizarem de outro, a sua utilização para as coisas mais frívolas, fizeram com que Moisés proibisse tais coisas, parece que o articulista concorda com isso uma vez que diz "Moisés falou", entretanto para impor mais autoridade ao que pretendia fazer, disse como provindas de Deus. Se fossem realmente de Deus, deveriam, no mínimo, estar entre os Dez Mandamentos, e muito mais lógico que proibir que os vivos evocassem os mortos, era não deixar que houvesse a possibilidade dos mortos se comunicarem com os vivos. Uma interdição seria muito mais simples e prática, sem o risco de que alguém viesse a desobedecê-Lo.

A passagem Deuteronômio 18, 9-12, sempre citada pelos bibliolátras, não prevalece, pois àquela época não existia Espiritismo, portanto não se aplica a nós, existiam sim, conforme já o dissemos, o intercâmbio entre os vivos e mortos. Moisés necessitando solidificar junto aos judeus, o princípio de um Deus único, urgia combater toda e qualquer prática que pudesse levá-los a ter outros deuses. Ora, o intercâmbio entre os dois planos da vida era uma delas, já que, por ignorância da realidade espiritual, consideravam como se fossem deuses os espíritos que se manifestavam. Nós iremos apresentar a prova disso mais à frente, por estar relacionada a um outro assunto que, por ora, não devemos antecipar.

Por outro lado, as práticas que Moisés estava condenando, era a que os cananeus faziam, conforme podemos ver pelo início da passagem que usa para condenar o Espiritismo: "Quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te der, não aprenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos", a partir daí Moisés lista várias práticas, todas elas relacionadas à adivinhação, do que podemos concluir, sem medo de errar, que praticavam a necromancia, que consistia exatamente nisso, ou seja, na evocação dos mortos para fins de adivinhação. Como não somos cananeus e como, principalmente, porque, não evocamos os mortos para fins de adivinhação, isso não se aplica a nós, tão óbvio que poderia ser desnecessário falar.

Para um bom entendimento definiremos o que vem a ser heresia. Conforme o dicionário eletrônico Houaiss: s.f. 1 interpretação, doutrina ou sistema teológico rejeitado como falso pela Igreja 2 teoria, idéia, prática etc. que nega ou contraria a doutrina estabelecida (por um grupo) 3 ação, dito ou atitude que desrespeita a religião 4 p.ext. fig. contra-senso, opinião absurda; disparate, despautério, tolice. Por essa definição, podemos considerar o próprio Jesus como herético, já que contrariou, não somente os princípios religiosos de seu tempo, mas principalmente a liderança religiosa, essa que, como as dos dias atuais, não quer aceitar nada de novo, já que se julga a dona da verdade. Assim, o fato de uma igreja ou qualquer corrente religiosa considerar o Espiritismo uma heresia, pouco nos importa, já que não nos sujeitamos a nenhuma delas e nem somos obrigados a dar a elas nenhuma satisfação do que fazermos, coisa que só o faremos a Deus. A única coisa que nos interessa é seguir o Mestre, e sobre isso, ficamos com Paulo: "Se alguém está convencido de pertencer a Cristo, tome consciência, de uma vez por todas, de que assim como ele pertence a Cristo, também nós pertencemos a Cristo" (2 Cor 10,7).

Quanto ao crescimento do Espiritismo, ele é singular, pois apesar de não fazermos proselitismo de qualquer espécie e de todo o combate que lhe dão as outras correntes religiosas, mesmo assim seu crescimento é evidente. Foi constatado pelo IBGE que é no Espiritismo que se encontra o maior número de pessoas em relação a tempo de estudo, vejamos os dados:

Religião

Tempo de Estudo

Espíritas

9,6 anos

Católicos

5.78 anos

Evangélicos Pentecostais

5,3 anos

Via de conseqüência, é no Espiritismo que encontramos o maior número de pessoas com nível superior de escolaridade, dado significativo, pois, normalmente, são essas pessoas que possuem alto senso crítico, não se deixando levar pela cabeça dos outros. Quanto maior é o nível intelectual de uma pessoa, mais difícil se torna encabrestá-lo com as idéias retrógradas dos outros.

Sobre o episódio ocorrido com a família Fox, temos que fazer um necessário reparo na frase: "admitindo-se que tais espíritos eram dos mortos", não foi essa a questão, foram eles que disseram se tratar de espíritos dos mortos, e, no caso, da família Fox, foi o ser invisível foi quem disse ser um espírito, que, quando vivo, era um vendedor ambulante chamado Charles B. Rosma, que foi assassinado na casa onde moravda a família Fox, fato confirmado 56 anos depois quando acharam na adega o esqueleto de um homem, inclusive se achou o baú que pertenceu ao mascate.

Observar que apesar de citarem a ocorrência em Hydesville, não narraram todo o caso, pois isso os deixariam embaraçados. Primeiro, ficaria provado que não é demônio que se manifesta, uma vez que se comprovou tudo o que o espírito disse a seu respeito. E segundo, e o mais importante, a comunicação não foi de iniciativa dos vivos, mas partiu do próprio espírito do morto que, para se fazer acreditar em sua presença, provocou as batidas. É aqui que pegamos os nossos detratores "de calças-curtas", já que se foi iniciativa dos próprios espíritos as comunicações não há que se falar em proibição de se comunicar com os mortos, pois se isso fosse realmente proibido por Deus os mortos não viriam por sua própria vontade se comunicar com os vivos, não prevaleceria, portanto, a vontade de Deus.

Outro fator interessante que não fazem a mínima questão de falar é que John D. Fox, era pastor da Igreja Metodista, ou seja, foi um pastor protestante que presenciou o início de tudo, e, por não abrir mão da missão que os espíritos disseram que tinha em divulgar esses acontecimentos, acabou sendo expulso de sua Igreja. Mais uma vez a ignorância humana prevalece sobre os fatos.

As irmãs Fox não foram fundadoras do Espiritismo, foram apenas precursoras, o que é bem diferente. Se há alguém que poderíamos dizer fundador, embora para nós ele é um codificador, seria Kardec e ninguém mais.

Diz o articulista que: "Foi ele [Kardec] o introdutor no espiritismo da idéia da reencarnação", afirmativa que prova, mais uma vez, que nada sabe mesmo do Espiritismo, pois conforme o próprio Kardec disse a esse respeito (Revista Espírita 1862, pág. 51): "Quando nos foi revelado, ficamos surpresos, e o acolhemos com hesitação, com desconfiança; nós o combatemos durante algum tempo, até que a evidência nos foi demonstrada. Assim, esse dogma, nós o ACEITAMOS e não o INVENTAMOS, o que é muito diferente" (Grifo do original, negrito por nossa conta).

Quando se faz um texto é de bom alvitre citar toda a bibliografia usada, e no caso de se combater uma idéia, é necessário ser imparcial pesquisando várias fontes, prós e contras, para se poder fazer um perfeito juízo do assunto. Se nossa pesquisa se restringir a livros de pessoas que sabidamente são contra, acabaremos externando o pensamento dos seus autores, não o nosso próprio o que é lamentável.

O Conceito de Deus no Espiritismo

A doutrina espírita acerca de Deus é ambígua, ora assumindo aspectos deístas, ora aspectos panteístas, ora confundindo-se com a doutrina de Deus do Cristianismo histórico. Os autores espíritas parecem não conseguir estabelecer um consenso sobre esse assunto de vital importância. Até mesmos nas obras de um único autor encontram-se contradições flagrantes.

Sobre as qualidades de Deus, Allan Kardec define: "Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom". (O Livro dos Médiuns, cap. I, 13).

Mas, depois, definindo a alma, nega sua imaterialidade, alegando que o imaterial é o "nada", ao passo que a alma é alguma coisa. Diante disto, será que o espiritismo acredita que Deus é nada?

A fim de explicar a existência de Deus, Allan Kardec, se vale de argumentos clássicos do deísmo, de que "não há efeito sem causa". De acordo com o conceito deísta, Deus teria criado o universo e depois se retirado dele, deixando-o entregue à ação das leis físicas que, desde então, governam, como se o universo fosse um grande relógio.

No Capitulo II, item 19, de "A Gênese" (Allan Kardec), lemos que são atributos de Deus: "Deus é, pois a suprema e soberana inteligência; é único, eterno, imutável, imaterial, todo poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições, e não pode ser outra coisa". Esta conceituação concorda com o que o Cristianismo histórico reconhece como alguns atributos divinos. Porém, o fato de uma determinada religião ou seita ter pontos em comum com o Cristianismo bíblico não é suficiente para lhe qualificar como cristã.

Embora o conceito espírita de Deus tenha nuanças deístas e ao mesmo tempo uma certa semelhança com a doutrina bíblica, é inegável que ela às vezes também possui um forte sabor panteísta. Senão, vejamos o que Léon Denis escreveu: "Deus é a grande alma universal, de que toda alma humana é uma centelha, uma irradiação. Cada um de nós possui, em esta latente, forças emanadas do divino foco". (Léon Denis, Cristianismo e Espiritismo, 5a. ed., pág. 246). Conceito totalmente panteísta!

Em outro lugar, Denis faz as seguintes assertivas acerca de Deus e sua relação com o universo (conceitos também panteísta): "Deus é infinito e não pode ser individualizado, isto é, separado do mundo, nem subsistir à parte... [Deus é o] Deus imanente, sempre presente no seio das coisas [sendo que] o Universo não é mais essa criação, essa obra tirada do nada de que falam as religiões. É um organismo imenso animado de vida eterna... o eu do Universo é Deus." (Léon Denis, Depois da Morte, pág. 114, 123, 124 e 349).

Para quem não estudou o Espiritismo, ou para os que, de posse de uma meia dúzia de livros Espíritas, acham que sabem tudo de Doutrina Espírita, a posição do Espiritismo em relação a Deus pode parecer ambígua. Tão importe esse tema que a primeira questão que Kardec propõe aos Espíritos é exatamente "O que é Deus?", cuja resposta foi: A inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas. A ambigüidade fica por conta de quem não estudou, com a imprescindível profundidade, o Espiritismo.

Existe em "O Livro dos Espíritos" (págs. 55-56) um questionamento de Kardec sobre a questão do Panteísmo, que irá nos esclarecer qual é a posição do Espiritismo. Vejamos:

Panteísmo

14. Deus é um ser distinto, ou será, como opinam alguns, a resultante de todas as forças e de todas as inteligências do Universo reunidas?

"Se fosse assim, Deus não existiria, porquanto seria efeito e não causa. Ele não pode ser ao mesmo tempo uma e outra coisa".

"Deus existe; disso não podeis duvidar e é o essencial. Crede-me, não vades além. Não vos percais num labirinto donde não lograríeis sair. Isso não vos tornaria melhores, antes um pouco mais orgulhosos, pois que acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis. Deixai, consequentemente, de lado todos esses sistemas; tendes bastantes coisas que vos tocam mais de perto, a começar por vós mesmos. Estudai as vossas próprias imperfeições, a fim de vos libertardes delas, o que será mais útil do que pretenderdes penetrar no que é impenetrável".

15. Que se deve pensar da opinião segundo a qual todos os corpos da Natureza, todos os seres, todos os globos do Universo seriam partes da Divindade e constituiriam, em conjunto, a própria Divindade, ou, por outra, que se deve pensar da doutrina panteísta?

"Não podendo fazer-se Deus, o homem quer ao menos ser uma parte de Deus".

16. Pretendem os que professam esta doutrina achar nela a demonstração de alguns dos atributos de Deus: Sendo infinitos os mundos, Deus é, por isso mesmo, infinito; não havendo o vazio, ou o nada em parte alguma, Deus está por toda parte; estando Deus em toda parte, pois que tudo é parte integrante de Deus, Ele dá a todos os fenômenos da Natureza uma razão de ser inteligente. Que se pode opor a este raciocínio?

"A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o absurdo".

Esta doutrina faz de Deus um ser material que, embora dotado de suprema inteligência, seria em ponto grande o que somos em ponto pequeno. Ora, transformando-se a matéria incessantemente, Deus, se fosse assim, nenhuma estabilidade teria; achar-se-ia sujeito a todas as vicissitudes, mesmo a todas as necessidades da Humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da Divindade: a imutabilidade. Não se podem aliar as propriedades da matéria à idéia de Deus, sem que Ele fique rebaixado ante a nossa compreensão e não haverá sutilezas de sofismas que cheguem a resolver o problema da Sua natureza íntima. Não sabemos tudo o que Ele é, mas sabemos o que Ele não pode deixar de ser e o sistema de que tratamos está em contradição com as suas mais essenciais propriedades. Ele confunde o Criador com a criatura, exatamente como o faria quem pretendesse que engenhosa máquina fosse parte integrante do mecânico que a imaginou.

A inteligência de Deus se revela em Suas obras como a de um pintor no seu quadro; mas, as obras de Deus não são o próprio Deus, como o quadro não é o pintor que o concebeu e executou.

No livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo IVI – Nascer de Novo, item 23 (pág. 97), Kardec faz mais uma colocação, sobre o princípio que a Doutrina Espírita defende, vejamos:

"Em resumo, quatro alternativas se apresentam ao homem, para o seu futuro de além-túmulo: 1ͺ, o nada, de acordo com a doutrina materialista; 2ͺ, a absorção no todo universal, de acordo com a doutrina panteísta; 3ͺ, a individualidade, com fixação definitiva da sorte, segundo a doutrina da Igreja; 4ͺ, a individualidade, com progressão indefinida, conforme a Doutrina Espírita".

Onde está a ambigüidade dita pelo detrator? Kardec ao explicar os atributos de Deus, diz: "É imaterial. Quer isto dizer que a sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria. De outro modo, ele não seria imutável, porque estaria sujeito às transformações da matéria.(Livro dos Espíritos, pág. 55). "É imaterial; quer dizer, sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria, de outro modo ele não seria imutável, porque estaria sujeito às transformações da matéria". A respeito do que venha a ser imaterial, veremos mais claramente quando definirmos o que é o Espírito, logo mais adiante.

Na resposta à pergunta 4, de O Livro dos Espíritos (pág. 52), iremos saber de onde Kardec tira seus argumentos para explicar a existência de Deus, vejamos:

"- Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?".

- Num axioma que aplicais às vossas ciências. N: não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem, e vossa razão vos responderá".

Explicando essa resposta, diz Kardec: "Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pôde fazer alguma coisaPara crer em Deus basta lançar os olhos sobre as obras da criação. O Universo existe; ele tem, pois, uma causa. Duvidar da existência de Deus seria negar que todo efeito tem uma causa, e adiantar que o nada pode fazer alguma coisa".

Sobre a definição de alma, temos que recorrer ao que Kardec coloca, em "O Livro dos Espíritos" (pág. 59), a respeito da imaterialidade, única forma de entender seu pensamento.

23. Que é o Espírito?

"O princípio inteligente do Universo."

a) - Qual a natureza íntima do Espírito?

"Não é fácil analisar o Espírito com a vossa linguagem. Para vós, ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma coisa. Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe."

"Perg. 23 – Que é o espírito?

- O princípio inteligente do Universo.

- Qual é a natureza íntima do espírito?

- O espírito, com a linguagem humana, não é fácil de ser analisado. Porque o espírito não é uma coisa palpável, para vós ele não é nada; mas para nós é alguma coisa. Sabei bem: o nada é coisa nenhuma, e o nada não existe".

82. Será certo dizer-se que os Espíritos são imateriais?(págs. 81-82).

"Como se pode definir uma coisa, quando faltam termos de comparação e com uma linguagem deficiente? Pode um cego de nascença definir a luz? Imaterial não é bem o termo; incorpóreo seria mais exato, pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito há de ser alguma coisa. É a matéria quintessenciada, mas sem analogia para vós outros, e tão etérea que escapa inteiramente ao alcance dos vossos sentidos."

Explica-nos Kardec: "Dizemos que os Espíritos são imateriais, porque, pela sua essência, diferem de tudo o que conhecemos sob o nome de matéria. Um povo de cegos careceria de termos para exprimir a luz e seus efeitos. O cego de nascença se julga capaz de todas as percepções pelo ouvido, pelo olfato, pelo paladar e pelo tato. Não compreende as idéias que só lhe poderiam ser dadas pelo sentido que lhe falta. Nós outros somos verdadeiros cegos com relação à essência dos seres sobre-humanos. Não os podemos definir senão por meio de comparações sempre imperfeitas, ou por um esforço da imaginação.

"Perg. 82 – É exato dizer-se que os Espíritos são imateriais?

- Como se pode definir uma coisa, quando faltam termos de comparação e com uma linguagem insuficiente? Pode um cego de nascimento definir a luz? Imaterial não é o termo; incorpóreo seria mais exato, pois deves compreender que sendo o Espírito uma criação, dever ser alguma coisa. É a matéria quintenssenciada, mas sem analogia para vós outros, e tão etérea que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.

Explica-nos Kardec: Dizemos que os Espíritos são imateriais, porque sua essência difere de tudo que conhecemos sob o nome de matéria. Uma comunidade de cegos não teria termos para definir a luz e seus efeitos. Um cego de nascença crê possuir todas as percepções pelo ouvido, o odor, o gosto e o tato; ele não compreende as idéias que lhe dariam o sentido que lhe falta. Da mesma forma, com relação à essência dos seres sobre-humanos somos verdadeiros cegos. Não os podemos definir senão por comparações sempre imperfeitas, ou por um esforço de nossa imaginação".

E explicando mais a respeito do que é imaterial, no Livro dos Médiuns (pág. 69), aborda novamente essa questão da seguinte forma:

"(...) Quando se diz que a alma é imaterial, deve-se entendê-lo em sentido relativo, não em sentido absoluto, por isso que a imaterialidade absoluta seria o nada. Ora, a alma, ou o Espírito, são alguma coisa. Qualificando-a de imaterial, quer-se dizer que sua essência é de tal modo superior, que nenhuma analogia tem com o que chamamos matéria e que, assim, para nós, ela é imaterial.

 

"... Quando se diz que é imaterial, é preciso entender no sentido relativo, e não absoluto, porque a imaterialidade absoluta seria o nada; ora, a alma ou Espírito é alguma coisa; quer-se dizer que sua essência é de tal modo superior que não tem nenhuma analogia com aquilo que nós chamamos matéria e, assim, para nós, é imaterial".

De certa forma tudo que agora acabamos de colocar, responde à pergunta do articulista: "Será que o espiritismo acredita que Deus é nada?", mas ainda podemos acrescentar de "O Livro dos Espíritos", (pág. 445):

"Perg. 958 – Por que o homem tem, instintivamente, horror ao nada?

- Porque o nada não existe".

Em "A Gênese" – cap. II, item 10 (pág. 57): Deus é eterno, isto é, não teve começo e não terá fim. Se tivesse tido princípio, houvera saído do nada. Ora, não sendo o nada coisa alguma, coisa nenhuma pode produzir. Ou, então, teria sido criado por outro ser anterior e, nesse caso, este ser é que seria Deus. Se lhe supuséssemos um começo ou fim, poderíamos conceber uma entidade existente antes dele e capaz de lhe sobreviver, e assim por diante, ao infinito.

Deus é eterno, quer dizer que não teve começo e nem terá fim. Se houvesse tido começo, teria saído do nada; o nada não sendo nada, nada pode produzir; ou bem ele haveria sido criado por um ser anterior, e, então, esse ser é que seria Deus. Se se lhe supusesse um começo ou um fim, poder-se-ia, pois, conceber um ser tendo existido antes dele, ou podendo existir depois dele, e assim sucessivamente até o infinito.

O que afirma sobre a opinião de Léon Denis, não procede, pois como continuador da obra de Kardec, não iria contradizê-lo. Muitas vezes uma explicação fica difícil por falta de palavras adequadas que não fosse causar qualquer tipo de confusão. "É assim que Deus é antes a personalidade absoluta, e não um ser que tem uma forma e limites. Deus é infinito e não pode ser individualizado, isto é, separado do mundo, nem subsistir à parte", ao que podemos concluir, desse pensamento de Léon Denis (Depois da Morte, pág. 110), que sendo Deus infinito está em tudo e todos, mais ou menos como encontramos no Salmo 139, 7-10:

"Para onde irei, longe do teu sopro?

Para onde fugirei, longe de tua presença?

Se subo ao céu, tu aí estas,

Se me deito no abismo, aí te encontro.

Se levanto vôo para as margens da aurora,

Se emigro para os confins do mar,

Aí me alcançará tua esquerda,

E tua direita me sustentará".

Entretanto a Palavra de Deus (a Bíblia), refuta com veemência estes ensinos. Façamos um rápido confronto doutrinário, em conformidade com a inspiração bíblica:

Deus é um ser pessoal: "Ele é um ser individual, com autoconsciência e vontade, capaz de sentir, escolher e ter um relacionamento recíproco com outros seres pessoais e sociais." (Millard J. Erickson, Christian Theology, Baker Book House, Grand Rapids, 1986, p. 269). Citaremos a seguir algumas provas bíblicas da personalidade de Deus:

a) Ele fala: "E disse Deus: Haja luz; e houve luz". (GN 1:3).

"HAVENDO Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo". (HB 1:1 e 2).

b) Ele tem emoções (sentimentos):

Misericórdia: "Misericordioso e piedoso é o SENHOR; longânimo e grande em benignidade. Assim como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece daqueles que o temem". (SL 103:8 e 13).

Amor: "Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor". (1JO 4:8).

"E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado". (RM 5:5).

c) Ele tem vontade própria: "Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou". (SL 115:3).

Deus é transcendente e imanente e também distinto de sua criação: A Bíblia mostra claramente que Deus não é um ser distante, que teria criado o universo e depois se ausentado dele, como pensa o deísmo.

"Faz crescer a erva para o gado, e a verdura para o serviço do homem, para fazer sair da terra o pão", (SL 104:14).

"Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos". (MT 5:45).

Pode-se ver, assim, que ele está presente na criação, tem interesse nela e cuida dela, principalmente do homem, criado à sua imagem e semelhança.

Transcendência: "Mas, na verdade, habitaria Deus na terra? Eis que os céus, e até o céu dos céus, não te poderiam conter, quanto menos esta casa que eu tenho edificado". (1RS 8:27)

Imanência: "Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? diz o SENHOR. Porventura não encho eu os céus e a terra? diz o SENHOR." (JR 23:24)

"ASSIM diz o SENHOR: O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés; que casa me edificaríeis vós? E qual seria o lugar do meu descanso?" (IS 66:1).

Aqui nosso articulista gastou muita tinta e papel para continuar sustentando algo que o Espiritismo não advoga de forma alguma, conforme já o demonstramos.

A definição de Deus dada pelos Espíritos – É a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas – que por si só já diz tudo sobre a personalidade de Deus.

Buscar na Bíblia sustentação para os seus argumentos, não nos diz nada, pois para nós ela não prova absolutamente nada, uma vez que apenas reflete o pensamento dos autores bíblicos, vejamos, por exemplo:

"Eu descobri que a mulher é a coisa mais amarga que a morte, porque ela é um laço, e seu coração é uma rede, e suas mãos, cadeias. Aquele que é agradável a Deus lhe escapa, mas o pecador será preso por ela" (Eclesiastes 7, 26).

"Agora, portanto, matem todas as crianças do sexo masculino e todas as mulheres que tiveram relações sexuais com homens. Deixem vivas apenas as meninas que não tiveram relações sexuais com homens, e elas pertencerão a vocês" (Números 31, 17-18).

Pela primeira passagem devemos pressupor que para ser agradável a Deus não podemos nos relacionar com as mulheres, então iremos nos relacionar com os homens? É ruim hem! Ao ler a segunda, temos a impressão de que Deus é um ser tão sanguinário que até as crianças manda exterminar, o que Hitler fez seria fichinha diante disso. E mais um outro absurdo é que deveriam poupar somente mulheres que fossem virgens, machismo ou ordem divina?

E em relação a ser uma doutrina cristã ou não, quem define isso, certamente, não são os nossos detratores, e se Jesus não delegou a ninguém esse direito, é cristão aquele que diz ser e pronto. Não somos todos obrigados a apensar da mesma forma, coisa que Jesus não exigiu de ninguém, assim, por que sempre se arrotam no direito de fazer aquilo que não têm procuração para tal?

Cristo no Espiritismo

Para falarmos na Divindade de Jesus Cristo, temos de falar também no assunto da Trindade, pois estas teses são básicas do Cristianismo bíblico e histórico e fazem parte do fundamento doutrinário que o distingue de todas as demais religiões e também da maioria das seitas pseudo-cristãs. O espiritismo, em geral, através de suas autoridades exponenciais, negam tanto a Trindade, quanto a Divindade de Jesus. Isto porque, em sua tentativa de oferecer ao homem um sistema religioso de auto-salvação, isto é, em que ele se salva por seus próprios méritos, excluem e negam a existência do Deus trino. Entretanto, a revelação bíblica aponta para a impossibilidade de o homem efetuar sua própria salvação, e mostra como o próprio Deus se encarnou para tornar possível ao homem o acesso ao seu Criador. No próximo item examinaremos a doutrina da salvação, do ponto de vista bíblico, em confronto com plano de salvação do espiritismo.

Grande parte dos escritores espíritas assumem uma posição frontalmente contrária à crença da Trindade. Para eles, Deus é um ser monopessoal, existindo em forma de uma só pessoa, o Pai, e negam que o Filho seja Deus e até rejeitam a existência do Espírito Santo como ser pessoal. O Jornal Espírita de março de 1953 respondendo à pergunta sobre se há mais de uma pessoa em Deus, declara o seguinte: "Não; a razão nos diz que Deus é um ser único, indivisível; que o Pai celeste é um só para todos os filhos do Universo". (Jornal Espírita, Rio de Janeiro, março 1953, p. 4).

A Bíblia, a Palavra de Deus, revela-nos um Deus trino, isto é um Deus eternamente subsistente em três pessoas, iguais entre si em natureza, essência e poder.

Muitos usam as passagens seguintes para dizer que Deus é um só, ou seja, uma unidade absoluta:

"Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR". (DT 6:4)

"Vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR, e meu servo, a quem escolhi; para que o saibais, e me creiais, e entendais que eu sou o mesmo, e que antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá". (IS 43:10)

"Eu sou o SENHOR, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças"; (IS 45:5).

"Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o SENHOR, e não há outro". (IS 45:6)

Essas passagens bíblicas afirmam claramente a unidade de Deus e demonstram que a natureza divina é indivisível. Poderíamos acrescentar outras passagens para reforçar esse aspecto da natureza de Deus. Entretanto, devemos levar em consideração que muitas vezes as Escrituras, principalmente no Antigo Testamento, apresentam determinadas realidades como sendo constituídas de uma unidade composta.

Por exemplo: o casamento. A Bíblia diz que "deixa o homem pai e mãe, e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne" (Gn 2:24). É evidente que a unidade constituída por marido e mulher é uma unidade composta e não uma unidade simples ou absoluta. Da mesma forma, pode-se dizer que há no Antigo Testamento muitas evidências de que a unidade de Deus é uma unidade composta, como é indicado por muitas passagens, que revelam uma pluralidade de pessoas na Divindade. No Novo Testamento, por sua vez, a doutrina da Trindade é apresentada com clareza. (Para melhor compreensão, ver "A TRINDADE").

O espiritismo não só nega a Divindade de Jesus, assim como defende a tese de que seu corpo não era real, de carne e ossos, mas fluídico, dando apenas a impressão de real.

Léon Denis, seguindo a mesma linha de pensamento de Kardec, segundo a qual Jesus teria sido mero homem e elevado à categoria de Deus por seus seguidores. Diz ele:

"Com o quarto Evangelho e Justino Mártir, a crença cristã efetua a evolução que consiste em substituir a idéia de um homem honrado, tornado divino, a de um ser divino que se tornou homem. Depois da proclamação da divindade de Cristo, no século IV, depois da introdução, no sistema eclesiástico, do dogma da Trindade, no século VII, muitas passagens do Novo Testamento foram modificadas, a fim de que exprimissem as novas doutrinas".

Assim se expressa Roustaing quanto à natureza do corpo de Jesus:

"A presença de Jesus entre vós, durante todo aquele lapso de tempo, foi, com relação a vós outros, uma aparição espírita, visto que, pelas suas condições fluídicas, completamente fora dos moldes da vossa organização, seu corpo era harmônico com a vossa esfera, a fim de lhe ser possível manter-se longo tempo sobre a Terra no desempenho da missão com que a ela baixara".

Não queremos aqui negar que Cristo veio em plena humanidade, pois Bíblia afirma reiterada vezes a plena humanidade do Filho de Deus. O apóstolo João condenou os ensinos gnósticos de sua época, que entre outros ensinos negavam que Jesus tivesse vindo em carne, dizendo que o seu corpo humano era mera aparência. Diz o apóstolo:

"AMADOS, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo". (1JO 4:1).

"Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus"; (1JO 4:2).

Quanto ao corpo de Jesus, vejamos o que o relato bíblico nos diz:

"Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho". (LC 24:39).

Embora o corpo ressuscitado de Jesus tivesse propriedades extraordinárias, como a capacidade de materializar-se e desmaterializar-se:

"Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes". (LC 24:31).

"E falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse-lhes: Paz seja convosco". (LC 24:36).

Tinha também a propriedade de entrar em ambientes fechados:

"Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco". (JO 20:19).

Apesar das características acima, seu corpo era constituído de carne e ossos: "Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho". (LC 24:39).

Embora não seja nossa intenção nos aprofundarmos num estudo sobre a humanidade de Jesus, acrescento que Cristo experimentou sentimentos e necessidades humanos não pecaminosos, como:

Cansaço: "E estava ali a fonte de Jacó. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. Era isto quase à hora sexta". (JO 4:6).

Sede: "Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede". (JO 19:28).

Fome: "E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome"; (MT 4:2).

Quanto a divindade de Cristo, o testemunho das Escrituras é plenamente reconhecido. Tanto os espíritas quanto os Testemunhas de Jeová, negam a divindade de Cristo. Para uma melhor compreensão do assunto, convido-o a ler: A TRINDADE.

Realmente esses assuntos estão relacionados, pois falar da divindade de Jesus, implica na necessidade de se falar também da Trindade. Mas vejamos se, na questão da Trindade, é "um fundamento doutrinário que o distingue de todas as demais religiões", conforme quer nos levar a crer o autor do texto. Ao que nos parece, quem pensa desta forma não tem o mínimo conhecimento de história, onde podemos comprovar que vários outros povos da antiguidade possuíam seus deuses representados por uma tríade:

Osíris, Isis e Orus – dos egípcios.

Ea, Istar e Tamus – dos babilônios.

Zeus, Demétrio e Dionísio – dos gregos.

Baal, Astarté e Adonis – dos assírios.

Orzmud, Ariman e Mitra – dos persas.

Brahma, Siva e Visnhu – dos hindus.

Voltan, Friga e Dinar – dos celtas.

Kether, Chekmah e Binah – Cabalá-Judaísmo.

Buda, Darma e Sanga – Budismo do Sul.

Amitha, Avalokiteshvara e Mandjusri – Budismo do Norte.

Tulac, Fan e Mollac – Druidas.

Anu, Ea e Bel – dos caldeus.

Odim, Freva e Thor – mitologia escandinava.

Considerando que entre todos esses povos, os cinco primeiros dessa lista dominaram ou tiveram contato com os judeus, não é difícil de aceitar que esse povo acabou por incorporar em sua cultura muitas coisas daqueles outros. Embora muitas dessas coisas se conservaram apenas na tradição oral, não sendo, portanto, transferidas a nenhum documento escrito. Só a título de exemplo: sob o domínio dos egípcios os hebreus ficaram subjugados por 430 anos (Êxodo 12, 40-41), é perfeitamente compreensível que tivessem assimilado muito da cultura e dos costumes desse povo.

Na época do Cristianismo nascente, os primeiros cristãos, acostumados a conviver com diversas trindades divinas acabaram por também colocá-la como base de sua própria religião.

E para compor essa Trindade eram necessários três deuses, assim não deixaram por menos, elevaram logo Jesus à categoria de um Deus, da mesma forma agiram em relação ao Espírito Santo. E tiveram, via de conseqüência, que acomodá-lo a um nascimento sobrenatural e de uma mulher virgem, coisas que eram comuns a quase todas essas religiões.

Percebemos que todos os que se apegam em demasia a essa tal de inerrância da Bíblia se esquecem que os fatos históricos são impossíveis de serem mudados. Ora, há registro de fatos que indicam claramente que no cristianismo primitivo não se acreditava nem naem Trindade e nem na Divindade de Jesus, já que ambos dogmas foram impostos como dogmas, bem mais tarde, pela hierarquia eclesiástica. Foram os teólogos católicos que os implantaram, e sem qualquer objeção, foram aceitos pelos protestantes quando da reforma luterana. O início dessa mudança ocorreu no Concílio de Nicéia (325), quando divinizaram Jesus, já no Concílio de Éfeso (431), decretaram que em Jesus só há uma pessoa, a divina, mas no Concílio de Calcedônia (451), voltaram atrás, dizendo que em Jesus havia duas naturezas, uma divina e outra humana. Como essas questões não ficaram definidas no Concílio de Lião (1274), se concluiu que as Três Pessoas possuem natureza humana, pelo que são três homens, conforme nos informa o teólogo católico José Reis Chaves, em "A Reencarnação segundo a Bíblia e a Ciência", ao que completa categórico: "Os próprios teólogos afirma que jamais poderemos compreender isso". (pág. 175). Se não o compreendem, muito menos possuem capacidade para explicá-lo.

Da lista das trindades que apresentamos um pouco atrás, algumas delas nós as retiramos do livro "A Face Oculta das Religiões", também de José Reis Chaves, que, sobre a Trindade, nos diz:

"Os teólogos, com a confusão que fizeram com a Trindade Cristã, transformaram os atributos principais ou Aspectos de Deus em pessoas. A intenção deles foi boa e até louvável. Com isso, quiseram engrandecer Deus e seus Aspectos, igualando-os a nós seres humanos, pessoas, e não, a um animal, ser ou coisa. Palmas para eles, porque assim pensaram. Mas Deus não é pessoa, é espírito, que transcende pessoa, como também não são pessoas seus Aspectos de Pai-Criador e de Filho-Criado. Jesus não nos ensinou isso. Por isso, nunca seus Evangelhos falam que em Deus há três Pessoas. O ensinamento de Jesus é simples. Os teólogos é que complicaram as coisas, em que pese a sua boa fé" (pág. 122).

Interessante que todos os nossos detratores só vêem o que lhes agradam, esse de agora não fugiu à regra, pois ao citar o livro Cristianismo e Espiritismo de Léon Denis, faltou colocar o que podemos encontrar, imediatamente, após a citação que traz para dizer que ele segue o pensamento de Kardec, a importante informação: (pág. 272):

"Vimos, diz Leblois [no seu livro As Bíblias e os iniciadores religiosos da humanidade], na Biblioteca Nacional, na de Santa Genoveva, na do mosteiro de Saint-Gall, manuscritos em que o dogma da Trindade está apenas acrescentado à margem. Mais tarde intercalado no texto, onde se encontra ainda".

Leblois foi pastor em Strasburgo, ou seja, um pastor protestante ao verificar os manuscritos originais dos textos bíblicos diz que o dogma da Trindade está apenas acrescentado à margem, que posteriormente foi incorporado aos textos. Precisamos dizer mais alguma coisa sobre esse assunto?

Existe uma coisa que ainda nos deixa sem saber como poderia ter acontecido: se Jesus é o próprio Deus que se encarnou quem estaria tomando conta do Universo no período que Ele esteve encarnado? Podemos ainda acrescentar: "Será possível que Deus habite na terra? Se não cabes no céu e no mais alto dos céus, muito menos neste Templo que construí" (1 Reis 8, 27), ao que continuamos, por nossa conta: muito menos num corpo físico.

Também não conseguimos entender o fato, aceito pelas igrejas dogmáticas, que no Antigo Testamento existem várias profecias sobre a vinda de um Messias, entretanto em nenhuma delas está previsto que o próprio Deus viria, mas que Deus enviaria um mensageiro, no caso, dizem tratar-se de Jesus. Ora, o povo judeu, segundo a própria Bíblia, foi escolhido por Deus para trazer as suas revelações, não aceita Jesus como o Messias, aceitam-O, isto sim como um profeta. E aí, como é que ficamos?

Sobre a divindade de Jesus, recomendamos nosso texto, disponível na Internet:

http://www.espirito.org.br/portal/artigos/paulosns/a-divindade-de-jesus.html

A questão da salvação que será colocada mais à frente, por agora nós apenas diremos: e onde fica o "a cada um segundo suas obras" dito por Jesus, se a salvação vier de outra forma?

Ao citar o Jornal Espírita de março de 1953, nos leva a concluir que o texto que ora estamos contra-argumentando deve ser tão velho quanto a serra, pois não? Grandes transformações aconteceram no mundo, já assistimos um homem pisando na Lua, a TV a cores, o computador, o telefone celular, a Internet interligando todos os computadores do mundo, enfim um cem número de novidades, para ter que ouvir argumentos escritos há tantos anos? Falta criatividade aos que o divulgam?

Apesar de dizer que a Bíblia, revela um Deus trino, não foi capaz de trazer sequer uma passagem que viesse a sustentar essa afirmativa, ao contrário, trouxe as que afirmam que Deus é um, as quais não conseguiu contestar de maneira lógica. Apelou para um exemplo tão ingênuo que causa-nos dó pela sua fragilidade. Diz que no Antigo Testamento apresenta determinadas realidades como sendo constituídas de uma unidade composta, citando o casamento como exemplo. Só que o articulista não disse coisa com coisa, pois é verdade que temos, no casamento, a união de duas pessoas, mas essa união não está formando uma outra pessoa, o que diz ser a unidade composta é apenas nome que se deu a essa união. Gostaria que nos demonstrasse onde a união de três pessoas (ou seres) forma apenas uma, uma vez que, ao falarmos em pessoa, estamos individualizando um ser, assim, onde três individualidades distintas formam, pela sua união, apenas uma só individualidade, explique-nos, por favor?

E para finalizar a questão da Trindade e da divindade de Jesus, trazemos para testemunho (já que normalmente gostam desse expediente) o Alcorão, livro sagrado do povo islâmico. Estaríamos então colocando livro sagrado contra livro sagrado, o que acha disso? Então vejamos o que esse livro coloca:

An Nissá – 4ͺ Surata, versículo 171: "Ó adeptos do Livro, não exagereis em vossa religião e não digais de Deus senão a verdade. O Messias, Jesus, filho de Maria, foi tão-somente um mensageiro de Deus e Seu Verbo, com o qual Ele agraciou Maria por intermédio do Seu Espírito. Crede, pois, em Deus e em Seus mensageiros e digais: Trindade! Abstende-vos disso, que será melhor para vós; sabei que Deus é Uno. Glorificado seja! Longe está a hipótese de ter tido um filho. A Ele pertence tudo quanto há nos céus e na terra, e Deus é mais do que suficiente Guardião". (grifo nosso).

Al Máida – 5ͺ Surata, versículos 72-74: "São blasfemos aqueles que dizem: Deus é o Messias, filho de Maria, ainda quando o mesmo Messias disse: Ó israelitas, adorai a Deus, Que é meu Senhor e vosso. A quem atribuir parceiros a Deus, ser-lhe-á vedada a entrada no Paraíso e sua morada será o fogo infernal! Os iníquos jamais terão socorredores. São blasfemos aqueles que dizem: Deus é um da Trindade!, portanto não existe divindade alguma além do Deus Único. Se não desistirem de tudo quanto afirmam, um doloroso castigo açoitará os incrédulos entre eles. Por que não se voltam para Deus e imploram o Seu perdão, uma vez que Ele é Indulgente, Misericordiosíssimo"? (grifo nosso).

Quanto à questão de que o Espiritismo defende a tese do corpo fluídico de Jesus, citando como prova a obra Roustaing, informamos que em janeiro de 1868 – data posterior ao lançamento dessa obra -, Kardec lança o livro "A Gênese", nele podemos ver que ele defende, sem nenhuma sombra de dúvida, que Jesus teve um corpo físico comum a todos nós. Transcrevemos, então, do Capítulo XV – Os milagres do Evangelho, o seguinte parágrafo (item 2, pág. 310-311):

"Como homem, tinha a organização dos seres carnais; porém, como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era passível. A sua superioridade com relação aos homens não derivava das qualidades particulares do seu corpo, mas das do seu Espírito, que dominava de modo absoluto a matéria e da do seu perispírito, tirado da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres (cap. XIV, nΊ 9). Sua alma, provavelmente, não se achava presa ao corpo, senão pelos laços estritamente indispensáveis. Constantemente desprendida, ela decerto lhe dava dupla vista, não só permanente, como de excepcional penetração e superior de muito à que de ordinário possuem os homens comuns. (...)"."Como homem, tinha a organização dos seres carnais; mas como Espírito puro, desligado da matéria, deveria viver a vida espiritual mais do que a vida corpórea, da qual não tinha as fraquezas. A superioridade de Jesus sobre os homens não se prendia às particularidades de seu corpo, mas às de seu Espírito, que dominava a matéria de maneira absoluta, e à de seu perispírito, haurida na parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres. (Cap. XIV, nΊ 9). Sua alma não devia prender-se ao corpo senão pelos laços estritamente indispensáveis; constantemente desligado, devia dar-lhe uma dupla vista não somente permanente, mas de uma penetração excepcional e bem de outro modo superior àquela que se vê entre os homens comuns. (...)" (Grifo nossodo original).

Veja bem que, já de início, Kardec não usa de meias palavras para expor seu pensamento de que Jesus, "como homem, tinha a organização dos seres carnais". Ora, a tese levantada por Roustaing é que Jesus possuía não um corpo carnal, mas um corpo fluídico, o que fica inevitavelmente contra o que diz o codificador do Espiritismo. Mais à frente é que veremos Kardec detalhar melhor o seu pensamento, conforme podemos constatar quando ele diz sobre o desaparecimento do corpo de Jesus. Coloca Kardec (item 645 em diante, págs. 351-354), e tudo nos leva a crer que, pelo teor, essa colocação tem um destinatário certo, qual seja, a obra de Roustaing:

"Segundo outra opinião, Jesus não teria tido um corpo carnal, mas apenas um corpo fluídico; não teria sido, em toda a sua vida, mais do que uma aparição tangível; numa palavra: uma espécie de agênere. Seu nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida teriam sido apenas aparentes. Assim foi que, dizem, seu corpo, voltado ao estado fluídico, pode desaparecer do sepulcro e com esse mesmo corpo é que ele se teria mostrado depois de sua morte".

"É fora de dúvida que semelhante fato não se pode considerar radicalmente impossível, dentro do que hoje se sabe acerca das propriedades dos fluidos; mas, seria, pelo menos, inteiramente excepcional e em formal oposição ao caráter dos agêneres. (Cap. XIV, nΊ 36.) Trata-se, pois, de saber se tal hipótese é admissível, se os fatos a confirmam ou contradizem".

"A estada de Jesus na Terra apresenta dois períodos: o que precedeu e o que se seguiu à sua morte. No primeiro, desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa, pelo que respeita à sua mãe, como nas condições ordinárias da vida. Desde o seu nascimento até a sua morte, tudo, em seus atos, na sua linguagem e nas diversas circunstâncias da sua vida, revela os caracteres inequívocos da corporeidade. São acidentais os fenômenos de ordem psíquica que nele se produzem e nada têm de anômalos, pois que se explicam pelas propriedades do perispírito e se dão, em graus diferentes, noutros indivíduos. Depois de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. É tão marcada a diferença entre os dois estados, que não podem ser assimilados".

"O corpo carnal tem as propriedades inerentes à matéria propriamente dita, propriedades que diferem essencialmente das dos fluidos etéreos; naquela, a desorganização se opera pela ruptura da coesão molecular. Ao penetrar no corpo material, um instrumento cortante lhe divide os tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, cessa-lhes o funcionamento e sobrevém a morte, isto é, a do corpo. Não existindo nos corpos fluídicos essa coesão, a vida aí já não repousa no jogo de órgãos especiais e não se podem produzir desordens análogas àquelas. Um instrumento cortante ou outro qualquer penetra num corpo fluídico como se penetrasse numa massa de vapor, sem lhe ocasionar qualquer lesão. Tal a razão por que não podem morrer os corpos dessa espécie e por que os seres fluídicos, designados pelo nome de agêneres, não podem ser mortos".

"Após o suplício de Jesus, seu corpo se conservou inerte e sem vida; foi sepultado como o são de ordinário os corpos e todos o puderam ver e tocar. Apôs a sua ressurreição, quando quis deixar a Terra, não morreu de novo; seu corpo se elevou, desvaneceu e desapareceu, sem deixar qualquer vestígio, prova evidente de que aquele corpo era de natureza diversa da do que pereceu na cruz; donde forçoso é concluir que, se foi possível que Jesus morresse, é que carnal era o seu corpo".

"Por virtude das suas propriedades materiais, o corpo carnal é a sede das sensações e das dores físicas, que repercutem no centro sensitivo ou Espírito. Quem sofre não é o corpo, é o Espírito recebendo o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo sem Espírito, absolutamente nula é a sensação. Pela mesma razão, o Espírito, sem corpo material, não pode experimentar os sofrimentos, visto que estes resultam da alteração da matéria, donde também forçoso é se conclua que, se Jesus sofreu materialmente, do que não se pode duvidar, é que ele tinha um corpo material de natureza semelhante ao de toda gente".

"Segundo uma outra opinião, Jesus não teria revestido um corpo carnal, mas somente um corpo fluídico; não fora, durante a sua vida, senão uma aparição tangível, em uma palavra, uma espécie de agênere. Seu nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida, não seria senão uma aparência. Foi assim, diz-se, que seu corpo, retornado ao estado fluídico, pôde desaparecer do sepulcro, e foi com esse mesmo corpo que ele se mostrou depois de sua morte".

"Sem dúvida, semelhante fato não é radicalmente impossível, segundo o que se sabe hoje sobre as propriedades dos fluidos; mas seria ao menos inteiramente excepcional e em oposição formal ao caráter dos agêneres. (Cap. XIV, nΊ 36). A questão é, pois, saber se uma tal hipótese é admissível, se é confirmada ou contradita pelos fatos".

"A permanência de Jesus sobre a Terra apresenta dois períodos: a que a precede e aquela que se segue à sua morte. Na primeira, desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se passa, na mãe, como nas condições comuns da vida. Desde o seu nascimento até a morte, tudo, em seus atos, em sua linguagem e nas diversas circunstâncias de sua vida, apresenta os caracteres inequívocos da corporeidade. Os fenômenos de ordem física que se produzem nele são acidentais, e nada têm de anormal, uma vez que se explicam pelas propriedades do perispírito, e se encontram em diferentes graus entre alguns indivíduos. Depois de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. A diferença entre os dois estados é de tal modo marcante que não é possível assimilá-los".

"O corpo carnal tem as propriedades inerente à matéria propriamente dita, e que diferem essencialmente daquelas dos fluidos etéreos; a desorganização nela se opera pela ruptura da coesão molecular. Um instrumento cortante, penetrando no corpo material, divide-lhe os tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, seu funcionamento se detém, e a morte se segue, quer dizer, a morte do corpo. Essa coesão não existe nos corpos fluídicos, a vida não repousa mais sobre o funcionamento de órgãos especais, e neles não podem se produzir desordens análogas; um instrumento cortante, ou qualquer outro, aí penetra como num vapor, sem lhe ocasionar nenhuma lesão. Eis porque essas espécies de corpos não podem morrer, e porque os seres fluídicos designados sob o nome de agêneres não podem ser mortos".

"Depois do suplício de Jesus, seu corpo ali, inerte e sem vida, foi enterrado como os corpos comuns, e cada um podia vê-lo e tocá-lo. Depois de sua ressurreição, quando quer deixar a Terra, não morre mais; seu corpo se eleva, se desvanece e desaparece, sem deixar nenhum traço, prova evidente de que o seu corpo era de outra natureza daquele que pereceu sobre a cruz; de onde é preciso concluir que se Jesus pôde morrer, foi porque tinha um corpo carnal".

"Em conseqüência de suas propriedades materiais, o corpo carnal é a sede das sensações e das dores físicas que repercutem no centro sensitivo ou Espírito. Não é o corpo que sofre, é o Espírito que recebe o contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo privado do Espírito, a sensação é absolutamente nula; pela mesma razão, o Espírito, que não tem corpo material, não pode sentir os sofrimentos que são o resultado da alteração da matéria, de onde é igualmente necessário concluir que se Jesus sofreu materialmente, como disso não se poderia duvidar, foi porque tinha um corpo material, de uma natureza semelhante àqueles de todo o mundo".

Continua, Kardec:

"Aos fatos materiais juntam-se fortíssimas considerações morais".

"Se as condições de Jesus, durante a sua vida, fossem as dos seres fluídicos, ele não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades do corpo. Supor que assim haja sido é tirar-lhe o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse aparente, todos os atos de sua vida, a reiterada predição de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para que lhe afastasse dos lábios o cálice de amarguras, sua paixão, sua agonia, tudo, até ao último brado, no momento de entregar o Espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar com relação à sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto, indigna, portanto, e com mais forte razão de um ser tão superior. Numa palavra: ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade. Tais as conseqüências lógicas desse sistema, conseqüências inadmissíveis, porque o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem.

"Aos fatos materiais vêm se acrescentar considerações morais poderosíssimas".

"Se Jesus estivesse, durante a sua vida, nas condições de seres fluídicos, não teria sentido nem a dor, nem nenhuma das necessidades do corpo; supor que assim não haja sido, é tirar-lhe todo o mérito da vida de privações e de sofrimentos que escolheu como exemplo de resignação. Se tudo nele não era senão aparência, todos os atos de sua vida, o anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para afastar o cálice de seus lábios, sua paixão, sua agonia, tudo, até a sua última exclamação no momento de entregar o seu Espírito, não teria sido senão um vão simulacro, para enganar sobre a sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida, uma comédia indigna de um simples homem honesto, com mais forte razão de um ser tão superior; em uma palavra, ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e posteridade. Tais são as conseqüências lógicas desse sistema, conseqüências que não são admissíveis, porque o abaixam moralmente, em lugar de elevá-lo".

E arremata categórico:

"Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, Q que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existênciaJesus teve, pois, como todos, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que atestam os fenômenos materiais e os fenômenos psíquicos que assinalaram a sua vida".

Não dá , pois para conciliar a obra "Os Quatro Evangelhos" de Roustaing, com o que Kardec desenvolve na codificação da Doutrina Espírita. Kardec fez posteriormente uma análise dessa obra. Vamos encontrá-la na Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, relativa ao mês de junho de 1866 (págs. 190-192), que vale a pena colocarmos neste estudo, para que tenhamos um maior esclarecimento desse assunto. Passemos, então, a palavra a Kardec, no texto intitulado "Os Evangelhos Explicados" – Pelo Sr. Roustaing, onde ele comenta, ao que tudo indica, os recém lançados livros:

"Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerado, e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, sobre nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada por O Livro dos Espíritos e o dos Médiuns. As partes correspondentes àquelas que tratamos em O Evangelho Segundo o Espiritismo o são num sentido análogo. De resto, como nos limitamos às máximas morais que, quase sem exceção, são geralmente claras, elas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; também foram o assunto de controvérsias religiosas. Foi por esta razão que começamos por ali a fim de ser aceito sem contestação, esperando para o resto que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a idéia espírita".

"O autor desta nova obra acreditou dever seguir um outro caminho; em lugar de proceder por graduação, quis alcançar o objetivo de um golpe. Tratou, por certas questões que não julgamos oportuno abordar ainda, e das quais, conseqüentemente, lhe deixamos a responsabilidade, assim como aos Espíritos que os comentaram. Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa caminhada sobre o desenvolvimento da opinião, não daremos, até nova ordem, às suas teorias, nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de sancioná-las ou de contradizê-las. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais aos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todos os casos, têm necessidade da sanção do controle universal, e até mais ampla confirmação não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita".

"Quando tratarmos essas questões, o faremos sem cerimônia; mas é que, então, teremos recolhido os documentos bastante numerosos, nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos, para poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar de acordo com a maioria; é assim que fazemos todas as vezes que se trata de formular um princípio capital. Nós os dissemos cem vezes, para nós a opinião de um Espírito, qualquer que seja o nome que traga, não tem senão o valor de uma opinião individual; nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma rigorosa lógica, para as coisas que não podemos controlar por nossos próprios olhos. De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como uma verdade absoluta, se, mais tarde, ela devesse ser combatida pela generalidade dos Espíritos?".

"Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios de O Livro dos Espíritos e o dos Médiuns; nossas observações levam, pois, sobre aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em lugar de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, tendo todas as aparências da materialidade, e dele faz uma agênere. Aos olhos dos homens que não teriam podido compreender, então, sua natureza espiritual, teve que passar EM APARÊNCIA, essa palavra é incessantemente repetida em todo o curso da obra, para todas as vicissitudes da Humanidade. Assim se explicaria o mistério de seu nascimento: Maria não teria tido senão as aparências da gravidez. Este ponto, colocado por premissa e pedra angular, é a base sobre a qual se apóia para explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus".

"Sem dúvida, não há aí nada de materialmente impossível para quem conhece as propriedades do envoltório perispiritual; sem nos pronunciar pró ou contra essa teoria diremos que ela é ao menos hipotética, e que, se um dia ela fosse reconhecida errada, a base sendo falsa, o edifício desmoronaria. Esperamos, pois os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão. Sem prejulgá-la, diremos que já foram feitas objeções sérias a essa teoria, e que, na nossa opinião, os fatos podem perfeitamente se explicar sem sair das condições da Humanidade corpórea".

"Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, não diminui nada a importância dessa obra que, ao lado das coisas duvidosas do nosso ponto de vista, delas encerra, incontestavelmente, boas e verdadeiras, e será consultada proveitosamente pelos Espíritas sérios".

"Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é de se desdenhar, e entra também por alguma coisa no sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito longamente, sem proveito para a clareza. Na nossa opinião, se, limitando-se ao estrito necessário, ter-se-ia podido reduzir a obra em dois, ou mesmo em um único volume, teria ganhado em popularidade". (os grifos em negrito são nossos).

Podemos muito bem perceber que Kardec, embora não condene de todo a obra, prudentemente deixa aberto para o futuro o julgamento dela, mas quanto à questão do corpo fluídico, não deixa de dar sua opinião de que não sanciona essa hipótese. Não deixa também de falar que falta clareza e objetividade a essa obra. Diz, ainda, de forma bastante clara, que a obra de Roustaing, por falta de uma confirmação mais ampla, não poderia ser considerada como parte integrante da Doutrina Espírita.

Aos que ainda advogam que o corpo de Jesus depois de sua morte é de carne e osso, perguntamos: considerando que Jesus disse que "Deus é Espírito" (João 4, 24) e que "O Espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada" (João 6,63), por que Ele iria para junto ao Pai, que é Espírito, com seu corpo físico já que a carne não serve para nada?

Bom, poderá nos dizer, fica a questão da fala de Lucas 24,39: "... um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho", entretanto, quem nos garante que Jesus realmente teria dito isso, já que é sabido de várias interpolações e adulterações na Bíblia. E, mais, por que será que só Lucas, que não foi discípulo de Jesus, portanto, seu Evangelho foi composto de informações dadas por outros, mas "quem conta um conto aumenta um ponto", não nos diz o ditado popular? Existe divergência em alguns fatos narrados na Bíblia, dos quais, podemos dar como exemplo:

Quem carregou a cruz?

Mateus 27:32 – Ao saírem, encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar-lhe a cruz.

Marcos 15:21 – E obrigaram a Simão Cireneu, que passava, vindo do campo, pai de Alexandre e de Rufo, a carregar-lhe a cruz.

Lucas 23:26 – E como o conduzissem, constrangendo um cireneu, chamado Simão, que vinha do campo, puseram-lhe a cruz sobre os ombros, para que a levasse após Jesus.

João 19:17 – Tomaram eles, pois, a Jesus; e ele próprio, carregando a sua cruz, sai para o lugar chamado Calvário, Gólgota em hebraico.

Mateus, Marcos e Lucas dizem que o cireneu chamado Simão foi obrigado a carregar a cruz de Jesus, enquanto que João diz que foi o próprio Jesus quem levou a cruz.

Houve mesmo o episódio com o bom ladrão?

Mateus 27: 38 e 44 – E foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda. E os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões que haviam sido crucificado com ele.

Marcos 15:27 e 32 – Com ele crucificaram dois ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda. Também os que com ele foram crucificados o insultavam.

Lucas 23:39-43 – Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também. Respondendo-lhe, porém, o outro repreendeu-o dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós na verdade com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino. Jesus lhes respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.

João 19:18 - Onde o crucificaram, e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio.

Mateus, Marcos e João nada relatam de qualquer diálogo entre os três crucificados.Os dois primeiros dizem que os ladrões estavam, isto sim, entre os que escarneciam de Jesus. Só Lucas diz que Jesus teria dito para um deles que hoje estarás comigo no Paraíso. Se isso aconteceu temos uma contradição de Jesus, pois ele mesmo disse: a cada um segundo suas obras. (Mateus 16, 27) Quando do episódio com Madalena após sua ressurreição disse Jesus a Madalena: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus (João 20, 17). Ora, se Jesus, três dias após sua morte, ainda não tinha subido ao Pai como ele poderia ter afirmado ao "bom ladrão" que hoje estarás comigo, ou seja, justamente no dia de sua morte na cruz.

Por outro lado ao reconhecer que "nós na verdade com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez" ele está aceitando a justiça dos homens, por mais forte razão aceitaria a justiça de Deus que lhe daria uma pena merecida. Também ele não aceitaria uma recompensa por algo que não tenha feito, não é mesmo? Já falamos várias vezes, mas não custa repetir, coloquemos a frase do seguinte modo: Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso? É muito mais condizente com a justiça divina, pois somente irá para o Paraíso quando tiver realizado as obras que venham a fazê-lo merecer este paraíso, não importando quanto tempo levará para isso.

Quanto à adulteração, podemos provar com o texto de Levítico 19,31, que também serve para Levítico 20, 6 e 27:

Bíblias Católicas:

Ave Maria: Não vos dirijais aos espíritas nem adivinhos: não os consulteis,...

Barsa: Não vos dirijais aos mágicos, nem consulteis os adivinhos,...

Bíblia de Jerusalém: Não vos voltareis para os necromantes nem consultareis os adivinhos...

Pastoral: Não se dirijam aos necromantes, nem consultem adivinhos,...

Paulinas: Não vos dirijais aos magos nem interrogueis os adivinhos,...

Vozes: Não recorrais aos médiuns, nem consulteis os espíritos...

Bíblias Protestantes

Mundo Cristão: Não vos voltareis para os necromantes, nem para os adivinhos;...

Tradução do Novo Mundo: Não vos vireis para médiuns espíritas e não consulteis prognosticadores profissionais de eventos,...

O autor da Vulgata, São Jerônimo, disse: "A VERDADE NÃO PODE EXISTIR EM COISAS QUE DIVERGEM", fica aí a advertência desse respeitável teólogo católico. Entretanto, o que aqui queremos ressaltar não é só isso, mas que os termos "espírita" e "médium", que encontramos nessa passagem, só estão ali por vergonhosa adulteração, pois são neologismos criados por Kardec em 18 de abril de 1857, não podendo, portanto, constar de qualquer Bíblia, a não ser por adulteração, como é esse o caso que estamos provando.

Só a título de esclarecimento, afinal a quem não devemos recorrer? A passagem, seguramente, está recomendando aos judeus não consultarem os necromantes. A necromancia era uma prática comum naquele tempo e consistia em consultar os mortos para fins de adivinhação, coisa que mesmo que se resolvesse aplicar nos dias de hoje, não se aplicaria ao Espiritismo, já que não fazemos, do intercâmbio com os espíritos, um meio de adivinhação, conforme já o dissemos anteriormente.

A questão de se tocar no corpo de Jesus, por si só não prova que esse corpo seja de carne e osso, pois sabemos da existência do fenômeno mediúnico de materialização, em que o Espírito que se manifesta adquire, por assim dizer, uma consistência em seu corpo espiritual, de tal sorte que poderá ser tocado, pesado, etc., possuindo, esse corpo espiritual, toda a aparência de um corpo físico. Essa ocorrência é perfeitamente explicável pelas propriedades do ectoplasma, fluído usado pelo espírito para sua materialização.

Plano de Salvação do Espiritismo

O espiritismo ensina que o homem, através de sucessivas reencarnações, pelos seus próprios esforços e pela prática das boas obras vai aprimorando-se a si mesmo, sem necessidade do sacrifício vicário de Jesus Cristo. A Bíblia nos diz que a nossa salvação é obra divina; o espiritismo diz que é esforço humano. A Bíblia diz que o sofrimento de Cristo visa a nossa expiação; o espiritismo diz que Jesus foi mero espírito adiantado, que nos serve apenas de exemplo. A Bíblia diz que o sangue de Cristo nos purifica de todo pecado e que o Espírito Santo nos ensina toda a verdade; o espiritismo, ignora a Trindade Divina, reduz toda a expiação à obra dos "espíritos" - os espíritos dos mortos, que nos orientam e aconselham, e o espírito de Cristo, que, tendo alcançado um nível superior, não obstante se encarnou para servir como exemplo.

Diz-nos Kardec, sobre a graça: "... se fosse um dom de Deus, não daria merecimento a quem a possuísse. O espiritismo é mais explícito, porque ensina que quem a possui a adquiriu pelos próprios esforços em suas sucessivas existências, emancipando-se pouco a pouco das suas imperfeições". (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução, IV, XVII).

Que contradição com as Escrituras! Deus não nos salva com base em quaisquer méritos pessoais nossos, mas unicamente por sua graça: "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus";

"Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus". (RM 3:23 e 24).

O ensino espírita segundo o qual "Fora da caridade não há salvação" identifica a salvação com a prática de boas obras. Entretanto, as boas obras não salvam, nem ajudam ninguém a salvar-se. Paulo afirma em Efésios:

"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie"; (EF 2:8 e 9).

Ele declara que fomos criados em Cristo para as boas obras: "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas". (EF 2:10). Portanto, não somos salvos pelas obras, mas para as boas obras.

As boas obras são o resultado da nossa fé em Cristo, pois quando nos tornamos novas criaturas, mediante a fé nele, abandonamos as práticas más e nos voltamos para a prática do bem. "Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo". (2CO 5:17)

Logo, as boas obras são a manifestação do amor que a pessoa tem a Deus.

A Bíblia nos mostra claramente que todo o problema do homem é motivado pelo pecado, pois "todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm 3:23). Deus ama os pecadores, porém o pecado separa o homem de Deus:

"EIS que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça". (IS 59:1 e 2).

O homem nada pode fazer para alcançar justificação diante de Deus. O sofrimento e as boas obras, como apregoa o espiritismo, jamais serão suficientes para vencer a distância que o separa de Deus, pois, como expressou o profeta Isaías, "... todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades como um vento nos arrebatam". (IS 64:6).

O estado do homem é profundamente desesperador, porém não irremediável, "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna". (JO 3:16).

Jesus Cristo veio ao mundo com objetivo específico de "dar a sua vida em resgate de muitos". (Mc 10:45).

Cristo se ofereceu a si mesmo a Deus pelos nossos pecados, para que possamos obter a salvação:

"Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito"; (1 Pe 3:18)

"Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados". (1 Pe 2:24).

Que contraste com o que ensina o espiritismo! Vejamos o que escreveu Léon Denis ao negar o valor do sacrifício de Cristo em nosso lugar:

"Não; a missão do Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da humanidade. O sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém. Cada qual deve resgatar-se a si mesmo, resgatar-se da ignorância e do mal. Nada de exterior a nós poderia fazê-lo. É o que os espíritos, aos milhares afirmam em todos os pontos do mundo".

Percebe-se aqui uma contundente tentativa de negar o valor da obra expiatória de Cristo na cruz. Ao dizer que o sangue, "mesmo de um Deus", não poderia resgatar ninguém, Denis está implicitamente, mais uma vez, negando a divindade de Jesus, a qual, como vimos, é afirmada pelas Escrituras.

O conceito espírita de salvação é aquele que a Bíblia chama de "outro evangelho". Ele é tão contrário ao caminho da salvação de Deus que a Escritura o colocou sob a maldição divina:

"Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema". (GL 1:6 a 8).

A salvação vem unicamente pela graça (favor imerecido) de Deus e não por qualquer coisa que a pessoa possa fazer para ganhar o favor de Deus, ou pela sua retidão pessoal. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie". (Ef 2:8 e 9).

O que muitos não esforçam para compreender é que Jesus não morreu para salvar ninguém, sua morte, conforme os próprios registros bíblicos, foi tramada pelos sacerdotes de sua época, e se voltasse a encarnar novamente, os atuais líderes religiosos também o matariam, pois com certeza Ele iria tentaria restabelecer os seus ensinamentos em sua pureza original, isso seria o bastante para provocar a ira dessa liderança, que, por medo de ficar sem o seu ganha-pão, tramaria a sua morte, repetindo-se os fatos históricos conhecidos de todos nós.

A questão do sacrifício, da expiação, do sangue derramado e da morte de Jesus, ter sido para nos salvar, de duas uma: ou nos salvou ou não salvou. Se nos salvou "comamos e bebamos", pois já estamos todos salvos, considerando que a Bíblia diz: . E aqui não podemos excluir ninguém, pois "... Jesus Cristo, o justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados; e não só os nossos, mas também os pecados do mundo inteiro" (1 João 2, 1-2). Se não, teremos que convir que ele falhou em sua missão, já que Ele mesmo disse que veio para salvar o que estava perdido. Será que não irão acordar para entender que tais coisas são fruto das práticas religiosas da época em que Jesus viveu? O povo pecava e, de quando em quando, oferecia a Deus, em sacrifício de expiação de seus pecados, animais em holocausto, objetivando, com isso, agradar a Deus, obviamente esperando, com esse ritual, receber Dele o conseqüente perdão dos pecados. Se aceitarmos que Jesus tenha morrido com esse objetivo, teremos que providenciar outro Cristo para morrer pelos nossos pecados, pois o máximo que poderia ter acontecido é que seu sacrifício apenas cobria os pecados de sua morte para traz, já que isso era do costume de tais rituais.

Se o sangue de Jesus redimiu os nossos pecados, então por que Ele disse: "a cada um segundo suas obras" (Mateus 16,27)? Por que nos recomenda fazer a caridade conforme fez o bom samaritano (Lucas 10, 25-37)? Por que diz que, no juízo, nós seremos separados, como se separa os cabritos das ovelhas; os que deram de comer para quem teve fome, os que deram de beber para quem teve sede, os que vestiram os nus, os que visitaram os doentes iriam para a direita, mas os egoístas que só se preocuparam consigo mesmo, para a esquerda, lugar do suplício eterno (Mateus 25, 31-46).

Uma coisa deve ficar bem clara: nós seguimos a Jesus, pouco nos importa se Pedro, Paulo, ou quem quer que seja, disser algo em contrário do que nos recomenda Jesus. Entretanto, se quiser alguém confirmando as palavras de Jesus é só ler Tiago: "A Fé sem obras é morta" (2,17.26).

Sobre Paulo, Pedro já dizia: "Em todas as suas cartas ele fala disso [salvação]. É verdade que nelas há alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes distorcem, como fazem com as demais Escrituras, para a sua própria perdição" (2 Pedro 3,16). É essa dificuldade, de que nos adverte Pedro, que muitos ainda possuem, para entender o fundo do pensamento de Paulo, pois quem o lê vai perceber que só na aparência ele é contraditório, já que ora fica com as obras ora com a graça. Entendemos que, quando ele diz ser contrário às obras, está se referindo às obras da Lei, ou seja, está querendo citar apenas à Legislação Mosaica, mas isso ainda causa uma enorme confusão entre muitos que lêem a Bíblia, pois não a estudaram como seria de se esperar. Em determinadas passagens ele é claro, vejamos:

"... quando o justo julgamento de Deus vai se revelar, retribuindo a cada um conforme as suas próprias ações: a vida eterna para aqueles que perseveram na prática do bem..." (Rm 2, 5-7);

"De fato, todos deveremos comparecer diante do tribunal do Cristo, a fim de que cada um receba a recompensa daquilo que tiver feito durante a sua vida no corpo, tanto para o bem, como para o mal" (2 Cor 5, 10);

"Não se iludam, pois com Deus não se brinca: cada um colherá aquilo que tiver semeado" (Gl 6, 7).

Os que pregam a salvação pela graça, estão mesmo querendo para si as coisas totalmente "de graça", mas aos fiéis, que lhes seguem, isso não sai tão de graça assim, pois o que esses pobres coitados pagam de dízimo para garantir sua salvação não está escrito.

Uma outra coisa interessante é que se Deus não deixou Abraão sacrificar seu filho, por que iria fazer isso com Jesus?

A frase atribuída a Kardec nós iremos, por força das circunstâncias, colocá-la integralmente. KardecEle ao analisar o resumo da doutrina de Sócrates e Platão, coloca o item XVII – A virtude não pode ser ensinada; vem por dom de Deus aos que a possuem, para então fazer esses comentários:

"É quase a doutrina cristã sobre a graça; mas, se a virtude é um dom de Deus, é um favor, e, então, pode perguntar-se por que não é concedida a todos. Por outro lado, se é um dom, carece de mérito para aquele que a possui. O Espiritismo é mais explícito, dizendo que aquele que possui a virtude a adquiriu por seus esforços, em existências sucessivas, despojando-se pouco a pouco de suas imperfeições. A graça é a força que Deus faculta ao homem de boa-vontade para se expungir do mal e praticar o bem". (ESE, pág. 51).

Ora, percebemos que o detrator quer colocar que Kardec está falando da "graça", para depois dizer que o ESE está em contradição com as Escrituras. Com isso está forçando a barra para que os menos avisados acreditem nisso. Kardec, na verdade, está comentando o pensamento de Sócrates e Platão, estabelecendo uma relação entre a idéia que faziam a respeito da virtude com a doutrina cristã sobre a graça.

Para certas afirmações nem percebem o absurdo delas, vejamos: Cristo (= Deus) se ofereceu a si mesmo a Deus (=Cristo) pelos nossos pecados, qual a lógica disso? Deus realizando um sacrifício humano, cuja vítima é Jesus, ou seja, o próprio Deus, oferecendo esse sacrifício a Ele mesmo, como sendo para expiação por nossos pecados, dá para entender uma coisa dessas?

As palavras do articulista mostram claramente qual é o objetivo de seu texto, vejamo-las novamente para identificarmos qual é a sua verdadeira intenção:

O conceito espírita de salvação é aquele que a Bíblia chama de "outro evangelho". Ele é tão contrário ao caminho da salvação de Deus que a Escritura o colocou sob a maldição divina:

"Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema". (GL 1:6 a 8).

Entretanto, até aqui, não colocou absolutamente nada do que consta no Evangelho Segundo o Espiritismo para que o leitor pudesse tirar suas conclusões. Trata-o como "outro evangelho", mostrando que age de má-fé, pois o ESE não é um outro evangelho, uma vez que é composto de várias passagens bíblicas com a interpretação dada segundo a maneira dos Espíritas as entenderem, é, portanto, o mesmo Evangelho que todos nós conhecemos, apenas com a diferença que também colocamos a nossa maneira de as interpretar.

Sobre a questão específica da nossa salvação recomendamos leitura de nosso texto muito mais completo sobre esse assunto, que se encontra disponível na Internet:

http://www.espirito.org.br/portal/artigos/paulosns/o-que-efetivamente-nos-salva.html

Nesse texto demonstramos categoricamente que a salvação não é da forma como se apregoa por aí. Colocamos o pensamento de Paulo, de Tiago, de Pedro, de João e, por fim, o mais importante o de Jesus, ou seja, de todos que falaram sobre esse assunto.

A Bíblia no Espiritismo

O espiritismo nega textualmente a inspiração divina da Bíblia, ensina que o registro bíblico não deve ser tomado literalmente.

Eis o que Kardec diz a respeito das Escrituras:

A Bíblia contém evidentemente narrativas que a razão desenvolvida pela ciência, não poderia aceitar hoje em dia; igualmente, contém fatos que parecem estranhos e repugnantes, porque se ligam a costumes que não são adotados... A ciência, levando suas investigações até a entranhas da terra, e à profundeza dos céus, tem pois demonstrado de modo irrecusável os erros da Gênese mosaica tomada à letra, e a impossibilidade material de que as coisas se hajam passado tal com estão relatadas textualmente... Incontestavelmente, Deus, que é todo verdade, não pode induzir os homens ao erro, nem consciente, nem inconscientemente, pois então não seria Deus. E, pois, se os fatos contradizem as palavras que a ele são atribuídas, necessário se torna concluir, logicamente, que ele não as pronunciou, ou que elas foram tomadas em sentido diverso... Acerca desse ponto capital, ela [a ciência] pôde, pois, completar a Gênese e Moisés, e retificar suas partes defeituosas". (Allan Kardec, A Gênese, IV, 6, 7, 8 e 11).

Léon Denis, outra autoridade do espiritismo, assim se expressa sobre o valor da Bíblia;

"... não poderia a Bíblia ser considerada "a palavra de Deus" nem uma revelação sobrenatural. O que se deve nela ver é uma compilação de narrativas históricas ou legendárias, de ensinamentos sublimes, de par com pormenores às vezes triviais". (Léon Denis, Cristianismo e Espiritismo, FEB, São Paulo, s.d., 7a. ed., pág. 267).

Assim, o espiritismo, através de suas maiores autoridades, nega a revelação divina encontrada nas Escrituras, relegando-as ao nível de uma mera compilação de fatos históricos e lendários. É curioso, entretanto, que querendo dizer-se cristão, o espiritismo freqüentemente lance mão das Escrituras, citando-as com profusão quando lhe convém.

Isto significa que para os espíritas não faz diferença se a Bíblia é ou não a Palavra de Deus - desde que possam usá-la quando desejam dar à sua crença uma aparência cristã, ou seja, citando passagens isoladas que parecem dar apoio à teorias espíritas. Quando, porém, o ensino claro das Escrituras refuta essas mesmas teorias, dizem então que elas não são a inerrante Palavra de Deus pela qual devemos testar o que cremos.

Portanto, o espiritismo não é uma religião cristã, pois nega a inspiração do Livro que é a base do cristianismo, assim como os seus ensinos. Com o que concorda o escritor espírita Carlos Imbassy, quando escreveu:

"O espiritismo não é um ramo do Cristianismo como as demais seitas cristãs. Não assenta seus princípios nas Escrituras... a nossa base é o ensino dos espíritos, daí o nome - Espiritismo". (Carlos Imbassy, À Margem do Espiritismo, p. 126).

Considerando que a Bíblia dos católicos possui 73 livros, enquanto que a usada pelos protestantes são em número de 66 livros, perguntamos qual delas iremos considerar a verdadeira, para podermos afirmar que é a palavra de Deus? Apelamos, novamente, para o santo: "A VERDADE NÃO PODE EXISTIR EM COISAS QUE DIVERGEM" (São Jerônimo).

O teólogo Huberto Rohden, nos faz uma interessantíssima colocação. Diz ele, em Lampejos Evangélicos (págs. 188-189):

"De resto, que espécie de Deus seria esse que se revelasse apenas a um povinho minúsculo, que, nesse tempo, não representava sequer 1% da humanidade, deixando na ignorância cerca de 99% do gênero humano? Como podiam essas centenas de milhões de homens, fora e longe de Israel – de cuja existência nem sabem até hoje -, como podiam eles chegar a conhecer Deus através da Bíblia?... E que fez Deus antes do início da Bíblia? – e depois do encerramento da mesma? A Bíblia, como livro escrito, começa uns 15 séculos antes de Cristo, e termina pelo ano 100 depois dele. Ora, poderíamos admitir que, no longuíssimo período anterior ao tempo de Abraão, Isaac e Jacó, Deus nada tenha tido a dizer à humanidade? E que, pelo ano 100 da era cristã, tenha ‘fechado o expediente’, à guisa de um funcionário público ou outro burocrata do século XX?... Quem admite semelhante Deus é ateu, porque um Deus tão imperfeito e limitado não é Deus nenhum".

Seria então a questão de perguntarmos: Deus não se revelou antes do ano 1.500 a.C? E depois do ano 100 d.C, não se revelou mais? Se, nesse último caso, tiver revelado, por que então suas revelações não foram compor a Bíblia? Observar que a Bíblia está completamente fechada às novas revelações: "Se alguém acrescentar qualquer coisa a este livro, Deus vai acrescentar a essa pessoa as pragas que aqui estão descritas" (Ap 22, 18). É mesmo como nos diz Rohden: expediente fechado.

A respeito da fala de Kardec sobre as Escrituras, devemos, para desmascarar o autor desse artigo, que estamos contra-argumentando, colocar o que ele propositadamente escamoteou o fundo do pensamento do Codificador do Espiritismo, uma vez que pinçou frases soltas de diversos textos.

Vejamos o que Kardec realmente disse, onde colocaremos em negrito, para facilitar a identificação, a parte que o articulista aborda em seu texto:

"A Bíblia, evidentemente, encerra fatos que a razão, desenvolvida pela Ciência, não poderia hoje aceitar e outros que parecem estranhos e derivam de costumes que já não são os nossos. Mas, a par disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela guarda grandes e belas coisas. A alegoria ocupa ali considerável espaço, ocultando sob o seu véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do pensamento, pois que logo desaparece o absurdo A Bíblia contêm, evidentemente, fatos que a razão, desenvolvida pela ciência, não poderia hoje aceitar, e outros que parecem estranhos e repugnam, porque se prendem a costumes que não são mais os nossos. Mas, ao lado disso, haveria parcialidade não reconhecendo que ela encerra grandes e belas coisas. A alegoria, nela, tem lugar considerável, e, sob esse véu, esconde verdades sublimes, que aparecem se se procura o fundo do pensamento, porque, então, o absurdo desaparece". (...) (A Gênese, Cap. IV, item 6, pág. 875). (grifo nosso).

"Levando suas investigações às entranhas da Terra e às profundezas dos céus, demonstrou a Ciência, de maneira irrefragável, os erros da Gênese moisaica tomada ao pé da letra e a impossibilidade material de se terem as coisas passado como são ali textualmente referidas. Ora, assim procedendo, a Ciência, do mesmo passo, fundo golpe desferiu em crenças seculares. A fé ortodoxa se sobressaltou, porque julgou que lhe tiravam a pedra fundamental. Mas, com quem havia de estar a razão: com a Ciência, que caminhava prudente e progressivamente pelos terrenos sólidos dos algarismos e da observação, sem nada afirmar antes de ter em mãos as provas, ou com uma narrativa escrita quando faltavam absolutamente os meios de observação? No fim de contas, quem há de levar a melhor: aquele que diz 2 e 2 fazem 5 e se nega a verificar, ou aquele que diz que 2 e 2 fazem 4 e o prova?A ciência, levando as suas investigações até as entranhas da Terra e a profundeza dos céus, tem demonstrado,