O Espiritismo num balaio-de-gatos
“Só os que preferem a obscuridade à luz, têm interesse em combatê-lo; mas, a verdade é como o Sol: dissipa os mais densos nevoeiros”. (KARDEC, 1864).
É extremamente comum pessoas de outras correntes religiosas misturarem num mesmo balaio todas as filosofias, em cujas práticas ocorrem manifestação de espíritos. Parece-nos que, por completa ignorância do assunto, fizeram uma associação entre toda e qualquer ocorrência onde há manifestação de espírito como sendo Espiritismo, tal qual se relaciona atleta com atletismo. Só que, como se diz popularmente “cada um é cada um”, está se pegando uma parte para designá-la como se fosse o todo. Seria o mesmo que, querendo mostrar o braço de uma pessoa, ao invés de dizermos braço dissermos corpo. Sabemos que o braço faz parte do corpo, entretanto não é o corpo, pois esse é formado de vários outros membros.
Acreditamos que, apesar da ignorância e da sinceridade de muitos, existem os que de má-fé querem por todos os meios fazer com que as pessoas nos confundam com essas filosofias que praticam o mediunismo, ou seja, deliberadamente colocam tudo no mesmo balaio.
Por outro lado, não há uma idéia nova que não sofra algum tipo de perseguição, e, especificamente quanto ao Espiritismo, Kardec faz a seguinte colocação:
É próprio de todas as grandes verdades receber o batismo da perseguição; as animosidades que o Espiritismo suscita são a prova da sua importância, porque, se fosse julgado sem importância, não se preocupariam com ele. (Revista Espírita, novembro 1865)
Queremos, com o presente estudo, que as pessoas sensatas, vejam que o Espiritismo não pode ficar nesse balaio-de-gatos, já que suas práticas diferem completamente das outras filosofias que se lhe ajuntam, tais como a Umbanda, Quimbanda e Candomblé.
O Espiritismo
O Espiritismo, passou a existir, se assim podemos nos expressar, a partir de 18 de abril de 1857, quando Kardec lança O Livro dos Espíritos. Diremos, portanto, para ficar bem entendido, que sua origem é na França. Devido ao alto grau de religiosidade do povo brasileiro, hoje no Brasil, os espíritas são em maior número do que no país de origem.
Primeiramente devemos, por dever, trazer uma importante colocação de Kardec a respeito do que devemos entender por Espiritismo:
Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um direito comum, o que tem todo homem de completar, como o entende, a obra que começou, e de ser juiz da oportunidade; desde o instante em que cada um está livre para ser reunir ou não, ninguém pode se lamentar de sofrer uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo pelas necessidades da causa; temos muito o direito de determinar-lhes as aplicações, e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita (in: Obras Póstumas, pág. 369).
Isso significa que quem tem autoridade para definir o que é o Espiritismo é quem o codificou. Ninguém mais, já que isso é o direito inalienável que não podemos furtar de Kardec. Daí ser de suma importância que ele mesmo, Kardec, possa definir, para nós, o que vem a ser o Espiritismo:
O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as conseqüências morais que dimanam dessas mesmas relações. (in: O que é o Espiritismo, pág. 50). (Maiúsculo do original).
Não podemos deixar também de citar a opinião de Kardec sobre a quem deveria ser oferecido os ensinamentos Espíritas:
O Espiritismo se dirige aos que não crêem ou que duvidam, e não aos que têm fé e a quem essa fé é suficiente; ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar as nossas, e nisto é conseqüente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. Por esse motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas para converter às nossas idéias o clero, de qualquer comunhão que seja. Repetiremos, pois, a todos os espíritas: acolhei com solicitude os homens de boa-vontade; oferecei a luz aos que a procuram, porque com os que crêem não sereis bem sucedidos; não façais violência à fé de ninguém, muito mais quanto ao clero que aos seculares, porque semeareis em campos áridos; ponde a luz em evidência, para que a vejam os que quiserem ver; mostrai os frutos da árvore e deles daí de comer aos que têm fome e não aos que se dizem saciados. (in: O que é o Espiritismo, pág. 36).
E, como, normalmente, não colocam a que veio o Espiritismo em relação ao aspecto religioso, é bom esclarecer de vez essa questão. Diz-nos Kardec:
O Espiritismo, bem longe de negar ou de destruir o Evangelho, vem, ao contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da Natureza que revela, tudo o que o Cristo disse e fez; traz a luz sobre os pontos obscuros dos seus ensinamentos, de tal sorte que aqueles para quem certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam, inadmissíveis, as compreendem, sem esforço, com a ajuda do Espiritismo, e as admitem; vêem melhor a sua importância, e podem separar a realidade da alegoria; o Cristo lhes parece maior: não é mais simplesmente um filósofo, é um Messias divino. (in: A Gênese, pág. 31).
Invariavelmente os detratores do Espiritismo, senão todos pelo menos a esmagadora maioria, não conhecem absolutamente nada do que estão falando, se tivesse estudado as obras de Kardec, já de antemão, teriam visto o que ele diz a respeito desses críticos:
[...] O verdadeiro crítico deve provar não somente erudição, mas um saber profundo no que concerne ao objeto que trate, um julgamento sadio, e de uma imparcialidade a toda prova; de outro modo, qualquer rabequista poderia se arrogar o direito de julgar Rossini, e um aprendiz de pintura o de censurar Rafael (O Livro dos Médiuns, pág. 23).
O Espiritismo não pode considerar como crítico sério senão aquele que tiver visto tudo, estudado tudo, aprofundado tudo, com paciência e a perseverança de um observador consciencioso; que soubesse sobre o assunto quanto o adepto mais esclarecido; que tivesse, por conseguinte, haurido seus conhecimentos em outro lugar do que nos romances da ciência; a quem não se pudesse opor nenhum fato do qual não tivesse conhecimento, nenhum argumento que não tivesse meditado; que refutasse, não por negação, mas por outros argumentos mais peremptórios; que pudesse, enfim, assinalar uma causa mais lógica para os fatos averiguados. Esse crítico está ainda por se encontrar. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 25).
E, particularmente, quanto aos opositores movidos apenas por suas ideologias religiosas, diz:
Além dessas diversas categoria de opositores, [...] os incrédulos por escrúpulos religiosos: um estudo esclarecido lhes ensinará que o Espiritismo se apóia sobre as bases fundamentais da religião e respeita todas as crenças; que um dos seus efeitos é dar sentimentos religiosos aos que não os têm, e fortalecê-los naqueles que estão vacilantes; depois vêm os incrédulos por orgulho, por espírito de contradição, por negligência, por leviandade, etc., etc. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 33).
Não raro querem nos tratar como fruto de superstição, adivinhação, e, por mais incrível que pareça, até com feitiçaria. Apesar de Kardec ter sido claro nessas questões, vejamos:
O Espiritismo não aceita, pois, todos os fatos reputados maravilhosos ou sobrenaturais; longe disso, demonstra a impossibilidade de um grande número deles e o ridículo de certas crenças que constituem, propriamente falando, a superstição. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 23).
[...] O Espiritismo não tem mistérios, nem teorias secretas; tudo nele deve ser dito claramente, a fim de que cada um possa julgá-lo com conhecimento de causa; [...]. (in: A Gênese, pág. 10).
[...] O médium, numa palavra, deve evitar tudo o que poderia transformá-lo em um agente de consulta, o que, aos olhos de muita gente, é sinônimo de ledor de sorte. (in: O Livro dos Médiuns, págs.319/320).
Os Espíritos vêm vos instruir e vos guiar no caminho do bem, e não no das honrarias e da fortuna, ou para servir às vossas paixões mesquinhas. Se não lhes pedisse nada de fútil ou que esteja fora das suas atribuições, não se daria nenhuma presa aos Espíritos enganadores; de onde deveis concluir que aquele que é mistificado, não tem senão o que merece.
O papel dos Espíritos não é o de vos esclarecer sobre as coisas desse mundo, mas o de vos guiar com segurança no que vos pode ser útil para o outro. Quando vos falam das coisas desse mundo, é porque julgam necessário, mas não a vosso pedido. Se vedes nos Espíritos os substitutos dos adivinhadores e dos feiticeiros, então é certo que sereis enganados. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 373).
O que teria se tornado esta doutrina, se ela não tivesse usado de toda a sua influência para frustrar e desacreditar as manobras da exploração? Ter-se-iam visto os charlatães pupularem de todas as partes, fazendo uma mistura sacrílega do que há de mais sagrado; o respeito dos mortos, com a arte pretensiosa dos feiticeiros, adivinhos, tiradores de cartas, ledores de boa sorte, suprindo pela fraude aos Espíritos, quando estes não vêm. Logo ter-se-iam visto as manifestações levadas nos teatros de feiras, unidas nos torneios de escamoteação: os gabinetes de consultas espíritas publicamente ostentados, e revendidos, como agências de empregos, segundo a importância da clientela, como se a faculdade medianímica pudesse se transmitir à maneira de um fundo de comércio.
Por seu silêncio, que teria sido uma aprovação tácita, a doutrina se teria tornado solidária, dizemos mais: cúmplice desse abusos. Então, a crítica teria tido sorte, porque ela teria podido com direito implicar a doutrina que, por sua tolerância, teria assumido a responsabilidade do ridículo, e, conseqüentemente, da justa reprovação derramada sobre os abusos, talvez tivesse ela tido mais de um século antes de se levantar desse fracasso. Seria preciso não compreender o caráter do Espiritismo, e ainda menos seus verdadeiros interesses, para crer que tais auxiliares possam ser úteis à sua propagação, e sejam próprios para fazê-lo considerar como uma coisa santa e respeitável. (Revista Espírita, 1869, págs. 42/43)
Devemos, para esclarecer bem sobre o Espiritismo, trazer mais algumas colocações de Kardec, que, com certeza, são orientações que ajudarão a entender um pouco de suas práticas. Vejamo-as:
Dissemos que o Espiritismo é toda uma ciência, toda uma filosofia; aquele que quer seriamente conhecê-lo deve, pois, como primeira condição, sujeitar-se a um estudo sério, e se persuadir de que, como em toda outra ciência, não se pode aprender brincando... A crença nos Espíritos, forma-lhe a base, mas não basta para fazer um espírita esclarecido, da mesma forma que a crença em Deus não basta para fazer um teólogo. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 29). (Grifo nosso).
Sabe-se, por outro lado, que o recolhimento é uma condição sem a qual não se podem ter relações com Espíritos sérios; as evocações feitas com leviandade e por gracejo são uma verdadeira profanação que abre um fácil acesso aos Espíritos zombadores e malfazejos; [...]. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 241). (Grifo nosso).
Quando dizemos para fazer a evocação em nome de Deus, entendemos que a nossa recomendação deve ser tomada a sério e não levianamente; os que nela não vêem senão uma fórmula sem conseqüência, fariam melhor abstendo-se. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 318). (Grifo nosso).
É necessário aplicar algumas disposições particulares nas evocações?
- A mais essencial de todas as disposições é o recolhimento, quando se quer ter relações com Espíritos sérios. Com a fé e o desejo do bem, se está em mais condições para evocar os Espíritos superiores. Elevando sua alma por alguns instantes de recolhimento, no momento da evocação, se identifica com os bons Espíritos e os dispõe a virem.
A fé é necessária para as evocações?
- A fé em Deus, sim; para o mais, a fé virá, se quiserdes o bem e tiverdes o desejo de vos instruir. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 329).
A evocação feita em nome de Deus é uma garantia contra a intromissão dos maus Espíritos?
- O nome de Deus não é um freio para todos os Espíritos perversos, mas os retêm muito; por esse meio afastareis sempre a alguns, e os afastareis bem mais se feita do fundo do coração e não como uma fórmula banal. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 333). (Grifo nosso).
Os Espíritos podem nos fazer conhecer o futuro?
- Se o homem conhecesse o futuro, negligenciaria o presente.
Aí está ainda um ponto sobre o qual insistis sempre em obter uma resposta precisa; é um grande erro, porque a manifestação dos Espíritos não é um meio de adivinhação. Se quereis absolutamente um resposta, ela vos será dada por um Espírito travesso: dizemos-lhes isso a cada instante. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 351).
Os Espíritos podem nos fazer conhecer nossas existências passadas?
- Deus permite, algumas vezes, que sejam reveladas, segundo o objetivo; se é para vossa edificação e vossa instrução, serão verdadeiras, e, nesse caso, a revelação é quase sempre feita espontaneamente, de modo inteiramente imprevisto; mas jamais o permite para satisfazer a uma vã curiosidade. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 353).
Podem pedir-se conselhos aos Espíritos?
- Sim, certamente; os bons Espíritos jamais recusam ajudar àqueles que os invocam com confiança, principalmente naquilo que toca à alma; mas repelem os hipócritas, os que têm o ar de pedirem a luz mas que se comprazem nas trevas”. (in: O Livro dos Médiuns, pág. 354).
Para falarmos das práticas Espíritas vamos recorrer ao folheto Espiritismo, uma nova era para a humanidade, que faz parte da campanha de divulgação do Espiritismo promovida pela Federação Espírita Brasileira e pelo Conselho Espírita Internacional, instituições que representam o Movimento Espírita, do qual transcrevemos:
PRÁTICA ESPÍRITA
· Toda a prática espírita é gratuita, como orienta o princípio moral do Evangelho: “Daí de graça o que de graça recebestes”.
· A prática espírita é realizada com simplicidade, sem nenhum culto exterior, dentro do princípio cristão de que Deus deve ser adorado em espírito e verdade.
· O Espiritismo não tem sacerdotes e não adota e nem usa em suas reuniões e em suas práticas: altares, imagens, andores, velas, procissões, sacramentos, concessões de indulgência, paramentos, bebidas alcoólicas ou alucinógenas, incenso, fumo, talismãs, amuletos, horóscopo, cartomancia, pirâmides, cristais ou quaisquer outros objetos, rituais ou forma de culto exterior.
· O Espiritismo não impõe os seus princípios. Convida os interessados com conhecê-lo a submeterem os seus ensinos ao crivo da razão, antes de aceitá-los.
· A mediunidade, que permite a comunicação dos Espíritos com os homens, é uma faculdade que muitas pessoas trazem consigo ao nascer, independentemente da religião ou da diretriz doutrinária de vida que adotem.
· Prática mediúnica espírita só é aquela que é exercida com base nos princípios da Doutrina Espírita e dentro da moral cristã.
· O Espiritismo respeita todas as religiões e doutrinas, valoriza todos os esforços para a prática do bem e trabalha pela confraternização e pela paz entre todos os povos e entre todos os homens, independentemente de sua raça, cor, nacionalidade, crença, nível cultural ou social. Reconhece, ainda, que “o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza”.
As religiões afro-brasileiras
A profissional de saúde Isabel Cristina Fonseca da Cruz, doutora em enfermagem pela USP, professora titular do Deptº de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Escola de Enfermagem da Universidade Federal Fluminense e coordenadora do NESEN – Núcleo de Estudos sobre Saúde e Etnia Negra, num trabalho para subsidiar o diagnóstico e tratamento da angústia espiritual, nos fornece as seguintes informações sobre as religiões afro-brasileiras:
Um aspecto crucial neste estudo sobre a religiosidade afro-brasileira reside no fato de compreender os cultos de origem africanas enquanto verdadeiras religiões e não como seitas. Cabe ressaltar que as religiões afro-brasileiras possuem um corpo sacerdotal, filosofia, ritos, enfim, uma estrutura que as caracterizam como instituições. Considerá-las seitas é, na realidade, uma tentativa de reduzir a sua importância e de classificar as pessoas que as praticam como um punhado de fanáticos.
A rigor, as religiões afro-brasileiras são patrimônio desta nação e compõem, particularmente, o universo cultural da raça negra brasileira que foi seqüestrada da África para a Europa e Américas e mantida nestes continentes na condição de escrava, sob tortura física e psicológica, por mais de quatrocentos anos (CONCEIÇÃO, 1993). Temos que reconhecer que um século de abolição do escravismo não é suficiente para alterar uma sólida estrutura ideológica construída para justificar a exploração e a negação das pessoas negras enquanto seres humanos auto-determinados e transcendentes. (in: As religiões afro-brasileiras: subsídios para o estudo da angústia espiritual).
As religiões afro-brasileiras que iremos abordar nesse estudo, para o que nos interessa concluir, são o Candomblé, a Umbanda e a Quimbanda.
Candomblé
A primeira referência do Candomblé no Brasil é da década de 1820 e está ligada às revoltas malês, segundo podemos ler no Dicionário Houaiss.
Encontramos, ainda dentro do trabalho de Isabel Cristina, as explicações que podem nos dar uma idéia do que seja o Candomblé. São as seguintes:
A palavra candomblé origina-se de candombe (negro, em banto) e ilê (casa, mundo, em iorubá) e significa, portanto, casa de negro. O candomblé chegou ao Brasil com os negros iorubás e jejes (fon ou mina) escravizados, que na África habitavam a região onde hoje é a Nigéria e o Benin, e com os negros bantos, da parte sul do continente (LODY, 1987).
Em razão dos diversos grupos étnicos negros, encontramos dentro do candomblé várias nações ou variantes, a saber: Angola (banto), Kêto-Nagô (iorubá), Jeje (fon), Jexá ou Ijexá (iorubá), Caboclo (afro-brasileiro), e Congo (banto) (RAMOS, 1979; LODY, 1987; LOPES et al, 1987)
No candomblé, cultua-se como ser superior Olorum (senhor do céu) ou Olodumaré (onipotente e eterno), divindade suprema que não tem representação material. Olorum criou o mundo em quatro dias, fez uma aliança com os seres humanas, representada pelo arco-íris, e se recolheu para descansar, entregando a solução dos problemas do mundo aos orixás (PORTUGAL, 1986).
A respeito de seus rituais, Rubem César Fernandes, é quem nos dá uma idéia mais clara, diz-nos ele:
A sofisticação estética dos ritos do Candomblé contribui, sem dúvida, para a atração que exerce nas pessoas em geral e, particularmente, nos meios artísticos. As cerimônias abertas de cada casa de culto têm a característica de uma "festa". As divindades que nelas se manifestam não vêm para pregar ou distribuir conselhos. Vêm expressar a sua energia vital, dançando. Fazem isto de modo solene, seguindo uma estrita lógica ritual, comandada pelo som dos atabaques e dos cantos. Vestem-se com pompa e produzem um gestual codificado, identificador de cada orixá. As festas terminam, invariavelmente, com um jantar aberto ao público, feito de comidas sagradas, relativas ao evento da noite.
As Casas de Candomblé desenvolvem uma intensa e constante atividade de manutenção das relações entre o sagrado e o profano. O espaço é cuidadosamente subdividido, com o barracão para as festas públicas, a camarinha, para os iniciados, o peji, de acesso restrito e onde ficam os objetos sagrados, as casas de cada orixá, de frequentação especificada, as plantas sagradas, a sala de recepção para os fiéis etc., compondo uma arquitetura tão complexa quanto a hierarquia do culto.
As obrigações para cada orixá, as iniciações, o atendimento individualizado do público, as adivinhações, a leitura dos búzios, uma variedade de ritos particulares, a difícil harmonização dos distintos poderes que constituem uma Casa de Candomblé, o relacionamento com a sociedade exterior, tudo isto deve ser cuidado no detalhe, segundo uma estética ritual meticulosa. A autoridade de uma Ialorixá (mãe de santo) ou de um Babalorixá (pai de santo) está vinculada, justamente, ao seu domínio sobre todas estas matérias. O conhecimento sobre como fazer, as justificativas para cada gesto nas tradições, compõem o vasto acervo simbólico personalizado na figura da mãe ou do pai de santo. (in: Candomblé).
Outra interessante informação relativa aos rituais, retiramos, novamente, do trabalho da Isabel Cristina:
A morte só se intimida com o sacrifício e este depende de se saber o que desejam os orixás, por intermédio do jogo dos búzios. Em algumas cerimônias acontece o sacrifício ritualístico de animais para oferecimento aos orixás e conseqüente acumulação de axé . A prática do sacrifício de animais costuma ser contestada pelos não adeptos. Cabe observar porém que, historicamente, o que os africanos possuíam de mais precioso para ofertar ao orixá era a sua comida da qual ele obtinha a sua força vital ou axé. Assim, nestas cerimônias algumas partes do animal sacrificado são ofertadas ao orixá e o restante do animal, transformado em comidas saborosas, é comungado entre os participantes da festa.
Umbanda
Dada à clareza do trabalho, iremos dar preferência as considerações de Isabel Cristina, a respeito da Umbanda. Diz-nos ela:
A umbanda originou-se entre a população de etnia banto (região de Angola, Moçambique e parte sul da África) que trouxe para o Brasil uma religião voltada para o culto dos ancestrais africanos e familiares que durante a sua passagem pela vida se distinguiram pela sabedoria (MAGNANI, 1986; LUZ, 1993).
Os bantos (que na língua quibundo significa humanidade) foram fixados, no Brasil, principalmente em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, nas atividades agrícolas e auríferas.
Na umbanda acredita-se na idéia de um ser superior, Zambi, que exprime a infinitude da existência. Além disso há a crença na existência interativa entre o mundo visível e o mundo invisível, na possibilidade de estabelecer por meio do rito, relações com o mundo dos invisíveis, propiciando a sua atuação no mundo dos vivos.
Cabe ressaltar que a umbanda (e o candomblé numa escala menor) fez do sincretismo a sua ponta de lança contra a discriminação religiosa, isto é, só restou ao negro, segundo LUZ (1993) africanizar o cristianismo. Adotou as imagens católicas para poder continuar cultuando as divindades banto-iorubá, porém dentro de uma dinâmica ritual que em nada se aproxima do culto católico(LUZ, 1983). Observamos, porém, que a associação entre os orixás e santos católicos não aconteceu de forma aleatória, mas a partir das referências dadas pela cosmogonia iorubá e banto.
Quanto à afiliação religiosa, os cultos umbandísticos são denominados giras , enquanto que o sacerdote ou sacerdotisa, pai ou mãe de santo. Os iniciados são conhecidos como médiuns e incorporam os espíritos dos ancestrais (eguns); ao contrário do candomblé no qual o rito de possessão significa a manifestação da divindade ou orixá no corpo de seu filho. No candomblé, os espíritos dos mortos ou eguns não possuem o corpo do fiel, ele manifestam-se na sua roupa (MAGNANI, 1986; LOPES et Al, 1987).
Completando, com Rubem César Fernandes, no que julgamos mais importante para o nosso estudo:
A mitologia umbandista tem um claro sentido hierarquizante. As entidades religiosas distribuem-se por sete "Linhas", comandadas por um orixá ou santo católico. As linhas subdividem-se em "Falanges" e "Legiões", pelas quais distribuem-se espíritos desencarnados em vários estágios de evolução. O altar principal, chamado "Congá", costuma ser enfeitado com uma grande quantidade de imagens e objetos, ilustrando a complexidade do panteon umbandista. Estes altares podem ter imagens de Cristo, o Guia do Terreiro, Nossa Senhora, santos como São Lázaro, São Jorge, Cosme e Damião, orixás, pretos velhos, caboclos, velas, colares, flores e por vezes ícones cívicos, como a bandeira nacional. A Umbanda surgiu no entre guerras, momento de forte afirmação do Estado nacional, e se assume como religião patriótica.
O culto é feito numa "Gira", composta de música e dança sagradas. Os atabaques marcam o ritmo, os médiuns cantam o "ponto" sob a liderança da Mãe ou Pai de Santo, dançam em roda, e recebem os guias espirituais, funcionando como seus "cavalos" ou "aparelhos". Além de se expressarem dançando a sua energia vital, como ocorre no Candomblé, os guias da Umbanda se apresentam para dar conselhos aos fiéis que se aproximam. Orientam os fiéis e purificam-nos através de "passes", protegendo-os dos ataques místicos de que são vítimas. (in: Umbanda).
Quimbanda
É-nos forçoso ter que recorrer mais uma vez ao trabalho de Isabel Cristina, que sobre esse assunto específico nos coloca:
Para melhor compreensão sobre o surgimento da quimbanda entre as religiões afro-brasileiras é necessário, primeiramente, conhecer um pouco da trajetória do culto de Exú, desde a África até o Brasil.
Na África, Exú está associado ao poder da fecundação e é representado por uma imagem fálica (devido ao formato da sua cabeça ser igual ao de um pênis, Exú não carrega nada sobre ela e isto lhe confere uma característica de independência). Somado a este poder, existe ainda o de ser intermediador entre os seres humanos e os orixás.
Exú é um princípio que representa e transporta o axé , participando forçosamente de tudo, assim, cada ser existente no universo (orum e aiê) tem o seu Exú, assim como no catolicismo cada um tem o seu anjo de guarda e para ele acende velas e pede proteção. Sem Exú, portanto, nada se movimenta, nada se desencadeia, nenhuma ação é concretizada (SANTOS, 1993; LUZ, 1993).
Cabe a Exú garantir o ciclo da existência, promovendo a relação sexual. Está associado à placenta responsável pelo desenvolvimento fetal. Exú é responsável pela circulação do interior do corpo, pela respiração, pela sucção, pela ingestão de alimentos e pela comunicação. Abre e fecha os caminhos e acompanha o orixá Ikú (morte).
No Brasil, o culto a Exú concentrou-se mais no seu poder de mensageiro e intermediador, tendo em vista que ao escravo africano não interessava a procriação, mas sim a proteção de seus orixás na sua luta pela liberdade. Assim, o poder de Exú cresceu de tal forma a ponto deste princípio da existência ser cultuado como uma divindade, como um orixá.
Nos cultos iorubás ele é sempre o primeiro a ser saudado e recebe parte das oferendas de qualquer ritual, permitindo assim o sucesso da liturgia. Na umbanda, as giras de Exú, de um modo geral, acontecem depois da meia-noite.
No Brasil, apenas no culto iorubá a imagem representativa de Exú permanece com sua característica fálica. Diante da repressão eclesiástica e, tendo em vista que o espaço físico de Exú são as estradas, as encruzilhadas e os portões, os negros escravizados adotaram do catolicismo a representação do diabo para, com esta imagem, temida pelos brancos, afugentar dos terreiros os senhores e neles imprimir o medo da quimbanda (feitiçaria, em banto).
A quimbanda surge como uma manifestação contrária ao embranquecimento da umbanda, caracterizado pela manutenção do sincretismo religioso e pelo discurso judaico-cristão kardecista. Mas, em decorrência da imagem sincrética e ideológica de Exú, principal divindade da quimbanda, esta religião é percebida como culto do mal, sofrendo portanto a maior carga de repressão (LUZ, 1983; MOURA, 1988).
Atribui-se aos sacerdotes e sacerdotisas desta religião a capacidade de fechar o destino das pessoas e abrí-los para atuação dos espíritos malignos. Porém, cabe ressaltar que na cosmogonia afro-brasileira os conceitos de bem e mal; certo e errado são contextuais e dinâmicos, não representando categorias prescritivas ou maniqueístas (LUZ, 1993).
É na quimbanda que as camadas mais proletarizadas encontram as condições para fechar o corpo e, assim, protegerem-se das agressões de uma sociedade excludente e violenta.
Conclusão
Por esse estudo já podemos observar que, conforme já o dissemos no início, “cada um é cada um” mesmo. As origens dessas manifestações de religiosidade em relação ao Espiritismo são completamente diferentes, os rituais da mesma forma.
Mas infelizmente apesar de toda essa diferença alguns dicionários parecem ignorar isso, dando o significado popular, ou seja, aquilo que as pessoas pensam que é. Daí podermos encontram expressões como Espiritismo de Linha, Espiritismo de mesa, e até Espiritismo Umbandista. Causando, muitas das vezes, uma enorme confusão naqueles que buscam se esclarecer sobre esse assunto usando apenas o dicionário.
Aliado a isso, também, é muito comum as pessoas abrirem terreiros de Umbanda, cuja denominação leva a expressão “Centro Espírita”, quando na verdade deveria ser “Templo” ou “Terreiro” de Umbanda.
Não podemos deixar de registrar que é fato, e não há como negar, que algumas terreiros de Umbanda acabaram por adotar alguma coisa do Espiritismo, codificado por Kardec. Assim, podemos ver em alguns desses lugares os livros que compõem as obras básicas do Espiritismo. Tudo isso é normal e natural, pois trata-se do processo de evolução de cada um, e até mesmo poderemos dizer que é uma recomendação bíblica: “Examinai tudo, retende o que é bom”.
O que existe de comum em todas elas são as manifestações dos espíritos, embora cada uma se comporte particularmente diferente quanto a esse aspecto fundamental. É bem provável que todas também acreditam na reencarnação. Mas isso não é o bastante para que possamos dizer que todas sejam iguais. Não cansamos de afirmar que apesar todas as aves botarem ovos, não podemos cair no ridículo de afirmar que todos os seres que botam ovos são aves, pois estaríamos incluindo nesse meio as tartarugas, os jacarés, os crocodilos, e até mesmos os dinossauros, apesar de extintos, poderiam ser aí incluídos.
Da mesma forma podemos dizer para as pessoas que colocam todas essas expressões de religiosidade no mesmo balaio, como se todas praticassem as mesmas coisas: façam-nos o favor, e a vocês mesmos para não continuarem com esse comportamento ridículo, não nos misturem. A nós cabe o respeito a todas elas, pois é o mínimo que devemos fazer, já que, por nossa vez, queremos ser respeitados, mas não somos iguais nem em origem e nem em práticas.
Em fevereiro de 1869, Kardec falando dos dez anos de uma agressão obstinada, que nos dias de hoje completa cerca de um século e meio, sofrida pelo Espiritismo, nos passa a seguinte orientação:
O Espiritismo entra numa fase solene, mas onde terá ainda grande lutas a sustentar; é preciso, pois, que ele seja forte por si mesmo, e, para ser forte, é preciso que seja respeitável. Cabe aos seus adeptos devotados fazê-lo respeitar, primeiro empregando eles mesmos por palavras e por exemplos, e, em seguida, em desaprovando, em nome da doutrina, tudo o que poderia prejudicá-la à consideração da qual deve estar cercada. É assim que poderá desafiar as intrigas, a zombaria e o ridículo. (Revista Espírita, 1869, pág. 44).
Esse é o resultado que esperamos com o presente estudo.
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Out/2003.
Referências Bibliográficas:
CRUZ, Isabel Cristina Fonseca da, As Religiões afro-brasileiras: subsídios para o Estudo da Angústia Espiritual, disponível na Internet através do site: www.uff.br/nepae/reliafro.doc
FERNANDES, Rubem César, Candomblé, disponível na Internet através do site:
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