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Quando mal interpretado e fora de contexto, causa estranheza no leitor, e é alvo de polêmica, a conclusão de Allan Kardec apresentada no artigo Frenologia Espiritualista e Espírita - Perfectibilidade
da Raça Negra, publicado na Revista Espírita, de abril de 1862, e citada numa nota em A Gênese. No tempo de Kardec todos acreditavam que os negros formavam uma raça inferior à raça caucasiana, ou branca, o que explica a frase de Kardec, que parece ferir a lei de igualdade: "Eis por que a raça negra, enquanto raça negra, corporeamente
falando, jamais alcançará o nível das raças caucasianas". Era uma questão não só cultural mas tinha também o respaldo da ciência daquela época, que observava o estado primitivo dos povos africanos e escravizados nas Américas. As conseqüências da crença nas diferenças raciais levavam inevitavelmente à discriminação, divisão de classes e exploração do homem pelo homem. Allan Kardec, pesquisando o elemento espiritual, sabia estar nele a chave da questão. Todos somos iguais, e evoluímos até nos tornarmos espíritos puros.
O propósito do artigo de Kardec era esclarecer os conceitos espíritas a partir da realidade científica e cultural de sua época. Passados 130 anos, a desigualdade entre as raças é um conceito totalmente superado. A diferença genética entre dois negros normalmente é maior do que a existente entre um branco e um negro. No passado, a conseqüência da explicação materialista sobre as distinções raciais foi a eugenia (ver quadro na pág. 34), base científica utilizada pelos nazistas para justificar o holocausto. Além disso, a perfeição da humanidade está fora das previsões da genética, antropologia, e outros ramos da ciência, enquanto materialistas. As pesquisas genéticas, inclusive, estão reascendendo as idéias eugênicas. O artigo de Kardec combate exatamente as terríveis conseqüências da análise materialista da diversidade humana. Afastando o erro científico utilizado pelo Codificador - que justifica a diferença entre os corpos do negro e do branco - e todas as deduções derivadas dele, o artigo é não só avançado para sua época, como é a única resposta para implantar no mundo a verdadeira igualdade.
O propósito do texto era resolver a seguinte questão: "A raça negra é perfectível [ver quadro na pág. 32]? Segundo algumas pessoas, esta questão está julgada e resolvida negativamente. Se assim é, e se essa raça está votada por Deus a uma eterna inferioridade, a conseqüência é que é inútil se preocupar com ela, e que é preciso se limitar a fazer do negro uma espécie de animal doméstico adestrado para a cultura do açúcar e do algodão". Depois de desenvolver o tema, Kardec concluiu: "Sob o mesmo envoltório, quer dizer, com os mesmos instrumentos de manifestação do pensamento, as raças não são perfectíveis senão em limites estreitos, pelas razões que desenvolvemos. Eis por que a raça negra, enquanto raça negra, corporeamente
falando, jamais alcançará o nível das raças caucasianas; mas, enquanto Espíritos é outra coisa; ela pode se tornar, e se tornará, o que somos; somente ser-lhe-á preciso tempo e
melhores instrumentos".
Nesta matéria vamos provar que o Espiritismo é a única chave possível para convencer a humanidade a definitivamente abandonar os preconceitos. Mas antes disso precisamos resolver a contradição entre essa missão providencial do Espiritismo e as diferenças entre a raça negra e a caucasiana citada por Kardec em seu artigo. Não é possível desatar essa aparente contradição sem antes definir as características especiais da ciência espírita, o contexto da época em que ela foi escrita, e também as teorias consideradas como premissas por Kardec para elaboração do artigo Perfectibilidade
da Raça Negra; tarefa a qual nos dedicaremos a seguir.
Revista Espírita: um laboratório
Para analisar o papel da raça negra no desenvolvimento da humanidade, Kardec fez uso tanto dos conceitos doutrinários espíritas e também, no que toca aos aspectos humanos, das teorias científicas disponíveis em sua época, escolhidas por ele dentre as que considerou mais aceitáveis por sua razão e bom senso. Nos livros da Codificação, mas principalmente na Revista Espírita, é preciso distinguir o que são apenas opiniões pessoais das questões qualificadas como conceitos doutrinários estabelecidos.
Enquanto as ciências exploram os fenômenos respeitando os limites da matéria; o Espiritismo vem completá-las pela observação do elemento espiritual - fazendo uso de métodos apropriados, como a mediunidade. É assim que Ciência e Espiritismo se completam. A Ciência, propriamente dita, não tem como dar palpites nos temas exclusivamente de origem espiritual, e, por outro lado, no que tange aos fenômenos materiais, o Espiritismo acompanha a ciência quando surgem novas descobertas, correções ou quando hipóteses são superadas.
É fundamental atentar para as diferentes funções dos Espíritos e dos homens na elaboração da Doutrina Espírita. Esse é o nó da questão. É de responsabilidade humana a elaboração científica das teorias em seu campo de observação material, porém, a iniciativa da edificação do Espiritismo pertence aos Espíritos, e é o resultado dos ensinamentos coletivos e em concordância entre eles. Kardec esclareceu em A Gênese: "Somente sob tal condição se lhe pode chamar doutrina dos Espíritos. De outra forma, não seria mais do que a doutrina de um espírito e apenas teria o valor de uma opinião pessoal".
Existem verdades que os homens não estão preparados para compreender. Esses limites de aceitação e entendimento não são ultrapassados pelos bons Espíritos. Eles são cautelosos e previdentes. Em comunicação, transcrita em O Livro dos Médiuns, o Espírito de Verdade explicou: "Cumpre que se tenha em conta a prudência de que, em geral, os Espíritos usam na promulgação da verdade: uma luz muito viva e muito súbita ofusca, não esclarece. Podem eles, pois, em certos casos, julgar conveniente não espalhar a verdade senão gradativamente, de acordo com os tempos, os lugares e as pessoas".
No que tange à participação dos homens, no entanto, Kardec deixa tudo no campo das hipóteses, passiveis de reformulação quando superadas pelas novas descobertas científicas. No livro A Gênese, ele deu a mais exata explicação dessa questão, afirmando que esta obra é um complemento da Doutrina Espírita, "com exceção de algumas teorias ainda hipotéticas, que tivemos o cuidado de indicar como tais e que devem ser consideradas simples opiniões pessoais, enquanto não forem confirmadas ou contraditadas, a fim de que não pese sobre a doutrina a responsabilidade delas. Aliás, os leitores assíduos da Revista Espírita hão tido ensejo de notar, sem dúvida, em forma de esboços, a maioria das idéias desenvolvidas aqui nesta obra [A Gênese], conforme o fizemos, com relação às anteriores. A Revista Espírita, muitas vezes, representa para nós um terreno de ensaio, destinado a sondar a opinião dos homens e dos Espíritos sobre alguns princípios, antes de admiti-los como partes constitutivas da doutrina".
Os ensinamentos dos Espíritos, respeitando a universalidade e concordância entre eles, e após o exame da razão, constituem a Doutrina Espírita. Até então, sejam as idéias de origem humana ou espiritual, elas permanecem no campo das hipóteses e opiniões pessoais.
A divisão racial da humanidade
Até fins do século 18, a única explicação para o surgimento das espécies era a da criação, instantânea, por Deus de dois exemplares de cada espécie. Essa hipótese era monogenista. "A visão monogenista, dominante até meados do século 19, congregou a maior parte dos pensadores que, conformes às escrituras bíblicas, acreditavam que a humanidade era una", explica a professora de antropologia Lilia Schwarcz,
em O Espetáculo das Raças.
Para os monogenistas, a diferença entre os homens estava numa escala entre a perfeição do Éden e a degeneração. Povos primitivos seriam, de acordo com essa hipótese, povos decaídos e corrompidos, e o continente africano seria o maior exemplo dessa idéia. Alguns acreditavam que os negros teriam sido uma raça inferior criada por Deus e destinada eternamente aos trabalhos braçais. Essa explicação servia como uma luva para atender aos interesses dos países escravocratas e seu perverso comércio. Numa tentativa de tornar a escravidão aceitável socialmente, a ideologia religiosa chegou a negar o caráter humano do escravizado dizendo que o negro não tem alma.
No século 19, em vista da crescente sofisticação das ciências biológicas e sobretudo diante da contestação ao dogma monogenista da Igreja, surgiu outra interpretação, que se tornou dominante, a poligenista.
Para os pesquisadores poligenistas,
as raças tomaram caminhos evolutivos diversos por terem surgido em diferentes centros. De acordo com essa hipótese, essa teria sido a origem |